Nebraska
Have a drink with your old man. Be somebody!

Direção: Alexander Payne
Roteiro: Bob Nelson
Elenco: Will Forte, Bruce Dern, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Mary Louise Wilson, Rance Howard, Tim Driscoll, Devin Ratray, Angela McEwan, Glendora Stitt, Elizabeth Moore, Kevin Kunkel, Dennis McCoig
EUA, 2013, Drama, 115 minutos
Sinopse: Woody Grant (Bruce Dern) é um homem idoso que acredita ter ganho US$ 1 milhão após receber pelo correio uma propaganda. Decidido a retirar o prêmio, ele resolve ir a pé até a distante cidade de Lincoln, em Nebraska. Percebendo que a teimosia do pai o fará viajar de qualquer jeito, seu filho David (Will Forte) resolve levá-lo de carro. Só que no caminho Woody sofre um acidente e bate com a cabeça, precisando descansar. David decide mudar um pouco os planos, passando o fim de semana na casa de um de seus tios antes de partir para Lincoln. Só que Woody conta a todos sobre a possibilidade de se tornar um milionário, despertando a cobiça não só da família como também de parte dos habitantes da cidade. (Adoro Cinema)

Alexander Payne é um mestre em premissas que muitos definem como “convencionais”. Só que, na verdade, como bem apontou a jornalista Isabela Boscov, ele ainda é um dos poucos cineastas que contam histórias que ninguém mais quer contar. Na busca pelo novo e pelo extraordinário, o cinema tem se esquecido de valorizar as pequenas coisas da vida, como o próprio Payne já celebrou em vários trabalhos de sua filmografia. O cotidiano escolar e competitivo em Eleição e a confusa solidão de um senhor recentemente aposentado e viúvo em As Confissões de Schmidt, por exemplo, colocaram o diretor como uma referência em histórias sobre pessoas como eu e você. Histórias essas que Payne sempre contou com inteligência, melancolia e inúmeras reflexões.
De uns tempos para cá, contudo, o diretor vinha em uma acentuada escala de retrocesso. Desde As Confissões de Schmidt – sua obra mais interessante -, a banalização apontada pelos detratores de fato passou a tomar conta também das próprias escolhas narrativas e estéticas do diretor. E, curiosamente, foi justamente a partir de trabalhos convencionais inclusive em texto que ele passou a ser celebrado pelas premiações. Não sou fã de Sideways por motivos particulares, mas o ápice do adestramento de Payne foi mesmo com Os Descendentes, que funcionava única e exclusivamente em função de George Clooney e Shailene Woodley. Assim, nenhuma novidade ter preguiça com Nebraska, o mais recente trabalho de Payne. O que eu não esperava, no entanto, era ser completamente surpreendido pelo longa, que é simplesmente o melhor do diretor em anos.
Alexander Payne voltou a ser Alexander Payne nesse filme estrelado por Will Forte e Bruce Dern. Sua capacidade de explorar o que existe de mais sutil e fascinante em personagens da vida real está de volta aqui. O preto-e-branco faz todo o sentido para ilustrar essa história que deve ter o maior elenco idoso que o cinema já viu – o que é especialmente interessante, visto que o verdadeiro protagonista da história é um adulto de meia-idade inserido neste meio. É por meio do convívio com familiares e de uma viagem em especial que realiza com o pai que David (Forte) passa a construir não apenas a distante identidade de um pai que parece viver em uma outra órbita, mas a dele próprio, que vem de um relacionamento fracassado e de uma vida que parece não lhe inspirar muita felicidade em tempos que o irmão jornalista foi promovido com sucesso na TV.
A viagem de David com Woody (Dern) é, de certa forma, uma fuga para o primeiro, que alega pegar a estrada apenas para não destruir de imediato os sonhos loucos do pai, que acha que virou milionário e precisa viajar para buscar o prêmio. David diz que deseja apenas manter um pouco mais a fantasia do patriarca, que, já bastante idoso, sabe-se lá quanto tempo ainda tem de vida. Só que existem muitas outras pautas em Nebraska que estão sutilmente escondidas no roteiro original de Bob Nelson. São fascinantes as pinceladas que o texto dá para formar a figura do pai vivido por Dern. Enquanto uma mulher previamente apaixonada por Woody diz que ele era encantador na juventude, os amigos dizem que ele tinha irremediáveis problemas com bebida. Ao passo que a mãe reclamona alega que o grande erro da vida de Woody foi acreditar demais nas pessoas, na sequência ela já revela um passado conturbado dele: quando criança, viu o irmão morrer no quarto em que ambos dividiam.
É uma jogada muito esperta a de Payne e Nelson de colocar toda a figura de Woody na boca dos outros personagens. Não é um caminho fácil, mas a dupla foi muito bem sucedida, já que também acerta ao apresentá-lo como um pai que parece preferir a vida em uma outra dimensão para não ter que lidar com uma esposa praticamente insuportável, uma família distante e uma vida mediana e vazia. “Se ele realmente estiver milionário, vou usar o dinheiro para colocá-lo em um asilo!”, diz a matriarca. E é exatamente disso que Woody quer escapar ao viver em sua própria bolha: de uma árvore genealógica cuja dinâmica é cercada de críticas, acidez e impaciência – mesmo que ele próprio tenha absorvido e reproduzido muito desses comportamentos.
Nebraska é um road movie, um olhar crítico e rabugento da terceira idade, um relato sobre comunicação entre gerações e um belo estudo sobre como pais influenciam filhos e vice-versa. Tudo com a devida calma e sutileza, trazendo aquela sensação tão frequentemente errada de que nada está acontecendo. Existe muito de As Confissões de Schmidt aqui: a terceira idade, o mau humor, a humanidade dessa última fase da vida e o retorno às origens em uma viagem interior. Porém, por mais melancólico que o filme seja em diversas partes (e o excelente desempenho de Bruce Fern é a grande força desse triste sentimento que o filme passa), ele também é muito bem resolvido em seu humor. Da comédia mais genuína a questões familiares super delicadas, Nebraska cria, portanto, um núcleo familiar fantástico, onde até os extremos mais previsíveis funcionam (o filho bem sucedido mas distante, o filho próximo mas praticamente fracassado, etc).
Em suma, não espere uma produção de grandes momentos, reviravoltas reveladoras ou afins. Alexander Payne não é disso. Nunca foi. E é admirável como mesmo narrando situações tão cotidianas ele consiga um excelente ritmo, tornando Nebraska um longa de humor vívido, de dramas discretíssimos, de memórias dolorosas e de projeções esperançosas. É o filme do Oscar 2014 que ninguém vai ver (totalizou seis indicações e não levou nenhuma), que poucos vão sequer saber da existência ou muito menos amar. Mas realmente é uma pena que seja assim, pois é um dos grandes momentos da carreira de Payne e certamente uma das melhores experiências desse início de ano.
Ela
The past is just a story we tell ourselves.

Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson (voz), Amy Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Letscher, Artt Butler (voz), May Lindstrom, Bill Hader (voz), Spike Jonze (voz), Brian Johnson, Luka Jones, Brian Cox (voz)
Her, EUA, 2013, Drama, 126 minutos
Sinopse: Theodore (Joaquin Phoenix) é um escritor solitário, que acaba de comprar um novo sistema operacional para seu computador. Para a sua surpresa, ele acaba se apaixonando pela voz deste programa informático, dando início a uma relação amorosa entre ambos. Esta história de amor incomum explora a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia. (Adoro Cinema)

Amar é realmente algo complicado. O quarteto britânico Keane diz, na canção Spiralling, que, quando nos apaixonamos, estamos, na realidade, nos apaixonando por nós mesmos. Isso tem um fundo de verdade: quando entramos em uma relação, queremos alguém capaz de suprir as nossas necessidades, as nossas angústias e a nossa vontade de escapar da solidão. Sim, de certa forma, realmente nos apaixonamos por nós mesmos. Por isso, não dá para julgar, de forma alguma, o fato de Theodore (Joaquin Phoenix), o protagonista de Ela, apaixonar-se por Samantha (voz de Scarlett Johansson), um sistema operacional de computador que tem inteligência e responde a exatamente tudo que o protagonista precisa. Se ele se sente só, lá está ela para confortá-la. Se ele precisa trocar juras de amor, ela também se mostra disponível a isso. Mas seria fácil definir Ela como uma história sobre a solidão em tempos virtuais. Seria fácil se esse não fosse um filme de Spike Jonze, diretor que está muito mais preocupado com as questões íntimas de seu protagonista do que com o contexto em que elas acontecem.
De certa forma, é surpreendente que um filme como Ela leve a assinatura de Spike Jonze. Conhecido por sua inegável inventividade, ele nunca foi um diretor intimista. Suas originalidades, inclusive, ganhavam contornos especificamente excêntricos em longas como Quero Ser John Malkovich e Adaptação, que estavam bem longe de ser atraentes para um público maior. Se a princípio poderia ser estranha a ideia de Jonze contar uma história melancólica como a de Ela, não demora muito para o espectador perceber que ele tem sim tino para tal investida. Algumas de suas particularidades estão ali (percebam o curioso contraste entre o design de produção quase futurístico e os figurinos antiquados e formais do protagonista), mas é de fato algo novo para o diretor, agora mais focado nas questões do coração e da vida. Em tese, a proposta não deixa de ser atípica, mas nada em Ela puxa para esse lado. Tanto que o fato de Theodore estar apaixonado pela tal voz de computador é encarado de forma natural por todos, que também parecem partilhar da mesma solidão e necessidade de ter alguém (ou algo?) incondicionalmente presente.
Não se engane, entretanto, ao pensar que Ela negligencia a realidade. Ali está Catherine (Rooney Mara), ex-eposa de Theodore, para também mostrar o outro lado da moeda e dizer que é uma completa loucura essa paixão por algo virtual. E ela faz tal acusação não criticando o programa virtual, mas ressaltando a ideia de que a questão é o próprio protagonista, que se entrega à Samantha porque simplesmente não consegue lidar com os percalços de um relacionamento real. Para Catherine, ele quer a perfeição que não conseguiu encontrar em uma relação com ela – e que, obviamente, não encontrará em um relacionamento com qualquer pessoa de carne e osso. Por isso, Ela ganha o espectador como o retrato atemporal de uma busca que, conscientemente ou não, todos nós fazemos. Ainda é fácil se conectar com Theodore, seja pela sua incapacidade de seguir em frente após um doloroso divórcio ou por sua espera por alguma novidade na vida. E, quando ele diz que já sentiu todo o que tinha para sentir e que tudo a partir de agora será apenas uma variação inferior de antigos sentimentos, Ela também se torna ainda mais melancólico no (quase) monólogo que proporciona ao seu personagem.
Repleto de citações marcantes (“O passado é apenas uma história que contamos para nós mesmos”, “O amor é a única insanidade socialmente aceita”), o longa de Jonze acerta na reflexão das relações, seja com alguém ou com nós mesmos. Dando rosto ao melancólico Theodore está Joaquin Phoenix, um ator que mostra que, em tempos que parece cada vez mais frequente a perda de grandes gênios do cinema (Philip Seymour Hoffman, por exemplo, com quem o próprio Phoenix atuou brilhantemente no recente O Mestre), ainda temos novos atores que estão aí para marcar época. Sua transformação é novamente impressionante: nada nesse desempenho se repete e a sua imagem de sujeito difícil da vida real não tem qualquer influência aqui. O papel é praticamente solo, o que é um desafio e um presente que Phoenix abraça sem medo. Certamente um desempenho menor, mas tão minucioso quanto vários outros da carreira do ator.
Ampliando a abrangência da melancolia de Ela ainda temos a imersiva e espetacular trilha da banda canadense Arcade Fire, que realiza um trabalho inovador e até mesmo atípico para sua carreira. É uma nova prova de que bandas deveriam participar mais do mundo do cinema (lembram dos acertos de Daft Punk em Tron – O Legado e de M83 em Oblivion?). O ritmo do filme não é dos mais interessantes e talvez a guinada final da trama seja um tanto abrupta só para colocar um ponto final nos conflitos, só que Ela tem o golpe baixo de acabar justamente em um momento fantástico e tocante, o que minimiza qualquer depreciação que poderia se ter com o resultado. Saímos do cinema um tanto arrasados, mas também esperançosos com a vida e com a possibilidade de que, ao contrário do que aponta o protagonista, existem sim novos sentimentos e acontecimentos pela frente. Cabe a nós torná-los uma realidade.
Oscar 2014 – Filme

Desde 1999, quando Shakespeare Apaixonado faturou o Oscar de melhor filme, um vencedor desta categoria não sai da festa com pelo menos um prêmio de roteiro, montagem ou direção. Por isso é no mínimo estranho toda a certeza para a vitória de 12 Anos de Escravidão, uma vez que ele só é franco favorito na categoria principal. Shakespeare Apaixonado, por exemplo, tinha a seu favor a badalação de Gwyneth Paltrow e Judi Dench. Mas nem isso o filme de Steve McQueen tem, uma vez que Lupita Nyong’o disputa até o último minuto a categoria de melhor atriz coadjuvante com Jennifer Lawrence.
Porém, se existe algo que aprendi com o Oscar é não brigar com a matemática. Até porque ano passado a cerimônia quebrou vários jejuns, inclusive o de consagrar Argo em melhor filme mesmo sem indicá-lo em direção (o que não acontecia desde os anos 1980, quando Conduzindo Miss Daisy passou pela mesma situação). No fundo, acho que deve dar Gravidade, que indiscutivelmente será o maior vencedor da noite em número de estatuetas (direção, trilha, fotografia, edição de som, mixagem de som, etc), mas vou pelo mais óbvio, já que essa foi a lógica que passou a reinar na cerimônia desde que todos rejeitaram largamente a surpresa de Crash – No Limite como melhor filme.
Por incrível que pareça, este é um ano quase impossível de apontar graves injustiças na categoria principal. Desde que a seleção passou de cinco para até dez filmes, o Oscar só amargou listas fraquíssimas e que davam títulos de “indicado ao Oscar de melhor filme” para longas que não chegavam nem perto de merecê-lo. Não em 2014. Claro que Trapaça, por exemplo, está erroneamente indicado em função do buzz descontrolado que David O. Rusell acumulou nos últimos anos, mas, no geral, todos os exemplares possuem suas singularidades. Assim como em outras categorias, se alguém ficou de fora, não foi por injustiça, mas sim sim por falta de espaço mesmo. Que continue assim nos próximos anos!
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12 ANOS DE ESCRAVIDÃO: Entendo perfeitamente a comoção e o envolvimento com esse drama de Steve McQueen, mas não fui um dos surpreendidos. O elenco faz um excelente trabalho (Chiwetel Ejiofor, especialmente), o diretor traz a escravidão por meio de um ponto de vista diferenciado e a narrativa do filme está longe de ser a que estamos acostumados a ver em filmes do gênero. Só que 12 Anos de Escravidão me conquistou muito mais pelo valor social e humano do que por seu resultado cinematográfico. Estranhamente, como já mencionado, ganhou todos os prêmios de melhor filme da temporada mesmo sem levar qualquer outra estatueta de roteiro, direção ou montagem. Vamos ver no que vai dar…
CAPITÃO PHILLIPS: Paul Greengrass é o diretor que não estoura nas bilheterias mas é o que todos copiam infinitamente. As razões de seu estilo reverberar em tantas outras cópias inferiores estão em Capitão Phillips, um filme que mostra sua habilidade de trazer tensão com puro realismo, sem apelar para artifícios duvidosos ou mirabolantes. A história vai amortecendo sua constante agonia depois da metade, mas os desempenhos de Tom Hanks (com pelo menos duas cenas marcantes) e Barkhad Abdi, bem como o trabalho de Greengrass com o sempre ótimo montador Christopher Rouse, nunca deixam o filme perder o fôlego por completo. No ano que David O. Ruell não deveria – novamente – estar concorrendo, Greengrass poderia ter ficado com a vaga.
CLUBE DE COMPRAS DALLAS: Está aqui pela força dos atores e pela relevância do tema mais do que por qualquer outro mérito. Gosto da forma como o filme de Jean-Marc Vallée lida com a questão da AIDS sem estereótipos ou melodramas, mas a história é um tanto mal resolvida em seu foco: percebam como até a metade é sobre a autoaceitação de Ron (Matthew McCounaghey) para depois se tornar quase que exclusivamente um estudo formal sobre as pesquisas da AIDS nos anos 1980. Junto com Trapaça, é um dos longas que menos merecia estar aqui. Só que repetindo: foram os atores que trouxeram Clube de Compras Dallas a esse patamar – o que torna sua presença aqui nada surpreendente.
ELA: É o filme que corre por fora – até mais que Clube de Compras Dallas -, e manteve esse mesmo título durante toda a temporada de premiações. Mesmo que favorito ao Oscar de roteiro original, não tem qualquer outra chance nas demais categorias. É a primeira grande celebração para um filme de Spike Jonze, que realizou, em Ela, o seu trabalho mais melancólico e intimista. Não seria o caso de ser um longa indicado caso existissem apenas cinco concorrentes como antigamente, mas certamente merecia figurar em outras categorias – como ator, por exemplo, onde Joaquin Phoenix deveria ser lembrado em função de mais um desempenho super especial.
GRAVIDADE: Mais do que um filme espetacular, Gravidade deixa um enorme legado. Não só em termos de histórias passadas no espaço (câmera sem eixo, atenção aos detalhes científicos, etc), mas no que se refere a como a tecnologia pode estar a favor de uma história e de uma escala de emoções – não servindo apenas como pretexto para explosões e suspense. Chega a ser emocionante ver a perfeição técnica, as inventividades da direção de Alfonso Cuarón e a própria performance de Sandra Bullock (cada vez mais decidida a mostrar o quão prematuro foi seu Oscar por Um Sonho Possível). É o filme de maior aceitação entre os indicados – e também o de maior bilheteria -, o que pode merecidamente pesar a seu favor.
O LOBO DE WALL STREET: Era esperado que O Lobo de Wall Street fosse ignorado pelos votantes devido a uma forte campanha contra o filme, que foi acusado de ser uma celebração à imoralidade. Quanta bobagem! Sorte que o Oscar não comprou essa ideia maluca e abraçou o filme, que é o melhor Scorsese em anos. Todo o seu estilo está aqui, em uma história de corrompimento humano que também traz Leonardo DiCaprio em um grande momento. Pelo menos para mim, as três horas de duração não foram um problema significativo e o resultado ficou bem acima de qualquer preguiça que elas poderiam indicar. O Lobo de Wall Street é, no entanto,um filme dessa principal seleção que sairá da festa de mãos abanando.
NEBRASKA: É o menos badalado entre os nove indicados, tanto em termos de repercussão de público e crítica quanto em número de prêmios. Nebraska está destinado a sair do Oscar 2014 sem um Oscar sequer. E pior: também deve ser aquele longa que todos deixarão para ver por último – se assistirem, claro. O que é de se lamentar, já que é o melhor trabalho de Alexander Payne em anos. Minucioso e magnífico ao contar momentos da vida de pessoas como todos nós, Nebraska é uma aula de sutilezas. Um pequeno grande filme que merecia muito ter uma visibilidade mais ampla.
PHILOMENA: É o pequeno filme que conseguiu estar entre os grandes quando isso não era necessariamente esperado em função de seu perfil. Philomena sofre preconceitos em função de sua história singela, de sua discrição e da sua lógica de que histórias não precisam de grandes acontecimentos para conquistar. É o típico caso “não acontece nada nesse filme” ou “não é nada demais”. Que bom que os votantes não caíram nessa incompreensão e celebraram devidamente o longa de Stephen Frears. Uma história minuciosa e muito feliz ao construir a personalidade de sua protagonista, com muitas surpresas e também um refinado andamento a uma trama que tinha tudo para ser novelesca.
TRAPAÇA: São dez indicações ao Oscar 2014, mas isso não quer dizer muito, já que metade é bastante discutível. Ainda me incomodo com o fato de Trapaça plagiar tantos diretores e filmes, o que tira por completo qualquer boa vontade que eu poderia ter com David O. Rusell – que ainda não me convenceu depois de tantas celebrações. Nesse filme, particularmente, ele está pouco inspirado apesar das tentativas, e – mais uma vez – é o elenco que consegue ser o ponto alto do resultado, assim como os figurinos (que podem surpreender na premiação). De resto, nada de muito especial ou digno de aplausos. Certamente, o pior longa da ótima seleção.
Oscar 2014 – Ator Coadjuvante

Não é um grande ano para os atores coadjuvantes e muito menos misterioso em relação ao futuro vencedor. A lógica é bastante clara: Jared Leto será o vitorioso por Clube de Compras Dallas. Quem diria que Leto, que não atuava desde 2009 (quando fez o magnífico Sr. Ninguém), seria o grande nome de uma temporada de premiações? A resposta é simples: transformação. Se Felicity Huffman não teve chances com o estereótipo de moça-de-comédias-populares-que-aprendeu-a-atuar de Reese Witherspoon, Leto levou a melhor este ano, onde a concorrência é praticamente inexistente. Se fosse para citar um azarão, esse seria Barkhad Abdi, por Capitão Phillips. Mas é certo, coloque no bolão: Leto é a aposta certa.
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BARKHAD ABDI (Capitão Phillips): Mais uma discussão pertinente sobre o papel de um dos candidatos cabe aqui (como Julia Roberts, em Álbum de Família). Seria Barkhad Abdi protagonista ou coadjuvante em Capitão Phillips? Difícil dizer. Mas não acho sua classificação como coadjuvante um total absurdo. No seu trabalho de estreia no cinema, Abdi se saiu maravilhosamente bem como o pirata somali que lidera o sequestro do navio de Phillips (Tom Hanks). Sem nunca vilanizar por completo uma figura que poderia cair nessa armadilha, o estreante é o azarão que pode surpreender (levou o BAFTA com Jared Leto fora da disputa).
BRADLEY COOPER (Trapaça): Das quatro indicações que Trapaça recebeu para seus atores, essa é, sem dúvida, a mais questionável. Se ano passado Bradley Cooper de fato mereceu concorrer em um ano incrível para os atores, agora ele já não deveria estar nem nessa categoria relativamente mediana. Sua interpretação é a mais sem variações do filme de David O. Rusell. Enquanto os outros atores exploram talentos ou diversões de diferentes maneiras, Cooper surge acomodado e repetitivo em seu papel. Dos cinco concorrentes, o menos interessante.
JARED LETO (Clube de Compras Dallas): É válida a dúvida sobre a verdadeira razão de Jared Leto roubar todos os holofotes quando entra em cena em Clube de Compras Dallas. É uma mera transformação impressionante ou realmente um desempenho repleto de criações? De fato ele está nessa linha tênue, mas certamente venceu todos os prêmios da temporada (menos o BAFTA, onde não concorria) por essa sua capacidade de se destacar em cada minuto do filme. É fácil simpatizar e torcer para que logo venha mais um momento do travesti Rayon graças ao que Leto realiza – independente do peso da ajuda de seu maquiador e hairstylist.
JONAH HILL (O Lobo de Wall Street): É a segunda indicação ao Oscar de Jonah Hill que não é necessariamente merecedora de estar entre as finalistas. Só que nesse ano tão fraco para os coadjuvantes nem dá para reclamar muito de sua presença aqui. Por mais que ele não traga qualquer novidade em O Lobo de Wall Street, é um bom suporte para a história e alcança um resultado digno ao lado de Leonardo DiCaprio. Ainda espero, no entanto, o dia em que ele seja lembrado por algo surpreendente, e não por sobra de espaço ou situações inexplicáveis (por que concorreu por O Homem Que Mudou o Jogo mesmo?).
MICHAEL FASSBENDER (12 Anos de Escravidão): Muitos já reivindicavam uma indicação para Michael Fassbender por Shame, mas só agora ele conseguiu chegar entre os finalistas. Lembrança bastante justa a um desempenho forte e que se beneficia de um papel impressivo. Fassbender assumiu publicamente que não faria campanha e, mesmo que fizesse, seria difícil ele bater Jared Leto – em papel muito mais atraente para os votantes – na competição deste ano. De qualquer forma, é uma justa menção ao nome deste ator em ascensão que, um dia, certamente terá a estatueta em casa.
O ESQUECIDO
Daniel Brühl por Rush? Por mais que o desempenho dele seja ótimo no filme de Ron Howard, considerá-lo coadjuvante é o mesmo que dizer que Ethan Hawke também é coadjuvante em Antes da Meia-Noite. Por isso, fico mesmo com Jake Gyllenhaal, em Os Suspeitos, o melhor filme mais subestimado nessa temporada de premiações. Nesse suspense exemplar, Gyllenhaal é certeiro como um policial cheio de tiques que precisa desvendar um desaparecimento.
Clube de Compras Dallas
Welcome to the Dallas Buyers Club!

Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Craig Borten e Melisa Wallack
Elenco: Matthew McCounaghey, Jared Leto, Jennifer Garner, Denis O’Hare, Steve Zahn, Michael O’Neill, Dallas Roberts, Griffin Dunne, Kevin Rankin, Donna Duplantier, Deneen Tyler, Ian Casselberry, Noelle Wilcox
Dallas Buyers Club, EUA, 2013, Drama, 117 minutos
Sinopse: Em 1986, o eletricista texano Ron Woodroof (Matthew McConaughey) é diagnosticado com AIDS e logo começa uma batalha contra a indústria farmacêutica. Procurando tratamentos alternativos, ele passa a contrabandear drogas ilegais do México. (Adoro Cinema)

Clube de Compras Dallas é um filme dominado por dois atores. E isso significa muito, para o bem e para o mal. Dirigido pelo canadense Jean-Marc Vallée (do celebrado C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor e de A Jovem Ranha Vitória), a produção encabeçada por Matthew McCounaghey e Jared Leto dá total espaço para os dois brilharem, mas também volta e meia se esquece de ter cuidados maiores no roteiro para que Clube de Compras Dallas seja tão significativo quanto os seus intérpretes e a essência de suas mensagens.
É especialmente interessante a premissa principal do longa, que já começa se diferenciando por fazer um retrato da AIDS não com um protagonista gay, mas sim com um eletricista machão e preconceituoso que acha que a doença é exclusiva aos homossexuais. Quando é diagnosticado, não acredita no veredito: pragueja os médicos, questiona o resultado e diz que não precisa se tratar, mesmo com uma saúde visivelmente debilitada. Mas o tempo mostra para Ron Woodroof (McCounaghey) a sua verdadeira condição – o que faz com que ele reavalie a situação.
Depois de perder os amigos e se ver completamente desesperado em uma época que testes de remédios para a doença traziam mais efeitos colaterais do que melhorias, ele resolve seguir um caminho próprio, contrabandeando drogas mais efetivas do México e trabalhando conjuntamente com o travesti Rayon (Jared Leto). É essa jornada que fará com que Ron se torne um homem inteiramente novo, desprovido de preconceitos e, se possível, mais apegado às pequenas coisas da vida. A novidade é que Clube de Compras Dallas foge de qualquer maniqueísmo, com um arco dramático bem resolvido nesse sentido.
O que acontece com esse filme desprovido de clichês é a forma com que ele direciona seu foco. Se a primeira metade é basicamente sobre a compreensão de Ron sobre a sua condição e a evolução dele como ser humano, a segunda é basicamente sobre os seus negócios na fronteira e seu entrave com as forças médicas daquela época, que faziam de tudo para que seu clube de compras de drogas mexicanas não funcionasse. A partir daí, o filme de Vallée perde força dramática e vai amortecendo o estudo do personagem – o que é bastante decepcionante, visto que Ron, como mencionado, está longe de ser uma figura convencional.
Claro que o valor de utilidade pública é grande nestas negociações e batalhas do protagonista para uma melhor qualidade de vida – independente de onde ela venha -, mas, em termos dramáticos, deixa de valorizar como deveria a complexidade dos personagens. Sorte que Matthew McCounaghey, simplesmente irreconhecível, desaparece no papel e está sempre forte e impactante; e que Jared Leto (um pouco na linha tênue entre a caracterização meramente impressiva e o ótimo desempenho), rouba os holofotes toda vez que entra em cena.
Apesar dessa irregularidade de foco, Jean-Marc Vallée tem controle sob a história que está contando e, junto com os atores, segura as pontas de um filme que poderia cair facilmente em desnecessários melodramas. Financiado pelo próprio McCounaghey depois de ter passado pelas mãos de diretores como Craig Gillespie e Marc Foster, Clube de Compras Dallas – também inicialmente planejado para ser protagonizado por Ryan Gosling e, posteriormente, Brad Pitt – fica menos complexo e ousado com o passar dos minutos, mas, com a força de seus intérpretes, tem atributos suficientes para ser considerado um filme bem sucedido em suas premissas mais essenciais.