Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum
If it was never new, and it never gets old, then it’s a folk song.

Direção: Joel e Ethan Coen
Roteiro: Joel e Ethan Coen
Elenco: Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, John Goodman, Adam Driver, Garrett Hedlund, Alex Karpovsky, Jerry Grayson, Robin Bartlett, Ethan Phillips, Stark Sands, Max Casella, Helen Hong, Bradley Mott
Inside Llewyn Davis, EUA, 2013, Drama, 104 minutos
Sinopse: Llewyn Davis (Oscar Isaac) é um cantor e compositor que sonha em viver da sua música. Com o violão nas costas, ele migra de um lugar para o outro na Nova York dos anos 60, sempre vivendo de favor na casa de amigos e outros artistas. Talentoso, mas sem se preocupar muito com o futuro, ele incomoda a amiga Jean Berkey (Carey Mulligan), que vive uma relação com outro músico, Jim (Justin Timberlake). Nem um pouco confiável, Davis se depara com a oportunidade de viajar na companhia de um consagrado e desagradável artista, Roland (John Goodman), mas nem tudo vai acabar bem nesta nova jornada. (Adoro Cinema)

Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum é outro filme da safra do Oscar 2014 fadado ao fracasso. Principalmente aqui no Brasil, onde sabe-se lá o porquê de terem mantido o título original já complicado (o nome Llewyn Davis por si só tem grafia difícil) e incluído um subtítulo que poderia muito bem ter sintetizado sozinho a ideia deste novo trabalho dos irmãos Coen. Não podemos esquecer ainda que esta é uma produção bastante musical, focada não em qualquer gênero de música, e sim no folk. Se lá nos Estados Unidos o resultado já não foi o que podemos chamar de sucesso ou popularidade (seja por parte do público e até mesmo da crítica), o que esperar de sua repercussão em terras brasileiras? Pouco. Quase nada.
Particularmente, não tinha mesmo boa vontade com Inside Llewyn Davis, que parecia um quase-musical restrito a fãs de música folk. Entretanto, foi bom estar errado: apesar de uma vez ou outra o filme quase cair em uma insistência estética e narrativa indie, os irmãos Coen não deixam o resultado cair nessas ou em outras armadilhas que prejudiquem o conjunto. Inside Llewyn Davis é, na verdade, um filme bastante completo e nada limitado a um determinado público musical.
Existe humor, drama e várias reflexões nesse road movie que utiliza muito bem uma das ferramentas mais interessantes de longas desse gênero: a de apresentar personagens passageiros para moldar a personalidade e as motivações do protagonista. Mas também é fácil ter empatia pelo Llewyn Davis do ótimo Oscar Issac, que é o sujeito que vive de visita em visita e de favor em favor. Não perdemos a paciência com essa sua vida inconstante e que muitos podem julgar “sem perspectiva”. Até porque Llewyn sabe o que quer: o seu talento é a música e ele acredita que só pode viver uma vida plena colocando isso em prática.
Mesmo que lhe falte de dinheiro e confiança de amigos e namoradas, ele segue firme e forte com essa sua vertente. Mas Inside Llewyn Davis não é uma história de ascensão profissional ou de redenção humana. Também não é um longa sobre turnês, negócios e gravadoras – e quando elas aparecem são mais para falar sobre o personagem do que sobre qualquer outra coisa. O que os Coen querem é fazer um estudo de personagem, de alguém que quer firmar suas paixões, vontades e vocações. Tudo com muita discrição.
Fora o excelente visual (vale destacar mais uma excelente fotografia do francês Bruno Delbonell), o que existe de mais interessante em Inside Llewyn Davis é como o roteiro sempre se devia dos caminhos fáceis e clichês. Um aborto não é motivo para intrigas e choros infinitos, uma descoberta pessoal do protagonista não dá origens a outras jornadas que dispersam o estudo de personagem proposto e as questões familiares não caem em melodramas. É uma história de sutilezas e que não aposta em extremos, com o maior exemplo sendo a personagem de Carey Mulligan, que tinha tudo para ser a eterna estressada irritante e unidimensional. Só que o texto dá todas as devidas explicações quando constrói a personagem, e Mulligan aproveita a chance: ela tem aqui aquele que é, possivelmente, o seu momentos mais diferenciado desde Educação.
Além dela, várias pequenas participações também são funcionais – em especial a de John Goodman -, e trazem momentos inspirados (Justin Timberlake tem um ótimo momento com a canção Please, Mr. Kennedy). Certamente, Inside Llewyn Davis é uma experiência menor e mais pessoal dos irmãos Coen, encabeçada por um ótimo ator e embalada por boas canções. Por fim, e mais importante, desmonta toda e qualquer expectativa negativa envolvendo tédio ou restrições. Quem o define como uma produção específica claramente não percebeu todas as camadas do longa.
Ninfomaníaca – Volume 2
I think this was one of your weakest digressions.

Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Jamie Bell, Shia LaBeouf, Willem Dafoe, Stacy Martin, Mia Goth, Michael Pas, Jean-Marc Barr, Ananya Berg, Peter Gilbert Cotton, Connie Nielsen
Nymphomaniac: Volume 2, Dinamarca/Bélgica/França/Alemanha/Inglaterra, 2013, Drama, 123 minutos
Sinopse: Segunda parte das aventuras sexuais de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher de 50 anos que decide contar a um homem mais velho (Stellan Skarsgard) sua história pessoal. (Adoro Cinema)

As expectativas em torno de Ninfomaníaca – Volume 2 eram grandes. Só que por razões bem diferentes se comparadas ao primeiro volume, que despertava curiosidade em relação ao que Lars Von Trier aprontaria em um projeto que rendeu tanta publicidade antes mesmo de estrear. A segunda parte da história de Joe (Charlotte Gainsbourg) reservava grandes expectativas simplesmente porque o filme anterior não tinha um ciclo próprio e era impossível analisá-lo sem a continuação, que seria responsável por elucidar várias questões e situações apresentadas pelo diretor. A má notícia é que, no sentido de dar respostas e carimbar uma força psicológica e emocional para Ninfomaníaca como um todo, o segundo filme falha fortemente ao não nos entregar tudo aquilo que Von Trier prometeu. Se era para ter as respostas apresentadas na continuação, era melhor, então, que a saga da protagonista tivesse – e retomamos essa discussão – sido contada em um único longa. Assim, as expectativas diminuiriam e a decepção não seria tão grande.
O problema de Ninfomaníaca – Volume 2 começa já na apresentação da própria protagonista. Parece que estamos diante de uma nova história, sobre outra pessoa. Não dá para acreditar muito que em três anos a jovem Stacy Martin vire Charlotte Gainsbourg enquanto Shia LaBeouf continua em cena com o mesmo rosto. A transição é rápida, logo no início do filme, o que nos impede de processar devidamente o fato de que aquela garota que nós acompanhamos durante duas horas anteriormente agora seja essa adulta triste e em pleno desespero interior. A premissa é bastante clara: hoje, entorpecida e sem prazer pelos excessos de uma adolescência visceralmente sexual, ela é uma mulher vazia e de infinitas angústias. Mas que grande novidade existe nisso, uma vez que tal abordagem já era perceptível logo no primeiro longa?
Só que, se Lars Von Trier quer parecer mais complexo do que de fato é ao continuar colocando o didático Seligman (Stellan Skarsgård) como o sujeito que faz comparações justamente para mostrar como supostamente tudo é mais inteligente do que parece, o diretor, por outro lado, acerta ao criar uma atmosfera emocional bastante sufocante. Joe hoje é triste, vazia, incompleta, viciada e descontrolada – mas o mais fascinante: ciente disso, e que essa é uma natureza que não pode ser mudada. Ela é assim e ponto. Assumiu. Não procura desculpas. Talvez seja por isso que Ninfomaníaca – Volume 2 acerte tanto na hora de imprimir dias tão desesperançosos para a sua protagonista. E os extremos em que Joe chega nessa segunda parte depois que abraça essa natureza imutável se tornam realmente incômodos.
Desta forma, a história mexe em feridas mais do que antes. Antes, o “pesado” da história era todo relacionado ao sexo franco e sem censuras. Agora, o visual choca menos e o que sufoca é o que se passa dentro da protagonista. Alie a isso o fato de que agora ela chega ao nível da violência e do masoquismo para tentar encontrar desesperadamente algum tipo de prazer – ou alguma reação parecida com o prazer, que hoje já lhe é desconhecido – e você terá um filme forte na violência e no sexo que mostra, mas que é ainda mais impactante nas entrelinhas de tudo isso. E até a metade esse clima de uma personagem em plena degradação e desesperança funciona extremamente bem, trazendo os devidos momentos para Charlotte Gainsbourg (a cena em que ela não sabe se fica em casa para cuidar do filho ou se sai para mais uma de suas sessões de masoquismo é uma das melhores).
Tudo desanda, entretanto, quando Willem Dafoe entra na história, minando não só a conclusão individual desse longa como todo o ciclo de quase cinco horas de Ninfomaníaca. O personagem de Dafoe traz uma storyline completamente sem inspiração e desinteressante, tornando a personagem até menos envolvente. A partir daí, a relação que Joe estabelece com outros personagens não convence e o diretor realmente coloca tudo a perder. Em todo o caminho até esse final, existem brincadeiras óbvias mas interessantes (a referência a Anticristo), algumas cenas realmente marcantes e devidamente polêmicas (tudo o que envolve a sequência sobre pedofilia) e questionamentos bastante pertinentes (como aquele que coloca na mesa um assunto tão em voga nos dias de hoje: como seria o julgamento dessa história caso ela fosse protagonizada por um homem?).
Porém, o que se sucede nos muitos finais é tão mal colocado e irregular que nem parece ter sido escrito por Von Trier. Principalmente a cena derradeira, que é apressada e inacreditável de tão ruim. Os créditos sobem e fica aquele estranhamento “sério que acabou?”. Alguns diretores criam expectativas para seus filmes porque sempre realizam obras tão boas que elevam o padrão e é inevitável não esperar algo grande deles. Só que Von Trier, dessa vez, comprova que tem tudo para entrar no grupo dos que criam expectativas por motivos capengas – seja por uma divulgação exagerada ou por temáticas apelativas. Queria muito que Ninfomaníaca desse certo – e o primeiro volume acusava que o diretor tinha mesmo errado a mão no trabalho publicitário mas acertado no cinematográfico. Até a segunda parte terminar com um resultado que coloca tudo por água abaixo. Pena que uma história que merecia ter um final grandioso para casar com tantas ousadias e despudores mostrados até então não chegou nem perto de apresentar o que precisava para tal. Von Trier tem capacidade para muito mais do que mostrou nessa conclusão.
Rapidamente

Por Ninguém é Perfeito, Philip Seymour Hoffman foi indicado ao SAG de melhor ator
INCÊNDIOS (Incendies, 2010, de Denis Villeneuve): Fiz o caminho inverso e conferi primeiro a estreia do canadense Denis Villeneuve nos Estados Unidos com Os Suspeitos. Que bom que essa ordem em nada interferiu a minha percepção quanto aos talentos do diretor. Quando fui conferir Incêndios, seu trabalho mais célebre realizado no Canadá, as expectativas eram altas, já que considero Os Suspeitos um dos grandes longas de 2013. E, na produção que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro, Villeneuve já mostrava a sua brilhante disciplina ao narrar a trágica história da árabe Nawal Marwan (Lubna Azabal) e a busca de seus filhos para solucionar duas missões que a matriarca deixou no testamento. Villeneuve é mestre em chegar a um ponto que poucos conseguem: o de não se entregar às possibilidades de “exagero” da história que conta e tampouco castrar a emoção ou envolvimento de seus filmes para tal. Alguns podem considerar Incêndios frio e distante, mas não vejo dessa maneira – principalmente quando o roteiro é exemplar na forma como vai e volta no tempo e na geografia sem nunca parecer confuso ou didático. Fora o final pra lá de surpreendente e impactante, Incêndios ainda tem ótimas interpretações e consegue ficar com o espectador durante um bom tempo. Que venham mais trabalhos de Villeneuve!
NINGUÉM É PERFEITO (Flawless, 1999, de Joel Schumacher): É um dos desempenhos menos conhecidos do agora saudoso Philip Seymour Hoffman, mesmo tendo concorrido merecidamente ao Screen Actors Guild Awards. Vale a pena conhecer Ninguém é Perfeito por sua composição cheia de detalhes e afeto. Como um travesti que dá aulas de canto e voz a um ex-policial vítima de um derrame (Robert De Niro, em um de seus últimos papeis esforçados), ele rouba o filme para si, especialmente porque o diretor Joel Schumacher volta e meia tenta sabotar a história com uma trama paralela de roubo completamente avulsa e desnecessária. Não repetindo nem mesmo a voz afeminada do papel que lhe consagraria anos depois com Capote, Hoffman – com um personagem muito bem explorado dramaticamente – traz as melhores cenas de Ninguém é Perfeito quando contracena com De Niro. É uma combinação batida (o preconceituoso que se humaniza com a única pessoa que lhe estende a mão na hora da dificuldade), mas que é encenada com tanta simplicidade e humanidade pelos dois atores que se torna bastante especial. Schumacher, mestre em realizar frequentes desastres, está mais coerente aqui, já que teve a grande sorte de ter uma dupla tão fantástica liderando a história. Se o diretor não estivesse ali, Ninguém é Perfeito seguiria com o mesmo resultado. O filme é deles.
POLISSIA (Polisse, 2011, de Maïwenn): É bem diferente do imaginado este filme francês que chegou a ganhar o prêmio do júri de Cannes em 2011. Pela sinopse, a impressão era de que Polissia fosse um filme de investigação no sentido clássico da definição e que seria guiado por um único caso repleto de descobertas. Não é o que acontece. A história, na realidade, é um mosaico da vida profissional e pessoal de um grupo da polícia francesa especializado em casos de pedofilia. É mostrando como esses casos influenciam a vida dos funcionários que Polissia constrói sua premissa. O acerto é valioso, já que a diretora Maïwenn (também integrante do elenco) consegue fazer uma ampla análise de diversas situações e perfis sem soar superficial. Também se destaca a forma como o filme fala de um tema extremamente complicado sem soar apelativo. É incômodo e provocativo na medida certa, mas também bastante reflexivo e envolvente. Com um valor social e de denúncia imensurável – mas desprovido de qualquer pieguismo ou panfletagem -, Polissia acerta em todas as suas investidas (inclusive na decisão de se apoiar bastante em um estilo quase documental), além de contar com um elenco que esbanja naturalidade e que por isso mesmo parece tão próximo da vida real.
VERSOS DE UM CRIME (Kill Your Darlings, 2013, de John Krokidas): O próprio filme vende uma história completamente diferente. Se o trailer e até mesmo os momentos iniciais sugerem uma trama de crime encabeçada por uma dupla adolescente responsável pela tragédia, logo Versos de um Crime segue caminhos bastante opostos. É, na realidade, sobre a convivência de autores (ou, na época, aspirantes) como Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe), Lucien Carr (Dane DeHaan) e Jack Kerouac (Jack Huston). Eles faziam parte da chamada geração “beat”, formada por mentes inquietas que procuravam descobertas e desejavam mudanças por meio de experimentações com o sexo, drogas e as possibilidades ilimitadas de serem eles mesmos. E é só no final que o tal crime começa a ficar em pauta, o que faz com que filme de John Krokidas mude completamente de tom com essa escolha. Versos de Um Crime sofre com essa eferverscência de ideias e focos mostrada pelo filme: a atração de Allen por Carr poderia ser mais aprofundada, assim como todos os vícios e compulsões sentimentais que os personagens compartilhavam, por exemplo. Mas exigir mais complexidade seria colocar em xeque a verossimilhança do filme, já que Daniel Radcliffe, o protagonista, não dá sinais que melhorou com o tempo e não seguraria um papel mais forte. Elogios mesmo só para o jovem Dane DeHaan, já especialista em figuras perturbadas e problemáticas e que volta a despontar como um dos nomes mais promissores de sua geração.
Até o Fim
I’m sorry. I know that means little at this point, but I am.

Direção: J.C. Chandor
Roteiro: J.C. Chandor
Elenco: Robert Redford
All is Lost, EUA, 2013, Drama, 106 minutos
Sinopse: Um navegador experiente (Robert Redford) está viajando pelo Oceano Pacífico, quando uma colisão com um container leva à destruição parcial do veleiro. Ele consegue remendar o casco, mas terá a difícil tarefa de resistir às tormentas e aos tubarões para sobreviver, além de contar apenas com mapas e com as correntes marítimas para chegar ao seu destino.

O momento não poderia ser mais propício para Até o Fim chegar aos cinemas. Afinal, o tema sobrevivência tem pautado importantes filmes dos últimos meses, como o vencedor do Oscar 2014, 12 Anos de Escravidão, e o cultuado Gravidade. Não é diferente com Até o Fim, que é basicamente o filme estrelado por Sandra Bullock em alto-mar. Dadas as proporções, são produções igualmente excepcionais que narram a solitária jornada de personagens em situações de puro confronto com a finitude da vida e com a imensidão de um universo forte e impiedoso. Entretanto, Até o Fim está fadado ao fracasso. Com admiráveis aspectos técnicos e narrativos menos perceptíveis ao grande público, o filme de J.C. Chandor afasta plateias por um motivo específico: são quase duas horas com um único personagem em cena e que quase não fala. Um filme, enfim, que ninguém cria expectativa para ver. E a recepção reflete essa má vontade: custou oito milhões e, desde sua estreia em outubro nos Estados Unidos, só conseguiu arrecadar mundialmente pouco mais de seis. Nas premiações também foi solenemente ignorado, conseguindo no máximo uma vitória na categoria de trilha sonora do Globo de Ouro e uma indicação de som ao Oscar. Rejeição merecida? De forma alguma. Bastante injusta, na verdade. Pelas mais diversas razões.
Logo no início, J.C. Chandor já resume muito bem o seu filme. Abrindo Até o Fim com uma carta de despedida do protagonista vivido por Robert Redford, Chandor coloca, nessa carta, uma série de pedidos de desculpas que não serão esmiuçados ao longo da história. Nós sabemos que esse homem, agora sozinho em alto-mar, errou muito na vida e que somente há pouco conseguiu admitir tais erros, mas nunca nos é revelado o que de fato ele fez. E nem precisa: o longa passa uma solidão muito grande e o rosto lindamente envelhecido de Robert Redford se encarrega de trazer todo o pesar de uma vida complicada que agora ficou para trás. Não é necessário saber o que exatamente ele fez de errado. O que importa é o que ele fará – ou não – agora que se encontra em uma situação complicadíssima e praticamente de frente com o fim da vida. Em síntese, Até o Fim é sobre sobreviver, mas é bom ficar atento a vários detalhes que denotam uma complexidade que pode passar despercebida. Um exemplo é como Chandor usa a solidão imposta pela circunstância do personagem para fazer uma metáfora da solidão real dele. A força da natureza e os obstáculos enfrentados são uma espécie de penitência pelos erros passados – e o protagonista tem quase uma paz interior com tudo aquilo, como que se aceitasse o fato de que precisa passar por essa situação para limpar a alma.
Era difícil imaginar que Chandor, responsável pelo complexo Margin Call – O Dia Antes do Fim (que, ironicamente, era inteiramente apoiado em diálogos), fosse fazer algo tão surpreendente como Até o Fim. E é magnífica sua habilidade de segurar o filme com um só ator e sem diálogos, mantendo sempre uma constante agonia. Nós compartilhamos da angústia do protagonista sem nome: estamos temerosos no bote, no barco, no mar – e queremos ajudá-lo. Além da direção de Chandor, a inteligente fotografia (subaquática ou não), o estupendo trabalho de som e a certeira trilha sonora de Alexander Ebert ajudam o filme a alcançar toda esse sentimento com muita plausibilidade e com situações nada apelativas. Mesmo o final, que parece tão simples e fácil, pode não ser tão simples assim e apresentar uma outra simbologia, especialmente quando você descobre que a faixa da trilha que encerra o filme se chama “Amém”. Se, dois anos atrás, As Aventuras de Pi ficou longe de me comover, aqui Chandor conseguiu fazer muito mais com literalmente pouquíssimas palavras. Um filme difícil, mas real, belo e muito mais profundo do que parece. Uma aula de direção que não merecia esse fracasso que amarga.
12 Anos de Escravidão
I don’t want to survive. I want to live.

Direção: Steve McQueen
Roteiro: John Ridley, baseado no livro “12 Years a Slave”, de Solomon Northup
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Paul Dano, Lupita Nyong’o, Sarah Paulson, Brad Pitt, Paul Giamatti, Benedict Cumberbatch, Alfre Woodard, Quvenzhané Wallis, Taran Killam, Scoot McNairy, Tony Bentley
12 Years a Slave, EUA/Inglaterra, 2013, Drama, 134 minutos
Sinopse: 1841. Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um escravo liberto, que vive em paz ao lado da esposa e filhos. Um dia, após aceitar um trabalho que o leva a outra cidade, ele é sequestrado e acorrentado. Vendido como se fosse um escravo, Solomon precisa superar humilhações físicas e emocionais para sobreviver. Ao longo de doze anos ele passa por dois senhores, Ford (Benedict Cumberbatch) e Edwin Epps (Michael Fassbender), que, cada um à sua maneira, exploram seus serviços. (Adoro Cinema)

Pode até não parecer, mas a escravidão ainda é um assunto muito recente. Basta pensar em um amigo negro seu. Não é muito remota a possibilidade que o bisavô dele tenha sido um escravo, por exemplo. E por mais que este doloroso ciclo da história mundial tenha chegado ao fim, ainda vivemos tempos em que sua lógica perpetua em outros movimentos e ações. Tomem os gays como referência, que ainda lutam para ter direitos reconhecidos e que volta e meia são agredidos e mortos por serem… gays. Na Uganda, recentemente, atearam fogo publicamente em um gay, que não sobreviveu e morreu na frente de várias pessoas – incluindo crianças. Por isso, a crueza com que Steve McQueen retrata as chicotadas em Patsy (Lupita Nyong’o) e a perversidade do senhor de escravos vivido por Michael Fassbender não chega perto do apelativo em 12 Anos de Escravidão. Ainda existe sim, em nossa sociedade, todo um prazer sádico em inferiorizar, torturar e assassinar os “diferentes”. Prazer doentio esse que é muito bem representado pela figura de Fassbender e por este filme como um todo, que é sim necessário e dotado de um absurdo valor humano e social.
Contudo, nestes casos, fica a dúvida se a admiração vem pelo que ele representa em um contexto específico ou necessariamente por sua execução. E confesso que minha recepção a 12 Anos de Escravidão se confunde um pouco nesses meandros. Às vezes, cinema é simplesmente uma questão de envolvimento: o filme pode ter tudo no lugar, ser repleto de aspectos admiráveis e mesmo assim não arrebatar um determinado espectador como uma obra cinematográfica. Talvez tenha sido essa minha reação ao filme de McQueen. Lindo em sua abordagem e bem realizado em sua proposta, mas não necessariamente uma obra que tenha me fisgado por completo. Envolvimento, enfim. De todo jeito, é diferente a forma como o diretor mostra escravidão nesta produção vencedora do Oscar 2014 de melhor filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante (Nyong’o). Uma escolha particular resume bem o posicionamento de seu realizador: ao invés das tradicionais tomadas aéreas para mostrar grande planícies lotadas de escravos trabalhando incessantemente, 12 Anos de Escravidão prefere navegar com a câmera nas próprias plantações, onde as folhas constantemente batem na câmera como se ela fosse alguém desbravando de perto aquele mundo.
Se recentemente o racismo foi mostrado açucaradamente em Histórias Cruzadas ou com grandes caricaturas no péssimo O Mordomo da Casa Branca, McQueen dá a lição de como tratar o tema com dignidade em seu mais novo filme. Não existe necessariamente uma história de grandes detalhes em 12 Anos de Escravidão. Basta saber que Solomon era um negro nascido livre que foi capturado ilegalmente e escravizado durante 12 anos. É o dia-a-dia como escravo, com angústias, esperanças, humilhações e um duro trabalho nos campos de algodão. Simples assim. Nada de surpresas ou maiores acontecimentos. Por isso que as interpretações são tão essenciais, especialmente porque 12 Anos de Escravidão é um filme que se apoia bastante em figuras que passam – brevemente ou não – pela vida de Solomon deixando marcas, sejam elas boas ou ruins. Assim, ligeiras mas boas participações existem aqui para contextualizar uma época e seus hábitos, como a de Paul Dano, por exemplo, interpretando com excelência um desprezível jovem racista que vive inventando razões para maltratar os escravos. É o representante de uma geração ensinada a ser cruel já desde os primeiros anos de vida.
Entretanto, é mesmo Chiwetel Ejiofor quem lidera com grande discrição esse excelente elenco. Nunca extravasando por completo a revolta de um negro injustiçado mas tampouco interiorizando suas angústias de forma que o espectador não perceba o que se passa com ele, Ejiofor segura com firmeza o filme, provando que seu nome complicado não deveria ser um empecilho para uma trajetória de sucesso. Na última cena, é particularmente impressionante essa “força contida” do ator. Ainda chamando a atenção em cena está a estreante Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ainda que ela pareça uma espécie de Anne Hathaway (Os Miseráveis) de 2014 com pouquíssimo tempo em cena (entra, arrebata, corta o coração e vai embora), a atriz surpreende e é uma das figuras que mais fica com o espectador após o término da história.
A direção de McQueen conduz muito bem os atores e a discreta trilha de Hans Zimmer dá atmosfera certa para essa tragédia diária do protagonista. Mas, mesmo que eficiente em seu lado técnico, 12 Anos de Escravidão não traz o horrível sendo fotografado lindamente. Quando chega perto de mostrar uma paisagem mais ampla, por exemplo, é com Edwin (Fassbender, a personificação do diabo) andando a cavalo ao fundo e chicoteando os negros durante o trabalho. Não há espaço para uma mera panfletagem de moralismos e piedades. São fatos que se bastam, simplesmente. Pode até ser que a escravidão tenha sido oficialmente superada, mas, de um jeito ou de outro, ela ainda reverbera. Só que 12 Anos de Escravidão não é sobre culpa. É sobre olhar para trás e pensar como não deixaremos o passado se repetir no presente e no futuro. Não saí tão envolvido com o resultado como cinema, mas tal mensagem é suficiente para que o valor humano do projeto seja incontestavelmente reconhecido – o que por si só já é uma rara vitória.