Cinema e Argumento

O Grande Hotel Budapeste

 There are still faint glimmers of civilization left in this barbaric slaughterhouse that was once known as humanity.

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Direção: Wes Anderson

Roteiro: Wes Anderson, baseado em história própria com Hugo Guinness e nos contos de Stefan Zweig

Elenco: Ralph Fiennes, Tony Revolori, Saoirse Ronan, Jude Law, Mathieu Amalric, Adrien Brody, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Bob Balaban

The Grand Budapest Hotel, EUA/Alemanha/Reino Unido, 2014, Aventura, 100 minutos

Sinopse: No período entre as duas guerras mundiais, o famoso gerente de um hotel europeu conhece um jovem empregado e os dois tornam-se melhores amigos. Entre as aventuras vividas pelos dois, constam o roubo de um famoso quadro do Renascimento, a batalha pela grande fortuna de uma família e as transformações históricas durante a primeira metade do século XX. (Adoro Cinema)

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Particularmente, nunca pensei que fosse dizer que Wes Anderson se tornaria um dos meus diretores favoritos em atividade. Isso porque, anos atrás, seus trabalhos em nada me comoviam: Os Excêntricos Tenenbaums é a obra mais superestimada e tanto A Vida Marinha Com Steve Zissou quanto Viagem a Darjeeling beiram o insuportável. Mas eis que ele veio com o originalíssimo O Fantástico Sr. Raposo, o irresistível Moonrise Kingdom e, agora, O Grande Hotel Budapeste, filme que é facilmente o ponto alto de sua carreira até agora. Não dá para esconder o entusiasmo com essa escalada que ele vem fazendo nos últimos anos, especialmente quando o mais novo longa não tem um ingrediente novo sequer: é simplesmente o aperfeiçoamento de várias escolhas recentes. Ao contrário de outros realizadores que erram ao repetir estilos, Anderson só se aprimora – e o resultado em momento algum descamba para a reciclagem.

Falar sobre como o diretor aprendeu de uma vez por todas a controlar os maneirismos que tanto prejudicavam seus filmes antes da era Raposo ou sobre como eles passaram a ser tão encantadores que só sendo muito de mal com a vida para odiá-los é cair no lugar-comum. O Grande Hotel Budapeste é o auge da criatividade desse profissional que aqui expande inúmeros talentos e ainda faz o seu trabalho mais ambicioso do ponto de vista técnico. Se você pensava que Moonrise Kingdom trazia o que existia de melhor em direção de arte e figurinos em prol do encantamento de uma história, esperem por Budapeste, que tem um design de produção realmente imponente, inventivo e de acordo com tudo o que a história e seus personagens simbolizam. Cores e cenários saltam aos olhos, fazendo com que o espectador compreenda o porquê do protagonista vivido por Ralph Fiennes e todos os outros personagens terem um carinho e respeito imenso por este refinado hotel que dá título ao filme.

Muito bem ambientando por uma das trilhas mais inspiradas da carreira do francês Alexandre Desplat (e seria perfeito se alguma celebração finalmente viesse por esse trabalho), O Grande Hotel Budapeste tem uma história extremamente fluente e ágil, que, muito além do roubo de um quadro e dea saga de alguém tentando provar sua inocência diante de um crime, fala também sobre memórias, amores, aprendizados e lealdades, além de reflexões que volta e meia se revelam atuais para nossa época (“ainda existem resquícios de civilização nesse matadouro que um dia conhecemos como humanidade!”).  Este filme é outra prova de como Wes Anderson tem cada vez mais se distanciado do mero apuro técnico e do total controle de tom de suas histórias. Ele ainda se mostra mais criativo nos movimentos de câmera, na forma como enquadra seus personagens e em tantos outros detalhes que colaboram para a funcionalidade do filme.

Encabeçando um elenco inspiradíssimo e estelar, Ralph Fiennes (que há anos merecia um destaque e um papel com desafios como esse) está perfeito como o emblemático Gustave, tendo como suporte atores em pontas de luxo e participações que roubam a cena (como a irreconhecível Tilda Swinton, que até merecia mais espaço em cena, mas está sempre presente no imaginário do espectador). São vários personagens, situações e cenários que o filme sabe administrar com total equilíbrio, especialmente porque a história tem resoluções convincentes, um clímax com direito até a  ação empolgante e singela dose de afetividade e emoção. Irresistível, O Grande Hotel Budapeste merece facilmente estar na lista de melhores do ano – e, caso estreasse mais para o final do ano, seria  favorito a ocupar várias vagas na temporada de premiações. Se Wes Anderson continuar nesta escala de evolução, é bem provável que o seu próximo filme alcance a perfeição.

Rapidamente

A Marvada Carne, de André Klotzel, ostenta o título de filme mais celebrado na história do Festival de Cinema de Gramado com 12 prêmios

A Marvada Carne, de André Klotzel, ostenta o título de filme mais celebrado na história do Festival de Cinema de Gramado com 12 prêmios

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 2 (How to Train Your Dragon 2, 2014, de Dean DeBlois): O primeiro Como Treinar o Seu Dragão foi ofuscado na temporada de premiações pelo sentimental Toy Story 3, mas conquistou o coração de várias plateias com a sua proposta diferenciada e de resoluções até mesmo corajosa. Por isso, tinha um certo receio com essa continuação, já que o primeiro filme parecia tão bem resolvido isoladamente. A boa notícia é que o diretor Dean DeBlois (agora sem a parceria de Chris Sanders) continua acertando na emoção, nas mensagens e na maturidade com que desenvolve seus personagens. Por outro lado, falta frescor nesta sequência e é fácil sair do cinema já com a cabeça em outro lugar – o que não acontecia com o anterior, uma experiência nada esquecível. Pode ser a falta de uma história mais consistente que trabalhe outros pontos além do crescimento físico e emocional dos personagens que prejudique o resultado, especialmente quando Como Treinar o Seu Dragão 2 se dedica demais a mostrar batalhas, voos e ação (com direito a um dragão que tem o poder de controlar todos os outros e que misteriosamente nunca tinha aparecido ou sequer sido citado até agora!). Levemente decepcionante, a sequência cumpre sua função de entretenimento com um inegável coração, mas fica devendo em termos de uma trama melhor elaborada.

A MARVADA CARNE (idem, 1985, de André Klotzel): Para quem conhece somente as comédias brasileiras realizadas nos dias de hoje, A Marvada Carne causará estranhamento. É diferente e quase bizarra a proposta do filme, que mostra a saga de Nhô Quim (Adilson Barros) para realizar o seu sonho de finalmente comer carne. No caminho, ele conhece a sonhadora Carula (Fernanda Torres), que deseja se casar a todos custo e que, para fisgar Nhô Quim, mente que no seu casório a família dará uma grande festa com muita comilança de carne. O universo caipira, bem como figuras mitológicas como o Curupira e o Diabo, são apresentados no filme de estreia de André Klotzel com a devida irreverência. A Marvada Carne acerta em suas hipérboles cômicas, o que é no mínimo admirável para um diretor iniciante na época. No Festival de Cinema de Gramado, conquistou 12 prêmios entre Kikitos e menções especiais, incluindo melhor filme e melhor atriz para Fernanda Torres – que aqui está em um dos seus melhores momentos de transformação, com um sotaque simplesmente perfeito. Divertido e objetivo (são rápidos e suficientes 75 minutos de duração), o filme foi celebrado como uma atualização dos clássicos de Mazzaropi – e, sem dúvida, o faz com a devida competência e fidelidade.

MENINOS DE KICHUTE (idem, 2009, de Luca Amberg): É mergulhado na nostalgia de uma infância já extinta que o diretor catarinense Luca Amberg constrói Meninos de Kichute. O filme, realizado em 2009, só agora consegue entrar em cartaz, levantando mais uma vez a eterna discussão sobre as dificuldades de fazer cinema no Brasil. Baseado no livro homônimo de Márcio Américo e nas próprias lembranças do diretor, Meninos de Kichute celebra os anos em que o mais importante para uma criança era sair correndo da aula para brincar na rua com os amigos. Do cantar o hino nacional na frente da escola às eternas disputas por figurinhas, o longa captura bem o clima dos anos 1970, trazendo também a rígida educação, as professoras irredutíveis e o pai machista e autoritário. Nostálgico e quase ingênuo, conquista por sua simplicidade, especialmente porque o elenco infantil está bastante à vontade e outras participações são pelo menos bastante afetivas, a exemplo de Arlete Salles como a vizinha legal e apaixonada por cachaça (e o melhor de tudo é que a atriz não cai na caricatura!). Até mesmo Werner Schünemann, com um papel unidimensional, se sai bem como o grande obstáculo na vida do protagonista Beto (Lucas Alexandre). Mas tudo para por aí, já que Meninos de Kichute não parece ser nada além de um retrato desta saudosa infância. Conflitos de verdade são quase ausentes e, não fosse essa adorável viagem no tempo, o resultado poderia ser desinteressante.

WALT NOS BASTIDORES DE MARY POPPINS (Saving Mr. Banks, de John Lee Hancock): Aos que conferiram Um Sonho Possível (aquele filme insosso que deu um Oscar injusto para Sandra Bullock), fica a dica: Walt Nos Bastidores de Mary Poppins (o título brasileiro dispensa comentários) tem exatamente a mesma essência. Ou seja, uma história completamente rasa contada em uma duração excessiva com direito a clichês pontuais. O trailer já entregava tudo, mas não é preciso ser um gênio para, em 15 minutos, adivinhar todo o desenrolar da trama. Basicamente o relato de uma megera que aos poucos vai baixando a guarda até se tornar uma “boa” pessoa, Walt nos Bastidores de Mary Poppins se sai bem ao falar com o grande público, já que seu tom é assumidamente simplista e até mesmo pensado para causar emoções fáceis. Mas, se exigimos algo a mais, o filme não se sustenta, até porque John Lee Hancock não tem estofo para isso – o que está bem exemplificado nas suas tentativas pífias de criar mensagens subliminares (a cena em que a protagonista dorme abraçada com um Mickey de pelúcia é a pior). Também não ajuda o fato do filme contar duas histórias paralelas – uma no passado, outra no presente – e muito menos sua protagonista, que transborda arrogância e antipatia mas que, ao contrário de Blue Jasmine, não tem um diretor que saiba esmiuçar as razões de tal comportamento. Quem perde? Emma Thompson, quase caricata, e Tom Hanks, com pouco a fazer com seu Walt Disney retratado unilateralmente como um ser humano sábio, puro e íntegro (sendo que até mesmo sua sobrinha na vida real já confessou que ele estava muito longe de ser um anjo).

Malévola

Oh, dear! What an awkward situation…

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Direção: Robert Stromberg

Roteiro: Linda Woolverton, baseado nas histórias La Belle au Bois Dormant, de Charles Perrault, e Little Briar Rose, de Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, e no filme A Bela Adormecida, de  Clyde Geronimi

Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley, Brenton Thwaites, Kenneth Cranham, Sarah Flind, Hannah New, Isobelle Molloy, Michael Higgins

Maleficent, EUA, 2014, Aventura, 97 minutos

Sinopse: Baseado no conto da Bela Adormecida, o filme conta a história de Malévola (Angelina Jolie), a protetora do reino dos Moors. Desde pequena, esta garota com chifres e asas mantém a paz entre dois reinos diferentes, até se apaixonar pelo garoto Stefan (Sharlto Copley). Os dois iniciam um romance, mas Stefan tem a ambição de se tornar líder do reino vizinho, e abandona Malévola para conquistar seus planos. A garota torna-se uma mulher vingativa e amarga, que decide amaldiçoar a filha recém-nascida de Stefan, Aurora (Elle Fanning). Aos poucos, no entanto, Malévola começa a desenvolver sentimentos de amizade em relação à jovem e pura Aurora. (Adoro Cinema)

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Antes de Malévola se tornar a exceção, esta nova onda de adaptações live action de clássicos infantis nunca havia chegado perto de se justificar – nem mesmo em termos de entretenimento. Filmes como o pavoroso A Garota da Capa Vermelha (releitura de Chapeuzinho Vermelho) e outros tantos como João e Maria: Caçadores de BruxasBranca de Neve e o Caçador não foram levados a sério por ninguém, o que não criava boas expectativas para este novo filme estrelado por Angelina Jolie. Mas Malévola se revelou um interessante acerto dentro deste mar de produções que variavam do pavoroso ao irregular. Não que o trabalho de estreia de Robert Stromberg como diretor seja um arraso – longe disso -, mas pelo menos vem para provar que é possível sim revirar o baú de histórias infantis já consagradas com uma boa dose de entretenimento e novidades.

O primeiro acerto de Malévola é escolher contar a clássica história de A Bela Adormecida a partir de um outro ponto de vista: o da vilã Malévola. Normalmente, vilões são retratados de forma caricata e unilateral em histórias infantis, mas a verdade é que eles são os personagens mais ricos e interessantes em qualquer circunstância. É grande o número de personagens que ficam na memória por suas maldades e de atores que marcaram época ao abraçar a vilania. Só que também é verdade que são poucos os antagonistas que têm sua “maldade” justificada ou pelo menos colocada em discussão. Desta forma, Malévola surge se destacando logo na concepção:  sinceramente, Elle Fanning está realmente uma graça como a doce Aurora, mas acompanhar 90 minutos de uma história com ela seria insuportável com uma Jolie vilã tão inspirada em cena.

Que bom que tiveram a consciência de colocar a princesinha de escanteio (cuja história não é nem contada paralelamente, sendo mero detalhe mesmo) e entregar o filme todo a Angelina, que raramente tem a história fora de seu alcance. Sem dúvida, é o grande momento da atriz em muito tempo, especialmente quando ela estava afastada das delas desde O Turista, realizado em 2010. Poucas vezes ela esteve tão imponente e marcante em cena, tanto em termos de beleza quanto de interpretação. Jolie convence e hipnotiza durante todo o arco da personagem, que começa como uma fada comum, depois tem as razões de sua vilania explicada e aos poucos vai se humanizando – mas sem nunca perder a necessária acidez. Sem dúvida é um novo êxito recente da Disney, muito esperta ao dar boas chances para Jolie, trazendo-lhe ainda bons figurinos, maquiagem eficiente e momentos realmente de rainha.

Dizem que a protagonista carrega Malévola nas costas – o que não deixa de ser compreensível para quem esperava mais do resultado -, mas o filme tem acertos inegáveis, o que inclui a parte técnica com ótimos efeitos visuais e uma concepção visual bastante satisfatória. Funciona ver a história de um outro lado, fazendo com que nada pareça repetição ou reciclagem, e sim algo novo e original. O roteiro uma vez ou outra carece de algo mais consistente que vá além do poder de sua protagonista, mas a proposta está sempre a favor do filme. Somente dois aspectos são realmente incômodos. O primeiro deles é o trio de fadas formado por Imelda Staunton, Juno Temple e Lesley Manville. É evidente que elas estão ali para divertir, mas o filme as subutiliza com piadas que se limitam a situações de assoprar farinha – algo que o Chaves já fazia com o Kiko décadas atrás!

Porém, o erro mais grave de Malévola é errar conceitualmente naquilo que se propõe a subverter com a protagonista: a vilania. Para mostrar que Malévola não é a vilã radical que pintaram durante décadas e que ela tem suas razões para ser o que é, o roteiro ironicamente transfere toda a maldade unidimensional para o personagem vivido por Sharlto Copley. Ora, se o filme de Stromberg tem como diferencial mostrar que nem todo vilão carrega tal título sem razão, não há sentido em colocar Copley justamente como uma figura má sem explicações ou aprofundamentos. Subverte de um lado, mas repete o erro de outro. Por isso, este é um problema que simplesmente não poderia existir em um filme que tem um conceito tão definido para sua protagonista.

A diversão e a sensação de acerto não são, no entanto, prejudicadas por estes tropeços, nem mesmo quando eles são embalados por uma trilha surpreendentemente sem inspiração do veterano James Newton Howard. A história felizmente sobrevive, provando que histórias live action derivadas de clássicos infantis podem sim render para crianças e adultos. Malévola é mais um acerto da Disney, estúdio que parece retomar uma excelente fase (recentemente Frozen revitalizou o gênero das animações e ainda chegou entre as cinco maiores bilheterias da história!), e, principalmente, uma ótima oportunidade para Angelina Jolie voltar a brilhar. E o melhor de tudo: o filme está ciente que precisa dar todas as chances para ela aproveitar cada momento.

Rapidamente

Em Gata Velha Ainda Mia,  Regina Duarte e Bárbara Paz duelam em diálogos encenados em um único cenário

Em Gata Velha Ainda Mia, Regina Duarte e Bárbara Paz duelam com diálogos encenados em apenas um ambiente

COM LICENÇA, EU VOU À LUTA (idem, 1985, de Lui Farias): Por este filme Marieta Severo chegou a ganhar o Kikito de melhor atriz no Festival de Cinema de Gramado, mas a verdade é que não é muito justo celebrá-la quando a força da história é dividida entre ela e Fernanda Torres. As duas são as protagonistas de Com Licença, Eu Vou à Luta e ambas têm os seus momentos neste longa sobre um conturbado relacionamento entre mãe e filha, em especial quando a segunda, contrariando a família, começa a namorar um homem 18 anos mais velho, divorciado e com dois filhos. Adaptado do livro homônimo e autobiográfico de Eliane Maciel – vivida por Fernanda na versão cinematográfica -, este trabalho de Lui Farias (filho do também cineasta Roberto Farias) trouxe excelentes discussões para a década de 1980 mas que também curiosamente ainda se revelam bastante válidas para os dias de hoje: até que ponto uma garota de 15 anos consegue saber o que é melhor para sua vida? Um homem mais velho está necessariamente se aproveitando de uma menina mais jovem? De que forma os pais devem lidar com as decisões e as transformações dos filhos adolescentes? Alcançando seus melhores momentos nos confrontos entre Marieta e Fernanda – atrizes que por si só já merecem todos os elogios do mundo -, Com Licença, Eu Vou à Luta é crível, objetivo e, por que não, um filme para ser sempre debatido.

GATA VELHA AINDA MIA (idem, 2014, de Rafael Primot): Se existe um gênero que está prestes a se tornar moda no cinema brasileiro este é o suspense psicológico. Em 2014 já tivemos Quando Eu Era Vivo, que foi relativamente bem recebido neste sentido. Agora Gata Velha Ainda Mia vem para reforçar a tendência, colocando Regina Duarte e Bárbara Paz em um único cenário para um embate de opiniões que pouco a pouco traz consequências até mesmo físicas para as personagens. O que existe de mais interessante no longa do jovem Rafael Primot é como ele se esquiva de qualquer esquema comercial. Gata Velha Ainda Mia não é estilo Globo Filmes: o resultado é bastante atípico e pode até mesmo chocar algumas plateias com a forma que desenvolve sua história, seja pelo formato inteiramente apoiado em diálogos ou pelos próprios rumos, muitas vezes extremos e quase macabros. Bárbara Paz continua se mostrando uma atriz com muito a melhorar (em especial aqui, onde é a mocinha), enquanto Regina Duarte, com a sua mais recente mania de beirar o overacting, casa perfeitamente com a personagem megera e irônica que desde os primeiros minutos já sugere que está prestes a explodir como uma mulher bastante perturbada – e é exatamente aí que melhor reside a tensão do filme. Sem nunca parecer teatral, Gata Velha Ainda Mia é estranho e com um final um tanto amortecido, mas um filme que certamente não causará indiferença.

NAMORO OU LIBERDADE? (That Awkward Moment, 2014, de Tom Gormican): Já não gosto do título em português, que é radical demais ao reduzir namoros ao status de “prisão”, mas o filme todo é decepcionante. Cada vez mais parece que Hollywood desaprendeu a fazer comédias jovens e românticas que sejam divertidas mesmo com suas previsibilidades. Esta é especialmente chata e óbvia do início ao fim, com protagonistas que não despertam a nossa torcida. O elenco é liderado por Zac Efron, que cresceu, abandonou quaisquer resquícios de sua juventude High School Musical e hoje já é notícia como um dos homens mais desejados da atualidade. Efron ainda tem outro filme nos próximos meses (Vizinhos, que estrela ao lado de Seth Rogen), mas ele não vai além da beleza e sua desenvoltura para humor parece ter sido mesmo apenas memomentânea em 17 Outra Vez, onde estava carismático e divertido. Aqui, ao lado de Michael B. Jordan (do recente Fruitvale Station – A Última Parada) e Miles Teller, ele não consegue fazer muito, provando que é outro nome de sua geração que caiu no estereótipo de beleza sem talento. Mas a verdade é que todo Namoro ou Liberdade? é tedioso, não sabendo que tipo de humor seguir e tentando trazer reflexões sobre solteirice e comprometimento sem qualquer profundidade. Banal, redundante e óbvio, o filme de Tom Gormican não deve agradar os fãs de comédias pastelão nem as adolescentes apaixonadas.

X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO (X-Men: Days of Future Past, de Bryan Singer): Por alguma razão, não consigo mais me envolver com filme de herois. E por mais que X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido seja mais sobre outras questões ainda bastante contemporâneas e menos sobre poderes especiais, não sei se consigo desassociá-lo dessa overdose que o cinema vem tendo de adaptações de HQ’s. De todo jeito, Bryan Singer volta a provar que faz a diferença na franquia, especialmente depois do filme anterior, que hoje parece tão esquecível. Nesta sequência, tudo está mais seguro, em especial o elenco, que deve ser um dos melhores envolvendo herois no cinema, com destaque para Michael Fassbender (um antagonista imponente e realmente temível) e Peter Dinklage (hoje um estouro em Game of Thrones mas que sempre teve seus momentos especiais no cinema). Talvez esta continuação pudesse aproveitar melhor os atores da antiga franquia, que são praticamente figurantes (Halle Berry deve ter apenas uma fala durante quase duas horas), mas isso não é razão para depreciar a nova geração, principalmente quando personagens como Xavier (James McAvoy, sempre um acerto) estão mais complexos e melhor desenvolvidos. Dias de Um Futuro Esquecido pode até não ser uma revolução para o gênero, mas certamente é uma boa opção quando ir ao cinema para assistir a este tipo de história tem se tornado um verdadeiro exercício de desânimo.

Godzilla

You have no idea what’s coming!

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Direção: Gareth Edwards

Roteiro: Max Borenstein, baseado em história de Dave Callaham

Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, Ken Watanabe, Sally Hawkins, David Strathairn, Juliette Binoche, Richard T. Jones, Victor Rasuk, Patrick Sabongui, Jared Keeso, Luc Roderique, Carson Bolde

EUA, 2014, Ação, 123 minutos

Sinopse: Joe Brody (Bryan Cranston) criou o filho sozinho após a morte da esposa (Juliette Binoche) em um acidente na usina nuclear em que ambos trabalhavam, no Japão. Ele nunca aceitou a catástrofe e quinze anos depois continua remoendo o acontecido, tentando encontrar alguma explicação. Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson), agora adulto, é soldado do exército americano e precisa lutar desesperadamente para salvar a população mundial – e em especial sua família – do gigantesco, inabalável e incrivelmente assustador monstro Godzilla. (Adoro Cinema)

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Não é novidade que Hollywood tem jogado dinheiro para o alto ao realizar blockbusters ruins e sem entretenimento. São infinitas as produções de alto orçamento que nem mesmo em termos técnicos conseguem mais impressionar. Só que nada nos preparava para Godzilla, refilmagem que deve reunir o maior número de atores talentosos em uma verdadeira bomba recente. Antes este longa de Gareth Edwards fosse uma barulheira como Transformers. Nem isso acontece aqui. O que torna Godzilla um verdadeiro tédio é a insistente vontade do roteiro de se levar a sério demais e tentar revolucionar com uma história vista inteiramente a partir do ponto de vista dos humanos. Tedioso não no sentido de ser, conforme apontam alguns defensores, uma trama que quer mostrar o lado dos humanos na tragédia, mas sim de trazer tantas pessoas chatas e insossas para protagonizar os conflitos. Realmente, assim fica fácil torcer para Godzilla destruir a cidade.

O fato do monstro aparecer apenas na meia hora final não seria um problema caso o roteiro de Max Borenstein, baseado em história de Dave Callaham, ganhasse o nosso coração com personagens envolventes. Entretanto, é um verdadeiro teste de paciência aguentar tanta indiferença com as figuras que aparecem na tela. De Juliette Binoche – que sabe-se lá por quê saiu da França para aparecer menos que os créditos iniciais – nem vale a pena falar, mas comecemos com Bryan Cranston, ator que está no auge de sua carreira após o final do seriado Breaking Bad. Ele faz o que pode, mas não consegue fazer muito com o manjado papel de cientista descabelado que grita teorias que ninguém compra – e que depois, claro, revelam-se verdadeiras. Logo também aparece Aaron Taylor-Johnson, de uma inexpressividade absurda, que supostamente é o heroi mas que não tem cacife para sustentar qualquer coisa. Coloque ainda na lista David Strathairn como o canastrão general que representa a arrogância do ser humano perante o que não pode controlar e uma sofrível Sally Hawkins, cuja única função é fazer perguntas e mastigar explicações para o espectador.

A situação piora minuto a minuto porque o roteiro não consegue construir absolutamente nada de consistente em termos de história ou de personalidade para seus personagens. Não existe relevante dimensão psicológica ou emocional nas figuras que surgem na tela – e se um filme “de monstro” se propõe a focar nos humanos, isso era mais do que necessário. Era obrigatório. Sem personagens interessantes, em uma trama que depende deles, a possibilidade de algo dar certo é mínima. Não adianta ter um elenco milionário se falta material para que eles trabalhem. Assim, mesmo quando pensamos relevar a inexistência de personalidade dos personagens e conferir Godzilla com bom humor, não demora muito para que o texto vire um verdadeiro sonífero ao ser cada vez mais carente de jogadas interessantes ou reviravoltas cativantes. Repleto de explanações dispersivas e cenas avulsas (por que mesmo tanta atenção para o menino oriental para depois descartá-lo com descaso?), o filme é uma preparação infinita e desinteressante para um clímax que, apesar dos efeitos e do investimento, nunca está à altura de compensar todo o tédio de antes.

O clímax, por sinal, também fica devendo, com sequências escuras (ainda mais prejudicadas pelo desnecessário 3D) e destruições sem qualquer novidade. Ou seja, Godzilla é vazio, sem senso de entretenimento e completamente nulo em qualquer metáfora que pudesse mostrar que os humanos, por mais que tenham mísseis e as mais altas tecnologias, nem sempre podem controlar e resolver tudo. Tudo dá errado nessa investida de Gareth Edwards, que nada acrescenta aos tantos filmes que já foram feitos sobre o monstro-título. Possivelmente, a trilha do francês Alexandre Desplat seja o único aspecto realmente positivo desse trágico remake que, até pouco tempo atrás, era um dos filmes mais aguardados do ano (em especial com os trailer super imersivos e de tirar o fôlego). Só que Godzilla é, acredite, ainda pior do que esse texto tenta avisar. Um verdadeiro desastre!