Jogo do Dinheiro
Without risk, there is no reward.

Direção: Jodie Foster
Roteiro: Alan DiFiore, Jamie Linden e Jim Kouf, baseado em história de Alan DiFiore e Jim Kouf
Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell, Dominic West, Giancarlo Esposito, Caitriona Balfe, Christopher Denham, Lenny Venito, Chris Bauer, Condola Rashad, Aaron Yoo
Money Monster, EUA, 2016, Drama/Suspense, 98 minutos
Sinopse: Lee Gates (George Clooney) é o apresentador do programa de TV “Money Monster”, onde dá dicas sobre o mercado financeiro mesclando com performances típicas de um popstar. Um dia, um desconhecido (Jack O’Connell) invade o programa exatamente quando ele está sendo gravado e, com um revólver, obriga Lee a vestir um colete repleto de explosivos. Patty Fenn (Julia Roberts), a produtora do programa, imediatamente ordena que o mesmo saia do ar, mas o invasor exige que ele permaneça ao vivo, caso contrário matará Lee. Assim acontece e, a partir de então, tem início uma investigação incessante para descobrir quem é o sequestrador e algum meio de salvar todos os que permanecem no estúdio. Paralelamente, a audiência do programa sobe sem parar e todos passam a acompanhar o que acontecerá com o apresentador. (Adoro Cinema)

Ao receber, em 2013, o troféu Cecil B. DeMille, a grande homenagem do Globo de Ouro para a contribuição de um artista ao cinema, Jodie Foster entregou o melhor discurso visto em anos durante qualquer cerimônia de premiação. O pronunciamento da atriz, entre outros tópicos, apontava discretamente para uma mudança em sua carreira: para bom entendedor, foi fácil perceber que Jodie, vencedora de dois Oscars, já estava desacelerando sua carreira de atriz nos últimos tempos e que, a partir dali, abandonaria maiores holofotes para se dedicar a outros projetos, muito possivelmente atrás das câmeras. Nosso instinto estava certo, pois desde Elysium, sua última investida como intérprete, ela procurou se esmerar como diretora ao comandar episódios de séries como Orange is the New Black e House of Cards. No cinema, àquela altura, já eram três os títulos que levavam sua assinatura, e o quarto chega agora com Jogo do Dinheiro, reforçando o desejo de Jodie Foster de agora ser exclusivamente uma contadora de histórias.
Levando em consideração mais o seu novo trabalho do que o anterior (o curioso Um Novo Despertar, protagonizado por Mel Gibson em 2011), não é muito difícil chegar a conclusão de que, caso Jodie Foster queira mesmo se tornar persona mais marcante no cinema como diretora do que atriz, precisa encontrar roteiros melhor lapidados daqui para frente. A experiência adquirida ao atuar em filmes cercados de tensão, sejam elas dramáticas ou policialescas, como Acusados e O Plano Perfeito, tem claro reflexo no que ela entrega aqui. Com bom domínio do ritmo de seu filme e especialmente do tom de suspense e até mesmo de bom humor que atribui a ele, a atriz-agora-diretora se mostra segura atrás das câmeras, o que faz um notável contraponto ao frágil roteiro escrito pelo trio Alan DiFiore, Jamie Linden e Jim Kouf. Se Foster consegue criar a tensão arquitetada em basicamente dois ambientes, o texto falha ao trazer abordagens mais consistentes ao cenário como um todo. Além das revelações dramáticas do sequestrador apenas seguirem a cartilha básica de humanização de personagens do tipo, decepciona como Jogo do Dinheiro prefere canalizar todas as suas críticas e resoluções a um personagem unidimensional que só aparece de fato no terço final da obra.
Contrabalançando a falta de discussões mais aprofundadas acerca do circo midiático e popular que se forma a partir de um programa que transmite um sequestro em tempo real, a reunião de dois atros do calibre de George Clooney e Julia Roberts reforça o prestígio de Jodie Foster como diretora e consequentemente do próprio filme. São os dois atores, em especial Clooney, que também conferem ao filme boa parte de seu envolvimento. Ele, por sinal, está impagável e dramático na medida certa como um apresentador que, ao se ver em uma situação complicadíssima de sequestro em rede nacional, acerta ao enrolar o sequestrador com todo o carisma que lhe tornou uma estrela e, em contramão, comete erros ao deixar visíveis as suas falhas como um sujeito rico, soberbo e excessivamente consciente do seu estrelato.
Clooney comanda o show porque, óbvio, está ótimo, mas porque Roberts fica apenas sentada atrás das câmeras tentando salvá-lo (e dizem as fofocas de bastidores que ela teria atuado boa parte do filme sem estar de fato no mesmo estúdio do ator em função de sua agenda complicadíssima) e porque Jack O’Connell (aquele ator que sofreu horrores no aborrecido Invencível), mesmo se esforçando, não tem, por natureza, uma presença intensa ou marcante. No balaio, coloque ainda um Dominic West que apenas repete – culpa do roteiro novamente! – o tipo difícil e cafajeste que vem desenvolvendo com grande competência no seriado The Affair. Ademais, bastante nervoso e divertido para os padrões de filmes dessa esfera sem maiores genialidades, Jogo do Dinheiro funciona, mas talvez marque mais caso seja encarado como uma breve diversão para um longo domingo chuvoso.
I Smile Back
Nobody tells you that it’s terrifying to love something so much.

Direção: Adam Salky
Roteiro: Amy Koppelman e Paige Dylan
Elenco: Sarah Silverman, Josh Charles, Skylar Gaertner, Shayne Coleman, Mia Barron, Thomas Sadoski, Sean Reda, Cynthia Darlow, Terry Kinney, Clark Jackson, Brian Koppelman, Emma Ishta, Oona Laurence, Chris Sarandon, Mia Katigbak
I Smile Back, EUA, 2015, Drama, 85 minutos
Sinopse: As coisas estão complicadas no subúrbio. Laney Brooks (Sarah Silverman), esposa e mãe, parou de tomar seus medicamentos, substituindo por drogas ilícitas e homens errados. Com a iminente destruição da família dela, Laney faz uma última e desesperada tentativa de redenção. (Adoro Cinema)

É uma injustiça das mais tristes de se testemunhar: qualquer atriz à espera de um Oscar que entregasse exatamente o que Sarah Silverman entrega em I Smile Back varreria uma temporada de premiações e seria aplaudida mundo afora. O papel por si só já seria o sonho para qualquer intérprete aberta a desafios dramáticos: o da mulher suburbana que, casada com o marido perfeito e mãe de dois filhos, simplesmente não nasceu para cumprir tais papeis, constantemente se sabotando ao ser infiel e ao se drogar em qualquer banheiro. Imagine, então, o grande momento que I Smile Back representaria para a carreira de uma Laura Linney da vida, por exemplo, que certamente não seria nem sabotada pelo perfil altamente independente do filme de Adam Salky. Só que a protagonista Laney Brooks foi parar nas mãos da comediante de TV Sarah Silverman, o que automaticamente a desqualifica para receber maiores reconhecimentos, mesmo com uma importante indicação ao Screen Actors Guild Awards 2016 de melhor atriz. Realmente, uma triste injustiça.
Por outro lado, dramaticamente falando, é muito esperto da parte de I Smile Back escalar uma atriz como Sarah Silverman para uma história como essa, já que, com tal escolha, nunca conseguimos prever o que ela pode fazer no gênero. Mais: temos em cena uma intérprete completamente livre de vícios de interpretação no drama e que, ao longo do filme, constantemente instiga o espectador ao levá-lo por caminhos que ele não imaginava que pudessem ser trilhados por ela. É com uma força para lá de discreta que Silverman, assim como o próprio I Smile Back, aos poucos nos imerge em sua dramaticidade. Existe um quê dos desesperos suburbanos frequentemente retratados pelo escritor estadunidense Tom Perrota (com destaque para Pecados Íntimos) na personagem, que tenta, a todo custo e apesar das repetidas falhas, cumprir os papeis que a sociedade impõe às mulheres. Mesmo tentando, nossa protagonista é, por natureza, incapaz de desempenhá-los, e é aí que mora o conflito mais angustiante da obra.
Pode até ser que o roteiro escrito pela dupla Amy Koppelman e Paige Dylan não tenha tanto esmero quanto os de outros representantes do cinema independente realizado nos Estados Unidos (é quase imperdoável, por exemplo, a total unilateralidade do marido vivido por Josh Charles, cuja perfeição como homem, pai e ser humano sequer chega a ser usada como mais uma forma de sufocar a protagonista), mas novamente a sobriedade reina, o que é essencial para conflitos que, em mãos descuidadas, seriam verdadeiros dramalhões, no pior sentido da referência. Felizmente, o diretor delineia bem as fronteiras dos tons dramáticos de I Smile Back, ganhando até mesmo momentos emocionantes quando toma o caminho oposto do esperado e reprime sentimentos que, em outras abordagens, renderiam uma infinidade de lágrimas e discussões, como na cena em que a personagem faz uma visita a uma antiga pessoa de seu conturbado passado.
É somente nos minutos finais que Salky e os roteiristas saem da linha e pesam demais a mão em uma sucessão de acontecimentos repletos de infortúnios para tornar ainda mais nebuloso o fundo do poço em que se encontra a personagem. Não era necessário chegar a tantos extremos em um filme que se torna angustiante por justamente reprimir tanta coisa. Fora isso, ao saber dosar diversos temas como infidelidade, drogas, desarranjos familiares e matrimônio com as devidas proporções em uma duração de 85 minutos que poderia trazer superficialidade à história, I Smile Back é um acerto por, assim como tantos trabalhos de sua mesma natureza de produção, apostar no diálogo direto com a vida real, sem firulas cinematográficas – e isso é lindo, mesmo que custe ao próprio longa e a sua própria protagonista, em performance reveladora, um duro esquecimento que já pode ser notado: desde janeiro de 2015 rodando festivais como Sundance e Toronto, I Smile Back não tem previsão de lançamento no Brasil e, nos Estados Unidos, entrou em cartaz apenas em circuito limitado.
Rapidamente: Creed, Deadpool e Olhos da Justiça

Apesar da personalidade própria criada pelo diretor e roteirista Billy Ray, Olhos da Justiça tropeça por não ter a sutileza tão necessária à história e que consagrava o longa original.
CREED: NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, de Ryan Coogler): Para quem conferiu o contundente Guerreiro, de 2011, chega a ser um exercício de muita paciência ter que acompanhar Creed: Nascido Para Lutar até o final. Com relativa repercussão por ter quase dado um Oscar a Sylvester Stallone (o que seria injusto, diga-se de passagem, já que a presença dele aqui nada mais é do que uma nova confusão entre personagem e o ator na vida real, a exemplo de Mickey Rourke em O Lutador e Michael Keaton em Birdman), o filme dirigido por Ryan Coogler, em seu primeiro trabalho após a estreia em longas com o ótimo Fruitvale Station: A Última Parada, torna-se entediante por se enfronhar nos mais diversos clichês de pessoas que tentam recomeçar a vida através da luta. Não bastasse o herói desacreditado que precisa convencer um consagrado treinador aposentado de seu talento, Coogler ainda coloca na mistura uma doença terminal e muitos melodramas envolvendo um conturbado passado familiar do protagonista. Só que, sendo bem objetivo, faltam, no trabalho de Coogler, as sutilezas apresentadas por ele Fruitvale Station, e, em termos de luta e da relação dela com a própria vida, a emoção e a visceralidade de Guerreiro.
DEADPOOL (idem, 2016, de Tim Miller): Chegou aos cinemas fazendo muito barulho e ainda hoje ostenta uma admiração respeitável, considerando a média da maioria de filmes baseados em HQ’s. Tem sua graça, é verdade, mas Deadpool procura fazer humor de mais e história de menos, o que automaticamente faz com que o resultado caia na armadilha de dar risada de problemas que, lá no fundo, ele mesmo também cultiva. Às vezes excessivamente piadista, Deadpool é frágil em seus conflitos e pouco envolvente nos fatos, deixando a sensação de que o humor atravanca o fluxo da história. Para quem vai pelo mero entretenimento e não se preocupa tanto com o desenrolar de uma trama, o filme de Tim Miller cumpre sua cota de diversão, conseguindo, inclusive, fazer piadas mais ousadas e até refinadas, como aquela em que o protagonista afirma que beleza realmente é tudo na vida e que Ryan Reynolds é uma prova disso. “Ou você acha que ele fez sucesso por causa de suas ótimas interpretações?”, pergunta o personagem. É por momentos assim e por podermos ver uma Morena Baccarin mais marcante do que o habitual que Deadpool amortece seus problemas de coesão e diverte.
OLHOS DA JUSTIÇA (Secret in Their Eyes, 2015, de Billy Ray): O diretor e roteirista Billy Ray (indicado ao Oscar com a ótima adaptação de Capitão Phillips) optou pelo melhor caminho: conferir a Olhos da Justiça, refilmagem do celebrado filme argentino O Segredo dos Seus Olhos, uma identidade própria. São raríssimos os momentos em que o remake parece preocupado em meramente reproduzir o que deu certo na obra assinada por Juan José Campanella. Tal escolha traz ao longa até mesmo uma certa imprevisibilidade: afinal, Billy Ray seguirá à risca todos os acontecimentos do material original? Isso não é suficiente, entretanto, para que Olhos da Justiça se torne um filme particularmente envolvente. É frio e distante o resultado alcançado aqui, e a culpa é da americanização da história: nesse novo, tudo é muito policialesco e centrado em excesso na obsessão do protagonista em solucionar o crime em questão. Assim, Olhos da Justiça cai naquele clichê do homem com um sexto sentido a quem ninguém dá ouvidos apesar de toda e qualquer prova. O elenco é bom, mas também não há química entre uma insossa Nicole Kidman e um Chiwetel Ejiofor que, ao contrário de como foi com Ricardo Darín, é conduzido rumo a um caminho de emoções mais externas do que internas. Há quem aplauda a interpretação de Julia Roberts, que sempre foi subestimada fazendo dramas pós-Erin Brokovich, mas até ela desperta dúvidas: não seria sua aparição mais impactante do que as outras apenas pelo papel claramente mais dramático e pela falta de maquiagem e qualquer glamour? Longe de ser um completo desastre como prometia, Olhos da Justiça, por outro lado, não impressiona – e, infelizmente, desaparece facilmente da memória com o passar dos dias.
Fogo no Mar

Direção: Gianfranco Rosi
Roteiro: Gianfranco Rosi
Elenco: Samuele Caruana, Giuseppe Fragapane, Pietro Bartolo, Maria Costa, Francesco Mannino, Maria Signorello, Samuele Pucillo, Mattias Cucina
Fuocoammare, Itália/França, 2016, Documentário, 108 minutos
Sinopse: O documentário captura a vida da ilha italiana de Lampedusa. Na costa sul da Itália, o local se tornou linha de frente na crise de imigração da Europa, sendo manchete mundial nos últimos anos por ser o primeiro porto de escala para centenas de milhares de imigrantes da África e do Oriente Médio que tentam fazer uma nova vida no continente europeu. (Adoro Cinema)

Um dos registros mais impactantes de Fogo no Mar está no rosto de um homem que literalmente chora sangue. Ele acaba de ser retirado de uma barca clandestina com centenas de outros africanos que seguiam rumo à ilha italiana de Lampedusa, ponto muito comum entre imigrantes que procuram chegar ao continente europeu. A barca estava lotada de pessoas que, durante dias, não comiam ou bebiam e se submetiam a temperaturas e situações precárias para cruzar ilegalmente o Mar Mediterrâneo rumo a terras mais promissoras. Como consequência, esses africanos queimam suas peles, morrem de desidratação e, a exemplo da cena citada, mutilam sua saúde chegando até mesmo a produzir lágrimas de sangue. Curiosamente, no bom sentido, Fogo no Mar não se concentra nessa abordagem: o documentário assinado por Gianfranco Rosi pode até ter momentos visualmente impactantes, mas, na realidade, seu foco privilegia a vida na ilha de Lampedusa e como o cotidiano dos moradores é eventualmente afetado por essa crise imigratória, contrapondo-se à ideia de acompanhar a jornada dos africanos, uma escolha que seria feita por quatro entre cinco cineastas.
Melhor filme no Festival de Berlim 2016 e classificado pela presidente do júri Meryl Streep como uma obra “urgente, imaginativa, necessária e que instiga o nosso envolvimento e a nossa ação”, Fogo no Mar é defendido por seu diretor como um exercício de criação. Para Rosi, vivemos tempos de excesso de informações, cabendo ao cinema seguir um caminho oposto e ser uma plataforma de transgressão, onde a exposição, seja de fatos ou personagens, não deve ser fator preponderante para a excelência de um documentário. O cinema, dessa forma, deve se utilizar de suas ferramentas para nos imergir em algo novo. Bravo, sr. Rosi! Partindo desse conceito, a câmera do longa-metragem simplesmente observa os personagens, nunca fazendo com que eles sentem em uma cadeira para falar diretamente ao espectador. Em quase duas horas, vemos de perto os dias de uma senhora que, cuidando da casa, ouve, entre uma ou outra de suas músicas italianas favoritas, as notícias envolvendo as tragédias dos imigrantes, ou, então, os de um médico que atende todos os refugiados africanos. A figura mais curiosa, contudo, é um garotinho muito carismático que vive suas estripulias de criança na ilha. Mesmo não parecendo, ele é importante para a narrativa pois deixa a balança muito equilibrada: o sopro de bom humor trazido pelo menino é fundamental para que Fogo no Mar não se torne uma experiência de pesada absorção.
Não deixa de causar um certo estranhamento a subversão do formato ou a própria contemplação desse ritmo tão comum ao cinema europeu (estamos falando de uma coprodução Itália/França), só que a experiência é especial justamente por sua configuração atípica. Visualmente, Rosi, que assina a inteligente fotografia do documentário, também cumpre a proposta de impactar o espectador, mas de forma muito sábia, já que ele prefere guardar somente para os momentos finais os registros mais detalhados da captura dos imigrantes. É a partir dessa parte que vem o depoimento mais marcante do filme: o do médico que nega veemente a ideia de que, por ser um profissional da saúde, já teria se acostumado a testemunhar as tristes condições dos refugiados. “Como se habituar à imagem de uma mãe que deu luz ao filho durante a viagem e chega à Lampedusa com o recém nascido ainda pendurado pelo cordão umbilical?”, pergunta o personagem. Rosi não realizou um filme fácil em tema, forma e ritmo, mas a consagração em Berlim atesta a inteligência do Festival ao reconhecer uma obra que é muito consistente em um gênero pouco celebrado ao redor do mundo. O diretor, que só falta conquistar Cannes para ter a tríplice coroa dos festivais mais importantes de cinema (ele venceu Veneza em 2003 com Sacro GRA), diz que só realizará mais um filme e, depois disso, se dedicará exclusivamente a um de seus maiores sonhos: o mundo acadêmico. Haja sabedoria para encerrar uma história no auge – e isso, julgando por Fogo no Mar, Rosi parece ter de sobra.
Conspiração e Poder
Courage.

Direção: James Vanderbilt
Roteiro: James Vanderbilt, baseado no livro “Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power”, de Mary Mapes
Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quais, Elisabeth Moss, Topher Grace, Bruce Greenwood, John Benjamin Hickey, Stacy Keach, Dermot Mulroney, Rachael Blake, Andrew McFarlane
Truth, EUA/Inglaterra, 2015, Drama, 125 minutos
Sinopse: A produtora da CBS Mary Mapes (Cate Blanchett) suspeita que o presidente George W. Bush usou a influência de seu sobrenome e acionou seus contatos para não combater na Guerra do Vietnã. Com a ajuda de uma fonte, ela consegue os documentos necessários para a comprovação da denúncia e leva a história ao ar no programa 60 Minutes, apresentado pelo lendário Dan Rather (Robert Redford). Ao invés de abalar a campanha de reeleição de Bush, no entanto, o que se vê após a exibição é um processo de descrédito das informações que coloca em xeque todo o trabalho da equipe de reportagem. (Adoro Cinema)

Timing é tudo na vida, e Conspiração e Poder é uma prova disso. Afinal, o filme de James Vanderbilt, roteirista de Zodíaco e que aqui assina seu primeiro trabalho como diretor, sofre inevitáveis comparações por ser lançado logo após o sucesso de Spotlight – Segredos Revelados, o grande vencedor do Oscar 2016. A temática é a mesma, o formato idem e até o teor de jornalismo investigativo se repete. Fora as semelhanças temáticas, vem aquele cansaço de ter que assistir um filme com a mesma proposta de estrutura tão cedo. Spotlight ainda está fresco demais na memória, o que nos impede de ver Conspiração e Poder com um olhar mais apurado e também constatar que, caso fosse lançado em outra época, o longa estrelado por Cate Blanchett certamente teria o tempo e os espectadores mais ao seu lado.
Em contrapartida, vamos dar os louros a quem merece. Mesmo com tropeços, Conspiração e Poder não abraça aquilo que mais incomodava em Spotlight: a confiança excessiva no texto e a opção por preterir outras ferramentas cinematográficas em detrimento disso. Aqui, Vanderbilt se preocupa sim em entregar um roteiro bem costurado, mas também tem a consciência de que o uso da trilha, por exemplo, amplia os sentidos da história. Pode ser um tanto cafona ver Cate Blanchett chorando em slow motion ao receber uma má notícia por telefone, mas certas passagens de tempo e espaço ficam mais dinâmicas e envolventes com a dramatização dos fatos a partir da técnica. Conspiração e Poder também não esquece que jornalista tem vida pessoal e novamente sai ganhando ao mostrar uma protagonista tão submersa no trabalho que não consegue nem completar direito a simples tarefa de colocar leite e sucrilhos na mesa para que seu filho faça uma refeição matinal.
O problema é que Conspiração e Poder não se engrandece com os fatos investigados pelos jornalistas da equipe do 60 Minutes, programa televisivo da CBS liderado pela produtora Mary Mapes (Blanchett). Enquanto os temas igreja e pedofilia faziam toda a diferença para envolver e impactar em Spotlight, uma específica investigação envolvendo um conturbado passado militar do ex-presidente dos Estados Unidos George Bush não dá ao filme de Vanderbilt o gás que merecia. E a razão do tema não surtir grande efeito é muito simples: toda a busca aconteceu nas eleições estadunidenses de 2004, período que não é devidamente contextualizado pela história. Bush supostamente havia usado de influências para não combater na Guerra do Vietnã, e tal desconstrução da reputação do presidente faria toda a diferença para os eleitores da época, principalmente por se tratar de um assunto militar, algo tão enraizado no cotidiano dos Estados Unidos. No entanto, pouco se fala (e muito menos se mostra) sobre aquele período político.
Em Conspiração e Poder, tudo é visto exclusivamente de dentro da redação, o que deixa a errada impressão de que aquela é apenas mais uma importante mas corriqueira reportagem do programa. Ou seja, toda a cruzada dos personagens para confirmar as suspeitas de que Bush havia fugido da missão de ir ao Vietnã parece não ter tanta influência assim até o momento em que o resultado vai ao ar e passa a sofrer uma série de tentativas de descrédito por parte dos simpatizantes do presidente em busca de reeleição. Com isso, o filme ganha uma maior força cinematográfica e jornalística, discutindo importantes questões como o fato de telejornais, apesar de influentes, não renderem dinheiro até determinada época da profissão ou sobre até que ponto um jornalista deve ter seu trabalho analisado a partir de suas posições políticas. Os processos cotidianos da profissão também são retratados corretamente pelo roteiro, que repete o belo serviço de pontuar muito bem o que cabe ou não a um jornalista em uma complicada investigação repleta de interesses.
A única beneficiada pela aproximação temporal entre Conspiração e Poder e Spotlight é Cate Blanchett, pois aqui ela pode reafirmar sua grande versatilidade. Como Mary Mapes, a atriz se distancia do tipo socialite cheia de classe que apresentou em filmes como Blue Jasmine e Carol para criar uma personagem que em nada se assemelha às citadas, seja na entonação de voz ou em qualquer gesto. Blanchett compreende a força, a vulnerabilidade e a competência de uma mulher comum que claramente sabia o que estava fazendo em uma profissão que viria a abandonar em 2004 após os eventos do filme. Ela rouba por completo a cena de um elenco onde Robert Redford não tem muito a fazer além de emprestar seu inegável prestígio a um personagem que exigia esse simbolismo e onde coadjuvantes pouco acrescentam à narrativa (ainda fazendo comparações com Spotlight, Elisabeth Moss é apenas a Rachel McAdams da vez que só está ali para fazer perguntas). Blanchett é, pelo menos até agora, a força de um longa tradicional e pouco inventivo, mas que nunca chega a parecer cópia. Conspiração e Poder é apenas vítima do acaso. Quem sabe o tempo não conseguirá lhe fazer alguma justiça?