Cinema e Argumento

A Juventude

You say that emotions are overrated, but that’s bullshit. Emotions are all we’ve got.

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Direção: Paolo Sorrentino

Roteiro: Paolo Sorrentino

Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda, Alex Macqueen, Madalina Diana Ghenea, Loredana Cannata, Gabriella Belisario, Alex Beckett, Nate Dern, Chloe Pirrie, Tom Lipinski

Youth, Itália/França/Suíça/Reino Unido, 2015, Drama, 124 minutos

Sinopse: Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel), dois velhos amigos com quase 80 anos de idade cada, estão passando as férias em um luxuoso hotel. Fred é um compositor e maestro aposentado e Mick é um cineasta em atividade. Juntos, os dois passam a se recordar de suas paixões da infância e juventude. Enquanto Mick luta para finalizar o roteiro daquele que ele acha que será seu último grande filme, Fred não tem a mínima vontade de voltar à música. Entretanto, muita coisa pode mudar. (Adoro Cinema)

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Os personagens de A Juventude estão em fuga. Alguns propositalmente e outros por sorte, todos se refugiam em um luxuoso hotel nos alpes suíços, onde o silêncio reina e a ordem é relaxar. Fred Ballinger (Michael Caine), grande compositor agora aposentado, tenta escapar de seu próprio passado glorioso: ninguém parece entender que o artista responsável pelas famosas Canções Simples tem como único desejo curtir a vida depois de intensas décadas de trabalho ao invés de conduzir novamente uma orquestra ou escrever uma autobiografia encomendada por editores franceses. Assistente de seu pai, Lena Ballinger (Rachel Weisz) é abandonada pelo marido e agora precisa seguir em frente, abandonando sua vida passada. Já Mick (Harvey Keitel), que se orgulha de ser um diretor bem sucedido de atrizes e ter revelado a intérprete vencedora de dois Oscars Brenda Morel (Jane Fonda), escreve um novo filme para, como logo descobrimos, tentar se distanciar de uma carreira que, nos últimos anos, vem sido massacrada por público e crítica. Por fim, existe Jimmy Tree (Paul Dano), ator jovem e sensível sempre lembrado por um dos papeis de sua carreira que mais detesta – e que, agora, com um novo projeto, quer justamente deixar uma outra lembrança para o público que não seja a do tosco robô com uma roupa de cem quilos que lhe lançou popularmente.

Como se percebe, A Juventude, exibido em competição no Festival de Cannes de 2015, é um filme que abrange os dilemas mais diversos de gerações bastante distintas: a velhice se contrasta com a juventude, a beleza de uma Miss Universo provoca a suposta superioridade de um homem das artes, a experiência bate de frente com o frescor dos principiantes, a decadência é questionada pelo sucesso e a vida pessoal reivindica o tempo consumido pelo trabalho. É preciso maturidade para não transformar esse caldeirão temático em uma mistura dispersa e sem consistência, e maturidade o consagrado diretor italiano Paolo Sorrentino tem de sobra. Ele, que recentemente levou mais um Oscar de filme estrangeiro para a Itália com A Grande Beleza, agora se refugia nas belas paisagens da Suíça para contemplar cinematograficamente a diversidade emocional da vida com esse belo filme estrelado pelos veteranos Michael Caine e Harvey Keitel. O ritmo adotado é pausado e, apesar de um ou outro momento mais explícito (o monólogo de Rachel Weisz durante uma massagem é um deles), tudo se desenvolve bastante por imagens e por momentos silenciosos eventualmente cortados por observações certeiras. A Juventude não escorrega ao abraçar todos os seus personagens, e faz com que todos eles se tornem figuras próximas e perfeitas em suas imperfeições.

Não procuro medir meu entusiasmo para falar sobre a beleza com que Sorrentino, também autor do roteiro, transforma momentos pequenos em grandes, como um simples passeio na floresta onde Caine e Keitel dão uma daquelas aulas de sobriedade e uso das palavras que só a boa experiência de atores como eles pode trazer. Tudo não deixa de abrir margem para a crítica de que este é um filme sobre “os ricos também sofrem” (afinal, não é todo mundo que pode reavaliar a vida em um SPA em cenários de cair o queixo na Suíça), mas o que é discutido em A Juventude é sim universal. Sorrentino filma com elegância (e isso não tem nada a ver com as paisagens que por si só já ajudam), transformando a experiência em algo sensorial: a música, por exemplo, se mostra ferramenta envolvente desde a abertura com a apresentação de You Got the Love, da Retrosettes Sister Band, até clássicos de Debussy e Stravinsky, enquanto as imagens se revelam até emocionantes, como na brincadeira envolvendo um monge que diz levitar durante a meditação.

Michael Caine é mesmo maravilhoso como o maestro que, por razões pessoais, recusa o convite até mesmo da Rainha da Inglaterra para voltar a tocar, mas, em um filme tão completo sobre o choque de gerações, é preciso dar créditos também a outros dois atores essenciais nessa jornada: o inspirado Harvey Keitel, que, na única cena de Jane Fonda em particular, faz uma excelente dupla com a atriz a partir de um texto sobre as possibilidades de como conduzir uma carreira de cinema na terceira idade, e o sempre ótimo Paul Dano, que não cansa de surpreender como um ator emotivo sem precisar dizer uma palavra sequer – e, se o tempo lhe fizer justiça, ele tem tudo para ser tão grande quanto os atores com quem contracena neste filme. Todos dão o tom certo a A Juventude, que se encerra naquele que é possivelmente o momento mais tocante da história: quando finalmente ouvimos por completo a bela Simple Song #3 (indicada ao Oscar 2016 de melhor canção original). Em certo momento, um jovem garoto que está aprendendo a tocar violino diz que seu professor lhe entregou a canção justamente por ela ser ideal para principiantes. Mas, como bem descobrimos pela fala do menino e por tudo que a história mostra, não é porque a simplicidade reina que a beleza está ausente. Sendo assim, não tenho dúvidas de que quero mais canções simples como A Juventude pela frente.

O Quarto de Jack

– You’re gonna love it.
– What?
– The world.

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Direção: Lenny Abrahamson

Roteiro: Emma Donoghue, baseado no livro “Room”, de autoria própria

Elenco: Jacob Tremblay, Brie Larson, Joan Allen, Sean Bridgers, Matt Gordon, William H. Macy, Randal Edwards, Wendy Crewson, Sandy McMaster, Amanda Brugel, Joe Pingue, Cas Anvar

Room, Irlanda/Canadá, 2015, Drama, 118 minutos

Sinopse: Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay) vivem isolados em um quarto. O único contato que ambos têm com o mundo exterior é a visita periódica do Velho Nick (Sean Bridgers), que os mantém em cativeiro. Joy faz o possível para tornar suportável a vida no local, mas não vê a hora de deixá-lo. Para tanto, elabora um plano em que, com a ajuda do filho, poderá enganar Nick e retornar à realidade. (Adoro Cinema)

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Presidindo o júri do Festival de Berlim em 2016, Meryl Streep recomendou aos seus colegas avaliadores que fossem de peito aberto às sessões ao adotar a seguinte tática: embarcar em cada um dos filmes concorrentes sabendo o mínimo possível sobre as suas histórias e evitando até mesmo entrar em contato com o catálogo oficial do evento. É uma missão árdua quando a internet nos introduz informações mesmo quando não estamos atrás delas. Não estamos no Festival de Berlim, mas, no caso específico de O Quarto de Jack, faz toda a diferença adotar o conceito da presidente Meryl Streep e assistir ao filme completamente no escuro. No entanto, isso não se relaciona em nada com o fato da obra assinada por Lenny Abrahamson ser repleta de reviravoltas. O que acontece é que o drama da jovem Joy (Brie Larson, vencedora do Oscar 2016 de melhor atriz por seu desempenho aqui) se torna muito mais imersivo quando nos coloca na pele do pequeno Jack (Jacob Tremblay). Afinal, O Quarto de Jack se engrandece toda vez que vemos o mundo com os mesmos sentimentos de surpresa do garoto que dá título ao filme.

Não é de hoje que narrar uma tragédia ou dramas complexos a partir do ponto de vista da inocência pode resultar em experiências para lá de emocionantes. Lembram da difícil infância dos quatro garotinhos de Em Busca da Terra do Nunca que ganha um novo sentido quando J.M. Barrie (Johnny Depp) entra em suas vidas com o poder transformador da literatura? Pois a situação de O Quarto de Jack é muito mais delicada, e por isso é tão importante você acompanhar, junto ao personagem do título, cada informação que Abrahamson, em parceria com a roteirista e escritora do livro original Emma Donoghue, lança para que possamos reinterpretar todos os significados de um ambiente inicialmente inidentificável. Sabemos logo de cara, claro, que O Quarto de Jack é uma ode ao amor materno, mas é questão de tempo para que ele também se revele – e de forma ainda mais tocante – como a afirmação da ideia de que filhos podem ser uma força de amor e segurança igualmente poderosa para qualquer mãe. Nesse sentido, o roteiro de Donoghue é perfeito ao não depender da revelação sobre o que realmente é o tal quarto de Jack para que o espectador consiga se conectar emocionalmente com os personagens desde o princípio.

Outro ótimo exemplar do cinema independente, O Quarto de Jack não tropeça nos obstáculos de ter que encenar praticamente metade de sua história em um único ambiente. A mise-en-scène e o próprio design de produção colaboram para que nos tornemos íntimos dos protagonistas e para que o filme de Lenny Abrahamson se torne um mistério até mesmo nos detalhes. Não deixem de se atentar para como a decoração de set e até mesmo as vestimentas dos personagens nunca acusam nem mesmo o tempo ou o espaço em que O Quarto de Jack se passa: assim como Joy e seu filho podem estar em um espaço urbano contemporâneo, não deixa de ser aceitável a ideia de ambos estarem em um ambiente subterrâneo durante uma guerra. Obviamente todo esse contexto é um belo presente para qualquer ator brilhar, e a dupla formada por Brie Larson e Jacob Tremblay pega o espectador de jeito. Ele, em especial, é quem detém o brilho do filme por ser um excelente ator e principalmente por ter a seu favor uma história que depende inteiramente de seu personagem. Não há qualquer construção dramática que Brie Larson faça que não seja consequência direta do que Tremblay faz em cena, e por isso é um crime ela ter faturado todos os prêmios da temporada enquanto o pequeno tenha precisado se contentar apenas com uma indicação de melhor ator coadjuvante (?!) ao Screen Actors Guild Awards.

Ao chegar em sua metade, O Quarto de Jack dá uma completa guinada, tornando-se bastante diferente em comparação ao que vinha construindo. Apesar das necessárias discussões propostas, não deixa de ser um tanto frustrante constatar que, ao perder a circunstância do quarto em questão, o longa passa a ser apenas um (bom) drama sobre a reconstrução de duas vidas. Ao transferir sua geografia, O Quarto de Jack não deixa de se fragilizar, o que fica evidente em descuidos um tanto imperdoáveis, como a entrada do personagem de William H. Macy. Bom ator que é, ele não precisava estar aqui com um papel tão esquecível, pouco aproveitado e que quase não acrescenta nada à história. Em contrapartida, é bom ter uma Joan Allen eficiente e afetuosa em cena. Se o último terço do filme dá mais chances a Brie Larson, é Jacob Tremblay quem continua sendo mesmo a força do todo, compensando eventuais deslizes ou obviedades do roteiro. Por sua ótima atuação e por seu personagem plenamente compreendido pela equipe como o norte da produção, Tremblay merece todos os aplausos – e olha que não é missão fácil brilhar em um filme que já tem a emoção como uma grande marca.

Brooklin

There’s nothing you can do about it apart from endure it.

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Direção: John Crowley

Roteiro: Nick Hornby, baseado no livro “Brooklyn”, de Colm Tóibín

Elenco: Saoirse Ronan, Julie Walters, Jim Broadbent, Domhnall Gleeson, Maeve McGrath, Brid Brennan, Eileen O’Higgins, Jane Brennan,  Eileen O’Higgins, Peter Campion, Eva Birthistle,  Emily Bett Rickards,  Eve Macklin,  Nora-Jane Noone, Samantha Munro

Brooklyn, Irlanda/Reino Unido/Canadá, 2015, Drama, 111 minutos

Sinopse: A jovem irlandesa Eilis Lacey (Saoirse Ronan) se muda de sua terra natal e vai morar em Brooklyn para tentar realizar seus sonhos. No ínicio de sua jornada nos Estados Unidos, ela sente falta de sua casa, mas ela vai tentando se ajustar aos poucos até que conhece e se apaixona por Tony (Emory Cohen), um bombeiro italiano. Logo, ela se encontra dividida entre dois países, entre o amor e o dever. (Adoro Cinema)

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Viver a turbulência e as eventuais dores da transição para vida adulta é uma difícil missão dada a todos nós. Por outro lado, acompanhar os momentos de amadurecimento que fazem parte dessa fase da vida tem sido motivo de prazerosas experiências no cinema. Cito particularmente o que os britânicos realizam em torno do assunto, uma vez que é fácil conferir este recente Brooklin (ainda é inexplicável a tradução brasileira que trocou o y do título original por i) e imediatamente lembrar de outro título igualmente elegante e delicado realizado no Reino Unido: Educação, longa indicado ao Oscar de melhor filme e responsável por revelar Carey Mulligan. Os dois trabalhos falam sobre duas garotas que vivem o momento crucial em que é necessário abandonar a inocência para adentrar a vida adulta. Porém, por mais semelhantes que possam ser em suas temáticas, as duas obras trilham caminhos distintos: enquanto a Jenny de Educação se reconfigura a partir da (re)construção amorosa, a Eilis de Brooklin acha um novo sentido para sua vida quando busca em terras estrangeiras um lugar que realmente possa chamar de lar.

Com muita graça e sutileza, o diretor John Crawley conduz a protagonista Saoirse Ronan por uma história de raízes incrivelmente novelescas, mas nunca permite que o filme como um todo se contamine com o sentido pejorativo dessa definição. É certo que Brooklin, com exceção de seu desfecho, se estrutura a partir de infinitas previsibilidades (as mais evidentes são aquelas que colocam a nossa heroína em uma saia justa sobre qual terra ela realmente deve chamar de sua), o que não impede que Crowley dê um toque envolvente e encantador para o roteiro escrito pelo sempre carismático Nick Hornby. Brooklin resgata a inocência e a fé nas relações humanas, proporcionando ao espectador um certo alento em tempos que nossas interações se tornam cada vez mais superficiais e distantes com o advento da internet e seus aplicativos de relacionamentos. Crawley e Hornby conseguem fazer uma novela clássica sem testar a paciência do espectador, que, em questão de minutos, certamente se pegará torcendo pela protagonista. Isso também não deixa de ser mérito de uma maravilhosa Saoirse Ronan, que já era um arraso em Desejo e Reparação e agora vem para quebrar a regra de que crianças celebradas não voltam a arrebatar depois de adultas.

A parte técnica de Brooklin ajuda a conduzir o espectador pelas transformações da jovem Eilis, menos pela suposta investida do diretor em filmar a história com três diferentes movimentos de cores e mais por elementos discretamente eficientes, como os belíssimos figurinos desenhados por Odile Dicks-Mireaux (o mesmo de Educação!) que se destacam não somente pela beleza, mas por seguirem a lógica de que figurinos também precisam ser ferramentas narrativas. Todo esse apanhado de acertos, entretanto, não funciona de imediato: em seu primeiro ato, Brooklin é um filme apressado, quase bagunçado, e ainda um tanto perdido nos seus tons novelescos (a trilha de Michael Brook, por exemplo é frequentemente invasiva). Por sorte, pouco a pouco, o diretor coloca o filme nos trilhos e passa a apostar mais na delicadeza e no carisma, até porque a entrada do italiano Tony Fiorello (o adorável Emory Cohen) dá uma dimensão muito mais carinhosa para a nova vida da irlandesa Eilis nos Estados Unidos.

Inicialmente pré-produzido com Rooney Mara como protagonista (Saoirse Ronan foi a primeira escolha, mas era jovem demais para o papel, até Mara desistir do projeto), Brooklin não é um filme de grandes engenhosidades, o que não anula aquele que é o seu maior mérito: o de transformar uma história absurdamente simples em algo prazeroso. Se o diretor John Crowley realmente não faz coisas grandiosas com o texto de Nick Hornby, por outro lado é errado dizer que seu trabalho no longa é desprovido de personalidade. Afinal, não é qualquer profissional que consegue capitanear a ideia de algo tão simples quanto Brooklin e ainda assim fazer funcionar. É preciso sensibilidade para enxergar tudo isso e, principalmente, se despir do errado conceito de que no previsível não pode existir algo vivo e pulsante. Um belo momento do longa que coloca essa ideia abaixo é a cena final, que, com uma linda narração sobre como o sofrimento é etapa indesviável rumo a superação das adversidades da vida, tem tudo para fisgar o coração até dos mais céticos. Brooklin tem a pegada clássica de simplicidade e emoção que os britânicos nunca deixam morrer – e com toda razão.

A Bruxa

Wouldst thou like to see the world?

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Direção: Robert Eggers

Roteiro: Robert Eggers

Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens, Julian Richings, Wahab Chaudhry

The Witch: A New-England Folktale, EUA/Reino Unido/Canadá/Brasil, 2015, Terror, 92 minutos

Sinopse: Nova Inglaterra, década de 1630. O casal William e Katherine leva uma vida cristã com suas cinco crianças em uma comunidade extremamente religiosa, até serem expulsos do local por sua fé diferente daquela permitida pelas autoridades. A família passa a morar num local isolado, à beira do bosque, sofrendo com a escassez de comida. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece. Teria sido devorado por um lobo? Sequestrado por uma bruxa? Enquanto buscam respostas à pergunta, cada membro da família enfrenta seus piores medos e seu lado mais condenável. (Adoro Cinema)

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O verdadeiro terror de A Bruxa se escancara logo no início do filme e, assim como no restante da produção, ele está longe de se configurar da maneira como estamos habituados a ver no gênero. O motivo não é nada associado a sustos: em plena década de 1630, uma família é expulsa de uma comunidade religiosa não por pecado ou voluptuosidade, mas sim pelo excesso de credo. Isso mesmo, excesso de religiosidade em 1630! Existe algo mais amedrontador do que isso? O afastamento dos personagens é o ponto de partida para a série de paranoias desse clã que, ao se isolar em uma paupérrima casa no meio da floresta, começa a viver situações estranhas que fogem de seu controle e a acreditar que aquele local está sendo pouco a pouco tomado por uma entidade sobrenatural. Não se engane, porém, ao pensar que A Bruxa é um terror clássico para ir ao cinema assistir com os amigos. Na realidade, é bem provável que seja o oposto: praticamente os sustos inexistem neste filme que preza muito mais por angustiantes conflitos psicológicos e por uma técnica que nos mergulha no silencioso descontrole contado aqui.

Dirigido pelo estreante Robert Eggers, A Bruxa não deixa de lembrar o clima de A Vila, aquele subestimadíssimo filme de época assinado por M. Night Shyamalan que também falava sobre uma comunidade isolada em uma floresta e cercada pelo medo, ou então A Fita Branca, celebrado longa de Michael Haneke também sobre fatos misteriosos em uma cidade alemã nos anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial . Só que aqui a situação é mais difícil porque falamos não de comunidades, mas de apenas seis pessoas que, dentro da própria casa, já vivem um mundo próprio e de distanciamento. Parece não existir mais ninguém no mundo além deles, o que aumenta consideravelmente o sufocamento. Para a família de A Bruxa, as regras devem ser seguidas à risca, a rotina é milimetricamente bem definida e a religião é utilizada como forma de opressão disfarçada de busca por boa índole. É claustrofóbico o convívio daquela família, ainda mais quando todos sufocam indomáveis mudanças interiores: enquanto a mãe pouco a pouco começa a culpar o marido pelo isolamento forçado a que foram submetidos, o único menino da família já começa a sentir os ímpetos de sua sexualidade ao não conseguir desviar o olhar dos seios da irmã. Tudo feito e sentido às escuras, já que não são necessário grandes pretextos para que trechos da Bíblia sejam evocados e que julgamentos surjam a partir de situações perfeitamente corriqueiras.

Por outro lado, é com extrema disciplina que Eggers, também autor do roteiro original, constrói a opressão religiosa do ambiente. Em momento algum A Bruxa se entrega a discursos fáceis sobre a palavra de Deus para que você compreenda a repressão do ambiente. No próprio suspense envolvendo o desaparecimento de um bebê e na ideia de uma força maligna entre a família, A Bruxa desenvolve tudo nas entrelinhas e em tom menor e mais lento, o que se apresenta como uma alternativa extremamente funcional que só reforça o clima intimidador já construído em todos os detalhes da exemplar parte técnica. Há de se tirar o chapéu para a ideia de Eggers e do fotógrafo Jarin Blaschke de filmar a história quase inteiramente em luz natural, pois isso faz com que realmente mergulhemos em uma época onde a luz inexistia  e os ambientes eram iluminados apenas por velas e lampiões. E ter todo esse contexto no meio de uma floresta inabitada já é capaz de causar arrepios por si só. Por isso, não estranhe se você achar o filme escuro e frequentemente incômodo em suas cores. Afinal, isso é resultado direto da inteligente escolha de A Bruxa causar desconforto até mesmo em um primeiro contato com os olhos.

Não será difícil encontrar quem desdenhe o filme de Robert Eggers por ele não conter sustos. Ora, tal percepção não deixa de ser fruto dos olhos treinados pelo cinema preguiçoso de terror que Hollywood vem entregando nos últimos anos. Particularmente, fujo do gênero justamente pelas suas implausibilidades, pela sua falta de criatividade e principalmente pela eterna confusão de que susto é sinônimo de atmosfera bem construída. Claro que existem filmes autorais e de menor orçamento, mas eles praticamente não ganham lugar ao sol, e por isso é tão importante que uma obra pequena e assinada por um estreante como A Bruxa ganhe merecida repercussão (uma obra de terror ganhar prêmio de direção no Festival de Sundance não é pouca coisa!). Vamos ser justos e reconhecer exemplares comerciais que funcionam, como Invocação do MalA Morte do Demônio. Só que raros e especiais mesmos são obras como o espanhol [REC], o uruguaio A Casa e agora A Bruxa. Ainda assim, pelo que me vem à memória, o terror psicológico de Eggers em nada se compara a qualquer exemplar do gênero que tenha ganhado as telas nos últimos anos. É experiência conceitual e experimental, o que pode repelir muita gente. Mas quer saber? Se conseguir embarcar, é coisa de mestre mesmo. 

Os vencedores do Oscar 2016

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Excetuando a tão esperada consagração de Leonardo DiCaprio e os merecidos e justificados memes para os comentários lacônicos de Glória Pires na transmissão da Rede Globo, o Oscar 2016 dificilmente será lembrado por qualquer acontecimento. Nem mesmo a não tão surpreendente vitória de Spotlight – Segredos Revelados é para tanta comoção: mesmo que não estivesse na dianteira para ganhar o prêmio principal, o filme de Tom McCarthy tinha na bagagem o Screen Actors Guild Awards e o Critics’ Choice. Pela lógica, também era um filme acessível e fácil de chegar ao triunfo com o sistema de votação da categoria que elenca os votos por ordem de preferência. Ou seja, em uma escala de zero a dez (no caso, oito), é muito mais provável colocar Spotlight no topo do que filmes mais específicos como O RegressoMad Max: Estrada da Fúria, que, na lista dos adoradores de Spotlight, podem muito bem ter sido os últimos.

Nunca o Oscar reuniu tantas pessoas negras para premiar brancos, e podemos dizer que Chris Rock fez o tema de casa como apresentador ao tocar na ferida. O mais importante é que a própria Academia reconheceu o problema, pautando a discussão em inúmeras esquetes ao longo da cerimônia. Volto a repetir, por outro lado, que não adianta elogiar muito: já não é de hoje que o Oscar tenta compensar um erro para depois, logo em seguida, voltar a fazer bobagem. Lembram de quando chamaram Ellen Degeneres, lésbica assumida, para apresentar o prêmio após a polêmica derrota de O Segredo de Brokeback Mountain? Parece não ter tido grande efeito para que Carol, por exemplo, sequer chegasse ao prêmio principal este ano mesmo com uma lista que possibilite até dez indicados. E não vale dizer que A Garota Dinamarquesa vencendo atriz coadjuvante com Alicia Vikander (mais uma atriz que o midas da atuação Tom Hooper ajuda a premiar!) indica o contrário.

Quanto à distribuição de prêmios em si, no geral, a cerimônia foi menos surpreendente do que o esperado (ah, essa nossa ilusão de que tudo pode ser inesperado!). Mad Max papou merecidamente uma penca de prêmios técnicos, Alejandro González Iñárritu levou novamente o prêmio de direção por O Regresso e, com exceção de Mark Rylance (Stallone, apesar do afeto, não vinha matematicamente com força para ganhar, enquanto o ator de Ponte dos Espiões era o único da categoria indicado a todos os prêmios da temporada), as estatuetas principais foram para o favorito ou, então, para um runner-up. O que não dava mesmo para prever era a absurda vitória de melhor canção original para “Writing’s on the Wall” (depois daquela justíssima vitória de Adele por um tema de 007, é meio constrangedor que uma música tão inexpressiva quanto essa também tenha a estatueta pela franquia) e a vitória de Ex-Machina em efeitos visuais, algo que certamente quebrou o bolão de todo mundo. No mais, nos vemos novamente em 2017! Confira a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Spotlight – Segredos Revelados
MELHOR DIREÇÃO:
Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
MELHOR ATRIZ:
Brie Larson (O Quarto de Jack)
MELHOR ATOR:
Leonardo DiCaprio (O Regresso)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE:
Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
MELHOR ATOR COADJUVANTE:
Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL:
 Spotlight – Segredos Revelados

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A Grande Aposta
MELHOR FOTOGRAFIA: O Regresso
MELHOR FIGURINO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MIXAGEM DE SOM: Mad Max: Estrada da Fúria

MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MONTAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MAQUIAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Writing’s on the Wall” (007 Contra Spectre)

MELHOR TRILHA SONORA: Os Oito Odiados
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Ex-Machina: Instinto Artificial
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Amy
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Filho de Saul (Hungria)

MELHOR ANIMAÇÃO: Divertida Mente
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: A História de Um Urso
MELHOR CURTA-METRAGEM: Stutterer
MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO: A Girl in the River: The Price of forgiveness