Cinema e Argumento

Tatuagem

O Moulin Rouge do subúrbio! A Broadway dos pobres! O Studio 54 da favela!

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Direção: Hilton Lacerda

Roteiro: Hilton Lacerda

Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo García, Sílvio Restiffe, Sylvia Prado, Ariclenes Barroso, Nash Laila, Arthur Canavarro, Clébia Souza, Erivaldo Oliveira, Mariah Texeira, Diego Salvador

Brasil, 2013, Drama, 118 minutos

Sinopse: Brasil, 1978. A ditadura militar, ainda atuante, mostra sinais de esgotamento. Em um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com seus espetáculos e interferências públicas. Liderado por Clécio Wanderley, a trupe conhecida como Chão de Estrelas, juntamente com intelectuais e artistas, além de seu tradicional público de homossexuais, ensaiam resistência política a partir do deboche e da anarquia. A vida de Clécio muda ao conhecer Fininha, apelido do soldado Arlindo Araújo, 18 anos: um garoto do interior que presta serviço militar na capital. É esse encontro que estabelece a transformação de nosso filme para os dois universos. A aproximação cria uma marca que nos lança no futuro, como tatuagem: signo que carregamos junto com nossa história.

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“Por que não podemos ser mais despudorados? Não entendo como aquela escala evolutiva do século XX deu origem a tempos tão conservadores. Pensei que tudo isso fosse passado. É assustador ainda ter que discutir quem merece respeito ou não”. Hilton Lacerda, quando exibiu Tatuagem pela primeira vez, no 41º Festival de Cinema de Gramado, chegou apresentando seu filme exatamente assim: como uma ode à liberdade – seja ela sexual ou de qualquer forma de expressão – em uma época onde as produções televisivas e cinematográficas brasileiras estão cada vez mais caretas. Nunca tivemos tanta liberdade, mas a contracorrente também se mostra cada vez mais vigorosa. Por isso, é gratificante ver que Tatuagem, debut do diretor pernambucano em longas de ficção, dá esse grito contra o preconceito de forma bastante natural – e o melhor de tudo: sem sequer insinuar ser uma planejada panfletagem quadrada da causa LGBT. Sem preconceitos (claro!) e concessões, o filme é aberto ao sexo, a toda forma de amor, ao exagero, às descobertas, ao espírito libertário. E, para construir esse retrato, tem como foco o fictício Chão de Estrelas, um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, onde um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com seus espetáculos e interferências públicas.

Tatuagem se estabelece não como um relato do amor proibido entre Clécio (Irandhir Santos), líder do Chão de Estrelas, e Fininha (Jesuíta Barbosa), um jovem soldado em plena ditadura militar, mas como um mosaico de várias figuras que viviam suas vidas como bem entendiam naqueles tempos. Hilton Lacerda fala sobre um grupo e não sobre uma época ou sobre personagens específicos. Com essa escolha, ele acerta em importantes aspectos, distribuindo muito bem temas e circunstâncias que, caso trabalhadas com foco demasiado, poderiam minar a o interesse pelo longa, como o contexto político (a ditadura é sempre discretamente pontuada com os questionamentos certos) e o romance entre Clécio e Fininha. Em termos narrativos, não existem excessos em Tatuagem, e isso pode ser considerado fruto da experiência de uma carreira conceituada de Lacerda como roteirista (ele tem no currículo filmes como Amarelo MangaFebre do Rato Baixio das Bestas). O mundo gay, as encenações teatrais e a dinâmica do elenco são extremamente críveis, ao passo que o diretor e roteirista também se sai admiravelmente bem ao desenvolver toda a questão sexual de seu filme. Poucas vezes no cinema recente vimos uma produção tão bem resolvida quanto ao seu gênero.

O mundo de Lacerda não está isento de previsibilidades (óbvio que não poderia faltar a figura do bullier no exército que, na realidade, é um curioso enrustido), mas a forma como ele aplica diferentes e interessantes personalidades a cada um dos personagens é consistente, principalmente quando a contextualização – seja da origem do comportamento deles ou da própria ditadura – não sufocam o espaço que cada figura tem para conquistar o espectador. E falar sobre os personagens nos leva, obviamente, ao excelente elenco de Tatuagem. O trio principal, especialmente, é um verdadeiro achado, com desempenhos minuciosos de Irandhir Santos (que, um dia, se o destino for justo, terá o mesmo reconhecimento de Wagner Moura por sua grande versatilidade), Jesuíta Barbosa (um iniciante para se acompanhar de perto, sempre à altura de seu parceiro de cena Irandhir) e Rodrigo García (impagável e com pleno domínio dos exageros de Paulete, personagem que mais explora caricaturas mas que também tem um momento super contido e especial). Excelência reconhecida: no 41º Festival de Cinema de Gramado, Irandhir chegou a levar o kikito de melhor ator, enquanto o filme foi eleito o grande vencedor da mostra competitiva, além de ganhar em outras categorias. Já no Festival do Rio, quem levou a melhor como ator foi Jesuíta.

Tatuagem, no entanto, não é um filme de ritmo dinâmico, justamente por ser mais um retrato do dia a dia de uma trupe do que um filme de reviravoltas ou acontecimentos, apostando em um tom mais pausado como forma de imersão naquele mundo. Infelizmente, a mesma lógica não é aplicada no desfecho, que, certamente, é o momento mais decepcionante de todos. Causa estranhamento a forma apressada com que Tatuagem se encerra. Além de não mostrar (literalmente) um fato que muda por completo a vida do Chão de Estrelas, o roteiro ainda se “livra” de um personagem sem o mínimo de carinho ou lógica por tudo aquilo que ele havia representado ao longo do filme. Tudo acontece às pressas, sem a calma que o filme adotava até então. Por isso, o discurso libertário ao final pode até ser bonito, mas os minutos derradeiros não fazem jus ao resultado como um todo. Desta forma, é fácil sair da sessão de Tatuagem com um forte sentimento de desapontamento, ainda que tais problemas não coloquem em xeque o que o filme havia conquistado até ali. O que faltou foi esse cuidado para dar a Tatuagem um final à altura de seu  discurso e de sua própria relevância, reforçando a sensação de que ele não merece ficar apenas no imaginário do público gay, mas também no de de todos que dizem abaixo ao preconceito.

FILME: 8.5

4

Capitão Phillips

The problem is not me talking. The problem is you not listening.

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Direção: Paul Greengrass

Roteiro: Billy Ray, baseado no livro “A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea”, de Richard Phillips (com Stephan Talty)

Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Michael Chernus, David Warshofsky, Catherine Keener, Corey Johnson, Chris Mulkey, Yul Vazquez

Captain Phillips, EUA, 2013, Ação, 134 minutos

Sinopse: Richard Phillips (Tom Hanks) é um comandante naval experiente, que aceita trabalhar com uma nova equipe na missão de entregar mercadorias e alimentos para o povo somaliano. Logo no início do trajeto, ele recebe a mensagem de que piratas têm atuado com frequência nos mares por onde devem passar. A situação não demora a se concretizar, quando dois barcos chegam perto do cargueiro, com oito somalianos armados, exigindo todo o dinheiro a bordo. Uma estratégia inicial faz com que os agressores recuem, apenas para retornar no dia seguinte. Embora Phillips utilize todos os procedimentos possíveis para dispersar os inimigos, eles conseguem subir à bordo, ameaçando a vida de todos. Quando pensa ter conseguido negociar com os piratas, o comandante é levado como refém em um pequeno bote. Começa uma longa e tensa negociação entre os sequestradores e os serviços especiais americanos, para tentar salvar o capitão antes que seja tarde.

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A projeção internacional do diretor Paul Greengrass veio quando ele assumiu a série Bourne, mas são poucos os que costumam se referir ao britânico pelo trabalho que realmente lhe firmou como um nome confiável: Voo United 93, que chegou a render a Greengrass uma indicação ao Oscar de melhor direção.  Neste filme de 2007, ele mostrava o sequestro do avião-título, que, tomado por terroristas, caiu em Shanksville, Pennsylvania, no fatídico 11 de setembro. Essa história verídica narrada por Greengrass é bastante parecida, agora, com a de Capitão Phillips, uma espécie de Voo United 93 em pleno oceano. Além de ser uma história de sequestro (no caso o de um navio estadunidense refém de piratas somalianos), as semelhanças estão no próprio estilo do diretor, que continua intacto: tensão do início ao fim, câmera na mão e uma agilidade que poucos realizadores conseguem emular.

Não há dúvidas: Capitão Phillips é um legítimo Paul Greengrass. E é até estranho que todo o buzz em relação ao filme tenha sido – pelo menos até agora – apenas em função de Tom Hanks, já cotado para concorrer na próxima temporada de premiações por seu desempenho aqui. Isso porque Capitão Phillips está longe de ser um filme entregue exclusivamente ao desempenho do protagonista e porque o resultado tem outros aspectos tão interessantes quanto a presença de Hanks. É bem provável que este longa não cause tanto impacto em futuras revisões, uma vez que, descobertas as resoluções, o conjunto não reserva grandes surpresas para serem revisitadas. Mas embarcar nessa primeira jornada é gratificante: são mais de duas horas de pura agonia, seja em função da trama em si ou da forma como ela é conduzida por Greengrass.

O diálogo com a realidade, marca já registrada do diretor (e que influenciou toda uma geração dos filmes de ação depois de Bourne), é o que impulsiona Capitão Phillips, cujo resultado é completamente crível e sem aquelas soluções fantasiosas que volta e meia encontramos no cinema. A hábil montagem de Christopher Rouse e a câmera de Greengrass ampliam o notável realismo do longa, que ganha ainda um lado muito humano com a interpretação de Tom Hanks. Sem realmente atuar desde sabe-se lá quando, o ator surge realmente empenhado como há muito não se via, conquistando a torcida do espectador e aproveitando cada segundo de todas as passagens, incluindo aquelas que foram claramente realizadas apenas para que ele pudesse brilhar – como a sequência final, por exemplo. Mesmo não sendo pontualmente um filme de atuação, Capitão Phillips traz uma valiosa oportunidade para Hanks.

Nem tudo, porém, surpreende, já que Capitão Phillips tem algumas reservas pontuais. Não é interessante, particularmente, a forma como o roteiro de Billy Ray, baseado no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea, do próprio Richard Phillips, precisa verbalizar uma humanização do vilão que já tínhamos como deduzir. É no mínimo dispensável o discurso motivacional do protagonista que tenta, de certa forma, esmiuçar o outro lado de toda a criminalidade do pirata somaliano e apresentar razões que já tinham sido discretamente pontuadas anteriormente. Ainda é bom não dar muita atenção ao previsível cumprimento de todas as etapas típicas de filmes de resgate. Entretanto, por mais que Capitão Phillips não figure entre os trabalhos mais originais de Paul Greengrass, consegue ser outro exemplar do diretor que prende a atenção do início ao fim com um notável nervosismo – o que, convenhamos, está cada vez mais difícil de encontrar nos dias de hoje.

FILME: 8.0

35

Blue Jasmine

There’s only so many traumas a person can withstand until they take to the streets and start screaming.

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Direção: Woody Allen Roteiro: Woody Allen

Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin, Louis C.K., Andrew Dice Clay, Kathy Tong, Max Rutherford, Daniel Jenks, Annie McNamara, Tammy Blanchard, Charlie Tahan, Joy Carlin, Richard Conti

EUA, 2013, Drama, 98 minutos

Sinopse: Uma mulher rica (Cate Blanchett) perde todo seu dinheiro e é obrigada a morar em São Francisco com sua irmã (Sally Hawkins), em uma casa muito mais modesta. Ela acaba encontrando um homem na Bay Area que pode resolver seus problemas financeiros, mas antes ela precisa descobrir quem ela é, e precisa aceitar que São Francisco será sua nova casa. (Adoro Cinema)

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Jasmine (Cate Blanchett) perdeu toda a fortuna que desfrutava quando era casada com Hal (Alec Baldwin). Agora, morando com a irmã, tenta, a todo custo, se reencontrar na vida. E ela se enche de esperança quando conhece um sujeito que pode lhe oferecer todo o alto padrão de vida que um dia teve. No primeiro encontro, ela dá o seu número de telefone ao tal homem, que promete contatá-la. No dia seguinte, Jasmine passa o dia esperando ansiosamente a ligação. O telefone toca e o sujeito marca um novo encontro. O que poderia se esperar era que, ao desligar o telefone, Jasmine começasse a pular e a vibrar com sua conquista. Não. Ela começa a chorar. E, nesse momento, Blue Jasmine sintetiza praticamente tudo sobre sua protagonista: ela é uma mulher que já não consegue nem sentir a alegria das pequenas coisas da vida. Chora aliviada por não acreditar que alguém promissor ainda possa se interessar por ela. Um alento, enfim, para uma vida que, como descobrimos ao longo do filme, também puniu constantemente essa mulher que procurou sua história de fracasso.

Já escapa à memória a última vez que Woody Allen criou uma personagem tão difícil como Jasmine. Mesmo as figuras neuróticas criadas por ele sempre foram tratadas com certo humor, amortecendo suas difíceis personalidades. Mas, pela primeira vez em anos, Allen apresenta uma figura essencialmente detestável, sem concessões. E o que poderia ser um problema termina não sendo, já que Blue Jasmine só ganha pontos com as dificuldades de sua protagonista. Curioso mesmo é como o diretor cria um impasse, nunca a vilanizando por completo: a personagem de Cate Blanchett procurou boa parte das coisas ruins que aconteceram com ela, mas o filme também mostra como o azar influenciou a sua vida. Se logo, no entanto, ficamos com certa pena das situações que aparecem no caminho de Jasmine, em seguida retiramos nosso amparo quando ela, por exemplo, destrata a bondosa irmã ou despreza os detalhes de todos a sua volta. Pobre, sozinha e amargurada, mas ainda assim orgulhosa e com um infundado sentimento de superioridade.

Mais pessimista e racional do que o habitual para os padrões de Woody Allen, Blue Jasmine é, desta forma, o filme mais pesado do diretor em anos. A comédia aparece uma vez  ou outra, mas está longe de ser o foco aqui. E é admirável como tanto Allen quanto Cate Blanchett assumem por completo esse posicionamento. Principalmente ela, que nunca facilita para que o espectador tenha qualquer simpatia pela figura que representa. Cate, por sinal, finalmente ganha, depois de anos, uma chance à altura de seu talento. Ela não brilhava desde Não Estou Lá, de 2007, e aqui tem uma chance de ouro: já favorita para conquistar seu segundo Oscar (o primeiro foi uma preguiçosa lembrança por seu desempenho coadjuvante no sonolento O Aviador), ela destila todo o veneno de sua personagem sem cair em caricaturas ou estereótipos – o que seria muito fácil, visto que sua Jasmine é uma dondoca que está sempre com um copo na mão. Cate, portanto, desafia o espectador, mesmo que esteja constantemente com os olhos marejados e evidenciando um ser humano em pleno desespero interior. Um belo trabalho, sem dúvida, que ainda ganha um ótimo contraponto com a presença da iluminada Sally Hawkins como a benevolente Ginger.

Ao contrário do que pode ser apontado, existe sim humanização em Blue Jasmine. Não estamos diante de um desenvolvimento unidimensional, especialmente porque Woody Allen não condena a protagonista como a total responsável por suas ruínas. Ela também apanhou da vida e pagou um preço alto por sua quase assumida negligência perante muitas situações. O que de certa forma incomoda é que Blue Jasmine termina sendo um filme racional demais, quase sem emoções. É mais um estudo interessantíssimo de uma personagem do que propriamente uma história cativante ou de acontecimentos. Os flashbacks funcionam, Cate Blanchett e Sally Hawkins brilham e Jasmine surge como uma das mais intrigantes figuras criadas pelo diretor em anos, mas a negatividade de Allen – misturado com pequenas doses de humor que só ressaltam a mediocridade da vida – deixam Blue Jasmine com um tom bastante pesado e clínico. De todo jeito, depois da reciclagem que foi Para Roma, Com Amor, é bom ver o diretor realizando algo bem diferente do que vimos em sua filmografia nos últimos anos – e talvez aí esteja a razão para todo esse estranhamento com a punição e o pessimismo da vida de Jasmine. Mas o melhor mesmo é vê-lo dando uma grande chance a uma atriz que há anos precisava oxigenar a carreira com um grande desempenho. Nesse sentido, missão cumprida com louvores.

FILME: 8.0

35

O Homem de Aço

What are you going to do when you’re not saving the world?

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Direção: Zack Snyder

Roteiro: David S. Goyer, baseado em história criada por Christopher Nolan e David S. Goyer, e nos personagens de “Superman”, criados por Jerry Siegel e Joe Shuster

Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Kevin Costner, Diane Lane, Laurence Fishburne, Christopher Meloni, Dylan Sprayberry, Richard Schiff, Antje Traue, Cooper Timberline, Mary Black

Man of Steel, EUA, 2013, Ação/Ficção, 143 minutos

Sinopse: Nascido em Krypton, o pequeno Kal-El viveu pouco tempo em seu planeta natal. Percebendo que o planeta estava prestes a entrar em colapso, seu pai (Russell Crowe) o envia ainda bebê em uma nave espacial, rumo ao planeta Terra, e levando com ele importantes informações de seu povo. Contrariado com tal atitude, o General Zod (Michael Shannon) tenta impedir a iniciativa e acaba preso. Já em seu novo lar, a criança foi criada por Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), que passaram a chamá-lo de Clark. O tempo passa, seus poderes vão aparecendo e se tornando, de certa forma, um problema, porque isso evidencia que ele não é um ser humano. Já adulto, Clark (Henry Cavill) se vê obrigado a buscar um certo isolamento porque não consegue resistir aos salvamentos das pessoas e sempre precisa sumir do mapa para não criar problemas para seus pais. Mas o terrível Zod conseguiu se libertar e descobriu seu paradeiro. Agora, a humanidade corre perigo e talvez tenha chegado a hora das pessoas conhecerem aqueles que passarão a chama de o Super-Homem. (Adoro Cinema)

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No cinema contemporâneo, Superman é um cara de azar. Se Christopher Reeve imortalizou o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster décadas atrás, hoje já não se consegue repetir o mesmo feito. Claro que são situações diferentes, mas é curioso como o herói simplesmente não consegue ter um filme atual à altura de sua mitologia. Bryan Singer fracassou quando resolveu dar um tom mais simbólico e pausado ao personagem em Superman – O Retorno: ninguém se entusiasmou com o longa, sequências não existiram e o resultado foi completamente esquecido. Tudo foi reinventado, portanto, para O Homem de Aço, na esperança de reerguer a vida cinematográfica do grande Superman. Não existem resquícios do longa de Singer, a equipe foi inteiramente repaginada. E, novamente, o resultado desaponta. Dessa vez, mais do que na primeira. Isso porque, se Superman – O Retorno foi alvo de duras críticas por sua abordagem mais contemplativa, a nova investida comandada por Zack Snyder se afunda fazendo justamente o oposto, silenciando todas as interessantes complexidades do protagonista com explosões e efeitos descontrolados que sintetizam o que existe de pior nos blockbusters estadunidenses.

Dói ter que dizer que O Homem de Aço tem a ação mais barulhenta, irritante e sem sentido desde que Michael Bay ensurdeceu meio mundo com a pavorosa saga Transformers. Isso porque, apesar dos pesares, Zack Snyder é um sujeito de estética atraente, e também porque a produção ficou a cargo de Christopher Nolan – que ainda escreveu a história que serviu de base para o roteiro de David S. Goyer (o roteirista da trilogia Batman comandada por Nolan). Superman tinha tudo para finalmente ganhar novas plateias, mas a excessiva necessidade de explodir tudo que vem pela frente só para envolver os públicos sedentos por ação destroi praticamente tudo o que existe de positivo em O Homem de Aço. É outro prego martelado no caixão desse heroi que merecia uma trajetória mais decente nos anos 2000. O filme, por sinal, já não começa bem, ambientado em um planeta Krypton altamente computadorizado e que já dá indícios do que se desenvolverá de pior ao longo das desnecessárias 2h30 de duração do longa: a absurda canastrice do vilão de Michael Shannon (em um dos piores desempenhos do ano), o excesso de efeitos visuais e uma história de ficção nada interessante.

O que que mais importa e interessa em O Homem de Aço é justamente a vida de Clark Kent (Henry Cavill) na Terra tentando se às normalidades da vida humana. Sua busca por identidade, o convívio com os pais e cada pequena descoberta trazem momentos até intimistas e sutis para esse filme que, de resto, destoa completamente de tal simplicidade. Na forma como Goyer conduz o roteiro, ainda ajuda o fato da infância e da adolescência de Clark ser contada em flashbacks – o que tira aquele didatismo tão presente em histórias que narram a vida do herói com o tradicional início, meio e fim. Dando vida ao protagonista está Henry Cavill, que é uma boa escolha para Superman. A beleza grega e o imponente porte físico do ator não devem nada aos corações que Christopher Reeves conquistou anteriormente. Mas, assim como todas as boas partes e promessas do filme (nisso incluímos uma sempre simpática Amy Adams que nada tem a fazer aqui), ele é silenciado por um amontoado de cenas altamente barulhentas e descontroladas.

A ação de O Homem de Aço é tão ensandecida que Zack Snyder pede que o espectador seja testemunha da total destruição de uma cidade sem sequer se importar com as pessoas que nela moram ou com os próprios cenários que são demolidos com a maior naturalidade do mundo. Talvez a última vez que testemunhamos a mesma loucura tenha sido quando os Power Rangers montavam seus Megazords semanalmente na TV para salvar a cidade de vilões gigantes. São tantas explosões que nem nos importamos com os personagens. Tudo se banaliza quando o perigo é constante mas nunca efetivo e a ambientação fica superficial dentro de tantos efeitos. Nesse conjunto, até a trilha de Hans Zimmer cai no lugar comum, mesmo que seu belo piano funcione nos momentos mais reflexivos. Com tonalidades interessantes que moldam um visual quase melancólico, O Homem de Aço tem, assim, dois filmes rivalizando dentro de um. A diferença é gritante, especialmente porque o pior engole o melhor. Zack Snyder conseguiu se policiar na sua conhecida paixão por stop motions, mas ele e David S. Goyer não sabem quem agradar. Ou seja, um dos filmes-pipoca mais promissores do ano se revelou uma bomba que não consegue nem realizar uma ação acéfala mas empolgante. O Homem de Aço é somente uma chance desperdiçada. Mais uma vez.

FILME: 4.5

2*

Diana

Somewhere between right and wrong there is a garden. I’ll meet you there.

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Direção: Oliver Hirschbiegel

Roteiro: Stephen Jeffreys, baseado no livro “Diana – Her Last Love”, de Kate Snell

Elenco: Naomi Watts, Naveen Andrews, Douglas Hodge, Geraldine James, Charles Edwards, Daniel Pirrie, Juliet Stevenson, Jonathan Kerrigan, Laurence Belcher, Harry Holland, Leeanda Reddy

Inglaterra/França/Suécia/Bélgica, 2013, Drama, 113 minutos

Sinopse: Prestes a se divorciar de Charles, a princesa Diana (Naomi Watts) divide seu tempo entre a solidão da vida no palácio em que vive e os compromissos que possui com diversas entidades beneficentes. Um dia, ao saber que um amigo foi operado às pressas, ela vai até o hospital em que está internado e lá conhece o doutor Hasnat Khan (Naveen Andrews). Diana logo fica encantada pelo fato dele não a tratar como uma princesa, apesar de saber quem ela é. Não demora muito para que iniciem um relacionamento, mantido às escondidas devido ao desejo de Hasnat em ter uma vida reservada. (Adoro Cinema)

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A jogada tinha tudo para ser imbatível: depois de anos entregando excelentes desempenhos e vindo de uma (segunda) indicação ao Oscar por O Impossível, Naomi Watts finalmente ganharia a estatueta mais cobiçada do cinema. A fórmula (biografia + sotaque + maquiagem + penteados) acusava o tão esperado reconhecimento a essa intérprete que é uma das melhores de sua geração e uma das poucas que ainda não têm as devidas honrarias. Só que Diana, filme que narra os dois últimos anos da personagem-título e o relacionamento amoroso dela com um médico paquistanês, fracassou em praticamente todos os sentidos. Assim como Hitchcock – que era aposta certa para o Oscar de melhor ator com Anthony Hopkins – o longa de Oliver Hirschbiegel não foi bem de críticas e chegou ao Brasil com uma péssima divulgação, passando praticamente despercebido até mesmo pelo público em geral, que certamente tem razões de sobra para se interessar pela biografia de uma figura tão icônica e querida quanto Lady Di.

No entanto, não dá para contestar esse esquecimento de Diana. É até fácil endossá-lo. O que poderia ser uma delicada e envolvente história sobre uma das mulheres mais influentes da década de 1990 termina como um romance de menininha – na pior conotação que essa afirmação pode sugerir. Isso mesmo, a produção estrelada por Naomi Watts acerta na lógica de que contar um recorte da vida de alguém é mais interessante do que a narração de todo o conjunto, mas peca por encenar equivocadamente um lado muito duvidoso e desinteressante de Lady Di. As intenções do roteiro de Stephen Jeffreys, baseado no livro Diana – Her Last Love, de Kate Snell, são válidas: mostrar o lado “mulher” da personagem, focando-se menos no alvoroço que ela causava com a mídia e mais no seu íntimo, especialmente na última grande paixão que viveu. O problema é que não existe um estudo aqui: todo o tal relacionamento vivido por Diana é meramente jogado na tela com cenas e diálogos rasos dignos de romances adolescentes com juras de amor, brigas infantis e brincadeirinhas na beira da praia.

É por isso que a abordagem chega a ser um tanto estranha e duvidosa, pois Diana pinta um retrato imaturo da figura-título. E, se de fato ela era imatura, o filme desenvolve esse perfil de superficial e pouco convincente. A Lady Di de Watts surge completamente submissa e sem personalidade: quando instantaneamente se encanta  pelo médico Hasnat (Naveen Andrews, insosso), compra um livro de anatomia para se inteirar do assunto; quando descobre que ele gosta de jazz, passa a ouvir todos os cd’s possíveis do gênero; e, quando se vê impossibilitada de ir ao hospital visitá-lo em função da imprensa, compra uma peruca para aparecer disfarçada. A tentativa de humanização e de colocá-la no patamar “gente como a gente” tem seu valor, mas é feita de forma pouco envolvente, principalmente porque Diana ganha um ritmo claramente mais envolvente na quando se dedica ao espírito humanitário da protagonista com a população. É particularmente bela a cena em que ela, no meio da multidão, deixa que um cego toque seu rosto para que ele possa realizar o sonho de conhecê-la. As visitas de Diana aos hospitais da África e sua luta para desativação de minas terrestres (que ganharia um belo legado, como os próprios letreiros finais enfatizam) também demonstram justamente o oposto do que é desenvolvido pelo lado romântico do longa: uma mulher destemida, diferente e a frente de seu tempo.

Com uma pessoa tão rica em possibilidades dramáticas encabeçando a história, é de se chatear que Diana tenha optado por uma abordagem tão desestimulante. Ao se concentrar no romance da protagonista, o filme fica sem ritmo, frequentemente andando em círculos e instalando conflitos – novamente – dignos de romances previsíveis, como na sequência em que o reservadíssimo Hasnat briga com Diana porque a imprensa descobriu o affair dos dois. Para poupar o namorado, ela desmente o caso publicamente… e Hasnat briga com ela novamente por causa da mentira! E é assim durante praticamente todo o longa, com duas facetas da princesa que simplesmente não casam: a mulher insegura e submissa de um lado e, do outro, a figura pública revolucionária que inspirou multidões. Se não existisse menção ao nome de Lady Di ou se não mostrasse brevemente os feitos reais de sua protagonista, Diana sequer pareceria uma biografia. Complicado saber se a culpa é exclusivamente do roteiro, até porque a escolha de direção é um tanto inusitada: Oliver Hirschbiegel, um alemão dirigindo a cinebiografia de uma britânica depois de ter fracassado com seu debut hollywoodiano em Invasores.

Diana não é um filme que tem problemas de coesão ou estética confusa como A Dama de Ferro, por exemplo. Hirschibiegel tem até certa disciplina que dá ares requintados ao resultado. O problema é mesmo essa redução da figura da protagonista a uma historinha de amor que não merecia tanto destaque. Quem sofre com tudo isso? Naomi Watts, claro. Sem o poder imensurável de uma Meryl Streep da vida para sair ilesa de um filme irregular, ela não consegue escapar das deficiências do roteiro. Se o trabalho corporal, o sotaque, a maquiagem e os penteados são sim convincentes para fazer o espectador crer que estamos acompanhando os bastidores de Diana, a figura que ela representa fica automaticamente enjoada com os melodramas românticos impostos pelo texto. Tanto a atriz quanto a personagem representada por ela mereciam um filme mais delicado e intimista que não confundisse humanização com frequentes lugares comuns de romances apresentados aqui. Duas chances perdidas: a de finalmente consagrar uma excelente atriz (mesmo que por meio do clichê  de dar um Oscar para uma biografia) e a de mostrar o outro lado de um círculo que foi tão bem narrado pelos olhos de Elizabeth II (Helen Mirren) em A Rainha.

FILME: 6.0

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