Cinema e Argumento

As Submissões Ao Emmy (Damages)

É inegável, Damages é a série queridinha do momento. Mesmo que a fama do seriado gire praticamente toda em torno do marcante desempenho da Glenn Close como a poderosa e implacável Patty Hewes, a história foi começando a atingir um público mais amplo até se tornar uma das principais concorrentes a categoria principal do Emmy desse ano. Inclusive, arrisco a dizer que seja a que tenha mais chances de vencer. Também não é pra menos, Damages consegue ser o melhor drama jurídico já criado na televisão – unindo inteligente condução, excelentes desempenhos e um roteiro interessante. Confesso que apesar de eu ter muito respeito por esse trabalho, especialmente por ser muito bem construído, até agora não cheguei a ser cativado (visto que recém estou no episódio número quatro). Então, minhas visões e comentários sobre o seriado são bem limitados e expressam apenas o que Damages me transmitiu no pouco que assisti até o momento. Sem dúvida é uma série merecedora de seu sucesso, por mais que seu público seja limitado aos que apreciam uma trama complexa e cheia de detalhes.

Como em toda premiação decente, não existem favoritos absolutos. Mas se existe uma categoria em que quase todos têm o mesmo palpite, essa é melhor atriz em série dramática. Desde que ganhou o Globo de Ouro (mas vale lembrar que ela perdeu o Screen Actors Guild), Glenn Close vem ganhando força a cada momento. Às vezes fico achando que o êxito de sua presença se deve mais ao benefício que a atriz recebe por ter um personagem tão instigante e poderoso, lembrando muito o encanto que Meryl Streep causava nas telas com sua Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada. Mas isso é mera impressão, Glenn vai além disso – sabe atuar de forma magistral. Se dependesse disso, sua vitória no Emmy seria mais do que certa. O que deixa dúvidas sobre sua vitória é a escolha de seu episódio concorrente. O Pilot dá mais espaço para que a personagem Ellen Parsons (Rose Byrne) seja melhor trabalhada, enquanto Patty Hewes (Glenn Close) é apenas uma figura coadjuvante enigmática e hipnotizante. Mas mesmo assim é bem provável que ela leve.

Uma jogada esperta foi incluir Rose Byrne como atriz coadjuvante em série dramática. Todo mundo sabe que ela é outra favorita uma vez incluída nessa categoria. Seria uma vitória mais do que perfeita… se Rose fosse coadjuvante. O que me parece é que esse tipo de jogada injusta já se ajustou ao padrão de todos, que aceitam isso com certa naturalidade. Eu ainda me irrito muito com isso, porque evita com que outras merecedoras se saiam vitoriosas. Damages já pode caminhas tranquilamente para Emmy porque, de acordo com as listas divulgadas recentemente, a série já é finalista nas categorias de melhor série dramática, atriz em série dramática, atriz coadjuvante em série dramática e ator coadjuvante em série dramática.

DRAMA SERIES

Damages – “Pilot

DRAMA LEAD ACTREES

Glenn Close – “Pilot

DRAMA SUPPORTING ACTOR

Philip Bosco – “Pilot
Ted Danson – “Jesus, Mary and Joe Cocker
Tate Donovan – “A Regular Earl Anthony
Zeljko Ivanek – “I Hate These People

DRAMA SUPPORTING ACTREES

Rose Byrne – “Because I Know Patty
Anastasia Griffith – “Tastes Like a Ho-Ho

DRAMA GUEST ACTOR

Michael Nouri – “And My Paralyzing Fear Of Death
Peter Riegert – “Do You Regret What We Did?”

DRAMA DIRECTING

Daniel Attias – “We Are Not Animals
Ed Bianchi – “I Hate These People
Timothy Busfield – “Sort of Like a Family
Thomas Carter – “Do You Regret What We Did?”
Allen Coulter – “Pilot
Todd A. Kessler – “Because I Know Patty
Mario Van Peebles – “She Spat on Me
Greg Yaitanes – “Jesus, Mary and Joe Cocker

DRAMA WRITING

Jeremy Doner, Mark Fish – “Sort of Like a Family
Mark Fish – “She Spat at Me
Todd A. Kessler, Glenn Kessler, Daniel Zelman – “Pilot
Aaron Zelman – “We Are Not Animals

As Submissões Ao Emmy (Dexter)

Chegou a hora da verdade. Será que o Emmy vai esnobar novamente a série mais inteligente e instigante exibida no momento? É até compreensível que os votantes não tivessem simpatizado logo de cara com a primeira temporada de Dexter (não tão compreensível assim, já que é uma temporada maravilhosa), mas deixar de lado essa segunda parte seria uma grande ofensa para os fãs do seriado. Contudo, Emmy é Emmy e eu não me surpreenderia muito se fizessem isso – já que não acho uma premiação justa ou sequer muito interessante nas suas escolhas. Tamanho foi o descaso do prêmio com a série ano passado, que nem o memorável desempenho do protagonista Michael C. Hall foi lembrado entre os cinco finalistas na categoria de melhor ator em série dramática. Michael parece não ter a simpatia dos votantes, já que durante toda a sua carreira e cinco maravilhosas temporadas de Six Feet Under, ele foi indicado apenas uma vez. Six Feet Under, por sinal, nunca ganhou sequer um prêmio de atuação para os atores fixos da série – o que já comprova que o Emmy não é atestado de qualidade.

A segunda temporada de Dexter já se encontra em um caminho mais esperançoso – ficou entre as dez finalistas para a categoria de melhor série dramática na lista recém-divulgada; ao lado de Boston Legal, Damages (que será comentado no próximo post sobre as submissões), Friday Night Lights, Grey’s Annatomy, House, Lost, Mad Men, The Tudors e The Wire. Acho que as chances de Dexter ser indicada são bastante grandes, especialmente porque a escolha do episódio concorrente foi bem apropriada. The Dark Defender não é nem de longe o melhor da temporada, mas é o mais complexo, denso e profundo. A personalidade do protagonista nunca tinha sido tão bem explorada anteriormente em sua essência dramática e Michael C. Hall alcançou o auge de sua atuação. Mas não é apenas Michael que tem seus excelentes momentos. Sua nova companheira de tela, Jaime Murray (enviada como guest drama actrees), também contribui muito para a trama e uma indicação para ela cairia muito bem. Estranho que a Julie Benz e a Jennifer Carpenter foram incluídas como coadjuvantes, o que é uma jogada bem esperta, uma vez que nenhuma das duas teriam sequer a possibilidade de sonhar em entrar entre as finalistas de atriz em drama; no entanto, é quase impossível que sejam lembradas, mesmo na categoria coadjuvante, assim como qualquer outra pessoa do elenco.

Acredito ainda que Dexter possa conseguir indicações nas categorias de Direção e Roteiro, que são outros pontos altos da segunda temporada, com chances bastantes significativas para o episódio The Dark Defender. Como ainda não assisti o episódio There’s Something About Harry, que foi a grande aposta para as indicações, meus comentários se limitam apenas a The Dark Defender, An Inconvenient Lie e Waiting To Exhale. Baseado nisso, creio que o seriado chegará aos finalistas de Melhor Série Dramática e Ator em Série Dramática. Quanto a outras categorias, as chances são bem improváveis. Mas já está na hora da série ser reconhecida – tamanha excelência não pode ser deixada de lado.

DRAMA SERIES

Dexter (“The Dark Defender“)

DRAMA LEAD ACTOR

Michael C. Hall – “There’s Something About Harry

DRAMA SUPPORTING ACTOR

Eric King – “There’s Something About Harry
C.S. Lee – “The British Invasion
James Remar – “There’s Something About Harry
David Zayas – “There’s Something About Harry

DRAMA SUPPORTING ACTREES

Julie Benz – “Waiting to Exhale
Jennifer Carpenter – “Left Turn Ahead
Lauren Velez – “Resistance Is Futile

DRAMA GUEST ACTOR

Keith Carradine – “Morning Comes

DRAMA GUEST ACTREES

Jaime Murray – “Morning Comes

DRAMA DIRECTING

Tony Goldwyn – “An Inconvenient Lie
Keith Griffin Gordon – “The Dark Defender
Steve Shill – “The British Invasion

DRAMA WRITING

Clyde Phillips – “Waiting To Exhale
Melissa Rosenberg – “Resistance Is Futile
Tim Schlattmann – “The Dark Defender

As Submissões Ao Emmy (Brothers & Sisters)

A opinião do Cinema e Argumento sobre as submissões das séries para concorrer ao Emmy. Serão comentadas somente os seriados e os respectivos episódios concorrentes assistidos pelo blog. O primeiro post fala sobre Brothers & Sisters e sua segunda temporada.

Se ano passado a escolha do episódio Bad News para Rachel Griffiths concorrer como atriz coadjuvante foi um grande equívoco (apesar do episódio ser sobre ela, a atriz estava infinitamente melhor em outros capítulos, como Grapes Of Wrath), esse ano a decisão de que Domestic Issues irá representá-la na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante em Série Dramática foi um enorme acerto. Rachel exerce seu papel de coadjuvante com maestria, em um episódio que sua personagem é obrigada a se separar de pessoas muito queridas em sua vida. Somente a cena final já vale a sua indicação. Agora fica a dúvida: ela leva o prêmio, caso indicada? Não sei. Em primeiro lugar, Rachel já devia ter um Emmy em mãos, por causa de sua inesquecível Brenda Chenowith em Six Feet Under. Segundo, caso vença, o prêmio será mais do que merecido. Aliás, seria uma homenagem a essa atriz versátil e brilhante que sem dúvida alguma é uma das melhores atuantes no mundo televisivo. Ano passado não levou e dá até pra entender, mas esse ano ela chega com muito mais chances. O episódio Domestic Issues também foi o escolhido para representar a série na categoria principal. Mas infelizmente, como pode ser conferido no blog Cinéfila Por Naturezaa série não conseguiu chegar entre as dez finalistas na categoria principal. 

Talvez só a escolha do episódio de Griffiths tenha sido um acerto. Incluir a atuação de Sally Field em History Repeating para que a atriz volte a concorrer esse ano (lembrando que ano passado ela foi a vencedora e esse ano nem tem chances) não foi muito inteligente. O episódio é banal e investe no caráter do personagem que menos chama a atenção – o cômico. Por sinal, a personagem Nora Walker decepcionou nessa temporada – tornando-se alguém chata e sem graça. Caiu na mesmice. Sally teria mais chances se concorresse por Home Front, um dos melhores episódios da série ao lado de Mistakes Were Made – Part 1 (que deu o Emmy de Atriz em Série Dramática para a matriarca do seriado). Ela provavelmente concorrerá, já que ganhou ano passado. Prefiro que Calista Flockhart concorra no lugar da Sally, pois a atriz teve uma evoluída nessa segunda temporada. O coadjuvante Dave Annable recebeu uma boa escolha, já que está excelente em 36 Hours, mas é improvável que ele concorra. Mas quem sabe o Danny Glover não leva como ator convidado? Ainda não assisti o episódio escolhido para ele, mas o ator realiza bom trabalho em sua aparição.

Existem algumas citações que nem devem ser consideradas, como Rob Lowe em Melhor Ator em Série Dramática por 36 Hours e Balthazar Getty como Coadjuvante em Série Dramática por History Repeating. Infelizmente só tive a oportunidade de assistir a esses episódios. Mas não poderia deixar de comentar a equivocada escolha de Rob Lowe ser escolhido como o Ator principal da série. Além de ser um ator limitado, seu personagem é insosso e nada traz de muito útil para a trama. No final das contas, minhas maiores torcidas para a série ficam com Rachel Griffiths e Matthew Rhys. Pena que não apostaram em Home Front, primeiro episódio dessa segunda temporada.Confira abaixo as submissões de Brothers & Sisters para o Emmy.

DRAMA SERIES:

Brothers & Sisters (“Domestic Issues” /”36 Hours”)

DRAMA LEAD ACTOR:

Rob Lowe – “36 Hours”

DRAMA LEAD ACTRESS:

Sally Field – “History Repeating”
Calista Flockhart – “Holy Matrimony”

DRAMA SUPPORTING ACTOR:

Dave Annable – “36 Hours”
Balthazar Getty – “History Repeating”
Matthew Rhys – “Moral Hazard”
Ron Rifkin – “Moral Hazard”

DRAMA SUPPORTING ACTRESS:

Rachel Griffiths – “Domestic Issues”
Sarah Jane Morris – “Missionary Imposition”
Emily VanCamp – “Double Negative”
Patricia Wettig – “Moral Hazard”

DRAMA GUEST ACTOR

Danny Glover – “The Feast Of Epiphany

DRAMA DIRECTING

Laura Innes – “The Feast of Epiphany
Ken Olin – “Domestic Issues
David Paymer – “36 Hours

DRAMA WRITING

Greg Berlanti, Monica Owusu-Breen, Alison Schapker – “Prior Commitments
David Marshall Grant, Molly Newman – “36 Hours
Jason Wilborn, Sherri Cooper – “Moral Hazard

O vídeo da semana já fica embutido nesse post, mostrando a melhor cena de Rachel Griffiths em “Domestic Issues”. Contem spoilers.

WALL•E

Direção: Andrew Stanton

Com as vozes de Ben Burtt, Elissa Knight, Jeff Garlin, Fred Willard, Kathy Najimy, Sigourney Weaver

EUA, 2008, Animação, 105 minutos, Livre.

Sinopse: Após entulhar a Terra de lixo e poluir a atmosfera com gases tóxicos, a humanidade deixou o planeta e passou a viver em uma gigantesca nave. O plano era que o retiro durasse alguns poucos anos, com robôs sendo deixados para limpar o planeta. Wall-E é o último destes robôs, que se mantém em funcionamento graças ao auto-conserto de suas peças. Sua vida consiste em compactar o lixo existente no planeta, que forma torres maiores que arranha-céus, e colecionar objetos curiosos que encontra ao realizar seu trabalho. Até que um dia surge repentinamente uma nave, que traz um novo e moderno robô: Eva. A princípio curioso, Wall-E logo se apaixona pela recém-chegada.

A Pixar chega ao auge de sua genialidade com WALL-E, animação surpreendente que, além de ser o melhor filme do ano, também consegue ser a mais grandiosa e bem produzida do cinema nos últimos tempos.”

Foi só ano passado, com o maravilhoso Ratatouille, que a Pixar conseguiu realmente chamar a minha atenção. Não é que eu não gostasse da produtora, mas sinceramente eu não via nada de tão genial em suas animações. Inclusive eu tinha me decepcionado bastante com um de seus maiores sucessos, o superestimado Os Incríveis. Fui conferir WALL-E com zero expectativa, ainda que eu estivesse curioso demais para conferir se o filme do ratinho do cozinheiro tinha sido apenas um golpe de tremenda sorte da produtora. O fato é que o novo filme da Pixar é surpreendente, e o melhor que ela já realizou. Sem falar que é a melhor animação que aparece pelo cinema em anos.

Pra começar, temos um diretor incrivelmente competente. Andrew Stanton comanda o filme de forma segura e impecável, sabendo controlar cada mínimo detalhe de seu filme. Unindo-se a isso, temos um roteiro brilhante – a história não podia ser mais improvável e se torna um produto de pura genialidade, conferindo verossimilhança e emoção em cada minuto. O que também o favorece é sua curta duração, são ligeiros 105 minutos de pura diversão. WALL-E é quase desprovido de diálogos – e ao contrário do que se possa imaginar, isso não afeta em nenhum momento o ritmo do longa. Muito pelo contrário, as expressões de nosso protagonista conseguem dizer tudo o que palavras talvez não conseguiriam. Mais do que nunca, uma imagem vale mais do que mil palavras. O robozinho é humano – tem medo, coragem, curiosidade e… amor. A animação de Andrew Stanton termina por ser uma tímida história de amor, que pouco a pouco vai se tornando cada vez mais sincera. Além disso, faz uma enorme crítica sobre a alienação da população, que só fica sentada em frente do computador, comendo, engordando e esquecendo-se do quão importante é o sense of touch, como diria Crash – No Limite.

Por os diálogos serem mínimos, WALL-E usa e abusa da estupenda trilha sonora do genial Thomas Newman. Ele, que absurdamente até hoje não tem um Oscar em mãos, realiza possivelmente o melhor trabalho de toda a sua carreira de compositor. Nunca ouvi em seu currículo uma trilha tão diversificada, original e minimalista. Esse é um dos pontos altos do filme, pois a música é o que também dota o filme de emoção. A grandiosidade e o detalhismo do desenho dispensam comentários, uma vez que as animações de hoje em dia se aperfeiçoam cada vez mais nesse quesito. Mas o mais impressionante é como conseguiram dar expressões tão verdadeiras para um robô. É por esse e outros motivos que Wall-E merece ser coroado com o Oscar por seu brilhantismo. E não apenas na categoria de desenho animado, os efeitos sonoros também são incríveis e dignos de reconhecimento.

Se existe um ponto fraco em WALL-E, esse é a repetição de seu humor. Assistimos sempre a mesma coisa – as estripulias do robô tentando compreender novos mundos. Mas estranhamente eu não vejo isso como um fator negativo. É extremamente gratificante sair da sala de cinema com uma sensação positiva por ter visto algo realmente genial. A animação é isso – estupenda, muito bem orquestrada e até agora a melhor surpresa do ano. E o melhor filme também.

PS: Procure assistir aos créditos finais, que são um primor de beleza estética, sem falar da linda música de Peter Gabriel, “Down To Earth”.

FILME: 9.0

45

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Direção: Steven Spielberg

Elenco: Harrison Ford, Shia LaBeouf, Cate Blanchett, John Hurt, Ray Winstone, Karen Allen, Jim Broadbent

Indiana Jones And The Kingdom Of The Crystal Skull, EUA, 2008, Aventura, 125 minutos, 12 anos.

Sinopse: 1957. Indiana Jones (Harrison Ford) e seu ajudante Mac (Ray Winstone) escapam por pouco de um encontro com agentes soviéticos, em um campo de pouso remoto. Agora Indiana está de volta à sua casa na Universidade Marshall, mas seu amigo e reitor da escola, Dean Stanforth (Jim Broadbent), explica que suas ações recentes o tornaram alvo de suspeita e que o governo está pressionando para que o demita. Ao deixar a cidade Indiana conhece o rebelde jovem Mutt Williams (Shia LaBeouf), que tem uma proposta: caso o ajude em uma missão Indiana pode deparar-se com a caveira de cristal de Akator. Agentes soviéticos também estão em busca do artefato, entre eles a fria e bela Irina Spalko (Cate Blanchett), cujo esquadrão de elite está cruzando o globo atrás da Caveira de Cristal.

Depois de alguns filmes tentando resgatar seu gênero (como A Lenda do Tesouro Perdido), o lendário Indiana Jones tem seu retorno aos cinemas trazendo todo aquele clima nostálgico de aventura e os elementos que o tornaram um sucesso na história do cinema.

Todo mundo sabe que as aventuras do arqueólogo Indiana Jones são um exagero, e aqui não é diferente. Ele é invencível, escapa das situações mais improváveis, não tem medo da morte e sempre se envolve em aventuras grandiosas. Mas e daí? As histórias de Indy são excelentes justamente por causa disso. Já se foram quase vinte anos desde que o aventureiro teve sua última aparição no cinema, com Indiana Jones e a Última Cruzada, e seu retorno em O Reino da Caveira de Cristal foi esperado por multidões. O diretor Steven Spielberg resolveu não modernizar o protagonista ou tentar ”encaixar” o filme nos moldes hollywoodianos contemporâneos. É uma aventura clássica, inocente e divertida – como já estamos acostumados a assistir na televisão. Só que isso não é um defeito. É exatamente por causa dessa nostalgia do roteiro que essa continuação é tão sincera e espontânea.

Como sou um leigo na série, fui assistir O Reino da Caveira de Cristal sem qualquer conhecimento sobre as produções realizadas anteriormente. Mas posso dizer que o filme funciona perfeitamente para quem nunca assistiu aos outros filmes – o roteiro é instigante e cheio de ação, ainda que tenha diversas falhas em seu ritmo, especialmente quando tenta explicar o caráter histórico da tal caveira de cristal do título e quando resolve trabalhar as relações entre os personagens. Felizmente, esses problemas de narrativa só ficam presentes até a metade do longa, depois somos brindados com o melhor das aventuras “clássicas” em uma sucessão de cenas de ação que são completamente empolgantes. Nesse quesito, Spielberg continua melhor do que nunca. É um pouco difícil para que a geração de hoje aceite todas as estripulias e movimentos acrobáticos inacreditáveis que estão presentes no longa, logo é recomendado que essas pessoas não assitam ao longa, pois a grande diversão dele é justamente essa.

Ao contrário do que eu imaginava, Harrison Ford não estragou minha diversão. Nunca achei que ele fosse alguém talentoso ou sequer bom ator, mas com O Reino da Caveira de Cristal ele conseguiu me convencer bastante, impecável em seu papel. Já não posso dizer o mesmo do seu companheiro de tela, o jovem Shia LaBeouf (que em Transformers se revelou alguém com futuro). Sim, ele tem o porte físico e toda a jovialidade para o papel, mas em momento algum demonstra carisma, tornando-se um personagem completamente nulo em sua presença na tela. A musa Cate Blanchett (em sua terceira tão-falada participação no cinema depois dos desempenhos em Elizabeth – A Era de Ouro e Não Estou Lá) não parece ser Cate Blanchett. Escondida em cabelos negros em um pesado sotaque, fica difícil ver que é ela quem está em nossa frente. Cumpre muito bem o seu papel de vilã, mas não deixa grandes marcas.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é uma excelente aventura, que com certeza vai agradar a todos os fãs da série e até mesmo aqueles que nunca colocaram os olhos na história – como eu. Certamente não é um trabalho muito grandioso, especial ou marcante, mas consegue ser uma das melhores opções em cartaz. Merece se conferido e apreciado.

FILME: 8.0

35

Sex And The City

Direção: Michael Patrick King

Elenco: Sarah Jessica Parker, Kim Cattral, Cytnhia Nixon, Kristin Davis, Jennifer Hudson, Candice Bergen, Chris Noth, David Eigenberg

EUA, 2008, Comédia Romântica, 150 minutos, 16 anos.

Sinopse: Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) é uma escritora de sucesso obcecada por moda, que vive em Nova York. Assim como suas amigas Samantha Jones (Kim Cattrall), Charlotte York (Kristin Davis) e Miranda Hobbes (Cynthia Nixon), Carrie tenta equilibrar o trabalho com seus relacionamentos.

Com muita expectativa em torno de seu resultado, o filme de Sex And The City acerta completamente quando é avaliado como um presente para os fãs da série. Já quando analisado como um produto cinematográfico, o resultado não empolga.

O filme como uma homenagem ao seriado e seus fãs:

Junto com Friends, o seriado Sex And The City se tornou um dos maiores sucessos na história cômica da televisão americana. Conquistando quase que unicamente apenas o público feminino, durou seis temporadas e ganhou oito prêmios no Globo de Ouro. Somente depois de 4 anos é que o tão prometido filme chega aos cinemas, e com a maior certeza posso dizer que é um retorno mais do que satisfatório para os fãs. É com imensa alegria que voltamos a nos encontrar com Carrie Bradshaw, Samantha Jones, Charlotte York e Miranda Hobbes. As atrizes nunca pareceram tão à vontade em seus papéis e conseguem reviver suas memoráveis personagens de forma impecável. Além delas, todos aqueles elementos que tornaram Sex And The City um grande sucesso estão de volta – a imensa variedade de figurinos, os problemas amorosos, as questões sexuais e a importância da amizade. No final das contas, é como se estivéssemos assistindo um recomeço da série, um episódio novo que vai trazer de volta o seriado. Assim, assiste-se ao filme com grande empolgação. A cada momento somos brindados pelos elementos que sempre deram certo na televisão e pelo humor inconfundível. No final, ao som de All Dressed In Love, fica o sorriso no rosto. Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte são insubstituíveis.

O filme como um produto cinematográfico:

Sex And The City funciona perfeitamente como uma comédia romântica até a sua metade. No exato momento em que Jennifer Hudson entra em cena, o filme cai na obviedade e começa a se repetir até os créditos finais. Por ter um tratamento puramente televisivo (afinal, o longa é dirigido por um diretor do seriado), o longa acaba parecendo um episódio alongando – e como, já que estamos falando de longos 150 minutos desnecessários de duração. Se o roteiro acerta ao trazer todos os elementos positivos que deram certo na televisão, peca por abusar deles e criar coisas novas, não sabendo trabalhar com elas. Um exemplo é a aparição de Louise (Jennifer Hudson), que além de ser uma personagem completamente tapada (não consegui engolir de jeito nenhuma aquelas filosofias baratas de “o amor é lindo, resolve tudo e é o que todos precisam”) e de não ter nenhuma utilidade na trama, só mostra que Hudson é mais uma Queen Latifah da vida que só chama a atenção quando solta a voz. Fiquei incomodado também com tantos acontecimentos, especialmente as milhares separações e desavenças existentes.

Sem dúvida alguma, Sex And The City é muito bem produzido – as cores saltam aos olhos (ajudados por uma excelente fotografia), a trilha tem seus ótimos momentos e alguns momentos do filme são realmente interessantes. As mulheres ficarão particularmente interessadas pelos figurinos (ainda que eles às vezes irritem: precisava mesmo que elas usassem roupas hiper-chiques o tempo inteiro e ficassem mudando o visual a todo momento?), que conseguem superar O Diabo Veste Prada nesse quesito e provavelmente devam conseguir uma indicação ao Oscar como o filme de David Frankel conseguiu. O mérito do longa é conseguir reunir as quatro atrizes de forma perfeita; elas nunca estiveram tão bem fotografadas, simpáticas e verossímeis. Mas vão além disso, mostrando serem excelentes atrizes. Estranhamente, a protagonista é a menos interessante de todas – Sarah nunca esteve tão sem graça como Carrie Bradshaw. Quem ganha destaque é Cynthia Nixon e Kim Cattral. A primeira se mostra muito competente em sua atuação. A segunda, brilha mais do que as outras. Não posso negar que sua Samantha Jones às vezes é um exagero, mas ela é a que mais diverte e cativa. Até mesmo a Kristin Davis e sua insossa Charlotte York aparece renovada e irradiante.

O resultado final:

A aprovação do resultado vai depender de quem o está assistindo. Como já mencionado, um fã da série vai sair empolgado da sessão. Um cinéfilo qualquer que desconhece as origens, possivelmente vai desaprovar a narrativa previsível e clichê. Eu como sou apenas um cinéfilo que gosta do seriado (e nada mais, já que nunca fui encantado pelas aventuras do quarteto) e saí satisfeito da sessão. Não me deixei levar pelos erros do longa e tive uma boa diversão. Deu para matar a saudade das personagens? Sem dúvida. Fica um gosto de “quero mais”? Claro. Mas deve parar por aqui. Mais um filme estragaria tudo. Devido ao sucesso (claro que o financeiro, já que a opinião do público e da crítica pouco importam) andam falando em uma possível continuação e até mesmo em uma trilogia (!!!), algo que desaprovo completamente. Até agora, tudo foi aceitável e divertido. Algo além, seria muito arriscado e o que menos queremos é ver o quarteto envolvido em algo ruim.

FILME: 7.5

35

Fim dos Tempos

Direção: M. Night Shyamalan

Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Jeremy Strong, M. Night Shyamalan, Stephen Singer, Alan Ruck, Betty Buckley

The Happening, EUA, Suspense, 95 minutos, 16 anos.

Sinopse: Em questão de minutos estranhas mortes ocorrem em várias das principais cidades dos Estados Unidos. Elas coincidem em dois pontos: desafiam a razão e chocam por sua grande capacidade de destruição. Sem saber o que está ocorrendo, o professor Elliot Moore (Mark Wahlberg) apenas quer encontrar um meio de escapar do misterioso fenômeno. Apesar dele e sua esposa Alma (Zooey Deschanel) estarem em plena crise conjugal, os dois decidem partir para as fazendas da Pensilvania juntamente com Jess (Ashlyn Sanchez), sua filha de 8 anos, e Julian (John Leguizamo), um professor amigo de Elliot. Lá eles acreditam que estarão a salvo, o que logo se mostra um equívoco.


Toda a má vontade e injustiça da crítica parecem ter afetado M. Night Shyamalan que, na tentativa de produzir um longa para um público mais amplo e acertar novamente, produz o pior trabalho de sua excelente carreira.”

Sempre fui um defensor do diretor indiano M. Night Shyamalan. Sempre. Até Fim dos Tempos ele nunca havia realizado um trabalho ruim. Depois de Sinais (acredito que seu último sucesso de público e crítica), foi injustamente bombardeado com A Vila (a melhor produção de toda a sua carreira) e A Dama Na Água (que apesar de não ser uma maravilha, é um filme legal). Na tentativa de retornar ao sucesso conquistado no início da carreira, ele apostou num estilo de gênero que na maioria das vezes sempre dá certo – o fim da raça humana. Se a abordagem em Sinais era de pura tensão e medo, aqui nada mais é que um retrato frio e nada inspirado de uma visão catastrófica ambiental. Um tema que merecia melhor tratamento e não ser mostrado de forma superficial como essa.

O principal problema é que Fim dos Tempos não parece um filme de M. Night Shyamalan – a tensão é fraca, os sustos quase inexistentes e a condução do roteiro totalmente irregular. Acompanhamos personagens nada interessantes em uma jornada confusa e sem sentido contra um “inimigo” tolo se formos analisar o contexto de suspense. Lembrando a temática do terrível A Névoa, com Tom Welling, a produção também peca em apostar num elenco inexpressivo. Não sei de onde tiraram a idéia que Mark Wahlberg podia segurar sozinho um filme desse porte, uma vez que ele não tem carisma algum para comandar o espetáculo. Funciona melhor como coadjuvante, vide seu trabalho em Os Infiltrados. Zooey Deschanel beira o ridículo com suas expressões falsas e que não enganam ninguém. John Leguizamo tem participação completamente vazia e passageira, assim como qualquer outro personagem que aparece na tela (especialmente a garotinha de Crash – No Limite.

O filme apresenta alguns aspectos competentes. A trilha sonora é ótima como sempre, ainda que seja a menos memorável dos filmes do diretor. Mas estamos falando de James Newton Howard, excelente compositor que nunca desaponta. A direção também tem seus momentos, especialmente quando resolve fazer tensão e mostrar alguns suicídios (mas só alguns, porque existem uns constrangedores, visto que os efeitos não ajudam). O humor é um bom ponto, mas isso não é um sinal necessariamente positivo. Depende da sua maneira de ver as coisas. O visual é interessante e a ambientação idem, mas não passa disso. O desfecho é apressado, lembrando Invasores e não diz muita coisa perante a importância que o filme atribui ao tema “preservação do meio-ambente”. M. Night pisou na bola comigo dessa vez, mas eu o perdôo. É um filme ruim, fazer o quê. Mas isso não faz a minha opinião mudar sobre ele. Só desejo boa sorte, na próxima vez.

FILME: 5.5

2

Chega de Saudade

Direção: Laís Bodanzky

Elenco: Tônia Carrero, Leonardo Villar, Betty Faria, Cássia Kiss, Stepan Nercessian, Maria Flor, Paulo Vilhena, Elza Soares

Brasil, 2008, Comédia, 95 minutos, 12 anos.

Sinopse: A história acontece em uma noite de baile, em um clube de dança em São Paulo, acompanhando os dramas e alegrias de cinco núcleos de personagens freqüentadores do baile. A trama começa ainda com a luz do sol, quando o salão abre suas portas, e termina ao final do baile, pouco antes da meia-noite, quando o último freqüentador desce a escada. Mesclando comédia e drama, Chega de Saudade aborda o amor, a solidão, a traição e o desejo, num clima de muita música e dança.

Tema pouco explorado no cinema brasileiro, a terceira idade ganha inúmeros contornos interessantes nessa produção simples, que cativa por conta de seu humor em relação ao tema e de seus ótimos atores.

Em determinado ponto de Chega de Saudade a personagem de Tônia Carrero afirma: “Certas coisas só podem acontecer na juventude”, mas o filme prova justamente o contrário; não existe hora certa para ser feliz, rir, amar e aproveitar o que a vida tem de melhor. A diretora Laís Bodansky escolheu um gênero totalmente diferente do seu trabalho anterior (o ótimo Bicho de Sete Cabeças) e investiu nessa proposta, que à primeira vista poderia resultar em algo totalmente clichê, usando um tratamento essencialmente cômico. O longa trabalha pequenos dramas existentes nessa fase da vida (frustrações, arrependimentos, paixões não correspondidas, baixa auto-estima, pessimismo), mas não se deixa levar por eles. Somos apresentados a esses dilemas existenciais através do humor e da música, que permeiam o roteiro o tempo inteiro, nunca pesando o clima de alto-astral. O roteiro, por sinal, é muito bem arquitetado – todos os inúmeros núcleos tem seu espaço ideal dentro do filme e nenhum é particularmente desinteressante, fraco ou mal explorado.

Não é apenas o bom roteiro que ajuda Chega de Saudade a ser um dos melhores filmes brasileiros lançados nos últimos tempos, mas também o seu impecável elenco. Espaço para que determinado ator ou atriz brilhe completamente não existe, porque a narrativa se desenvolve em diversos núcleos, mas cada um tem o seu momento de inspiração. Quem mais me agradou foi a irradiante Cássia Kiss, como a mulher frustrada que vê o seu namorado a deixando de lado no baile para tentar paquerar uma garota. Sua aparição é baseada em olhares contidos que mais tarde, em um bonito momento, culminam em lágrimas. Tônia Carrero e Leonardo Villar possuem uma ótima química como o típico casal “entre tapas e beijos”. Betty Faria também está impagável como a mulher que nunca é retirada para dançar. Já Stepan Nercessian e Paulo Vilhena realizam trabalhos apenas regulares, onde falta o brilho que outros personagens adquirem ao desenrolar do filme.

Tenho que confessar que a repetição da estrutura me cansou em certos momentos (seguimos o mesmo estilo narrativo até o final – nada de histórias se interligando ou qualquer surpresa as envolvendo) e que já no final eu já não acompanhava o longa com a mesma sensação presente nos momentos finais, mas não deixei de me divertir em momento algum e muito menos de ser agradado pelos excelentes atores na tela. Sim, Chega de Saudade é um filme convencional para idosos – o filme dirige-se apenas a eles e aos que gostam dessa temática -, mas que com sua simplicidade humorística em cima deles, conquista. Não é uma produção que vai deixar o espectador pensando após o seu final, já que as lições de vida não ficam explícitas, mas que vai deixar muita gente feliz. O tempo de viver é agora, e saudade já é coisa do passado.

FILME: 8.0

35

Margot e o Casamento

Margot e o Casamento, de Noah Baumbach

Com Nicole Kidman, Jennifer Jason Leigh e Jack Black

3

Até hoje não sei dizer o que viram no diretor Noah Baumbach. Seu filme de estréia, A Lula e a Baleia fez respeitável sucesso e colheu grandes admiradores pelo caminho. Eu não fui um deles. Até achei o suposto talento de Baumbach muito questionável, pois ele trabalha um gênero que aprecio muito (famílias disfuncionais e seus problemas de relacionamento), mas em momento algum traz alguma coisa de brilhante ou sequer muito interessante. O que não posso deixar de elogiar é a escolha que ele faz para o elenco, que no final das contas é o que mais marca. O seu segundo longa-metragem, Margot e o Casamento não obteve êxito e aqui no Brasil foi condenado a ser lançado diretamente em dvd. E tudo que o filme conquistou de expectativas foi por causa de Nicole Kidman, e não de Baumbach. A estrutura de Margot e o Casamento é bem parecida com a de A Lula e a Baleia. Praticamente a mesma, arrisco dizer – pegamos uma trama comum mas que pode render bons momentos (irmãs que não se entendem encontram-se para o casamento de uma delas), adicionamos um roteiro puramente falado e um bom elenco. O resultado? Morno. Mais uma vez o diretor não me convenceu.

Fiquei muito incomodado com o roteiro, que não se preocupa em humanizar os personagens, apesar da dimensão dramática que eles recebem. Em momento algum consegui me identificar com qualquer um deles, muito pelo contrário, até tive dificuldade de sequer aceitá-los. Principalmente com a Margot do título, que não é nem simpática, engraçada ou triste – é uma personagem que varia exaustivamente. No entanto, Nicole Kidman consegue extrair excelente desempenho da personagem. É a melhor atuação de Kidman desde… desde quando mesmo? Os méritos são dela, não da personagem. Sua companheira Jennifer Jason Leigh já tem papel mais agradável, talvez o melhor da história. Leigh também está ótima e tem grandes momentos quando o filme se encaminha para o final. Já Jack Black não tem muito o que fazer, já que sua participação não é muito destacada.

Margot e o Casamento tem excelentes conflitos que não foram trabalhados da forma mais instigante, mas que se tornam suficientemente aceitáveis para a produção. O filme é bem ligeiro e com agradáveis diálogos que dão dramaticidade a história. Repito: é uma produção com competência dramática, mas com condução equivocada. O resultado é cheio de falhas, que não são completamente compensadas por seus pontos positivos, porque estamos assistindo um produto inconstante. Ao final do filme, dá pra se entender porque ele foi lançado diretamente em dvd. É uma variação do trabalho de estréia do diretor, o que acabou por não me agradar muito. Pensei que veria alguma inovação ou mais inspiração, mas não. Assisti apenas boas atuações, alguns interessantes momentos e roteiro nada além do aceitável. E só.

FILME: 6.5

Apenas Uma Vez

Direção: John Carney

Elenco: Glen Hansard, Marketa Irglova, Hugh Walsh, Geoff Minogue, Bill Hodnett, Mal Whyte

Once, Irlanda, 2007, Drama, 85 minutos, 12 anos.

Sinopse: Dublin, Irlanda. Um músico de rua (Glen Hansard) sente-se inseguro para apresentar suas próprias canções. Um dia ele encontra uma jovem mãe (Markéta Inglová), que tenta ainda se encontrar na cidade. Logo eles se aproximam e, ao reconhecer o talento um do outro, começam a ajudar-se mutuamente para que seus sonhos se tornem realidade.

O longa irlandês “Apenas Uma Vez” é o velho samba de uma nota só, onde praticamente não temos clímax e a história não tem variações. Porém, é toda a humildade e sinceridade de Glen Hansard e Marketa Irglova, em uma química perfeita, que transformam o filme em uma experiência prazerosa.”

Junto com Juno, A Família Savage e outros tantos filmes, Apenas Uma Vez reforçou a potência do cinema independente no mundo de Hollywood. Da safra desses filmes, sem dúvida é a produção mais precária técnicamente (a câmera treme constantemente, a fotografia é péssima e a montagem nada agradável), sendo que as grandes limitações do orçamento (que ficou em torno de 150 mil dólares) ficam completamente visíveis na tela. Mas assim como em outros longas filmados nessas circunstâncias (alguém se lembra da precariedade de Do Jeito Que Ela É), ele não deve ser julgado por isso.  Toda a força de Apenas Uma Vez reside nos protagonistas Glen Hansard e Marketa Irglova. Eles estão impecáveis em todas as suas funçoes – cantores encantadores e ótimos atores. A química entre ambos é absurdamente perfeita e consegue comandar o ritmo do longa sem nenhum problema. Outro ponto muito forte de Apenas Uma Vez são as suas belas canções, todas escritas por Glen e Marketa especialmente para o longa. Claro que a mais marcante é Falling Slowly, que venceu o Oscar desse ano de melhor canção original e pontua dois momentos importantes e emotivos da história, mas ainda temos outras memoráveis. Fallen From The Sky, If You Want Me e When Your Mind’s Made Up são apenas outros exemplos da excelência da ótima trilha sonora.

Do ponto de vista musical, Apenas Uma Vez é um longa maravilhoso, mas do cinematográfico nem tanto. Deixando de lado a precariedade, temos uma história não muito interessante. As atuações de Glen e Marketa e as músicas é que “disfarçam” a falta de um roteiro. Pouquíssima coisa acontece, não temos clímax e faltam conflitos (o relacionamento dos dois com seus respectivos parceiros fica muito vago). Com isso, no final das contas, o filme de John Carney acaba se tornando um samba de uma nota só. Mas se o roteiro tem esses problemas, devemos ficar gratos por termos duas competentes pessoas cobrindo esses defeitos. O filme é puramente dos protagonistas, que transformaram Apenas Uma Vez em uma história muito sincera e emocionante em seu desfecho. O carisma de ambos basta para que o filme mereça ser conferido. Apesar de eu não acreditar que eles devam seguir carreira no mundo cinematográfico (é mais provável que prossigam no meio musical), o longa já fez o justo trabalho de divulgá-los. Porque afinal, são eles que têm todos os créditos positivos do longa.

FILME: 8.0

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Pecados Inocentes

Direção: Tom Kalin

Elenco: Julianne Moore, Stephen Dillane, Belén Rueda, Eddie Redmayne, Hugh Dancy

Savage Grace, EUA, 2007, Drama, 95 minutos, 18 anos.

Sinopse: Barbara Daly Baekeland (Julianne Moore) é uma mulher bonita e carismática. Mas isso não é suficiente para apagar o abismo de classes existente entre ela e seu marido, Brooks (Stephen Dillane), o herdeiro da fábrica de plásticos Bakelite. Quando Tony (Eddie Redmayne), o único filho do casal, nasce, essa delicada relação desaba. Tony é visto pelo pai como um fracassado e, conforme amadurece, se aproxima da solitária mãe.

A história da socialite Barbara Baekeland chocou o mundo. Além de ela manter relações sexuais com o seu filho, foi assassinada pelo mesmo. Com um material desse em mãos, um filme pode alcançar brilhantismos dramáticos, mas infelizmente não é isso que ocorre com Pecados Inocentes. O roteirista Howard A. Roman criou seu roteiro (baseado no livro Savage Grace, de Natalie Robins e Steven M. L. Aronson) de forma que a história não girasse em torno do tal caso incestuoso da protagonista com o filho e muito menos em torno do assassinato. Tanto, que esses acontecimentos só são apresentados quando o filme está se encaminhando para o final.

Na realidade, o roteiro quer trabalhar as personalidades de cada um dos personagens – temos a solidão complexa de Barbara, a mente confusa de Tony e a inconstância de Brooks. Por mais que seja muito nobre da parte do roteirista querer humanizar esses personagens para que no fim possamos entender o porquê dos acontecimentos, o tiro saiu pela culatra. Pouca dramaticidade se viu, a trama ficou completamente vazia e sem sentimentos e nem conseguiram o feito de fazer com que simpatizemos com os personagens.

Frio e distante, Pecados Inocentes tem uma estética muito boa. A começar pelo visual, muito bem cuidado. Sem falar dos belíssimos figurinos que já entram na lista dos melhores do ano. O que me incomodou muito na parte técnica do longa foi a trilha sonora de Fernando Velázquez. Totalmente inapropriada e incômoda, chegando em certos momentos ser até mesmo brega, ela tenta imprimir, junto com a direção de arte, uma aura cult que não existe no longa. As composições atrapalham determinadas cenas e um descanso para os ouvidos seria mais do que agradável para a história do longa. Filmado até de uma forma um pouco amadora, Pecados Inocentes desandou por causa do roteiro e da direção irregular de Tom Kalin – que não acertou no tom da história.

Como em diversos outros filmes no mundo do cinema, restou para o elenco a árdua tarefa de validar uma conferida no filme. Só que a única presença do longa que merece reconhecimento é a de Julianne Moore. Caso não tivesse uma Laura Brown de As Horas em seu currículo, a personagem Barbara Baekeland seria a mais complexa de sua carreira. Depois do filme de Stephen Daldry, Julianne participou de diversas produções péssimas (A Cor de Um Crime, Os Esquecidos e O Vidente são alguns exemplos). Por mais que dificilmente ela apresente um desempenho ruim nos filmes, ficou conhecida por ter a maldição do Oscar.

Todavia, Pecados Inocentes não deixa um saldo negativo em sua carreira. Ainda que a produção seja irregular, não chega a ser ruim, e o desempenho de Julianne Moore é o maior atrativo. Sem exageros e nem muito contida, Julianne extrai o melhor da personagem, apresentando um dos melhores desempenhos do longa. O garoto Eddie Redmayne, que interpreta o filho da protagonista, tem trabalho linear e sem maiores atrativos. Temos também participações de Belén Rueda (em ponta completamente esquecível) e Stephen Dillane (um pouco desperdiçado).

Talvez a exigência do espectador com a produção faça com que o julguemos de uma forma diferente. Sim, eu fiquei bem decepcionado com o resultado, o que me leva a expor opiniões completamente negativas em função da minha expectativa quanto a ele. Mas o fato é que se olharmos para o filme sem as expectativas, acabamos vendo um filme nada mais que mediano e fraco. Por isso, Pecados Inocentes não merece tanto massacre. Não é ruim, só ficou aquém do que poderia fazer. Porém, se a produção merece uma conferida é por causa de Julianne Moore e da parte técnica. De resto, é apenas mais um trabalho esquecível que aporta no Brasil.

FILME: 6.0

25

Coisas Que Perdemos Pelo Caminho

Direção: Susanne Bier

Elenco: Halle Berry, Benicio Del Toro, David Duchovny, Alison Lohman, Robin Weigert, Caroline Field, Sarah Dubrovsky

Things We Lost In The Fire, EUA, 2008, Drama, 105 minutos, 14 anos.

Sinopse: Audrey Burke (Halle Berry) está em choque com a notícia que acaba de receber: Brian (David Duchovny), seu marido, foi morto em um ato de violência o qual ele não tinha qualquer ligação. Audrey agora sente-se perdida e, por impulso, recorre a Jerry Sunborne (Benicio Del Toro), um amigo de infância do marido que é também viciado em drogas. Desesperada para preencher o vazio em sua vida que existe desde a morte de Brian, Audrey convida Jerry para morar no quarto anexo à garagem da família. Jerry atualmente está lutando para evitar as drogas e vê nesta oportunidade a chance de se recuperar de vez, já que passa a agir como se fosse o substituo de Brian na vida de Audrey e seus filhos.


Sou facilmente conquistado por filme sobre perdas. Por mais que alguns deles não sejam lá muito interessantes ou bem produzidos, sempre acabo gostando do resultado. E Coisas Que Perdemos Pelo Caminho se encaixa nessa minha avaliação. Não é um filme com atrativos significativos ou pontos dignos de maiores elogios, mas conseguiu ser suficientemente satisfatório para cair no meu gosto. O que marca o ápice da narrativa desse filme de Susanne Bier (indicada ao Oscar de filme estrandeiro por Depois do Casamaneto) são os bons desempenhos de Halle Berry e Benicio Del Toro.

Ela, depois de ganhar o seu merecido Oscar de melhor atriz – afinal ela esteve soberba em A Última Ceia -, só realizou desgraças sem precedentes. Na Companhia do Medo, A Estranha Perfeita e Mulher-Gato afundaram completamente a atriz e estragaram toda a sua reputação. Desacreditada, foi esquecida por seu desempenho em Coisas Que Perdemos Pelo Caminho. Tudo bem que não é atuação que fará o espectador perdoar seus erros indesculpáveis e muito menos chega perto da intensidade do momento que lhe rendeu o Oscar, mas ao menos Halle Berry começa a demonstrar que ainda está viva no mundo do cinema, e que ainda pode proporcionar bons momentos aos cinéfilos. E é o que acontece aqui. Já Benicio Del Toro sempre foi bom ator (ainda que eu discorde do prêmio que a Academia lhe deu de melhor ator coadjuvante) e ele acaba brilhando mais do que Halle, sendo o melhor em cena e o ponto mais positivo do filme. Ele definitivamente rouba a cena.

Coisas Que Perdemos Pelo Caminho não é poético nem profundo como o título indica, é até bem simples e pouco atraente. A dor dos personagens é trabalhada da forma mais acessível possível e isso acaba facilitando bastante a aceitação do público perante esse tipo de história, que normalmente costuma ser de difícil acesso. O interessante é que o roteiro não se preocupa em querer emocionar e muito menos passar mensagens.

Curiosamente, isso também acaba agindo como um defeito, já que a linearidade (junto com a falta de uma emoção maior e momentos mais memoráveis) em diversas vezes atrapalha o andamento do roteiro sem maiores momentos dramáticos. A película de Susanne Bier não machuca ninguém e não vai mudar o mundo dos dramas, só é um veículo para Halle Berry e Benicio Del Toro. Coisas Que Perdemos Pelo Caminho certamente vai achar seu público, pois é um filme de fácil digestão, mas não vai alto em minhas notas por causa disso, uma vez que prefiro aqueles dramas mais pesados e densos.

FILME: 7.0

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