Cinema e Argumento

O Homem de Aço

What are you going to do when you’re not saving the world?

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Direção: Zack Snyder

Roteiro: David S. Goyer, baseado em história criada por Christopher Nolan e David S. Goyer, e nos personagens de “Superman”, criados por Jerry Siegel e Joe Shuster

Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Kevin Costner, Diane Lane, Laurence Fishburne, Christopher Meloni, Dylan Sprayberry, Richard Schiff, Antje Traue, Cooper Timberline, Mary Black

Man of Steel, EUA, 2013, Ação/Ficção, 143 minutos

Sinopse: Nascido em Krypton, o pequeno Kal-El viveu pouco tempo em seu planeta natal. Percebendo que o planeta estava prestes a entrar em colapso, seu pai (Russell Crowe) o envia ainda bebê em uma nave espacial, rumo ao planeta Terra, e levando com ele importantes informações de seu povo. Contrariado com tal atitude, o General Zod (Michael Shannon) tenta impedir a iniciativa e acaba preso. Já em seu novo lar, a criança foi criada por Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), que passaram a chamá-lo de Clark. O tempo passa, seus poderes vão aparecendo e se tornando, de certa forma, um problema, porque isso evidencia que ele não é um ser humano. Já adulto, Clark (Henry Cavill) se vê obrigado a buscar um certo isolamento porque não consegue resistir aos salvamentos das pessoas e sempre precisa sumir do mapa para não criar problemas para seus pais. Mas o terrível Zod conseguiu se libertar e descobriu seu paradeiro. Agora, a humanidade corre perigo e talvez tenha chegado a hora das pessoas conhecerem aqueles que passarão a chama de o Super-Homem. (Adoro Cinema)

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No cinema contemporâneo, Superman é um cara de azar. Se Christopher Reeve imortalizou o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster décadas atrás, hoje já não se consegue repetir o mesmo feito. Claro que são situações diferentes, mas é curioso como o herói simplesmente não consegue ter um filme atual à altura de sua mitologia. Bryan Singer fracassou quando resolveu dar um tom mais simbólico e pausado ao personagem em Superman – O Retorno: ninguém se entusiasmou com o longa, sequências não existiram e o resultado foi completamente esquecido. Tudo foi reinventado, portanto, para O Homem de Aço, na esperança de reerguer a vida cinematográfica do grande Superman. Não existem resquícios do longa de Singer, a equipe foi inteiramente repaginada. E, novamente, o resultado desaponta. Dessa vez, mais do que na primeira. Isso porque, se Superman – O Retorno foi alvo de duras críticas por sua abordagem mais contemplativa, a nova investida comandada por Zack Snyder se afunda fazendo justamente o oposto, silenciando todas as interessantes complexidades do protagonista com explosões e efeitos descontrolados que sintetizam o que existe de pior nos blockbusters estadunidenses.

Dói ter que dizer que O Homem de Aço tem a ação mais barulhenta, irritante e sem sentido desde que Michael Bay ensurdeceu meio mundo com a pavorosa saga Transformers. Isso porque, apesar dos pesares, Zack Snyder é um sujeito de estética atraente, e também porque a produção ficou a cargo de Christopher Nolan – que ainda escreveu a história que serviu de base para o roteiro de David S. Goyer (o roteirista da trilogia Batman comandada por Nolan). Superman tinha tudo para finalmente ganhar novas plateias, mas a excessiva necessidade de explodir tudo que vem pela frente só para envolver os públicos sedentos por ação destroi praticamente tudo o que existe de positivo em O Homem de Aço. É outro prego martelado no caixão desse heroi que merecia uma trajetória mais decente nos anos 2000. O filme, por sinal, já não começa bem, ambientado em um planeta Krypton altamente computadorizado e que já dá indícios do que se desenvolverá de pior ao longo das desnecessárias 2h30 de duração do longa: a absurda canastrice do vilão de Michael Shannon (em um dos piores desempenhos do ano), o excesso de efeitos visuais e uma história de ficção nada interessante.

O que que mais importa e interessa em O Homem de Aço é justamente a vida de Clark Kent (Henry Cavill) na Terra tentando se às normalidades da vida humana. Sua busca por identidade, o convívio com os pais e cada pequena descoberta trazem momentos até intimistas e sutis para esse filme que, de resto, destoa completamente de tal simplicidade. Na forma como Goyer conduz o roteiro, ainda ajuda o fato da infância e da adolescência de Clark ser contada em flashbacks – o que tira aquele didatismo tão presente em histórias que narram a vida do herói com o tradicional início, meio e fim. Dando vida ao protagonista está Henry Cavill, que é uma boa escolha para Superman. A beleza grega e o imponente porte físico do ator não devem nada aos corações que Christopher Reeves conquistou anteriormente. Mas, assim como todas as boas partes e promessas do filme (nisso incluímos uma sempre simpática Amy Adams que nada tem a fazer aqui), ele é silenciado por um amontoado de cenas altamente barulhentas e descontroladas.

A ação de O Homem de Aço é tão ensandecida que Zack Snyder pede que o espectador seja testemunha da total destruição de uma cidade sem sequer se importar com as pessoas que nela moram ou com os próprios cenários que são demolidos com a maior naturalidade do mundo. Talvez a última vez que testemunhamos a mesma loucura tenha sido quando os Power Rangers montavam seus Megazords semanalmente na TV para salvar a cidade de vilões gigantes. São tantas explosões que nem nos importamos com os personagens. Tudo se banaliza quando o perigo é constante mas nunca efetivo e a ambientação fica superficial dentro de tantos efeitos. Nesse conjunto, até a trilha de Hans Zimmer cai no lugar comum, mesmo que seu belo piano funcione nos momentos mais reflexivos. Com tonalidades interessantes que moldam um visual quase melancólico, O Homem de Aço tem, assim, dois filmes rivalizando dentro de um. A diferença é gritante, especialmente porque o pior engole o melhor. Zack Snyder conseguiu se policiar na sua conhecida paixão por stop motions, mas ele e David S. Goyer não sabem quem agradar. Ou seja, um dos filmes-pipoca mais promissores do ano se revelou uma bomba que não consegue nem realizar uma ação acéfala mas empolgante. O Homem de Aço é somente uma chance desperdiçada. Mais uma vez.

FILME: 4.5

2*

Diana

Somewhere between right and wrong there is a garden. I’ll meet you there.

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Direção: Oliver Hirschbiegel

Roteiro: Stephen Jeffreys, baseado no livro “Diana – Her Last Love”, de Kate Snell

Elenco: Naomi Watts, Naveen Andrews, Douglas Hodge, Geraldine James, Charles Edwards, Daniel Pirrie, Juliet Stevenson, Jonathan Kerrigan, Laurence Belcher, Harry Holland, Leeanda Reddy

Inglaterra/França/Suécia/Bélgica, 2013, Drama, 113 minutos

Sinopse: Prestes a se divorciar de Charles, a princesa Diana (Naomi Watts) divide seu tempo entre a solidão da vida no palácio em que vive e os compromissos que possui com diversas entidades beneficentes. Um dia, ao saber que um amigo foi operado às pressas, ela vai até o hospital em que está internado e lá conhece o doutor Hasnat Khan (Naveen Andrews). Diana logo fica encantada pelo fato dele não a tratar como uma princesa, apesar de saber quem ela é. Não demora muito para que iniciem um relacionamento, mantido às escondidas devido ao desejo de Hasnat em ter uma vida reservada. (Adoro Cinema)

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A jogada tinha tudo para ser imbatível: depois de anos entregando excelentes desempenhos e vindo de uma (segunda) indicação ao Oscar por O Impossível, Naomi Watts finalmente ganharia a estatueta mais cobiçada do cinema. A fórmula (biografia + sotaque + maquiagem + penteados) acusava o tão esperado reconhecimento a essa intérprete que é uma das melhores de sua geração e uma das poucas que ainda não têm as devidas honrarias. Só que Diana, filme que narra os dois últimos anos da personagem-título e o relacionamento amoroso dela com um médico paquistanês, fracassou em praticamente todos os sentidos. Assim como Hitchcock – que era aposta certa para o Oscar de melhor ator com Anthony Hopkins – o longa de Oliver Hirschbiegel não foi bem de críticas e chegou ao Brasil com uma péssima divulgação, passando praticamente despercebido até mesmo pelo público em geral, que certamente tem razões de sobra para se interessar pela biografia de uma figura tão icônica e querida quanto Lady Di.

No entanto, não dá para contestar esse esquecimento de Diana. É até fácil endossá-lo. O que poderia ser uma delicada e envolvente história sobre uma das mulheres mais influentes da década de 1990 termina como um romance de menininha – na pior conotação que essa afirmação pode sugerir. Isso mesmo, a produção estrelada por Naomi Watts acerta na lógica de que contar um recorte da vida de alguém é mais interessante do que a narração de todo o conjunto, mas peca por encenar equivocadamente um lado muito duvidoso e desinteressante de Lady Di. As intenções do roteiro de Stephen Jeffreys, baseado no livro Diana – Her Last Love, de Kate Snell, são válidas: mostrar o lado “mulher” da personagem, focando-se menos no alvoroço que ela causava com a mídia e mais no seu íntimo, especialmente na última grande paixão que viveu. O problema é que não existe um estudo aqui: todo o tal relacionamento vivido por Diana é meramente jogado na tela com cenas e diálogos rasos dignos de romances adolescentes com juras de amor, brigas infantis e brincadeirinhas na beira da praia.

É por isso que a abordagem chega a ser um tanto estranha e duvidosa, pois Diana pinta um retrato imaturo da figura-título. E, se de fato ela era imatura, o filme desenvolve esse perfil de superficial e pouco convincente. A Lady Di de Watts surge completamente submissa e sem personalidade: quando instantaneamente se encanta  pelo médico Hasnat (Naveen Andrews, insosso), compra um livro de anatomia para se inteirar do assunto; quando descobre que ele gosta de jazz, passa a ouvir todos os cd’s possíveis do gênero; e, quando se vê impossibilitada de ir ao hospital visitá-lo em função da imprensa, compra uma peruca para aparecer disfarçada. A tentativa de humanização e de colocá-la no patamar “gente como a gente” tem seu valor, mas é feita de forma pouco envolvente, principalmente porque Diana ganha um ritmo claramente mais envolvente na quando se dedica ao espírito humanitário da protagonista com a população. É particularmente bela a cena em que ela, no meio da multidão, deixa que um cego toque seu rosto para que ele possa realizar o sonho de conhecê-la. As visitas de Diana aos hospitais da África e sua luta para desativação de minas terrestres (que ganharia um belo legado, como os próprios letreiros finais enfatizam) também demonstram justamente o oposto do que é desenvolvido pelo lado romântico do longa: uma mulher destemida, diferente e a frente de seu tempo.

Com uma pessoa tão rica em possibilidades dramáticas encabeçando a história, é de se chatear que Diana tenha optado por uma abordagem tão desestimulante. Ao se concentrar no romance da protagonista, o filme fica sem ritmo, frequentemente andando em círculos e instalando conflitos – novamente – dignos de romances previsíveis, como na sequência em que o reservadíssimo Hasnat briga com Diana porque a imprensa descobriu o affair dos dois. Para poupar o namorado, ela desmente o caso publicamente… e Hasnat briga com ela novamente por causa da mentira! E é assim durante praticamente todo o longa, com duas facetas da princesa que simplesmente não casam: a mulher insegura e submissa de um lado e, do outro, a figura pública revolucionária que inspirou multidões. Se não existisse menção ao nome de Lady Di ou se não mostrasse brevemente os feitos reais de sua protagonista, Diana sequer pareceria uma biografia. Complicado saber se a culpa é exclusivamente do roteiro, até porque a escolha de direção é um tanto inusitada: Oliver Hirschbiegel, um alemão dirigindo a cinebiografia de uma britânica depois de ter fracassado com seu debut hollywoodiano em Invasores.

Diana não é um filme que tem problemas de coesão ou estética confusa como A Dama de Ferro, por exemplo. Hirschibiegel tem até certa disciplina que dá ares requintados ao resultado. O problema é mesmo essa redução da figura da protagonista a uma historinha de amor que não merecia tanto destaque. Quem sofre com tudo isso? Naomi Watts, claro. Sem o poder imensurável de uma Meryl Streep da vida para sair ilesa de um filme irregular, ela não consegue escapar das deficiências do roteiro. Se o trabalho corporal, o sotaque, a maquiagem e os penteados são sim convincentes para fazer o espectador crer que estamos acompanhando os bastidores de Diana, a figura que ela representa fica automaticamente enjoada com os melodramas românticos impostos pelo texto. Tanto a atriz quanto a personagem representada por ela mereciam um filme mais delicado e intimista que não confundisse humanização com frequentes lugares comuns de romances apresentados aqui. Duas chances perdidas: a de finalmente consagrar uma excelente atriz (mesmo que por meio do clichê  de dar um Oscar para uma biografia) e a de mostrar o outro lado de um círculo que foi tão bem narrado pelos olhos de Elizabeth II (Helen Mirren) em A Rainha.

FILME: 6.0

25

Serra Pelada

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Direção: Heitor Dhalia

Roteiro: Heitor Dhalia e Vera Egito

Elenco: Juliano Cazarré, Júlio Andrade, Matheus Nachtergaele, Sophie Charlotte, Wagner Moura, Laura Neiva, Jesuíta Barbosa, Rose Tuñas

Brasil, 2013, Drama, 100 minutos

Sinopse: Uma jornada ao maior garimpo a céu aberto da Idade Contemporânea. Os amigos Juliano e Joaquim deixam o Rio de Janeiro em busca do sonho do ouro. O ano é 1978. Os dois chegam a Floresta Amazônica como tantos outros milhares de homens chegaram. Repletos de sonhos e ilusões. Mas a vida no garimpo muda tudo. A obsessão pela riqueza e pelo poder os destrói. Juliano se torna um gangster. Joaquim deixa todos os seus valores para trás. Uma história sobre a febre do ouro, sobre ganância e violência. Sobre uma grande amizade e seu fim.

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Ter acompanhado a jornada de Walter White (Bryan Cranston), no recém-finalizado seriado Breaking Bad, influencia por completo a recepção de Serra Pelada. Ambas as histórias mostram as vidas de homens comuns que, quando entram em contato com negócios altamente rentáveis e um nível de poder que nunca tiveram, passam a ter todo os seus comportamentos alterados. Tanto Walter quanto Juliano (Juliano Cazarré) são transformados pelo dinheiro e pela autoridade que conquistam, perdendo seus ideais e suas boas índoles em circunstâncias que afloram o pior que existe dentro de cada um deles. Mas, se Breaking Bad teve cinco temporadas esmiuçar o tema com o devido ritmo (e de forma magnífica, diga-se de passagem), Serra Pelada já não tem a mesma sorte. Formatos à parte, o previsível roteiro da dupla Heitor Dhalia e Vera Egito não consegue impactar, seguindo caminhos óbvios e apostando em arcos dramáticos que não trazem essa perturbadora imersão na vida de um personagem que é consumido pela ganância e pelo poder.

Responsável por À Deriva, um dos filmes brasileiros mais interessantes dos últimos anos, o pernambucano Heitor Dhalia agora volta ao seu país de origem depois de uma investida mal sucedida nos Estados Unidos com 12 Horas, estrelado por Amanda Seyfried. O retorno é menos interessante do que se poderia esperar, especialmente porque Dhalia já realizou longas bastante diferentes, como Nina O Cheiro do Ralo. E talvez por ser justamente mais simples do que outras passagens da carreira do diretor que Serra Pelada se torne uma leve decepção. De qualquer forma, Dhalia tem seus momentos aqui, principalmente quando dá um tom mais documental à história. Quando se dispõe a fazer uma radiografia do lugar-título e explorar sua grande repercussão nos anos 1980, o diretor consegue dar um tom mais dinâmico e envolvente ao resultado, muito ajudado pelas imagens grandiosas, pela trilha do sempre admirável Antonio Pinto e pela excelente reconstituição de época.

O mosaico de personagens também é pra lá de interessante, sendo bem explorado pelo trio principal: Cazarré tem a força necessária para carregar o protagonismo do filme, Júlio Andrade ultrapassa os obstáculos de seu personagem previsível e Sophie Charlotte surpreende como a cobiçada mulher da trama. O elenco de suporte, que tem nomes como Matheus Nachtergaele e Wagner Moura, ainda dá um toque especial ao bom time de atores. O problema mesmo é a forma como o texto nunca consegue ser mais impactante ao construir a desconstrução moral do protagonista. Nós observamos suas mudanças, mas não necessariamente as sentimos. Isso porque Serra Pelada mostra de forma rasa o passo-a-passo das mudanças de Juliano, preocupando-se mais em trablhar pequenos conflitos de negócios entre ele e outros habitantes do local do que desenvolver o que de fato mexe com seu ego e a sua ambição.

Reduzindo-se a meras explicações de “eu quero ficar rico!” para justificar as ações de um homem claramente corrompido por razões muito mais complexas, o roteiro ainda quase faz da relação da dupla principal um estereótipo. De um lado, Juliano, o ganancioso impulsivo que deseja muito dinheiro e poder. De outro, Joaquim, o pai de família racional e bondoso que se vê encurralado frente ao comportamento descontrolado do amigo. São abordagens que deixam a impressão de que Serra Pelada foi amortizado para as grandes plateias – o que certamente tem a ver com o selo Globo Filmes. Dentro do óbvio, cumpre bem todas as formalidades, tem boas pitadas de humor e em momento algum deixa qualquer má impressão. Porém, essa é uma história que, dadas as proporções e a equipe envolvida (especialmente Dhalia), merecia um roteiro mais ambicioso e que fosse mais afundo no que existe de pior dentro de um ser humano transformado pela ambição.

FILME: 7.5

3*

Gravidade

Beautiful, don’t you think?

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Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón

Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris (voz), Orto Ignatiussen (voz), Phaldut Sharma (voz), Amy Warren (voz), Basher Savage (voz)

Gravity, EUA, 2013, Ficção, 91 minutos

Sinopse: Matt Kowalski (George Clooney) é um astronauta experiente que está em missão de conserto ao telescópio Hubble juntamente com a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock). Ambos são surpreendidos por uma chuva de destroços decorrente da destruição de um satélite por um míssil russo, que faz com que sejam jogados no espaço sideral. Sem qualquer apoio da base terrestre da NASA, eles precisam encontrar um meio de sobreviver em meio a um ambiente completamente inóspito para a vida humana. (Adoro Cinema)

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Gravidade começa falando sobre a impossibilidade da vida humana como conhecemos no espaço. As condições de temperatura e oxigênio não deixam qualquer um de nós sobreviver por lá sem equipamentos e condições adequadas. Essa explicação poderia ser normalmente encarada como algo didático para uma mera ambientação, mas, no caso de Gravidade, é uma dica do que está por vir ao longo dos breves 90 minutos do filme: uma história passada em uma circunstância completamente inimaginável. Eis aí a raiz de toda a angústia causada por esse novo trabalho do mexicano Alfonso Cuarón: não é a “vida real”. Nós não saberíamos como agir caso estivéssemos na mesma situação dos protagonistas Ryan (Sandra Bullock) e Matt (George Clooney). Se, em tantos filmes, palpitamos facilmente sobre quais atitudes os personagens deveriam tomar frente a uma situação de desespero, aqui não temos esse estofo. É a natureza que dita as regras para o homem, e não o contrário. E, por estar ciente de todo o poder desse universo imprevisível, Gravidade se estabelece – com folga – como a melhor ficção científica dos últimos anos.

Se o ótimo Lunar era um drama passado no espaço mas não necessariamente um filme sobre o espaço, podemos dizer que a última vez que tal ambiente foi explorado com a devida dose de genialidade pelo cinema foi em 2008, com WALL-E. Não por acaso, Gravidade chega a fazer uma referência ao longa de Andrew Stanton, quando coloca Sandra Bullock orbitando rumo a um destino com a ajuda dos jatos de um extintor de incêndio. Muito me agrada essa conexão entre os dois filmes, pois, cada um ao seu modo, traz o que existe de melhor em relação ao espaço. Mais especificamente sobre o longa de Cuarón, não hesito em dizer que esse cenário nunca ganhou uma representação técnica tão fiel e impressionante no cinema como aqui. A tecnologia, claro, avançou infinitamente com o passar dos anos, mas foram poucos os diretores que souberam utilizá-la com uma devida lógica audiovisual. Cuarón é um deles. E se, em um primeiro momento, pode parecer estranho que o formato grandioso dos blockbusters tão dominado por estadunidenses ganhe um de seus ápices nas mãos de um cineasta mexicano, logo a teoria vai por água abaixo quando o nome do diretor vem à tona: Cuarón é simplesmente um dos realizadores mais versáteis da atualidade, passando por dramas hormonais (E Sua Mãe Também), adaptações literárias (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) e subestimadas obras-primas (Filhos da Esperança).

Não dava para imaginar, entretanto, que ele viria com um espetáculo de imersão tão poderoso como Gravidade. Talento não lhe falta, mas seu novo filme supera qualquer expectativa antes depositada em seu nome. Isso mesmo: o filme é uma verdadeira imersão (e que merece ser visto na melhor sala de cinema possível), capaz de mexer com todos os sentidos da plateia. Resultado de uma direção que sabe orquestrar de forma impecável todas as possibilidades do audiovisual: não deixe de reparar o detalhista trabalho de som, a impressiva fotografia, a bem explorada direção de arte e a discreta mas eficiente trilha sonora de Steven Price. Tudo para dar o máximo de realismo a um filme que é fiel a fatos completamente ignorados por consagradas histórias do cinema – como Star Wars, que tomava várias liberdades para mostrar infinitos barulhos e explosões em pleno espaço (o que, como comprova a ciência, simplesmente não é possível). São imagens encantadoras (a aurora boreal e a total escuridão são pontos altos para os olhos), cujos resultados se ampliam com a perfeição dos efeitos e o total envolvimento causado pelo, vale repetir, cuidadoso trabalho de som.

A história é muito simples: dois astronautas, surpreendidos por uma chuva de destroços, são jogados à deriva em pleno espaço. Uma busca pela sobrevivência, enfim. Há quem procure metáforas e filosofias no que é mostrado em Gravidade, mas fico no time dos que acreditam que o resultado não passa de um blockbuster de quinta grandeza. Sinceramente, não creio que Alfonso Cuarón tenha tido a vontade de criar simbolismos ali, especialmente porque o roteiro escrito por ele, em parceria com o filho Jonás, tem, inclusive, várias bobeiras e até mesmo clichês bem evidentes. Os maiores são: a necessidade de ter um alívio cômico para não sufocar o espectador por completo (representado pela figura de George Clooney, que, por isso mesmo, não tem muito o que fazer com o material) e um desenvolvimento muito esquemático, que segue basicamente a lógica de colocar um obstáculo no caminho da protagonista para ela superá-lo e, depois, ter que enfrentar… um novo obstáculo. É basicamente isso, sem grandes variações – de vez em quando com algumas pitadas dramáticas que, por mais que não sejam das mais geniais, funcionam porque estamos tão envolvidos na mesma situação que os protagonistas que não conseguimos ficar indiferentes a elas.

Porém, se ater aos (pequenos) defeitos de Gravidade é apenas procurar motivos para não entrar por completo no filme de Cuarón. Desde já favoritíssimo para concorrer ao Oscar 2014 (e merece levar todos os prêmios do universo – com o perdão do trocadilho – por sua irrepreensível parte técnica), é uma produção que veio para marcar época. Sem exageros, é um verdadeiro divisor de águas para o gênero e, acima de tudo, uma grande aula de direção. Destaque ainda para uma inspirada Sandra Bullock, que, por mais que não esteja em um filme dedicado a atuações, comprova que seu Oscar por Um Sonho Possível foi totalmente prematuro (recentemente também estava ótima em Tão Forte e Tão Perto). Ela supera os efeitos visuais e consegue dar uma boa dose de humanidade a sua personagem, que tem 100% da nossa torcida. Com todos esses acertos, Gravidade é o filme do momento, conseguindo ser aquele exemplar que chega ao conhecimento de todos: para você estar por dentro do que rola no cinema, você precisa ter visto o longa. E é uma grande alegria finalmente ver um filme que realmente merece chegar a esse status de popularidade pelas razões certas. Estávamos carentes de sucessos desse tipo.

FILME: 9.0

45

Invocação do Mal

The devil exists. God exists. And for us, as people, our very destiny hinges on which we decide to follow.

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Direção: James Wan

Roteiro: Chad Hayes e Carey Hayes

Elenco: Vera Farmiga, Lili Taylor, Patrick Wilson, Ron Livingston, Shanley Caswell, Hayley McFarland, Joey King, Mackenzie Foy, Kyla Deaver, Shannon Kook, John Brotherton, Sterling Jerins, Marion Guyot

The Conjuring, EUA, 2013, Suspense/Terror, 112 minutos

Sinopse: Harrisville, Estados Unidos. Um casal (Ron Livinston e Lili Taylor) muda para uma casa nova ao lado de suas cinco filhas. Inexplicavelmente, estranhos acontecimentos começam a assustar as crianças, o pai e, principalmente, a mãe. Preocupada com algumas manchas que aparecem em seu corpo e com uma sequência de sustos que levou, ela decide procurar um famoso casal de investigadores paranormais (Patrick Wilson e Vera Farmiga), mas eles não aceitam o convite, acreditando ser somente mais um engano de pessoas apavoradas com canos que fazem barulhos durante a noite ou coisas do gênero. Porém, quando eles aceitam fazer uma visita ao local, descobrem que algo muito poderoso e do mal reside ali. Agora, eles precisam descobrir o que é e o porquê daquilo tudo acontecendo com os membros daquela família. É quando o passado começa a revelar uma entidade demoníaca querendo continuar sua trajetória de maldades. (Adoro Cinema)

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Nunca é demais lembrar que os gêneros mais cansados do cinema atualmente são o suspense e o terror. Tanto que basta um filme ser acima da média para que o consideremos até mesmo um sopro de originalidade em um universo que raramente cria histórias verdadeiramente tensas ou assustadoras. Se recentemente Mama reforçou essa sensação de desgaste, logo também veio a refilmagem de A Morte do Demônio, filme que, para o escriba que vos fala, acertou em cheio ao apresentar uma estética atrativa e uma trama cheia de agonia. Agora, Invovação do Mal também chega para restaurar nosso entusiasmo com o suspense e o terror. Aqui, nada do angustiante gore ou dos divertidos exageros de A Morte do Demônio, e sim um filme que sabe tirar o melhor proveito de ferramentas essencialmente óbvias. E isso não é fácil: causar tensão genuína com truques batidos é para poucos. Por isso, Invovação do Mal pode, sem sombra de dúvida, ser considerado mais um notável momento da carreira do  James Wan, cineasta nascido na Malásia que, anos atrás, ganhou o mundo com o excelente primeiro capítulo de Jogos Mortais.

Contando uma história baseada em fatos reais, o longa-metragem já ganha pontos ao optar pela lógica mais certeira de todas: a de que a nossa imaginação causa muito mais medo do que aquilo que os nossos olhos podem ver. Quando Mama, por exemplo, colocou o peso de seu suspense em uma criatura computadorizada que era mais cômica do que assustadora, tudo foi por água abaixo. E é exatamente o oposto que acontece em Invocação do Mal: uma vez ou outra, Wan pode até dar explicações demais (e é aí que a história diminui a marcha), mas, ao deixar todo o medo de seu filme reservado para o imaginário do espectador, alcança momentos realmente admiráveis. Também já escapa à memória a última vez que vimos um suspense de dimensão mais popular dar tantos sustos de forma óbvia sem parecer… Óbvio! Isso mesmo: você sabe que, quando Invocação do Mal faz um personagem andar pela casa em pleno silêncio, o susto logo está por vir. Mas, claro, o ápice dessa tensão é inevitável e você vai se assustar. Por isso, prepare os nervos: difícil não se angustiar e pular da cadeira várias vezes durante o desenrolar da história.

Ao longo de quase duas horas de duração, o diretor nos conduz por uma trama bastante simples (casa mal assombrada, possessão, exorcismo) e que faz questão de passar por todas as etapas das apresentações formais: a família feliz que se muda para uma casa, os dias descobrindo aquele lugar, a primeira noite cheia de sinais estranhos que vão destrinchar eventos cada vez mais drásticos, etc. Tudo isso com uma trilha sempre presente (e sem grandes inventividades), sustos barulhentos (a porta que se bate! O pássaro que sai voando! O copo que se quebra!) e, no clímax, gritos, violência e possessão. São fatores que normalmente irritariam, colocando o resultado em uma vala comum, mas que aqui ganham um tratamento surpreendentemente eficiente. Não existe uma resposta necessariamente certa para o porquê de James Wan ter acertado nesses mesmos elementos que tantos diretores falharam. Até porque o suspense/terror não se baseia na razão: ele é uma experiência muito mais sensorial. Se você sentiu, é o que importa. E Invocação do Mal é certeiro nesse sentido.

Estrelado por uma atriz em ascensão (Vera Farmiga, que, depois da indicação ao Oscar por Amor Sem Escalas, ganhou seu espaço na TV com a série Bates Motel e agora as bilheterias com Invocação do Mal), esse novo acerto de Wan não chega a ser uma revolução para o gênero, mas faz jus a todo barulho que causou entre público e crítica. Muito bem ambientado (a direção de arte é boa, a casa onde a trama se passa é bem explorada pelas câmeras, os atores se saem bem), é um suspense que merece apreço por conseguir o que tantos não conseguem quando resolvem repetir elementos óbvios de uma história de tensão. Existem aqueles que podem contra-atacar alegando justamente isso: que Invocação do Mal não tem inventividades e que, apesar dos sustos, é carente de qualquer aspecto mirabolante. Mas aí voltamos a uma questão que me parece essencial: claro que um suspense/terror bem arquitetado e engenhoso é sempre mais interessante, mas gosto de acreditar que o gênero deve ser analisados de forma mais sensorial. E, se Wan conseguiu causar tantos sustos e prender a atenção durante quase duas horas com uma agonia quase sempre presente, é porque o filme tem sim seus méritos. Não reconhecer essa habilidade é colocar mais um prego no caixão desse gênero tão sedento por novidades dignas, como essa chamada Invocação do Mal.

FILME: 8.0

35

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