Cinema e Argumento

A Lenda do Tesouro Perdido 2

Direção: Jon Turteltaub

Elenco: Nicolas Cage, Diane Krueger, Harvey Keitel, Jon Voight, Helen Mirren, Ed Harris, Bruce Greenwood

National Treasure 2 – Book Of Secrets, EUA, 2008, Aventura, 124 minutos, Livre.

Sinopse: Quando uma página perdida do diário de John Wilkes Booth (Christian Camargo) reparece, o bisavô de Ben Gates (Nicolas Cage) torna-se o principal conspirador do assassinato de Abraham Lincoln. Querendo provar a inocência do parente, Ben reúne mais uma vez a sua equipe e segue uma série de pistas, que os levam de Paris a Londres antes de retornarem aos Estados Unidos.

Sempre achei que o primeiro filme de A Lenda do Tesouro Perdido foi massacrado demais. Criticismo em excesso e exigência exagerada tornaram a aventura estrelada por Nicolas Cage em um completo fracasso de crítica. Porém, fez grande sucesso de bilheteria. Fui contra a maré e achei o primeiro volume bem divertido e descompromissado, ainda que horrivelmente clichê e cheio de falhas. Ou seja, era uma aventura que me entreteu, um guilty pleasure.

Essa continuação que recebe o subtítulo de Livro dos Segredos expandiu o seu lado técnico e aposta muito mais na ação, visualmente bem-feita em função do maior orçamento. Além da ampliação desse setor, ainda temos duas aquisições importantes no elenco: Helen Mirren e Ed Harris. No entanto, achei que a continuação ficou inferior ao resultado do primeiro capítulo, principalmente pelo fato de que parece que esse tipo de filme já está saturado e que não tem mais graça.

A dificuldade do elenco permanece,  em especial no Nicolas Cage (a maior decepção da década) e na extremamente limitada Diane Krueger – ambos em nenhum momento funcionam como mocinho e mocinha. Ele cai na caricatura e ela não tem expressão. Pra completar a inverossimilhança do elenco (que também tem Jon Voight, totalmente apagado) ainda foi adicionado Ed Harris nesse filme que, assim como Cage, cai em excessos ao interpretar seu papel.Só quem se salva mesmo é a novata na série Helen Mirren, fazendo um típico papel de “entre tapas e beijos” com Voight. Ela tira o melhor de seu papel cretino e acaba sendo uma boa surpresa.

Um pouco longo e sem uma história mais concreta, Livro dos Segredos é diversão inofensiva, daquele tipo em que deve-se assistir sem cérebro e senso crítico. Sucesso nos Estados Unidos, essa continuação não alcança o mesmo nível do anterior, mas deixa o resultado de entretenimento igualmente competente. Deve originar mais outra continuação para completar uma trilogia. Só rezo que o filme se reinvente e não se limite a ser apenas uma correria ameaçada por um bandido e que leve os heróis a uma caverna com minas de ouro e final feliz para todos. Afinal, não quero ver mais do mesmo, principalmente quando tudo já saturou.

FILME: 6.0

25

Electroma

Existe uma certa música do Daft Punk que se chama Human After All. Esse filme deles, Electroma, trabalha em grande potencial esse assunto: a humanidade. A produção mostra a jornada de dois robôs em busca de uma alma, querendo uma inserção no mundo dos sentimentos e das emoções. Essa jornada deles é totalmente sem diálogos (nenhuma palavra é dita durante toda a projeção) e toda a emoção da história é transmitida através de tomadas silenciosas e cenas embaladas por emocionantes canções que em diversos momentos alcançam níveis extraordinários (fiquei com três momentos na cabeça durante um bom tempo). De início, Electroma é um filme meio perturbador e estranho: o silêncio grita aos ouvidos e os personagens são muito bizarros. Leva-se um tempo para se acostumar a esse estilo, que em diversas partes lembra outros filmes, mas, aos poucos, a produção vai envolvendo e conseguindo ficar cada vez mais interessante em suas intenções e em sua sincera dramaticidade. Com ligeiros 70 minutos de duração, é bem restrito e para um público mais seleto: um público de “arte”, que entende as entrelinhas e tudo o que se esconde em um silêncio subjetivo. Não digo que fui completamente envolvido e nem que me apaixonei pelo filme, mas o fato é que Electroma foi uma experiência única para mim, conseguindo ser mais emocionante do que muitos dramas enfadonhos e manipuladores que andam por aí.

FILME: 8.0

35

O Caçador de Pipas

Direção: Marc Forster

Elenco: Khalid Abdalla, Atossa Leoni, Homayoun Ershadi, Zekeria Ebrahimi, Shaun Toub, Nabi Tanha

The Kite Runner, EUA, 2007, Drama, 124 minutos, 14 anos.

Sinopse: Depois de passar anos na California, Amir (Khalid Abdalla) retorna para a sua cidade natal, no Afeganistão, para tentar corrigir erros do passado. Ele também terá de ajudar o filho de seu amigo de infância, que está com sérios problemas.

Estranho. Achei o filme e o livro de O Caçador de Pipas totalmente diferentes. Eu não deveria ter essa sensação, uma vez que o filme de Marc Forster é plenamente fiel ao best-seller de Khaled Hosseini. Falando em Marc Forster, ele prova aqui que a palavra ”versatilidade” lhe cai muito bem, pois realiza um de seus melhores trabalhos como diretor. A produção é meticulosamente cuidadosa em todos os seus setores e especialmente na primeira hora do filme, que retrata a infância do protagonista. É nessa parte também que o filme funciona melhor, onde é mais sentimental, emocionante e verossímil. A adaptação teve pleno êxito nos primeiros momentos, que realmente ficaram muito interessantes.

Já a segunda hora e os momentos finais não conseguem conquistar, já que tudo é muito vazio e sem sentimento. De uma certa forma, a adaptação do best-seller é digna e consegue traduzir muito bem todo o espírito que o escritor Khaled Hosseini transmitia em sua obra, mas não consegui me sentir confortável com a história e muito menos me emocionar.Não é um produto comercial e gostei bastante disso. Em momento algum notamos que o filme quer apenas “ganhar dinheiro”, muito pelo contrário, tudo parece ter sido feito com amor ao livro. O fato é que eu li a história faz bastante tempo, então a versão cinematográfica não teve tanta graça porque eu já sabia tudo o que estava por acontecer.

A trilha sonora de Alberto Iglesias, que foi indicada ao Oscar, é ótima, mas de maneira nenhuma oferece riscos para a melhor trilha desse ano: a de Dario Marianelli, em Desejo e Reparação. O desconhecido elenco de O Caçador de Pipas realiza um trabalho surpreendente, todos excelentes, principlamente o elenco mirim e o protagonista Khalid Abdalla. Um filme nada mais que satisfatório, sem ousadias ou novidades. Em termos de adaptação está ótimo. Só faltava ser um pouco mais contundente como cinema…

FILME: 7.0

3

Juno

Direção: Jason Reitman

Elenco: Ellen Page, Jennifer Garner, J.K. Simmons, Allison Janney, Michael Cera, Jason Bateman

EUA, 2008, Comédia, 105 minutos, 10 anos.

Sinopse: Quando a adolescente Juno (Ellen Page) aos 16 anos de idade descobre-se grávida do namorado (Michael Cera), ela decide procurar pais adotivos para o filho que não deseja ter. Contando com o apoio de seu pai (J.K. Simmons) e de sua madrasta (Allison Janey), Juno entrará em uma jornada sobre qual a importância de crescer e superar os tombos da vida.

Logo quando Juno começou a fazer sucesso nas premiações, o público considerou essa produção independente como o Pequena Miss Sunshine de 2008. Qualquer comparação com o bem-sucedido filme de Jonathan Dayton e Valerie Farris é inútil, uma vez que Juno se difere totalmente, com exceção na aura de comédia indepentente com rumo à carreira de produção cult no futuro. A segunda incursão do diretor Jason Reitman no cinema (o primeiro foi o bom Obrigado Por Fumar) trouxe grandes frutos para a equipe envolvida. O filme recebeu quatro indicações ao Oscar e é favorito para levar o importante prêmio de roteiro original.

Sem dúvida alguma, Juno veio dar continuidade ao efeito que Pequena Miss Sunshine criou ano passado: o de que filmes baratos e independentes podem sim ser melhores do que produções caras e grandiosas. Durante todo o filme fica claro essa intenção, porque o roteiro tem um charme único, um humor muito sincero e um caráter inofensivo. Se eu tivesse que dizer a razão de toda a badalação em torno dessa comédia seria a sua simplicidade. Nada é grosseiro, clichê e muito menos forçado. A roteirista Diablo Cody (em sua estréia no cinema como roteirista) transportou um tema pesado – a gravidez na adolescência – para um tratamento agradável, abrangendo todos os públicos, que certamente irão se envolver com a jornada rumo à maturidade da protagonista.

Óbvio que para um filme como esse, uma protagonista carismática e competente é necessária. A escolhida da vez é Ellen Page, que anteriormente havia mostrado competência no péssimo Menina Má.Com e que aqui tem a verdadeira chance de alçar vôo em sua carreira. A jovem atriz de 20 anos se mostra confortável e muito segura no papel, conseguindo segurar tranqüilamente as rédeas da ótima personagem e merecendo sua indicação ao prêmio da Academia. Mas, não estaria ela interpretando a si mesma? O elenco de suporte não possui maiores destaques, tendo como coadjuvantes Allison Janney (a namorada de Meryl Streep em As Horas) e J.K. Simmons. Quem mais chama a atenção é Jennifer Garner, muito simpática e em bom desempenho.

Um outro aspecto que me deixou bastante satisfeito foram as canções, agradáveis e encantadoras. Por mais que sejam utilizadas em excesso, combinam perfeitamente com cada momento e com cada cena. Apesar de todos esses meus elogios, não achei Juno tão original assim. O sucesso e o encantamento em volta do filme devem-se apenas ao grande poder de conquistar com sua simplicidade. Até achei bastante estranho a Academia ter dado tanta ênfase para esse filme em um ano tão concorrido (absurdo Joe Wright ter sido eliminado da lista de direção por Desejo e Reparação e ter “cedido” o lugar para Jason Reitman, por exemplo). Juno, com certeza, vai achar seu público…

FILME: 8.0

35

Jogos Mortais 3

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[De Darren Lynn Bousman. Com Tobin Bell, Shawnee Smith e Bahar Soohmekh]

Toda a genialidade apontada pelo público para Jogos Mortais só existiu realmente no primeiro volume, que conseguiu ser surpreendente e intrigante no seu ótimo suspense. Por mais que o segundo volume seja mais divertido e forte em suas cenas de violência, acabou soando um pouco decadente em seu roteiro. Por causa dessa leve decepção e do anúncio de um terceiro e um quarto volume, não tinha a mínima vontade de ver mais um repeteco inferior aos outros filmes. Vi esse terceiro capítulo gratuitamente e mesmo assim me arrependi, porque vi um produto completamente comercial e sem qualquer tipo de impacto cinematográfico. Ok, não posso negar que gostei das cenas de violência e das grandes bobagens presentes, mas eu não consegui ver mais graça nessa história, que já me parece completamente saturada e sem atrativos. Se existe alguma coisa aproveitável na história é o desempenho de Bahar Soohmekh (que anteriormente havia feito Crash – No Limite), que está esforçada e tenta dar um pouco de verossimilhança para a história. Nem detestei o filme, apenas achei frio e completamente mecânico. Ainda assim deve agradar o povão que gosta desses filmes sanguinolentos. Com certeza passo longe do quarto volume, que nem pretendo assistir.

FILME: 6.0

25

Meu Nome Não é Johnny

Direção: Mauro Lima

Elenco: Selton Mello, Cléo Pires, Júlia Lemmertz, Eva Todor, Cássia Kiss, André Di Biasi.

Brasil, 2008, Drama, 113 minutos, 14 anos.

Sinopse: João Guilherme Estrella (Selton Mello) nasceu em uma família de classe média do Rio de Janeiro. Filho de um diretor do extinto Banco Nacional, ele cresceu no Jardim Botânico e frequentou os melhores colégios, tendo amigos entre as famílias mais influentes da cidade. Carismático e popular, João viveu intensamente os anos 80 e 90. Neste período, conheceu o universo das drogas, mesmo sem jamais pisar numa favela. Logo, tornou0se o maior vendedor de drogas do Rio de Janeiro, sendo preso em 1995. A partir de então, passou a frequentar o cotidiano do sistema carcerário brasileiro.

Até hoje não consigo entender toda a polêmica em volta do superestimado Tropa de Elite (que os fãs me perdoem, mas não vejo nada demais). Meu Nome Não é Johnny trata da mesma temática – o tráfico de drogas. Como eu não sou fã do filme de José Padilha, achei que o longa-metragem de Mauro Lima consegue fazer uma denúncia muito melhor e mais sincera. Mas, deixando de lado todo esse papo de drogas, esse filme (que é o primeiro brasileiro lançado esse ano) tem vários aspectos positivos que o tornam muito mais do que uma mera denúncia social.

O maior mérito, sem dúvida, é o sempre ótimo Selton Mello, que cada vez mais comprova ser um excelente ator – carismático e competente, sempre se encaixando muito bem em seus papéis. O filme é dele, que aproveita muito bem cada momento da produção. Quem faz seu par romântico é a linda Cléo Pires, em sua segunda incursão no cinema (sua primeira vez foi como a musa do péssimo Benjamim) e ela está ótima. As coadjuvantes Cássia Kiss e Júlia Lemmertz também realizam bons trabalhos.

Meu Nome Não é Johnny conta com cenas em Barcelona e Veneza, cenas em que o roteiro fica muito divertido, com um humor totalmente agradável. Falando em roteiro, ele é um pouco óbvio e pouco ousado, parecendo uma versão de Scarface, somente narrando a ascenção de um homem no mundo das drogas, mas foge de qualquer esquema de filmes banais feitos pela Globo Filmes. Um poco longo (fica particularmente desinteressante nos momentos finais), o filme conseguiu me surpreender. Não é nada comercial e consegue ter personalidade própria. Um achado do cinema brasileiro.

FILME: 7.5

3

O Amor Nos Tempos do Cólera

Direção: Mike Newell

Elenco: Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, Fernanda Montenegro, Catalina Sandino Moreno, Benjamim Bratt, Liev Schreiber, John Leguizamo

Love In The Time Of Cholera, EUA, 2007, Drama, 145 minutos, 14 anos.

Sinopse: Florentino Ariza (Javier Bardem), ainda jovem, se apaixonou perdidamente por Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno). Entretanto, como Florentino apenas trabalha numa agência dos Correios, ele não é visto como um bom partido por Lorenzo Daza (John Leguizamo), pai de Fermina. Florentino pede Firmina em casamento, e ela aceita. Ao saber disso, Lorenzo a envia para a fazenda de sua prima Hildebranda Sanchez (Catalina Sandino Moreno), onde fica alguns anos. Florentino aguarda o retorno de sua amada, mas, quando a reencontra, ela diz que nada quer com ele.

O amor é algo muito complicado nos dias de hoje. Perdeu-se todo aquele encanto dessas histórias que, hoje, para a maioria, são motivos de risadas e decoches. Saí da sessão me perguntando se o público atual ainda tem coração pra assistir histórias como essa de O Amor Nos Tempos do Cólera, sobre uma intensa paixão que atravessa vários anos e nunca se acaba. Alguns entrarão de cabeça, outros nem tanto. Fui um daqueles que não conseguiu se cativar com a história, mas não por causa do tema já batido ou porque não tenho um espírito romântico dentro de mim, mas porque faltou mais emoção e intensidade na história.

Baseado em livro de mesmo nome, de Gabriel García Marquez, O Amor Nos Tempos de Cólera é um filme completamente latino que seria mais verdadeiro e sincero se não fosse dirigido por um diretor completamente… inglês. Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Canção Original (a chata Despedida, interpretada por Shakira), o filme sofre do mal de não conseguir transmitir muito sentimento. Pela sinopse, era de se imaginar que seria uma produção melosa, mas o fato é que O Amor Nos Tempos de Cólera só consegue criar uma verdadeira história de amor no início e no final, enquanto durante todo o seu desenvolvimento não trabalha bem a paixão entre os personagens principais que, na maioria do tempo, parece não existir.

A escolha do elenco não é muito acertada – John Leguizamo está terrível e caricato, mas alguns atores tem grande valor para o bom funcionamento de tudo. Javier Bardem (que apesar de parecer um débil mental em certos momentos, está ótimo) e a desconhecida Giovanna Mezzogiorno são os únicos que trazem grandes dimensões para seus personagens. O público brasileiro deve se contentar com a pequena participação de Fernanda Montenegro, que aproveita bem o espaço que lhe foi dado.

Desnecessariamente longo, O Amor Nos Tempos de Cólera é correto em excesso, por mais que seja produzido por mãos competentes. Mas, o fato foi que algo se perdeu na adaptação. Como podemos ver, é um absurdo que a história seja falada em inglês, sendo que sua origem não é essa. Não achei o resultado do filme satisfatório, mas ao menos não é uma produção ruim, muito pelo contrário. Só faltou algo a mais na produção. Talvez paixão pelo livro do escritor. No entanto, deve satisfazer os menos críticos…

FILME: 6.5

3

Desejo e Reparação

Direção: Joe Wright

Elenco: James McAvoy, Keira Knightley, Saoirse Ronan, Romola Garai, Vanessa Redgrave, Brenda Blethyn

Atonement, EUA, 2007, Drama, 135 minutos, 14 anos.

Sinopse: Em 1935, no dia mais quente do ano na Inglaterra, Briony Tallis (Saoirse Ronan) e sua família se reúnem num fim de semana na mansão familiar. O momento político é de tensão, por conta da segunda Guerra Mundial. Em meio ao calor opressivo, emergem antigos ressentimentos familiares. Briony, então, usa sua imaginação de escritora principante para acusar Robbie Turner, o filho do caseiro e amante de sua irmã mais velha, Cecilia (Keira Knightley), de um crime que não cometeu. A acusação destruiu o amor da irmã e alterou de forma dramática várias vidas.

Surpreendente. Foi essa a palavra que veio a minha cabeça logo que os créditos finais de Desejo e Reparação surgiram na tela. Não por causa do lindo final, mas porque fazia um bom tempo que eu não assistia um filme tão harmônico: contundente em sua parte técnica, preciso nas interpretações e brilhante em seu roteiro. É incrível como esse segundo filme do diretor Joe Wright tem muita cara de Oscar. Foi feito para vencer o prêmio da Academia, mas conseguiu esse feito de forma honesta, sem qualquer pretensão para premiações. O grande feito de Desejo e Reparação é conseguir trazer verossimilhança em todos os seus poros. Especialmente em seu elenco, que merece ser citado separadamente.

James McAvoy, o verdadeiro protagonista da história, já havia mostrado ser um ator muito competente com sua subestimada interpretação no ótimo O Último Rei da Escócia e aqui prova ser um ator de futuro em Hollywood. Keira Knightley (que sempre achei péssima e que nem sequer merecia ter concorrido ao Oscar em 2006 consegue aqui a melhor atuação de sua carreira, ainda que ofuscada pela personagem Briony. A Cecilia de Keira não é tão explorada como os demais personagens, mas ela faz um trabalho muito competente com o espaço que lhe é dado. Por mais que o casal seja ótimo, quem rouba completamente a cena é  personagem Briony, interpretada em três fases por Saoirse Ronan (impressionante), Romula Garai (escolha mais do que acertada) e Vanessa Redgrave (simplesmente impecável e emocionante).

A parte técnica, sem dúvida, também é impressionante. É incrível como a direção de arte de Desejo e Reparação conseguiu traduzir toda uma época da forma mais perfeita possível. Outro aspecto que também acaba impressionando é a trilha sonora do Dario Marianelli: inovadora, poderosa e utilizada na medida exata e uma das melhores dos últimos anos. A fotografia e os figurinos são igualmente bons. Também gostei bastante de ver o diretor Joe Wright muito amadurecido na direção, conduzindo tudo com muita habilidade.

O roteiro raramente erra, ficando apenas um pouco monótono quando se foca na guerra. Gostei particularmente dos momentos finais, onde  Vanessa Redgrave interpretou um dos momentos mais emocionantes dos últimos tempos, conseguindo emocionar e passar vários sentimentos para o espectador. Eu não esperava muita coisa de Desejo e Reparação, mas adorei ficar completamente surpreendido por esse lindo filme. Uma saga de amor, que durante vários momentos lembra diversos filmes, mas que tem uma identidade singular e que desde já acaba de se torna um longa imperdível.

FILME: 9.0

45

Conduta de Risco

Direção: Tony Gilroy

Elenco: George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton, Sidney Pollack

Michael Clayton, EUA, 2007, Drama, 110 minutos, 12 anos.

Sinopse: Michael Clayton (George Clooney) trabalha em uma das maiores firmas de advocacia de Nova York, tendo como função limpar os nomes e os erros de seus clientes. Ele é o responsável por realizar o serviço sujo da firma Kenner, Bach & Ledeen, que tem Marty Bach (Sydney Pollack) como um de seus fundadores. Apesar de estar cansado e infeliz com o trabalho, Clayton não tem como deixar o emprego, já que o vício no jogo, seu divórcio e o fracasso em em negócio arriscado o deixaram repleto de dívidas. Quando Arthur Evans (Tom Wilkinson), o principal advogado da empresa, sofre um colapso e tenta sabotar todos os casos da U/North, uma empresa que é cliente da Kenner, Back & Ledeen, Clayton é enviado para solucionar o problema.

O roteirista Tony Gilroy ficou conhecido por seu trabalho no incrível O Ultimato Bourne e no péssimo O Advogado do Diabo. Agora, ele se lança na carreira diretor com esse Conduta de Risco, drama que já é forte concorrente para obter indicações ao Oscar, além de trazer a melhor interpretação da carreira de George Clooney. O estilo de contar a história do filme não é um dos mais atraentes (a típica investigação baseada em diálogos detalhados, contínuos e incessantes, onde cada momento é essencial para o entendimento completo da trama), mas sou obrigado a reconhecer o ótimo trabalho do elenco e alguns outros aspectos positivos que me fizeram sair satisfeito da sessão de Conduta de Risco.

Com uma fotografia escura e nebulosa (que contribue de forma excelente para o suspense da trama), Conduta de Risco prima por um ótimo elenco. A começar pelo protagonista George Clooney, cujo Oscar de coadjuvante por Syriana – A Indústria do Petróleo nem foi tão merecido, mas que está mais convicente do que nunca no melhor desempenho de sua vida. Os coadjuvante são igualmente ótimos: Tom Wilkinson brilha em todas suas cenas, ainda que seu papel seja um pouco estranho e limitado. Tilda Swinton tem sua competência habitual, principalmente na cena final com Clooney.  Ainda tem a presença do diretor Sidney Pollack (do injustiçado A Intérprete), nada mais que satisfatório.

Quem for assistir Conduta de Risco deve ter em mente que não é um filme nada fácil: exige completa dedicação e atenção do cinéfilo que, se piscar o olho, já perde vários detalhes da história. O roteiro é conduzido de forma interessante, mesmo que os rumos, às vezes, sejam tomados rápidos demais. Não é uma narrativa que particularmente me agrada e é bem restrito para um público mais amplo (várias pessoas abandonaram o filme, na minha sessão, antes mesmo dele chegar na metade). A trilha sonora de James Newton Howard podia ser mais bem utilizada, pois tem pouca presença. No final das contas, gostei do resultado de Conduta de Risco. Só não gosto tanto como a maioria porque não é um gênero que aprecio.

FILME: 8.0


Valente

I always believed that fear belonged to other people. Weaker people. It never touched me. And then it did. And when it touches you, you know… that it’s been there all along. Waiting beneath the surfaces of everything you loved.

Direção: Neil Jorda

Elenco: Jodie Foster, Terrence Howard, Naveen Andrews, Mary Steenburgen, Nicky Katt

The Brave One, EUA, 2007, Drama, 119 minutos, 16 anos.

Sinopse: Nova York. Erica Bain (Jodie Foster) é uma apresentadora de rádio e tem um novo noivo que a adora. Ela está feliz com sua vida, até que um ataque brutal a deixa seriamente ferida e mata seu noivo. Sem conseguir superar a tragédia, Erica passa a vasculhar as ruas à noite, em busca dos homens que considera ser os responsáveis pelo que lhe aconteceu. Sua busca por justiça chama a atenção da população, que passa a acompanhar sua perseguição anônuma. Porém, Mercer (Terrence Howard), um obstinado detetive, está decidido a encerrar sua jornada. Ao mesmo tempo, Erica começa a se questionar, sem saber que está se tornando justamente aquilo que deseja evitar.

Logo após matar duas pessoas em um metrô, Erica Bain se pergunta: “Por que minhas mãos não tremem? Por que não sinto nada?”. A radialista está procurando justiça e vingança pela morte de seu marido que foi brutalmente assassinado. A premissa de Valente é essa: é desumano não sentir nada em um ato de vingança? Apesar dessa proposta, o filme trabalha pouco essas questões ideológicas, focando-se mais nos sentimentos da protagonista e deixando de lado toda a badalação em torno da vingança. Valente é um pouco perdido em seus princípios, porque não consegue decidir qual é a sua verdadeira intenção e a que estilo de narrativa seguir.

No entanto, o filme vale por Jodie Foster que, apesar de não estar no melhor momento de sua carreira (já esteve muito mais intensa em outros projetos), consegue segurar as rédeas de um filme nada mais que mediano  e que culmina em um final questionável eticamente. Fracasso nos Estados Unidos, Valente será lançado diretamente em DVD aqui no Brasil. Decisão equivocada, já que a produção estava sendo esperada por muitos e era uma forte aposta para o Oscar de Melhor Atriz. Além, é claro, de ter uma protagonista de peso que consegue atrair certo público. Apesar do filme não ser muito bom, merecia ser lançado nos cinemas.

A proposta principal do filme era trabalhar a vingança da protagonista. Todavia, esse assunto parece ter ficado em segundo plano. O verdadeiro sentimento de vingança – que seria a “justificativa” dela para seus crimes, só se aflora nos momentos finais, enquanto durante todo o filme ela parece matar apenas por trauma e até mesmo prazer (!!!). A história tenta justificar as ações da protagonista com momentos dramáticos, o que acaba funcionando muito bem (principalmente até a metade) e dando espaço para Foster brilhar. Mas, de uma hora pra outra, muda o estilo de  narrativa e volta a apresentar atos sem motivações. Se fosse para escolher o maior defeito de Valente, esse seria o seu roteiro mal acabado e fora de foco.

Indicada ao Globo de Ouro, Jodie Foster é o grande destaque, como era de se esperar. Foster tem ótimos momentos e acertou completamente no tom de sua personagem. Quem faz o par romântico de Foster é Naveen Andrews (o Sayid de Lost, e que, recentemente, teve pequena participação em Planeta Terror), que só aparece nas primeiras cenas. Não gostei de Terrence Howard, o detetive da história, que não trouxe muita personalidade para seu personagem. Portanto, Valente não é um filme ruim, longe disso, só que o resultado ficou bem aquém do que podia se esperar. Culminando em um final duvidoso, tem seus momentos ótimos – fiquei especialmente impressionado com a cena em que os personagens de Foster e Andrews são violentados, onde foi tudo incrivelmente realista. Só merecia ter um roteiro mais contundenete e intenso, que definisse suas verdadeiras intenções dramáticas para a história.

FILME: 6.0


Encantada

Just because she has on a funny dress doesn’t mean she’s a princess. She’s a seriously confused woman who’s fallen into our laps.

Direção: Kevin Lima

Elenco: Amy Adams, James Marsden, Susan Sarandon, Timothy Spall, Patrick Dempsey, Julie Andrews (voz)

Enchanted, EUA, 2007, Comédia, 98 minutos, Livre.

Sinopse: Giselle(Amy Adams) é uma bela princesa que foi recentemente banida por uma rainha malvada de seu mundo mágico e musical. Com isso, ela agora está na Manhattan dos dias atuais, um local completamente diferente de onde vivia. Logo, ela recebe a ajuda de Robert (Patrick Dempsey), um advogado divorciado por quem se apaixona. Só que Giselle já está prometida em casamento para o príncipe Edward (James Marsden), que decide também deixar o mundo mágico para reencontrar sua amada.

Cada vez mais me convenço de que a infância está desaparecendo. Foi-se o tempo em que as crianças assistiam desenhos, brincavam com seus amigos e acreditavam em histórias mágicas. Hoje a moda é computador, videogame e televisão. Isso, além de tirar a época mais mágica da vida delas, consegue eliminar todo o espírito de imaginação que existe em suas mentes. Encantada, então, resolveu contar uma história de fantasia de forma diferente: os personagens mágicos vão parar no mundo real, em plena Nova York.

Assim, o público-infantil-sem-infância fica mais motivado a acompanhar essa história, porque ela não se passa em grandes castelos ou florestas encantadas, e sim nas ruas da cidade. O filme, de certa forma, seguiu as tendências do público e se deu conta de que a época infantil e imaginativa já acabou. É hora de mudar. Essa idéia original só fica na proposta, uma vez que Encantada segue vários tipos de clichê (temos até troca-troca de casais) e não consegue se desprender das previsibilidades típicas de histórias mágicas. O roteiro é até meio chatinho e repetitivo, mas ainda assim muito agradável. É louvável essa idéia da Disney, que resolveu lançar esse filme no ano em que se comemora o aniversário de A Branca de Neve e os Sete Anões, primeira animação do estúdio.

O verdadeiro acerto do filme é Amy Adams, não tem como negar. Depois de chamar a atenção com seu carisma em Retratos de Família (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante), ela foi a escolha perfeita para protagonizar Encantada. Não apenas por causa de sua beleza e de sua fisionomia angelical, mas por causa da sua naturalidade e espontâneidade que se revelam a cada minuto do filme. Ela está sendo considerada uma aposta para as indicações do Oscar de Melhor Atriz, mas não creio que deva ser indicada. Não achei que seu par romântico (o James Marsden, que recentemente fez Hairspray) combinou muito.

O resto do elenco ainda inclui Timothy Spall – sempre fazendo o típico papel do gordinho feio e atrapalhado – e Susan Sarandon, que mal aparece. Já que Amy não tem tantas chances na premiação da Academia, aposto minhas fichas na música “That’s How You Know”, que é muito divertida e transmite todo o espírito que o filme quer passar para o espectador. Encantada é uma boa diversão, inofensiva e agradável. Não é uma inovação, mas ao menos consegue ser diferente. Infelizmente, não apreciei tanto como a maioria.

FILME: 6.5


Across the Universe

Music’s the only thing that makes sense anymore, man. Play it loud enough, it keeps the demons at bay.

Direção: Julie Taymor

Elenco: Jim Sturgees, Evan Rachel Wood, Joe Anderson, Dana Fuchs, Martin Luther

EUA, 2007, Musical, 131 minutos, 12 anos.

Sinopse: Década de 60. Jude (Jim Sturgess) e Lucy (Evan Rachel Wood) estão perdidamente apaixonados. Juntamente com um grupo de amigos e músicos, eles se envolvem nos movimentos da contracultura de Liverpool, tendo como guias do dr. Robert (Bono Vox) e o sr. Kite (Eddie Izzard).

2007 foi o ano da música no cinema. Depois de Dreamgirls e Hairspray, o cinema americano ainda produziu Não Estou Lá e Apenas Uma Vez, ambos ainda inéditos no Brasil. Mas foi esse Across The Universe que mais chamou a atenção do público cult. Basicamente porque se baseia no repertório dos Beatles para contar uma história de amor em tempos de repressão. O que poderia ser um mar de previsibilidade feito apenas para puxar o saco da banda acabou se tornando em um musical satisfatório, totalmente livre da imagem dos Beatles. Longe de qualquer apelo comercial, Across The Universe é um musical diferente por causa de sua imagem de cinema independente.

Em diversos momentos, o filme lembra Moulin Rouge! – Amor em Vermelho, pelo simples fato de utilizar todo o esplendor estético e visual das cenas para aumentar o impacto dos números musicais, principalmente nas cores vibrantes e nos efeitos visuais. A produção não é requintada, mas o apelo visual é grande. O repertório dos Beatles se encaixou perfeitamente na história, com músicas que realmente funcionam e conquistam nas cenas em que são respectivamente tocadas, como Hey JudeStrawberry Fields Forever. E alguém não ficou apaixonado com o final ao som de All You Need is Love? Simplesmente memorável! Mesmo eu não sendo fã cego da banda, acabei completamente envolvido pelas músicas.

Fiquei mais do que satisfeito com a escolha do elenco. Jim Sturgess foi o que mais me cativou: tem todo o carisma necessário para o papel e canta muito bem (lembrando muito a voz de Ewan McGregor no musical de Baz Lührmann). Grande revelação. Evan Rachel Wood, apesar de um pouco apagada, continua comprovando o seu talento, que foi apresentado anteriormente em Aos Treze. Praticamente todos do elenco são desconhecidos, mas ficaram perfeitos em seus papéis, sem nenhuma exceção. Ainda tem pequenas participações do Bono, do U2 (em aparição bem descartável e inútil) e da Salma Hayek (que pediu uma ponta para a diretora Julie Taymor, com quem havia trabalhado anteriormente em Frida).

Agora as reclamações. A duração é  excessiva isso fica evidente durante seu desenvolvimento, que fica sem ritmo em vários momentos. Esse é um defeito que pesa bastante na minha avaliação. Também achei que tem muita música para pouca história. São raros os momentos em que os ouvidos podem descançar da cantoria. Algumas tomadas também se excedem na excentricidade, principalmente aquela do circo imaginário, completamente chata. Apesar desses defeitos quase debilitantes para o andamento de tudo, Across The Universe tem um bom resultado. A inclusão dele na categoria de melhor filme comédia/musical no Globo de Ouro, junto com Hairspray, é mais uma prova de que esse gênero voltou com tudo nesses últimos tempos. Voltou para conquistar novos fãs com suas temáticas cada vez mais atraentes.

FILME: 7.5


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