Cinema e Argumento

Conduta de Risco

Direção: Tony Gilroy

Elenco: George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton, Sidney Pollack

Michael Clayton, EUA, 2007, Drama, 110 minutos, 12 anos.

Sinopse: Michael Clayton (George Clooney) trabalha em uma das maiores firmas de advocacia de Nova York, tendo como função limpar os nomes e os erros de seus clientes. Ele é o responsável por realizar o serviço sujo da firma Kenner, Bach & Ledeen, que tem Marty Bach (Sydney Pollack) como um de seus fundadores. Apesar de estar cansado e infeliz com o trabalho, Clayton não tem como deixar o emprego, já que o vício no jogo, seu divórcio e o fracasso em em negócio arriscado o deixaram repleto de dívidas. Quando Arthur Evans (Tom Wilkinson), o principal advogado da empresa, sofre um colapso e tenta sabotar todos os casos da U/North, uma empresa que é cliente da Kenner, Back & Ledeen, Clayton é enviado para solucionar o problema.

O roteirista Tony Gilroy ficou conhecido por seu trabalho no incrível O Ultimato Bourne e no péssimo O Advogado do Diabo. Agora, ele se lança na carreira diretor com esse Conduta de Risco, drama que já é forte concorrente para obter indicações ao Oscar, além de trazer a melhor interpretação da carreira de George Clooney. O estilo de contar a história do filme não é um dos mais atraentes (a típica investigação baseada em diálogos detalhados, contínuos e incessantes, onde cada momento é essencial para o entendimento completo da trama), mas sou obrigado a reconhecer o ótimo trabalho do elenco e alguns outros aspectos positivos que me fizeram sair satisfeito da sessão de Conduta de Risco.

Com uma fotografia escura e nebulosa (que contribue de forma excelente para o suspense da trama), Conduta de Risco prima por um ótimo elenco. A começar pelo protagonista George Clooney, cujo Oscar de coadjuvante por Syriana – A Indústria do Petróleo nem foi tão merecido, mas que está mais convicente do que nunca no melhor desempenho de sua vida. Os coadjuvante são igualmente ótimos: Tom Wilkinson brilha em todas suas cenas, ainda que seu papel seja um pouco estranho e limitado. Tilda Swinton tem sua competência habitual, principalmente na cena final com Clooney.  Ainda tem a presença do diretor Sidney Pollack (do injustiçado A Intérprete), nada mais que satisfatório.

Quem for assistir Conduta de Risco deve ter em mente que não é um filme nada fácil: exige completa dedicação e atenção do cinéfilo que, se piscar o olho, já perde vários detalhes da história. O roteiro é conduzido de forma interessante, mesmo que os rumos, às vezes, sejam tomados rápidos demais. Não é uma narrativa que particularmente me agrada e é bem restrito para um público mais amplo (várias pessoas abandonaram o filme, na minha sessão, antes mesmo dele chegar na metade). A trilha sonora de James Newton Howard podia ser mais bem utilizada, pois tem pouca presença. No final das contas, gostei do resultado de Conduta de Risco. Só não gosto tanto como a maioria porque não é um gênero que aprecio.

FILME: 8.0


Valente

I always believed that fear belonged to other people. Weaker people. It never touched me. And then it did. And when it touches you, you know… that it’s been there all along. Waiting beneath the surfaces of everything you loved.

Direção: Neil Jorda

Elenco: Jodie Foster, Terrence Howard, Naveen Andrews, Mary Steenburgen, Nicky Katt

The Brave One, EUA, 2007, Drama, 119 minutos, 16 anos.

Sinopse: Nova York. Erica Bain (Jodie Foster) é uma apresentadora de rádio e tem um novo noivo que a adora. Ela está feliz com sua vida, até que um ataque brutal a deixa seriamente ferida e mata seu noivo. Sem conseguir superar a tragédia, Erica passa a vasculhar as ruas à noite, em busca dos homens que considera ser os responsáveis pelo que lhe aconteceu. Sua busca por justiça chama a atenção da população, que passa a acompanhar sua perseguição anônuma. Porém, Mercer (Terrence Howard), um obstinado detetive, está decidido a encerrar sua jornada. Ao mesmo tempo, Erica começa a se questionar, sem saber que está se tornando justamente aquilo que deseja evitar.

Logo após matar duas pessoas em um metrô, Erica Bain se pergunta: “Por que minhas mãos não tremem? Por que não sinto nada?”. A radialista está procurando justiça e vingança pela morte de seu marido que foi brutalmente assassinado. A premissa de Valente é essa: é desumano não sentir nada em um ato de vingança? Apesar dessa proposta, o filme trabalha pouco essas questões ideológicas, focando-se mais nos sentimentos da protagonista e deixando de lado toda a badalação em torno da vingança. Valente é um pouco perdido em seus princípios, porque não consegue decidir qual é a sua verdadeira intenção e a que estilo de narrativa seguir.

No entanto, o filme vale por Jodie Foster que, apesar de não estar no melhor momento de sua carreira (já esteve muito mais intensa em outros projetos), consegue segurar as rédeas de um filme nada mais que mediano  e que culmina em um final questionável eticamente. Fracasso nos Estados Unidos, Valente será lançado diretamente em DVD aqui no Brasil. Decisão equivocada, já que a produção estava sendo esperada por muitos e era uma forte aposta para o Oscar de Melhor Atriz. Além, é claro, de ter uma protagonista de peso que consegue atrair certo público. Apesar do filme não ser muito bom, merecia ser lançado nos cinemas.

A proposta principal do filme era trabalhar a vingança da protagonista. Todavia, esse assunto parece ter ficado em segundo plano. O verdadeiro sentimento de vingança – que seria a “justificativa” dela para seus crimes, só se aflora nos momentos finais, enquanto durante todo o filme ela parece matar apenas por trauma e até mesmo prazer (!!!). A história tenta justificar as ações da protagonista com momentos dramáticos, o que acaba funcionando muito bem (principalmente até a metade) e dando espaço para Foster brilhar. Mas, de uma hora pra outra, muda o estilo de  narrativa e volta a apresentar atos sem motivações. Se fosse para escolher o maior defeito de Valente, esse seria o seu roteiro mal acabado e fora de foco.

Indicada ao Globo de Ouro, Jodie Foster é o grande destaque, como era de se esperar. Foster tem ótimos momentos e acertou completamente no tom de sua personagem. Quem faz o par romântico de Foster é Naveen Andrews (o Sayid de Lost, e que, recentemente, teve pequena participação em Planeta Terror), que só aparece nas primeiras cenas. Não gostei de Terrence Howard, o detetive da história, que não trouxe muita personalidade para seu personagem. Portanto, Valente não é um filme ruim, longe disso, só que o resultado ficou bem aquém do que podia se esperar. Culminando em um final duvidoso, tem seus momentos ótimos – fiquei especialmente impressionado com a cena em que os personagens de Foster e Andrews são violentados, onde foi tudo incrivelmente realista. Só merecia ter um roteiro mais contundenete e intenso, que definisse suas verdadeiras intenções dramáticas para a história.

FILME: 6.0


Encantada

Just because she has on a funny dress doesn’t mean she’s a princess. She’s a seriously confused woman who’s fallen into our laps.

Direção: Kevin Lima

Elenco: Amy Adams, James Marsden, Susan Sarandon, Timothy Spall, Patrick Dempsey, Julie Andrews (voz)

Enchanted, EUA, 2007, Comédia, 98 minutos, Livre.

Sinopse: Giselle(Amy Adams) é uma bela princesa que foi recentemente banida por uma rainha malvada de seu mundo mágico e musical. Com isso, ela agora está na Manhattan dos dias atuais, um local completamente diferente de onde vivia. Logo, ela recebe a ajuda de Robert (Patrick Dempsey), um advogado divorciado por quem se apaixona. Só que Giselle já está prometida em casamento para o príncipe Edward (James Marsden), que decide também deixar o mundo mágico para reencontrar sua amada.

Cada vez mais me convenço de que a infância está desaparecendo. Foi-se o tempo em que as crianças assistiam desenhos, brincavam com seus amigos e acreditavam em histórias mágicas. Hoje a moda é computador, videogame e televisão. Isso, além de tirar a época mais mágica da vida delas, consegue eliminar todo o espírito de imaginação que existe em suas mentes. Encantada, então, resolveu contar uma história de fantasia de forma diferente: os personagens mágicos vão parar no mundo real, em plena Nova York.

Assim, o público-infantil-sem-infância fica mais motivado a acompanhar essa história, porque ela não se passa em grandes castelos ou florestas encantadas, e sim nas ruas da cidade. O filme, de certa forma, seguiu as tendências do público e se deu conta de que a época infantil e imaginativa já acabou. É hora de mudar. Essa idéia original só fica na proposta, uma vez que Encantada segue vários tipos de clichê (temos até troca-troca de casais) e não consegue se desprender das previsibilidades típicas de histórias mágicas. O roteiro é até meio chatinho e repetitivo, mas ainda assim muito agradável. É louvável essa idéia da Disney, que resolveu lançar esse filme no ano em que se comemora o aniversário de A Branca de Neve e os Sete Anões, primeira animação do estúdio.

O verdadeiro acerto do filme é Amy Adams, não tem como negar. Depois de chamar a atenção com seu carisma em Retratos de Família (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante), ela foi a escolha perfeita para protagonizar Encantada. Não apenas por causa de sua beleza e de sua fisionomia angelical, mas por causa da sua naturalidade e espontâneidade que se revelam a cada minuto do filme. Ela está sendo considerada uma aposta para as indicações do Oscar de Melhor Atriz, mas não creio que deva ser indicada. Não achei que seu par romântico (o James Marsden, que recentemente fez Hairspray) combinou muito.

O resto do elenco ainda inclui Timothy Spall – sempre fazendo o típico papel do gordinho feio e atrapalhado – e Susan Sarandon, que mal aparece. Já que Amy não tem tantas chances na premiação da Academia, aposto minhas fichas na música “That’s How You Know”, que é muito divertida e transmite todo o espírito que o filme quer passar para o espectador. Encantada é uma boa diversão, inofensiva e agradável. Não é uma inovação, mas ao menos consegue ser diferente. Infelizmente, não apreciei tanto como a maioria.

FILME: 6.5


Across the Universe

Music’s the only thing that makes sense anymore, man. Play it loud enough, it keeps the demons at bay.

Direção: Julie Taymor

Elenco: Jim Sturgees, Evan Rachel Wood, Joe Anderson, Dana Fuchs, Martin Luther

EUA, 2007, Musical, 131 minutos, 12 anos.

Sinopse: Década de 60. Jude (Jim Sturgess) e Lucy (Evan Rachel Wood) estão perdidamente apaixonados. Juntamente com um grupo de amigos e músicos, eles se envolvem nos movimentos da contracultura de Liverpool, tendo como guias do dr. Robert (Bono Vox) e o sr. Kite (Eddie Izzard).

2007 foi o ano da música no cinema. Depois de Dreamgirls e Hairspray, o cinema americano ainda produziu Não Estou Lá e Apenas Uma Vez, ambos ainda inéditos no Brasil. Mas foi esse Across The Universe que mais chamou a atenção do público cult. Basicamente porque se baseia no repertório dos Beatles para contar uma história de amor em tempos de repressão. O que poderia ser um mar de previsibilidade feito apenas para puxar o saco da banda acabou se tornando em um musical satisfatório, totalmente livre da imagem dos Beatles. Longe de qualquer apelo comercial, Across The Universe é um musical diferente por causa de sua imagem de cinema independente.

Em diversos momentos, o filme lembra Moulin Rouge! – Amor em Vermelho, pelo simples fato de utilizar todo o esplendor estético e visual das cenas para aumentar o impacto dos números musicais, principalmente nas cores vibrantes e nos efeitos visuais. A produção não é requintada, mas o apelo visual é grande. O repertório dos Beatles se encaixou perfeitamente na história, com músicas que realmente funcionam e conquistam nas cenas em que são respectivamente tocadas, como Hey JudeStrawberry Fields Forever. E alguém não ficou apaixonado com o final ao som de All You Need is Love? Simplesmente memorável! Mesmo eu não sendo fã cego da banda, acabei completamente envolvido pelas músicas.

Fiquei mais do que satisfeito com a escolha do elenco. Jim Sturgess foi o que mais me cativou: tem todo o carisma necessário para o papel e canta muito bem (lembrando muito a voz de Ewan McGregor no musical de Baz Lührmann). Grande revelação. Evan Rachel Wood, apesar de um pouco apagada, continua comprovando o seu talento, que foi apresentado anteriormente em Aos Treze. Praticamente todos do elenco são desconhecidos, mas ficaram perfeitos em seus papéis, sem nenhuma exceção. Ainda tem pequenas participações do Bono, do U2 (em aparição bem descartável e inútil) e da Salma Hayek (que pediu uma ponta para a diretora Julie Taymor, com quem havia trabalhado anteriormente em Frida).

Agora as reclamações. A duração é  excessiva isso fica evidente durante seu desenvolvimento, que fica sem ritmo em vários momentos. Esse é um defeito que pesa bastante na minha avaliação. Também achei que tem muita música para pouca história. São raros os momentos em que os ouvidos podem descançar da cantoria. Algumas tomadas também se excedem na excentricidade, principalmente aquela do circo imaginário, completamente chata. Apesar desses defeitos quase debilitantes para o andamento de tudo, Across The Universe tem um bom resultado. A inclusão dele na categoria de melhor filme comédia/musical no Globo de Ouro, junto com Hairspray, é mais uma prova de que esse gênero voltou com tudo nesses últimos tempos. Voltou para conquistar novos fãs com suas temáticas cada vez mais atraentes.

FILME: 7.5


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