Cinema e Argumento

Na Natureza Selvagem

I read somewhere… how important it is in life not necessarily to be strong… but to feel strong.

Direção: Sean Penn

Elenco: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, Hal Holbrook, Catherine Keener, William Hurt, Jena Malone, Kristen Stewart, Vince Vaughn

Into The Wild, EUA, 2007, Drama, 148 minutos, 12 anos.

Sinopse: Início da década de 90. Christopher McCandless (Emile Hirsch) é um jovem recém-formado que decide viajar sem rumo pelos Estados Unidos em busca de liberdade. Durante sua jornada pela Dakota do Sul, Arizona e Califórnia, ele conhece pessoas que mudam sua vida, assim como sua presença também modifica as delas. Até que, após dois anos na estrada, Christopher decide fazer a maior das viagens e partir rumo ao Alasca.

A solidão deve ser o tema mais interessante de se trabalhar em um filme dramático. Principalmente quando ela é intrigante e complexa. Entender as atitudes do personagem Christopher McCandless, o protagonista do novo longa de Sean Penn, ao se isolar da família e abandonar toda vida cheia de oportunidades que estava a sua espera é o principal de Na Natureza Selvagem. Trazendo alguns dilemas para o espectador, essa produção menor e que ficou em menor destaque nas premiações desse ano, consegue o feito de trabalhar a solidão sem cair em qualquer tipo de clichê.

Os méritos ficam por conta de dois apaixonados por esse projeto. O primeiro é o diretor Sean Penn, que se mostra maduro atrás das câmeras desde que estreiou nesse ramo com A Promessa. O segundo é o jovem ator Emile Hirsch (que chamou minha atenção em Heróis Imaginários), que entrou de cabeça no personagem, até mesmo se arriscando nas cenas mais perigosas onde negou a ajuda de um dublê. O restante do elenco também contribui bastante para o filme fluir com excelência. Hal Holbrook (em bom desempenho indicado ao Oscar), Kristen Stewart e Catherine Keener são os coadjuvantes que mais se destacam e só trazem pontos positivos para a trama. 

É exatamente por causa de tamanha sinceridade por parte do elenco e do diretor que Na Natureza Selvagem funciona, uma vez que fica evidente que o filme não é brilhante e muito menos cativante – tem poucos conflitos e não precisava de uma duração tão longa. As narrações em off são sempre bem-vindas, inclusive aqui. Por um outro lado, fiquei bastante indignado que um outro quesito do longa tenha sido completamente ignorado nas premiações – as belas composições de Eddie Vedder. Ok, elas são tantas que fica difícil escolher apenas uma. Mas, se ao menos Guaranteed fosse lembrada, já estaria de bom tamanho. Uma pena. Na Natureza Selvagem ficou aquém do que eu esperava (até porque havia criado expectativas demais), mas o resultado é satisfatório e não decepciona. É por Sean Penn e por Emile Hirsch que o filme deve ser conferido.

FILME: 8.0

Ligeiramente Grávidos

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[de Judd Apatow. Com Katherine Heigl, Seth Rodgen e Leslie Mann]

Como todos sabem, sou um daqueles que detesta o humor de O Virgem de 40 Anos. A princípio, Ligeiramente Grávidos estava programado para ser uma continuação do filme estrelado por Steve Carell, mas ainda bem que não foi. Essa segunda comédia do diretor Judd Apatow (que acertou completamente na escolha do elenco, em especial a ótima Katherine Heigl, impulsionando sua saída da tv e sua entrada no cinema) tem um clima humorístico totalmente diferente do seu trabalho anterior. Tudo bem, é apenas mais um filme que lida sobre esse assunto tão trabalhado que é “se tornar pai quando responsabilidade e compromisso não existem”, mas ao menos Ligeiramente Grávidos consegue cumprir sua promessa sem escorregar nem exagerar, ainda que não precisasse de longos 130 minutos para desenvolver tudo. As piadas não são inteligentes ou muito menos cativantes, mas ao menos não precisam ficar sem integridade ou decência para causar graça (o que é o caso de O Virgem de 40 Anos). Conseguindo conduzir tudo com muita tranquilidade, o diretor Apatow consegue saldo positivo com essa produção que, apesar de totalmente esquecível, consegue ser ao menos simpático e enganar como uma engraçada diversão durante duas horas.

FILME: 7.0

3

Romance e Cigarros

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[De John Turturro. Com Susan Sarandon, Kate Winslet e James Gandolfini]

Existem certos filmes que só tem “nome”. É o caso de Bobby e A Grande Ilusão. Filmes com nomes poderosos no elenco mais que não passam de um resultado regular. Também é o caso desse Romance e Cigarros, que apesar dos excelentes atores que tem em seu elenco, não consegue ir muito bem como filme. Só o fato de ter sido lançado diretamente em DVD aqui no Brasil já comprova seu fraco resultado. Realmente, como musical a produção tem um resultado bem aquém do esperado, mas o filme não merece desprezo. A história é bem divertida e as músicas conseguem dar bom ritmo para a trama. Mas, sem dúvida, quem salva é o elenco. Susan Sarandon, apesar de dublada em suas canções, dá a sua melhor aparição depois de tanto tempo cometendo erros grotescos no cinema. Kate Winslet está um pouco deslocada e quase caricata, mas exerce muito bem seu papel de mulher sensual. James Gandolfini, o protagonista, não deixa maior impressão mas está aceitável. De resto – Mary Louise Parker, Christopher Walken, Steve Buscemi, entre outros – são apenas personagens sem muita importância. Estranhamente as canções funcionam e o roteiro não. O diretor John Turturro entrega uma produção irregular e que desperdiça os grandes nomes que tem em mãos. Mas para um filme lançado em DVD, o resultado é satisfatório.

FILME: 6.5

3

A Noite do Oscar 2008

A festa que ocorreu ontem foi a melhor que já assisti. Simplesmente por ter sido a mais justa. Das minhas 19 apostas (não palpito em curtas), acertei 14. Fiquei muito satisfeito com meu resultado. A noite em si não foi tão inesquecível – até porque não vejo tanta graça no Jon Stewart – e tudo só foi emocionante mesmo por causa dos prêmios. Nunca tinha ficado tão satisfeito com a distribuição deles. E a Marion Cotillard? Ninguém colocava fé nela, mas eis que a Academia vence preconceitos e premia merecidamente uma das melhores performances da década. Foi a estatueta mais emocionante da noite, Marion demonstrou uma grande emoção como há tempos não se via. Outro prêmio merecido e que o vencedor se emocionou bastante foi o da Tilda Swinton, em quem poucos apostavam. Javier Bardem e Daniel Day-Lewis (em grande momento se ajoelhando nos pés de Helen Mirren) ganharam como era óbviamente panejado e apostado. Mesmo eu sendo teimoso e não acreditanto tanto em uma consagração dos irmãos Coen por Onde Os Fracos Não Têm Vez, ela aconteceu. Foi a primeira vez na vida que a categoria de Melhor Filme não me causou nenhuma sensação. Primeiro porque o óbvio ocorreu e segundo porque o prêmio era merecido. Além de melhor filme, os irmãos Coen ganharam direção e roteiro adaptado. Eu esperava alguma consagração surpresa para o Paul Thomas Anderson (Sangue Negro), principalmente em roteiro adaptado, mas mais uma vez ela foi adiada.

 Já nos prêmios técnicos algumas coisas me desagradaram, como a vitória muito injusta de A Bússola de Ouro em efeitos especiais (apesar de serem ótimos, parece ter sido mais um prêmio de consolação para o filme não ter passado em branco na festa), quando Transformers merecia muito mais. Outro prêmio meio injusto foi o de fotografia para Sangue Negro. Não é desmerecido, mas outros concorrentes mereciam mais. Por um outro lado, a consagração de O Ultimato Bourne foi uma das melhores surpresas que a Academia já reservou nos respectivos setores em que o filme se saiu vencedor (edição de som, mixagem de som e montagem). Uma consagração pra lá de merecida e que me deixou muito contente. Ao que pode parecer, a vitória de Desejo e Reparação na categoria de melhor trilha sonora, não foi um prêmio de consolação como foi o de Babel ano passado nessa categoria. A trilha de Dario Marianelli é soberba, e o prêmio para o filme foi o mais justo na categoria em muito tempo. Assim como direção de arte para Sweeney Todd, que foi merecido e não consolação. Falando em música, gostei bastante das encenações e das coreografias das músicas, apesar de exagerarem às vezes (That’s How You Know, por exemplo, virou um carnaval completo em certos momentos). Como era de se esperar, Falling Slowly se saiu vencedora. Glen Hansard e Marketa Irglová foram outros que se emocionaram bastante ao subir no palco. Piaf – Um Hino Ao Amor ainda levou maquiagem. Os Falsários ficou com o prêmio de filme estrangeiro. Elizabeth – A Era de Ouro repetiu o feito de outro filme de época ano passado (Maria Antonieta) na categoria de melhor filme, ao se sair vencedor, como era bem previsível.

Enfim, além de ter uma das melhores seleções de indicados, o Oscar desse ano ainda conseguiu o feito de ser impecável. Tudo na medida, tudo muito justo, tudo muito bem distribuído. Claro que sempre teremos reclamações mas, modéstia a parte, é impossível negar a excelência dessa edição número 80, que além disso tudo não foi nem um pouco chata – foi rápida e acabou num piscar de olhos. Se em anos anteriores a Academia havia me decepcionado bastante com suas escolhas, esse ano ela se redimiu completamente. E, pela primera vez, eu digo com a maior satisfação: “viva o Oscar!”.

Oscar 2008 – Apostas

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Melhor Filme

Quem vai levar: Conduta de Risco

Fique de olho em: Onde Os Fracos Não Têm Vez.

Quem merecia: Desejo e Reparação

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Melhor Direção

Quem leva: Joel e Ethan Coen, por Onde Os Fracos Não Têm Vez

Fique de olho em: Paul Thomas Anderson, por Sangue Negro

Quem merecia: Paul Thomas Anderson, por Sangue Negro

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Melhor Atriz

Quem leva: Marion Cotillard, por Piaf – Um Hino Ao Amor

Fique de olho em: Julie Christie, por Longe Dela

Quem merecia: Marion Cotillard, por Piaf – Um Hino Ao Amor.

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Melhor Ator

Quem leva: Daniel Day-Lewis, por Sangue Negro

Fique de olho em: Johnny Depp, por Sweeney Todd

Quem merecia: Daniel Day-Lewis, por Sangue Negro

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Melhor Atriz Coadjuvante

Quem leva: Tilda Swinton, por Conduta de Risco

Fique de olho em: Cate Blanchett, por Não Estou Lá

Quem merecia: Saoirse Ronan, por Desejo e Reparação

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Melhor Ator Coajuvante

Quem leva: Javier Bardem, por Onde Os Fracos Não Têm Vez

Fique de olho em: Casey Affleck, por O Assassinato de Jesse James

Quem merecia: Javier Bardem, por Onde Os Fracos Não Têm Vez

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Melhor Roteiro Original

Quem leva: Juno

Fique de olho em: Ratatouille

Quem merecia: Ratatouille

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Melhor Roteiro Adaptado

Quem leva: Onde Os Fracos Não Têm Vez

Fique de olho em: Sangue Negro

Quem merecia: Onde Os Fracos Não Têm Vez

Melhor Trilha Sonora

Desejo e Reparação

Melhor Fotografia

O Escafrando e a Borboleta

Melhor Maquiagem

Piaf – Um Hino Ao Amor

Melhor Figurino

Elizabeth – A Era de Ouro

Melhor Canção Original

“Falling Slowly”

Melhor Direção de Arte

Sweeney Todd

Melhor Mixagem de Som

Ratatouille

Melhor Edição de Som

O Ultimato Bourne

Melhores Efeitos Especiais

Transformers

Melhor Documentário

S.O.S Saúde

Melhor Filme Estrangeiro

Os Falsários (Áustria)

Sangue Negro

Direção: Paul Thomas Anderson

Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Dillon Freasier, Kevin J. O’Connor

There Will Be Blood, EUA, 2007, Drama, 159 minutos, 16 anos.

Sinopse: Virada do século XIX para o século XX, na fronteira da Califórnia. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um mineiro derrotado, que divide seu tempo com a tarefa de ser pai solteiro. Um dia, ele descobre a existência de uma pequena cidade no oeste onde um mar de petróleo está transbordando no solo. Daniel decide partir para o local com o seu filho, H.W. (Dillon Freasier). O nome da cidade é Little Boston, sendo que a única diversão do local é a igreja do carismático pastor Eli Sunday (Paul Dano). Daniel e H.W. arriscam e logo encontram um poço de petróleo, que lhes traz riqueza, mas também uma série de conflitos.

Sangue Negro causa uma estranha sensação de que “já vimos esse filme antes” por se tratar de uma saga literalmente longa (aproximadamente 160 minutos) sobre a ascenção de um homem trabalhador no mundo dos negócios. No meio de tudo isso, velhas intrigas profissionais, cobiça financeira, decadência e loucura. Uma história dessas pode até já ter sido contada diversas vezes, mas é impossível negar que o diretor Paul Thomas Anderson dá um tom diferente a esse tipo de enredo.

Munido de um poderoso ator como protagonista e um ótimo coadjuvante, Sangue Negro desponta como um dos favoritos ao Oscar 2008. Méritos para isso tem de sobra. Pena que o filme não faça meu estilo, o que acabou dificulcando a minha aceitação da produção como uma obra-prima contemporânea. Incrivelmente bem produzido, é muito difícil acreditar que o orçamento do filme ficou apenas nos 25 milhões de dólares, uma vez que a direção de arte é impecável em sua reconstrução de época. A trilha sonora de Johnny Greenwood é outro fator interessantíssimo, com composições inesquecíveis e outras completamente coerentes com a história que está sendo trabalhada.

Mas esses detalhes técnicos ficam pequenos perto dos verdadeiros destaques do filme. Se existe uma unânimidade presente em Sangue Negro, ela se chama Daniel Day-Lewis. Sumido de longas de destaque desde Gangues de Nova York, apesar de ter realizado um filme menor e bom chamado O Mundo de Jack e Rose, Day-Lewis apresenta uma das melhores atuações da década, (se não a melhor) fazendo aquele tipo de papel que entra para a história do cinema. Merecidamente é aclamado por todos os lugares onde passa. Pena que um outro ator do elenco foi ofuscado pela interpretação de Day-Lewis, o ótimo Paul Dano. Por mais que seu papel seja um pouco forçado e exagerado, Dano consegue extrair do pastor Eli uma empatia absurda – sentimos ódio ou pena daquele fanático religioso?

Entendo perfeitamente quem considera Sangue Negro uma obra-prima, mas eu não consegui o ver como tal em nenhum momento. Talvez a minha relutância com longas durações tenha atrapalhado (foi o maior defeito que consegui achar no longa, o roteiro demasiado comprido), mas não posso deixar de jeito nenhum de reconhecer o grande trabalho de Paul Thomas Anderson. Ficam vários diálogos e momentos memoráveis no espectador ao fim da sessão. Decidi colocar aqui o que achei mais marcante e contundente: “Eu não quero que ninguém mais tenha sucesso. Eu odeio a maioria das pessoas. Existem momentos que eu olho para as pessoas e não vejo nada além de maldade. Eu vejo o pior nelas.”

FILME: 8.0

35

NA PREMIAÇÃO DO CINEMA E ARGUMENTO:


Onde Os Fracos Não Têm Vez

Direção: Joel e Ethan Coen

Elenco: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson, Kelly Macdonald

No Country For Old Men, EUA, 2007, Ação, 123 minutos, 14 anos.

Sinopse:Inspirado no romance do americano Cormac McCarthy, “Onde os Velhos Não têm Vez”, o longa se passa no Texas, década de 80. Um traficante de drogas é encontrado no deserto por um caçador pouco esperto, Llewelyn Moss (Josh Brolin), que pega uma valise cheia de dinheiro mesmo sabendo que em breve alguém irá procurá-lo devido a isso. Logo Anton Chigurh (Javier Bardem), um assassino psicótico sem senso de humor e piedade, é enviado em seu encalço. Porém para alcançar Moss ele precisará passar pelo xerife local, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones).

Lá se vão doze anos desde o que os irmãos Coen tiveram sua última aparição no Oscar, com Fargo – Uma Comédia de Erros. O cultuado e superestimado filme (acho apenas uma competente e original produção) se saiu vencedor em duas categorias – atriz (para Frances McDormand) e roteiro. Mas não melhor filme e direção. Desde então, o público deseja que o Oscar corrija esse erro de não os ter consagrado. Ao que tudo indica, a coroação máxima deles vai acontecer nesse domingo, com Onde Os Fracos Não Têm Vez. A produção merece todas as suas indicações, especialmente a de direção, montagem e ator coadjuvante.

A violência é o centro de Onde Os Fracos Não Têm Vez. Nem bem o filme completa a sua meia hora duração e mais de dez pessoas já morreram, nas mais variadas formas. E assim a violência segue, tornando-se a principal engrenagem do filme, principalmente por ser incrivelmente realista e estimulante. Todo tipo de morte e agressividade está envolvida com a figura de Anton Chigurh, interpretado com maestria por Javier Bardem. O vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante (merecidamente, diga-se de passagem) dá vida a um dos mais interessantes vilões dessa década, traduzindo com perfeição toda a frieza e o caráter dissimulado dessa máquina de matar. Bardem é, de longe, o mais interessante de todo elenco, apesar dos bons desempenhos de Josh Brolin, Tommy Lee Jones e Kelly MacDonald.

O silêncio reina em praticamente todo o filme, com a ausência de trilha sonora, o que acaba por maximizar toda tensão e suspense da história que, por mais que não chegue a cativar ou empolgar no seu texto, é suficientemente interessante mara manter a curiosidade pelo bom e velho jogo de “gato e rato” que se forma entre os personagens. Onde Os Fracos Não Têm Vez é tenso e conduzido de forma excepcional pela direção competente dos irmãos Coen, que mostraram grande amadurecimento nesse quesito. A montagem é outro aspecto que merece destaque por ser um dos maiores atrativos do longa. O roteiro fica um pouco aquém do brilhantismo, uma vez que não é surpreendente e contundente em seus fatos, apenas realizando uma simples história de suspense.

Além de toda ação e suspense, o filme também causa momentos de reflexão, especialmente em dois momentos – na narração inicial, onde Tommy Lee Jones fala sobre os “velhos” de hoje (o que me leva a odiar o fato de “fracos” ter sido colocado no título, uma vez que “velhos” tem muito mais sentido e coerência com a trama) e no final, onde ele narra um sonho que teve e faz um convite ao espectador para entender as entrelinhas presentes naquelas palavras. Confesso que eu esperava um filme mais empolgante em suas mensagens e não tão seco, mas saí completamente satisfeito da sessão, onde conclui que o filme merece sim todos os elogios que recebe.

FILME: 8.5

4

NA PREMIAÇÃO DO CINEMA E ARGUMENTO:

Sweeney Todd

Direção: Tim Burton

Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Sacha Baron Cohen, Timothy Spall

Sweeney Todd – The Demon Barber Of Fleet Street, EUA, 2007, Musical, 122 minutos.

Sinopse:Tim Burton é o diretor da saga demoníaca de Benjamin Barker (Johnny Depp), um homem preso injustamente pelo Juiz Turpin (Alan Rickman) que, ao ser solto, descobre que sua esposa se suicidou após ser estuprada por Turpin, que também tomou sua filha. Barker parte para a vingança ao lado da cozinheira Nellie Lovett (Helena Bonham Carter), “famosa” por suas tortas detestáveis. Barker adota o nome de Sweeney Todd e aproveita sua profissão de barbeiro para colocar em prática seus planos com Lovett, agora sua amante.

Escuridão. Ruas sombrias. História bizarra. É impossível não reconhecer o inesquecível estilo que Tim Burton criou em sua filmografia. Mais inesquecível ainda são os filmes que o diretor produziu com o talentoso Johnny Depp. Depois de A Fantástica Fábrica de Chocolate (filme mais “contido” de Burton, mas nem por isso inferior), eles voltam com Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, produção que acabou sendo mais esperada do que o normal por se tratar de um musical sobre um serial killer.

E são justamente as expectativas que vão ajudar o espectador a formar sua opinião. De certa forma, Sweeney Todd não é nada de original ou surpreendente se analisarmos os outros filmes que Depp e Burton realizaram anteriormente. É repetitivo, até. Expectativas à parte, o longa consegue satisfazer em praticamente todos os aspectos, maximizando ainda mais todos aqueles quesitos que sempre deram certo em outros filmes do diretor – os ótimos figurinos, a soberba direção de arte e a escura fotografia.

Apesar de tudo isso, o que mais se destaca no filme é o elenco. Johnny Depp prova que o tempo lhe faz muito bem, conseguindo sempre melhorar e dando vida a Sweeney Todd de forma impecável. Não é nem de longe o melhor desempenho de sua carreira, mas ganha pontos com esse filme. Porém, quem mais chamou minha atenção no filme foi  Helena Bonham Carter, que consegue cativar em todos seus momentos musicais. O vilão da vez é Alan Rickman. Ator mais perfeito para o papel não existe, uma vez que Rickman se sai maravilhosamente bem interpretando esse tipo com sua marcante voz grave. A pequena ponta de Sacha Baron Cohen também é ótima.

Sweeney Todd escorrega bastante no roteiro – o lado musical, às vezes, fica melhor que a história e vice-e-versa, deixando uma sensação de mal balanceamento no ritmo. Lembrando bastante o clima estético e narrativo de Perfume – A História de Um Assassino, a produção acerta na parte mais importante de um musical: as canções. Ainda que não sejam “acessíveis” para o grande público, são utilizadas como um ótimo instrumento narrativo para conduzir a história e os sentimentos dos personagens. Tudo muito bem encenado. Sweeney Todd faz jus à carreira de Johnny Depp e Tim Burton, trazendo para nós cinéfilos todo aquele visual que tanto nos conquistou.

FILME: 8.0

35

NA PREMIAÇÃO DO CINEMA E ARGUMENTO:

Longe Dela

Direção: Sarah Polley

Elenco: Julie Christie, Gordon Pinsent, Olympia Dukakis, Deanna Dezmari, Clare Coulter

Away From Her, EUA, 2007, Drama, 105 minutos, 12 anos.

Sinopse: Grant (Gordon Pinsent) e Fiona (Julie Christie) formam um casal feliz, que tem sua vida abalada quando ela apresenta alguns graves sintomas, como perda de memória. Logo vem a confirmação: Fiona está com mal de Alzheimer. Relutante a princípio, ela passa a aceitar a doença e se interna numa clínica. Uma das regras do local é que os pacientes não recebam visitas durante seus primeiros 30 dias. Quando Grant finalmente consegue vê-la, ela já não o reconhece mais. Fiona agora está afeiçoada por Aubrey (Michael Murphy), outro paciente da clínica, o que faz com que Grant tenha que se contentar com sua nova condição de amigo ao mesmo tempo em que tenta ajudá-la a se lembrar do passado.

Logo quando alguém se refere ao filme Longe Dela, logo toda a opinião fica em volta da protagonista Julie Christie, que é a recordista de premiações na categoria de atriz nessa temporada. Contudo, existem outros aspectos do filme que o tornam uma das experiências mais emocionantes da safra do Oscar desse ano. A começar pelo roteiro, adaptado por Sarah Polley e concorrente ao prêmio da Academia, que dá grandes dimensões psicológicas a cada personagem e conduz essa história de forma muito sensível, indo além de uma mera história de amor entre idosos.

Se o sentimentalismo de Vênus era totalmente dependente de seu protagonista, o de Longe Dela está presente em praticamente tudo: nos protagonistas, nos coadjuvantes, nas cenas, na trilha sonora e até mesmo na bela fotografia. Mas tudo está longe de qualquer sentimentalismo barato ou emoções manipuladoras. O filme foi bem emocionante e intenso para mim , sendo um bom exemplar dessa temática que já foi trabalhada em tantos outros filmes como Íris e O Filho da Noiva. Não falta ritmo na narrativa de Longe Dela. O único aspecto que desagrada é o formato de idas e vindas no tempo, que, em alguns momentos, acabam tornando a cronologia um pouco confusa, principalmente no começo.

Na realidade, o personagem de Julie Christie não é o protagonista da história (Gordon Pinsent é quem comanda, e está ótimo), mas é o que mais se destaca. Julie Christie brilha completamente e ilumina cada cena em que aparece. Certamente é o desempenho mais sincero e emocionante que já vi em um filme sobre a respectiva doença. Enfim, Longe Dela é um filme cheio de méritos e que merece ser descoberto, principalmente pelo fato de que trabalha uma história de amor de forma muito bonita e humana.

FILME: 8.5

4

A Lenda do Tesouro Perdido 2

Direção: Jon Turteltaub

Elenco: Nicolas Cage, Diane Krueger, Harvey Keitel, Jon Voight, Helen Mirren, Ed Harris, Bruce Greenwood

National Treasure 2 – Book Of Secrets, EUA, 2008, Aventura, 124 minutos, Livre.

Sinopse: Quando uma página perdida do diário de John Wilkes Booth (Christian Camargo) reparece, o bisavô de Ben Gates (Nicolas Cage) torna-se o principal conspirador do assassinato de Abraham Lincoln. Querendo provar a inocência do parente, Ben reúne mais uma vez a sua equipe e segue uma série de pistas, que os levam de Paris a Londres antes de retornarem aos Estados Unidos.

Sempre achei que o primeiro filme de A Lenda do Tesouro Perdido foi massacrado demais. Criticismo em excesso e exigência exagerada tornaram a aventura estrelada por Nicolas Cage em um completo fracasso de crítica. Porém, fez grande sucesso de bilheteria. Fui contra a maré e achei o primeiro volume bem divertido e descompromissado, ainda que horrivelmente clichê e cheio de falhas. Ou seja, era uma aventura que me entreteu, um guilty pleasure.

Essa continuação que recebe o subtítulo de Livro dos Segredos expandiu o seu lado técnico e aposta muito mais na ação, visualmente bem-feita em função do maior orçamento. Além da ampliação desse setor, ainda temos duas aquisições importantes no elenco: Helen Mirren e Ed Harris. No entanto, achei que a continuação ficou inferior ao resultado do primeiro capítulo, principalmente pelo fato de que parece que esse tipo de filme já está saturado e que não tem mais graça.

A dificuldade do elenco permanece,  em especial no Nicolas Cage (a maior decepção da década) e na extremamente limitada Diane Krueger – ambos em nenhum momento funcionam como mocinho e mocinha. Ele cai na caricatura e ela não tem expressão. Pra completar a inverossimilhança do elenco (que também tem Jon Voight, totalmente apagado) ainda foi adicionado Ed Harris nesse filme que, assim como Cage, cai em excessos ao interpretar seu papel.Só quem se salva mesmo é a novata na série Helen Mirren, fazendo um típico papel de “entre tapas e beijos” com Voight. Ela tira o melhor de seu papel cretino e acaba sendo uma boa surpresa.

Um pouco longo e sem uma história mais concreta, Livro dos Segredos é diversão inofensiva, daquele tipo em que deve-se assistir sem cérebro e senso crítico. Sucesso nos Estados Unidos, essa continuação não alcança o mesmo nível do anterior, mas deixa o resultado de entretenimento igualmente competente. Deve originar mais outra continuação para completar uma trilogia. Só rezo que o filme se reinvente e não se limite a ser apenas uma correria ameaçada por um bandido e que leve os heróis a uma caverna com minas de ouro e final feliz para todos. Afinal, não quero ver mais do mesmo, principalmente quando tudo já saturou.

FILME: 6.0

25

Electroma

Existe uma certa música do Daft Punk que se chama Human After All. Esse filme deles, Electroma, trabalha em grande potencial esse assunto: a humanidade. A produção mostra a jornada de dois robôs em busca de uma alma, querendo uma inserção no mundo dos sentimentos e das emoções. Essa jornada deles é totalmente sem diálogos (nenhuma palavra é dita durante toda a projeção) e toda a emoção da história é transmitida através de tomadas silenciosas e cenas embaladas por emocionantes canções que em diversos momentos alcançam níveis extraordinários (fiquei com três momentos na cabeça durante um bom tempo). De início, Electroma é um filme meio perturbador e estranho: o silêncio grita aos ouvidos e os personagens são muito bizarros. Leva-se um tempo para se acostumar a esse estilo, que em diversas partes lembra outros filmes, mas, aos poucos, a produção vai envolvendo e conseguindo ficar cada vez mais interessante em suas intenções e em sua sincera dramaticidade. Com ligeiros 70 minutos de duração, é bem restrito e para um público mais seleto: um público de “arte”, que entende as entrelinhas e tudo o que se esconde em um silêncio subjetivo. Não digo que fui completamente envolvido e nem que me apaixonei pelo filme, mas o fato é que Electroma foi uma experiência única para mim, conseguindo ser mais emocionante do que muitos dramas enfadonhos e manipuladores que andam por aí.

FILME: 8.0

35

O Caçador de Pipas

Direção: Marc Forster

Elenco: Khalid Abdalla, Atossa Leoni, Homayoun Ershadi, Zekeria Ebrahimi, Shaun Toub, Nabi Tanha

The Kite Runner, EUA, 2007, Drama, 124 minutos, 14 anos.

Sinopse: Depois de passar anos na California, Amir (Khalid Abdalla) retorna para a sua cidade natal, no Afeganistão, para tentar corrigir erros do passado. Ele também terá de ajudar o filho de seu amigo de infância, que está com sérios problemas.

Estranho. Achei o filme e o livro de O Caçador de Pipas totalmente diferentes. Eu não deveria ter essa sensação, uma vez que o filme de Marc Forster é plenamente fiel ao best-seller de Khaled Hosseini. Falando em Marc Forster, ele prova aqui que a palavra ”versatilidade” lhe cai muito bem, pois realiza um de seus melhores trabalhos como diretor. A produção é meticulosamente cuidadosa em todos os seus setores e especialmente na primeira hora do filme, que retrata a infância do protagonista. É nessa parte também que o filme funciona melhor, onde é mais sentimental, emocionante e verossímil. A adaptação teve pleno êxito nos primeiros momentos, que realmente ficaram muito interessantes.

Já a segunda hora e os momentos finais não conseguem conquistar, já que tudo é muito vazio e sem sentimento. De uma certa forma, a adaptação do best-seller é digna e consegue traduzir muito bem todo o espírito que o escritor Khaled Hosseini transmitia em sua obra, mas não consegui me sentir confortável com a história e muito menos me emocionar.Não é um produto comercial e gostei bastante disso. Em momento algum notamos que o filme quer apenas “ganhar dinheiro”, muito pelo contrário, tudo parece ter sido feito com amor ao livro. O fato é que eu li a história faz bastante tempo, então a versão cinematográfica não teve tanta graça porque eu já sabia tudo o que estava por acontecer.

A trilha sonora de Alberto Iglesias, que foi indicada ao Oscar, é ótima, mas de maneira nenhuma oferece riscos para a melhor trilha desse ano: a de Dario Marianelli, em Desejo e Reparação. O desconhecido elenco de O Caçador de Pipas realiza um trabalho surpreendente, todos excelentes, principlamente o elenco mirim e o protagonista Khalid Abdalla. Um filme nada mais que satisfatório, sem ousadias ou novidades. Em termos de adaptação está ótimo. Só faltava ser um pouco mais contundente como cinema…

FILME: 7.0

3

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