Rapidamente: “O Clube”, “Marguerite” e “Trumbo – Lista Negra”

Catherine Frot em Marguerite: tanto ela quanto Meryl Streep em Florence: Quem é Essa Mulher? compreendem a trágica inocência de uma mesma personagem.
O CLUBE (El Club, 2015, de Pablo Larraín): Vencedor do grande prêmio do júri no Festival de Berlim em 2015 e indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro este ano, O Clube é o sexto longa-metragem assinado pelo chileno Pablo Larraín. Para quem ainda não acompanhava o nome dele de perto (em 2012, fez o excelente No, estrelado por Gael García Bernal e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro), é bom reparar o erro a partir de agora com O Clube, um filme profundamente desconfortável (no bom sentido) e munido de muita coragem ao narrar os dias de padres isolados pela igreja católica em uma casa litorânea sob a suspeita de crimes de pedofilia. O clima invernal, o tom taciturno, a fotografia nebulosa e uma morte na porta do retiro dos padres são os pontos altos da ambientação desse filme que não economiza, seja abordagem ou vocabulário, para falar sobre os crimes nunca encenados que os sacerdotes teriam cometido. Com um desfecho particularmente surpreendente e até mesmo perturbador, O Clube reafirma o talento de Larraín como contador de histórias – e, ainda que No seja mais marcante, sua nova investida atrás das câmeras não deixa de ser uma experiência de alto valor cinematográfico e narrativo.
MARGUERITE (idem, 2015, de Xavier Giannoli): Realizado quase paralelamente ao ótimo Florence: Quem é Essa Mulher?, o belga Marguerite prefere carregar menos no tom anedótico para contar a história da personagem-título, transpondo a história verídica de Florence Foster Jenkins para o imaginário de língua francesa. Por isso acho tão complicado – e até injusto – colocar na balança o trabalho de Xavier Giannoli com o longa estrelado por Meryl Streep e Hugh Grant, já que o segundo, mesmo dando conta da dimensão dramática da personagem, prefere ser um (satisfatório) produto cômico. Enquanto isso, Marguerite opta por fazer um estudo mais minucioso de sua personagem, explorando muito mais os detalhes da trágica inocência de uma mulher que, apesar do marido compreensivo e do mordomo fiel, enfrenta uma crise no casamento e constantemente se depara com pessoas que querem secretamente abusar de sua ingenuidade. Elegante, o longa de Giannoli, assim como o de Stephen Frears, respeita e compreende o que existe de mais fascinante em sua protagonista, principalmente porque também acerta na escolha da intérprete: aqui, Catherine Frot é excelente como protagonista que sempre conquista a nossa compaixão.
TRUMBO – LISTA NEGRA (Trumbo, 2015, de Jay Roach): Quem escreveu que Trumbo – Lista Negra é o filme que coloca um diretor de comédia no mundo dos dramas e da biografia certamente desconhece a carreira de Jay Roach. É lógico que seus maiores sucessos são filmes cômicos como Austin Powers e Entrando Numa Fria, mas a comparação lógica para falar sobre Trumbo seria com Recontagem e Virada no Jogo, duas grandes histórias verídicas sobre importantes momentos da política norte-americana que ele adaptou para a HBO. Isso porque Trumbo, que já decepciona por si só, acaba se tornando ainda menos interessante quando lembramos do que Jay Roach já foi capaz com esses dois filmes específicos. Fica claro, no longa estrelado Bryan Cranston, que o diretor tem sérios problemas em narrar biografias que compreendem um longo espaço de tempo. Enquanto em Recontagem e Virada no Jogo ele era cirúrgico ao distribuir a construção de seus personagens a partir de momentos cotidianos de um pequeno recorte, em Trumbo a situação é dispersiva pela amplitude cronológica, resultando no recorrente problema de filme biográficos que, desejando narrar tudo o que é possível sobre a vida de um personagem, acabam comunicando muito pouco. Bryan Cranston faz o que está ao seu alcance em um elenco mal aproveitado e até caricato (Helen Mirren não passa da caracterização, por exemplo), mas isso não é o suficiente para tirar o filme do status de mero relato esquemático e sem refinamento.
Esquadrão Suicida
You know what they say about the crazy ones…

Direção: David Ayer
Roteiro: David Ayer
Elenco: Viola Davis, Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Joel Kinnaman, Cara Delevingne, Ike Barinholtz, Scott Eastwood, David Harbour, Jai Courtney, Robin Atkin Downes, Jim Parrack
Suicide Squad, EUA, 2016, Aventura, 123 minutos
Sinopse: Após a aparição do Superman, a agente Amanda Waller (Viola Davis) está convencida que o governo americano precisa ter sua própria equipe de metahumanos, para combater possíveis ameaças. Para tanto ela cria o projeto do Esquadrão Suicida, onde perigosos vilões encarcerados são obrigados a executar missões a mando do governo. Caso sejam bem-sucedidos, eles têm suas penas abreviadas em 10 anos. Caso contrário, simplesmente morrem. O grupo é autorizado pelo governo após o súbito ataque de Magia (Cara Delevingne), uma das “convocadas” por Amanda, que se volta contra ela. Desta forma, Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), El Diablo (Jay Hernandez) e Amarra (Adam Beach) são convocados para a missão. Paralelamente, o Coringa (Jared Leto) aproveita a oportunidade para tentar resgatar o amor de sua vida: Arlequina. (Adoro Cinema)

Uma confissão importante: tenho problemas em organizar ideias quando escrevo sobre filmes que me despertam emoções extremas, para o bem ou para o mal. É um desafio deixar o lado passional de lado e sistematizar racionalmente o que deu certo ou errado em determinada obra para justificar minha opinião. Digo isso porque encontrei novamente essa árdua tarefa ao conferir Esquadrão Suicida, que vem faturando altas cifras mesmo com uma catastrófica recepção da crítica. As análises depreciativas estão cobertas de razão, pois é realmente um choque ver um filme de “super-herois” tão mal realizado quanto esse. Para quem gosta de definições simplistas, basta dizer que Esquadrão Suicida está na mesma gaveta de desastres que há muito já pareciam impossíveis, como Demolidor e até mesmo Mulher-Gato.
Uma breve pesquisa na internet é o suficiente para que inclusive os leigos percebam o quanto Esquadrão Suicida foi mutilado pelo tempo. Reza a lenda que o projeto começou com uma ideia muito mais dark antes de se tornar uma meleca colorida que lembra apenas os programas infantis da Nickelodeon. Imaginem que interessante um filme sobre anti-herois com suas contradições e reflexões! A tese funciona (Detona Ralph fez um lindo trabalho ao concentrar toda sua história em um rejeitado “vilão”), mas Esquadrão Suicida não esperava encontrar o sucesso repentino do humor de Deadpool ou a aversão à falta de maior senso de entretenimento de Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. Na pós-produção, o estúdio tentou maquiar o produto final para tentar se encaixar às respostas do público. Deu tudo errado, e a aventura que chega aos cinemas é ineficiente no humor e no espírito de mera adaptação caça-níqueis.
A desconstrução comercial da personalidade do projeto tem sido usada como justificativa para Esquadrão Suicida ser tão ruim. Ora, estão pegando muito leve, pois ela é dos males o menor. Mesmo em sua essência, o filme de David Ayer é um completo caos repleto de amadorismos. São transcorridos poucos minutos e a trama já mostra sua capacidade narrativa rasteira e preguiçosa: extremamente explicativa, a apresentação dos personagens narra o passado de cada um deles com uma preguiça assustadora. Ao colocar na tela um vilão por vez com suas histórias e razões para terem chegado a um universo de crimes e rupturas de caráter, Esquadrão Suicida repete uma espécie de passo a passo inventado por alguém que nunca soube lidar com dois personagens ou mais em cena. Como se não bastasse isso, também é necessário que uma protagonista esteja na mesa de um jantar narrando justamente cada uma dessas histórias para outros personagens. Quanta criatividade!
Desde o início já falta tom interessante, costura inteligente, ritmo bem dosado e personalidade ao que é mostrado em Esquadrão Suicida. São no mínimo desleixadas as tentativas de Ayer de tornar seu filme um produto pop, começando pela infinita lista de clássicas canções utilizadas para imprimir uma alma cool ao filme (ninguém precisa mais, por exemplo, ouvir Sympathy for the Devil em 2016 de forma tão gratuita). Isso certamente nos remonta à ideia de que tentaram maquiar Esquadrão Suicida na pós-produção para que ele se tornasse algo mais popular. Coloco minha mão no fogo pela ideia de que essa e outras tantas músicas não estavam no esboço original do projeto. Ademais, é primário o erro da aventura de se utilizar tanto de computação gráfica (já faz anos que os bons filmes desse “gênero” deixaram de parecer um videogame) para criar uma antagonista que deseja… dominar o mundo! Sério mesmo? Em que anos estamos?
Parado no tempo, Esquadrão Suicida poderia, então, pelo menos compensar na ação, certo? Errado. Em cada cena de adrenalina, o diretor abusa de milhões de clichês como as balas caindo em slow motion de uma metralhadora ou vidros se estilhaçando de forma supostamente elegante. Tem muitos tiros e pancadaria, é verdade, mas não dá para se encontrar muito ali: é de se duvidar que alguém tenha entendido bem quem faz o quê em cada cena de ação, onde determinado personagem pulou ou qual tiro acertou quem. Não há apuro geográfico na forma como a câmera do diretor se movimenta na ação. Agora, uma coisa é certa: é questão de poucos minutos até Arlequina (Margot Robbie) fazer uma piada ou estourar uma bolinha de chiclete mesmo quando o circo está pegando fogo – e isso nos leva a mais um problema gravíssimo de um filme cuja lista de defeitos parece não ter fim.
Nada mais trágico em um longa da natureza de Esquadrão Suicida do que você não se interessar pelos personagens em cena. E já começo falando da Arlequina de Margot Robbie porque ela está sendo defendida, na realidade, por ser apenas um alento em um casting de personagens apáticos – e isso é realmente muito pouco para chamá-la de destaque. Para ser bem justo, dá sim para dizer que Robbie tem um apurado timing cômico. Entretanto, sua Arlequina é tão mal escrita que fica difícil ter boa vontade. Indo além: ela serve apenas para fazer graça a partir de uma loucura muito mal explicada e literalmente parar um exército ao ostentar seu corpo esbelto em um micro short. Não dá mais para amenizar objetificação da mulher hoje em dia, inclusive porque Esquadrão Suicida se esmera ainda mais (no mau sentido) ao fazer com que Arlequina represente o estereótipo de mau gosto da figura feminina que vive apenas para reencontrar seu homem e que só falta usar um colar que mais parece uma coleira com o apelido do amado que comanda cada passo de sua vida. Só que… ei, espera, ela usa!
Por falar em amado, que homem mais horroroso! Jared Leto é sonolento com a interpretação repetitiva de um Coringa sem propósito, personalidade e função. Nesse casso, a culpa é tanto do ator, que se preocupou mais em vender sua caracterização na mídia do que em de fato fazer um trabalho decente, quanto do diretor, que não dá qualquer dimensão à nova construção desse personagem que certamente faz Heath Leder se revirar no caixão e até Jack Nicholson respirar aliviado. De resto, dá pena ver Viola Davis no meio de tantas figuras irritantes e esquecíveis, inclusive porque ela própria só causa indiferença em Esquadrão Suicida. Rejeito comentários tão definitivos, mas não há nada que se salve nesse desastre. Não importa o quanto alguém tente lhe preparar: tudo é pior do que se pode imaginar. Dessa forma, o longa de David Ayer virou um filme-evento por ser tão ruim. Todos querem tirar a prova para ver se algo pode mesmo ser tão absurdo. As pessoas têm razão em ir ao cinema apesar das advertências. Só mesmo vendo para acreditar.
Talvez Deserto, Talvez Universo

Direção: Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes
Roteiro: Miguel Seabra Lopes
Elenco: Documentário
Brasil/Portugal, 2016, Documentário, 97 minutos
Sinopse: A Unidade de Internamento de Psiquiatria Forense é uma estrutura de regime fechado, de segurança média, com vertente reabilitadora. Presta acompanhamento psiquiátrico, psicológico, médico, terapêutico e social. Os homens que a habitam foram considerados inimputáveis pelo tribunal. Sentem o tempo passar, lento. É neste tempo individual que o filme se instala.

A imobilidade da câmera do diretor Miguel Seabra Lopes sugere muito mais do que a mera observação dos pacientes da Unidade de Internamento de Psiquiatria Forense do hospital psiquiátrico Julio de Matos. Na verdade, essa estática está diretamente ligada ao que (não) acontece dentro de cada um dos personagens. Isso porque, dentro da Unidade, o tempo é outro, a vida parece imóvel e não há nada a ser feito em um cotidiano cujo senso de dimensão é castrado por centenas de remédios diários. Partindo dessa claustrofóbica e angustiante condição, o documentário Talvez Deserto, Talvez Universo, também assinado por Karen Akerman na direção, instiga ao mesmo tempo em que incomoda, engrandecendo-se ao capturar inteligentemente uma situação complicadíssima sem qualquer artifício ou conceito que flerte com a obviedade.
Quando se fala na imobilidade da câmera exclusiva de Lopes, é bom elucidar: por se tratar de uma instituição destinada apenas a homens, a também diretora Karen Akerman, que tem carreira consolidada como montadora (ela assinou esse segmento do excepcional O Lobo Atrás da Porta), foi proibida de entrar no local, trabalhando, dessa forma, com o recebimento dos materiais de Lopes para, a partir daí, com sua visão de montadora, começar a dar os contornos de Talvez Deserto, Talvez Universo. Felizmente, não há, na tela, qualquer resquício de limitação imposta por essas condições: além do documentário ter personalidade muito bem definida, todos os conceitos traçados pela dupla são consistentes, desde o ritmo propositalmente lento para casar com o cotidiano de seus documentados ao próprio preto e branco que descolore ainda mais um mundo já acromático por si só.
Desviando-se da forma clássica do gênero, o documentário se preocupa apenas em observar o dia a dia do local, julgando certeiramente, assim como o recente Fogo no Mar, que o simples registro sem maiores interferências é o suficiente para garantir impacto dramático. Mesmo quando coloca determinado personagem frente à câmera para contar histórias particulares, Talvez Deserto, Talvez Universo se entrega por completo a quem fala e reproduz, basicamente na íntegra e sem cortes, os relatos precisamente escolhidos. O espaço para que cada um se expresse é livre, ao passo que, ao contrário do que se poderia imaginar, a loucura dos pacientes não descamba para a incoerência de discurso. Existe muito a ser contado sobre as mais variadas histórias de vida de personagens dramáticos, divertidos ou que simplesmente tomam como missão de vida conseguir um mero cigarro.
Vencedor do Prêmio Olhares Brasil de melhor longa-metragem na quinta edição do festival Olhar de Cinema, onde fez sua estreia no Brasil, Talvez Deserto, Talvez Universo é contado rodo a partir do olhar dos próprios pacientes e pouco se vê sobre o mundo exterior ou até mesmo sobre as pessoas que trabalham no hospital. A decisão é sábia porque nos sentimos tão parte daquele cotidiano quanto os próprios personagens, mas também porque engrandece a proposta assumida da dupla diretora de fazer um documentário não de denúncia, e sim de questionamento sobre o tipo de psiquiatria que já se promove há muito tempo. Afinal, o que mais instiga no filme é a sua ideia de falar sobre pessoas que, como a própria Akerman define, não deixam de estar mortas, pois vivem mesmo uma espécie de vida adormecida.
Mãe Só Há Uma
É Pierre, porra!

Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Naomi Nero, Dani Nefussi, Matheus Nachtergaele, Luciana Paes, Helena Albergaria, Lais Dias, Daniel Botelho, Luciano Bortoluzzi, June Dantas, Renan Tenca, Douglas Luckiys, Ulisses Sakurai
Brasil, 2016, Drama, 82 minutos
Sinopse: Pierre descobre que sua família não é biológica quando a polícia prende sua mãe. Confuso, ele vai atrás de seus parentes verdadeiros, que o conhecem como Felipe, e a nova realidade faz com que o rapaz encontre finalmente sua real identidade. (Adoro Cinema)

A diretora e roteirista Anna Muylaert preferiu trabalhar em menor escala após o sucesso mundial de Que Horas Ela Volta?. Claro que fazer Mãe Só Há Uma com orçamento mais modesto, elenco praticamente desconhecido e divulgação discreta foram também maneiras da realizadora se desvencilhar de expectativas inevitavelmente altas acerca do que ela realizaria após a impecável narrativa do filme estrelado por Regina Casé e Camila Márdila. No entanto, Muylaert diz que existe um outro propósito por trás das circunstâncias mínimas: o de realizar uma história mais autoral sem ser vítima de eventuais amarras, sejam elas de qualquer natureza. De fato, Mãe Só Há Uma, que adapta livremente o verídico caso Pedrinho, de 2002, toca em questões mais sensíveis ao grande público, mas todas as boas ideias e as importantes discussões propostas pela diretora são limitadas por um filme abrupto cuja história não dá fluidez à criatividade de uma contadora de histórias sempre atenta aos temas mais pertinentes da nossa contemporaneidade.
Filmes com metragem mais enxuta automaticamente propõem a seus diretores e roteiristas um árduo desafio: o de apresentar, de forma objetiva mas igualmente envolvente, toda a essência de uma história em um espaço de tempo, claro, consideravelmente menor. Fácil é expandir um universo ao longo de duas horas, difícil é dizer somente o necessário dele em 80 minutos. Infelizmente, Anna Muylaert tropeça nessa jornada com Mãe Só Há Uma, longa que esquece de aprofundar pontos importantes de sua trama enquanto perde tempo com outros inegavelmente dispensáveis. Por que, por exemplo, querer fazer tanta graça com os amores juvenis do pequeno Joca (Daniel Botelho) ao invés de de dar mais caldo aos efeitos emocionais que as revelações envolvendo Aracy (Dani Nefussi) causam nos seus filhos? Além da personagem ser plenamente esquecida, nunca sabemos de que forma a desconstrução de sua figura atinge efetivamente Pierre (Naomi Nero, excelente), citando alguns dos prejuízos que o malabarismo atrapalhado entre profundidade e curta duração traz ao resultado.
Se existe algo que permanece intacto na transição de Que Horas Ela Volta? para Mãe Só Há Uma são as leituras críticas de Anna Muylaert aos preconceitos (expostos ou não) da nossa sociedade, com ênfase naqueles tão enraizados em boa parte das pessoas de classe alta. Dessa vez, a realizadora paulista surpreende ao compreender muito bem as expressões de uma geração cada vez mais livre na busca de sua própria identidade. Nesse ponto, o filme só ganha ao não trazer qualquer rótulo para o protagonista, que, ao mesmo tempo em que pinta as unhas e gosta de vestidos, também transa com meninas e aqui ou ali experimenta um beijo com garotos. Quando Muylaert coloca esse jovem tão autêntico em sua efervescência de experimentações com a nova família rica e tradicional, Mãe Só Há Uma expõe todos os preconceitos que muitos insistem em dizer que não têm, mas que simplesmente não conseguem esconder quando o filho homem não gosta de futebol ou não quer vestir as camisas certinhas de gola polo que os pais querem colocar na composição de seu figurino. Novamente, a diretora provoca ao tornar a sessão uma experiência incômoda para uma certa parcela do público que é obrigada a se ver na tela com todas as suas infundadas intolerâncias.
Ao mesmo tempo em que essa encenação crítica é um aspecto fortíssimo do longa, também não deixa de ser estranho como ela de certa forma limita a dramaticidade de toda a história: basicamente, o único conflito de Pierre ao ter que conviver com a nova família é ter dificuldades em fazer com que suas expressões sejam aceitas, quando, na realidade, deveria ser muito mais sobre sair de um lar destruído para outro que desconhece. A unilateralidade dos novos pais também não deixa de incomodar, visto que, apesar do bom trabalho de Matheus Nachtergaele e Dani Nefussi, eles são figuras insensíveis ao momento do filho recém descoberto, tratando-o meramente como um garoto que precisa ser urgente e literalmente doutrinado conforme suas regras. Da busca por um novo modelo de vida aos anseios de uma adolescência hoje cada vez mais livre, o filme é rico na pluralidade e na importância de seus temas, mas a falta de convergência dos assuntos e de uma história que realmente vá para algum lugar impede que a sessão tenha uma riqueza narrativa maior. Na verdade, Mãe Só Há Uma soa como um ensaio relevante e obviamente incômodo pela situação que encena, mas incompleto e apressado na carreira de Muylaert, quando, na verdade, era digno de, no mínimo, ter a mesma costura sofisticada de ideias de Que Horas Ela Volta?.
Florence: Quem é Essa Mulher?
But I fought. And I fought. And I fought… And I’m still here!

Direção: Stephen Frears
Roteiro: Nicholas Martin
Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson, Nina Arianda, John Kavanagh, David Haig, Christian McKay, Josh O’Connor, Elliot Levey, John Sessions, Mark Arnold, Jorge Leon Martinez
Florence Foster Jenkins, Reino Unido, 2016, Comédia/Drama, 100 minutos
Sinopse: Florence Foster Jenkins (Meryl Streep) é uma rica herdeira que persegue obsessivamente uma carreira de cantora de ópera. Aos seus ouvidos, sua voz é linda, mas para todos os outros é absurdamente horrível. O ator St. Clair Bayfield (Hugh Grant), seu companheiro, tenta protegê-la de todas as formas da dura verdade, mas um concerto público coloca toda a farsa em risco. (Adoro Cinema)

Toda atriz que se preze deveria ter como meta conseguir cair nas graças do britânico Stephen Frears. As parcerias firmadas pelo diretor já corroboram por si só essa afirmação (Glenn Close foi superlativa em Ligações Perigosas, Helen Mirren encontrou o papel mais emblemático de sua carreira em A Rainha e Judi Dench fez mil maravilhas com os papeis-título de Senhora Henderson Apresenta e Philomena), mas um rápida retrospectiva já evidencia a maior beleza de sua carreira como contador de histórias: a de procurar grandeza em relatos aparentemente pequenos, sempre com delicadeza, discrição e humanidade. Não é diferente com Florence: Quem é Essa Mulher?, onde Frears se inspira ao unir forças com Meryl Streep (novamente uma grande atriz, algo que parece motivá-lo) para encontrar tudo o que não é óbvio nas íntimas particularidades de uma personagem que tinha tudo para cair no ridículo.
Florence Foster Jenkins (Meryl Streep) era uma socialite de bolsos cheios: bancava o cenário musical de clubes em Nova York ao mesmo tempo que também sustentava todas as regalias de um devotado marido. Instantaneamente, isso já aponta para a fácil ideia de que esse tão importante dinheiro justifica o fato de meio mundo aguentar as notas operísticas, desafinadas e histéricas dessa mulher apaixonada por música, mas desprovida de bom senso para perceber que o que lhe faltava era justamente talento vocal. Entretanto, Frears, em parceria com o estreante roteirista de longas Nicholas Martin, não segue esse caminho e busca, na realidade, saídas muito tocantes para construir a história. O britânico trata Florence de forma digna na medida em que faz com que o espectador se preocupe tanto com ela quanto os personagens que não lhe dizem a verdade. Isso porque, no fundo, invejamos algo ali: seria a sua capacidade de propositalmente se esconder do cinismo e das dores da vida em sonhos? Ou, então, a sua autenticidade de fazer o que bem entende enquanto muitos de nós reprimimos tantas de nossas expressões com medo do ridículo? Você decide.
Meryl Streep, obviamente, é cirúrgica ao conduzir a personagem, lembrando, sem nunca se repetir, a bem humorada e divertida Julia Child, também uma desajustada apoiada por uma marido incondicional que compreende por completo as frustrações de sua esposa com o destino (enquanto em Julie & Julia fica implícito que a protagonista sofria por não poder ter filhos, em Florence: Quem é Essa Mulher? são verbalizados, não de forma menos eficiente, os fatos de Jenkins ter sido obrigada a abandonar a carreira de pianista por causa de um acidente e de ter contraído sífilis de seu primeiro e agora falecido marido). De roupas largas e com enchimentos para reproduzir o típico físico da mulher que retrata, Meryl alcança as notas certas procurando as erradas e ainda é beneficiada por um parceiro de cena que não lhe deve absolutamente nada: Hugh Grant, que vinha desacelerando a carreira rumo a uma assumida ideia de aposentadoria e repensou a situação após o convite para trabalhar com a atriz. E fez bem, pois tem aqui um de seus melhores momentos, saindo-se acertadamente engraçado nas estripulias de seu St. Clair e devidamente tocante como um sujeito que, independente das definições de estados civis, nutria imenso carinho e respeito por Florence.
Ao encontrar um espirituoso equilíbrio entre o drama e a comédia (nas risadas, também merece nota o divertido trabalho de Simon Helberg como um alívio cômico à moda antiga, seguindo a própria proposta do filme), Florence: Quem é Essa Mulher? vai de sequências realmente completas no humor (o primeiro ensaio da protagonista junto ao piano) a outros até mesmo emocionantes (a cena em que Florence se imagina cantando perfeitamente é bela, especialmente porque a voz de Meryl, que começou sua carreira artística estudando ópera, contribui demais para o resultado). É com a elegância de uma boa reconstituição de época e com o respeito de um diretor que compreende que esse é um relato não sobre o quão especiais são os nossos talentos, mas sim sobre o quão alto sonhamos que Florence: Quem é Essa Mulher? se torna mais um filme minimamente grande da carreira de Stephen Frears. Como fã – tanto dele, de Meryl e do estilo -, só tenho a comemorar.