Cinema e Argumento

Procurando Dory

You are lucky. No memories, no problems.

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Direção: Andrew Stanton e Angus MacLane

Roteiro: Andrew Stanton e Victoria Strouse, com colaboração de Angus MacLane e Bob Peterson, baseado em história de Andrew Stanton

Elenco (vozes originais): Ellen DeGeneres,  Albert Brooks, Ed O’Neill, Hayden Rolence,  Kaitlin Olson, Diane Keaton, Ty Burrell, Eugene Levy, Idris Elba, Dominic West, Sigourney Weaver,  Willem Dafoe,  Allison Janney

Sinopse: Um ano após ajudar Marlin (Albert Brooks) a reencontrar seu filho Nemo, Dory (Ellen DeGeneres) tem um insight e lembra de sua amada família. Com saudades, ela decide fazer de tudo para reencontrá-los e na desenfreada busca esbarra com amigos do passado e vai parar nas perigosas mãos de humanos. (Adoro Cinema)

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Desde que a Disney comprou a Pixar em janeiro de 2006 por uma cifra bilionária, é perceptível que a primeira tem tido prioridade não apenas nos projetos que envolvem os dois estúdios, mas também na criação das histórias que são ou um dia foram da segunda. Mercadologicamente, claro, é muito justo. Artisticamente, nem tanto. Enquanto são anunciadas cada vez mais continuações de obras emblemáticas da Pixar (e confesso que morro de medo de que, daqui a pouco, acrescentem à lista filmes como RatatouilleWALL-E), a dupla de selos parece ter parado para refletir: recentemente, Jim Morris, presidente da Pixar, anunciou que o estúdio lançará apenas obras originais a partir de 2019. É um excelente sinal, principalmente agora que Procurando Dory ganha as telas dos cinemas quebrando recordes e mais recordes de bilheteria. Excelente porque a continuação de Procurando Nemo, de 2001, pode até ser divertidíssima e um excelente passatempo recheado de mensagens importantes, mas, no todo, não se configura necessariamente como uma continuação: ao invés de expandir o universo dos carismáticos protagonistas, o filme apenas reproduz, com certa comodidade, toda a estrutura narrativa do longa anterior. Por outro lado, a história parece se cercar muito bem de elementos certeiros para não deixar transparecer tal fragilidade.

Racionalmente avaliado, Procurando Dory, assinado pela dupla Andrew Stanton e Angus MacLane (existe alguma explicação para animações serem cada vez mais assinadas por duplas ou até trios?), não apresenta quase nada inédito às águas de Nemo, Marlin e da esquecida Dory. Voltamos a acompanhar os personagens em uma longa cruzada pelo oceano e as infinitas engenhosidades que precisam ser pensadas quando alguns deles novamente são capturados para um aquário (dessa vez em proporções bem maiores do que no primeiro longa). A carta na manga de Procurando Dory que compensa essa certa preguiça do roteiro é a nostalgia para o público mais adulto de reencontrar um universo que marcou tantas infâncias no início dos anos 2000, enquanto a nova geração mergulha pela primeira vez na proposta da animação com o mesmo senso de humor do filme original. Não há dúvidas: a sequência conversa tanto com adultos quanto crianças porque sua diversão não está no humor pelo humor, mas sim em uma rica gama de personagens criativos, genuínos e inseridos em um espaço que instiga visualmente.  

O alto nível de dubladores da versão original (Ellen DeGeneres! Albert Brooks! Sigourney Weaver! Diane Keaton! Willem Dafoe!) comprova o quanto Nemo e sua turma continuam com prestígio depois de tanto tempo. É bom ver uma legião de astros emprestando seus nomes a uma trama de grande importância aos pequenos – e também aos adultos, por que não? Basta olhar um pouquinho além dos grandes mergulhos e das situações inegavelmente cômicas para perceber que Procurando Dory é um filme sobre minorias. O assunto se torna especialmente latente nessa continuação a partir do momento em que a condição da peixinha Dory, que sofre de perda da memória recente, vira alvo da impaciência e da irritabilidade até do amigo Merlin, que, no longa anterior, só encontrou o filho graças à ajuda dela. Ao longo da animação, a protagonista tem suas capacidades questionadas, o que imediatamente faz com que sua jornada em busca dos pais se revele uma bela homenagem à filosofia de que não devemos dar ouvidos a quem nos desmotiva. Só devemos continuar a nadar!

Maior estreia de uma animação no Brasil, Procurando Dory tem outro mérito importante: o de não tornar a condição de sua protagonista estritamente um empecilho. Seria fácil tornar o desenrolar da trama e até mesmo o humor repetitivos com a função de Dory, a cada cinco minutos, esquecer o que estava fazendo. Por sorte e talento dos roteiristas, não é isso o que acontece, uma vez que o esquecimento da peixinha, em certo ponto, é até mesmo invejado por um mal humorado polvo que ela encontra no caminho. “Você tem sorte. Sem memórias, sem problemas!”, diz o não tão temido animal aquático. Ao se atentar para essas delicadezas e fugir do lugar-comum para não cair na obviedade, Procurando Dory consegue disfarçar muito bem a total falta de inovação na estrutura de seu roteiro – e se não fosse por esse detalhe, estaríamos diante de um filme tão grande quanto o original.

Julieta

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Direção: Pedro Almodóvar

Roteiro: Pedro Almodóvar, baseado em contos de Alice Munro

Elenco: Adriana Ugarte, Emma Suárez, Inma Cuesta, Michelle Jenner, Daniel Grao, Darío Grandinetti, Rossy de Palma, Nathalie Poza, Mariam Bachir, Susi Sánchez,  Bimba Bosé, Agustín Almodóvar, Priscilla Delgado

Espanha, 2016, Drama, 99 minutos

Sinopse: Julieta (Emma Suárez/Adriana Ugarte) é uma mulher de meia idade que está prestes a se mudar de Madri para Portugal, para acompanhar seu namorado Lorenzo (Dario Grandinetti). Entretanto, um encontro fortuito na rua com Beatriz (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha Antía (Blanca Parés), faz com que Julieta repentinamente desista da mudança. Ela resolve se mudar para o antigo prédio em que vivia, também em Madri, e lá começa a escrever uma carta para a filha relembrando o passado entre as duas. (Adoro Cinema)

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A canadense Alice Munro fez história quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2013. Era a primeira vez que a honraria sueca se destinava, entre homens e mulheres, a um nome dedicado a fazer carreira a partir da produção de contos. Considerada uma das grandes vozes femininas da literatura contemporânea, a escritora tem como uma das marcas de sua obra o protagonismo de mulheres em histórias de amor e tragédia criadas a partir de eventos cotidianos (para principiantes, deixo como dica o livro Felicidade Demais, lançado em 2009). Imaginem, então, a comoção de saber que Pedro Almodóvar, o cineasta espanhol consagrado mundialmente por captar em seus filmes as alegrias e as mazelas da alma feminina, levaria às telas o universo da canadense com Julieta. Era o casamento perfeito, especialmente para ele, que vinha de um completo desastre (Os Amantes Passageiros) para retomar sua relação com o cinema feminino depois de exatos dez anos (Volver, de 2006, foi a última obra legitimamente Almodóvar assinada por ele nesse sentido). Entretanto, falta consistência a essa união aparentemente infalível, e é não muito difícil constatar o desvio: apesar de gêmeos tematicamente, a escritora e o espanhol têm pouco em comum no que se refere à forma, o que faz de Julieta uma experiência deveras decepcionante.

Ao contrário do que já foi dito, Almodóvar não parece ter perdido a mão. Com seu novo filme, é apenas vítima de uma incompatibilidade que ele próprio parece não ter percebido. Quando se pensa na carreira do cineasta, imediatamente vem à cabeça os deliciosos melodramas, as flores avermelhadas de Volver, a trilha acentuada de Má Educação, as histrionices de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos e as tragédias do passado e do presente de Fale Com Ela ou Tudo Sobre Minha Mãe. É uma pegada totalmente oposta ao que Alice Munro realiza em seus contos tão repletos de delicadezas e introspecção. Uma prova da necessidade dessa abordagem é a transposição que Sarah Polley fez do conto The Bear Came Over the Mountain para o cinema com o delicadíssimo Longe Dela, longa que, por entender a carreira de Munro, torna emocionante uma história aparentemente banal de um casamento abalado pelo Mal de Alzheimer. Já em Julieta, texto e direção estão fora sintonia: se a história é sobre uma mulher que descortina o passado para explicar o presente onde sua filha agora está ausente, Almodóvar, com a insistente trilha do grande Alberto Iglesias, por exemplo, dá um tom quase policialesco ao filme, sugerindo que revelações engenhosas, crimes ou tragédias surpreendentes estão prestes a acontecer. Só que o diretor não percebe que não estamos em A Pele Que Habito (um filme excepcional, diga-se de passagem) e que Munro nunca sobe o tom nem mesmo para falar de fatalidades. Com ela, a fervura é sempre baixa.

Desregulado nesse sentido, Julieta conta uma história que deveria se entregar à lógica de que menos é mais e não ao acampamento estético e sensorial que arma plano a plano. É curiosa a sensação que o filme traz porque o diretor é plenamente consciente dos elementos que lhe consagraram (e sabe, claro, utilizá-los muito bem), mas essa tomada de consciência o impede de ver as verdadeiras necessidades dessa adaptação que une três contos específicos da autora (Ocasião, Daqui a Pouco e Silêncio, da coletânea Fugitiva, de 2004). Não temos, em Julieta, qualquer reviravolta inesperada, e isso frustra porque o diretor nos induz ao aposto. Com isso, o filme se prolonga em uma história por vezes atropelada na passagem do tempo e problemática no ritmo ao nunca nos entregar o que seu diretor e roteirista tanto sugere, culminando em um final completamente abrupto.

Com tanta exploração sensorial, Almodóvar esquece de dar sentido a pontos fundamentais da história que nunca ganham explicações plausíveis, uma vez que o roteiro nunca convence o espectador dos motivos que fazem a protagonista ter vergonha de seu passado a ponto de escondê-lo a sete chaves nem explora com o devido aprofundamento o real significado dessa culpa pesada que a personagem carrega. Em Julieta, prevalecem as escolhas do diretor de dramatizar em sons e cores o que, na realidade, está nas pequenas coisas. Se a experiência ganha pontos dramáticos mais dignos de nota, isso acontece graças ao ótimo desempenho de Emma Suárez. Ela, que interpreta a protagonista na fase madura com a devida pose de uma mulher sofrida de Almodóvar, tem um tempo consideravelmente menor em cena e tira o melhor da tarefa ligeiramente ingrata de ficar apenas narrando fatos de sua vida em uma carta que sabe-se lá por que está sendo escrita, já que não revela praticamente nada que a sua destinatária já não saiba ou tenha vivido anos atrás.

Marcando o vigésimo longa-metragem do diretor, Julieta teve passagem muito tímida pela competição do Festival de Cannes deste ano e não chega aos cinemas trazendo a revolução da carreira de uma atriz como aconteceu com Penélope Cruz em Volver ou as resoluções polêmicas do suspense A Pele Que Habito. São contraditórios os sentimentos causados acerca da qualidade do novo longa de Almodóvar porque tudo parece estar em seu devido lugar. Enquanto o roteiro, em sua essência, trata de questões muito interessantes como a de uma filha que reconhece só entender a mãe após passar pelas mesmas dores que ela ou sobre como a culpa é capaz de se perpetuar mesmo para quem não deveria ter motivos para senti-la, o cineasta continua impecável ao pensar planos e composições visuais que salientam um universo feminino trágico mas sempre altivo em muitas particularidades. Julieta, contudo, não se eleva em função dessa estranha e quase imprevisível incompatibilidade entre dois artistas que, na teoria, tinham tudo para dar certo, mas que, na prática, se revelaram mais fortes separadamente. Apesar da falta de um importante tempero, a mistura vale por trazer um cineasta retomando uma fórmula de sucesso que havia deixado de lado há uma década. Que Julieta seja encarado, então, como apenas o ensaio de uma bela retomada. Sendo otimista dessa forma, dá para compensar um pouco a frustração.

Rapidamente: “Ave, César!”, “O Menino e o Mundo”, “Pelo Malo” e “Zootopia”

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Para fazer sessão dupla: assim como o ótimo Tomboy, da França, o venezuelano Pelo Malo retrata a infância sob à luz de gênero, sexualidade e expectativas acerca de expressões.

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, de Joel e Ethan Coen): A comédia é um terreno muito perigoso na carreira dos irmãos Coen. Ao longo dela, a dupla já assinou obras muito afiadas (O Amor Custa CaroQueime Depois de Ler e, claro, Fargo), mas também trabalhos bastante tediosos (Matadores de Velhinhas, Um Homem Sério), o que despertava certa curiosidade acerca de Ave, César!, filme que abriu o Festival de Berlim deste ano e que traz um elenco para ninguém botar defeito. De George Clooney (em sua quarta colaboração com os Coen) a Ralph Fiennes, a má notícia, no entanto, é que Ave, César! não passa de uma tremenda decepção, onde qualquer admiração maior por parte da crítica vem exclusivamente do fato do filme ser uma homenagem à era de ouro do cinema dos anos 1950. Excetuando o tributo à sétima arte e o inegável carisma dos atores (vale mencionar a cena musical com Channing Tatum, ator que vem, aos poucos, incrementando sua carreira), Ave, César! sofre do mesmo problema do recente Deadpool: referências de mais e história de menos. Em ambas as obras é possível sim se divertir, mas falta consistência e principalmente envolvimento. Os irmãos Coen entregam um filme bem produzido e beneficiado por ótimos intérpretes, só que vazio até mesmo para quem embarca aqui ou ali no humor dedicado aos bastidores do fazer cinematográfico.

O MENINO E O MUNDO (idem, 2013, de Alê Abreu): Primeira animação de língua portuguesa indicada ao Oscar de melhor animação, O Menino e o Mundo fez uma bela carreira no exterior. Além da merecida lembrança no prêmio da Academia, o filme de Alê Abreu se consagrou ao levar o prêmio Cristal e o troféu do público no festival de Annecy, realizado na França e um dos mais importantes do segmento de animação do mundo. É muito carinhoso o relato que o diretor faz sobre um garoto que viaja pelo mundo em busca do pai que foi embora de casa, transportando a ideia inicial do projeto de ser um documentário sobre a América Latina para o universo de uma animação extremamente criativa em detalhes e também na costura do visual com a própria narrativa. Muito próximo do que o Brasil realiza no gênero visualmente falando (para quem quiser fazer uma dobradinha, a dica é conferir Até Que a Sbórnia nos Separe, de Otto Guerra e Ennio Torresan Jr., que também concorreu no festival de Annecy no mesmo ano de O Menino e o Mundo), o resultado chega a ser tocante por sua delicada simplicidade. Abreu, que desenhou a próprio punho cada um dos desenhos da animação, não deixa de transparecer a vontade inicial do filme ser um documentário (quando o protagonista chega à metrópole, a pegada se torna outra, o que dá uma certa abalada no ritmo), mas os 80 minutos de metragem são sempre interessantes, seja pela narrativa ou pela estética – e isso é algo que boa parte das animações de orçamentos milionários sequer consegue alcançar.

PELO MALO (idem, 2013, de Mariana Rondón): Realizado quase paralelamente ao ótimo Tomboy, da França, o venezuelano Pelo Malo é outro drama muito necessário sobre a busca por uma identidade em plena infância. Enquanto em Tomboy acompanhávamos os dias de uma menina que se camuflava como menino em uma nova vizinhança, em Pelo Malo somos testemunhas da vida do pequeno Junior (Samuel Lange Zambrano), garoto de família humilde que sonha ter os cabelos lisos para reproduzir o visual de um famoso cantor. O que acontece é que a mãe não sabe lidar muito bem com a situação, acreditando que o filho, através dessa e de outras expressões, está colocando para fora a sua homossexualidade. Terceiro longa-metragem assinado por Mariana Rondón, Pelo Malo, assim como Tomboy, preza pelo naturalismo ao tratar com dignidade e delicadeza as confusões internas de uma criança que está começando a construir sua própria personalidade. Talvez o caso do filme venezuelano seja ainda mais complicado porque o protagonista tem a sua naturalidade podada por todos a sua volta – e até mesmo a avó, única figura que parece compreender (mesmo que com segundas intenções), os ímpetos do menino, tem uma relação extremamente conturbada com a família. Ainda assim, como vamos aos poucos descobrindo, Pelo Malo não é necessariamente sobre autodescoberta em relação à orientação sexual, mas sim em relação a qualquer identidade que vamos abraçar para a vida inteira, dos cabelos que queremos ter aos amigos que precisamos nos cercar. É inspirador vermos uma representatividade como essa registrada com grande sensibilidade no cinema. 

ZOOTOPIA – ESSA CIDADE É O BICHO (Zootopia, 2016, de Byron Howard, Jared Bush e Rich Moore): Seguindo no assunto diversidade, Zootopia é um belo exemplo de animação que ensina os pequenos a ter autenticidade desde sempre. Ao narrar a história de uma pequena e adorável coelhinha que tem o sonho de ir para a cidade grande e se tornar policial (profissão atribuída apenas a animais muito maiores e fortes, mas também menos espertos do que ela), a animação é belíssima ao envolver os pequenos nessa mensagem de que não devemos nunca nos acomodar com menos do que aquilo que queremos e precisamos ser. Até mesmo um discurso motivacional previsível ganha contornos emocionantes a partir dessa abordagem e, principalmente, da simpatia de nossa irresistível protagonista e também de seu agora-amigo raposo. Já a parte da trama em si não envolve tanto, mesmo com a admirável escolha de transformar Zootopia em um verdadeiro filme de investigação que envolve até corrupção política! Algo se perde na mistura e todo o recheio da história não é tão interessante quanto a cobertura. Talvez o problema seja o filme fazer mistério demais para chegar a revelações que não são particularmente consistentes, mas é fato que a animação fica no meio do caminho, caindo no velho defeito de ter uma ideia que renderia muito mais em um curta-metragem. 

Invocação do Mal 2

Does it feel like it’s coming from inside of you?

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Direção: James Wan

Roteiro: Carey Hayes, Chad Hayes, David Johnson e James Wan, baseado em história de Carey Hayes, Chad Hayes e James Wan

Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Madison Wolfe, Frances O’Connor, Franka Potente, Lauren Esposito, Benjamin Haigh, Patrick McAuley, Simon McBurney, Maria Doyle Kennedy, Simon Delaney

The Conjuring 2, EUA, 2016, Terror, 134 minutos

Sinopse: Sete anos após os eventos de Invocação do Mal (2013), Lorraine (Vera Farmiga) e Ed Warren (Patrick Wilson) desembarcam na Inglaterra para ajudar uma família atormentada por uma manifestação poltergeist na filha. A trama é baseada no caso Enfield Poltergeist, registrado no final da década de 1970. (Adoro Cinema)

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Quando estreou em 2013, Invocação do Mal fez merecido barulho entre os fãs (e leigos) de terror. Simples, mas extremamente eficaz ao utilizar competentemente as ferramentas básicas do gênero para causar medo (a porta que bate, o pássaro que derruba um copo, a janela que quebra), o longa, que faturou nove vezes mais do que o seu orçamento de 20 milhões de dólares ao redor do mundo, alcançava tal excelência pelo gabarito de seu diretor, o malaio James Wan, responsável por outro marco recente do terror: o primeiro Jogos Mortais. Entre o Invocação do Mal original e este segundo que chega agora aos cinemas cercado de expectativas e boas críticas, Wan engordou a poupança com o sucesso financeiro estrondoso de Velozes & Furiosos 7. Ele chegou a ser convocado para o oitavo, mas recusou a fortuna que, segundo ele, “mudaria uma vida” para voltar às origens e realizar Invocação do Mal 2. É bom ter James Wan de volta, por mais que, nessa sequência, ele mostre muito mais do que deveria.

O terror é sempre uma viagem muito pessoal porque cada um se amedronta com aquilo que mexe com imaginários particulares. Do lado de cá, sou adepto a tudo aquilo que está escondido e que nossa mente está disposta a criar. Dessa forma, ainda que o primeiro Invocação do Mal trate de um tema, digamos, expositivo (as famosas possessões por espíritos), Wan conseguia deixar boa parte do serviço para a nossa própria paranoia, camuflando aquilo que de fato está atormentando os personagens. Era isso que engrandecia a produção original e que, curiosamente, não é retomado à risca nessa continuação. Em Invocação do Mal 2, o diretor segue se esmerando em cenas perfeitamente climáticas e envolventes, enquanto, por outro lado, perde pontos ao tornar sua história muitos mais verbal, barulhenta e visual se comparada ao que realizou em 2013 e a tantos exemplares do gênero que acreditam que a elevação do tom é garantia de pavor da plateia. Um erro no mínimo amador para um profissional tão esperto.

O contexto de Invocação do Mal 2 é basicamente o mesmo do filme anterior (e, nessa comparação, podemos dizer que essa é uma obra de poucas inovações), trocando apenas o cenário: dessa vez, vamos para a Inglaterra dos anos 1970, onde somos apresentados ao famoso (e verídico) caso de possessão de Enfield Poltergeist. O clima britânico ajuda bastante, uma vez que, das locações ao sotaque dos novos atores, tudo parece mais real ao nos distanciarmos do cinema estadunidense que tanto explora o terror. Claro que Patrick Wilson e Vera Farmiga continuam em cena (aliás, ela, que se especializou em conviver com o suspense e o bizarro na série Bates Motel, é particularmente eficiente), mas a sequência se torna mais realista ao fazer essa troca de ares. Invocação do Mal 2 ainda potencializa seu tino para o suspense ao colocar na tela um design de produção minucioso que as moradias europeias com uma leitura profundamente soturna e as cores sempre gélidas e nada aconchegantes da fotografia assinada pelo experiente Don Burgess (Forrest Gump – O Contador de HistóriasNáufrago, o primeiro Homem-Aranha de Sam Raimi) que casam perfeitamente com todas as outras ferramentas devidamente alinhadas por James Wan.

A ruptura que acontece rumo à excelência total está em um detalhe aparentemente corriqueiro, mas decisivo para Invocação do Mal 2 – e ele é, como já citado nesse texto, o tom mais elevado empregado aqui. Logo na ótima sequência de abertura já é possível constatar que James Wan decidiu ser mais expositivo, e a sensação só é reforçada dali em diante: ao longo de suas extensas duas horas de duração, o filme não hesita ao materializar na tela medos que deveriam ser desenhados pela nossa imaginação, como a construção de figuras digitais para nos assombrar (algo que destruiu o péssimo Mama, por exemplo). Isso acaba se refletindo na própria estrutura, que, já um tanto repetitiva ao mostrar constantemente uma noite repleta de acontecimentos estranhos na casa da família, se dilui ao mostrar, por exemplo, um boneco gigante feito em computador arrastando uma criança com um guarda-chuva. Na raiz desse gênero tão pessoal, Invocação do Mal 2 faz uma escolha comercial assumidamente óbvia (afinal, o grande público prefere a grandiloquência à discrição) e que pode ser bastante decisiva para espectadores como eu, que se distanciam do terror justamente pela previsibilidade e falta de identificação. James Wan continua grande como artista do medo em muitos aspectos. No entanto, é de se pensar que, criativamente, continuações possam amortecer sua visão artística.

Rapidamente: “Mommy”, “Tirando o Atraso” e “Wood & Stock”

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Anne Dorval brilha como a protagonista de Mommy, um dos filmes mais expressivos da carreira do canadense Xavier Dolan

MOMMY (idem, 2014, de Xavier Dolan): Tive um longo hiato com o cinema de Xavier Dolan até chegar a esse Mommy, drama de 2014 estrelado por uma magnífica Anne Dorval. O distanciamento foi proposital porque considero Eu Matei Minha Mãe, de 2009, um filme superestimadíssimo e frequentemente afetado, o que me levou a fugir da superexposição alcançada pelo cineasta posteriormente com obras com Laurence AnywaysAmores Imaginários. Não sei se o tempo fez realmente bem ao jovem canadense, mas Mommy é mesmo um filme mais comedido e regulado em seus exageros de tom e narrativa. É importante Dolan ter deixado o narcisismo de lado ao eventualmente abrir mão de protagonizar os próprios filmes porque, com isso, ele dá espaço para pensar mais como diretor e menos como um ator imaturo (e nada extraordinário) que procura apenas se fetichizar frente às câmeras como um símbolo jovem e gay do cinema “alternativo” falado em francês. Ao evoluir nesse sentido, ele dá chances para Anne Dorval, por exemplo, criar uma figura completa: envolvente como uma mãe linda, jovem e desbocada que nunca cai na caricatura, ela também de certa forma nos testa com suas irresponsabilidades maternas e sua negação frente aos problemas do filho. O elenco todo é muito bom (a vizinha vivida por Suzanne Clément é digna de nota), a trilha sonora se revela esperta e agridoce (o encerramento com Born to Die, da Lana Del Rey, é bastante simbólico) e o filme nunca chega a ser frágil ou superficial em suas análises dramáticas. Dolan ainda precisa regular o excesso de gritaria em discussões e outros maneirismos quando coloca seus personagens em colisão (algo que acontece com bastante frequência), mas, se continuar no ritmo de Mommy, talvez eu venha mesmo a fazer as pazes com ele.

TIRANDO O ATRASO (Dirty Grandpa, 2016, de Dan Mazer): Humor é algo sempre muito particular, e por isso é tão difícil fazer comédias, mas há um limite para tudo, como esse Tirando o Atraso, que chega a encenar uma piada sobre pedofilia ao sugerir que um Zac Efron praticamente nu estaria forçando uma criança a lhe fazer sexo oral no meio de uma praia. É realmente de um mau gosto tremendo e um caso específico de fundo do poço para seus dois protagonistas. Primeiro para Efron, que já chegou a ter desenvoltura e aptidão em comédias e musicais como 17 Outra VezHairspray – Em Busca da Fama, além de chances importantes como trabalhar com Richard Linklater (Eu e Orson Welles) e ter até filme exibido na competição de Cannes (o desfocado Obsessão, de Lee Daniels). Só que a sede por holofotes falou mais alto do que a ambição cinematográfica, e hoje Efron só parece preocupado em tirar a camisa em filmes desastrosos como esse Tirando o Atraso. Segundo para Robert De Niro, um grande ator que tem se submetido a situações constrangedoras para… pagar as contas? Não se engane: ao passo que nem a nudez constante de Efron surge verdadeira (basta navegar um pouco no Google para descobrir que ele usou dublês e CGI ao supostamente tirar a roupa), a experiência de De Niro como ator parece inexistente aqui, já que ele repete, cena após cena, as suas caretas tão imitadas por humoristas. Às vezes, a história de Tirando o Atraso até tem certo fôlego ao discutir de forma civilizada as incoerências de um jovem que já parece ter encerrado seus sonhos em comparação a um senhor cheio de vontade de fazer as loucuras que bem entende por aí, mas é questão de tempo até o roteiro desgraçar tudo ao lançar mais uma piada física repleta de vômito, nudez, drogas, sexo ou palavrões no pior estilo imaginável.

WOOD & STOCK: SEXO, ORÉGANO E ROCK’N’ROLL (idem, 2006, de Otto Guerra): O gaúcho Otto Guerra desfrutava um dos grandes momentos de sua carreira quando colocou Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll nas telas do cinema em 2006. Recém vindo de um grande sucesso na TV com a campanha O Amor é a Melhor Herança, para a RBS TV, ele adaptou a ácida obra do chargista paulista Angeli para esse longa que chegou a contar com a dublagem de ninguém menos do que a cantora Rita Lee. Por costurar charges isoladas, obviamente ficam lacunas de ritmo e interesse na história, que, apesar de condensada em apenas 81 minutos, chega a se desgastar um pouco em sua reta final. Porém, Otto Guerra tem um olho muito clínico para a escolha de tramas e personagens diferenciados. Foi assim no universo particular de Até Que a Sbórnia nos Separe, seu longa posterior baseado no universo do espetáculo gaúcho Tangos e Tragédias, e também com o próprio Wood & Stock, que encontra, no carisma de seus protagonistas, uma simetria que talvez falte ao filme em si em termos de narrativa. Todos curiosos e divertidos em seus extremos, os personagens carregam críticas bastante atuais, como as de Rê Bordosa, que, recém saída de uma clínica de reabilitação, frequentemente questiona o que é esperado de uma mulher na sociedade. Pode até ser que Wood & Stock não seja uma grande animação, mas personalidade ela tem de sobra, o que já deve ser mais do que recompensador para um formato pouco explorado pelos brasileiros.