Cinema e Argumento

Os vencedores do BAFTA 2018

Melhor filme do BAFTA 2018, Três Anúncios Para Um Crime também repete no prêmio britânico as estatuetas para Frances McDormand e Sam Rockwell.

Está registrada e sacramentada a temporada mais previsível e entediante de todos. Normalmente, essa é uma firmação que parece ser repetida ano após ano, mas, dessa vez, temos fatos: pela primeira vez, os vencedores das quatro categorias de atuação (Frances McDormand, Gary Oldman, Allison Janney e Sam Rockwell) se repetiram no Globo de Ouro, no Screen Actors Guild Awards, no Critics’ Choice Awards e no BAFTA. Com essa estatística, é caminho certo para que ganhem o Oscar também. A lógica é bastante semelhante em filme e direção, onde Três Anúncios Para Um Crime e A Forma da Água se alteram na primeira e Guillermo Del Toro (A Forma da Água) reina soberano na segunda. O BAFTA assinou embaixo de tudo isso, dando ligeira vantagem para Três Anúncios Para Um Crime, que saiu o prêmio com as estatuetas de melhor filme, atriz, ator coadjuvante, roteiro original e filme britânico. A divisão entre melhor filme e melhor direção parece um cenário real para o Oscar. Já considerando o segmento técnico, um panorama distributivista, onde apenas A Forma da Água e Blade Runner 2049 conquistaram duas categorias. Tratando-se de merecimento, há pouco o que ser celebrado: são injustificadas as reações tão eufóricas para Três Anúncios Para Um Crime e é perfeitamente possível trocar todos os vencedores entre os intérpretes premiados, mas isso é assunto para o futuro. Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Três Anúncios Para Um Crime
MELHOR DIREÇÃO: Guillermo Del Toro (A Forma da Água)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ATOR: Gary Oldman (O Destino de Uma Nação)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Allison Janney (Eu, Tonya)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Três Anúncios Para Um Crime
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Me Chame Pelo Seu Nome
MELHOR FILME BRITÂNICO: Três Anúncios Para Um Crime
MELHOR TRILHA SONORA: A Forma da Água

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: O Destino de Uma Noção
MELHOR ANIMAÇÃO: Viva – A Vida é Uma Festa
MELHOR FIGURINO: Trama Fantasma
MELHOR MONTAGEM: Em Ritmo de Fuga
MELHOR FOTOGRAFIA: Blade Runner 2049

MELHORES EFEITOS VISUAIS: Blade Runner 2049
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: A Forma da Água
MELHOR SOM: Dunkirk

MELHOR DOCUMENTÁRIO: Eu Não Sou Seu Negro
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: A Criada (Coréia do Sul)
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: Poles Apart
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO: Cowboy Dave

EEE RISING STAR: Daniel Kaluuya (Corra!)

Três Anúncios Para Um Crime

The time it took you to get out here whining like a bitch, Willoughby, some other poor girl’s probably out there being butchered.

Direção: Martin McDonagh

Roteiro: Martin McDonagh

Elenco: Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Peter Dinklage, John Hawkes, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Kerry Condon, Zeljko Ivanek, Amanda Warren, Selah Atwood, Darrell Britt-Gibson

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, EUA/Reino Unido, 2017, Drama, 115 minutos

Sinopse: Inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e o detetive Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação.

6 de março de 2006. Foi logo na primeira hora desse dia, em plena madrugada, que milhões de cinéfilos do mundo inteiro acompanhavam atônitos uma das maiores reviravoltas do Oscar: Crash – No Limite, aos 45 do segundo tempo, desbancava o favorito absoluto O Segredo de Brokeback Mountain na categoria de melhor filme. O choque foi generalizado pela surpresa, claro, mas também porque Brokeback Mountain é reverenciado como uma obra-prima irrepreensível, enquanto Crash segue sendo acusado, entre outras coisas, de ser uma obra manipuladora e bagunçada em todas as suas discussões sobre racismo, xenofobia e qualquer tipo de intolerância. Considerado o pior vencedor do Oscar de todos os tempos, o longa assinado por Paul Haggis (diretor que esteve recentemente entre os inúmeros homens acusados de má conduta e assédio sexual em Hollywood) agora tem um irmão caçula: Três Anúncios Para Um Crime, filme equivocado que, por ser defendido por nomes respeitados e por se vender como uma comédia inteligente e politicamente incorreta, tem sido mais poupado do que deveria. E o pior: mais elogiado do que jamais mereceria, chegando ao Oscar 2018, inclusive, com toda pompa de favorito ao prêmio principal junto ao drama fantástico A Forma da Água.

Beira o chocante ver uma obra como Três Anúncios Para Um Crime flertando com celebração que tanto fez mal a Crash tempos atrás. Inclusive, um adendo se faz necessário: ainda que problemática para muitos, Crash era uma obra que, ao menos, tinha a autenticidade de assumir a série de coincidências que adotava como componente dramático de sua trama e, principalmente, a vontade de manipular as emoções do espectador. A situação é mais complicada com Três Anúncios Para Um Crime porque o filme se disfarça de obra esperta, temperamental e transgressora quando, lá no fundo, está repleta de problemas como as fáceis piadas de mau gosto com um personagem anão que só está ali para ser motivo de chacota e como a tão discutida redenção de um personagem racista (esse não chega a ser o maior dos problemas pois também precisamos refletir sobre até que ponto pessoas de ideias e conceitos discutíveis não podem ter algum material dramático digno de transformação ou evolução). O que faz o longa ser uma verdadeira bagunça são os pontos mais básicos do roteiro escrito pelo próprio diretor Martin McDonagh, que chegou a ser defendido como autor de um dos textos mais afiados dos últimos anos.

A arrancada por si só é aberta a questionamentos: McDonagh, que sempre foi conhecido pela utilização do humor (Na Mira do Chefe é um excelente exemplar desse seu talento), agora se confronta com uma história dramática e de pegada oposta aos seus trabalhos anteriores, que partiam da comédia para, aí sim, pensar em desdobramentos dramáticos. Em suma, Três Anúncios Para Um Crime nasce de uma ideia triste e provocadora: a de uma mãe que, desesperada, compra três outdoors em uma estrada para causar algum efeito nas investigações estagnadas do assassinato de sua filha, que foi estuprada até a morte. E aí vem piada atrás de piada, algumas delas eficientes na missão de potencializar sensações incômodos no espectador, mas que, no geral, não combinam com uma trama bem menos criativa do que o roteiro julga contar. É hiper rasa a dimensão dramática que McDonagh tenta dar aos seus personagens, incluindo a protagonista Mildred Hayes (Frances McDormand), que, bem defendida por Frances McDormand na medida do possível, já seria uma figura trágica, mas que o diretor insiste em dramatizar através de momentos até mesmo constrangedores, como no lamentável flashback onde ela, em uma histérica discussão, diz torcer para que sua filha seja estuprada por andar sozinha à noite pelas ruas, antecipando o que aconteceria tempos depois.

Três Anúncios Para Um Crime, contudo, não é centrado somente em Mildred, dividindo boa parte de sua história com outros personagens, em especial o policial racista e assumidamente escroto vivido por Sam Rockwell, um ator talentosíssimo que sempre serviu para qualquer papel. A divisão do protagonismo se dá na ideia da produção querer fazer, como o próprio diretor gosta de dizer, um amplo panorama desse mundo bagunçado que vivemos, como se fosse um doloroso mosaico em carne viva de pessoas que não sabem muito bem como reagir aos obstáculos e aos problemas da vida. Sob essa perspectiva, McDonagh, assim como no roteiro que Paul Haggis escreveu para Crash, coloca todas as cartas possíveis na mesa, fazendo a clássica confusão entre quantidade e qualidade. Tem questionamento sobre tudo o que você pode imaginar: abuso de poder, racismo, pedofilia, violência doméstica, e assim por diante… E quando digo que a quantidade se confunde com a qualidade é para elucidar, por exemplo, o desdobramento gratuito de uma amiga negra de Mildred que acaba na prisão. O momento quer falar sobre a frágil condição dos negros em situações onde autoridades brancas se aproveitam de condições privilegiadas, mas esquece que sequer sabíamos qualquer coisa sobre a personagem, antes uma mera figurante praticamente sem nome. Ora, quando uma personagem serve apenas de muleta para uma discussão temática, o roteiro se dilui.

A provocação mais inteligente de Três Anúncios Para Um Crime é não querer ser um filme de investigação, ainda que, no terço final, por um breve momento de sua última hora, decida o ser. A jogada esperta, que sabota de forma interessante várias expectativas, faz com que esse relato seja sobre o entorno do crime e sobre como uma decisão corajosa como a da protagonista é capaz de ter efeitos inesperados e fora de controle. Por mais que seja tortuoso como suspense, comédia e drama, é necessário reconhecer esse mérito que alivia um pouco a barra de uma obra cujo maior estofo está no talentoso elenco reunido aqui, todos bons por natureza e não por incentivo do filme. Por maior que seja a boa vontade com Três Anúncios Para Um Crime, é um árduo desafio compreender como um longa problemático e dispersivo como esse tenha chegando tão longe com o público e com a crítica desde a sua primeira elogiada exibição no Festival de Veneza em setembro do ano passado. Infelizmente, não é a experiência relevante que precisávamos sobre uma série de mazelas que atingem o conturbado mundo em que vivemos nos dias de hoje. Se o destino for justo, será apenas questão de tempo para que todos percebam a manipulação velada e os problemas reais de um filme cuja personalidade é somente confusa e fora de tom.

Lady Bird: A Hora de Voar

What if this is the best version?

Direção: Greta Gerwig

Roteiro: Greta Gerwig

Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Stephen Henderson, Odeya Rush, Jordan Rodrigues, Marielle Scott

Lady Bird, EUA, 2017, Drama/Comédia, 94 minutos

Sinopse: Christine McPherson (Saoirse Ronan) está no último ano do ensino médio e o que mais deseja é ir fazer faculdade longe de Sacramento, Califórnia, ideia firmemente rejeitada por sua mãe (Laurie Metcalf). Lady Bird, como a garota de forte personalidade exige ser chamada, não se dá por vencida e leva o plano de ir embora adiante mesmo assim. Enquanto sua hora não chega, no entanto, ela se divide entre as obrigações estudantis no colégio católico, o primeiro namoro, típicos rituais de passagem para a vida adulta e inúmeros desentendimentos com a progenitora. (Adoro Cinema)

Se Greta Gerwig tivesse rodado a primeira versão do roteiro de Lady Bird: A Hora de Voar, a sua estreia como diretora de longas-metragens resultaria em um filme de aproximadamente seis horas, visto que o tratamento inicial do texto que ela própria escreveu ultrapassava a marca de 650 páginas. Por se tratar de uma história autobiográfica, Lady Bird carrega mesmo um detalhado conhecimento da roteirista-agora-diretora sobre o universo de uma menina que, sob o codinome que dá título ao filme, passa a adolescência em Sacramento, nos Estados Unidos, mas deseja sair o quanto antes da cidade e viver sua própria vida. No entanto, é um equívoco dizer que Greta, uma roteirista de mão cheia revelada nos últimos anos em filmes como Frances Ha e Mistress America, faz seu debut na cadeira de direção com um filme simples e fácil. Afinal, uma obra carismática, eficiente e de personalidade como Lady Bird só poderia ganhar vida pelas mãos de uma cineasta talentosa e consciente de que até o (bom) cinema cotidiano, cômico e espirituoso tem as suas sofisticações e desafios.

Uma das maiores conquistas de Greta Gerwig em Lady Bird é ter transformado seu filme inicial de seis horas em uma obra concisa, mas que não deixa de abarcar a infinidade de assuntos inerentes ao universo de uma menina adolescente. Em rápidos 94 minutos, o longa fala sobre amizade, escola, primeiras paixões, virgindade, homossexualidade e, claro, a transição para a vida adulta. E Greta captura todo esse horizonte com tanta maturidade como contadora de histórias que se torna impossível acusar Lady Bird de ser um filme superficial. Parte desse mérito vem da diretora saber que pode sim falar sobre muitas coisas, mas que, devido ao tema e à natureza do projeto, esse é um relato sobre o significado do todo, e não um estudo específico (e praticamente impossível) a respeito de cada situação ou experiência vivenciada pela protagonista. A partir disso, ali está a vida como ela é quando somos adolescentes e queremos crescer a todo custo, como se o que vivêssemos enquanto somos jovens não tivesse lá o seu valor até conquistarmos a tão sonhada independência.

Em meio a um turbilhão natural de vivências adolescentes, Lady Bird escolhe por concentrar o coração de seu relato em dois temas perfeitamente claros. Primeiro, a busca de uma jovem por sua identidade. Essa é uma perspectiva crucial porque poucas vezes na vida somos tão exigidos e confrontados quanto a isso como na adolescência (e o fato de morarmos com os pais, que, por natureza, controlam desde o timing de nossas primeiras experiências até a forma como arrumamos ou não a cama só contribui por essa busca repleta de pedras no caminho). Lady Bird (Saoirse Ronan) quer urgentemente descobrir seu lugar no mundo, e essa é uma descoberta que alguém jovem como ela só poderá fazer por conta própria, sem a insistente pressão de várias pessoas a sua volta. Ao fazer com que a protagonista aprenda com seus próprios erros, viva conquistas tão sonhadas e tome decisões com as convicções que só podem ser sentidas por ela, o filme descortina, com muita graça e espontaneidade, um recorte de identificação universal.

O segundo tema que dá a base para o núcleo dramático de Lady Bird é mais comovente e profundo: a relação entre mãe e filha. Aqui, ambas são mulheres de personalidades marcantes e bem definidas, configuração que causa conflitos diários e argumentações infinitas entre elas. É como se Lady Bird e Marion (Laurie Metcalf) fossem tão transbordantes que nenhum espaço compartilhado entre as duas pudesse dar conta desse convívio. Contudo, Lady Bird é esperto o suficiente para não transformar a relação das personagens em um simples cabo de guerra: não faltam sutilezas na direção para construir essa dinâmica que também é cercada de carinho, admiração e respeito, mas que, pela inabilidade das duas de estabelecer um diálogo mais íntimo, acaba sempre reprimida (uma prova desse contraste é quando, ao escolher um vestido em uma loja, Lady Bird briga com a mãe para, segundos depois, compartilhar com ela o entusiasmo por uma linda peça encontrada à venda).

Saoirse Ronan, possivelmente a atriz mais versátil de sua geração, cria essa personagem crível e singular que mais uma vez atesta a sua capacidade de entrar em qualquer tipo de papel: Lady Bird, a personagem, em momento algum reprisa qualquer resquício da complexa Briony Tallis de Desejo e Reparação ou da doce e encantadora Ellis de Brooklin, considerando suas outras indicações ao Oscar. Sem transformar a protagonista em uma repetitiva adolescente rebelde, Ronan encontra o tom certeiro para uma menina que, aos poucos, percebe o quanto está mudando. De maneira complementar, Laurie Metcalf, atriz que vem de uma recente trajetória de glória na TV e no cinema (Tony em 2017 por A Doll’s House: Part 2 e indicação tripla ao Emmy em 2016 por Getting On, The Big Bang Theory e Horace and Pete) é maravilhosa e comovente como uma rígida matriarca que, lá no fundo, utiliza a repressão para camuflar o fato de que não consegue comunicar à própria filha o imenso afeto que nutre por ela. A dinâmica entre as duas é a força motriz de Lady Bird, que destila sabedoria sobre a feminilidade, mas que, surpresa, também pode ser muito bem sobre todos nós. E Greta Gerwig, em sua estreia bastante esperta na direção, sabe como chegar emocionalmente a esse ponto, provando que não é todo mundo que encontra a fibra da emoção e da inteligência na simplicidade.

Todo o Dinheiro do Mundo

They say you never really know someone until you have divorced them.

Direção: Ridley Scott

Roteiro: David Scarpa, baseado no livro “Painfully Rich: The Outrageous Fortunes and Misfortunes of the Heirs of J. Paul Getty”, de John Pearson

Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Charlie Plummer, Charlie Shotwell, Andrew Buchan, Marco Leonardi, Giuseppe Bonifati

All the Money in the World, EUA, 2017, Drama, 132 minutos

Sinopse: Itália, 1973. John Paul Getty III (Charlie Plummer) é o neto favorito do magnata do petróleo J. Paul Getty (Christopher Plummer), um dos primeiros bilionários da história da humanidade. O sequestro do rapaz coloca a sua mãe, Gail Harris (Michelle Williams), em uma corrida desesperada para convencer o ex-sogro a pagar o resgate milionário do filho. Frio, manipulador e mesquinho, Getty irá encarregar o ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg), seu homem de confiança, de descobrir quem e o que está por trás do crime, solucionando o problema sem o desperdício de nenhum centavo de sua fortuna. (Adoro Cinema)

A situação sem precedentes já foi contada e discutida em todos os cantos do mundo — após as mais de 30 acusações de assédio contra Kevin Spacey, o diretor Ridley Scott resolveu, na pós-produção, cortar a participação do ator e refilmar todas as cenas com Christopher Plummer para não fazer com que o seu filme já nascesse morto ou boicotado —, mas agora que Todo o Dinheiro do Mundo finalmente chegou aos cinemas, a questão é outra: afinal de contas, a história e o filme como um todo conseguem sair das sombras dessa circunstância extraordinária e caminhar com as próprias pernas? Em partes. Culpa do imbróglio envolvendo Kevin Spacey? Negativo. Se Todo o Dinheiro do Mundo não é o grande filme que poderia ter sido é por problemas anteriores ao escândalo que dizimou para todo o sempre um dos atores mais prestigiados de Hollywood.

Ridley Scott garante que a versão com Kevin Spacey nunca virá à tona — o diretor diz que não mantem qualquer contato com o ator (hoje secretamente enclausurado em uma clínica) e que sequer o comunicou sobre subtituí-lo na versão final —, o que não quer dizer muita coisa, pois Scott tem um longo histórico envolvendo o lançamento de tudo o que é tipo de corte dos seus filmes. Porém, se fosse para um dia vermos a versão de Spacey, seria por pura curiosidade, já que, quando Todo o Dinheiro do Mundo fascina, é justamente por causa de Christopher Plummer. Em função de seus 88 anos de idade, o ator não precisou das pesadas maquiagens e próteses que Spacey, quase 30 anos mais novo, usava para interpretar Jean Paul Getty. Sabe-se lá o que Spacey teria feito no papel, mas um ator de rosto naturalmente envelhecido tem muito mais a acrescentar para a figura forte e curiosa desse homem que, magnata do petróleo e bilionário, não quis pagar o resgato do neto sequestrado.

O que mais estimula em Todo o Dinheiro do Mundo é essa circunstância que vai muito além da ideia defendida pelo personagem de que, caso pagasse o sequestro, era questão de tempo para que seus outros 13 netos também fossem raptados, permitindo assim uma série de ataques ao seu patrimônio. O contexto era muito mais complexo: extremamente neurótico com o seu dinheiro, Getty era capaz até de lavar suas próprias roupas em um hotel para não ter que pagar pelo serviço de quarto. Ele também alegava que os milhões de dólares solicitados pelos bandidos não poderiam ser deduzidos no Imposto de Renda, o que também lhe colocaria em maus lençóis. Ao invés de retratar esse homem apenas como desumano e mão-de-vaca, o roteirista David Scarpa usa esse contexto para refletir sobre as razões que levam alguém a enriquecer e a guardar dinheiro. Ora, do que adianta acumular fortunas se elas não podem ser usadas em prol de sua própria família em um momento de necessidade ou como facilitadoras de tarefas diárias?

A mesquinharia de Getty é tão impactante que provavelmente você sairá do cinema tendo certa ojeriza da ideia de ganhar rios de dinheiro. E é óbvio que Christopher Plummer tem sua contribuição nisso: com uma serenidade absolutamente cortante, o ator não deixa que seu personagem caia na caricatura, potencializando a frieza, os mistérios e a desumanidade de um homem com cada olhar, cada movimento, cada respiração. É coisa que só a experiência pode trazer. Há, na contracorrente, uma figura que bate de frente com Getty: a ex-nora Gail (Michelle Williams), que, após anos casada com o filho do magnata, logo aprendeu que a única forma de dialogar com o sogro é entrando na mesma batida calculista. Foi assim, por exemplo, que ela garantiu a guarda dos filhos ao abrir mão de qualquer pensão ou relação financeira com o sogro e o ex-marido. E é assim que, quando lida com as recusas de Getty para pagar o resgate do neto, ela jamais levanta o tom ou discute — apenas balança a cabeça, quase lançando um sorriso recriminador, evidenciando que nada daquilo a surpreende.

Como Gail, Michelle Williams é muito boa ao fazer com que sua personagem interiorize um desespero inimaginável. Sem derramar uma lágrima — o que logo é cobrado pela imprensa que cobre o caso no filme — a protagonista dá um jeito de buscar o filho com suas próprias armas. Essa decisão marca, enfim, o ponto exato onde Todo o Dinheiro do Mundo se dispersa e enfraquece as reflexões tão interessantes até ali. Tanto o roteiro se embola nos diversos pontos de vista da história como o próprio Ridley Scott perde a mão na hora de dar ritmo e personalidade uniforme ao filme. Apresentando pelo menos quatro perspectivas acerca da situação — a de Getty, a de Gail, a do neto sequestrado e a do sequestrador — o longa não se decide muito bem entre avançar dramaticamente nas complexidades de seus personagens ou fazer um thriller nervoso que, como os próprios créditos finais fazem questão de anunciar, adaptou circunstâncias e acontecimentos para criar estofo dramático. Com uma narrativa quebrada e truncada por tantos pontos de vista (muitos deles desinteressantes) e por essa indecisão de abordagem, Todo o Dinheiro do Mundo perde boa parte do seu gás e, ao final, não ultrapassa as barreiras impostas pelas polêmicas de seus bastidores.

Sem Fôlego

We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars.

Direção: Todd Haynes

Roteiro: Brian Selznick, baseado no romance “Wonderstruck”, de autoria própria

Elenco: Oakes Fegley, Millicent Simmonds, Julianne Moore, Cory Michael Smith, Michelle Williams, Jaden Michael, Ekaterina Samsonov, Lilianne Rojek, Tom Noonan, Morgan Turner, Sawyer Nunes

Wonderstuck, EUA, 2017, Drama/Aventura, 116 minutos

Sinopse: Gunlint, Minnesota, 1977. Ao atender um telefonema, o garoto Ben (Oakes Fegley) é atingido pelo reflexo de um raio, que caiu bem em sua casa. Esta situação faz com que seja levado a um hospital em Nova York, onde descobre que não consegue mais ouvir um som sequer. Em 1927, a jovem surda Rose (Millicent Simonds) foge de sua casa em Nova York para encontrar sua mãe, a consagrada atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore). A vida destes dois garotos que não conseguem mais ouvir está interligada a partir de um livro de curiosidades, que os leva ao Museu de História Natural. (Adoro Cinema)

O diretor Todd Haynes talvez nunca tenha realizado uma obra tão repleta de estranhamento como Sem Fôlego, ainda que seja estranhamento do bom. Vendido equivocadamente pelos trailers e pelos cartazes como uma aventura infanto-juvenil, a experiência dificilmente conquistará qualquer criança, e é bem provável que não desperte encantamento nem mesmo nas plateias mais alternativas que deveriam lhe dar alguma atenção. Solenemente ignorado pela crítica mesmo com a seleção para a mostra competitiva em Cannes, Sem Fôlego não foi avaliado com muito entusiasmo lá fora durante o evento francês ou em sua trajetória comercial e agora chega ao Brasil com uma distribuição paupérrima, encorpando a tese de que os novos tempos têm sido cada vez menos generosos com filmes que colocam o espectador para fora de sua zona de conforto.

Não à toa Sem Fôlego é baseado em um best seller assinado por Brian Selznick, o mesmo autor de A Invenção de Hugo Cabret, obra que Martin Scorsese levou para as telas em 2011. Ambos são trabalhos que usam o mundo infantil como ponto de partida para discutir questões que não são necessariamente para os pequenos, mas a diferença é que Sem Fôlego se revela, em estrutura e conceito, um filme melhor resolvido do que Hugo Cabret. Enquanto Scorsese parecia não trazer muita unidade para uma história que era uma aventura infantil em sua primeira metade e logo após uma homenagem específica ao cinema, Haynes, com o roteiro do próprio Selznick, não faz rodeios nem se equivoca, assumindo, desde os primeiros minutos, que a recompensa do filme é bem diferente do cinema fantástico, ritmado e comercial que, inevitavelmente, a sua promoção sugere.

Sem Fôlego prefere ver o mundo praticamente sem som: uma das histórias é realmente muda, o que faz total sentido para tudo o que vive a pequena Rose (Millicent Simmonds), menina surda que, em uma viagem para Nova York, deseja ansiosamente se encontrar com uma atriz que tanto assiste e admira nas telas do cinema. Por falar na surdez de Rose, esse logo também será o destino de Ben (Oakes Fegley), um garoto que, após a morte da mãe, busca descobrir quem é o pai que nunca conheceu. Em uma de suas investigações, faz uma ligação e, no meio dela, perde a audição porque um raio atinge em cheio a sua casa durante uma noite de tempestade.

A conexão dramática das duas histórias vai muito além da surdez que os personagens têm em comum, pois, na verdade, o que os une é a busca por algum tipo de identidade ou pertencimento. Se nós que somos adultos eventualmente nos confrontamos com a dúvida de quem somos, o que sobra, então, para as crianças que estão em plena construção de suas próprias identidades, em especial essas que não podem ouvir e também não são ouvidas? Sem Fôlego se debruça sobre essas questões, renegando a adrenalina e as reviravoltas que costumam ser o norte de produções juvenis. O filme tanto renega essa vocação aventureira que o próprio desfecho é a pincelada final para a sua proposta de falar sobre minorias em busca do seu lugar no mundo — e só reclama da falta de impacto do lindo encerramento quem realmente não embarcou na essência do longa.

Como na vida, Sem Fôlego mostra que essa viagem rumo à descoberta quem somos é mesmo solitária e, principalmente, atemporal, visto que Rose e Ben vivem em épocas distintas (ela em 1927 e ele em 1977) e passam basicamente pelos mesmos dilemas. Haynes, que repete em grande parte o mesmo time do lindo Carol — o fotógrafo Edward Lachman, o compositor Carter Burwell (cada vez mais talentoso e sofisticado) —, cria duas diferentes linguagens para acompanhar cada personagem. Lá pelas tantas, quando as histórias encontram um ponto de convergência, a trama alcança seu momento mais belo em termos estéticos e dramáticos, contando com a ajuda muito especial de uma comovente Julianne Moore. É, finalmente, a recompensa que mostra o quanto Todd Haynes está realmente nem aí para formas e padrões. E, como esse é o tipo de cinema que mais me interessa, saí do cinema com com o coração cheio.