Cinema e Argumento

“Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”: de escritora à roteirista, J.K. Rowling limita potência criativa do mundo bruxo com excessivo controle artístico

Their arrogance is a key to our victory.

Direção: David Yates

Roteiro: J.K. Rowling

Elenco: Eddie Redmayne, Johnny Depp, Jude Law, Ezra Miller, Katherine Waterston, Zoë Kravitz, Dan Fogler, Callum Turner, Alison Sudol, Claudia Kim, Kevin Guthrie, Brontis Jodorowsky

Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, EUA, 2018, Aventura, 134 minutos

Sinopse: Newt Scamander (Eddie Redmayne) reencontra os queridos amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler). Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da MACUSA (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos. (Adoro Cinema)

Criatividade é uma das qualidades que a escritora J.K. Rowling tem de sobra, e é impossível dizer o contrário quando qualquer espectador entra em contato, especialmente pela primeira vez, com a saga Harry Potter, um dos maiores ícones cinematográficos dos anos 2000. Por isso mesmo, é natural que a autora queira cuidar da sua galinha de ovos de ouro (a Forbes já chegou a estimar que a fortuna de Rowling tenha ultrapassado um bilhão de dólares, tornando-a mais rica do que a Rainha Elizabeth II, sua conterrânea britânica). Contudo, há uma linha muito tênue entre o zelo saudável com esse material de prestígio estratosférico e o prejudicial controle criativo por um projeto que precisa de outros olhares e interpretações para ganhar novas qualidades. Pois com Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, Rowling está no limite de romper essa linha: se no primeiro filme dessa nova saga estrelada por Eddie Redmayne as suas limitações ao assumir o posto de roteirista absoluta da franquia já eram perceptíveis, a situação se complica por definitivo neste segundo capítulo, onde o excessivo controle criativo da autora coloca em risco todo o potencial criativo de uma história que parece se prolongar de maneira tão desnecessária e desestimulante quanto os três intermináveis capítulos de O Hobbit dirigidos por Peter Jackson.

Encarando a saga Animais Fantásticos mais como um parque de diversões destinado aos fãs incondicionais do que como um produto cinematográfico a ser entregue para o mundo, J.K. Rowling escreve a trama de Os Crimes de Grindelwald sem uma peneira cinematográfica. Isso é um grande problema porque parte do sucesso da saga Harry Potter (e de grande parte das grandes adaptações feitas para o Cinema) se deu pelo olhar compartilhado com roteiristas e diretores. Não que exista algum problema em escritores tornando-se roteiristas (autora de Garota Exemplar, Gillian Flynn foi talentosíssima ao fazer a transposição cinematográfica de seu próprio livro, por exemplo), mas, se o dinheiro não falar mais alto e Rowling tiver bons amigos, alguém certamente precisa avisá-la de que Animais Fantásticos tem tudo para se tornar uma dessas desestimulantes franquias que servem apenas para agradar aos fãs. Além de ser claramente conduzido com estrutura e ritmo de uma obra literária, Os Crimes de Gindelwald pouco avança com uma trama que cai no vício de plantar todo tipo de curiosidade do mundo de Harry Potter para que os fãs se divirtam isso. Em incontáveis sequências, Rowling resgata cenários, feitiços e personagens de Harry Potter para pegar os espectadores pelo afeto, o que, na prática, não acrescenta muito pouco ao que o filme tem a dizer.

Com o mérito de não ter pressa alguma ao desenvolver conflitos, Os Crimes de Grindelwald ao mesmo tempo se embola ao contar diversas histórias paralelas para, ao fim, não contar muita coisa. Com isso, Newt Scamander, o suposto protagonista da franquia, termina por se tornar tão coadjuvante quanto os outros personagens, desperdiçando assim toda a doçura que Eddie Redmayne imprime a um adorável e atípico herói e a despedaçada jornada pessoal de Credence (Ezra Miller). Menos sofisticado dramaticamente do que poderia se esperar, o roteiro ainda opta por caminhos simplistas, como na sequência em que faz determinados personagens se voltarem para o lado do mal porque, sem isso, eles não teriam mais razão para existir nos próximos capítulos da saga. Até mesmo para um livro Os Crimes de Grindelwald seria uma obra menor e pouco interessante.

Frente a tudo isso, a maior surpresa de Os Crimes de Grindelwald é a aparente volta por cima de Johnny Depp, que, pelo menos na última década, interpretava todo e qualquer personagens com indiscutível descaso ou desinteresse. Aqui, ele parece ter acordado para a questionável oportunidade de ouro que lhe foi entregue: enigmático, reticente e intimidante como Grindelwald, o ator tem presença suficiente para criar um personagem que, tratando-se da composição de um intérprete, facilmente se distancia do vilão outrora vivido por Ralph Fiennes no mundo bruxo. Enquanto isso, Jude Law, que vem do melhor desempenho de sua carreira na minissérie The Young Pope, também é uma boa adesão ao elenco, mesmo que seja um tanto difícil acreditar que seu Alvo Dumbledore possa ter tido qualquer tipo de ligação próxima (inclusive afetiva!) com o agora temido antagonista. Em nome da interessante composição dessa dupla, é justo esperar que Animais Fantásticos consiga se oxigenar daqui para frente, ainda que isso não pareça tão provável, uma vez que não só J.K. Rowling segue no comando do roteiro. Como um grande fã de Harry Potter fico sempre na torcida, mas, antes de tudo, como um cinéfilo incondicional, já não me sinto estimulado esperar maiores comoções com Animais Fantásticos depois de Os Crimes de Grindelwald.

“Bohemian Rhapsody”: mesmo com fórmula tradicional, cinebiografia cativa por capturar a essência do Queen com música e energia

What on earth is it about? Scaramouche? Galileo? Beelzebub?

Direção: Bryan Singer

Roteiro: Anthony McCarten, baseado em história própria e de Peter Morgan

Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker, Meneka Das, Ace Bhatti

EUA/Reino Unido, 2018, Drama, 134 minutos

Sinopse: Freddie Mercury (Rami Malek) e seus companheiros Brian May (Gwilyn Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) mudam o mundo da música para sempre ao formar a banda Queen, durante a década de 1970. Porém, quando o estilo de vida extravagante de Mercury começa a sair do controle, a banda tem que enfrentar o desafio de conciliar a fama e o sucesso com suas vidas pessoais cada vez mais complicadas. (Adoro Cinema)

Quantas cinebiografias encomendadas e empacotadas para o grande público você já viu na vida? Por encomendadas e empacotadas me refiro àquelas com início, meio e fim bem pontuados e que tornam palatáveis, em forma e conteúdo, a vida muitas vezes conturbada de seus respectivos biografados. Se você chutar uma árvore, caem cerca de cinco por ano, enquanto títulos elegantíssimos como Capote, A Rainha e Steve Jobs, surgem a cada dois ou três anos. Tão incomuns quanto essas cinebiografias mais sofisticadas em direção e roteiro são aquelas que, mesmo formais e altamente previsíveis, conseguem transpôr para a tela, com alma e dignidade, a força-motriz dos personagens reais retratados na tela. É assim com Bohemian Rhapsody, um filme que supera as suas claras limitações criativas para, dentro do possível, ajustar certos vícios e se tornar uma experiência viva, espirituosa e até mesmo vibrante. 

Difícil seria não alcançar esse status quando estamos falando do Queen, uma das bandas mais originais e viscerais de que se tem notícia até os dias de hoje. Bohemian Rhapsody, em termos cinematográficos, não se equivale à revolução trazida pelo grupo no meio musical, mas sabe exatamente o que precisa encenar para justificar as razões que levaram essa história a ser contada na tela grande. A passagem que melhor representa isso é aquela em que o Queen, já surfando na onda de certo sucesso, enfrenta o produtor de sua então gravadora para convencê-lo de que a canção Bohemian Rhapsody, mesmo com seis minutos de duração e um estilo de difícil definição, deveria ser o carro-chefe da promoção do mais recente álbum. O produtor não aceita de jeito nenhum, e os garotos, extremamente confiantes do produto diferenciado que têm em mãos, demitem a gravadora, provando que nada é mais importante para cada um deles do que a total fidelidade ao trabalho que desenvolviam com tanta convicção criativa e artística.

Ao longo do filme, são mostrados outros tantos momentos que evidenciam a singularidade do Queen. A própria gravação da canção-título é uma das sequências mais hilariantes por explorar os métodos poucos convencionais adotados pelo grupo na criação de canções que desafiavam acomodados padrões da indústria musical. Compreendemos a originalidade do Queen por essa boa curadoria de acontecimentos que o filme faz, ainda que, em uma grande quantidade de vezes, o roteiro escrito por Anthony McCarten (A Teoria de Tudo, O Destino de Uma Nação) ajuste datas e fatos para causar maior impacto dramático, decisão que tem causado inúmeras controvérsias mundo afora — e, sinceramente, só posso ver esse descontentamento como equivalente às bobas reclamações de quem implica com as adaptações que um livro eventualmente sofre ao ser transposto para o Cinema. Fatos podem ser ajustados sim, desde que se mantenha a honestidade. A total fidelidade aos fatos deve ficar com os documentários.

Ainda fazendo uma comparação com outras cinebiografias, em especial aquelas voltadas a relatos de personalidades musicais, Bohemian Rhapsody é mais coeso porque limpa cacoetes característicos do gênero. Por mais que o longa seja essencialmente sobre o vocalista Freddie Mercury, o roteiro faz questão de jamais perder de vista os outros integrantes da banda, que, em outras obras, costumam ser reduzidos a meros figurantes que somem após o sucesso isolado do protagonista. Em Bohemian Rhapsody, Mercury não é ninguém sem seus companheiros e vice-versa. É por situar o grupo de forma mais central na trama que o filme de Bryan Singer ganha força musicalmente: o repertório do Queen já seria entusiasmante por si só, mas há uma importante vontade de situar a origem da maior parte das canções, tratando com cuidado um um legado musical que não surge na tela apenas para que o longa contemple o maior número de hits possíveis.

É fato, entretanto, que Bohemian Rhapsody não tem maiores profundidades do ponto de vista dramatúrgico, incluindo em pontos cruciais da carreira da banda e de Freddie Mercury. A homossexualidade do protagonista é, no geral, abraçada pelo filme, mas não evita leituras simplistas, como no recorte em que Mercury se afasta de tudo e de todos porque se sente isolado (os outros integrantes da banda casaram, tiveram filhos e constituíram famílias), depositando todas as suas fichas em um namorado que, desde a primeira aparição, sabemos que não é flor que se cheire. A escolha de não tornar a descoberta do HIV uma via crucis apelativa é um ponto a ser considerado em Bohemian Rhapsody (quatro em cinco longas não resistiram à ideia de encenar os pormenores da doença apenas para fazer o protagonista passar por transformações físicas), o que, por outro lado, acaba de certa maneira se tornando apenas um subterfúgio dramático para que o personagem rapidamente remende as pontas deixadas soltas em sua vida pessoal e profissional, como a marcante conexão afetiva que Mercury viveu durante anos com uma mulher e que é mostrada sem muita consistência pelo roteiro. 

Na pele de Mercury, Rami Malek leva certo tempo para se ajustar no ícone que está incorporando: na primeira metade, ele é basicamente vítima da caracterização, principalmente porque rivaliza com uma prótese dentária medonha que é o centro das atenções nessa fase em que o vocalista é jovem e ainda não assumiu o visual que viria a lhe tornar icônico. Entretanto, quando surge de bigode e cabelo curto, Malek finalmente some diante do personagem, particularmente na sequência final, onde o diretor Bryan Singer reproduz, quase na íntegra, o icônico show do Queen no Live Aid, considerada por muitos uma das mais icônicas performances musicais de todos os tempos. É pura energia e emoção por Malek, pela ambição do projeto em retratar tal momento e porque encerra Bohemian Rhapsody com grandiosidade e potência, fazendo jus a um grupo cujo repertório musical surge intensamente celebrado. É a síntese perfeita do que existe de mais precioso nesse filme imperfeito e formal, mas vibrante pela clara admiração que nutre por seus biografados.

Três atores, três filmes… com Simone Zuccolotto

Uma das principais vozes quando o assunto é a divulgação do cinema brasileiro, a jornalista Simone Zuccolotto entrou para o célebre Canal Brasil no ano de 2003. Ao longo desses 15 anos de atuação na emissora comandada por Paulo Mendonça, já esteve à frente e atrás das câmeras de séries jornalísticas como A Mulher no Cinema, Nas Sombas do Medo, Rir é o Melhor Remédio e De Semelhanças e Coincidências. Hoje, ela também comanda o Cinejornal, que faz um balanço semanal dos principais eventos de Cinema no Brasil, além, claro, de mostrar os bastidores de inúmeras produções realizadas em território nacional com entrevistas exclusivas. Nessa caminhada, não poderia faltar, claro, a cobertura de festivais Brasil afora, incluindo o Festival de Cinema de Gramado, onde já a encontrei diversas vezes, seja no Tapete Vermelho, nos bastidores ou na própria sala de cinema. Por isso mesmo,  dada toda essa experiência e conhecimento, é uma imensa satisfação recebê-la aqui na coluna, especialmente quando ela comenta atuações de três atrizes de talento gigante e inquestionável. E uma curiosidade: com a menção da Simone, o desempenho de Gena Rowlands em Uma Mulher Sob Influência empata com o de Kate Winslet em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança como o mais lembrado entre as atrizes, com três citações cada.

Gena Rowlands (Uma Mulher Sob Influência)
Aos 88 anos, a atriz americana tem uma carreira profícua no cinema e em séries de TV, mas foi a parceria com o marido John Cassavetes que lhe rendeu as melhores atuações. Filmes como Noite de Estreia e Gloria, mas especialmente Uma Mulher Sob Influência deixaram marcado o turbilhão de emoções que cabe nessa atriz. Por esse filme, inclusive, ela recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz de drama e foi indicada ao Oscar. Inicialmente escrito como uma peça de teatro, o texto, a pedido de Gena, acabou virando cinema, no melhor estilo Cassavetes, conhecido como o “autor do improviso” ou o expoente do “cinéma vérité” (atribuído a Jean Rouch). A levada experimental (mais radical do que as convenções tanto dramáticas quanto narrativas), a câmera na mão, a utilização de luz natural e, sobretudo a coautoria oferecida/exigida dos atores… E é aí que surfa Gena, na história da “problemática” dona de casa de classe média baixa americana, mãe de três filhos e casada com um funcionário de estaleiro. O tom intenso, os nervos à flor da pele e a sensação de um mundo prestes a ruir são radiografados pela atriz que, na pele de Mabel, passa por um transe, com inúmeras camadas sutis que retratam a loucura de uma forma assustadora (destaque para a cena do almoço com os parceiros de trabalho do marido).

Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca)
A parceria de Charlotte com Lars Von Trier começou em Anticristo (2009) e seguiu com Melancolia (2011). No caso de Ninfomaníaca, a atriz disse que aceitou o convite sem nem ler o roteiro, o que atesta uma cumplicidade nos assuntos e na maneira como o diretor dinamarquês faz seus filmes. Joe é uma mulher viciada em sexo e, por conta da obsessão, vai às ultimas consequências no assunto. Como é comum no cinema de Trier, não há limites e, quando há, eles os testa o tempo inteiro. É disso que Gainsbourg gosta: de personagens intensos e desequilibrados, à beira da insanidade – e, de fato, ela mergulha nessas performances, não necessariamente para se perder em neuroses, mas parece que para sair da zona de conforto e testar a si mesma. A atriz, filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, se joga, e sem rede. Em Ninfomaníaca usou prótese de vagina, fez cenas de sadomasoquismo humilhantes e constrangedoras, e o que resulta dessa parceria é uma interpretação que imprime na tela uma disponibilidade de alguém que nasceu pra ser testada e, em minha opinião, aprovada. E, além de tudo, a danada canta que é uma beleza!

Romy Schneider (L’Enfer / O Inferno de Henri-Georges Clouzot)
A atriz austríaca ficou conhecida pela personagem Sissi na trilogia Sissi / Sissi, a Imperatriz / Sissi e Seu Destino, dirigida por Ernst Marischka, entre 1955 e 1957; foi indicada ao Globo de Ouro por O Cardeal, de Otto Preminger; ganhou dois César por O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski, e Uma História Simples, de Claude Sautet; trabalhou com nomes como Luchino Visconti, Orson Welles, Costa-Grava e teve uma vida pessoal trágica (a morte precoce do filho, o suicídio do ex-marido, traições). Tudo isso a transformou num mito que morreu aos 43 anos, mas deixou interpretações inesquecíveis. Elegi sua atuação em L’Enfer, de Henri-Georges Clouzot (realizador dos excelentes O Salário do Medo e As Diabólicas), filme inacabado que virou assunto do documentário O Inferno de Henri-Georges Clouzot, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea. Do roteiro, uma delirante história de ciúme, pouco se vê, mas as imagens recuperadas – cenas e os flagrantes de testes de luz, figurino e maquiagem – embora avulsas e costuradas com depoimentos de colaboradores, não perdem a magnitude da interpretação de Schneider, sedutora, brincalhona, forte, leve e livre, e ao mesmo tempo amarrada na técnica e na obsessão de Clouzot. Mais do que isso, deixam uma sensação de quão avassaladora teria sido o desempenho de Romy. P.S. – Destaque para dois momentos: a cena que a atriz brinca com um brinquedo de mola que vai passeando pelo seu corpo e quando ela se diverte com uma taça de champagne.

“Nasce Uma Estrela”: estreia de Bradley Cooper como diretor ganha em sinceridade, mas faz mais do mesmo em comparação a títulos semelhantes

I think you might be a songwriter.

Direção: Bradley Cooper

Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth e Will Fetters, baseado na história Robert Carson e William A. Wellmann, e nos roteiros dos filmes homônimos de 1954 e 1976, escritos respectivamente por Moss Hart e Frank Pierson, Joan Didion e John Gregory Dunne

Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chappelle, Marlon Williams, Brandi Carlile, Michael D. Roberts, Ron Rifkin, Michael Harney, Rebecca Field

A Star is Born, EUA, 2018, Drama, 136 minutos

Sinopse: Jackson Maine (Bradley Cooper) é um cantor no auge da fama. Um dia, após deixar uma apresentação, ele para em um bar para beber algo. É quando conhece Ally (Lady Gaga), uma insegura cantora que ganha a vida trabalhando em um restaurante. Jackson se encanta pela mulher e seu talento, decidindo acolhê-la debaixo de suas asas. Ao mesmo tempo em que Ally ascende ao estrelato, Jackson vive uma crise pessoal e profissional devido aos problemas com o álcool. (Adoro Cinema)

Originalmente um projeto do veterano Clint Eastwood a ser estrelado por Beyoncé, Nasce Uma Estrela, em sua quarta versão para as telas, inevitavelmente puxa à memória, somente nos últimos anos, vários títulos de diferentes nacionalidades que contam basicamente a mesmíssima história, como o ótimo Johnny & June, também sobre a relação entre dois músicos minada pelo alcoolismo de um deles, ou até mesmo o poderoso Alabama Monroe, longa belga sobre um casal de cantores que, entre a música, o amor e a tragédia, são esmagados pela dura realidade de um relacionamento que, no final das contas, parece não ser destinado a dar certo. Não é só por ser a quarta versão de uma mesma história que Nasce Uma Estrela parece ser mais do mesmo, mas também por lembrar uma infinidade de títulos semelhantes (e superiores). Ao mesmo tempo, você pode perguntar: a estreia de Bradley Cooper precisava mesmo ter algo de novo a dizer? Bom, a resposta para essa questão dá a medida do quanto você embarcará ou não nessa obra que vem surpreendendo pela ótima recepção acumulada desde as suas primeiras exibições mundiais e que já tem sido cotada para receber uma boa quantidade de indicações ao Oscar.

Há, sem dúvida, o fator curiosidade que já garante uns bons trocados para o estúdio. Afinal, Bradley Cooper, que estreia agora atrás das câmeras, é um bom diretor? E Lady Gaga dá conta do recado como atriz de Cinema? É o tipo de filme-evento que, independente do que se diz por aí, você verá para tirar as suas próprias conclusões. Considerando as duas perguntas, o que se conclui é que Cooper pode até não ser o diretor mais sofisticado, mas é sincero e convicto quanto aquilo que deseja fazer. Nasce Uma Estrela, mesmo redundante no tipo de história que conta, não tenta dar um passo maior do que a própria perna, assumindo, sem vergonha alguma, a sua proposta de não ser uma obra de maiores pretensões. Ponto, portanto, para Cooper, que em nenhum momento usa a câmera com vaidade, o que seria muito tentador por ele também ser o real protagonista de Nasce Uma Estrela. Aliás, como ator, Bradley é melhor ainda: talvez até ciente do papel batido, ele não cria uma caricatura de seu Jackson Maine, inclusive porque, em mais uma consciência colaborativa, sabe que a sua construção de personagem depende da ótima química que estabelece com Lady Gaga, a agora “cantriz” de Cinema que incendeia a tela toda a vez que canta e que se esforça a cada cena como intérprete, mas que tem suas limitações e que jamais consegue se equiparar ao colega.

A partir desses aspectos, Nasce Uma Estrela tem momentos que podem, de fato, validar o excelente status que vem alcançando em suas projeções mundo afora. Um exemplo real disso é a cena onde Cooper e Gaga cantam pela primeira vez Shallow para uma multidão: não só a cantora é de uma talento vocal absurdo como o momento registra emocionalmente a sintonia entre dois personagens perdidos e desiludidos que encontram um no outro uma razão para sorrir e seguir em frente. O problema é que o filme dura 2h30 e, nesse meio tempo, pouco vibra como na cena citada. Escrito por Cooper junto à dupla Eric Roth e Will Feters, o roteiro é o maior problema de Nasce Uma Estrela por cair em armadilhas óbvias, como a de muitas vezes ter música demais e histórias de menos. Entre uma canção e outra, um conflito cai de paraquedas para dar uma movimentada na trama ao mesmo tempo em que, logo em seguida, depois de uma nova apresentação musical, já é solucionado. A falta de uma construção sólida de dilemas em detrimento da música dilui o impacto dos desdobramentos dramáticos e românticos de um filme que, no frigir dos ovos, depende da química de seus protagonistas para segurar uma vivacidade que o roteiro não consegue emanar.

Da metade da projeção em diante, Nasce Uma Estrela muda um pouco a pegada ao transferir boa parte da sua narrativa para a perspectiva de Ally (Gaga) e sua escalada rumo ao tão sonhado sucesso. Os problemas antes pontualmente diagnosticados no roteiro agora se tornam amplos e evidentes: com menos música, as fragilidades emergem com mais facilidade, impulsionadas por uma inegável falta de ritmo. São rasas as saídas que Cooper, Roth e Fetter encontram para minar a relação do casal principal: a cena passada no Grammy, por exemplo, parece produzida por uma novela da Globo tamanha a implausibilidade. Nasce Uma Estrela ainda tenta fazer uma crítica à indústria pop, mas como encontrar alguma profundidade se tudo se resume a um produtor unidimensional cuja única missão é fazer todo tipo de exigência comercial para desconstruir a verdadeira personalidade de Ally? São tentativas válidas no sentido de tornar contemporânea a refilmagem de uma obra encenada pela primeira vez nos anos 1930, mas, na prática, tais circunstâncias não surgem orgânicas, e mais soam como meras ferramentas encontradas pelo roteiro para bagunçar um pouquinho mais a vida do casal, como se o centro de todo o drama fosse o que os fatos fazem com eles e não como cada um administra o peso que a vida joga em suas costas.

Nasce Uma Estrela se sustenta comercialmente e goza de imenso hype pela força do estrelato de Lady Gaga, uma cantora que estourou como ícone pop e que, aos poucos, foi reinventando e pluralizando sua carreira, hoje também marcada por criações e colaborações para o country e para o jazz. Gaga é uma artista nata, fato comprovado inclusive por suas belíssimas participações no Oscar até aqui, em especial aquela em que ela homenageou A Noviça Rebelde, dando voz a clássicos desse inesquecível musical estrelado pela grande Julie Andrews. Cito esse momento porque ele é uma prova cabal do poder cênico e vocal da cantora, que poderia facilmente trilhar uma carreira na Broadway (e é difícil entender como isso ainda não aconteceu!). Já na tela grande, Gaga encanta toda vez que canta, além de ser a base do sucesso conquistado pelo filme, o que não quer dizer que a sua forte presença seja o suficiente para alçar o longa ao status de emoção e narrativa sofisticada que público e crítica vêm lhe atribuindo. Até porque não custava Nasce Uma Estrela ser um tantinho menos previsível para despertar, pelo menos, emoções que já não tenhamos vivido em outros projetos de temáticas semelhantes.

“O Primeiro Homem”: sem narrativa musical e roteiro de autoria própria, Damien Chazelle pouco impressiona em um terreno atípico na sua carreira

Your dad’s going to the Moon.

Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Josh Singer, baseado no livro “First Man: The Life of Neil A. Armstrong”, de James R. Hansen

Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Kyle Chandler, Christopher Abbott, Pablo Schreiber, Ciarán Hinds, Ethan Embry, Jason Clarke, Corey Stoll, Shea Whigham, Patrick Fugit, Lukas Haas

First Man, EUA, 2018, Drama, 141 minutos

Sinopse: A vida do astronauta norte-americano Neil Armstrong (Ryan Gosling) e sua jornada para se tornar o primeiro homem a andar na Lua. Os sacrifícios e custos de Neil e toda uma nação durante uma das mais perigosas missões na história das viagens espaciais. (Adoro Cinema)

O Primeiro Homem não deixa de ser um terreno desconhecido para Damien Chazelle, diretor que vem trilhando uma carreira exitosa no Cinema com títulos premiados como Whiplash: Em Busca da Perfeição e La La Land: Cantando Estações. É de certa forma desconhecido porque, pela primeira vez, Chazelle tanto não dirige um roteiro de autoria própria quanto deixa de lado qualquer tipo de narrativa musical, característica que permeou sua filmografia desde a estreia com o longa Guy and Madeline on a Park Bench. Somente o cineasta pode dizer se tais mudanças de alguma forma afetaram partes do processo criativo, mas, como espectador, é possível aceitar a teoria com alguma convicção, pois é frustrante ver um filme inegavelmente bem dirigido ser limitado por um roteiro morno e que jamais se equivale ao imenso imaginário despertado pela chegada dos astronautas norte-americanos à Lua. 

Originalmente um projeto destinado ao veterano Clint Eastwood, O Primeiro Homem traz Steven Spielberg na produção executiva, o que tem sido utilizado como grande atrativo em manchetes de portais e em materiais de divulgação. Na verdade, não passa de puro chamarisco, já que o longa de Chazelle não tenta se equivaler ou emular o terreno de ficção que Spielberg tanto ajudou a criar e a popularizar ao longo das décadas. Para ser justo, o filme é, na realidade, um relato espacial mais íntimo, propondo uma série de contrastes entre a vida cotidiana na Terra e as dimensões infinitas do espaço sideral. Para isso, o roteiro escrito por John Singer (The Post: A Guerra Secreta, Spotlight: Segredos Revelados) se afasta do ícone Neil Armstrong (Ryan Gosling) para tratá-lo como um homem comum que, após passar por uma dolorosa perda familiar, encontra-se deslocado junto à família e aos amigos. Exercer a profissão, portanto, nunca fez tanto sentido para Armstrong: viajar ao espaço é, antes de qualquer coisa, um processo pessoal e uma fuga íntima dessa vida bagunçada e dolorosa na Terra.

Considerando o todo, é justo dizer que O Primeiro Homem funciona por explorar o plano humano em meio a cenários intergaláticos (a sequência que mostra a chegada de Neil à Lua é poderosa porque mostra o quanto nós, seres humanos, somos realmente insignificantes aqui na Terra ou em qualquer ponto do universo). No entanto, o mesmo não se aplica para uma visão mais microscópica do roteiro, que é quase banal na dramatização cotidiana da vida do protagonista. A própria perda familiar que acontece na arrancada da história e motiva boa parte das decisões do personagem é resgatada pontualmente, como se fosse apenas uma forma de encorpar o combustível dramático do filme. Outro aspecto raso a ser considerado é a participação da esposa de Armstrong, vivida por Claire Foy e aqui traduzida como a clássica dona-de-casa que segura a barra, os destemperos e a ausência de um marido que abraça o trabalho ao invés da família em um momento de grande confusão emocional. Por sorte, Foy é boa atriz e muito maior do que o papel que lhe foi proporcionado.

À parte o roteiro morno, que pouco se esmera em curiosidade ou criatividade ao se infiltrar nas pesquisas e simulações da NASA para chegar à Lua, a maior limitação de O Primeiro Homem era realmente difícil de prever: Ryan Gosling. Um dos atores mais queridos de sua geração, Gosling também é um dos mais versáteis (veja ou relembre A Garota Ideal, Drive, Namorados Para Sempre, O Lugar Onde Tudo Termina e Amor a Toda Prova para comprovar), e por isso mesmo impressiona a sua falta de presença como Neil Armstrong. Mirando na interpretação econômica ou no chamado minimalismo, o ator envereda para a apatia, sem dar as merecidas dimensões para as pequenas ou grandes complexidades vividas por um personagem que não sabe muito bem onde sente os seus pais mais firmados no chão. Além da falta de tempero do roteiro, O Primeiro Homem carece de um protagonista marcante e que, principalmente, desperte algum tipo de torcida.

Transcorridos cinco anos entre o lançamento de Gravidade e agora o de O Primeiro Homem, conclui-se que a febre de filmes ambientados no espaço ainda não resultou em nenhuma obra capaz de se equiparar à ficção dirigida pelo mexicano Alfonso Cuarón em termos de qualidade. Não que elas tenham essa obrigação, mas, dada a lembrança ainda intacta de uma obra que redefiniu a recente safra das obras do gênero, a comparação segue inevitável. Damien Chazelle, que reúne aqui praticamente os mesmos colaboradores de Whiplash e La La Land, faz de sua incursão espacial uma experiência sólida sob a perspectiva técnica e sensorial, evidenciando o contraponto com uma história que, dessa vez sem a sua assinatura no roteiro, não corresponde à dimensão que o diretor se propõe a traduzir em imagens. Coincidência ou não, Chazelle já pavimenta um caminho de retorno às origens: atualmente, ele está em plena produção de The Eddy, uma série dramática encomendada pela Netflix onde a música se apresenta mais uma vez como epicentro narrativo. Dito isso, é de se perguntar mais uma vez: teria sido O Primeiro Homem um rápido parênteses em sua carreira?