Cinema e Argumento

54º Festival de Cinema de Gramado #1: evento serrano divulga as primeiras novidades para a edição de 2026

Rosa Helena Volk, presidente da Gramadotur, autarquia realizadora do Festival de Cinema de Gramado. Coletiva anunciou novidades da 54ª edição. Foto: Edison Vara/Pressphoto

O Festival de Cinema de Gramado divulgou nesta quarta-feira (08), os seis longas-metragens brasileiros de ficção da mostra competitiva de sua 54ª edição: Chorão: Só os Loucos Sabem (SP), de Hugo Prata e Felipe Novaes; Feito Pipa (CE), de Allan Deberton; Justino – Nos Bastidores do Reino (DF), de José Eduardo Belmonte; Leite em Pó (MG/SP/RN), de Carlos Segundo; Nosso Segredo (MG), de Grace Passô; e Pele de Rinoceronte (RJ), de Marcello Ludwig Maia. Realizado pela Gramadotur, autarquia municipal de turismo e cultura, o mais tradicional festival de cinema do Brasil este ano acontece entre 12 e 22 de agosto, sendo a abertura oficial no dia 14 de agosto, com exibição hors-concours do longa-metragem Antártida, de Bruno Safadi.

A curadoria de longas-metragens brasileiros e documentários é assinada pelas atrizes Ana Flavia Cavalcanti e Camila Morgado e pelo jornalista, professor e crítico de cinema Marcos Santuario, e a seleção sublinha a força de Gramado como a primeira janela de exibição dos mais recentes títulos da cinematografia brasileira. Todos os filmes são inéditos no Brasil e três deles marcam a estreia de seus diretores em longas de ficção: Grace Passô, Carlos Segundo e Marcello Ludwig Maia. “Escolher filmes nunca foi uma tarefa de consenso. É um gesto de confiança no cinema, mas também um exercício de escuta do presente. Cada edição de um festival é uma fotografia do tempo em que vivemos e, ao mesmo tempo, uma aposta no tempo que ainda está por vir. Foi com esse espírito que construímos a seleção da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Todos os títulos apresentados nesta edição chegam ao público brasileiro pela primeira vez. Mais que estreias, são encontros inaugurais. Cada sessão carrega a emoção do desconhecido, a possibilidade da surpresa e o privilégio de assistir a filmes que ainda não foram apropriados pelo olhar coletivo. Gramado continua sendo esse lugar raro onde o cinema nasce diante da plateia. Onde os filmes vêm ‘para nascer e não para morrer’”, destacam os curadores. 

Seis longas-metragens brasileiros de ficção disputam o Kikito.

Dirigido por Hugo Prata e Felipe Novaes, Chorão: Só os Loucos Sabem mergulha na vida do rapper e cantor que marcou gerações na banda Charlie Brown Jr. Em Santos, no litoral paulista, ele conhece Graziela e, do encontro entre amor, rebeldia e vulnerabilidade, nasceram músicas que marcaram gerações. Com José Loreto e Nanda Marques, o filme é produzido pela Bravura Cinematográfica em coprodução com a Globo Filmes.

Em Feito Pipa, de Allan Deberton, o jovem Gugu sonha em se tornar um grande jogador de futebol. Criado pela avó, ele teme voltar a ter que morar com o pai, com quem tem uma relação complicada, e fará de tudo para evitar que isso aconteça. Com Lázaro Ramos, Yuri Gomes e Teca Pereira, o longa-metragem é uma produção da Deberton Filmes e da Biônica Filmes. 

O Rio de Janeiro da década de 1980 é o cenário de Justino – Nos Bastidores do Reino, história em que o protagonista encontra em uma poderosa igreja neopentecostal a chance de sair da pobreza. Sua rápida ascensão e sucesso como pastor acumulam desejos reprimidos, segredos e ambição. Depois de 15 anos, Justino quer acertar as contas com o passado. Dirigido por José Eduardo Belmonte, o filme traz no elenco nomes como Christian Malheiros, Antonio Pitanga, Caio Blat e Onna Silva. A produção é da Mercado Filmes.

Com direção de Carlos Segundo e produção de O Sopro do Tempo, Vitrine Filmes e Les Valseurs, Leite em Pó apresenta a história de um músico obcecado por rock que vê sua vida desabar após uma perda familiar. Sozinho e sem dinheiro, ele decide aceitar um trabalho que o força a circular pela cidade, encontrando diferentes pessoas que desafiam sua visão de mundo. Entre memórias incômodas e os novos laços, ele inicia uma jornada transformadora para enfrentar seus fantasmas. O elenco apresenta Vinicius de Oliveira, Antonio Pitanga, Zezita Matos e Rejane Faria.

Em Nosso Segredo, uma família tenta reconstruir a rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho mais jovem guarda um segredo que pode ajudá-los a enfrentar a dor e encontrar um novo caminho. Com Robert Frank, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip e Ju Colombo, o filme tem direção de Grace Passô. A Entre Filmes assina a produção do longa-metragem, em coprodução com a Globo Filmes.

Ambientado na década de 1970, Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, traz Débora Falabella no papel de uma repórter de um jornal popular que, ao lado de uma advogada criminalista, vê sua vida mudar após um homicídio que chocou o Brasil e marcou o início do debate sobre o feminicídio. O drama, que também apresenta Naruna Costa, Irandhir Santos, Augusto Madeira, Elli Fêrreira e Daniel Rangel, é produzido pela República Pureza Filmes, em coprodução com o Canal Brasil e Telecine.

Marina Ruy Barbosa estrela Antártida, que ainda conta com Andrea Beltrão, Lázaro Ramos e Leandra Leal.

FILME DE ABERTURA


Produzido pelo Núcleo de Filmes dos Estúdios Globo em coprodução com a TV Globo, Antártida, com direção de Bruno Safadi (Éden, longa que rendeu o segundo Kikito de melhor atriz para Leandra Leal em Gramado) e roteiro de Claudia Jouvin, é estrelado por Andrea Beltrão, Marina Ruy Barbosa, Leandra Leal, Antonio Calloni, Lázaro Ramos e João Vitor Silva. Com distribuição da Paris Filmes, o longa tem lançamento confirmado nos cinemas para 17 de setembro. 

Na trama, cientistas e militares se preparam para enfrentar o inverno rigoroso em uma base brasileira na Antártida. Tudo muda após a primeira noite, quando Inês (Marina Ruy Barbosa) sofre uma violência brutal e a situação torna todos os homens suspeitos, incluindo o Comandante Barros (Antônio Calloni) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos). Sob clima de tensão e desconfiança, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) lidera uma investigação em busca do criminoso com o apoio das mulheres da base — entre elas, Marina, médica da estação, interpretada por Leandra Leal.

TROFÉU CIDADE DE GRAMADO


O Troféu Cidade de Gramado, que reconhece personalidades ligadas ao festival, cuja atuação contribuiu para a projeção do evento e da região, será entregue ao ator, roteirista e diretor Marcos Caruso. Com uma longa trajetória de mais de quatro décadas no cinema, na televisão e no teatro, iniciou a carreira nos palcos na década de 1970 em montagens como Rei Momo e Alegro Desbum. Estreou na televisão em 1978 em Aritana e, desde então, integrou o elenco de grandes sucessos como Mulheres Apaixonadas e Avenida Brasil. Nos cinemas, participou de mais de 20 longas-metragens, com destaque para Memórias Póstumas, de André Klotzel; Depois daquele Baile, de Roberto Bomtempo; e Polaróides Urbanas, de Miguel Falabella. 

PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA


Tradicional janela de exibição do cinema gaúcho, o Prêmio Assembleia Legislativa apresenta 18 títulos que formam um mosaico plural e descentralizado para uma mostra tradicionalmente reconhecida por revelar novos talentos da produção audiovisual local. 

O famoso “Gauchão”, nome carinhosamente adotado pelo público para se referir à mostra, é realizado em parceria com a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, distribuindo troféus e prêmios em dinheiro para os vencedores de 12 categorias. As exibições acontecem nos dias 15 e 16 de agosto, às 13h, no Palácio dos Festivais, com a cerimônia de premiação marcada também para o dia 16, a partir das 20h.

“Cada filme selecionado carrega a identidade de quem o criou, mas também revela a existência de uma rede inteira dedicada a transformar uma ideia em imagem, som e emoção. O cinema gaúcho é feito de talentos que imaginam, insistem, criam e compartilham suas histórias com o público”, destaca a comissão de seleção formada pela realizadora e pesquisadora Adry Silva, pelo diretor, roteirista e produtor Alexandre Mattos Meireles, pela produtora Kátia Samara, pelo cineasta Tyrell Spencer e pelo jornalista e crítico de cinema Victor Hugo Furtado.

Confira os filmes selecionados:

– O Acumulador de Memórias (Pelotas), de Camisla
– Banho Maria (Porto Alegre), de Gabriel Faccini
– Batidão de Botas (Pelotas), de Camila Santos (Camisla), Daniel Galuppo, Esther Costa, Maria Eduarda Bandeira e Stella Mahle
– Braço Forte (Pelotas), de Rubens Fabricio Anzolin e João Fernando Chagas
– Claudete (Santa Cruz do Sul), de Gabriela Kopp
– Coisa Ruim (Porto Alegre), de Lucas Tergolina
– Drunken Car (Garibaldi), de Brunella Martina
– Elisete Tem que Casar! (Caxias do Sul), de Gaby Buffon
– Estátuas Também Morrem? (Brasil/Hungria/Portugal/Bélgica), de Thais Fernandes
– Grão (Rio Grande), de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa
– Manjericão (Xangri-Lá), de Raphaela Serafim Maciel e Eric Pauli
– Mizandrika (Pelotas), de Kali Breder
– Procura-se Ator (Imbé/Tramandaí), de Airton Tomazzoni e Laura Lautert
– Raidinalha (Porto Alegre), de Marco Arruda
– O Retorno (Porto Alegre), de Cesar Meneghetti e Mario Gianni
– Terra Bruta (Canoas), de Allan Riggs e Guilherme Suman
– A Vaidade é a Última Que Morre (Porto Alegre), de Natália Zambon
– O Véu (Porto Alegre), de Gabriel Motta

Vencedores do Teddy Award no Festival de Berlim, Filipe Matzembacher e Marcio Reolon estão entre os homenageados do Instituto Estadual de Cinema do Rio Grande do Sul.

HOMENAGENS A EXPOENTES DO CINEMA GAÚCHO


O Festival de Cinema de Gramado também reserva espaço na sua programação para prestar tributo a personalidades que se destacam na produção gaúcha com o Troféu Sirmar Antunes, entregue pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul; o Prêmio Leonardo Machado, instituído pela  Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, e os Prêmios Iecine nas categorias de Legado, Inovação e Destaque, uma realização do Instituto Estadual de Cinema (Iecine).

O diretor de fotografia Jorge Henrique Boca levará para casa o Troféu Sirmar Antunes. Com mais de quatro décadas de atuação no audiovisual brasileiro, ele iniciou sua trajetória como operador de câmera na RBS TV Porto Alegre e, desde então, atua como diretor de fotografia em curtas e longas-metragens, documentários, programas de televisão, videoclipes, publicidade e campanhas políticas. Em seu currículo estão produções realizadas em diversos estados do Brasil, além de projetos internacionais desenvolvidos em países como Angola, Argentina e Uruguai, com destaque para O Trampo, Nossa Senhora de Caravaggio, Diminuta e Espia Só. 

A atriz e produtora cultural Silvia Duarte receberá o Prêmio Leonardo Machado. Com extensa trajetória nas artes e no audiovisual, a atriz participou de produções como A Família Brasil e Parada 90 na televisão; Despedida, Continente e Futuro Futuro nos cinemas; e Carolina e Outras Vozes, Na Trilha das Andarilhas e Preta Poesia Feminina no teatro. Silvia também integra a coordenação da Associação Cultural Quilombo do Sopapo. Para os Prêmios Iecine, foram escolhidos como agraciados os cineastas Renato Dornelles e Tatiana Sager (Destaque), Márcio Reolon e Filipe Matzembacher (Inovação), e a produtora Gisele Hiltl (Legado). Os homenageados com as distinções do Iecine foram escolhidos por uma comissão formada por: Edu Rabin, produtor e diretor de fotografia; Kaya Rodrigues, atriz, roteirista e curadora; e  Ticiano Osório, jornalista e crítico de cinema.

SESSÕES ESPECIAIS


A programação do festival também conta com sessões especiais de longas-metragens fora de competição. Serão exibidos a comédia esportiva tcheca Dream Team, de Jonáš Karásek; o longa-metragem infantil D.P.A. 4 – O Fantástico Reino de Ondion, de Mauro Lima, quarto filme da franquia de sucesso Detetives do Prédio Azul; o inédito Era Uma Vez Minha 1ª Vez, de Claudia Castro, inspirado no livro homônimo de Thalita Rebouças; o curta-metragem italiano Anita, de Wardal; o documentário esportivo GRENAL – O Maior Clássico das Américas, de Belisario Franca e Tatiana Sager; e a produção documental Santiago, episódio que integra a Série Grandes Mestres, sobre a vida e obra do cartunista Neltair Rebés Abreu, conhecido como Santiago. 

CONEXÕES GRAMADO FILM MARKET


Consolidado a partir da força simbólica e institucional de Gramado, o mercado assume uma função cada vez mais nítida no ecossistema audiovisual latino-americano: ativar negócios e coproduções, qualificar territórios que filmam e conectar futuros e talentos do audiovisual. Essa tríade orienta a 10ª edição e reposiciona o Gramado Film Market como uma plataforma em expansão, capaz de reunir produtores, empresas, players, fundos, distribuidores, sales agents, instituições públicas, film commissions, universidades e novas gerações de realizadores.

Sob coordenação geral de Ralfe Cardoso, esta edição, apresentará novidades como o 1º Encontro Internacional de Cidades, com painéis sobre economia criativa, políticas públicas, desenvolvimento territorial e fortalecimento do audiovisual. A iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre a importância da economia criativa, em especial o mercado audiovisual, como vetor de desenvolvimento, turismo, inovação e geração de renda para as cidades. A programação contará também com Residência para Jovens Cineastas, rodadas de negócios e painéis com profissionais da indústria. A realização é da Gramadotur e do Instituto Estadual de Cinema (Iecine).

CINEMA ESTUDANTIL E UNIVERSITÁRIO


O Educavídeo, programa que há 15 anos oferece capacitação em linguagem audiovisual para estudantes da rede pública de Gramado, mais uma vez lança os holofotes para a produção estudantil do município. Desde 2011, o projeto já recebeu mais de mil alunos e realizou mais de 110 produções, entre curtas-metragens, documentários, webséries e um média-metragem. As produções dos estudantes já participaram de diversos festivais de cinema estudantis e conquistaram mais de 40 prêmios.

Antecipando a abertura oficial do 54º Festival de Cinema de Gramado, o Educavídeo exibe, nos dias 12 e 13 de agosto, seus mais recentes trabalhos e apresenta a 2ª Mostra de Nacional de Cinema Estudantil, que reúne filmes produzidos por alunos do ensino médio e fundamental, além de incorporar em sua programação a Mostra de Filmes Universitários do Festival de Cinema de Gramado.

“Natal Amargo” traz autoanálise sincera de Almodóvar sobre seu atual estado como contador de histórias

El cine tiene algo de premonitorio.

Direção: Pedro Almodóvar

Roteiro: Pedro Almodóvar

Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez, Belén Riquelme, Rossy de Palma, Carmen Machi, Amaia Romero

Amarga Navidad, Espanha, 2026, Drama, 111 minutos

Sinopse: Natal Amargo acompanha duas histórias paralelas que se desenrolam entre Madri e as Ilhas Canárias. De um lado, a publicitária Elsa (Bárbara Lennie) perdeu a mãe durante as festas de natal e afoga-se no trabalho. Não tendo espaço para lidar com o luto, um ataque de pânico severo a obriga a tirar uma pausa e viajar para Lazarote, nas Ilhas Canárias, ao lado de sua amiga Patricia enquanto o marido, Bonifacio, permanece em Madri. O outro ponto de vista da trama acompanha Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), um diretor e roteirista que enfrenta dificuldades em separar a realidade da ficção.

Para além da glória, todo artista cultuado carrega consigo o fardo de ter feito obras marcantes para determinadas épocas. Digo fardo porque, quando a régua sobe, o natural é, dali em diante, esperar-se nada menos do que o brilhantismo. E isso é algo terrivelmente injusto com qualquer processo criativo, pois abre margem para uma grande intolerância ao erro, ao corriqueiro ou, no caso de Pedro Almodóvar, a uma certa crise de criatividade – e, afinal, como não sofrer algum tipo de esgotamento criativo após a realização de 25 longas-metragens?

A verdade é que, acertando ou errando, o cineasta espanhol nunca deixou de experimentar: fez curta, longa, drama, comédia, filme em inglês e em espanhol, criou histórias novas e adaptou outras, lançou carreiras e trabalhou com grandes nomes de Hollywood. Aos 76 anos de idade, conquistou o merecido privilégio de contar as histórias que bem entende. É um feito e tanto, sobretudo no caso de um cineasta LGBTQIAPN+.

Por outro lado, Almodóvar não chega a ser reverenciado por tamanha pluralidade. O que pesa sobre ele é a cobrança, especialmente por parte da crítica, de nunca mais ter feito um trabalho à altura de Tudo Sobre Minha Mãe ou Fale com Ela, filmes que lhe renderam, entre outras coisas, os Oscars de melhor filme internacional e melhor roteiro original. É difícil entender o que se ganha com esse tipo de parâmetro.

Justa ou não, tamanha exigência é sentida por Almodóvar e, como um cineasta que, nos últimos anos, vem reexaminando muitos aspectos de sua vida e obra, ele não se furta a meditar sobre isso em Natal Amargo, seu mais novo longa-metragem. Sem vaidades ou ressentimentos, ele assume com todas as letras, por meio de um roteiro metalinguístico, o quanto seu cinema se tornou, sim, uma repetição de si próprio, ao mesmo tempo em que defende como isso é um estágio natural de qualquer processo criativo, em especial os mais longevos.

Natal Amargo tem como história central a vida de Elsa (Bárbara Lennie), que, após passar pela perda da mãe, conquistar um novo amor e descobrir-se tomada por crises de pânico, decide, enfim, voltar a fazer filmes após anos acumulando dinheiro somente como publicitária. Sua história ocupa o centro da narrativa e recebe intervenções ocasionais de Raúl (Leonardo Sbaraglia), cineasta que, na verdade, escreve a trama vivida por Elsa.

Diante da primeira metade de Natal Amargo, fiquei me perguntando por que esse não era um relato apenas sobre a vida de Elsa, visto que as aparições do personagem de Leonardo Sbaraglia eram pouco significativas. A virada de chave fica reservada para o terço final — e essa demora acaba sendo a maior fragilidade do longa —, quando Almodóvar faz com que o espectador reinterprete a narrativa de Elsa e, por consequência, os próprios filmes que ele realizou em suas décadas de carreira até aqui.

Com humor e sinceridade cortantes, o cineasta assume tudo aquilo de que a crítica o acusa: já está na hora, por exemplo, de deixar de revisitar o luto da mãe, bem como o artifício de colocar alguém cantando para emocionar personagens em cena. O alter-ego de Almodóvar vivido por Sbaraglia também ouve que já realizou os melhores filmes de sua carreira e que, agora, a preocupação deveria ser, quem sabe, fazer trabalhos menores ou, então, aquele projeto que a Netflix tenta encomendar há anos.

É nesse momento que Natal Amargo escancara sua brincadeira metalinguística. Talvez o diretor tenha mesmo criado Elsa para uma história original e de vida própria, mas terminou enredado em seus próprios vícios narrativos. Ao perceber isso, resolveu falar sobre a estagnação que a crítica tanto lhe atribui — e que, com Natal Amargo, ele não tem problema algum em assumir que, de fato, ela bate à sua porta de vez em quando.

Quando acompanha Elsa, o longa tem as tintas características do cinema de Almodóvar, o que deve atender ao público que sempre busca pelo lado feminino e intimista do diretor. Ainda que, propositalmente, a história não tenha rumos muito claros, o diretor a captura com seu habitual rigor técnico e estético, mais uma vez acompanhado de parceiros de longa data, como o figurinista Paco Delgado e o compositor Alberto Iglesias.

De tão metalinguístico, Natal Amargo só não se engrandece porque, justamente, parece mesmo ser um roteiro que não deu certo e que ganhou nova roupagem quando seu autor se deu conta para onde (não) estava indo. A ressignificação surge com certo atraso, e isso amortece a esperteza e o caráter autoficcional da obra, que, em vez de ir ao coração como o excepcional Dor e Glória, propõe um viés mais pragmático sobre o processo de se fazer um filme.

Natal Amargo se encerra na incompletude — ou, melhor dizendo, no processo de reescrita. Célebre autor gaúcho, Moacyr Scliar dizia que escrever é, na verdade, reescrever, e que há determinados livros que só ficam prontos à base da exaustão. Segundo ele, não há texto que não possa ser retrabalhado, o que, inevitavelmente, leva a um certo grau de frustração.

Acho que Almodóvar concordaria com Scliar. Não há limites para o quanto uma história — ou um simples texto — pode ser mexido, reestruturado, reinventado… E o que fazer com aquilo que não toma forma? Colocar no lixo? São perguntas e honestidades que o cineasta espanhol converte em um interessante exercício cinematográfico — e em uma autocrítica rara nesses tempos de busca desenfreada pela perfeição.

Melhores de 2025: conquistando quatro categorias, “Uma Batalha Após a Outra” é o grande vencedor da lista

Uma Batalha Após a Outra vence nas categorias de melhor filme, direção, montagem e ator coadjuvante.

Sempre que fiz uma retrospectiva dos filmes de 2025, Uma Batalha Após a Outra imediatamente voltava à minha memória. Por isso mesmo, foi inevitável colocar o filme de Paul Thomas Anderson no topo da lista de melhores do ano aqui do blog. Admiro muito sua habilidade de fazer obras completamente distintas ao mesmo tempo em que preserva qualidades inquestionáveis da sua filmografia, como a ótima direção de atores e o ritmo envolvente mesmo com quase três horas de projeção para contar uma história. Uma Batalha Após a Outra contempla tudo isso ao mostrar que Paul Thomas Anderson, tão afeito a relatos ambientados em décadas passadas, deveria se aventurar mais em reflexões acerca do nosso tempo.

O ano de 2025 também teve grandes atuações, todas distintas entre si. Acho excepcional, por exemplo, o que Jesuíta Barbosa faz em Homem com H, cinebiografia honesta e sem pudores sobre a vida de Ney Matogrosso, vivido à perfeição por seu intérprete. Já Kathleen Chalfant é igualmente maravilhosa em Toque Familiar, um filme pequeníssimo e que serve de instrumento para a atriz entregar um trabalho silencioso, gestual e minimalista. No que se refere aos coadjuvantes, faço coro ao Oscar: Amy Madigan já nasce marcante em A Hora do Mal e Sean Penn é um arraso em Uma Batalha Após a Outra. No entanto, em questão de coletivo, não há dúvidas: O Agente Secreto tem o elenco mais coeso, diverso e bem escalado do ano.

Fechando com as categorias técnicas, Frankenstein compensa boa parte da impressão genérica que deixa em termos de história com o desbunde estético habitual das obras de Guillermo Del Toro, em especial nos figurinos, na direção de arte e na maquiagem. Não há o que contestar também na trilha marcante de Conclave, nos efeitos visuais sempre impecáveis da franquia Avatar e no amplo trabalho de som de Flow, para citar outros segmentos. 2025 trouxe filmes para todos os gostos, e isso se reflete também na parte técnica, da ficção científica à animação.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ELENCO: O Agente Secreto
MELHOR ATRIZ: Kathleen Chalfant (Toque Familiar)
MELHOR ATOR: Jesuíta Barbosa (Homem com H)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Amy Madigan (A Hora do Mal)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Pecadores
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Conclave
MELHOR MONTAGEM: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR FOTOGRAFIA: O Agente Secreto
MELHOR TRILHA SONORA: Conclave
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Frankenstein
MELHOR FIGURINO: Frankenstein
MELHOR SOM: Flow
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K-Pop)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Avatar: Fogo e Cinzas
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Frankenstein

“O Diabo Veste Prada 2” rejeita ideia do mero fan service para medir o pulso do nosso tempo

May the bridges I burn light my way.

Direção: David Frankel

Roteiro: Aline Brosh McKenna

Elenco: Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt, Stanley Tucci, Justin Theroux, Kenneth Branagh, Lucy Liu, B.J. Novak, Simone Ashley, Tracie Thoms, Caleb Hearon, Lady Gaga, Rachel Bloom, Helen J Shen, Patrick Brammall, Pauline Chalamet

The Devil Wears Prada 2, EUA, 2026, Comédia, 119 minutos

Sinopse: De volta às elegantes ruas de Nova York e aos sofisticados escritórios da revista Runway, as personagens de O Diabo Veste Prada se veem envolvidas em uma disputa por receita publicitária em meio ao declínio da mídia impressa, colocando à prova antigas relações e ambições profissionais.

Incrédula, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha um momento que, vinte anos atrás, poderia ser uma miragem: Miranda Priestly (Meryl Streep) chegando ao escritório da revista Runway e, ela própria, colocando seu casaco em um cabide. Muita coisa mudou desde o lançamento de O Diabo Veste Prada em 2006, tanto para o mundo quanto para suas personagens, e a roteirista Aline Brosh McKenna, que escreveu o longa original e volta para o segundo, entende como tantos reveses são essenciais para revisitar um universo cinematográfico que marcou época e gerações.

Orçado em 35 milhões de dólares, o primeiro O Diabo Veste Prada faturou quase dez vezes mais quando chegou aos cinemas mundialmente, superando as expectativas em torno de um projeto protagonizado por mulheres e encabeçado por uma atriz já então considerada veterana aos 56 anos. Clássicos só podem receber tal distinção com o tempo, e não é exagero afirmar que o filme de David Frankel se tornou um na cultura pop. Motivos não faltaram, da interpretação icônica de Meryl Streep ao frescor estético de um império da moda embalado por hits nas vozes de Madonna, Alanis Morissette, U2, Moby, entre outros.

Não só O Diabo Veste Prada foi visto e revisto com o passar dos anos como também reinterpretado em muitas de suas simbologias. A vilania da história reside em Miranda ou no namorado de Andy vivido por Adrian Grenier? A editora-chefe da Runway seria, de fato, o diabo de saias ou é vista dessa maneira apenas por ser uma mulher — e não um homem — em posição de poder? À parte respostas, é indiscutível que Miranda Priestly, por si só, tornou-se um dos papéis mais emblemáticos da carreira de Meryl Streep, o que definitivamente não é pouca coisa.

Agora, após exatas duas décadas, O Diabo Veste Prada 2 apresenta um novo momento na vida de suas personagens. O tempo passou fora e dentro das telas, algo que a sequência dirigida por David Frankel abraça como mote. Não se trata, em suma, de uma continuação alheia às mudanças do mundo ou fabricada para satisfazer a nostalgia de uma legião de fãs. A virada de chave está nessa noção de que Andy e Miranda não podem ser mais as mesmas quando as noções de moda e jornalismo há muito já se transformaram.

Os casacos agora pendurados pela própria chefe são resultado de reclamações feitas ao setor de Recursos Humanos. Não há mais orçamento para viagens de quatro semanas com o objetivo de produzir o ensaio do mês. Os transportes executivos dão lugar às corridas por Uber, assim como viagens aéreas agora só são possíveis por meio de classe econômica. E a antes tão poderosa Runway praticamente deixa de existir na versão impressa para existir em uma versão digital que, como lembra Nigel (Stanley Tucci), virou uma mera rolagem no feed quando os usuários de redes sociais tiram um tempo para ir ao banheiro.

É surpreendente que O Diabo Veste Prada 2 talvez seja o primeiro filme sobre o estado atual do jornalismo porque Hollywood desaprendeu a fazer grandes projetos comerciais com algo a dizer, muito menos com algum tipo de posicionamento. Pois o roteiro de McKenna, além de fazer observações sobre o sucateamento das mídias, utiliza esse cenário para moldar suas personagens nos planos cômicos e dramáticos. Se o jornalismo virou negócio — e não um dos mais vantajosos para os próprios jornalistas —, tudo passa a se dar na base de negociação, mesmo para quem antes apenas demandava.

McKenna toma o cuidado de não fazer de O Diabo Veste Prada 2 uma lição de moral ou uma espécie de punição em cima da sua personagem-título. Isso acontece porque todos estão no mesmo barco, envoltos em crises e incertezas, inclusive a Andy de Anne Hathaway, que volta à Runway após a demissão em massa realizada pelo jornal onde acreditava estar fazendo um trabalho com princípios e significados. Ao mesmo tempo, são as próprias pessoas da sua geração que tomam o poder através de ricaços da tecnologia, muitos deles invadindo todas as áreas apenas com números e métricas em mente.

Em meio ao naufrágio, o que resta é a colaboração entre os que tentam sobreviver. É quando surgem as transformações dos personagens de um filme para o outro, em especial as das protagonistas. Há quem possa dizer que Miranda está mais suavizada nessa sequência, o que, para mim, na realidade, faz total sentido. E, sendo bem sincero, é reconfortante ver que até o diabo pode mudar, mesmo que conforme a música da vez. Ocorre, enfim, a flexibilização de sentimentos — ou, então, as nuances — que, no fundo, gostaríamos de ter visto no primeiro longa.

Ao buscar novos pilares, O Diabo Veste Prada 2 não abandona, claro, a essência que tornou seu antecessor um marco na cultura pop. Em cena, há diversas referências ao que vimos em 2006, como o retorno de Vogue na trilha sonora e do suéter azul cerúleo no figurino. De Donatella Versace a Lady Gaga, o desfile de participações especiais também segue dando prestígio ao projeto. Felizmente, são inserções calibradas e que resistem à tentação de soarem cacoetes, algo exemplificado no uso do icônico That’s all de Miranda, utilizado uma única vez.

Mesmo com tantos méritos e com a presença gratificante de um elenco que volta aos personagens como se os tivessem interpretado ontem, não dá para se dizer que o raio cai duas vezes no mesmo lugar. O Diabo Veste Prada 2 não incendeia como o anterior, talvez por insistir em elementos que continuam não dando certo (o novo par romântico de Andy é outra vez insípido) e por não corrigir aquelas rotas fáceis demais que contornam problemas aparentemente incontornáveis para as personagens. Há ainda adições que em nada contribuem — e, nesse sentido, me pergunto qual a razão de desperdiçar um grande ator como Kenneth Branagh para um papel tão descartável. E, ah, claro, sem esquecer da estética pouco viva em cores e iluminação que toma conta das produções comerciais atuais.

Pode até ser que eu não reveja O Diabo Veste Prada 2 da mesma maneira incansável com que revejo o primeiro, mas fico feliz em poder dizer que a sequência tem vida própria diante de tantos projetos semelhantes que se sustentam apenas pela nostalgia momentânea. Ao ser comparado com, digamos, Gladiador 2 e Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda, o retorno de Meryl Streep e companhia ao universo da moda justifica sua existência ao apostar em um tipo de cinema outrora bem trabalhado em Hollywood: o que comunica ideias por meio da despretensão. Como o bom jornalismo, O Diabo Veste Prada 2 se sai vitorioso porque nega as expectativas óbvias e busca novos ângulos para explorar.

“Michael” é mais uma cinebiografia como tantas outras (e que, com certeza, frustraria o próprio Rei do Pop)

Keep those feet still, my man!

Direção: Antoine Fuqua

Roteiro: John Logan

Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Juliano Valdi, Nia Long, Miles Teller, Mike Myers, Kendrick Sampson, Jayden Harville, Jaylen Lyndon Hunter, Judah Edwards, Nathaniel Logan McIntyre, Tre’ Horton, Rhyan Hill, Joseph David-Jones, Jamal Henderson

EUA/Reino Unido, 2026, Drama, 127 minutos

Sinopse: O filme conta a história da vida de Michael Jackson além da música, acompanhando sua jornada desde a descoberta de seu talento extraordinário como líder dos Jackson Five, até se tornar o artista visionário cuja ambição criativa impulsionou uma busca incansável para ser o maior entertainer do mundo.

A sensação é de déjà-vu imediato: tão logo Michael começa, surge a silhueta icônica do protagonista, aquecendo-se antes de entrar no palco, enquanto um público delirante grita por seu nome ao fundo. Vemos Michael Jackson apenas de costas para, logo em seguida, retrocedermos algumas décadas até a sua infância nas mãos de um rígido pai que tinha por missão de vida treinar os filhos rumo ao estrelato. É o tipo de história e estrutura que, no campo das cinebiografias, já vimos dezenas de vezes e que Michael, mesmo com um personagem sui generis, não faz questão nenhuma de subverter. De todas as frustrações que um projeto como esse poderia causar, trata-se da maior: a de colocar a vida do Rei do Pop em uma caixinha de caminhos prontos e fáceis, sem minimamente evocar, em termos cinematográficos, a pulsante criatividade de um brilhante repertório musical.

Bem como aconteceu com Wicked, Michael chega aos cinemas camuflando — pelo menos em seus materiais promocionais — a informação de que haverá uma sequência e que, por óbvio, os acontecimentos desse primeiro são apenas a primeira parte de um arco a ser finalizado na segunda obra. A ambição poderia ser justificada caso o diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, O Protetor) se utilizasse da imaginação para ir além da narrativa tradicional e investigar a mente do cantor, a exemplo do que Dexter Fletcher fez no ótimo Rocketman, ainda a melhor cinebiografia musical realizada por Hollywood nos últimos anos. Contudo, Fuqua não é exatamente um diretor inspirado, basta olharmos para sua carreira que, em retrospecto, é apenas marcada por obras de ação muito parecidas entre si.

Junte a isso o fato de Michael passar pelo crivo da família Jackson e ter eliminado polêmicas como as acusações de abuso infantil contra o cantor, tornando-se mais um projeto chapa branca entre tantos. Tal abordagem não é novidade se considerarmos como as celebridades norte-americanas vêm sendo retratadas pelo cinemão já há certo tempo, e talvez seja por já esperar pouco de Michael que meu problema tenha ficado mais com a decisão mercadológica — e nunca artística — de narrar a vida de Jackson em dois filmes. Há uma série de efeitos colaterais resultantes dessa escolha, a começar, sem dúvida, pela sensação de incompletude. Afinal, a partir do roteiro de John Logan (O Aviador, 007 – Operação Skyfall), Fuqua pouco consegue fazer com que Michael se sustente sozinho, embora já entregue vários hits como Thriller, Billie Jean e Beat It.

Se a história tem bastante para contar – ela até o final dos anos 1980, quando Michael Jackson já havia se tornado uma febre mundial e detentor do título de álbum mais vendido de todos os tempos —, há, por outro lado, um enorme vazio em como tudo é retratado. A condução formulaica nunca alcança a verve extasiante das músicas, e o roteiro não descortina o cantor para além da superfície. Percebam, por exemplo, como, mesmo se dedicando a abarcar um bom pedaço da infância de Michael, saímos da sessão sem sequer compreender os perfis dos quatro irmãos que, com ele, formaram a banda The Jackson 5. Seu próprio processo criativo é um mistério: à parte o momento em que Beat It ganha vida, em uma das melhores passagens do filme, ou quando Michael começa os trabalhos do videoclipe de Thriller, a origem do seu álbum mais célebre é resumida a um mural onde o protagonista fixa o nome de cada música produzida para escolher qual servirá como título.

Dramaticamente falando, temos apenas um grande conflito: o do artista que tenta sair da sombra do pai. Para o bem e para o mal, Joseph (Colman Domingo) exerceu papel fundamental na criação dos filhos, e é interessante como Michael não se furta de mostrar, em especial, como o controle do pai fez mal para toda a família, até mesmo para a mãe (Nia Long), que, pouco a pouco, tenta se impor em uma casa dominada por uma voz masculina. Defensor da ideia de que sucesso não vem de mão beijada e que, sendo negro, é preciso fazer todo tipo de sacrifício, seja ele qual for, para ser alguém na vida, Joseph alçou os filhos ao sucesso, mas também produziu uma série de traumas, negando, inclusive, o prazer da infância a eles. Não por acaso, Michael vivia em uma eterna síndrome de Peter Pan, adotando macacos e girafas ou fazendo de sua mansão um lugar dos mais recreativos — a famosa Neverland que, espera-se, seja abordada futuramente.

Fuqua e Logan não se aprofundam nas leituras possíveis em cima desses fatos, fazendo do protagonista um personagem raso em emoções, condição perfeita para que várias lacunas se abram no estudo do biografado. É nula, por exemplo, qualquer sugestão aos desejos afetivos e sexuais de Michael — ou à falta deles. E como podemos acreditar que a família é tão importante para o protagonista quando não conhecemos mais facetas da sua mãe e de seus irmãos? O dilema da trama está, enfim, na busca por libertação de um artista e de um filho, o que rende alguma densidade até determinado ponto, mas que não dá sustentação ao filme no geral. Ao dar tanta atenção a isso, Michael termina suas duas horas de duração sem navegar nas tantas possibilidades envolvendo um grande ícone, mesmo no que ele tinha de mais mundano e humano.

Para Jaafar Jackson, sobrinho de Michael na vida real, resta o trabalho de mimetizar o tio, o que ele executa com precisão do ponto de vista técnico. Acontece que, como meu interesse nesse tipo de interpretação reside na alma e na essência, não cheguei a me impressionar, muito em função de Jaafar ter pouco material dramático para revelar uma verdadeira vocação para atuar neste que é o seu primeiro papel no cinema. Ele, junto a Michael como um todo, tem missões árduas para o segundo filme, entre elas, a de dar mais camadas a um personagem que, no primeiro longa, surge deveras plano em uma homenagem aquém de sua grandeza. Se Michael Jackson pensava cada trabalho e aparição para causar impacto ou fazer a diferença como artista, sua cinebiografia deveria, no mínimo, tentar o mesmo, sem medo de assumir riscos. Tenho certeza de que o Rei do Pop concordaria.