Cinema e Argumento

Os indicados ao Emmy 2022

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Succession se torna a série com o maior número de atores em competição por uma mesma temporada na história do Emmy. Série da HBO acumula, ao todo, 25 indicações.

É uma tendência que ganhou enorme tração no ano passado e que agora parece incorporada de vez no Emmy: a de reduzir o número de séries indicadas e distribuir o máximo possível de indicações para elas. Se a quarta temporada de The Crown, apesar de muito boa, não mereceu levar todos os prêmios de interpretação aos quais concorria no ano passado, é bem provável que Succession venha a repetir o feito no próximo dia 12 de setembro. A série da HBO segue sofisticada, mas a terceira temporada é mais irregular do que as anteriores, e há várias indicações inexplicáveis, como as de atriz convidada para Hope Davis e Sanaa Lathan.

Por mais que eu adore Hacks, também são injustificáveis, por exemplo, lembranças para as interpretações de Christopher McDonald, Kaitlin Olson e até mesmo de Laurie Metcalf, subaproveitada pelo roteiro e pouco inspirada em uma composição estereotipada. Entre os números hiperbólicos de indicações, abraço com gosto somente tudo o que The White Lotus recebeu, uma vez que a minissérie não estava sendo reconhecida como merecia na temporada e, sem dúvida, faz jus a todos os louros que lhe são dados. Com categorias chegando até oito indicados, o Emmy ainda falha em ver além de determinadas bolhas, o que é sempre uma má notícia para tempos em que há streamings e possibilidades voltadas a todo tipo de público. O que falta para a premiação refletir melhor isso de forma mais diluída?

Confira abaixo a lista de indicados:

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
Better Call Saul
Euphoria
Ozark
Severance
Squid Game
Stranger Things
Succession
Yellowjackets

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
Barry
Curb Your Enthusiasm
Hacks
The Marvelous Mrs. Maisel
Only Murders in the Building
Ted Lasso
What We Do in the Shadows

MELHOR MINISSÉRIE OU ANTOLOGIA
Dopesick
The Dropout
Inventing Anna
Pam & Tommy
The White Lotus

MELHOR FILME PARA TV
Chip ‘n Dale: Rescue Rangers
Ray Donovan: The Movie
Reno 911!: The Hunt For QAnon
The Survivor
Zoey’s Extraordinary Christmas

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Melanie Lynskey (Yellowjackets)
Reese Witherspoon (The Morning Show)
Sandra Oh (Killing Eve)
Zendaya (Euphoria)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Adam Scott (Severance)
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Brian Cox (Succession)
Jason Bateman (Ozark)
Jeremy Strong (Succession)
Lee Jung-jae (Squid Game)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Christina Ricci (Yellowjackets)
J. Smith-Cameron (Succession)
Julia Garner (Ozark)
Jung Ho-yeon (Squid Game)
Patricia Arquette (Severance)
Rhea Seehorn (Better Call Saul)
Sarah Snook (Succession)
Sydney Sweeney (Euphoria)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Christopher Walken (Severance)
John Turturro (Severance)
Kieran Culkin (Succession)
Matthew Macfadyen (Succession)
Nicholas Braun (Succession)
Oh Yeong-su (Squid Game)
Park Hae-soo (Squid Game)

MELHOR ATRIZ CONVIDADA EM SÉRIE DE DRAMA
Harriet Walter (Succession)
Hope Davis (Succession)
Lee You-Mi (Squid Game)
Marcia Gay Harden (The Morning Show)
Martha Kelly (Euphoria)
Sanaa Lathan (Succession)

MELHOR ATOR CONVIDADO EM SÉRIE DE DRAMA
Adrien Brody (Succession)
Alexander Skarsgård (Succession)
Arian Moayed (Succession)
Colman Domingo (Euphoria)
James Cromwell (Succession)
Tom Pelphrey (Ozark)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Elle Fanning (The Great)
Issa Rae (Insecure)
Jean Smart (Hacks)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Quinta Brunson (Abbott Elementary)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Bill Hader (Barry)
Donald Glover (Atlanta)
Jason Sudeikes (Ted Lasso)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Nicholas Hoult (The Great)
Steve Martin (Only Murders in the Building)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Hannah Einbinder (Hacks)
Hannah Waddingham (Ted Lasso)
Janelle James (Abbott Elementary)
Juno Temple (Ted Lasso)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Sarah Niles (Ted Lasso)
Sheryl Lee Ralph (Abbott Elementary)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Anthony Carrigan (Barry)
Bowen Yang (Saturday Night Live)
Brett Goldstein (Ted Lasso)
Henry Winkler (Barry)
Nick Mohammed (Ted Lasso)
Toheeb Jimoh (Ted Lasso)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tyler James Williams (Abbott Elementary)

MELHOR ATRIZ CONVIDADA EM SÉRIE DE COMÉDIA
Harriet Sansom Harris (Hacks)
Harriet Walter (Ted Lasso)
Jane Adams (Hacks)
Jane Lynch (Only Murders in the Building)
Kaitlin Olson (Hacks)
Laurie Metcalf (Hacks)

MELHOR ATOR CONVIDADO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Bill Hader (Curb Your Enthusiasm)
Christopher McDonald (Hacks)
James Lance (Ted Lasso)
Jerrod Carmichael (Saturday Night Live)
Nathan Lane (Only Murders in the Building)
Sam Richardson (Ted Lasso)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV
Amanda Seyfried (The Dropout)
Julia Garner (Inventing Anna)
Lily James (Pam & Tommy)
Margaret Qualley (Maid)
Sarah Paulson (Impeachment: American Crime Story)
Toni Collette (The Staircase)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV
Andrew Garfield (Under the Banner of Heaven)
Colin Firth (The Staircase)
Himesh Patel (Station Eleven)
Michael Keaton (Dopesick)
Oscar Isaac (Scenes from a Marriage)
Sebastian Stan (Pam & Tommy)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV
Alexandra Daddario (The White Lotus)
Connie Britton (The White Lotus)
Jennifer Coolidge (The White Lotus)
Kaitlyn Dever (Dopesick)
Mare Winningham (Dopesick)
Natasha Rothwell (The White Lotus)
Sydney Sweeney (The White Lotus)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV
Jake Lacy (The White Lotus)
Michael Stuhlbarg (Dopesick)
Murray Bartlett (The White Lotus)
Peter Sarsgaard (Dopesick)
Seth Rogen (Pam & Tommy)
Steve Zahn (The White Lotus)
Will Poulter (Dopesick)

MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE DRAMA
Ben Stiller (Severance, episódio The We We Are)
Cathy Yan (Succession, episódio The Disruption)
Hwang Dong-hyuk (Squid Game, episódio Red Light, Green Light)
Jason Bateman (Ozark, episódio A Hard Way to Go)
Karyn Kusama (Yellowjackets, episódio Pilot)
Lorene Scafaria (Succession, episódio Too Much Birthday)
Mark Mylod (Succession, episódio All the Bells Say)

MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE DRAMA
Ashley Lyle, Bart Nickerson e Jonathan Lisco (Yellowjackets, episódio F Sharp)
Ashley Lyle e Bart Nickerson (Yellowjackets, episódio Pilot)
Chris Mundy (Ozark, episódio A Hard Way to Go)
Dan Erickson (Severance, episódio The We We Are)
Hwang Dong-hyuk (Squid Game, episódio One Lucky Day)
Jesse Armstrong (Succession, episódio All the Bells Say)
Thomas Schnauz (Better Call Saul, episódio Plan and Execution)

MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Bill Hader (Barry, episódio 710N)
Cherien Dabis (Only Murders in the Building, episódio The Boy From 6B)
Hiro Murai (Atlanta, episódio New Jazz)
Jamie Babbit (Only Murders in the Building, episódio True Crime)
Lucia Aniello (Hacks, episódio There Will Be Blood)
Mary Lou Belli (The Ms. Pat Show, episódio Baby Daddy Groundhog Day)
MJ Delaney (Ted Lasso, episódio No Weddings and a Funeral)

MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Alec Berg e Bill Hader (Barry, episódio Starting Now)
Duffy Boudreau (Barry, episódio 710N)
Jane Becker (Ted Lasso, episódio No Weddings and a Funeral)
Jen Statsky, Lucia Aniello e Paul W. Downs (Hacks, episódio The One, The Only)
John Hoffman e Steve Martin (Only Murders in the Building, episódio True Crime)
Quinta Brunson (Abbott Elementary, episódio Pilot)
Sarah Naftalis (What We Do in the Shadows, episódio The Casino)
Stefani Robinson (What We Do in the Shadows, episódio The Wellness Center)

MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV
Danny Strong (Dopesick, episódio The People vs. Purdue Pharma)
Francesca Gregorini (The Droupout, episódio Iron Sisters)
Hiro Murai (Station Eleven, episódio Wheel of Fire)
John Wells (Maid, episódio Sky Blue)
Michael Showalter (The Dropout, episódio Green Juice)
Mike White (The White Lotus)

MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV
Danny Strong (Dopesick, episódio The People vs. Purdue Pharma)
Elizabeth Meriwether (The Dropout, episódio I’m in a Hurry)
Mike White (The White Lotus)
Molly Smith Metzler (Maid, episódio Snaps)
Patrick Somerville (Station Eleven, episódio Unbroken Circle)
Sarah Burgess (Impeachment: American Crime Story, episódio Man Handled)

50º Festival de Cinema de Gramado #1: entre curtas e longas-metragens, mais de 30 títulos disputam o Kikito

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A Mãe, de Cristiano Burlan: o segundo Kikito de melhor atriz para Marcélia Cartaxo?

O Festival de Cinema de Gramado anunciou os concorrentes da sua 50ª edição sem o estrondo esperado para uma data de tamanha magnitude. Ao contrário do que aconteceu em 2012, quando, celebrando 40 anos, promoveu mudanças radicais em termos de conceito e estrutura, o evento anunciou, nesta sexta-feira (09), uma edição comedida para os dias 12 e 20 de agosto na Serra Gaúcha. 

À parte a mudança muito interessante que Dira Paes parece ter trazido para a curadoria de longas-metragens, agora mais autoral e, de fato, coesa em sua pluralidade, é de se esperar uma festa bem menos potente do que os anos anteriores à pandemia — o que acaba sendo uma surpresa, visto a expectativa para o retorno presencial de um evento que tanto pulsa nesse formato.

Ainda há detalhes a serem revelados, como os homenageados dos troféus Oscarito e Kikito de Cristal, além dos concorrentes da recém inaugurada competição de longas-metragens documentais, e torço para que eles tragam um sentimento maior de celebração ao meio século de história deste festival ininterrupto.

Quanto à seleção em si, minha curiosidade fica com A Mãe, de Cristiano Burlan, que pode muito bem render um segundo Kikito de melhor atriz para Marcélia Cartaxo. Também ficarei de olho em Noites Alienígenas, filme do Acre sobre a periferia da Amazônia urbana. Marte Um, que assisti no último Festival de Sundance, é certamente outro destaque da programação.

Entre os títulos estrangeiros, é boa a notícia de que Gramado volta a incluir sete filmes na competição, uma boa evolução considerando que, em 2021, foram quatro os longas na corrida pelo Kikito. Em seu primeiro ano como curadora, Dira Paes promete que, levando em consideração os longas concorrentes, essa será uma das edições mais inesquecíveis do Festival. Desde já, fico na expectativa para que ela esteja certa! Mais informações no site oficial do evento.

Confira a lista dos filmes selecionados:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
O Clube dos Anjos (RJ), de Angelo Defanti
A Mãe (SP), de Cristiano Burlan
Marte Um (MG), de Gabriel Martins
Noites Alienígenas (AC), de Sérgio de Carvalho
O Pastor e o Guerrilheiro (DF), de José Eduardo Belmonte
A Porta ao Lado (RJ), de Julia Rezende
Tinnitus (SP), de Gregório Graziosi

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
9 (Argentina), de Martín Barrenechea e Nicolás Branca
La Boda de Rosa (Espanha/França), de Iciar Bollain
Cuando Oscurece (Argentina/Uruguai), de Néstor Mazzini
El Camino de Sol (México), de Claudia Sainte-Luce
Inmersión (Chile/México), de Nicolas Postiglione
La Pampa (Peru/Chile/Espanha), de Dorian Fernández Moris
O Último Animal (Portugal/Brasil), de Leonel Vieira

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
5 Casas, de Bruno Gularte Barreto
Casa Vazia, de Giovani Borba
Campo Grande é o Céu, de Bruna Giuliatti, Jhonatan Gomes e Sérgio Guidoux
Despedida, de Luciana Mazeto e Vinícius Lope
Dog Never Raised – Cachorro Inédito, de Bruno de Oliveira

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Benzedeira (PA), de Pedro Olaia e San Marcelo
Deus Não Deixa (RJ), de Marçal Vianna
Fantasma Neon (RJ), de Leonardo Martinelli
Mas Eu Não Sou Alguém (SP), de Gabriel Duarte e Daniel Eduardo
O Elemento Tinta (SP), de Luiz Maudonnet e Iuri Salles
O Fim da Imagem (PR), de Gil Baroni
Ímã de Geladeira (SE), de Carolen Meneses e Sidjonathas Araújo
O Pato (PB), de Antônio Galdino
Serrão (MG), de Marcelo Lin
Socorro (PA), de Susanna Lira
Solitude (AM), de Tami Martins e Aron Miranda
Tekoha (SP), de Carlos Adriano
Último Domingo (RJ), de Joana Claude e Renan Barbosa Brandão
Um Tempo Para Mim (RS), de Paola Mallmann

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
A Diferença Entre Mongóis e Mongoloides, de Jonatas Rubert
Apenas Para Registro, de Valentina Ritter Hickmann
Drapo A, de Alix Georges e Henrique Lahude
Fagulha, de Jéssica Menzel e Jp Siliprandi
Johann e os Ímãs de Geladeira, de Giordano Gio
Mby´Á Nhendu — O Som do Espírito Guarani, de Gerson Karaí Gomes
Mora, de Sissi Betina Venturin
Madrugada, de Leonardo da Rosa e Gianluca Cozza
Nação Preta do Sul — O Curta, de Nando Ramoz e Gabriela Barenho
Nós Que Fazemos Girar, de Lucas Furtado
O Abraço, de Gabriel Motta
Olho Por Mim, de Marcos Contreras
Perfection, de Guilherme G. Pacheco
Possa Poder, de Victor Di Marco e Márcio Picoli
Sinal de Alerta Lory F, de Fredericco Restori
Sintomático, de Marina Pessato
Tudo em Constante Movimento, de Cristine de Bem e Canto

Rapidamente: “8 Presidentes, 1 Juramento”, “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, “Os Olhos de Tammy Faye” e “Spencer”

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Spencer chega ao catálogo do Prime Video no dia 1º de julho.

8 PRESIDENTES, 1 JURAMENTO: A HISTÓRIA DE UM TEMPO PRESENTE (idem, 2021, de Carla Camurati): Após 15 anos sem dirigir um longa-metragem, a cineasta Carla Camurati volta ao ofício com uma ideia tão ambiciosa quanto impossível: a de recuperar, por meio de materiais de arquivo, todo o período da redemocratização brasileira, partindo do movimento das Diretas Já até chegar à posse do presidente Jair Bolsonaro. 8 Presidentes, 1 Juramento se encaixa, portanto, em uma necessária onda de documentários brasileiros que, nos últimos anos, têm se debruçado sobre a trajetória política do nosso país e tentado entender como chegamos a um momento tão crítico e de tantos déficits civilizatórios. A constatação do filme não ter nada de muito novo a dizer em comparação a outros trabalhos como O Processo, Democracia em Vertigem e Alvorada é equilibrada pela robusta pesquisa de acervo jornalístico trabalhada pela cineasta como fio condutor. Sem depoimentos ou tomadas produzidas originalmente para o documentário, Camurati atravessa décadas da política brasileira com registros históricos que mostram o quanto mudamos muito pouco como sociedade e como sistema político. É desolador ver como boa parte das tragédias vividas nos dias de hoje já haviam, em certa medida, sido desenhadas no mandato do ex-presidente Fernando Collor de Mello, por exemplo, a começar pela idolatria por uma figura esvaziada e fabricada. As imagens falarem por si só tem seus prós e contras: de um lado, o retrato cru e incômodo de um país imaturo politicamente, o que favorece a força dramática do filme; de outro, um formato por demais parecido com uma retrospectiva jornalística – e não com um exercício cinematográfico propriamente dito. No desafio impossível que abraçou, Camurati fica em um meio termo.

DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA (Doctor Strange in the Multiverse of Madness, 2022, de Sam Raimi): Olhando em retrospecto, o primeiro Doutor Estranho envelheceu muito mal junto ao público, e não consigo entender muito bem as razões, pois sempre o considerei um dos trabalhos mais criativos e menos pasteurizados do universo cinematográfico da Marvel. Já esse volume estreou repleto de expectativas em função da entrada de Sam Raimi na direção e de explorar tão aguardado conceito de multiverso apresentado pela primeira vez em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa. E não é que, no frigir dos ovos, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura me parece bem menos original do que poderia (e merecia) ser? Raimi garante uma certa cota de escolhas fora da curva, como o tratamento sanguinolento e os tons de terror dados à personagem Wanda (Elizabeth Olsen), remontando, claro, às referências que lhe consagraram no gênero. Entretanto, é frustrante que a Marvel não tenha dado ainda mais liberdade criativa ao diretor, atirando em seu colo as voltas e mais voltas de uma história bem menos engenhosa do que se julga e o conceito de multiverso mais como um fan service para animar plateias do que como uma ferramenta para explorar potenciais de originalidade. Nesta altura do campeonato, resta aceitar que, mesmo convocando realizadores como Raimi, a Marvel aproveitará o melhor deles aqui e ali, mas, à parte quem estiver atrás das câmeras, ela nunca, em hipótese alguma, abrirá mão da palavra final. Para testemunhar o que é aproveitar de verdade a ideia dos multiversos, a dica não poderia ser outra: Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, um dos eventos cinematográficos do ano.

OS OLHOS DE TAMMY FAYE (The Eyes of Tammy Faye, 2021, de Michael Showalter): Sempre foi uma fixação do cinema hollywoodiano, mas as cinebiografias para lá de formais e previsíveis ganharam nova tração nos últimos anos, a ponto de um filme tão genérico e mal recebido como Os Olhos de Tammy Faye ser capaz de dar o Oscar a atrizes nada quadradas como Jessica Chastain. Na pele da televangelista que dá título ao longa, Chastain, como é de praxe, está visivelmente entregue em todas as cenas e é, do início ao fim, o que existe de melhor em um projeto pouco compromissado com as complexidades de uma personagem tão particular. É interessante perceber como as mais recentes cinebiografias estão se empenhando em higienizar ao máximo suas protagonistas, como se houvesse algo de muito errado em mostrar ao público tudo aquilo que, no melhor dos cenários, engradeceriam as produções do gênero em termos de complexidade. Falo aqui das imperfeições e contradições de pessoas como a própria Tammy Faye, que, de estrela televisiva, sucumbiu a uma vida de falência, escândalos e traições envolvendo o marido. Ao mesmo tempo em que Chastain cumpre o dificílimo trabalho de não tornar Tammy uma caricatura fácil, vencendo as pesadas próteses e maquiagens, o longa insiste em livrá-la de todo tipo de problematização. Com isso, o roteiro adota tanto a saída fácil de vilanizar personagens como o Jim Bakker de Andrew Garfield quanto a de imacular uma protagonista que, dada essa abordagem, termina por ser retratada como uma mocinha injustiçada e alheia ao que acontece na sua volta, quando, na verdade, é difícil acreditar nisso. Tamanho empenho em inocentá-la teria seria melhor aplicado ao propósito de fazer de Os Olhos de Tammy Faye um relato no mínimo mais multidimensional.

SPENCER (idem, de Pablo Larraín): A personagem do momento para filmes e seriados é, sem dúvida, a inesquecível princesa Diana, recentemente retratada no documentário The Princess e vivida por Emma Corrin em The Crown, seriado em que Elizabeth Debicki também dará vivida à personagem na quinta temporada. Mas quem conseguiu ter a personificação mais celebrada de Diana foi Kristen Stewart em Spencer, a campeã de prêmios de melhor atriz entre associações de críticos na última temporada. Com muita justiça, Stewart foi indicada ao Oscar por esta cinebiografia de traços já reconhecíveis dentro da carreira do cineasta chileno Pablo Larraín (Jackie), mas que foge ao gosto popular justamente por não seguir a cartilha de uma imensa fileira de outras produções do gênero. Há muita imaginação no roteiro escrito por Steven Knight (Senhores do Crime, Coisas Belas e Sujas), e ela é bem-vinda: da catarse tão lógica e necessária presente no desfecho ao modo como recria relações e confissões que jamais saberemos se procedem ou não, o texto captura o estado de espírito de uma mulher assombrada pelo peso de uma vida que nunca quis para si. É um aprisionamento também traduzido em cada inflexão do filme, passando pelo grandioso design de produção tão claustrofóbico para Diana à trilha sonora magnificamente nervosa do sempre inovador Jonny Greenwood. Nada é por acaso em Spencer — e, para quem estiver disposto a ver além do que costuma estar posto, há muito o que se descobrir entre todas as camadas.

Melhores de 2021: roteiros, direção e filme

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MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)

O que mais admiro em adaptações teatrais para o cinema é a capacidade de um roteiro conseguir tirar o melhor da natureza dos palcos e eliminar tudo o que poderia parecer um teatro filmado. Meu Pai faz isso com louvor. Transpondo um texto muito premiado na Europa — Lé Père, vencedor do prestigiado Moliére de melhor peça em 2014 — Christopher Hampton e Florian Zeller transformam o material original de autoria do próprio Zeller em uma grande imersão a partir de elementos que, nas mãos erradas, poderiam limitá-lo: um único cenário, pouquíssimos personagens, ação centrada em diálogos, etc. Zeller foi certeiro ao chamar Hampton para esse trabalho, visto que ele é um mago das adaptações — afinal de contas, não é qualquer roteirista de Hollywood que tem na conta filmes como Ligações PerigosasDesejo e Reparação. Juntos, eles entregam um roteiro de grandes dimensões emocionais e de desdobramentos e surpresas que acompanham o espectador até o último minuto de projeção, quando Meu Pai encerra a sua dolorosa jornada com o momento de maior baque emocional de 2021.

DRUK

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm
(Druk: Mais Uma Rodada)

Para o espectador mais desavisado, Druk: Mais Uma Rodada pode soar como uma divertida brincadeira, pois a arrancada se dá a partir da descoberta de um estudo sobre como precisamos compensar um déficit de álcool no sangue para equilibrar a vida cotidiana. Só que há uma virada de chave na euforia vivida pelos quatro amigos que abraçam essa teoria, e Druk passa a refletir sobre o que pode ter levado os personagens a buscarem por algum tipo de ânimo em seus dias. Para tanto, o roteiro escrito por Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm mergulha nas crescentes doses alcoólicas de Martin (Mads Mikkelsen) e transforma brincadeira em melancolia. O âmago do roteiro é essa acertada decisão de tentar entender como os personagens foram descaracterizando as suas próprias vidas ao ponto de precisarem de alguns goles de vodka já no café da manhã para voltarem a brilhar. Vinterberg e Lindholm se movimentam por essa premissa com profundidade e humanidade, preocupados em manter a palpabilidade desses quatro homens entre o drama e a comédia, regadas pelas habituais inteligências do cinema dinamarquês.

directingcampion

MELHOR DIREÇÃO
Jane Campion (Ataque dos Cães)

Aproximando-se dos 70 anos de idade, a cineasta Jane Campion diz que já começa a pensar no seu legado. Mais do que olhar para trás, o que importa, segundo ela, é fazer filmes surpreendentes e sem amarras daqui para frente. Ataque dos Cães já é um deles. Não que outros trabalhos de Campion não o sejam, mas esse longa que lhe rendeu o Leão de Prata de melhor direção em Veneza e, posteriormente, o Oscar na mesma categoria representa algo novo em sua carreira: pela primeira, ela conta uma história centrada em uma figura masculina. E o faz, claro, surpreendendo, como bem quer fazer. Após conseguir viabilizar a adaptação do livro homônimo de Thomas Savage que já havia sido planejada pelo menos cinco vezes, Campion imediatamente procurou Annie Proulx, autora do conto que deu origem a O Segredo de Brokeback Mountain para apurar seu olhar sobre um projeto que gosta de enxergar como uma espécie de pós-western. Esse seu comprometimento com a inovação é o que faz de Ataque dos Cães um filme único. Campion recusa ferramentas fáceis e confia na capacidade do público de entrar na psique dos personagens, revelando-os pouco a pouco. Por meio de nuances e de uma rigorosa atmosfera, ela dá aula sobre como as reticências podem ser muito mais poderosas do que qualquer manipulação fabricada.

thefatherbmovie

MELHOR FILME
Meu Pai

Meu Pai pode muito bem ser considerado o filme definitivo sobre demência que o cinema de língua inglesa tenta fazer há muitos anos. Escapa à memória qualquer projeto tão devastador e imersivo como esse assinado pelo diretor Florian Zeller, adaptando um espetáculo teatral de autoria própria. Encharcado de terror ao colocar o espectador diante de um destino de vida do qual ninguém está livre, Meu Pai é um exercício de empatia executado com maestria, da interpretação magistral de Anthony Hopkins a detalhes técnicos que se revelam fundamentais para a narrativa, como a montagem e o design de produção. Também transfere um texto teatral para o cinema sem cacoetes tão comuns em adaptações dessa natureza, muito em função da parceria de Zeller com Christopher Hampton no roteiro. É o tipo de filme que perdurará como um relato avassalador da demência, mas, acima de tudo, como um verdadeiro exemplo de como ainda é possível revolucionar o relato de temas desgastados por fórmulas e impressionar cinematograficamente sem maneirismos ou distrações.

Melhores de 2021: categorias de intepretação

THE POWER OF THE DOG

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)

É praticamente impossível entender o que se passa na mente de Peter, o jovem vivido por Kodi Smit-McPhee que acaba girando as engrenagens de Ataque dos Cães. Alto e esguio, ele parece se movimentar em um universo próprio, revelando-se aos poucos para o espectador e comunicando muito através da linguagem corporal. Para além da questão física, Smit-McPhee brilha por compreender que seu personagem não tem um arco propriamente dito: o que ele faz é estimular e intrigar a plateia com um jovem cujas grandes transformações aconteceram na vida pregressa ao início do filme. Traumas, inseguranças e receios relacionados à sua essência já surgem resolvidos em Ataque dos Cães, e é justamente essa segurança de ser quem ele é que desestabiliza Phil (Benedict Cumberbatch). Entre a delicadeza de ser o filho que zela pela própria mãe e os movimentos sinuosos de uma personalidade bastante particular, o ator dá conta de várias questões sobre ideais de masculinidade ainda muito presentes e confere complexidade a um personagem laudatório das melhores qualidades de Ataque dos Cães.

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MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jessie Buckley (A Filha Perdida)

Interpretando a mesma personagem, mas em momentos diferentes de vida, Jessie Buckley e Olivia Colman nunca sentaram para conversar ao longo de toda a realização de A Filha Perdida. Inclusive, elas não acreditavam em tal necessidade — o que muito agradou a diretora Maggie Gyllenhaal, que organizou os distintos recortes da protagonista Leda como se elas fossem ecos, previsões e reminiscências de uma vida marcada pela inadequação ao que a sociedade exige das mulheres, especialmente daquelas que se tornam mães. Buckley é uma maravilhosa escalação para a versão nova da personagem porque, claro, é boa atriz, e porque tem instintos parecidos com os de Olivia Colman no que tange escolha de projetos e o tipo de papeis que gosta de interpretar. Sem jamais julgar Leda, ela já dá pistas dos sentimentos e das circunstâncias que a moldaram, equilibrando-se nessa eterna corda bamba que a vida nos coloca de sermos capazes de fazer tanto escolhas boas quanto ruins. É mais um atestado bastante claro e instigante de que Jessie Buckley está entre as melhores atrizes de sua geração.

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MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)

Anthony Hopkins disse em várias entrevistas que foi muito fácil fazer Meu Pai. Sua teoria é de que Florian Zeller e Christoper Hampton escreveram um roteiro tão extraordinário e Olivia Colman foi uma parceira tão ímpar em cena que tudo o que ele precisava fazer era se deixar levar. Se realmente foi tão fácil como Hopkins diz, só podemos deduzir que o foi porque, à parte o talento, há coisas que um ator conquista apenas com a experiência, entre elas, a capacidade de encarar desafios com naturalidade. Sem nunca ter tido uma experiência próxima envolvendo Alzheimer ou doenças do gênero, o ator, apesar disso, colocou-se na pele do protagonista como se tivesse acompanhado uma história como essa de perto. O olhar profundo e generoso com que ele abarca um complicadíssimo dilema do qual ninguém está livre (o que fazer quando as pessoas que você ama começam a perder as suas estruturas?) é de partir o coração, principalmente porque o protagonista, preso na ideia de que está seguro de si como sempre esteve a vida inteira, luta para tentar dar algum sentido ao que acontece já não consegue mais entender. Tenho sempre muita cautela ao afirmar que determinado desempenho é o melhor da carreira de alguém. No entanto, no caso de Anthony Hopkins em Meu Pai, a exceção pode ser feita sem qualquer medo.

THE LOST DAUGHTER. OLIVIA COLMAN as LEDA. CR. COURTESY OF NETFLIX

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman (A Filha Perdida)

Resumidamente, a expressão norte-americana taken for granted seria como o ato de tomar algo como certo ou garantido, sem que fosse digno de maior atenção e celebração por já ter se consolidado o suficiente. Pode ser uma percepção prematura, mas desconfio que Olivia Colman, assim como tantas outras atrizes extraordinárias, já se encaixe no taken for granted por ter recebido um Oscar dos mais justos por A Favorita e por não ter errado a mira depois de tal celebração, participando de séries como The CrownFleabag ou do extraordinário Meu Pai, filme em que atuou ao lado de Anthony Hopkins. É apenas esse taken for granted que explica o fato de Olivia não ter varrido premiações e festivais com a sua performance em A Filha Perdida. Olivia traz entendimento e camadas a uma personagem difícil de definir e de gostar, evitando transformá-la em uma louca e, ao mesmo tempo, renegando a ideia de torná-la palatável ao público. A Leda mais madura da atriz e interpretada na juventude por Jessie Buckley carrega remorsos e (in)certezas traduzidos em cada inflexão de uma intérprete com a rara capacidade de sempre surpreender, impactar e fazer com que tudo pareça tão natural. Celebrar Olivia Colman nunca deve ser demais.

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MELHOR ELENCO
Shiva Baby

São muitas as variáveis que podem definir um bom elenco. Número de atores? Sinergia entre eles? Equivalência na grandeza de interpretações? Acertos em todas as escalações? Ao meu ver, não há uma resposta certa. Há elencos excepcionais que, formados por apenas três ou quatro pessoas, garantem aulas de atuação, como em Dúvida, premiado nessa respectiva categoria aqui no blog, e há casos como o de Shiva Baby, que conjuga de tudo um pouco, passando por um número volumoso de atores, pela excelente dinâmica estabelecida entre eles e por um grande equilíbrio de talentos. Encabeçado pela performance reveladora de Rachel Sennott (apenas em seu segundo longa-metragem, mas demonstrando um domínio singular), o elenco de Shiva Baby se engrandece ao tornar crível a dinâmica de uma família deveras particular e repleta de personalidades tão distintas quanto complementares, com particular também para Polly Draper, que interpreta a mãe da protagonista. Em pouco menos de 80 minutos, todos têm papel fundamental na construção do grande sentimento de claustrofobia que permeia o longa de estreia de Emma Seligman.

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