Cinema e Argumento

Melhores de 2019 – Maquiagem & Penteados

Nadia Stacey foi surpreendida pelo diretor Yorgos Lanthimos quando ele descartou a pesquisa histórica realizada por ela e afirmou que seu objetivo não era rodar um filme de época parecido com tantos, mas sim fazer algo completamente autêntico, a serviço da história e dos personagens. Nadia entendeu o recado: ainda que fiel à identidade da época retratada pelo roteiro, sua proposta foi explorar possibilidades fora da curva dentro de um universo particular. A base dessa transgressão está no claro contraste de caracterização entre figuras masculinas e femininas: enquanto Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz usam o mínimo possível de maquiagem para ressaltar a transparência das mulheres, os homens surgem com perucas montanhosas e cores espalhafatosas, evidenciando a personalidade infantil e imatura de personagens masculinos preocupados com poder e aparências. É um belo exemplo de como Nadia Stacey abraça a carta branca para escantear a caretice tão habitual de filmes de época, conceito que também permeia A Favorita como um todo. Ainda disputavam a categoria: Hebe – A Estrela do Brasil, O Irlandês, Rocketman e A Vida Invisível.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Pantera Negra | 2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Ave, César! | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – A Morte do Demônio | 2012 – A Dama de Ferro (primeiro ano da categoria)

Os vencedores do Oscar 2020

Bong Joon-ho subiu quatro vezes ao palco do Dolby Theatre para receber os prêmios de Parasita em melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional.

Novos tempos pareciam chegar em Hollywood quando o Oscar premiou Moonlight em 2017. Um filme independente, dirigido por um cineasta negro e preocupado com causas importantíssimas com a devida representatividade? Coisa rara. No entanto, eis que dois anos depois, o Oscar premiava Green Book, um longa incrivelmente empoeirado que discutia questões raciais como se estivesse nos anos 1970, trazendo novamente o white savior para aliviar a consciência das plateias brancas em relação ao racismo. De que adiantou, portanto, premiar Moonlight se, logo em seguida, houve tamanho retrocesso com Green Book?

A partir desse cenário, era de se esperar que o Oscar 2020 seguisse a tendência de todos os outros prêmios e premiasse 1917, mais um filme de guerra estrelado por pessoas brancas e reverenciado pelo grandioso espetáculo técnico que Hollywood gosta de premiar. Contudo, eis que a Academia, em um surto raro de lucidez, dá a volta por cima e consagra Parasita com as estatuetas de melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional. Em 92 anos, o Oscar nunca havia premiado uma produção de língua não-inglesa na categoria principal. História foi feita. E Hollywood, de repente, saiu de seu próprio umbigo para descobrir que cinema é uma linguagem universal, independentemente de legendas. Não nos iluda, Academia. Isso precisa ser o sinal de novos tempos.

O que tal vitória de fato significa para o futuro e para a própria indústria hollywoodiana só o tempo poderá dizer, mas, a curto prazo, a vitória de Parasita dita tendências muito claras quando coloca os Estados Unidos a reverenciar uma produção asiática que transita pelos mais diferentes gêneros. Foi a compensação perfeita para uma cerimônia esquizofrênica do ponto de vista de entretenimento. Como explicar, por exemplo, Eminem cantando Lose Yourself sem a menor explicação em pleno 2020? Ou então o número de abertura que tem a cara de pau de fazer referências a MidsommarNósMeu Nome é Dolemite, filmes que sequer foram indicados em qualquer categoria? Excessivamente musical, assistir ao Oscar 2020 como um programa de TV foi uma tortura.

Na reta final, a situação mudou de cenário quando a cerimônia se dedicou mais aos prêmios e deixou os vencedores falarem (Renée Zellweger e, especialmente, Joaquin Phoenix deram discursos marcantes, desobedecendo o tempo limite de fala de 45 segundos). Ainda há muito o que se falar sobre o Oscar 2020, que, por exemplo, fez O Irlandês de Martin Scorsese sair de mãos abanando enquanto entregava duas estatuetas preguiçosas para Ford vs. Ferrari. Entretanto, por ora, a euforia com as vitórias sem precedentes de Parasita sintetizam muito bem as incríveis lembranças que ficam da cerimônia. Digam o que quiser do Oscar, mas, para o bem ou para o mal, ele segue sendo o prêmio mais autêntico e surpreendente da temporada.

Plateia do Oscar 2020 se mobiliza com a celebração de Parasita.

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Parasita
MELHOR DIREÇÃO: Bong Joon-ho (Parasita)
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALParasita
MELHOR ROTEIRO ADAPTADOJojo Rabbit
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Parasita
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Indústria Americana
MELHOR ANIMAÇÃO: Toy Story 4

MELHOR TRILHA SONORA: Coringa
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
MELHOR MONTAGEM: Ford vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Era Uma Vez Em… Hollywood
MELHOR FOTOGRAFIA: 1917
MELHOR FIGURINOAdoráveis Mulheres

MELHOR MIXAGEM DE SOM1917
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Ford vs. Ferrari
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOSO Escândalo
MELHORES EFEITOS VISUAIS1917
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Neighbors’ Widow
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
: Hair Love
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)

Apostas para o Oscar 2020 (e também palpites, impressões e preferências acerca dos indicados)

Mais curta do que o habitual (ainda bem, especialmente quando os vencedores são sempre os mesmos!), a temporada de premiações deste ano chega ao fim neste domingo (09), quando o Oscar revela os vencedores de sua 92ª edição. O histórico recente da Academia acusa a possibilidade de surpresas em comparação a maioria dos outros prêmios televisionados (Birdman, A Forma da Água e Green Book contrariaram o franco favoritismo de seus respectivos adversários), mas, até que se prove o contrário, 1917 é o filme a ser batido na cerimônia de 2020. Novamente sem apresentador (ano passado aprendemos que isso não faz diferença alguma), o Oscar será transmitido a partir das 22h aqui no Brasil pela TNT. Para quem curte o tapete vermelho, a transmissão no canal começa às 21h. Já a Globo terá transmissão ao vivo e gratuita pelo G1 e pela Globoplay, dando início a sua cobertura às 20h. Até lá, como forma de tentar antecipar o que pode acontecer na cerimônia, deixo alguns comentários e impressões sobre as categorias, bem como as minhas preferências em cada caso. E não esqueçam: nos encontramos logo mais para comentar os vencedores!

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Parasita pode fazer história como a primeira produção em língua não-inglesa a faturar o Oscar de melhor filme, mas será mesmo que é possível desbancar 1917?

MELHOR FILME
Ainda sinto falta do tempo em que somente cinco filmes concorriam ao grande prêmio da noite. Com a possibilidade de até dez produções serem indicadas, sempre fica muito claro aquelas que estão sobrando na disputa. Apesar disso, essa parece ser a seleção mais equilibrada em anos, deixando a preferência, claro, para a identificação e o gosto pessoal de cada um. Não gosto de Era Uma Vez Em… Hollywood, que traz Quentin Tarantino mais uma vez afundado em longos excessos. Admiro determinados pontos de O Irlandês, mas não é o tipo de filme que me empolga ou muito menos me fascina. O franco favorito 1917 é um espetáculo técnico irrepreensível, só que tudo é tão planejado e ensaiado que acaba sem espontaneidade. Coringa, que é o líder de indicações, foi mais admirado do que deveria (são exageradas as menções em figurino e maquiagem, por exemplo), mas é uma produção que defendo por revigorar as fórmulas de filmes baseados em quadrinhos. Tenho um carinho imenso por Adoráveis Mulheres e fico feliz de ver um filme tão “simples” quanto História de Um Casamento chegar a esse nível de celebração. De qualquer maneira, nem somados esses filmes (e mais Ford vs. FerrariJojo Rabbit) chegam perto do impacto de Parasita. É um filmaço que ainda será muito reverenciado e citado. Tomara que os votantes se atentem a esse marco instantâneo e finalmente premiem pela primeira vez uma produção “estrangeira” na categoria principal.

MELHOR DIREÇÃO
É praticamente impossível Sam Mendes perder o Oscar de melhor direção, tanto pelos prêmios acumulados até aqui (Globo de Ouro, BAFTA, Sindicato dos Diretores e Critic’s Choice) quanto pelo fato de que a Academia adora um trabalho de “curiosidades”, onde cineastas falam pelos cotovelos sobre as dificuldades de produção, os meses de preparação e os contorcionismos para alcançar determinadas proezas técnicas. Como sempre, os prêmios gostam de mais direção e não da melhor direção. Tendo admirado a direção de Mendes pela técnica e não pela emoção, meu voto seria outro, e novamente destinado a Parasita. O que Bong Joon-ho faz praticamente em um único cenário, transitando entre gêneros tão diferentes, é coisa de mestre. Ele tem o espectador na mão durante todo o desenrolar da trama, sem precisar de muitas firulas para fazer um grande filme. Sua direção é de um rigor impressionante, embalada em um discurso urgente para o caos político e social que vivemos atualmente.

Com a melhor performance de sua carreira em Dor e Glória, Antonio Banderas chega pela primeira vez ao Oscar.

MELHOR ATRIZ
A seleção mais fraca da categoria em muitos anos, e não por falta de opção: Lupita Nyong’o, por exemplo, poderia estar facilmente concorrendo por Nós, mas a Academia segue com dificuldades em reconhecer atrizes negras fazendo papéis que não são marginalizados ou sobre o período da escravidão (não à toa, justamente, a única interpretação negra na disputa entre todas as categorias de atuação este ano é a de Cynthia Erivo em Harriet). Com o que temos, torna-se impossível ter outra alternativa a não ser premiar Renée Zellweger por seu belo desempenho em Judy: Muito Além do Arco-Íris. É muito tocante a simbologia desse reconhecimento, por motivos que já discuti na crítica que escrevi para o filme. Ela não tem disputa, seja por merecimento ou por chances de vitória: a transformação de Charlize Theron é impressionante em O Escândalo, Scarlett Johansson tem um dos papéis de sua vida em História de Um Casamento e Saoirse Ronan segue trilhando uma bela carreira com Adoráveis Mulheres, mas Renée está um degrau acima.

MELHOR ATOR
O marasmo entre as atrizes é compensado pela seleção de atores. É óbvio e justo que Joaquin Phoenix vença por Coringa (além de ser uma interpretação muito autêntica, a celebração é uma boa reparação histórica para esse ator que sempre colecionou desempenhos marcantes), o que não deve ser motivo para diminuir seus concorrentes. Adam Driver tem o melhor momento de sua trajetória até aqui com História de Um Casamento, onde ele é grandioso fazendo o papel de um homem comum. Jonathan Pryce faz uma dobradinha incrível com Anthony Hopkins em Dois Papas, assim como Leonardo DiCaprio tem um excelente momento com Brad Pitt em Era Uma Vez Em… Hollywood. Entretanto, talvez seja Antonio Banderas o ator que ficará no meu coração com Dor e Glória. É o tipo de performance cuja indicação por si só já é uma vitória, a exemplo do que aconteceu com Charlotte Rampling em 45 Anos e Marion Cotillard em Dois Dias, Uma Noite. Em todos os casos, a Academia jamais premiaria desempenhos tão sutis, econômicos e interiorizados. 

Florence Pugh, que concorre a melhor atriz coadjuvante, é um dos destaques de Adoráveis Mulheres.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Fico chateado com a futura vitória de Laura Dern (História de Um Casamento) por inúmeras razões. Primeiro porque é prêmio de carreira e não de performance, o que é sempre desestimulante, especialmente quando acontece com grandes atrizes. Segundo porque ela sequer está entre as melhores performances do filme (além de Scarlett e Driver, ainda faltaram as devidas lembranças para Alan Alda). Terceiro porque o papel não tem vida própria, muito menos um arco dramático. E, por fim, Dern repete nele o que já havia feito em Big Little Lies. O quinteto selecionado não é dos mais fortes (se tivesse que escolher, votaria em Florence Pugh por Adoráveis Mulheres ou em Kathy Bates por O Caso Richard Jewell), e talvez essa seja a grande razão para o favoritismo de Laura. Entre as ausências, muito se fala em Jennifer Lopez, que, na verdade, tem praticamente o mesmo tempo de tela da protagonista Constance Wu em As Golpistas, mas, nesse limiar entre protagonista e coadjuvante, eu ficaria com Octavia Spencer em Luce, onde ela nunca esteve tão boa.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Reduto de prêmios para quitar dívidas e consagrar protagonistas que desejam ganhar Oscar mas não têm chances em sua respectiva categoria, o segmento de coadjuvantes ganha outra seleção altamente duvidosa ao estilo do ano em que Rooney Mara (Carol) e Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa) concorreram com duas escandalosas fraudes de categoria. Em 2020, temos pelo menos dois protagonistas concorrendo como coadjuvantes: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood) e Anthony Hopkins (Dois Papas), com o primeiro sendo favoritíssimo para levar o Oscar. Como tenho aversão a fraudes de categoria, sequer incluiria os dois na disputa, por melhores que sejam os desempenhos. Com isso, sobram os dois coadjuvantes de O Irlandês (Joe Pesci e Al Pacino) e Tom Hanks em Um Lindo Dia na Vizinhança. Ficaria com Al Pacino, que tem um dos melhores personagens do filme de Martin Scorsese e rouba as atenções toda vez que entra em cena. Vale lembrar ainda duas performances esquecidas e dignas de estarem aqui: Song Kang-ho por Parasita e Sam Rockwell por O Caso Richard Jewell. 

OUTRAS CATEGORIAS
Temos duas brigas interessantes entre os roteiros. Na categoria original, Quentin Tarantino vinha colecionando estatuetas nos prêmios televisionados (levou o Globo de Ouro e o Critics’ Choice), mas, nas últimas semanas, viu Parasita brilhar no BAFTA e no Sindicato dos Roteiristas. Fico, obviamente, com a produção sul-coreana. Já em roteiro adaptado, tudo indica que Jojo Rabbit leve a melhor, mas desconfio que Adoráveis Mulheres possa surpreender, beneficiado pelas amplas críticas que seguem sendo feitas a um circuito de premiações sem muita representatividade. Seria a chance de compensar o fato de Greta Gerwig não ter levado nenhum prêmio por Lady Bird e também a absurda estatística de que nenhuma mulher ganhou Oscar roteiro nos últimos dez anos. Entre as categorias técnicas, uma boa quantidade de estatuetas deve ir para 1917, entre elas fotografia, edição de som, mixagem de som, design de produção e efeitos visuais. Animação está entre Toy Story 4Klaus. Documentário tem a disputa centrada entre For Sama Honeyland, mas com boas chances de Democracia em Vertigem surpreender (não é bairrismo: lembram como o cenário político entregou o Oscar de melhor filme estrangeiro para O Apartamento em 2017?).

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Confira abaixo a nossa lista de apostas:

APOSTAS

MELHOR FILME: 1917 / alt: Parasita
MELHOR DIREÇÃO: Sam Mendes (1917) / alt: Bong Joon-ho (Parasita)
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris) / alt: Scarlett Johansson (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa) / alt: Adam Driver (História de Um Casamento)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento) / alt: Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood) / alt: Al Pacino (O Irlandês)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALParasita / alt: Era Uma Vez Em… Hollywood
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Jojo Rabbit / alt: Adoráveis Mulheres
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Parasita / alt: Dor e Glória
MELHOR DOCUMENTÁRIO: For Sama / alt: Democracia em Vertigem
MELHOR ANIMAÇÃO: Toy Story 4 / alt: Klaus

MELHOR TRILHA SONORA: Coringa / alt: 1917
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman) / alt: “Stand Up” (Harriet)
MELHOR MONTAGEM: Parasita / alt: Ford vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: 1917 / alt: Parasita
MELHOR FOTOGRAFIA: 1917 / alt: Coringa
MELHOR FIGURINO: Adoráveis Mulheres / alt: Jojo Rabbit

MELHOR MIXAGEM DE SOM: 1917 / alt: Ford vs. Ferrari
MELHOR EDIÇÃO DE SOM1917 / alt: Ford vs. Ferrari
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Escândalo / alt: Judy: Muito Além do Arco-Íris
MELHORES EFEITOS VISUAIS: 1917 / alt: Vingadores: Ultimato

Rapidamente: “Um Dia de Chuva em Nova York”, “Ford vs. Ferrari”, “As Golpistas” e “História de Um Casamento”

Constance Wu e Jennifer Lopez em As Golpistas: filme dirigido por Lorene Scafaria é tudo aquilo que Oito Mulheres e Um Segredo deveria ter sido.

UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (A Rainy Day in New York, 2019, de Woody Allen): A Amazon não pensou duas vezes antes de colocar Um Dia de Chuva em Nova York na geladeira quando as problematizações envolvendo o passado de Woody Allen ressurgiram durante a era #MeToo. Finalmente revelado ao mundo após um processo do diretor contra a plataforma, o filme sai da geladeira direto para o esquecimento: com um roteiro repetitivo, apático e cansativo, Woody Allen recicla várias de suas marcas sem nenhuma inspiração, colocando abaixo a teoria de que mesmo os seus piores projetos são melhores do que muitos outros realizados por aí. Da interpretação inconvincente e recheada de tiques de Timothée Chalamet ao carrossel de coadjuvantes insípidos, Um Dia de Chuva em Nova York esbarra em táticas já empoeiradas de Allen, como a de traduzir nos personagens traços próprios de sua personalidade. O problema é que aqui estamos falando de protagonistas jovens, e por isso mesmo o linguajar erudito e as reflexões excessivamente filosóficas soam tão inverossímeis. Sem nem utilizar a geografia de Nova York com muita inspiração, Allen entrega uma trama das suas tramas mais cansativas, onde a única sequência arejada e envolvente é a do monólogo protagonizado por Cherry Jones. Frente a esse trabalho tedioso, o subestimado Roda Gigante, que Woody dirigiu anteriormente, tem as suas qualidades ainda mais evidenciadas. 

FORD VS. FERRARI (Ford v Ferrari, 2019, de James Mangold): Com um público-alvo muito bem definido, Ford vs. Ferrari não esconde a sua predileção por plateias brancas e masculinas, uma vez que não há qualquer traço de representatividade ou universalidade em sua concepção. A temática em si não deixa de ser limitadora: o mundo das corridas automobolísticas e toda a ganância de um contexto corporativo que faz duas grandes marcas do gênero se digladiarem dentro e fora das pistas. A partir dessa perspectiva, é importante perceber como Ford vs. Ferrari ignora a existência de qualquer pessoa negra, considera flatulências, socos e testículos como matéria-prima para o humor e desenvolve apenas uma personagem feminina, limitada a ficar mais da metade do filme apenas acompanhando as corridas do marido pela TV. Dramaticamente, os antagonistas são unidimensionais e pura caricatura, reforçando a falta de qualquer sutileza do filme. As cenas de corrida chegam a prender a atenção e refletem uma uma parte técnica bem acabada, assim como Christian Balese diverte à beça com seu personagem, mas tudo não vai muito além disso. Para quem não aprecia toda a testosterona envolvendo carros potentes, Ford vs. Ferrari faz jus a sua longuíssima metragem (152 minutos) e rende ao espectador um verdadeiro chá de cadeira. 

AS GOLPISTAS (Hustlers, 2019, de Lorene Scafaria): Em 2018, Oito Mulheres e Um Segredo tentou realizar um entretenimento protagonizado por mulheres que arquitetavam um grande assalto. Eventualmente, funcionava como passatempo, mas o roteiro era frágil, as personagens pouco desenvolvidas e o próprio assalto não transmitia nenhum senso de ameaça. Tudo isso, de certa forma, é compensado em As Golpistas, onde um grupo de strippers resolve passar a perna nos seus riquíssimos clientes de Wall Street quando eles deixam de frequentar o clube após a crise financeira que abalou os Estados Unidos entre 2007 e 2008. Com uma diretora mulher comandando a história, o cenário ultrapassa a barreira de um filme pop e feminino sobre trapaça para fazer inúmeros comentários sociais, seja sobre o papel das mulheres na sociedade (e como elas são julgadas por trabalhos tidos hipocritamente como indignos) ou sobre como o dinheiro é, para o bem e para o mal, um instrumento fundamental para definir nossa sobrevivência no mundo. Também autora do roteiro, Lorene Scafaria dirige As Golpistas harmonizando muito bem o senso de entretenimento e reflexão. É um feito raro e que ganha ótimos contornos com a ajuda de personagens femininas nunca objetificadas e sempre devidamente exploradas, com destaque para as duas protagonistas vividas com brilho por Constance Wu e Jennifer Lopez.

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO (Marriage Story, 2019, de Noah Baumbach): Uma das boas surpresas da temporada de premiações em 2020 foi ver um filme simples e cotidiano como História de Um Casamento conseguir indicações em várias das categorias principais de cada cerimônia. Nele, o diretor e roteirista Noah Baumbach volta ao tema da separação que ele próprio já havia abordado em A Lula e a Baleia a partir de uma outra proposta, agora centrado no casal em si e não nos efeitos que o divórcio traz aos filhos. Sem cenas mirabolantes, Baumbach encontra grandeza na simplicidade e, especialmente, nos desempenhos comoventes de Scarlett Johansson e Adam Driver. Na escala dos coadjuvantes, Laura Dern, Alan Alda e Ray Liotta exploram, com diferentes abordagens, o espírito danoso e competitivo que os advogados de divórcio inevitavelmente despertam em um momento delicado como esse. Cada conflito ou reflexão de História de Um Casamento está em momentos corriqueiros do dia a dia, estreitando a possibilidade de identificação do espectador com o filme. Franco e por vezes doloroso, o longa, contudo, tem sua maior maturidade ao apresentar personagens que não estão necessariamente em um período de tentar recuperar o que um dia tiveram. Ele encena outro momento: aquele em que, aos poucos, ambas as partes percebem a necessidade de seguir em frente e superar todo um passado, mesmo que ainda reconheçam o quanto amam um ao outro. Trata-se de uma circunstância difícil de ser absorvida na vida real, mas que História de Um Casamento debate com grande sinceridade.

“1917” e os efeitos do plano-sequência: ganha o fascínio ou a dispersão?

Hope is a dangerous thing.

Direção: Sam Mendes

Roteiro: Krysty Wilson-Cairns e Sam Mendes

Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Pip Carter, Andy Apollo, Paul Tinto, Josef Davies, Billy Postlethwaite, Gabriel Akuwudike

EUA/Reino Unido, Drama, 119 minutos

Sinopse: Os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são jovens soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Quando eles são encarregados de uma missão aparentemente impossível, os dois precisam atravessar território inimigo, lutando contra o tempo, para entregar uma mensagem que pode salvar cerca de 1600 colegas de batalhão. (Adoro Cinema)

Objeto de reflexões amplas e opostas entre teóricos do cinema como André Bazin e Jacques Aumont, o tão cultuado plano-sequência costuma comover plateias. Em linhas gerais, a ideia consiste na captura de determinada cena sem cortes aparentes, como se a câmera fosse exatamente a mesma ao longo de toda uma ação. Filmes recentes foram altamente elogiados pelo uso dessa técnica, como BirdmanO Regresso (não por acaso, ambos renderam ao mexicano Alejando González-Iñárritu o Oscar de melhor direção). Contudo, há uma diferença crucial entre eles e 1917, que agora tem rendido prêmios e aclamação mundial ao diretor Sam Mendes. Enquanto Iñárritu usava o plano-sequência em momentos pontuais, 1917 narra toda a sua história com essa linguagem, propondo a ideia de que o longa é contado em tempo real durante aproximadamente duas horas.

Como em tudo no cinema, partimos inevitavelmente para o campo da identificação. Tanto o espectador pode interpretar o ambicioso plano-sequência de 1917 como uma poderosa ferramenta de imersão quanto pode se distanciar do filme justamente em função dele. Afinal, onde fica a espontaneidade ou o espaço para a criação quando tudo foi tão planejado em detalhes, além de extensivamente ensaiado para que nada fugisse do controle? Sabemos, claro, que há diversos cortes camuflados, mas a lógica interna de que a história se desenvolve em um único plano exige sincronia e continuidade cirúrgicas. Informações dão conta de que os atores ensaiaram durante seis meses para que tudo fosse registrado da maneira como o diretor Sam Mendes havia imaginado. Por ser uma produção de ampla escala, qualquer erro nesse processo também custaria a 1917 uma boa quantia em dinheiro. 

Toda essa contextualização é importante para entender como não há espaço para naturalidade ou improviso em 1917. A experiência começa muito impressionante, e a sensação de imponência é preservada até o último minuto de projeção porque a equipe técnica reunida aqui é do mais alto nível. Entretanto, com o desenrolar da trama, logo se percebe cada intenção de Sam Mendes na construção desse espetáculo. É perceptível onde o diretor realizou algum corte (conte as cenas em que a tela fica escura de um ambiente para outro e você já terá uma boa noção) ou onde o roteiro, escrito por Mendes em parceria com Krysty Wilson-Cairns, planejou uma pausa reflexiva em meio à adrenalina. Se abrissemos 1917 como um mapa, veríamos cada fronteira dramática e cada movimento técnico desenhados de maneira muito clara. 

Uma comparação feita com fervor até aqui pela crítica e por aqueles que não embarcam na proposta é a de que o longa se assemelha muito a um videogame. E há verdade nisso: em tempo real, os personagens parecem avançar entre fases, enfrentando um desafio a cada novo ambiente explorado. Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) passam por trincheiras, escapam de tiros, enfrentam um desabamento subterrâneo, desbravam a noite, caem na lama, são levados pela forte correnteza de um rio, administram o surgimento de inimigos inesperados e, quando passam de determinadas fases, encontram até sargentos e generais interpretados por atores famosos como Colin Firth e Benedict Cumberbatch, todos remetendo aos personagens que surgem com explicações ou informações para um jogador ao concluir uma importante etapa de um game.

Em meio a essa lógica que só não entrega um joystick ao espectador para que ele controle a brincadeira, Dean-Charles Chapman e principalmente George MacKay fazem o possível para conferir algum tipo de profundidade aos protagonistas. O desafio é impossível de ser cumprido, pois 1917 está mais preocupado com suas virtudes técnicas do que com qualquer outra coisa, e por isso só resta aos atores a comunicação corporal entre tantas exigências físicas. Ainda é pouco: Chapman e MacKay não vão muito longe dramaticamente, e é até difícil lembrar o rosto de cada um após a sessão. Ambos são empenhados e comprometidos, é verdade, mas limitados à preparação física e aos ensaios de um filme cuja amplitude dramática está concentrada no tamanho da guerra.

Como exercício técnico, 1917 entrega o espetáculo prometido com o uso do plano-sequência: o mestre Roger Deakins se esbalda na direção de fotografia (a sequência noturna é de arrepiar e está entre as mais belas imagens já criadas por ele), Thomas Newman dá o tom clássico de um filme de guerra na trilha sonora e o cuidadoso trabalho de som do quarteto Mark Taylor, Oliver Tarney, Rachael Tate e Stuart Wilson contribui para todas as intenções de imersão do longa. Mendes foi muito mais feliz casando conteúdo e estética em 007 – Operação Skyfall, mas isso não diminui a ambição técnica de 1917, que, como uma produção grandiosa, é irrepreensível. Créditos também devem lhe ser dados pela ideia de fazer uma celebração não a grandes líderes, mas aos homens comuns das trincheiras. E fica por aí. Elogiar mais do que isso está diretamente condicionado ao fato de cada espectador se conectar ou não com a proposta do plano-sequência.

Os vencedores do BAFTA 2020

Seguindo a tendência de outras premiações, 1917 foi o melhor filme no BAFTA 2020.

Na reta final rumo ao Oscar, o BAFTA revelou neste domingo (02) os vencedores de sua criticada seleção de 2020. Sem mulheres concorrendo na categoria de direção e somente com atores brancos na disputa entre atores protagonistas e coadjuvantes, o prêmio britânico seguiu com sua recente tendência de apenas tentar prever o Oscar ao invés de seguir suas próprias intuições. Frente a esse cenário, 1917 foi o grande vencedor da noite, levando sete estatuetas para casa, entre elas a de melhor filme e melhor direção para Sam Mendes. Os atores consagrados também foram os mesmos de outras premiações: Renée Zellweger (Judy), Joaquin Phoenix (Coringa), Laura Dern (História de Um Casamento) e Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood).

A única surpresa que o BAFTA proporcionou e que pode ser um sinal diferenciado para o Oscar foi prêmio de melhor roteiro original entregue a Parasita. O filme de Bong Joon-ho já havia faturado esse mesmo prêmio junto ao Sindicato de Roteiristas no sábado (01), mas lá o favorito Quentin Tarantino (Era Uma Vez Em… Hollywood) estava fora de competição por não ser filiado ao Sindicato. Tarantino, que conquistou o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Awards, de repente viu a boa fase do seu filme se dissipar. Com essa dupla vitória de Parasita, não será mais surpresa ver Bong Joon-ho levando a melhor na disputa de roteiro original. Em tempos mais autênticos, o BAFTA talvez tivesse levado a produção sul-coreana ainda mais longe. Pena que os britânicos não ostentam mais a autenticidade de antes.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME1917
MELHOR FILME BRITÂNICO1917

MELHOR DIREÇÃO: Sam Mendes (1917)
MELHOR ELENCOCoringa
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALParasita
MELHOR ROTEIRO ADAPTADOJojo Rabbit
MELHOR TRILHA SONORACoringa
MELHOR FOTOGRAFIA1917
MELHOR MONTAGEMFord vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO1917
MELHOR FIGURINOAdoráveis Mulheres
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Escândalo
MELHOR SOM1917
MELHORES EFEITOS VISUAIS1917

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESAParasita (Coréia do Sul)
MELHOR DOCUMENTÁRIOFor Sama
MELHOR ANIMAÇÃO: Klaus
MELHOR ESTREIA DE UM DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO: Bait (Mark Jenkin, diretor e roteirista; Kate Byers; Linn Waite, produtor)
MELHOR CURTA BRITÂNICO: Learning to Skateboard In A Warzone (If You’re A Girl)
MELHOR CURTA BRITÂNICO: Grandad Was a Romantic
EE RISING STAR AWARD: Micheal Ward

“Judy: Muito Além do Arco-Íris”: cinebiografia presta tributo à memória de Judy Garland sem hipocrisia, embelezamentos ou momentos edificantes

You won’t forget me, will you?

Direção: Rupert Goold

Roteiro: Tom Edge, baseado no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter

Elenco: Renée Zellweger, Jessie Buckley, Finn Wittrock, Michael Gambon, Rufus Sewell, Richard Cordery, Royce Pierreson, Darci Shaw, Andy Nyman, Bella Ramsey, Lewin Lloyd

Judy, Reino Unido, 2019, Drama, 118 minutos

Sinopse: Inverno de 1968. Com a carreira em baixa, Judy Garland (Renée Zellweger) aceita estrelar uma turnê em Londres, por mais que tal trabalho a mantenha afastada dos filhos menores. Ao chegar ela enfrenta a solidão e os conhecidos problemas com álcool e remédios, compensando o que deu errado em sua vida pessoal com a dedicação no palco. (Adoro Cinema)

Fatores externos não devem necessariamente ser pré-requisitos para a devida apreciação de um filme, mas há casos em que compreender elementos orbitantes a um projeto enriquece determinada experiência de maneira categórica. Reserve um tempo, portanto, para investigar a vida de Judy Garland antes de conferir Judy: Muito Além do Arco-Íris. E o mais importante: recupere também a carreira de Renée Zellweger, desde quando ela teve seu primeiro papel de destaque em Jerry Maguire: A Grande Virada nos anos 1990 até chegar ao próprio Judy. Espelhando a trajetória de ambas, a semelhança fica clara em um piscar de olhos: descobertas, celebradas, mastigadas e, por fim, cuspidas por Hollywood, as duas viram o melhor e o pior dessa indústria.

A diferença, claro, é que Renée não faleceu aos 47 anos em um dos momentos mais baixos de sua carreira. Na verdade, aos 50, a texana vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Cold Mountain tem a chance de renascer em Hollywood justamente ao prestar um tributo muito íntimo e particular à colega. Após ter amargado vários projetos terríveis, enfrentado anos de depressão e lidado com toda a misoginia de uma opinião pública impiedosa com a aparência e o envelhecimento das mulheres, Renée agora reverencia o legado de Garland com uma série de significados muito particulares que talvez apenas ela pudesse traduzir com tanta propriedade.

A escalação da atriz é perfeita porque Renée compreende que uma cinebiografia como essa não deve ser feita para passar a mão na cabeça de Hollywood. Judy recusa a ideia de glamourizar a vida de sua personagem-título ou de tentar amenizar todo o sofrimento vivido por ela em suas últimas semanas de vida. A escolha do recorte já é um claro recado por si só: com base no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter, o roteirista Tom Edge reúne acontecimentos da temporada em que Garland, esquecida e escanteada pelos Estados Unidos, viaja à Inglaterra para juntar algum dinheiro com uma agenda de shows e, assim, voltar a sustentar seus próprios filhos.

Ao mesmo tempo em que encena os dias de uma Judy Garland já derrotada e debilitada, o filme, em meio a essa tristeza, busca devolver à atriz algum tipo de respeito e dignidade. E o faz sem purpurinas, momentos edificantes ou a tão esperada apresentação final responsável por induzir o espectador a pensar que, apesar dos pesares, tudo ficou bem. Sem hipocrisia, Judy se apresenta como uma comovente reparação para uma estrela que, nos bastidores, não desistia apesar das adversidades. As pílulas que lhe foram empurradas goela abaixo desde criança, a pressão por ter se tornado estrela cedo demais em um mundo de aparências e as crueldades trazidas pela vida e pelo trabalho após o envelhecimento lhe abalavam, mas, até ali, nunca lhe aniquilavam.

Na pequena grande resistência de Garland, Judy tem uma personagem que, no fundo, tentava seguir em frente porque, assim como todos nós, tinha medo de ser esquecida. Essa perspectiva é traduzida na relação estabelecida pelo filme entre a protagonista e os palcos. Cantar, de certa forma, já não era mais suficiente para Garland, que muitas vezes subia ao palco alterada por remédios, bebidas e noites de insônia. No entanto, quando se empoderava sob os holofotes, dominava a atenção por completo. A mulher magra, pálida e frágil dos bastidores de repente voltava a alcançar as notas que lhe alçaram ao sucesso mundial, (re)conquistando plateias e também o espectador do lado de cá da tela.

Quando Garland eventualmente se reergue, a conexão entre Renée e ela se estreita, e aí fica difícil (no bom sentido) distinguir quem nos comove: a protagonista em si dentro daquele recorte pontual ou quem a interpreta. Essa simbiose é íntima e especial inclusive porque as canções são interpretadas por Renée. Mesmo que auxiliada pelo playback de gravações em estúdio, a atriz se junta a Taron Egerton em Rocketman e não a Rami Malek em Bohemian Rhapsody no sentido de criar a sua homenagem particular a Garland, procurando voz e interpretação próprias para encarnar uma figura que merece ser muito maior do que uma simples mímica.

Assumindo que um tributo a Garland tem mais dignidade quando inexiste a obsessão de tentar copiá-la, Renée se mostra sábia e corajosa. A cena em que ela canta Somewhere Over the Rainbow atesta tal posicionamento: para a atriz, o importante nesse momento não é reproduzir fielmente a voz de Garland, mas sim toda a rouquidão, a hesitação e a fragilidade de uma mulher tão sugada pela vida que já não consegue cantar um de seus maiores clássicos com desenvoltura. Renée ressignifica muitas das fragilidades do filme e potencializa detalhes importantes, como a relação da protagonista com o público gay, aqui representado por um humilde casal que faz companhia a Garland em uma noite onde, assim como em tantas outras, ninguém mais lhe espera na saída do teatro para um autógrafo.

Tratando-se de forma, Judy: Muito Além do Arco-Íris é um longa-metragem tradicional, imperfeito e até inexpressivo do ponto de vista estético. O diretor Rupert Goold, cuja carreira é muito mais teatral do que cinematográfica, não faz muita diferença no projeto: tê-lo ou não atrás das câmeras parece irrelevante, pois as decisões mais importantes não vêm dele, e sim do recorte proposto pelo roteiro e, claro, da escalação de Renée Zellweger. Judy, portanto, ganha na franqueza: sem ser apaziguador, associa a retrospectiva do legado de Garland à necessidade de fazer Hollywood refletir sobre cicatrizes que ainda continuam bastante abertas. As coisas realmente não mudaram muito com o passar dos anos.

Melhores de 2019: “Parasita” e “A Favorita” lideram lista do blog com nove indicações cada

Disputando nove categorias, Parasita é o filme de língua não-inglesa com o maior número de indicações em todas as listas de melhores do ano já realizadas pelo blog.

Criada em 2007 aqui no blog, a lista de Melhores do Ano busca, assim como qualquer outra seleção assinada por qualquer pessoa do universo, elencar as produções mais marcantes de determinado ano. É um trabalho em vão: ainda que existam exceções, somente o tempo poderá provar o quanto determinada obra é realmente grandiosa ou inesquecível. Ainda assim, adoramos listas, mas é importante lembrar que elas sempre dizem muito mais sobre quem as faz do que sobre os filmes em si. Não há certo ou errado: cada um escolhe a partir de suas preferências, afinidades, bagagens e identificações. O divertido mesmo é a troca de opiniões e perspectivas.

Selecionando os filmes que considero os melhores de 2019, usei, como sempre, o parâmetro de identificação. Todas as obras listadas abaixo se conectaram comigo de alguma maneira em suas respectivas categorias. E o resultado traz dois filmes liderando a lista com nove indicações cada: Parasita, de Bong Joon-ho, e A Favorita, de Yorgos Lanthimos, seguidos de perto pelo libanês Cafarnaum e pelo espanhol Dor e Glória, ambos com seis indicações. Cheguei organicamente a um conjunto mais próximo de filmes de língua não-inglesa, e verdade seja dita: foi lindo viajar por tantos países e sotaques em 2019. Os vencedores dessa seleção serão conhecidos nas próximas postagens, com comentários individuais em cada categoria. 

Confiram abaixo a lista completa de indicados, considerando os títulos lançados comercialmente no Brasil em 2019 (incluindo streaming):

MELHOR FILME
Bacurau
Cafarnaum
Dor e Glória
A Favorita
Parasita

MELHOR DIREÇÃO
Barry Jenkins (Se a Rua Beale Falasse)
Bong Joon-ho (Parasita)
Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Bacurau)
Nadine Labaki (Cafarnaum)
Pedro Almodóvar (Dor e Glória)

MELHOR ELENCO
Assunto de Família
Bacurau
Entre Facas e Segredos
A Favorita
Parasita

MELHOR ATRIZ
Camila Morgado (Vergel)
Glenn Close (A Esposa)
Lupita Nyong’o (Nós)
Olivia Colman (A Favorita)
Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

MELHOR ATOR
Adam Driver (História de Um Casamento)
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Marco Nanini (Greta)
Zain al Rafeea (Cafarnaum)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Cho Yeo-jeong (Parasita)
Fernanda Montenegro (A Vida Invisível)
Penélope Cruz (Dor e Glória)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Yordanos Shiferaw (Cafarnaum)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Al Pacino (O Irlandês)
Joe Pesci (O Irlandês)
Leonardo Sbaraglia (Dor e Glória)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Song Kang-ho (Parasita)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Bacurau
Dor e Glória
Entre Facas e Segredos
A Favorita
Parasita

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Greta
Poderia Me Perdoar?
Querido Menino
Se a Rua Beale Falasse
A Vida Invisível

MELHOR MONTAGEM
Bacurau
Cafarnaum
Democracia em Vertigem

A Favorita
Parasita

MELHOR FOTOGRAFIA
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Coringa
A Favorita
Se a Rua Beale Falasse
Vergel

MELHOR TRILHA SONORA
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Cafarnaum
Coringa
História de Um Casamento
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Coringa
A Favorita
Parasita
Rocketman
Vergel

MELHOR FIGURINO
A Favorita
Hebe – A Estrela do Brasil
O Irlandês

Rocketman
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR SOM
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Bacurau
Coringa
Nós
Rocketman

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“A Glass of Soju” (Parasita)
“(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” (Toy Story 4)
“Revelation” (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
“Zero” (WiFi Ralph: Quebrando a Internet)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Ad Astra: Rumo às Estrelas
O Irlandês
Vingadores: Ultimato

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
A Favorita
Hebe – A Estrela do Brasil
O Irlandês
Rocketman
A Vida Invisível

“O Escândalo”: mesmo com ótimas atrizes, longa perde em sutileza ao falar sobre dilemas femininos a partir de perspectivas masculinas

People don’t stop watching when there’s a conflict. They stop watching when there isn’t one.

Direção: Jay Roach

Roteiro: Charles Randolph

Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Kate McKinnon, Connie Britton, Mark Duplass, Allison Janney, Malcolm McDowell, Liv Hewson, Stephen Root, Robin Weigert, Amy Landecker, Brigette Lundy-Paine

Bombshell, EUA/Canadá, 2019, Drama, 109 minutos

Sinopse: Um gigante do telejornalismo e antigo CEO da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow) tem seu poder questionado e sua carreira derrubada quando um grupo de mulheres o acusa de assédio sexual no ambiente de trabalho. (Adoro Cinema)

Uma dose considerável de cansaço tomou conta de mim nos primeiros minutos de O Escândalo. Quebrando a quarta parte, o filme de Jay Roach sobre a derrocada do magnata Roger Ailes após inúmeras denúncias de assédio sexual por parte de funcionárias da Fox News faz uma introdução ao seu universo televisivo e corporativo com sátira, agilidade e, claro, descomplicações de determinados fatos e contextos. O cansaço veio porque já vimos demais esse estilo recentemente. Coloque na conta os dois últimos trabalhos de Adam McKay (A Grande Aposta e Vice), o Eu, Tonya de Craig Gillespie e o genérico A Lavanderia de Steven Soderbergh e você terá noção do quanto tal fórmula já soa repetitiva mesmo sendo uma tendência tão recente.

No caso de O Escândalo há um ligeiro frescor que não dissipa o sentimento de repetição, mas que brinca com uma interessante metalinguagem: apresentadora de TV, Megyn Kelly (Charlize Theron) explica eventos e circunstâncias olhando diretamente para o espectador ao transitar pelos bastidores da Fox News, com a mesma postura de alguém que está ao vivo em um telejornal. À parte essa boa brincadeira, a pegada e o ritmo são os mesmos de sempre,  o que imediatamente leva o espectador a deduzir que o filme inteiro se desdobrará dessa maneira. Não é exatamente o que acontece porque O Escândalo dá uma boa amortecida na proposta, tornando-se mais comedido do que o esperado em tiques e afetações.

Entretanto, como um relato ligeiramente mais comportado de fatos reais, o longa deixa revelar uma significativa fragilidade, alimentada desde a concepção do projeto. Ora, como é possível uma história sobre assédio sexual contra mulheres em um ambiente de trabalho não contar, justamente, com pelo menos uma presença feminina no roteiro ou na direção? Sejamos francos ao afirmar que O Escândalo funciona sem maiores problemas durante toda projeção, mas sempre há essa atmosfera de que algo está faltando. Sem um olhar feminino, o filme não cimenta as entrelinhas que deveriam explorar emocionalmente as angústias vividas por mulheres capazes de enfrentar todo tipo de adversidade para denunciar um homem e um sistema.

A limitação de olhares masculinos para dilemas femininos está exemplificada na cena em que uma das personagens confessa ter cedido às investidas imorais do chefe que prometeu colocá-la na linha de frente da Fox News caso ela provasse sua “lealdade”. A personagem em questão discursa e chora, protagonizando um momento comovente. O que acontece é que essa cena discute inúmeras cargas dramáticas de maneira expositiva, como se por si só compensasse o fato do longa não ter desenvolvido em detalhes e sutilezas os conflitos internos de uma mulher que custou a compreender o que estava acontecendo com ela própria. Para dilemas de tamanha importância, é frustrante que discussões tão sérias, profundas e relevantes acabem reduzidas a um discurso apoiado na verbalização de conflitos internos.

Com propriedade e lugar de fala garantidos por alguma presença feminina na linha de frente, O Escândalo poderia potencializar os efeitos de uma história tão significativa para a nossa realidade, dando subsídios ao próprio Jay Roach, que, após ter abandonado a realização de comédias como Austin Powers e Entrando Numa Fria, dirigiu produções baseadas em histórias reais com grande talento (destaque para Virada no JogoRecontagem, dois telefilmes bastante instigantes com o selo HBO). Isso seria desejar um projeto completamente diferente, mas é bem provável que a experiência pudesse se apresentar com mais consistência, contentando-se menos com a reprodução de fatos (a cena em que uma personagem levanta a saia para Roger Ailes não seria tão gráfica nas mãos de uma diretora)  e mais nos efeitos dramáticos de cada acontecimento para a vida das protagonistas e da sociedade como um todo.

Considerando as presenças femininas de O Escândalo, destaque absoluto para o trio central de atrizes. Charlize Theron hipnotiza com o tanto que ficou parecida com Megyn Kelly, desaparecendo por completo em uma personagem que domina as atenções. Já Nicole Kidman tem em Gretchen Carlson a figura mais transparente do filme: como a primeira profissional a denunciar Roger Ailes, Gretchen quebrou barreiras, mesmo quando se viu sem o apoio inicial de suas colegas. Por fim, Margot Robbie, que tem melhor material aqui do que no recente Era Uma Vez Em… Hollywood, trabalha com uma interessante personagem ficcional que sintetiza várias outras vítimas. Charlize, Nicole e Margot, não por acaso, são o ponto alto do filme e só comprovam o quanto as discussões de O Escândalo se tornam maiores e melhores quando dominadas por figuras femininas. 

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2020

O elenco de Parasita triunfa no Screen Actors Guild Awards 2020: filme de Bong Joon-ho faz história como a primeira produção estrangeira a faturar o prêmio principal do sindicato de atores.

Recheado de surpresas no segmento de séries, minisséries e telefilmes (elenco em drama para The Crown, atriz em drama para Jennifer Aniston, ator em minissérie para Sam Rockwell), o Screen Actors Guild Awards, por outro lado, foi um marasmo na categoria de cinema ao carimbar de uma vez por todas o favoritismo absoluto de Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris), Joaquin Phoenix (Coringa), Laura Dern (História de Um Casamento) e Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood), todos rumo aos seus respectivos Oscars de interpretação no dia 9 de fevereiro. Se antes havia a suspeita, agora há a certeza: 2020 repetirá toda a cansativa previsibilidade do ano de 2018, quando Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime), Gary Oldman (O Destino de Uma Nação), Allison Janney (Eu, Tonya) e Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime) dominaram a temporada sem deixar margem para qualquer competição.

O SAG só não foi foi completamente tedioso do ponto de vista cinematográfico porque todos os discursos foram bons e porque o melhor ficou guardado para o final: a vitória histórica de Parasita em melhor elenco. O excepcional filme de Bong Joon-ho foi a primeira produção em língua não-inglesa a faturar a categoria e apenas a quarta a vencer sem indicações individuais para seus atores (as outras foram Pantera Negra, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei e Ou Tudo Ou Nada). Resta saber o que a vitória significa para a temporada: tanto pode ser Hollywood finalmente quebrando seu preconceito com produções estrangeiras a partir do significativo aval de um eleitorado importante como o dos atores quanto se tratar de um plano B para uma categoria que, no ano passado, também fugiu da rota esperada para premiar Pantera Negra e não tem sequer indicado os vencedores do Oscar. Estatísticas à parte, o prêmio foi justíssimo, além de ser o tipo de consagração que será para sempre referenciada.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

CINEMA

MELHOR ELENCO: Parasita
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)

MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMA: The Crown
MELHOR ELENCO – COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Jennifer Aniston (The Morning Show)

MELHOR ATOR – DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Michelle Williams (Fosse/Verdon)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Sam Rockwell (Fosse/Verdon)

Apostas para o Screen Actors Guild Awards 2020

A temporada de prêmios televisionados começou no último dia 5 com o Globo de Ouro, seguiu no dia 12 com mais uma cerimônia esquizofrênica do irrelevante Critics’ Choice Awards e agora chega neste domingo (19) ao Screen Actors Guild Awards, premiação que, nos últimos anos, tem perdido parte de seu impacto como termômetro de previsão ao Oscar (A Forma da Água e Green Book foram consagrados pela Academia, mas sequer indicados ao SAG de melhor elenco). Sem 1917 disputando a categoria de melhor elenco (estaria mais uma vez o vencedor do Oscar ausente no SAG?), é de se esperar que Era Uma Vez Em… Hollywood siga com o seu bom momento na temporada, levando para casa as estatuetas de melhor elenco e ator coadjuvante. Nos prêmios individuais, o jogo já parece garantido para Renée Zellweger (Judy), Joaquin Phoenix (Coringa), Laura Dern (História de Um Casamento) e Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood). Para os brasileiros, uma má notícia: dessa vez, o SAG não terá transmissão em rede nacional. Abaixo, compartilho com vocês alguns rápidos palpites.

CINEMA

MELHOR ELENCOEra Uma Vez Em… Hollywood / alt: Parasita
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris) / alt: Lupita Nyong’o (Nós)

MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa) / alt: Adam Driver (História de Um Casamento)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento) / alt: Jennifer Lopez (As Golpistas)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood) / alt: Al Pacino (O Irlandês)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMAGame of Thrones / alt: Big Little Lies
MELHOR ELENCO – COMÉDIAFleabag / alt: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Olivia Colman (The Crown) / alt: Jennifer Aniston (The Morning Show)

MELHOR ATOR – DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones) / alt: Steve Carell (The Morning Show)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag) / alt: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Andrew Scott (Fleabag) / alt: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Michelle Williams (Fosse/Verdon) / alt: Patricia Arquette (The Act)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Jharrel Jerome (When They See Us) / alt: Russell Crowe (The Loudest Voice)

Os indicados ao Oscar 2020

Coringa é o filme recordista de indicações ao Oscar 2020. Longa de Todd Phillips estrelado por Joaquin Phoenix concorre em 11 categorias.

Estatisticamente, o Oscar, nos últimos anos, foi um prêmio muito mais autêntico e espontâneo em comparação a qualquer outro da temporada. Além de ter bancado sozinha indicações como a de Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite) e Charlotte Rampling (45 Anos), a Academia, que não está isenta de falhas, frequentemente desviou a rota de cerimônias que consagravam sempre o mesmo filme. Quando Boyhood reinava soberano, o Oscar optou por Birdman. No ano de Três Anúncios Para Um Crime, a Academia premiou A Forma da Água. E há também, claro, a clássica vitória de Moonlight em cima de La La Land.

Tendo em vista tudo isso, era de se esperar que a lista de indicados revelada hoje (13) garimpasse algumas novidades. O que aconteceu foi apenas um ajuste aqui e outro ali em possíveis indicações já consideradas desde sempre. Não é inesperado, por exemplo, Kathy Bates (O Caso Richard Jewell) e Florence Pugh (Adoráveis Mulheres) figurarem entre as atrizes coadjuvante em detrimento de Jennifer Lopez (As Golpistas), uma das ausências mais surpreendentes do ano, ainda que justa, pois ela é tão protagonista quanto Constance Wu no longa de Lorena Scafaria (é preciso terminar com a cultura de fraudes de categoria).

Mesmo a indicação de Antonio Banderas (Dor e Glória) em melhor ator não é uma raridade: o Globo de Ouro e o Critics’ Choice já haviam indicado o espanhol, que, após ter faturado o prêmio de melhor ator em Cannes, foi amplamente elogiado mundo afora. Igualmente previsível era o Oscar seguir a mesma batida de prêmios como o BAFTA no que se refere à celebração de cineastas mulheres e atores negros. Indicando apenas uma atriz negra em 20 vagas nos segmentos de atuações, a Academia segue com dificuldades em selecionar nomes fora do circuito branco e estadunidense. Não é desmerecer quem está indicado, mas sim lançar um importante olhar para aqueles que não foram (e que também fazem trabalhos dignos de lembrança).

Talvez o movimento mais curioso da seleção 2020 seja o amor incondicional por Coringa. Justiça seja feita: das 11 indicações que o filme de Todd Phillips recebeu, algumas são injustificadas, como figurino, maquiagem, edição de som e mixagem de som. Com isso, voltamos à discussão da indústria olhar somente para os mesmos filmes e não procurar algo além das fronteiras da zona de conforto. Por outro lado, a liderança de Coringa representa algo muito maior: uma sinalização de que, talvez, o Oscar esteja mais aberto aos sucessos de bilheteria que representam o ganha-pão da indústria Hollywoodiana. Sucessos que a Academia sempre insiste em minimizar, premiando, por exemplo, Guerra ao Terror no lugar de Avatar e Spotlight ao invés de Mad Max: Estrada da Fúria.

Para os brasileiros, uma alegria imensa: estamos de volta na disputa, agora na categoria de melhor documentário. Citado pela imprensa internacional desde a época de seu lançamento, Democracia em Vertigem, de Petra Costa, investiga os bastidores do golpe parlamentar de 2016 que tirou a então presidenta Dilma Rousseff do poder. Está disponível para ser assistido na Netflix. A indicação é um belo presente para os anos tão conturbados que temos vivido no cenário político nacional. Se Democracia conquista ou não a estatueta, é outra história. Saberemos, aliás, no dia 9 de fevereiro, quando o Oscar revela sua lista de vencedores. Por enquanto, fiquem abaixo com a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
Ford vs Ferrari
História de Um Casamento
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

MELHOR DIREÇÃO
Bong Joon-ho (Parasita)
Martin Scorsese (O Irlandês)
Quentin Tarantino (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Sam Mendes (1917)
Todd Phillips (Coringa)

MELHOR ATRIZ
Charlize Theron (O Escândalo)
Cynthia Erivo (Harriet)
Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres)
Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

MELHOR ATOR
Adam Driver (História de Um Casamento)
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Jonathan Price (Dois Papas)
Leonardo DiCaprio (Era Uma Vez Em… Hollywood)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Florence Pugh (Adoráveis Mulheres)
Kathy Bates (O Caso Richard Jewell)
Laura Dern (História de Um Casamento)
Margot Robbie (O Escândalo)
Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Al Pacino (O Irlandês)
Anthony Hopkins (Dois Papas)
Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Joe Pesci (O Irlandês)
Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
1917
Entre Facas e Segredos
Era Uma Vez Em… Hollywood
História de Um Casamento
Parasita

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Adoráveis Mulheres
Coringa
Dois Papas
O Irlandês
Jojo Rabbit

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Corpus Christi (Polônia)
Dor e Glória (Espanha)
Honeyland (Macedônia)
Os Miseráveis (França)
Parasite (Coreia do Sul)

MELHOR ANIMAÇÃO
Como Treinar Seu Dragão 3
Klaus
Link Perdido
Perdi Meu Corpo

Toy Story 4

MELHOR DOCUMENTÁRIO
The Cave
Democracia em Vertigem
Honeyland
Indústria Americana
For Sama

MELHOR FOTOGRAFIA
1917
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
O Farol
O Irlandês

MELHOR MONTAGEM
Coringa
Ford vs Ferrari
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
1917

Era Uma Vez Em… Hollywood
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

MELHOR FIGURINO
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
O Irlandês
Jojo Rabbit

MELHOR TRILHA SONORA
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
História de Um Casamento
Star Wars: A Ascensão Skywalker

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” (Toy Story 4)

“(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
“I’m Standing With You” (Superação: O Milagre da Fé)
“Into the Unknown” (Frozen 2)
“Stand Up” (Harriet)

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
1917
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
Ford vs Ferrari
Star Wars: A Ascensão Skywalker

MELHOR MIXAGEM DE SOM
1917
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
Ford vs Ferrari

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
1917
Coringa
O Escândalo
Judy: Muito Além do Arco-Íris
Malévola: Dona do Mal

MELHORES EFEITOS VISUAIS
1917
O Irlandês
O Rei Leão
Star Wars: A Ascensão Skywalker
Vingadores: Ultimato

MELHOR CURTA METRAGEM
Brotherhood

Nefta Footbal Club
The Neighbor’s Window
Saria
A Sister

MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)
In the Absence
Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
Life Overtakes Me
St. Louis Superman
Walk Run Cha-Cha

MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
Dcera (Daughter)
Hair Love
Kitbull
Memorable
Sister

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