Cinema e Argumento

48º Festival de Cinema de Gramado #1: com edição híbrida para TV e streaming, evento apresenta lista de filmes concorrentes e homenagens

Exibido no Festival de Berlim, Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, integra a competição de longas brasileiros do 48º Festival de Cinema de Gramado, que será realizado de forma híbrida.

Mais uma vez em clima de reinvenção, o Festival de Cinema de Gramado, a exemplo de outros eventos brasileiros do gênero durante a pandemia do Coronavírus, realizará a sua 48ª edição em formato híbrido. A novidade, além de coerente e bem-vinda, é pioneira: toda a programação será transmitida pelo Canal Brasil (TV e streaming), incluindo os filmes em competição. E as expectativas são várias: dos novos longas de Ruy Guerra, Felipe Bragança e Camilo Cavalcante, até documentários sobre grandes figuras da música brasileira como Alcione e Sidney Magal, passando pelo aguardado Todos os Mortos e três títulos dirigidos por mulheres, Gramado preserva o seu status de festival de cinema mais importante do Brasil, agora sob a curadoria do trio Marcos Santuario, Soledad Villamil e Pedro Bial. Todos os títulos brasileiros, assim como os estrangeiros (oriundos de nada menos do que sete países diferentes), são inéditos em território nacional. Outros 33 curtas em competição ainda serão exibidos no Canal Brasil, em uma iniciativa que levará o cinema do evento serrano para plateias antes nunca alcançadas em território nacional. É uma solução criativa e democrática para um festival que, em 48 anos de trajetória, nunca deixou de realizar uma edição sequer. Cinema é o que não vai faltar para ficar em casa!

Também atendendo o formato online, as homenagens serão entregues a um quarteto de respeito. Marco Nanini receberá o Troféu Oscarito, dedicado a grandes atores do cinema brasileiro. Vale lembrar que Nanini recentemente protagonizou Greta, um dos papeis mais marcantes e desafiadores de toda a sua carreira, reforçando o belo momento dessa homenagem. Já a diretora Laís Bodanzky, diretora de ótimos filmes como Bicho de Sete CabeçasChega de SaudadeComo Nossos Pais, receberá o Troféu Eduardo Abelin, destinado a profissionais que trabalham atrás das câmeras. Não só a distinção é justa como também vem embrulhada por um ótimo timing: hoje Bodanzky faz uma excelente gestão como presidente da Spcine, empresa municipal de fomento ao audiovisual da cidade de São Paulo. Considerando o cinema latino-americano, o ator uruguaio César Troncoso fica com o Kikito de Cristal, que já foi entregue a nomes como Cecilia Roth, musa de Pedro Almodóvar.

Por fim, a maravilhosa Denise Fraga fica com o troféu Cidade de Gramado. Nesse caso, no entanto, faço uma observação: criado em 2012, o troféu segue sem um conceito muito definido (já chegou tanto a homenagear o aniversário de Sargento Getúlio como a carreira do cartunista Mauricio de Sousa!), seguidamente celebrando nomes dignos de Oscarito, a distinção mais antiga e emblemática do evento. Foi assim com Wagner Moura, Rodrigo Santoro e, agora, Denise Fraga. Atriz ativa e prolífera, Denise já atuou em mais de 25 filmes, indo do comercial ao autoral. Ela ainda passou por clássicos como O Auto da Compadecida e chegou a conquistar um Kikito de melhor atriz pelo longa Por Trás do Pano, dirigido por Luiz Villaça, seu companheiro de vida e carreira. Toda homenagem entregue a Denise é merecida, mas sou da opinião de que, assim como outros colegas celebrados com o Cidade de Gramado, a estatura de seu talento como intérprete merecia ser reservada à tradição e ao emblema do Troféu Oscarito.

O 48º Festival de Cinema de Gramado acontecerá entre os dias 18 e 26 de setembro. Mais informações podem ser conferidas no site oficial do evento. Confira abaixo a lista completa de filmes concorrentes:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança (RJ)
Aos Pedaços, de Ruy Guerra (RJ)
King Kong em Asunción, de Camilo Cavalcante (PE)
Me Chama Que Eu Vou, de Joana Mariani (SP)
Por Que Você Não Chora?, de Cibele Amaral (DF)
O Samba é Primo do Jazz, de Angela Zoé (RJ)
Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra (SP)

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Dias de Inverno, de Jaiziel Hernández (México)
La Frontera, de David David (Colômbia)
Los Fuertes, de Omar Zúñiga (Chile)
El Gran Viaje al País Pequeño, de Mariana Viñoles (Uruguai)
Matar a un Muerto, de Hugo Giménez (Paraguai)
El Silencio del Cazador, de Martin Desalvo (Argentina)
Tu Me Manques, de Rodrigo Bellott (Bolívia)

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
4 Bilhões de Infinitos, Marco Antonio Pereira (MG)
Atordoado, Eu Permaneço Atento, de Henrique Amud e Lucas H. Rossi dos Santos (RJ)
O Barco e o Rio, de Bernardo Ale Abinader (AM)
Blackout, de Rossandra Leone (RJ)
Dominique, de Tatiana Issa e Guto Barra (RJ)
Extratos, de Sinai Sganzerla (SP)
Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho (PE)
Joãosinho da Goméa: O Rei do Candomblé, de Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra (RJ)
Receita de Caranguejo, de Issis Valenzuela (SP)
Remoinho, de Tiago A. Nevers (PB)
Subsolo, de Erica Maradona e Otto Guerra (RS)
Trincheira, de Paulo Silver (AL)
Você Tem Olhos Tristes, de Diogo Leite (SP)
Wander Vi, de Augusto Borges e Nathalya Brum (DF)

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Bochincho – O Filme, de Guilherme Suman (Porto Alegre)
O Céu da Pandemia, de Marina Kerber (Porto Alegre)
Construção, de Leonardo da Rosa (Pelotas)
Corpo Mudo, de Marcela Schild (Santa Cruz do Sul)
Desencanto, de Richard Tavares (Porto Alegre)
Deserto Estrangeiro, de Davi Pretto (Porto Alegre)
Dois Homens ao Mar, de Gabriel Motta (Porto Alegre)
Fragmentos ao Vento, de Ulisses da Motta (Porto Alegre)
Lacrimosa, de Matheus Heinz (Porto Alegre)
Letícia Monte Bonito, de Julia Regis (Pelotas)
O Luto Impossível, de Bruno Carboni (Porto Alegre)
Magnética, de Marco Arruda (Porto Alegre)
Um Pedal, de Alexandre Derlam (Canoas)
Pra Ficar Perto, de Lucas dos Reis (Sapucaia do Sul)
Quando Te Avisto, de Denise Copetti e Neli Mombelli (Santa Maria)
O Que Pode Um Corpo?, de Victor Di Marco e Márcio Picoli (Bagé)
Sopa Noir, de Beatrice Petry Fontana (São Leopoldo)
Teste de Elenco, de Marcos Kligman e Mariany Espíndola (Porto Alegre)
Ver a Vista, de Daniel de Bem (Porto Alegre)

Três atores, três filmes… com Ronaldo Trancoso Jr.

Trocar ideias com pessoas apaixonadas por cinema sempre foi um dos meus prazeres favoritos nesse ofício de escrever sobre filmes na internet. Raras são as vezes, no entanto, que a gente se depara com colegas cinéfilos tão ponderados, democráticos e com um alto nível de conhecimento como o Ronaldo Trancoso Jr., criador do blog Cinematic Tips e colaborador dos blogs Trash to Tarkovsky e You! Me! Dancing. Destaco essas qualidades no Ronaldo pois admiro a forma como ele se utiliza do seu próprio conhecimento para propôr novos olhares, questionar o que está aí pré-estabelecido e estimular o público a ser o mais plural possível na busca por novos filmes. Aliás, basta vocês também acompanharem o Twitter do Ronaldo para saber do que eu estou falando. Garanto que, muito mais do que se informar sobre tudo o que está rolando no cinema e também nas temporadas de premiações, vocês encontrarão opiniões bem posicionadas e que fogem do lugar-comum. Não por acaso, as escolhas dele para a coluna não poderiam fugir disso. Do Brasil à China, temos três mulheres maravilhosas selecionadas por desempenhos que indiscutivelmente marcam as suas respectivas carreiras. Valeu, Ronaldo!

Marcélia Cartaxo (A Hora da Estrela)
Com muita sutileza, Marcélia Cartaxo deu vida a uma das personagens mais arrebatadoras da nossa literatura. Na adaptação do livro de Clarice Lispector, Cartaxo nos faz lembrar que todos já tivemos uma Macabéa dentro de nós em algum momento. A delicadeza da atriz nos cativa do início ao fim, revelando toda a profundidade da personagem em olhares que ficam para sempre na memória. Curiosamente, Cartaxo conseguiu o mesmo efeito no recente Pacarrete, mais uma prova de sua facilidade para mesclar drama com leveza.

Michelle Pfeiffer (Batman: O Retorno)
A atuação de Michelle Pfeiffer em Batman: O Retorno sempre me fascinou, não só por sua presença física inesquecível, mas também pela complexidade da performance. A entrega total da atriz faz da personagem uma figura trágica e multifacetada, sem nunca deixar de mostrar sua vulnerabilidade, até nos momentos em que precisa intimidar outras pessoas. Antagonistas assim, cheios de nuances, sempre foram uma raridade em blockbusters, geralmente povoados por vilões unidimensionais. Selina Kyle é uma pessoa que, mesmo tomando as rédeas do próprio destino, continua marcada por traumas e conflitos internos, que se refletem em cada fala e gesto de Pfeiffer. O desempenho da atriz é tão fantástico que fica difícil escolher sua cena mais icônica.

Tao Zhao (As Montanhas se Separam)
Quando assisti a As Montanhas se Separam, estava numa das piores fases da minha vida. Eis que dei uma chance a este filme de Jia Zhangke e senti novamente o poder transformador do cinema. A atuação fenomenal de Tao Zhao foi fundamental para isso. A cada bola curva lançada sobre a personagem, a atriz carrega um mundo de emoções em seu semblante, mostrando uma evolução constante até o desfecho catártico do filme, que coroa Zhao como uma das melhores atrizes de sua geração.

Os indicados ao Emmy 2020

Regina King em Watchmen: com 26 indicações, minissérie criada por Damon Lindelof e produzida pela HBO lidera lista e é favorita absoluta entre as minisséries.

Mesmo com o Coronavírus se alastrando de forma latente nos Estados Unidos, o Emmy permanece firme e forte com a data inicialmente programada para a sua cerimônia de premiação, seja ela em qual formato for. No dia 20 de setembro, portanto, conheceremos os vencedores da lista de indicados divulgada hoje (28), que traz Watchmen, da HBO, liderando com o maior número de menções entre todos os segmentos. Foram 26 indicações para a minissérie criada por Damon Lindelof, um número surpreendente até mesmo para os que estavam mais otimistas com a performance do programa entre os votantes. Essa imensa justiça se estende a outros dois seriados: Succession, também da HBO, e Ozark, uma produção original Netflix, ambas com 18 indicações cada no segmento dramático. Já entre as comédias, The Marvelous Mrs. Maisel lidera acumulando 20, mesmo em seu momento menos cativante. 

Há uma boa notícia a ser comemorada no Emmy 2020: 34,3% dos atores indicados este ano são negros, o maior número já registrado na premiação. Também há evolução no espaço para as mulheres: seis dos nove roteiros indicados por minisséries/telefilmes são assinados por mulheres, assim como quatro dos seis episódios indicados a direção. Sabemos que o caminho a ser percorrido ainda é longo e que muito dessa pluralidade vem do fato de que a TV e o streaming há muitos anos têm se mostrado mercados menos conservadores do que o cinema, mas é importante celebrar vitórias que já dão indícios de um futuro mais democrático, justo e igual em oportunidades. Ainda em números, a Netflix está no topo com 160 indicações para seus projetos contra 107 da HBO, invertendo o cenário de liderança visto no ano passado. No entanto, a Netflix ainda espera pelo dia em que uma de suas séries vencerá o prêmio principal. Parece que novamente não será dessa vez…

Por ora, aqui estão alguns comentários pontuais (e muito pessoais) sobre os indicados:

Watchmen e Succession são tudo isso que suas indicações sugerem, provando que a HBO ficou sem ressaca alguma após a era Game of Thrones. Na verdade, dá até para reivindicar mais indicações para ambas: enquanto a primeira deveria ter rendido a Tim Blake Nelson uma lembrança entre os coadjuvantes, a segunda poderia ter incluído Holly Hunter ao lado de Cherry Jones e Harriet Walter na disputa de atrizes convidadas. Em suma, qualquer resultado diferente da consagração de Watchmen e Succession será motivo de choque…

– Empatada com Succession no número de indicações, Ozark parecia destinada a render mais. Ainda que tenha, por exemplo, indicação tripla na categoria de roteiro, a série estrelada por Jason Bateman e Laura Linney ficou sem duas de suas indicações mais essenciais pela terceira temporada: ator coadjuvante para Tom Pelphrey e atriz coadjuvante para Janet McTeer;

– A briga será de foice entre as coadjuvantes de série dramática. Resultado de novas regras do Emmy, temos nada menos do que oito concorrentes: de Meryl Streep a Laura Dern por Big Little Lies, passando por grandes nomes como Helena Bonham Carter em The Crown e Fiona Shaw em Killing Eve, a antigas vencedoras como Thandie Newton (Westworld) e Julia Garner (Ozark), é praticamente impossível tentar adivinhar a futura vencedora. É o tipo de disputa que dá gosto de ver — não pela quantidade, e sim pela qualidade;

– Outra competição acirradíssima é a de atriz em série dramática. A categoria que nos reservou a surpresa de ver Zendaya (Euphoria) chegando de última hora após ter passado em branco nos demais prêmios televisionados confirmou o que era esperado: pelo menos três atrizes disputam o favoritismo. Será a vez de Olivia Colman (The Crown), vencedora do último Globo de Ouro? Ou então de Jennifer Aniston (The Morning Show), que já levou o Screen Actors Guild Awards para casa? E como não colocar Laura Linney (Ozark) na dianteira por sua melhor temporada na série e pelo seu histórico invicto no Emmy, onde já foi premiada por todos os papéis que concorreu?;

– Seguindo na pauta de atrizes, é criminoso o esquecimento de Merrit Wever e Kaitlyn Dever como protagonistas de Unbelievable no segmento de minisséries. Toni Collette, com uma pequena fraude de categoria, garantiu a lembrança entre as coadjuvantes, mas é a clássica situação em que as indicações só fazem real sentido quando todas estão na disputa. Não há justificativa para tal esquecimento, especialmente quando Unbelievable concorre como melhor minissérie, o que comprova o apreço dos votantes pelo programa em um ano muito disputado;

– Considerando as devidas dimensões, outras ausências e descompassos que me bateram de forma muito particular envolvem I Know This Much is True (concorre somente em melhor ator pelo grandioso desempenho de Mark Ruffalo quando merecia muito mais), Years and Years (uma das experiências mais marcantes da temporada e sequer citada em qualquer categoria) e The Great (série criada pelo roteirista de A Favorita que misteriosamente emplacou lembranças em direção e roteiro, mas não em melhor série ou para seu excelente elenco).

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Confira abaixo a lista de indicados: 

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
Better Call Saul
The Crown
The Handmaid’s Tale
Killing Eve
The Mandalorian
Ozark
Stranger Things
Succession

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Jennifer Aniston (The Morning Show)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Olivia Colman (The Crown)
Sandra Oh (Killing Eve)
Zendaya (Euphoria)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Porter (Pose)
Brian Cox (Succession)
Jason Bateman (Ozark)
Jeremy Strong (Succession)
Sterling K. Brown (This is Us)
Steve Carell (The Morning Show)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Fiona Shaw (Killing Eve)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Julia Garner (Ozark)
Laura Dern (Big Little Lies)
Meryl Streep (Big Little Lies)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)
Sarah Snook (Succession)
Thandie Newton (Westworld)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
Giancarlo Esposito (Better Call Saul)
Jeffrey Wright (Westworld)
Kieran Culkin (Succession)
Mark Duplass (The Morning Show)
Matthew Macfadyen (Succession)
Nicholas Braun (Succession)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Curb Your Enthusiasm
Dead to Me
The Good Place
Insecure
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel
Schitt’s Creek
What We Do in the Shadows

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
Christina Applegate (Dead to Me)
Issa Rae (Insecure)
Linda Cardellini (Dead to Me)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Don Cheadle (Black Monday)
Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Ramy Yousseff (Ramy)
Ted Danson (The Good Place)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Annie Murphy (Schitt’s Creek)
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Betty Gilpin (GLOW)
Cecily Strong (Saturday Night Live)
D’Arcy Carden (The Good Place)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Marin Hinkle (The Marvelous Mrs. Maisel)
Yvonne Orji (Insecure)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Andre Braugher (Brooklyn Nine-Nine)
Daniel Levy (Schitt’s Creek)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Mahershala Ali (Ramy)
Sterling K. Brown (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
William Jackson Harper (The Good Place)

MELHOR MINISSÉRIE
Little Fires Everywhere
Mrs. America
Unbelievable
Unorthodox
Watchmen

MELHOR TELEFILME
American Son
Bad Education
Dolly Parton’s Heartstrings: These Old Bones
El Camino: A Breaking Bad Movie
Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Cate Blanchett (Mrs. America)
Kerry Washington (Little Fire Everywhere)
Octavia Spencer (Self Made)
Regina King (Watchmen)
Shira Haas (Unorthodox)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Hugh Jackman (Bad Education)
Jeremy Irons (Watchmen)
Jeremy Pope (Hollywood)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)
Paul Mescal (Normal People)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Holland Taylor (Hollywood)
Jean Smart (Watchmen)
Margo Martindale (Mrs. America)
Toni Collette (Unbelievable)
Tracey Ullman (Mrs. America)
Uzo Aduba (Mrs. America)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Dylan McDermott (Hollywood)
Jim Parsons (Hollywood)
Jovan Adepo (Watchmen)
Louis Gossett Jr (Watchmen)
Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend)
Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)

* Categorias de direção, roteiro, variedades, reality shows e outros segmentos técnicos podem ser encontrados no relação completa de indicados disponibilizada em inglês pelo Emmy.

Das salas de cinema para o streaming: como ressignificar a condição de espectador e crítico a partir da pandemia?

* texto originalmente escrito para o site da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul

A pandemia do Coronavírus colocou o mundo de pernas para o ar e fez o isolamento social se tornar um dos pilares de prevenção e contenção em um cenário indiscutivelmente grave. Para os bem afortunados, privilegiados e empáticos que tiveram condições de aderir às medidas de isolamento, importantes reflexões vêm se apresentando quando o único universo físico que habitamos é a nossa própria casa. Afinal, sem o que realmente não conseguimos viver? Quais hábitos podem ser substituídos? Como adaptar para dentro de casa aquilo que nos deixa minimamente em dia com a nossa sanidade?

Pertencendo a esse grupo que se viu repentinamente isolado, descobri que posso, na medida em que o contexto exige até segunda ordem, viver sem muitas coisas, como um passeio de bicicleta em um sábado pela manhã ou uma noite com os amigos em uma mesa de bar. Também posso adaptar outras: o trabalho, antes restrito a um escritório, por exemplo, agora se revela perfeitamente viável no regime home office. Descobri, no entanto, que sem uma coisa de fato não posso viver: os filmes.

O cenário, até pouco tempo atrás, era inimaginável: gravações paralisadas, possíveis projetos engavetados indefinidamente, aguardadas estreias sem nova data para encontrar o público, emblemáticos festivais de cinema como o de Gramado realizados apenas em formato online… À parte a romantização de que não há experiência equiparável a assistir a uma obra em uma sala de cinema, creio que não podemos mesmo viver sem cinema. Toda arte teve esse poder potencializado agora: o de nos (re)conectar com o mundo, de nos levar a diferentes lugares, de despertar o exercício da empatia e de expandir o nosso repertório humano e intelectual quando o mundo tanto sofre.

Por isso, como não reverenciar a força e a revolução das plataformas de streaming que já se tornaram parte sólida dos nossos hábitos cinematográficos? Sem estreias, eventos e salas de cinema, espectadores do mundo inteiro voltaram-se exclusivamente ao streaming para continuar consumindo filmes, quando não aos links de obras gentilmente disponibilizadas de forma gratuita por realizadores como incentivo à necessidade do isolamento social. Ao migrarmos para esse formato de exibição, outro desafio se apresentou: nos vimos obrigados a repensar nossas condições como espectadores e críticos.

Sem calendário de estreias — e agora?

Para todos aqueles guiados pelas estreias semanais, o susto é imediato: qual a alternativa para um mundo com cada vez menos filmes inéditos? Tenho a resposta muito clara para mim. Ora, por que não ir atrás de todas aquelas obras que, devido à correria da rotina e à sedução de tantos filmes novos entrando em cartaz em um “mundo normal”, ficavam de lado nas nossas listas. Ou então desbravar novas narrativas, realizadores que não conhecemos e gêneros que não são os que costumamos consumir? É, enfim, uma bela oportunidade para mergulhar na pluralidade tão inerente ao cinema e que, em muitos casos, as plataformas de streaming barram com algoritmos pensados para o público assistir sempre o mesmo tipo de produção.

Nesse sentido, é inquestionável o papel crucial e até mesmo pioneiro da Netflix, por exemplo, na popularização exponencial dos streamings e na criação dessa nova cultura que envolve assistir filmes e séries em casa, mas vale sempre lembrar: há toda uma galáxia a ser descoberta, com plataformas para todos os gostos e bolsos. Como na infinidade de canais de uma TV por assinatura, não só podemos como devemos consumir de tudo um pouco. Dos clássicos do cinema japonês a títulos brasileiros contemporâneos, as plataformas de streaming estão aí, pedindo para serem descobertas, cada uma com suas respectivas propostas e particularidades. Por que se limitar a só uma delas?

Um exercício que me parece ainda mais gratificante do que alternar democraticamente entre streamings como Prime Video, Spcine Play, Looke, Now, Hulu, MUBI, Belas Artes à La Carte, é fazer uma lista própria do que queremos ver, sem consultar as plataformas, e, a partir dela, buscar onde esses filmes estão disponíveis. Afirmo sem medo de errar que esse é um belo exercício porque, ao fazê-lo recentemente, fiquei bastante surpreso com o aumento de variedade e a disponibilidade de obras de diferentes perfis. Está disponível no Looke, por exemplo, A Hora da Estrela, dirigido por Suzana Amaral, que nos deixou recentemente. Em plataformas mais populares como Netflix e Globoplay, títulos como Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes, e Ausência, do saudoso Chico Teixeira, também estão prontos para serem (re)vistos. E, no Now, temos inclusive clássicos do Mazzaroppi!

Garimpando pérolas do nosso cinema

Cito títulos brasileiros porque sabemos o quanto os longas produzidos nacionalmente, em especial aqueles menores e mais independentes, sofrem para encontrar espaço no circuito exibidor tradicional das salas de cinema, onde correm o risco de ficar restritos a horários limitados e durante poucas semanas em cartaz. Pois as plataformas de streaming dão lugar e vez para esses trabalhos, mesmo que em iniciativas com prazo de validade, como o Espaço Itaú Play, que recentemente exibiu, em regime de pré-estreia, filmes como Pacarrete, Três Verões, Aos Olhos de Ernesto e Música Para Morrer de Amor, que, em uma realidade sem pandemia, não chegariam a moradores de todos os estados do Brasil e dependeriam de um bom retorno do público para sobreviver em cartaz por mais de um mês.

A pluralidade dos streamings aponta ainda para outro aspecto muito importante e que, até pouco tempo atrás, poderia ser visto com preocupação: o da preservação da memória, que começou a evaporar quando o mercado testemunhou a extinção das videolocadoras e o desinteresse do público hiper conectado pela mídia física. Para onde iriam os filmes raros que só encontrávamos em uma videolocadora? Onde seria possível conferir aquele longa independente e autoral que você milagrosamente só encontrava na coleção de um amigo e que não tinha espaço no catálogo de streamings que, recém surgidos, apontavam para uma predileção por obras de senso mais comum?

Durante muito tempo, como um orgulhoso colecionador de DVDs e blu-rays, vivi essa angústia, mas hoje é com otimismo que encaro tal questão ao encontrar nos streamings obras que, mesmo na era da mídia física, caíram no limbo ao sequer serem lançadas no mercado, como Gretchen Filme Estrada, excelente documentário de Eliane Brum e Paschoal Samora que foge da armadilha de ser um mero relato sobre a vida da cantora Gretchen para se tornar uma reflexão sobre a decadência artística e para discutir, de forma até profética, aspectos políticos do nosso Brasil que hoje vivemos de forma tão clara e escancarada. Sem lançamento em DVD, o filme estava há anos desaparecido, fora de alcance por meios legais, e agora pode novamente ser e descoberto pelo Looke.

Seguindo a linha da pluralidade de plataformas e de preservar a memória especificamente do cinema brasileiro fora do circuito mainstream, cito outros dois documentários que (re)descobri ao me confrontar com uma relação mais próxima com os streamings em tempos de isolamento social. O primeiro é Bixa Travesty, de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman, um instigante estudo de personagem que, a partir da vida e da música da cantora transexual Linn da Quebrada, desafia o espectador a ressignificar conceitos e tabus envolvendo identidade, gênero, raça, sexualidade e liberdade. Premiado no Festival de Berlim com o Teddy de melhor documentário, Bixa Travesty teve passagem tímida pelos cinemas brasileiros, mas hoje ganha visibilidade nacional no catálogo do Now.

Já o segundo é O Caso do Homem Errado, dirigido por Camila de Moraes. Mais urgente do que nunca, a história do operário negro Júlio César — que, ao ser confundido com um assaltante, foi executado pela Polícia Militar do Rio Grande do Sul, no dia 14 de maio de 1987 — recupera um triste acontecimento que, mesmo depois de três décadas, reverbera em carne viva, expondo a cultura ainda racista e segregacionista de um Brasil inteiro. Mulher, negra e, por isso mesmo, munida de lugar de fala, Camila narra O Caso do Homem Errado com emoção e sem meias palavras, interseccionando a eterna e incansável busca por direitos humanos, a reivindicação por uma sociedade antirracista e a história muito íntima de Júlio César, cuja vida interrompida ganha traços comoventes especialmente nos depoimentos de sua esposa. Também com passagem limitada pelos cinemas, o filme está disponível gratuitamente no Looke.

Explorar streamings para expandir olhares

Citando brevemente esses títulos, percebo novamente a importância de ampliar nossos horizontes como críticos e espectadores. Não é sobre se tornar o estereótipo do crítico exigente, técnico e chato que já foi até parodiado em animação da Pixar, mas de perceber que o mundo (e consequentemente a arte) é muito maior do que o algoritmo popular da Netflix ou o confortável calendário de grandes estreias que tanto guia a busca por sessões ao redor do mundo. Estar em casa e com uma infinidade de plataformas à disposição reforça esse exercício por vezes esquecido na correria do dia a dia de valorizar a pluralidade que o “circuitão” não costuma reconhecer.

No tocante ao cinema produzido aqui no Brasil, dar musculatura e esse tipo de hábito é também um grito de resistência para manter viva, atuante e visível uma produção cinematográfica que, já sistematicamente sabotada antes mesmo da pandemia, agora terá de enfrentar os difíceis efeitos desse cenário global para se reerguer, como se as políticas de desmonte do atual governo Bolsonaro já não fossem penosas o suficiente. Quando valorizamos filmes de gêneros diferentes, dirigidos por mulheres, com narrativas negras e descentralizados do eixo Rio-São Paulo, fortalecemos nosso pequeno grande papel no incentivo a nossa cinematografia.

Claro que sou suspeito para falar, mas a crítica de cinema, hoje já definitivamente imersa na cultura do streaming como um caminho sem volta, parece de grande ajuda para apontar novas tendências, fugir do lugar-comum, educar diferentes olhares e incrementar a formação cinematográfica das plateias, respeitando sempre, claro, as respectivas bagagens, afinidades e preferências de cada espectador. Cada vez mais, estamos aqui para isso.

“Crítica em Transe”: promovido pela ACCIRS, debate entre críticos reflete sobre nossa relação com o streaming na pandemia

A pandemia do Coronavírus transformou a nossa relação com o cinema? Onde é possível encontrar opções que fogem dos catálogos habituais oferecidos pelas plataformas de streaming mais populares? O ritual de assistir a filmes tem se modificado?

Fui convidado pela Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) a participar de um bate-papo com outros colegas da crítica sobre cinema em tempos de pandemia. Na conversa, fomos desde o cinema japonês dos anos 1950 até pérolas do cinema brasileiro contemporâneo, refletindo sobre nossa relação com as plataformas de streaming. Conversam comigo os queridos colegas e associados da ACCIRS, Fatimarlei Lunardelli e Renato Cabral.

Assista ao debate na íntegra:

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