“O Diabo Veste Prada 2” rejeita ideia do mero fan service para medir o pulso do nosso tempo

May the bridges I burn light my way.

Direção: David Frankel

Roteiro: Aline Brosh McKenna

Elenco: Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt, Stanley Tucci, Justin Theroux, Kenneth Branagh, Lucy Liu, B.J. Novak, Simone Ashley, Tracie Thoms, Caleb Hearon, Lady Gaga, Rachel Bloom, Helen J Shen, Patrick Brammall, Pauline Chalamet

The Devil Wears Prada 2, EUA, 2026, Comédia, 119 minutos

Sinopse: De volta às elegantes ruas de Nova York e aos sofisticados escritórios da revista Runway, as personagens de O Diabo Veste Prada se veem envolvidas em uma disputa por receita publicitária em meio ao declínio da mídia impressa, colocando à prova antigas relações e ambições profissionais.

Incrédula, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha um momento que, vinte anos atrás, poderia ser uma miragem: Miranda Priestly (Meryl Streep) chegando ao escritório da revista Runway e, ela própria, colocando seu casaco em um cabide. Muita coisa mudou desde o lançamento de O Diabo Veste Prada em 2006, tanto para o mundo quanto para suas personagens, e a roteirista Aline Brosh McKenna, que escreveu o longa original e volta para o segundo, entende como tantos reveses são essenciais para revisitar um universo cinematográfico que marcou época e gerações.

Orçado em 35 milhões de dólares, o primeiro O Diabo Veste Prada faturou quase dez vezes mais quando chegou aos cinemas mundialmente, superando as expectativas em torno de um projeto protagonizado por mulheres e encabeçado por uma atriz já então considerada veterana aos 56 anos. Clássicos só podem receber tal distinção com o tempo, e não é exagero afirmar que o filme de David Frankel se tornou um fenômeno na cultura pop. Motivos não faltaram, da interpretação icônica de Meryl Streep ao frescor estético de um império da moda embalado por hits nas vozes de Madonna, Alanis Morissette, U2, Moby, entre outros.

Não só O Diabo Veste Prada foi visto e revisto com o passar dos anos como também reinterpretado em muitas de suas simbologias. A vilania da história reside em Miranda ou no namorado de Andy vivido por Adrian Grenier? A editora-chefe da Runway seria, de fato, o diabo de saias ou é vista dessa maneira apenas por ser uma mulher — e não um homem — em posição de poder? À parte respostas, é indiscutível que Miranda Priestly, por si só, tornou-se um dos papéis mais emblemáticos da carreira de Meryl Streep, o que definitivamente não é pouca coisa.

Agora, após exatas duas décadas, O Diabo Veste Prada 2 apresenta um novo momento na vida de suas personagens. O tempo passou fora e dentro das telas, algo que a sequência dirigida por David Frankel abraça como mote. Não se trata, em suma, de uma continuação alheia às mudanças do mundo ou fabricada para satisfazer a nostalgia de uma legião de fãs. A virada de chave está nessa noção de que Andy e Miranda não podem ser mais as mesmas quando as noções de moda e jornalismo há muito já se transformaram.

Os casacos agora pendurados pela própria chefe são resultado de reclamações feitas ao setor de Recursos Humanos. Não há mais orçamento para viagens de uma semana com o objetivo de produzir a capa do mês. Os transportes executivos dão lugar às corridas por Uber, assim como viagens aéreas agora só são possíveis por meio de classe econômica. E a antes tão poderosa Runway praticamente deixa de existir na versão impressa para existir em uma versão digital que, como lembra Nigel (Stanley Tucci), virou uma mera rolagem no feed quando os usuários de redes sociais tiram um tempo para ir ao banheiro.

É surpreendente que O Diabo Veste Prada 2 talvez seja o primeiro filme sobre o estado atual do jornalismo porque Hollywood desaprendeu a fazer grandes projetos comerciais com algo a dizer, muito menos com algum tipo de posicionamento. Pois o roteiro de McKenna, além de fazer observações sobre o sucateamento das mídias, utiliza esse cenário para moldar suas personagens nos planos cômicos e dramáticos. Se o jornalismo virou negócio — e não um dos mais vantajosos para os próprios jornalistas —, tudo passa a se dar na base de negociação, mesmo para quem antes apenas demandava.

McKenna toma o cuidado de não fazer de O Diabo Veste Prada 2 uma lição de moral ou uma espécie de punição em cima da sua personagem-título. Isso acontece porque todos estão no mesmo barco, envoltos em crises e incertezas, inclusive a Andy de Anne Hathaway, que volta à Runway após a demissão em massa realizada pelo jornal onde acreditava estar fazendo um trabalho com princípios e significados. Ao mesmo tempo, são as próprias pessoas da sua geração que tomam o poder através de ricaços da tecnologia, muitos deles invadindo todas as áreas apenas com números e métricas em mente.

Em meio ao naufrágio, o que resta é a colaboração entre os que tentam sobreviver. É quando surgem as transformações dos personagens de um filme para o outro, em especial as das protagonistas. Há quem possa dizer que Miranda está mais suavizada nessa sequência, o que, para mim, na realidade, faz total sentido. E, sendo bem sincero, é reconfortante ver que até o diabo pode mudar, mesmo que conforme a música da vez. Ocorre, enfim, a flexibilização de sentimentos — ou, então, as nuances — que, no fundo, gostaríamos de ter visto no primeiro longa.

Ao buscar novos pilares, O Diabo Veste Prada 2 não abandona, claro, a essência que tornou seu antecessor um marco na cultura pop. Em cena, há diversas referências ao que vimos em 2006, como o retorno de Vogue na trilha sonora e do suéter azul cerúleo no figurino. De Donatella Versace a Lady Gaga, o desfile de participações especiais também segue dando prestígio ao projeto. Felizmente, são inserções calibradas e que resistem à tentação de soarem cacoetes, algo exemplificado no uso do icônico That’s all de Miranda, utilizado uma única vez.

Mesmo com tantos méritos e com a presença gratificante de um elenco que volta aos personagens como se os tivessem interpretado ontem, não dá para se dizer que o raio cai duas vezes no mesmo lugar. O Diabo Veste Prada 2 não incendeia como o anterior, talvez por insistir em elementos que continuam não dando certo (o novo par romântico de Andy é outra vez insípido) e por não corrigir aquelas rotas fáceis demais que contornam problemas aparentemente incontornáveis para as personagens. Há ainda adições que em nada contribuem — e, nesse sentido, me pergunto qual a razão de desperdiçar um grande ator como Kenneth Branagh para um papel tão descartável. E, ah, claro, sem esquecer da estética pouco viva em cores e iluminação que toma conta das produções comerciais atuais.

Pode até ser que eu não reveja O Diabo Veste Prada 2 da mesma maneira incansável com que revejo o primeiro, mas fico feliz em poder dizer que a sequência tem vida própria diante de tantos projetos semelhantes que se sustentam apenas pela nostalgia momentânea. Ao ser comparado com, digamos, Gladiador 2 e Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda, o retorno de Meryl Streep e companhia ao universo da moda justifica sua existência ao apostar em um tipo de cinema outrora bem trabalhado em Hollywood: o que comunica ideias por meio da despretensão. Como o bom jornalismo, O Diabo Veste Prada 2 se sai vitorioso porque nega as expectativas óbvias e busca novos ângulos para explorar.

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