El cine tiene algo de premonitorio.

Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez, Belén Riquelme, Rossy de Palma, Carmen Machi, Amaia Romero
Amarga Navidad, Espanha, 2026, Drama, 111 minutos
Sinopse: Natal Amargo acompanha duas histórias paralelas que se desenrolam entre Madri e as Ilhas Canárias. De um lado, a publicitária Elsa (Bárbara Lennie) perdeu a mãe durante as festas de natal e afoga-se no trabalho. Não tendo espaço para lidar com o luto, um ataque de pânico severo a obriga a tirar uma pausa e viajar para Lazarote, nas Ilhas Canárias, ao lado de sua amiga Patricia enquanto o marido, Bonifacio, permanece em Madri. O outro ponto de vista da trama acompanha Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), um diretor e roteirista que enfrenta dificuldades em separar a realidade da ficção.

Para além da glória, todo artista cultuado carrega consigo o fardo de ter feito obras marcantes para determinadas épocas. Digo fardo porque, quando a régua sobe, o natural é, dali em diante, esperar-se nada menos do que o brilhantismo. E isso é algo terrivelmente injusto com qualquer processo criativo, pois abre margem para uma grande intolerância ao erro, ao corriqueiro ou, no caso de Pedro Almodóvar, a uma certa crise de criatividade – e, afinal, como não sofrer algum tipo de esgotamento criativo após a realização de 25 longas-metragens?
A verdade é que, acertando ou errando, o cineasta espanhol nunca deixou de experimentar: fez curta, longa, drama, comédia, filme em inglês e em espanhol, criou histórias novas e adaptou outras, lançou carreiras e trabalhou com grandes nomes de Hollywood. Aos 76 anos de idade, conquistou o merecido privilégio de contar as histórias que bem entende. É um feito e tanto, sobretudo no caso de um cineasta LGBTQIAPN+.
Por outro lado, Almodóvar não chega a ser reverenciado por tamanha pluralidade. O que pesa sobre ele é a cobrança, especialmente por parte da crítica, de nunca mais ter feito um trabalho à altura de Tudo Sobre Minha Mãe ou Fale com Ela, filmes que lhe renderam, entre outras coisas, os Oscars de melhor filme internacional e melhor roteiro original. É difícil entender o que se ganha com esse tipo de parâmetro.
Justa ou não, tamanha exigência é sentida por Almodóvar e, como um cineasta que, nos últimos anos, vem reexaminando muitos aspectos de sua vida e obra, ele não se furta a meditar sobre isso em Natal Amargo, seu mais novo longa-metragem. Sem vaidades ou ressentimentos, ele assume com todas as letras, por meio de um roteiro metalinguístico, o quanto seu cinema se tornou, sim, uma repetição de si próprio, ao mesmo tempo em que defende como isso é um estágio natural de qualquer processo criativo, em especial os mais longevos.
Natal Amargo tem como história central a vida de Elsa (Bárbara Lennie), que, após passar pela perda da mãe, conquistar um novo amor e descobrir-se tomada por crises de pânico, decide, enfim, voltar a fazer filmes após anos acumulando dinheiro somente como publicitária. Sua história ocupa o centro da narrativa e recebe intervenções ocasionais de Raúl (Leonardo Sbaraglia), cineasta que, na verdade, escreve a trama vivida por Elsa.
Diante da primeira metade de Natal Amargo, fiquei me perguntando por que esse não era um relato apenas sobre a vida de Elsa, visto que as aparições do personagem de Leonardo Sbaraglia eram pouco significativas. A virada de chave fica reservada para o terço final — e essa demora acaba sendo a maior fragilidade do longa —, quando Almodóvar faz com que o espectador reinterprete a narrativa de Elsa e, por consequência, os próprios filmes que ele realizou em suas décadas de carreira até aqui.
Com humor e sinceridade cortantes, o cineasta assume tudo aquilo de que a crítica o acusa: já está na hora, por exemplo, de deixar de revisitar o luto da mãe, bem como o artifício de colocar alguém cantando para emocionar personagens em cena. O alter-ego de Almodóvar vivido por Sbaraglia também ouve que já realizou os melhores filmes de sua carreira e que, agora, a preocupação deveria ser, quem sabe, fazer trabalhos menores ou, então, aquele projeto que a Netflix tenta encomendar há anos.
É nesse momento que Natal Amargo escancara sua brincadeira metalinguística. Talvez o diretor tenha mesmo criado Elsa para uma história original e de vida própria, mas terminou enredado em seus próprios vícios narrativos. Ao perceber isso, resolveu falar sobre a estagnação que a crítica tanto lhe atribui — e que, com Natal Amargo, ele não tem problema algum em assumir que, de fato, ela bate à sua porta de vez em quando.
Quando acompanha Elsa, o longa tem as tintas características do cinema de Almodóvar, o que deve atender ao público que sempre busca pelo lado feminino e intimista do diretor. Ainda que, propositalmente, a história não tenha rumos muito claros, o diretor a captura com seu habitual rigor técnico e estético, mais uma vez acompanhado de parceiros de longa data, como o figurinista Paco Delgado e o compositor Alberto Iglesias.
De tão metalinguístico, Natal Amargo só não se engrandece porque, justamente, parece mesmo ser um roteiro que não deu certo e que ganhou nova roupagem quando seu autor se deu conta para onde (não) estava indo. A ressignificação surge com certo atraso, e isso amortece a esperteza e o caráter autoficcional da obra, que, em vez de ir ao coração como o excepcional Dor e Glória, propõe um viés mais pragmático sobre o processo de se fazer um filme.
Natal Amargo se encerra na incompletude — ou, melhor dizendo, no processo de reescrita. Célebre autor gaúcho, Moacyr Scliar dizia que escrever é, na verdade, reescrever, e que há determinados livros que só ficam prontos à base da exaustão. Segundo ele, não há texto que não possa ser retrabalhado, o que, inevitavelmente, leva a um certo grau de frustração.
Acho que Almodóvar concordaria com Scliar. Não há limites para o quanto uma história — ou um simples texto — pode ser mexido, reestruturado, reinventado… E o que fazer com aquilo que não toma forma? Colocar no lixo? São perguntas e honestidades que o cineasta espanhol converte em um interessante exercício cinematográfico — e em uma autocrítica rara nesses tempos de busca desenfreada pela perfeição.