Cinema e Argumento

48º Festival de Cinema de Gramado #2: evento começa nesta sexta-feira (18) em formato multiplataforma

Cidade conta com decoração e Tapete Vermelho, mas evento acontece somenete na tela do Canal Brasil e nas redes sociais oficiais do Festival. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Hoje começa o 48º Festival de Cinema de Gramado. Pela primeira vez desde 2011, quando comecei a subir a Serra Gaúcha para acompanhar ou trabalhar no evento, não poderei fazer uma cobertura diária ao longo da programação. O motivo, no entanto, é nobre: neste ano, fui convidado a integrar o júri da crítica do Festival ao lado de Amanda Aouad, Caroline Zatt da Silva, Isabel Wittmann e Lúcio Vilar. É uma honra tremenda fazer parte desse quinteto, e estou desde já ansioso para conferir o que nos aguarda nas mostras de longas brasileiros, longas estrangeiros e curtas estrangeiros (o júri da crítica entrega um Kikito para o melhor filme de cada um desses segmentos).

Por fazer parte desse júri, obviamente não poderei escrever críticas sobre eles durante o evento, mas, após a entrega dos Kikitos, compartilharei com vocês as minhas impressões sobre os filmes aqui no blog. A programação que começa hoje (18) e se estende até o dia 26 poderá ser conferida nacionalmente, já que o 48º Festival de Cinema de Gramado acontece em formato multiplataforma, com exibição de filmes e homenagens no Canal Brasil (TV e streaming) e demais programações, debates e painéis nas redes sociais oficiais do evento (Facebook, Instagram e YouTube). O longa-metragem brasileiro que abre a programação, a partir das 20h, é Por Que Você Não Chora?, de Cibele Amaral. Confira aqui a programação completa. 

Cinema e Argumento de volta ao YouTube!

Depois de quase três anos, o canal do Cinema e Argumento retoma agora as suas atividades no YouTube!

Nele, compartilharei dicas de filmes que considero excelentes e que merecem ser (re)descobertos, em diferentes plataformas. Além das críticas, essa nova temporada traz entrevistas com muita gente bacana e que eu admiro. O vídeo que inaugura essa reestreia faz uma breve análise sobre Luce, um drama muito instigante e provocativo que não chegou a passar nos cinemas brasileiros, mas que já está disponível em streaming.

Desde já, aproveito para deixar registrado aqui o meu imenso agradecimento a todos os convidados que toparam participar das entrevistas até agora e a todos que me aconselharem e me incentivaram na concepção dessa versão repaginada do canal. É um trabalho singelo, mas feito com muita dedicação e carinho. Outro detalhe importante: todos os vídeos contam com legendas produzidas e revisadas especialmente para esses conteúdos, buscando incluir a população surda.

Por fim, deixo ainda um agradecimento muito especial para o meu amigo Acauã Brondani, responsável pela linda edição dos vídeos, e para o Rodolfo Moschen, que assina a maravilhosa identidade visual do blog e do canal.

Os conteúdos serão publicados semanalmente. Espero vocês lá!

Rapidamente: “Má Educação”, “Música Para Morrer de Amor”, “Palm Springs” e “O Tempo Com Você”

Hugh Jackman e Allison Janney em Má Educação: dupla entrega excelentes performances para uma história que se constrói a partir da desconstrução de seus personagens.

MÁ EDUCAÇÃO (Bad Education, 2019, de Cory Finley): Baseado na maior fraude envolvendo o sistema público de ensino dos Estados Unidos, o ótimo Má Educação, da HBO, explora o desmoronamento pessoal e profissional de personagens que se apropriaram do dinheiro destinado ao orçamento da Roslyn High School em benefício de suas próprias despesas particulares e familiares. E não qualquer dinheiro: cerca de 11 milhões de dólares foi o montante desviado pelo esquema que se tornou público em 2004. A melhor sacada do roteiro escrito por Mike Makowsky, com base no artigo “The Bad Superintenent”, de Robert Kolker, é não encenar como se deu essa grande fraude, e sim apresentar personagens aparentemente perfeitos para logo em seguida lançar a bomba do escândalo, desconstruindo cada um deles. A partir daí, começa um efeito dominó que funciona ainda mais para o público pouco familiarizado com a história real, pois é intrigante tentar entender quem faz parte de um crime que, de início, parece ter pequenas dimensões. Ao construir personagens através de suas respectivas desconstruções, Má Educação ganha força como uma experiência surpreendente, de ritmo envolvente e com uma atmosfera propositalmente incômoda (vale, por exemplo, prestar atenção nos tons frios da fotografia e na trilha sonora nada óbvia de Michael Abels). Elogios também se estendem a Hugh Jackman e Allison Janney, ambos excelentes. Jackman, ator com outros desempenhos admiráveis na carreira (Os Suspeitos, LoganOs Miseráveis), acerta na vaidade engessada e na perfeição artificial de um homem que, tentando preservar as aparências, passa a perder o controle de tudo a sua volta. Já Janney, em papel coadjuvante, usa seu vasto repertório como uma talentosa intérprete para introduzir parte das as dúvidas e das desconstruções responsáveis por nortear o filme como um todo. Má Educação é outro acerto acerto muito bem-vindo na tradição tão característica da HBO de entregar ótimos telefilmes.

MÚSICA PARA MORRER DE AMOR (idem, 2020, de Rafael Gomes): Coautor do roteiro do belo De Onde Eu Te Vejo, Rafael Gomes volta a falar sobre relacionamentos amorosos na imensidão da cidade de São Paulo, dessa vez em forma de mosaico, acompanhando as turbulências românticas de vários personagens jovens que, apesar de decepções e sofrimentos, seguem acreditando no amor. Entre um coração partido e outro, Música Para Morrer de Amor traz uma trilha sonora com canções sobre as dores de se apaixonar, rendendo inclusive uma divertida sessão de karaokê onde Caio Horowicz e Denise Fraga cantam “Não Aprendi a Dizer Adeus”, a clássica música eternizada na voz da dupla Leandro e Leonardo. Contudo, o filme funciona melhor na teoria do que na prática. Talvez o principal problema seja a dificuldade do espectador em criar uma real conexão com personagens pouco empáticos e centrados nas especificidades da classe média branca, jovem e paulista. E mais: é difícil criar laços com figuras que fazem de tudo para sabotar os seus sentimentos e o dos outros. Na medida em que isso faz parte, claro, do confuso processo de se apaixonar e manter uma relação, Música Para Morrer de Amor prefere ilustrar tal turbilhão emocional com o máximo de atitudes erradas ou imaturas entre os personagens para, ao longo disso, refletir sobre as consequências desses atos e os sentimentos acerca deles com frases de efeito que parecem pensadas para postagens de Instagram. Isso pode ser reflexo da natureza teatral do projeto, uma vez que o roteiro é inspirado no espetáculo Música Para Cortar os Pulsos, também da autoria de Rafael e vencedor do prêmio APCA de Melhor Peça Jovem. Ainda assim, sinto falta de uma maior delicadeza e concisão nessa transposição, características que ele mesmo já havia apresentado ao discutir diferentes vertentes dos relacionamentos no já citado De Onde Eu Te Vejo, onde, aí sim, tive plena facilidade em me identificar ou me solidarizar com as atitudes tortuosas dos personagens em relação ao amor. 

PALM SPRINGS (idem, 2020, de Max Barbakow): A comparação imediata é com Feitiço do Tempo, mas Palm Springs pouco se assemelha a essa adorada comédia dos anos 1990 estrelada por Bill Murray. À parte o fato de que ambos falam sobre protagonistas presos na repetição de um mesmo dia, Palm Springs apresenta para a plateia um personagem que há muito tempo já habita essa realidade. Ou seja, o roteiro escrito por Andy Siara não segue o longo e tradicional arco introdutório onde Nyles (Andy Samberg) descobre a cada cena uma nova particularidade de um estranho universo. O momento é outro: há anos confinado nessa misteriosa condição, ele de repente vê sua rotina abalada quando Sarah (Cristin Milioti) passa a viver a mesma realidade. O cenário é a festa de um casamento, onde, cercados de dezenas de pessoas, eles são os únicos que vivem juntos uma infinita repetição. Nesse confinamento, é claro que surge um interesse romântico entre os dois, o que mais uma vez não é desculpa para que Palm Springs seja óbvio: renegando caminhos tradicionais, o roteiro explora as particularidades de personagens agradáveis, descolados e carismáticos em um recorte que encena a diversão de amigos-logo-apaixonados em um universo onde eles podem fazer qualquer coisa sem consequência alguma (e o clima de festa de casamento ajuda muito nesse sentido!) quanto refletir sobre suas vidas passadas, a falta de perspectiva de um futuro e as sensações felizes e conturbadas de construir um relacionamento em uma circunstância deveras inimaginável. Em breves 90 minutos, o diretor Max Barbakow confere personalidade e muita graça ao resultado, impulsionado pela química de alta sintonia entre Andy Samberg e Cristin Milioti. É o tipo de entretenimento que, especialmente agora em um ano tão difícil como 2020, surge como uma excelente opção para aqueles dias em que queremos desligar a cabeça e curtir uma sessão com boas vibrações.

O TEMPO COM VOCÊ (Tenki No Ko, 2019, de Makoto Shinkai): Aos 44 anos, o diretor Makoto Shinkai viu Your Name, seu quinto longa-metragem, ultrapassar A Viagem de Chihiro, do mestre Hayao Miyazaki, como a maior bilheteria já registrada por um anime em escala mundial. É o caso onde o hype está proporcionalmente de acordo com a qualidade trabalho em questão: apesar da premissa batida, Your Name se desdobra como uma animação originalíssima e empolgante que jamais subestima o espectador (não por acaso, Hollywood já desenvolve uma adaptação live action dirigida por Marc Webb, ainda sem data prevista de estreia). O sucesso estrondoso inevitavelmente acabou criando expectativas em torno do trabalho seguinte de Shinkai, e o resultado é O Tempo Com Você, onde ele volta a pegar uma premissa muito simples para desfiá-la com um olhar mais adulto e menos previsível. O foco desse novo trabalho é a relação entre um jovem que foge sozinho para Tóquio e uma garota da sua mesma faixa de idade que tem o poder de controlar o tempo (não o do relógio, mas sim a chuva, o sol, o frio…). O Tempo Com Você lança um olhar muito adulto para a vida urbana, onde os dois protagonistas, apesar de muito jovens, enfrentam problemas financeiros, solidão, carências e angústias, tudo em meio a uma Tóquio reproduzida com impressionante realismo em suas lindas arquiteturas. É um espetáculo visual belíssimo, no padrão de tudo que Shinkai faz, mas aqui a influência de todo o peso de Your Name se faz sentir, já que há uma perceptível vontade do diretor em querer repetir a fórmula desse filme que lhe trouxe um recorde mundial. A última meia hora de O Tempo Com Você em especial é similar demais a Your Name, inclusive no que se refere à questão estética, com frames que parecem transferidos de um filme para o outro. O uso excessivo de uma trilha com canções sentimentais para dar emoção ao clímax também nos remete à vontade, seja ela involuntária ou não, de Shinkai evocar seu trabalho anterior, que, vale lembrar, ainda é comparativamente superior em objetividade de tramas, duração e ritmo.

48º Festival de Cinema de Gramado #1: com edição híbrida para TV e streaming, evento apresenta lista de filmes concorrentes e homenagens

Exibido no Festival de Berlim, Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, integra a competição de longas brasileiros do 48º Festival de Cinema de Gramado, que será realizado de forma híbrida.

Mais uma vez em clima de reinvenção, o Festival de Cinema de Gramado, a exemplo de outros eventos brasileiros do gênero durante a pandemia do Coronavírus, realizará a sua 48ª edição em formato híbrido. A novidade, além de coerente e bem-vinda, é pioneira: toda a programação será transmitida pelo Canal Brasil (TV e streaming), incluindo os filmes em competição. E as expectativas são várias: dos novos longas de Ruy Guerra, Felipe Bragança e Camilo Cavalcante, até documentários sobre grandes figuras da música brasileira como Alcione e Sidney Magal, passando pelo aguardado Todos os Mortos e três títulos dirigidos por mulheres, Gramado preserva o seu status de festival de cinema mais importante do Brasil, agora sob a curadoria do trio Marcos Santuario, Soledad Villamil e Pedro Bial. Todos os títulos brasileiros, assim como os estrangeiros (oriundos de nada menos do que sete países diferentes), são inéditos em território nacional. Outros 33 curtas em competição ainda serão exibidos no Canal Brasil, em uma iniciativa que levará o cinema do evento serrano para plateias antes nunca alcançadas em território nacional. É uma solução criativa e democrática para um festival que, em 48 anos de trajetória, nunca deixou de realizar uma edição sequer. Cinema é o que não vai faltar para ficar em casa!

Também atendendo o formato online, as homenagens serão entregues a um quarteto de respeito. Marco Nanini receberá o Troféu Oscarito, dedicado a grandes atores do cinema brasileiro. Vale lembrar que Nanini recentemente protagonizou Greta, um dos papeis mais marcantes e desafiadores de toda a sua carreira, reforçando o belo momento dessa homenagem. Já a diretora Laís Bodanzky, diretora de ótimos filmes como Bicho de Sete CabeçasChega de SaudadeComo Nossos Pais, receberá o Troféu Eduardo Abelin, destinado a profissionais que trabalham atrás das câmeras. Não só a distinção é justa como também vem embrulhada por um ótimo timing: hoje Bodanzky faz uma excelente gestão como presidente da Spcine, empresa municipal de fomento ao audiovisual da cidade de São Paulo. Considerando o cinema latino-americano, o ator uruguaio César Troncoso fica com o Kikito de Cristal, que já foi entregue a nomes como Cecilia Roth, musa de Pedro Almodóvar.

Por fim, a maravilhosa Denise Fraga fica com o troféu Cidade de Gramado. Nesse caso, no entanto, faço uma observação: criado em 2012, o troféu segue sem um conceito muito definido (já chegou tanto a homenagear o aniversário de Sargento Getúlio como a carreira do cartunista Mauricio de Sousa!), seguidamente celebrando nomes dignos de Oscarito, a distinção mais antiga e emblemática do evento. Foi assim com Wagner Moura, Rodrigo Santoro e, agora, Denise Fraga. Atriz ativa e prolífera, Denise já atuou em mais de 25 filmes, indo do comercial ao autoral. Ela ainda passou por clássicos como O Auto da Compadecida e chegou a conquistar um Kikito de melhor atriz pelo longa Por Trás do Pano, dirigido por Luiz Villaça, seu companheiro de vida e carreira. Toda homenagem entregue a Denise é merecida, mas sou da opinião de que, assim como outros colegas celebrados com o Cidade de Gramado, a estatura de seu talento como intérprete merecia ser reservada à tradição e ao emblema do Troféu Oscarito.

O 48º Festival de Cinema de Gramado acontecerá entre os dias 18 e 26 de setembro. Mais informações podem ser conferidas no site oficial do evento. Confira abaixo a lista completa de filmes concorrentes:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança (RJ)
Aos Pedaços, de Ruy Guerra (RJ)
King Kong em Asunción, de Camilo Cavalcante (PE)
Me Chama Que Eu Vou, de Joana Mariani (SP)
Por Que Você Não Chora?, de Cibele Amaral (DF)
O Samba é Primo do Jazz, de Angela Zoé (RJ)
Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra (SP)

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Dias de Inverno, de Jaiziel Hernández (México)
La Frontera, de David David (Colômbia)
Los Fuertes, de Omar Zúñiga (Chile)
El Gran Viaje al País Pequeño, de Mariana Viñoles (Uruguai)
Matar a un Muerto, de Hugo Giménez (Paraguai)
El Silencio del Cazador, de Martin Desalvo (Argentina)
Tu Me Manques, de Rodrigo Bellott (Bolívia)

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
4 Bilhões de Infinitos, Marco Antonio Pereira (MG)
Atordoado, Eu Permaneço Atento, de Henrique Amud e Lucas H. Rossi dos Santos (RJ)
O Barco e o Rio, de Bernardo Ale Abinader (AM)
Blackout, de Rossandra Leone (RJ)
Dominique, de Tatiana Issa e Guto Barra (RJ)
Extratos, de Sinai Sganzerla (SP)
Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho (PE)
Joãosinho da Goméa: O Rei do Candomblé, de Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra (RJ)
Receita de Caranguejo, de Issis Valenzuela (SP)
Remoinho, de Tiago A. Nevers (PB)
Subsolo, de Erica Maradona e Otto Guerra (RS)
Trincheira, de Paulo Silver (AL)
Você Tem Olhos Tristes, de Diogo Leite (SP)
Wander Vi, de Augusto Borges e Nathalya Brum (DF)

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Bochincho – O Filme, de Guilherme Suman (Porto Alegre)
O Céu da Pandemia, de Marina Kerber (Porto Alegre)
Construção, de Leonardo da Rosa (Pelotas)
Corpo Mudo, de Marcela Schild (Santa Cruz do Sul)
Desencanto, de Richard Tavares (Porto Alegre)
Deserto Estrangeiro, de Davi Pretto (Porto Alegre)
Dois Homens ao Mar, de Gabriel Motta (Porto Alegre)
Fragmentos ao Vento, de Ulisses da Motta (Porto Alegre)
Lacrimosa, de Matheus Heinz (Porto Alegre)
Letícia Monte Bonito, de Julia Regis (Pelotas)
O Luto Impossível, de Bruno Carboni (Porto Alegre)
Magnética, de Marco Arruda (Porto Alegre)
Um Pedal, de Alexandre Derlam (Canoas)
Pra Ficar Perto, de Lucas dos Reis (Sapucaia do Sul)
Quando Te Avisto, de Denise Copetti e Neli Mombelli (Santa Maria)
O Que Pode Um Corpo?, de Victor Di Marco e Márcio Picoli (Bagé)
Sopa Noir, de Beatrice Petry Fontana (São Leopoldo)
Teste de Elenco, de Marcos Kligman e Mariany Espíndola (Porto Alegre)
Ver a Vista, de Daniel de Bem (Porto Alegre)

Três atores, três filmes… com Ronaldo Trancoso Jr.

Trocar ideias com pessoas apaixonadas por cinema sempre foi um dos meus prazeres favoritos nesse ofício de escrever sobre filmes na internet. Raras são as vezes, no entanto, que a gente se depara com colegas cinéfilos tão ponderados, democráticos e com um alto nível de conhecimento como o Ronaldo Trancoso Jr., criador do blog Cinematic Tips e colaborador dos blogs Trash to Tarkovsky e You! Me! Dancing. Destaco essas qualidades no Ronaldo pois admiro a forma como ele se utiliza do seu próprio conhecimento para propôr novos olhares, questionar o que está aí pré-estabelecido e estimular o público a ser o mais plural possível na busca por novos filmes. Aliás, basta vocês também acompanharem o Twitter do Ronaldo para saber do que eu estou falando. Garanto que, muito mais do que se informar sobre tudo o que está rolando no cinema e também nas temporadas de premiações, vocês encontrarão opiniões bem posicionadas e que fogem do lugar-comum. Não por acaso, as escolhas dele para a coluna não poderiam fugir disso. Do Brasil à China, temos três mulheres maravilhosas selecionadas por desempenhos que indiscutivelmente marcam as suas respectivas carreiras. Valeu, Ronaldo!

Marcélia Cartaxo (A Hora da Estrela)
Com muita sutileza, Marcélia Cartaxo deu vida a uma das personagens mais arrebatadoras da nossa literatura. Na adaptação do livro de Clarice Lispector, Cartaxo nos faz lembrar que todos já tivemos uma Macabéa dentro de nós em algum momento. A delicadeza da atriz nos cativa do início ao fim, revelando toda a profundidade da personagem em olhares que ficam para sempre na memória. Curiosamente, Cartaxo conseguiu o mesmo efeito no recente Pacarrete, mais uma prova de sua facilidade para mesclar drama com leveza.

Michelle Pfeiffer (Batman: O Retorno)
A atuação de Michelle Pfeiffer em Batman: O Retorno sempre me fascinou, não só por sua presença física inesquecível, mas também pela complexidade da performance. A entrega total da atriz faz da personagem uma figura trágica e multifacetada, sem nunca deixar de mostrar sua vulnerabilidade, até nos momentos em que precisa intimidar outras pessoas. Antagonistas assim, cheios de nuances, sempre foram uma raridade em blockbusters, geralmente povoados por vilões unidimensionais. Selina Kyle é uma pessoa que, mesmo tomando as rédeas do próprio destino, continua marcada por traumas e conflitos internos, que se refletem em cada fala e gesto de Pfeiffer. O desempenho da atriz é tão fantástico que fica difícil escolher sua cena mais icônica.

Tao Zhao (As Montanhas se Separam)
Quando assisti a As Montanhas se Separam, estava numa das piores fases da minha vida. Eis que dei uma chance a este filme de Jia Zhangke e senti novamente o poder transformador do cinema. A atuação fenomenal de Tao Zhao foi fundamental para isso. A cada bola curva lançada sobre a personagem, a atriz carrega um mundo de emoções em seu semblante, mostrando uma evolução constante até o desfecho catártico do filme, que coroa Zhao como uma das melhores atrizes de sua geração.

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