Cinema e Argumento

“After Life”: em fase melancólica e tragicômica, Ricky Gervais encena o luto sem fim de um homem comum

Criador, ator, produtor, roteirista e diretor do seriado After Life, Ricky Gervais abraça a melancolia e a tragicomédia para narrar a história de um homem que vive um luto sem fim. 

Esqueça o Ricky Gervais que, como apresentador do Globo de Ouro em três ocasiões, chocou meio mundo com monólogos de abertura polêmicos. Esqueça também o Ricky Gervais que deixou incontáveis plateias desconfortáveis com seriados como Extras e The Office (a versão britânica que deu origem ao sucesso estrelado por Steve Carell nos Estados Unidos). Obviamente Gervais não abriu mão de sua própria personalidade, mas o que vemos em After Life, cuja segunda temporada estreou dia 24 de abril na Netflix, é uma versão mais sentimental e melancólica de um humorista que, perto de completar 60 anos, resolveu refletir sobre a finitude da vida e sobre o estado de luto que todos nós um dia vivenciaremos.

Se antes o humor de Ricky Gervais era gosto adquirido (piadas ácidas, politicamente incorretas e até mesmo constrangedoras são para um certo nicho), agora a situação muda de cenário, pois After Life, além de trazer toda a ironia e a inteligência das melhores comédias britânicas, consegue ser universal ao equilibrar certas características do humor que consagrou Gervais e doses de emoção realmente surpreendentes se levarmos em consideração a trajetória mais célebre do humorista. Para quem gosta de ver tudo de uma tacada só, uma boa notícia: After Life é estruturada em temporadas de somente seis episódios de 30 minutos, o que também pode ser a tristeza para quem gosta de saborear histórias por um longo período.

As duas temporadas lançadas até agora são todas dirigidas e roteirizadas pelo próprio Gervais. Cada uma, pela curtíssima duração, parece um filme dirigido em seis partes. Gervais, no entanto, como um veterano dos seriados, sabe construir uma estrutura episódica para o programa. Resumidamente, a história gira em torno de Tony, um jornalista que, após ter perdido a esposa para o câncer, passa a enxergar o pessimismo como filosofia de vida. Para ele, o trabalho é uma atividade tola, as pessoas ao seu redor são desprezíveis e tudo parece uma conspiração para para irritá-lo. Sem a esposa, Tony apenas sobrevive.

A partir de amizades improváveis e de personagens que buscam a humanidade do protagonista, After Life dosa humor e comédia para evitar o risco de se tornar o relato sobre um homem intragável.

Receita fácil para criar um personagem insuportável, a sinopse depressiva de After Life é colocada abaixo na prática. Primeiro porque Ricky Gervais, que interpreta o próprio Tony, opta por utilizar a sua cota de humor justamente para retratar o pessimismo do protagonista. Ora, é mesmo tragicômico o fato de Tony trabalhar no jornal decadente de uma pequena cidade, entrevistando pessoas que talvez nenhum jornalista sonha entrevistar, como uma senhora que diz ter o poder de falar com gatos ou o homem que vê o rosto de Kenneth Branagh em uma infiltração da casa. Também é divertido ver Tony se tratar com um psicólogo que está cansado de ouvir seus pacientes e que, no final das contas, quer apenas falar sobre ele próprio.

Além de explorar com humor as situações cotidianas afim de aliviar o peso que ele visivelmente carrega nas costas, After Life cerca o protagonista de personagens que clamam por sua humanidade, como Emma (Ashley Jensen), a enfermeira que cuida do pai de Tony em uma clínica para idosos, ou então a sua mais nova amiga Anne (Penelope Wilton), uma senhora que perdeu o marido e com quem ele tem alguns dos melhores diálogos em ambas as temporadas. A partir do convívio com essas pessoas, Tony começa gradativamente a se abrir para o mundo mais uma vez, ainda que nunca consiga se libertar das memórias da esposa, muitas delas registradas em gravações caseiras que ele assiste ao acordar e antes de dormir.

Fragmentos de memórias: nos vídeos que Tony assiste diariamente como um ritual, conhecemos um pouco sobre quem ele era antes de perder a esposa.

No tocante à discussão do luto, Ricky Gervais não cai na tentação de querer encenar contar a história do protagonista de forma linear. Seria fácil nos introduzir à esposa de Tony, passar alguns episódios com ela e depois fazê-lo sofrer a perda. O que After Life faz é apresentar um personagem que, depois de meses, ainda não seguiu em frente — e nem tem a intenção de seguir tamanho o vazio existencial que sente. Através das gravações que Tony guarda da esposa, a série revela, a cada episódio, fragmentos do relacionamento sincero, cúmplice e espontâneo dos dois, e aí entendemos ainda mais a razão de todo luto. Cada vez que vemos o protagonista encerrar um dia com um sorriso ou algumas lágrimas no rosto ao revisitar alguma gravação no computador, percebemos que também sentimos falta de vê-lo feliz.

O humor pessimista desse homem em luto rende momentos hilários para After Life, que busca a piada no absurdismo do dia a dia. Entretanto, é a angústia de Tony com ele próprio e com a sua incapacidade de seguir em frente que dá verniz à série. Com simplicidade, Gervais olha para o cotidiano com um olhar afiado e revelador: assim como acontece na vida, o protagonista começa a colecionar amizades improváveis (a prostituta vivida por Roisin Conaty é excelente, muito em função da série não problematizar ou estereotipar a natureza da sua profissão) e a perceber que, apesar dos pesares, precisamos abraçar aquilo que a vida tem a nos oferecer, inclusive os colegas estranhos de trabalho que podem muito bem ser o ombro amigo que precisamos. No meio disso tudo, Ricky comove e diverte como ator, em um desempenho discreto e repleto de nuances.

Na primeira temporada, After Life apostou com mais frequência no humor, muito para contextualizar o quanto Tony passou a ver a vida com pessimismo. Já no segundo ano, a melancolia toma conta do seriado porque testemunhamos vários desdobramentos de suas novas relações. A mais significativa é a que ele estabelece com a enfermeira que cuida de seu pai e que logo se apresenta como um interesse amoroso que talvez o faça finalmente virar a página. Nada maniqueísta ou clichê, mas de uma sobriedade que costuma definir os trabalhos mais interessantes vindos do Reino Unido. Com o passar do tempo, Ricky Gervais realmente se tornou mais sentimental. E, partindo do que ele realiza em After Life, tal constatação só comprova a velha tese de que nem todo ator é um grande comediante, mas que, sim, todo comediante é necessariamente um grande ator. Aliás, no caso de Ricky, grande ator, produtor, diretor, roteirista…

Três atores, três filmes… com Vera Fischer

Com mais de 40 anos de carreira, Vera Fischer já ultrapassou a marca de 30 participações em novelas e seriados. No meu imaginário de ex-noveleiro, ela mora, claro, como a protagonista Helena de Laços de Família, novela do ano 2000 que, escrita por Manoel Carlos, chegou a registrar o maior índice de audiência do Canal Viva quando foi reprisada em 2016. Vera também fez filmes — mais de 20 — e sempre foi uma cinéfila de carteirinha. Recentemente, passou a compartilhar suas aventuras cinematográficas no Instagram. De grandes clássicos a sucessos modernos, ela também registra por lá os seus comentários sobre premiações como o Globo de Ouro e o Oscar (aliás, Rede Globo, já fica registrada aqui a dica para que a Vera comente a transmissão do ano que vem!). Sou grande fã da completa espontaneidade e autenticidade com que Vera produz suas postagens. Mais ainda da frequência com que ela assiste diferentes filmes para, logo em seguida, recomendar aos seus seguidores. Convidada a elencar três interpretações do cinema que lhe marcaram, Vera selecionou para a nossa coluna dois desempenhos agraciados com o Oscar e um eternizado pelo tempo. Os três primeiros comentários abaixo foram enviados por ela especialmente para o blog. Já os demais foram publicados recentemente no Instagram da Vera, onde ela também comenta especificamente sobre desempenhos de seus colegas de profissão. Tão importantes quanto os críticos não são os espectadores assíduos? Que privilégio tê-la por aqui!

Holly Hunter (O Piano)
No filme de Jane Campion, ela faz uma mulher muda que fala por sinais e que ama o seu piano mais do que tudo na vida, a ponto do piano falar por ela. Com um desempenho tão forte, tão maduro, e ao mesmo tempo tão surreal, ela me tocou profundamente.

Liza Minelli (Cabaret)
Ela estava maravilhosa nesse filme dirigido pelo coreógrafo Bob Fosse! A sua Sally Bowles, uma sonhadora americana, que canta e dança no Cabaret KitKat, em Berlim, durante a ascensão do nazismo, é digna dos maiores elogios. Ela criou, através da maquiagem e das roupas, uma personagem meio clown, uma figura patética no meio daquele ambiente decadente. Adorei como Liza conseguiu me emocionar, a cada cena, seja dançando, cantando ou apenas em silêncio, no close.

Jack Nicholson (O Iluminado)
O primeiro épico de terror que ficou amedrontador não apenas por ser uma historia de Stephen King dirigida por Kubrick, mas também pelo horror, loucura e insanidade que o ator vai revelando ao longo do filme. É impossível ficar impassível! É um grande trabalho de Nicholson e dá mesmo muito medo.

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Rita Hayworth (Gilda)
A lendária Rita Hayworth, dama da Columbia Pictures, brilha neste filme de 1946, dirigido por Charles Vidor. Com muita sensualidade e magnetismo, ela canta “Put the Blame on Mame”, num cassino ilegal em uma cidade da América Latina; é uma história cheia de reviravoltas. Gilda, mulher infiel, sedutora, ciumenta, vingativa, intimidadora e… maravilhosa. Dizem que, nunca houve uma mulher como Gilda!

Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
Encantador. Fascinante. Assassino. É assim o filme O Último Rei da Escócia, com o vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de 2007, Forest Whitaker. No papel de Idi Amin Dada, o ditador se Uganda, Forest nos brinda com uma das melhores interpretações da história do cinema moderno. Esta é a incrível história de Amin, vista através dos olhos de Nicholas Garrigan (James McAvoy, também excelente!), um jovem escocês que foi médico pessoal do instável líder, em parte devido à inesperada paixão de Amin pela cultura escocesa. Amin até se autoproclamou “O Último Rei da Escócia”. Seduzido pelo carisma de Amin e cegado pela decadência, a vida dos sonhos de Garrigan torna-se um pesadelo de traição e loucura, da qual não há fuga. Inspirado em pessoas e acontecimentos reais, esta história de grande impacto e cheia de suspense é repleta de interpretações inesquecíveis. Forest Whitaker me inspira sempre. É tão bom ator que você é fisgado no primeiro instante. Esse é um filmaço. Daqueles que, sempre que você o vê, nunca mais vai ser a mesma pessoa.

Audrey Hepburn (Bonequinha de Luxo)
Quem ainda não viu Bonequinha de Luxo, esta comédia com Audrey Hepburn, que brilha como diamante? Claro que todos já viram! Mas nunca é demais. Desde os acordes de abertura da inesquecível canção “Moon River”, de Henry Mancini e Johnny Mercer (vencedora do Oscar), todos ficam sob o encanto desta maluquinha garota de Nova York, conhecida como Holly Golightly (Audrey), nesta história baseada no best-seller de Truman Capote. George Peppard é um jovem e esforçado escritor que conhece Holly e é arrebatado para o seu intrigante e delicioso estilo de vida, mas Holly quer apenas encontrar um milionário para casar-se. Grande clássico do diretor Blake Edwards. Eu adoro, particularmente, as cenas em que ela está vestindo um Givenchy preto, diante da Tiffany’s, comendo um sanduíche ao amanhecer, admirando os diamantes, e, o momento em que, ao lado de Peppard, sentada na janela, ela canta “Moon River”. Audrey forever.

Melhores de 2019 – Roteiro Adaptado

Foi necessário um período dois anos para que o roteiro de A Vida Invisível chegasse à sua estrutura final. Ao longo desse tempo, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, que tomavam como base, claro, o livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, discutiram muitos pontos que poderiam funcionar na literatura, mas que, no cinema, talvez pudessem soar menos orgânicos para o ritmo da narrativa (a grande quantidade de saltos no tempo, por exemplo). Procurando manter a essência do romance de Martha Batalha, a dupla também propôs ajustes pontuais, como o fato de Eurídice tocar piano — e não flauta, como originalmente escrito —, um instrumento muito mais visual e que amplia a linguagem corporal da personagem.

A mistura de reverência ao livro de origem com a plena consciência de que literatura é uma coisa e cinema é outra confere ao roteiro de A Vida Invisível uma grande delicadeza. Estruturalmente bem resolvido (Karim e Murilo ainda desconstruíram o texto original para colocá-lo em ordem cronológica e, a partir daí, definirem a gênese dramática e o formato da narrativa), a adaptação contempla diversos temas — a emancipação feminina, o machismo, a relação entre irmãs, a passagem do tempo — com grande comoção, provando que é possível sim fazer um melodrama bem dosado e com raízes novelescas admiráveis. Ainda disputavam a categoria: Greta, Poderia Me Perdoar?, Querido Menino e Se a Rua Beale Falasse.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Me Chame Pelo Seu Nome | 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol |  2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

Melhores de 2019 – Montagem

Ao aceitar o convite para assinar a montagem de Parasita, Jinmo Yang já tinha em mente que Bong Joon-ho é um cineasta que escreve roteiros com espírito de montador. Por isso mesmo, a primeira conversa entre Bong e Yang foi outra: ao invés de discutirem como a casa que foi construída especialmente para o filme seria explorada pela montagem ou sobre como se dariam as transições de gênero, a dupla debateu a amplitude de cada personagem. Nas entrevistas que concedeu desde o lançamento do filme, Yang ressaltou que o grande foco da montagem de Parasita foi criar uma unidade dramática para a interação entre famílias tão diferentes. Lançando um olhar meticuloso para aquilo que estava faltando ou sobrando em cada personagem, ele leva o filme a um patamar completamente diferenciado: além de ter um excelente ritmo e de se movimentar entre variados gêneros, Parasita é, em sua gênese, um filme sobre seres humanos e suas relações, algo amplamente reverenciado por uma das montagens mais brilhantes dos últimos anos. Trabalho de mestre. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Cafarnaum, Democracia em Vertigem e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Você Nunca Esteve Realmente Aqui | 2017 – Em Ritmo de Fuga | 2016 – A Grande Aposta | 2015 – Whiplash: Em Busca da Perfeição | 2014 – O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

Melhores de 2019 – Fotografia

James Laxton acumula até aqui mais de 40 produções como diretor de fotografia, mas sua carreira está um degrau acima quando ele colabora com o cineasta Barry Jenkins. O primeiro encontro entre os dois foi em Moonlight: Sob a Luz do Luar, que rendeu a Laxton uma indicação ao Oscar. Infelizmente, reconhecimento equivalente não lhe foi dado por Se a Rua Beale Falasse, onde ele mais uma vez realiza um trabalho excepcional. Tendo como inspiração as habilidades singulares da literatura de James Baldwin — autor do livro homônimo em que o filme se baseia —, especialmente aquela de narrar sentimentos de maneira tão palpável, Laxton constrói uma fotografia pulsante para Se a Rua Beale Falasse, que, assim como a obra de Baldwin, é atmosférica nos sentimentos que busca despertar no espectador.

Em parceria com Jenkins, Laxton incorporou no trabalho outras inspirações da dupla, como o cinema de Wong Kar-Wai e Claire Denis, voltando-se também para os contrastes do romance que se materializa na tela, onde o amor é cercado pelo sofrimento ou onde o racismo e o preconceito são enfrentados com resiliência. A fotografia captura literalmente de perto as emoções dos personagens e dialoga no uso cores com a paleta de figurinos e cenários que homenageiam grandes melodramas da chamada Era de Ouro de Hollywood. Com técnicas e referências sublimes, mas, acima de tudo, com muita paixão, Laxton inebria e cria composições que deixariam Baldwin muito orgulhoso. Ainda disputavam a categoria: Ad Astra: Rumo às Estrelas, Coringa, A Favorita e Vergel.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Roma |  2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira

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