Cinema e Argumento

Os vencedores do Oscar 2021

Com os prêmios de filme, direção e atriz, Nomadland foi o grande vencedor do Oscar 2021.

Contrariando a opinião geral das redes sociais e da imprensa especializada, tenho para mim que a cerimônia do Oscar 2021 foi uma das melhores desde que comecei a acompanhar a premiação. De começo, o produtor Steven Soderbergh, ao lado de Jesse Collins e Stacey Sher, conseguiu reverter algo que me incomoda profundamente há anos: fazendo jus ao título do seu último filme, Let Them All Talk, ele pensou uma cerimônia onde os infinitos clipes com trechos de filmes e os intermináveis monólogos de incontáveis apresentadores ficaram em segundo plano para dar protagonismo ao discurso dos vencedores, que puderam falar por quanto tempo quiseram, rendendo momentos comoventes, como o da fala de Thomas Vinterberg ao receber o prêmio de melhor filme internacional (bastante comovido, o diretor dinamarquês homenageou a filha adolescente que faleceu durante as filmagens do longa em um acidente de carro). A majestosa entrada de Regina King percorrendo os corredores do Union Station para chegar até ao palco e apresentar o primeiro prêmio da noite seguiu a linha de valorizar quem tem o nome marcado na história do Oscar.

É importante lembrar que a criticada decisão de apresentar as categorias de melhor ator e melhor atriz depois de melhor filme não é invenção do Oscar 2021. Na realidade, essa foi uma tradição da Academia durante muitos anos, e não apenas uma jogada esperta dos produtores esperando que a cerimônia terminasse em seu mais alto tom de homenagem para o saudoso Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues). O que mais gosto nessa decisão é o fato dos produtores terem entendido que as categorias de melhor atriz e ator se eram as mais aguardadas dessa edição, independentemente do resultado, superando inclusive melhor filme, que, convenhamos, sabíamos que seria entregue com muito mérito a Nomadland, de Chloé Zhao, também vencedora do prêmio de melhor direção (outro prêmio anunciado mais cedo, corroborando a intenção de preservar os melhores suspenses para o final). É bastante provável que, predominantemente verbalizada e sem chamariscos de números musicais, a audiência da cerimônia tenha caído drasticamente assim como a de todas as outras temporadas da premiação, o que nos leva a seguinte pergunta: quem é o público do Oscar e para quem ele deve ser feito? Não creio que seja destinado a quem está zapeando na TV e sintoniza para assistir apenas porque o Eminem está cantando. Dito isso, ter dado espaço absoluto para os vencedores faz novamente sentido.

Mais do que isso, as críticas à decisão de colocar as categorias de melhor ator e atriz para o final é uma plena injustiça com duas das melhores surpresas da cerimônia (e que orgulhosamente já estavam previstas nas minhas apostas). Anthony Hopkins é um verdadeiro monstro em Meu Pai, e sua vitória carrega não apenas o reconhecimento a um dos melhores atores de língua inglesa (e em franca atividade, vale lembrar, depois de outra indicação no ano passado por Dois Papas), mas também a coroação de uma das melhores interpretações masculinas a ganhar o Oscar de melhor ator nas últimas décadas. Chadwick Boseman teve o desempenho de sua carreira em A Voz Suprema do Blues, porém, considerando a competição, seu prêmio seria muito mais uma homenagem do que uma celebração ao desempenho em si. Hopkins mereceu, e isso é consenso. Enquanto isso, apesar da imprevisibilidade da categoria, parecia um tanto quanto inconcebível Frances McDormand perder como melhor atriz. Ela é o coração e a protagonista absoluta de Nomadland, além de trabalhar uma gama de nuances e delicadezas que não costuma lhe ser oportunizada com tanta frequência. Se há algo a reclamar de seu terceiro Oscar é o fato de ele vir depois de uma equivocada celebração por Três Anúncios Para Um Crime.

Para encerrar, minha felicidade foi equivalente entre as categorias técnicas, onde discordei somente das surpresas de melhor fotografia (o preto-e-branco de Mank é muito bonito, mas o trabalho desse segmento é fundamental para a imersão de Nomadland), já que a vitória de Judas e o Messias Negro em canção original foi de muito bom gosto (era, de fato, a melhor na categoria) e que a consagração de O Som do Silêncio em melhor montagem (uma vitória que eu não levava fé) revela uma Academia muito mais refinada no que diz respeito à categoria depois de vitórias bizarras ou óbvias como a de Bohemian Rhapsody e Ford vs. Ferrari. Claro que faria ajustes aqui e ali (a trilha de Minari me encanta muito mais do que a de Soul), mas, no geral, a cerimônia foi justa e equilibrada, sem parecer que os votantes quiseram optaram por uma distribuição de para fazer média. Gostos pela cerimônia à parte, tenho certeza que o Oscar 2021, quando avaliado daqui alguns anos (se não já agora), será lembrado justamente por isso: pela sua coerência e pela coragem ao fazer escolhas pontualmente autênticas, sendo coerente com o que a vitória de Parasita sinalizou ano passado – e não com as lembranças indigestas de Green Book ganhando o prêmio de melhor filme dois anos depois de Moonlight: Sob a Luz do Luar.

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Nomadland
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul
MELHOR TRILHA SONORA: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: D’Mile, H.E.R. e Tiara Thomas, por “Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
MELHOR MONTAGEM: E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt (Mank)
MELHOR FOTOGRAFIA: Erik Messerschmidt (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Jamika Wilson, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)
MELHOR CURTA-METRAGEM: Dois Estranhos
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): Colette
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Se Algo Acontecer… Te Amo

Apostas para o Oscar 2021 (e também palpites, impressões e preferências acerca dos indicados)

Naquele que é, possivelmente, o ano mais atípico em toda a trajetória do Oscar, não faltaram filmes para todos os gostos. A pandemia pode ter afetado o calendário da temporada, mas não a qualidade geral dos filmes selecionados, considerando as devidas proporções, claro. Há pelo menos três longas indicados na categoria principal que já moram no meu coração, algo realmente muito raro de acontecer: Nomadland, Meu Pai e O Som do Silêncio. Muito diferentes entre si, Minari e Judas e o Messias Negro são dois ótimos relatos que, da técnica à emoção, transitam entre a delicadeza e energia, respectivamente. No mais, ainda que eu não seja fã de Bela Vingança e muito menos menos de Mank e Os 7 de Chicago, fica nítido que os três filmes reúnem torcidas e entusiastas, especialmente o primeiro. Hoje à noite, a partir das 21h, saberemos qual deles leva a melhor. Tudo leva a crer que o jogo está ganho para Nomadland, assim como já esteve para Boyhood, La La Land, Três Anúncios Para Um Crime e 1917, todos derrotados de última hora no Oscar. Ou seja, é prudente não descartar uma possível surpresa na categoria principal, inclusive porque o sistema de votação do Oscar para melhor filme se distingue do processo das demais premiações.

Nomadland é o favorito absoluto da categoria de melhor filme. Entretanto, vale sempre considerar a capacidade da Academia de surpreender.

Como forma de aquecimento para a cerimônia, faço aqui o meu ligeiro balanço das categorias principais e técnicas, começando, claro, com melhor filme, uma categoria bastante harmônica, talvez uma das mais equilibradas dos últimos anos. O favorito, repito, é Nomadland, que não perdeu um prêmio sequer nesta temporada, seja em sindicados ou em premiações televisionadas. E é difícil discordar: o que Chloé Zhao faz nesse filme é de uma delicadeza imensa. Lindo de ver e de sentir, Nomadland constrói uma ficção de contornos documentais para refletir sobre o íntimo e o coletivo de pessoas que resolveram largar tudo para viver na estrada, refletindo a realidade de diversas questões políticas e sociais dos Estados Unidos que são perfeitamente identificáveis em todos os cantos do mundo. De sofisticação equivalente, Meu Pai de Florian Zeller foi a grande surpresa da lista por fazer algo raro de se ver: a transposição de uma peça de teatro para o cinema sem qualquer vício ou linguagem dos palcos. Seria justo — e não necessariamente surpreendente — se esse filme performasse melhor do que o esperado na cerimônia. No entanto, meu sinal de alerta é para Os 7 de Chicago, dirigido pelo adorado Aaron Sorkin e que atende todos os pré-requisitos do público que adora um filme mais acadêmico e comportado.

Se a categoria de melhor filme tem um favorito claro seguido de outras possibilidades, o mesmo não acontece em melhor direção, onde o jogo já está ganho para Chloé Zhao. É para apostar de olhos fechados: ela será, sim, a segunda mulher a vencer o Oscar de direção em quase 100 anos de Oscar, fazendo par com Kathryn Bigelow, vencedora em 2010 por Guerra ao Terror. Essa categoria nos reservou uma das mais gratas surpresas da lista — a indicação de melhor direção para Thomas Vinterberg (Druk: Mais Uma Rodada) —, mas, em uma realidade paralela, a minha seleção teria dois ajustes: a substituição de David Fincher (Mank) por Florian Zeller (Meu Pai) e a de Emerald Fennell (Bela Vingança) por Regina King (Uma Noite em Miami…). Já entrando nas categorias de atuação, temos outra barbada: Daniel Kaluuya como melhor ator coadjuvante por Judas e o Messias Negro. Contesto radicalmente: Kaluuya está mais uma vez excelente, o que não justifica o redimensionamento de seu posto de protagonista a coadjuvante pelos prêmios, assim como acontece com o seu colega Lakeith Stanfield, também indicado. É preciso refutar esse tipo de fraude, o que me leva a torcer por Paul Raci com sua delicada performance em O Som do Silêncio. Situação semelhante de favoritismo vive Yuh-Jung Youn em melhor atriz coadjuvante com Minari. Além de ser uma coadjuvante — coisa que Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte) e Olivia Colman (Meu Pai) não são —, ela dá um baile em Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho) e Amanda Seyfried (Mank).

Extraordinário em Meu Pai, Anthony Hopkins concorre a melhor ator. Caso aconteça, sua vitória seria uma das mais merecidas do Oscar 2021 (e das últimas décadas categoria).

Entre os protagonistas, a situação é mais embaralhada, quando não deliciosamente caótica, como é o caso de melhor atriz. Para quem chegou de última hora, a matemática explica: Andra Day (Estados Unidos vs. Billie Holiday) venceu o Globo de Ouro, Carey Mulligan (Bela Vingança) levou a melhor no Critics Choice, Viola Davis (A Voz Suprema do Blues) se consagrou no Screen Actors Guild Awards, Frances McDormand (Nomadland) faturou o BAFTA e Vanessa Kirby traz na bagagem o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza, que já antecipou prêmios como os de Olivia Colman (A Favorita) e Emma Stone (La La Land). É muito simples: faça unidunitê para fazer a sua aposta, pois todas têm narrativa para vencer nessa seleção bastante equilibrada. A versão que eu abraço é a de Frances McDormand, por ela estar maravilhosa em Nomadland, por ser o rosto absoluto do filme de Chloé Zhao e por protagonizar o grande favorito da temporada. Em melhor ator, o jogo parecia ganho até pouco tempo atrás para Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues), em um prêmio mais de homenagem do que de merecimento, mas as duas derrotas consecutivas que ele sofreu nas últimas premiações (BAFTA e Independent Spirit Awards) parecem abrir caminho para o vencedor moral da categoria: Anthony Hopkins, em desempenho extraordinário. Particularmente, antes de Boseman e como segundo na fila, ainda prefiro Riz Ahmed, que tem, em O Som do Silêncio, uma virada de jogo na carreira.

Inclinado pela minha afeição a Meu Pai, acredito que a vitória de Anthony é possível porque também me parece que o filme de Florian Zeller tem chances em outras categorias, como melhor roteiro adaptado, uma vez que a adaptação é mesmo fantástica e que talvez os votantes entendam que o roteiro de Nomadland seja mais fruto do acaso e das histórias de pessoas reais que aparecem no filme do que de uma escrita de Chloé Zhao. Enquanto isso, em melhor roteiro original, Emerald Fennell deve receber a estatueta por Bela Vingança, garantindo a cota do filme na tendência distributivista adotada pelo Oscar nos últimos anos. Entretanto, vale sempre a pena ficar de olho em Aaron Sorkin (Os Sete de Chicago), autor de um roteiro que cai como uma luva para o gosto dos votantes mais conservadores da Academia. Por falar em tendência distributivista, outras categorias já parecem definidas, como melhor figurino e melhor cabelo e maquiagem para A Voz Suprema do Blues, melhor trilha e melhor animação para Soul, melhor filme internacional para Druk: Mais Uma Rodada, melhor fotografia para Nomadland e melhor som para O Som do Silêncio. Nas demais, jogo dividido entre candidatos específicos, o que exige nossa intuição na hora de apostar. Enfim, era isso! Nos vemos logo mais para comentar os vencedores? Não esqueçam de me seguir no Twitter (@mathpann) onde comentarei a cerimônia ao vivo. Espero vocês!

APOSTAS

MELHOR FILME: Nomadland / alt: Os 7 de Chicago
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland) / alt: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland) / alt: Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai) / alt: Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari) / alt: Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro) / alt: Paul Raci (O Som do Silêncio)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança) / alt: Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai) / alt: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca) / alt: Quo Vadis, Aida? (Bósnia e Herzegovina)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo / alt: Crip Camp: Revolução Pela Inclusão
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul / alt: Wolfwalkers
MELHOR TRILHA SONORA: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul) / alt: Emile Mosseri (Minari)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: Diane Warren e Laura Pausini, por “Io Sí (Seen)” (Rosa e Momo) / alt: Leslie Odom Jr. e Sam Ashworth, por “Speak Now” (Uma Noite em Miami…
MELHOR MONTAGEM: Alan Baumgarten (Os 7 de Chicago) / alt: E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt (Mank) / alt: Peter Francis (Meu Pai)
MELHOR FOTOGRAFIA: Joshua James Richards (Nomadland) / alt: Erik Messerschmidt (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues) / alt: Trish Summerville (Mank)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio) / alt: Coya Elliott, David Parker e Ren Klyce (Soul)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Jamika Wilson, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues) / alt: Dalia Colli, Francesco Pegoretti e Mark Coulier (Pinóquio)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet) / alt: Chris Lawrence, David Watkins, Matt Kasmir e Max Solomon (O Céu da Meia-Noite)

“O Som do Silêncio” é uma experiência bela, humana e sensorial que dispensa os clichês de filmes sobre deficiência

It just passes. It just fucking passes.

Direção: Darius Marder

Roteiro: Abraham Marder e Darius Marder, baseado em história de Darius Marder e Derek Cianfrance

Elenco: Riz Ahmed, Paul Raci, Olivia Cooke, Mathieu Almaric, Lauren Ridloff, Domenico Toledo, Chelsea Lee, Shaheem Sanchez, Chris Perfetti, Bill Thorpe, Michael Tow, Rena Maliszewski

Sound of Metal, EUA, 2019, Drama, 120 minutos

Sinopse: Um jovem baterista teme por seu futuro quando percebe que está gradualmente ficando surdo. Duas paixões estão em jogo: a música e sua namorada, que é integrante da mesma banda de heavy metal que o rapaz. Essa mudança drástica acarreta em muita tensão e angústia na vida do baterista, atormentado lentamente pelo silêncio. (Adoro Cinema)

Na comunidade de reabilitação voltada para pessoas surdas onde O Som do Silêncio desenvolve boa parte da sua história, todos recebem, com certa periodicidade, uma tarefa a ser cumprida. Alguns pregam madeiras, outros ajustam telhas, enquanto Ruben (Riz Ahmed), o baterista de um duo de heavy metal que está perdendo a audição de forma repentina e vertiginosa, recebe uma missão aparentemente simples, mas, para ele, profundamente complexa: “aprender a ser surdo”.

Tal missão diz muito sobre o protagonista e sobre como O Som do Silêncio desenha sua trajetória com melancolia. Ao abraçar os dilemas de um homem que fica sem chão após perder sua conexão vital com a música e que se recusa a aceitar uma condição irreversível, o diretor Darius Marder refuta os didatismos comumente adotados pelo cinema no arco da “superação” de uma deficiência para focar na jornada interna de um protagonista que, em plena negação quanto a uma nova realidade, é tomado de maneira cumulativa por um sentimento de não pertencimento.

O que torna O Som do Silêncio um filme assertivo na emoção é a sua estreita aproximação com a realidade e com o mínimo de intervenções possíveis por parte de Marder para glamourizar ou espetacularizar o sofrimento do protagonista, o que já se traduz na ideia de ambientar suas vivências em uma comunidade de pessoas surdas. É inteligente porque, ao estar nesse ambiente, Ruben primeiro terá que se reconhecer nas pessoas que agora passam a ser seus semelhantes para somente depois voltar ao mundo como ele antes conhecia.

Primeiro ator de origem muçulmana indicado ao Oscar, Riz Ahmed estudou seis meses de bateria para performar as cenas onde Ruben demonstra todo o seu talento musical. Contudo, as pérolas do ator estão nos momentos em que ele interage com a comunidade surda, aqui representada por pessoas que de fato vivem com a deficiência. Os olhares de estranhamento e, aos poucos, de compreensão que Ahmed dirige aos surdos com os quais ele aprende e convive são tocantes, pois misturam a dor, a angústia, as contradições e, por fim, a evolução de um homem que, apesar da resistência e dos sonhos perdidos, terá que se (re)conhecer como surdo para encontrar novos sentidos e propósitos. É um desempenho excepcional e que, com certeza, marca um novo momento na carreira do ator.

Em certo ponto, Ruben é apadrinhado por Joe, personagem vivido com grande delicadeza por Paul Raci. Coordenador da clínica e um homem que já viu muita coisa na vida, ele clamará pelas mudanças e pelas transformações internas tão rejeitadas pelo protagonista. Joe sabe que as coisas simplesmente não podem mais ser as mesmas quando alguém perde a audição, e sua determinação em transmitir isso para toda a comunidade e especialmente para Ruben é muito humana e natural. A dinâmica estabelecida entre ele e o personagem de Ahmed é um dos pontos altos de O Som do Silêncio porque envolve sabedoria e generosidade mesmo quando as ações e as opiniões dos personagens entram em conflito.

Surpreende esse ser o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Darius Marder tamanha a disciplina das emoções que ele administra com propriedade e a sua maturidade ao abordar um tema frequentemente banhado em clichês para transformá-lo em uma viagem interna e existencial. Marder parece ter tirado o melhor proveito de seu convívio ao lado do diretor Derek Cianfrance (Namorados Para Sempre, I Know This Much is True), com quem colaborou ao escrever o roteiro do subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, absorvendo toda a sua vocação para narrar histórias essencialmente trágicas, mas que jamais se rendem ao histrionismo ou a caminhos simples. O que vemos em O Som do Silêncio é, portanto, um roteirista que segue amadurecendo e que, agora em seu primeiro longa de ficção, passa a se lapidar como um diretor muito promissor.

É importante dar o devido reconhecimento a quem consegue fazer essa transição com pleno êxito porque é frequente o número de roteiristas cujo talento simplesmente não se traduz na cadeira de direção. Um exemplo recente capaz de ilustrar essa tese é o de Aaron Sorkin, autor de roteiros versáteis e respeitados como os de A Rede Social e que agora dirige longas-metragens tradicionais até o último fio de cabelo como Os 7 de Chicago.

Sendo assim, conduzido por um cineasta que faz uma fina leitura de seu próprio texto, O Som do Silêncio esbanja delicadeza no belo trabalho de som que aqui e ali reproduz a (falta de) audição de seu protagonista, no desenho de personagens muito bem explorados (até mesmo a pequena participação do francês Mathieu Almaric é repleta de ressignificados), na ideia de que a deficiência não é algo a ser superado mas sim uma condição que faz parte de quem a tem e, claro, na construção dos desempenhos de Riz Ahmed e Paul Raci. Frente a tudo isso, fica, para mim, a certeza de que ainda vou revisitar O Som do Silêncio muitas vezes.

Os vencedores do BAFTA 2021

Após vitória no Screen Actors Guild Awards, Yuh-Jung Youn também leva o BAFTA de atriz coadjuvante por Minari. Prêmio ajuda a desembaralhar uma categoria incerta até então.

Há uma certa contradição entre a lista de indicados e a lista de vencedores do BAFTA 2021, pois a segunda não necessariamente reflete a imensa diversidade da primeira e volta a reafirmar a vontade dos britânicos em apenas prever o Oscar. Sabemos onde está o gargalo dessa situação: enquanto os indicados das categorias de direção e interpretação tomam forma a partir do crivo de um júri cujo objetivo é garantir a diversidade do prêmio, os vencedores apenas refletem o lugar-comum quando os britânicos se veem obrigados a fazer uma única escolha por categoria, escapando da personalidade altamente fora da curva apresentada na lista de indicados.

O que vimos, portanto, foi Nomadland: Sobreviver na América faturar novamente os prêmios de filme e direção, garantindo de uma vez por todas o seu favoritismo absoluto, especialmente em um ano em que parece não existir qualquer candidato capaz de oferecer alguma ameaça. Idem para Daniel Kaluuya, que não perdeu prêmio algum nesta temporada como ator coadjuvante por Judas e o Messias Negro, o que não foi diferente no BAFTA. E até a vitória de Yuh-Jung Youn como atriz coadjuvante por Minari: Em Busca da Felicidade não vem como uma surpresa, visto que, na semana passada, o SAG já havia antecipado essa tendência.

Não se trata de questionar a excelência dos vencedores, até porque todos estão acima de qualquer suspeita, mas a autoralidade que veio pulsante na lista de indicadas não se fez presente entre os premiados. Era de se esperar que a categoria de melhor atriz, por exemplo, reservasse alguma surpresa que não a de Frances McDormand por Nomadland. Embalada pelo entusiasmo do BAFTA com o filme, Frances levou a melhor na categoria de melhor atriz, a mais imprevisível de todas, onde Carey Mulligan (Bela Vingança) e Viola Davis (A Voz Suprema do Blues) ficaram surpreendentemente de fora e onde quatro atrizes negras concorriam por papeis que iam da comédia ao terror. Talvez seja cedo esperar uma mudança de cultura tão rápida assim, mas houve a promessa…

Considerando os prêmios principais, o BAFTA só fugiu mesmo do esperado ao premiar Anthony Hopkins, extraordinário em Meu Pai. Não é surpreendente se levarmos em conta o carinho dos britânicos por Hopkins (essa é a quarta estatueta que ele vence!), mas sim se observarmos o domínio absoluto de Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues) até então e toda a saudade em torno dessa celebração. Entre as categorias técnicas, repetiram-se também os prêmios para Soul (animação e trilha sonora), confirmaram-se outros já esperados (figurino e maquiagem para A Voz Suprema do Blues, design de produção para Mank) e alguns outros se revelaram como possíveis tendências para o Oscar (roteiro adaptado para Meu Pai, montagem para O Som do Silêncio).

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Nomadland
MELHOR FILME BRITÂNICO: Bela Vingança
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR ELENCO: Lucy Pardee (Rocks)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-Jung Youn (Minari: Em Busca da Felicidade)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul)
MELHOR FOTOGRAFIA: Joshua James Richards (Nomadland)
MELHOR MONTAGEM: Mikkel EG Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt e Jan Pascale (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: Larry M. Cherry, Matiki Anoff, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley e Scott Fisher (Tenet)
MELHOR ROTEIRISTA, DIRETOR OU PRODUTOR BRITÂNICO REVELAÇÃO: Remi Weekes (Roteiro e Direção), por O Que Ficou Para Trás
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO: The Present
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO: The Owl and the Pussycat
EE RISING STAR AWARD: Bukky Bakray

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2021

Viola Davis conquista o sexto SAG de sua carreira por A Voz Suprema do Blues.

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards reforçaram uma ótima tendência dessa temporada: é claro que algumas categorias já estão muito bem encaminhadas (ator para Chadwick Boseman e ator coadjuvante para Daniel Kaluuya), mas ainda há muito a ser definido, especialmente entre as atrizes. Não é sempre que vemos uma falta de consenso tão grande na temporada, onde, por exemplo, o Globo de Ouro premia Andra Day por The United States vs. Billie Holiday, Carey Mulligan ganha o Critics’ Choice por Bela Vingança e agora Viola Davis é consagrada por A Voz Suprema do Blues no SAG (o sexto de sua carreira!).

A situação é a mesma em atriz coadjuvante, com prêmios divididos entre Maria Bakalova (Critics’ Choice) e Yuh-jung Youn (SAG), com Jodie Foster, vencedora do Globo de Ouro, ausente no Oscar. O gosto amargo ficou com a vitória de Os 7 de Chicago em melhor elenco, em uma decisão inexplicável do corpo de votantes que, no ano passado, foi o primeiro grande prêmio a colocar Parasita no topo. Em uma seleção com três elencos negros e um asiático concorrendo, o SAG optou por celebrar o único branco e masculino. Foi a maior frustração de uma noite que, no geral, fluiu com agilidade preservou o tom de incertezas visto até aqui.

Confira abaixo a lista de vencedores:

CINEMA

MELHOR ELENCOOs 7 de Chicago
MELHOR ATRIZ: Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATOR: Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Mesias Negro)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMAThe Crown
MELHOR ELENCO – COMÉDIASchitt’s Creek
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Gillian Anderson (The Crown)
MELHOR ATOR – DRAMA: Jason Bateman (Ozark)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Jason Sudeikes (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True)

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