Cinema e Argumento

Apostas para o Oscar 2019 (e algumas breves impressões sobre os indicados, a cerimônia e os favoritos)

O Oscar 2019 já é histórico porque poucas vezes a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood se viu tão encurralada com a repercussão de suas escolhas inexplicáveis e catastróficas. Mal sabíamos, por exemplo, que a ideia de um prêmio para filmes populares lançada ainda em 2018 seria apenas o início de uma série de polêmicas: após voltar atrás dessa ideia, o Oscar também se viu sem apresentador (Kevin Hart abandonou o cargo após seus tweets homofóbicos serem desenterrados na internet) e em maus lençóis com praticamente toda a indústria ao decidir não apresentar ao vivo determinadas categorias técnicas, ao não convocar os atores vencedores de anos anteriores para que eles tradicionalmente apresentassem os consagrados deste ano e ao inventar que somente algumas das canções indicadas seriam apresentadas na cerimônia. O presidente da Academia, John Bailey, voltou atrás de todas as decisões, provando que tanto não tem tino para comandar o prêmio mais célebre do Cinema como é incapaz de tomar qualquer decisão com plena convicção. Tudo isso, aliado ao fato de que o Oscar 2019 tem uma das seleções mais fracas em pelo menos duas décadas, faz com que cinéfilos do mundo inteiro sintonizem na cerimônia de hoje à noite quase com uma curiosidade mórbida: afinal, após tantas decisões erradas, ainda é possível esperar algo de bom da premiação?

O mínimo de defesa que podemos fazer em relação ao Oscar 2019 é essa: a seleção de melhor filme, apesar da baixa média de qualidade, é a fiel representação daquilo que vemos em Hollywood ao longo do ano. Entre os oito títulos indicados na categoria principal, temos filme de super-herói (Pantera Negra), sátira política (Vice), uma obra estrangeira lançada diretamente em streaming (Roma), a biografia musical que os votantes (e o público) tanto adoram (Bohemian Rhapsody), olhares superficiais ou profundos sobre questões sociais e raciais (Green BookInfiltrado na Klan), uma comédia dramática de época (A Favorita) e uma refilmagem impulsionada por um galã confiável da indústria ao lado de uma gigante pop star (Nasce Uma Estrela). Acuse o Oscar 2019 do que você quiser, menos de ele não representar, para o bem e para o mal, nas devidas dimensões, tudo aquilo que faz sucesso entre público e crítica este ano. Mais do que isso, é gratificante ver a Academia finalmente se abrindo para obras mais populares, aceitando e reconhecendo que Hollywood vive e sobrevive por causa delas e que não há mal algum em abrir as portas para os longas que tanto mobilizam milhões (ou bilhões) de pessoas mundo afora.

Falando dos filmes propriamente ditos, o nível realmente não é alto e, pela primeira vez, acho que chego a um Oscar sem ter um filme que vou levar para a vida inteira. Admiro demais Roma, por exemplo, ao mesmo tempo em que sou apaixonado por tudo aquilo que a A Favorita representa em termos de transgressão narrativa, mas também tenho problemas imensos com Green Book: O Guia, um filme que considero simplesmente inadmissível de tão empoeirado. Também acho Vice um CTRL+C/CTRL+V do formato de A Grande Aposta, assim como sigo sem entender tanta paixão por Nasce Uma Estrela, uma obra que é igual a incontáveis outras que já vimos sobre romances conturbados no mundo da música. O que me pega mesmo no Oscar 2019 é a seleção de títulos estrangeiros que, atenção, é amplamente liderada por Roma, que concorre em dez categorias, mas que está longe de ser resumida a isso. Na maratona deste ano, ainda me faltou ver Guerra Fria, mas o japonês Assunto de Família e especialmente o libanês Cafarnaum são claros exemplos de como os longas não falados em inglês são mais sofisticados, interessantes e comoventes do que os concorrem na categoria principal. Esses sim eu vou guardar no meu coração como as melhores lembranças dessa temporada.

Com favoritos em pouquíssimas categorias, o Oscar 2019 acontece na noite deste domingo (24) com a real sensação de que tudo pode acontecer, o que pode não significar boa coisa. Não duvide, por exemplo, que o adorado e premiado Roma de repente saia da cerimônia sem o prêmio principal para que Green Book, o clássico filme formulaico e apaziguador sobre racismo, seja o grande consagrado da noite. É importante lembrar: há pelo menos dois anos o Oscar cansa do grande favorito da temporada para premiar outro título: foi assim com La La Land sendo desbancado por Moonlight e com Três Anúncios Para Um Crime perdendo o prêmio principal para A Forma da Água. Seria muito triste ver Green Book tirando o prêmio de Roma, mas é um cenário possível e bastante real. Entre os atores, viverei uma alegria sem fim quando Glenn Close finalmente subir ao palco para levar o Oscar por A Esposa, mas o meu coração está com Olivia Colman em A Favorita. Sem ter visto Regina King em Se a Rua Beale Falasse, também torço pelo filme de Yorgos Lanthimos entre as coadjuvantes: Amy Adams, de quem eu gosto muito em Vice, precisa me desculpar, já que a minha torcida fica sem pensar duas vezes com Rachel Weisz.

Aqui no Brasil, o Oscar 2019 será transmitido pelo canal TNT a partir das 20h30 com o Tapete Vermelho e a partir das 22h com a cerimônia oficial. No mais, compartilho abaixo as apostas para a noite de hoje e também as duas lives realizadas na página do Cinema e Argumento no Facebook sobre as categorias de atuação e interpretação. Logo mais nos vemos uma outra vez para comentar os vencedores. Até lá!

APOSTAS

MELHOR FILMERoma / alt: Green Book: O Guia
MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Roma) / alt: Spike Lee (Infiltrado na Klan)
MELHOR ATRIZ: Glenn Close (A Esposa) / alt: Olivia Colman (A Favorita)
MELHOR ATOR: Rami Malek (Bohemian Rhapsody) / alt: Christian Bale (Vice)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Regina King (Se a Rua Beale Falasse) / alt: Amy Adams (Vice)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia) / alt: Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALA Favorita / alt: Green Book: O Guia
MELHOR ROTEIRO ADAPTADOInfiltrado na Klan / alt: Poderia Me Perdoar?
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Roma / alt: Guerra Fria
MELHOR ANIMAÇÃO:Homem-Aranha no Aranhaverso / alt: Ilha dos Cachorros

MELHOR TRILHA SONORA: Se a Rua Beale Falasse / alt: Pantera Negra
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Shallow” (Nasce Uma Estrela) / alt: “All the Stars” (Pantera Negra)
MELHOR MONTAGEMVice / alt: Bohemian Rhapsody
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: A Favorita / alt: Roma
MELHOR FOTOGRAFIA: Roma / alt: Guerra Fria
MELHOR FIGURINO: A Favorita / alt: Pantera Negra

MELHOR MIXAGEM DE SOMBohemian Rhapsody / alt: Nasce Uma Estrela
MELHOR EDIÇÃO DE SOMUm Lugar Silencioso / alt: Bohemian Rhapsody
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOSVice / alt: Duas Rainhas
MELHORES EFEITOS VISUAISO Primeiro Homem / alt: Vingadores: Guerra Infinita

LIVES NO FACEBOOK

 

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Melhores de 2018 – Figurino

Figurinista dos filmes de Paul Thomas Anderson desde quando o cineasta estreou em longas-metragens com Jogada de Risco em 1996, Mark Bridges recriou para Trama Fantasma toda a inspiração da moda britânica dos anos 1950, imaginando o que vestiria a geração que chegava ao fictício ateliê House of Woodcock para encomendar as desejadas criações do estilista vivido por Daniel Day-Lewis. É um trabalho sofisticado que não torna as peças hiperbólicas, como se elas fossem um personagem à parte, já que, em cada vestido projetado por Reynolds, existe muito do perfeccionismo e da forte personalidade do protagonista. Dessa forma, Mark Bridges trabalhou de forma muito próxima com Day-Lewis, definindo junto ao ator quais seriam os traços não das roupas daquela época, mas sim daquelas que o personagem teria criado com tanto controle e orgulho. O belíssimo resultado rendeu ao figurinista um segundo e incontestável Oscar (o primeiro veio por O Artista em 2012). Ainda disputavam a categoriaAnimais Fantásticos: Os Crimes de GrindelwaldO Destino de Uma NaçãoA Forma da Água O Retorno de Mary Poppins.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Jackie | 2016 – Carol | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – W.E. – O Romance do Século | 2011 – O Discurso do Rei | 2010 – A Jovem Rainha Victoria | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Elizabeth – A Era de Ouro | 2007 – Maria Antonieta

Melhores de 2018 – Design de Produção

Inicialmente idealizado como uma obra em preto e branco, A Forma da Água logo se coloriu quando o diretor Guillermo Del Toro convocou Paul D. Austerberry para assinar o design de produção do filme junto à dupla Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau. Austerberry não apenas convenceu Del Toro que seu filme seria muito mais pulsante e instigante caso abandonasse a ideia do preto e branco como analisou com o diretor cada uma das 3.500 cores da paleta proposta para o design de produção do projeto. Mais do que isso, Austerberry, Melvin e Vieau mergulharam criativamente nas assumidas referências estéticas do cineasta, como o longa Os Sapatinhos Vermelhos, de 1948, para moldar os cenários e as decorações dos diferentes núcleos de A Forma da Água. Entre os laboratórios onde Elisa (Sally Hawkins) trabalha e os apartamentos envelhecidos em cima de um cinema de rua, o design de produção do filme transita entre a fantasia e o realista estado emocional de seus personagens com detalhes tão mínimos quanto impressionantes. Ainda disputavam a categoriaAnimais Fantásticos: Os Crimes de GrindelwaldO Retorno de Mary PoppinsRoma Sem Fôlego.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Blade Runner 2049 | 2016 – Animais Fantásticos e Onde Habitam | 2015 – Expresso do Amanhã | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – A Invenção de Hugo Cabret | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet | 2007 – Maria Antonieta

Melhores de 2018 – Ator Coadjuvante

Coadjuvante no filme com um todo, mas protagonista da cena indiscutivelmente mais bela de Me Chame Pelo Seu Nome, Michael Stuhlbarg tinha uma missão muito difícil ao dar vida ao pai de Elio (Timothée Chalamet). Como, afinal, em apenas uma cena, sintetizar a gama de emoções construída pelo texto e fazer com que o espectador acredite que o personagem, de fato, diz, sente e já viveu tudo aquilo que está posto pelo roteiro? Em poucos minutos, muito é dito na cena entre os dois personagens — e é verdade que o texto dá conta de boa parte do sentimento avassalador dessa sequência —, mas é loucura subestimar Stuhlbarg, que, em cada movimento e em cada olhar, esbanja a delicadeza, a generosidade e a sabedoria que todo pai deveria compartilhar com um filho. É um trabalho sutil e meticuloso que engrandece o momento que tanto faz Me Chame Pelo Seu Nome reverberar após a sessão. Ainda disputavam a categoria: Barry Keoghan (O Sacrifício do Cervo Sagrado), Bruno Fernandes (Tinta Bruta), Daniel Kaluuya (As Viúvas) e Irandhir Santos (O Animal Cordial).

EM ANOS ANTERIORES: 2017  Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar) | 2016 – Steve Carell (A Grande Aposta) | 2015 – Edward Norton (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)) | 2014 – Jared Leto (Clube de Compras Dallas| 2013 – Philip Seymour Hoffman (O Mestre| 2012 – Nick Nolte (Guerreiro| 2011 – Alan Rickman (Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2| 2010 – Michael Douglas (Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme| 2009 – Christoph Waltz (Bastados Inglórios| 2008 – Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez| 2007 – Casey Affleck (O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford)

“Todos Já Sabem”: trio de atores notáveis é desperdiçado por trama que não assume a sua própria natureza melodramática

Direção: Asghar Farhadi

Roteiro: Asghar Farhadi

Elenco: Javier Bardem, Penélope Cruz, Ricardo Darín, Eduard Fernández, Bárbara Lennie, Inma Cuesta, Elvira Mínguez, Ramón Barea, Sara Sálamo, Roger Casamajor, José Ángel Egido, Sergio Castellanos, Iván Chavero, Tomás del Estal

Todos lo Saben, Espanha/França/Itália, 2018, Drama, 132 minutos

Sinopse: Quando sua irmã se casa, Laura (Penélope Cruz) retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia. Por motivos de trabalho, o marido argentino (Ricardo Darín) não pode ir com ela. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Javier Bardem), que não via há muitos anos. Durante a festa de casamento, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções, enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um. (Adoro Cinema)

É um feito e tanto: reunir, em um mesmo filme, Javier Bardem, Penélope Cruz e Ricardo Darín, nada menos do que três grandes ícones do cinema contemporâneo de língua latina. A expectativa também se multiplica porque Todos Já Sabem é dirigido pelo premiado cineasta iraniano Asghar Farhadi, que assinou dois títulos premiados com o Oscar de melhor filme estrangeiro: A Separação (2012) e O Apartamento (2016). Ainda assim, com todas as variáveis trabalhando a favor do resultado, a recepção morna no Festival de Cannes em 2018 já sugeria que tal mistura não havia resultado em grande coisa, e é preciso realmente ver para crer: não só Todos Já Sabem desperta a desoladora frustração de não ser uma obra à altura dos profissionais envolvidos em sua realização como deixa a certeza de que, mesmo se fosse um projeto menos suscetível a expectativas, seria impossível não sair desapontado com a limitação de ideias de um roteiro inacreditavelmente escrito no piloto-automático.

Somente o segundo longa-metragem espanhol a abrir uma edição Festival de Cannes (o primeiro foi Má Educação, de Pedro Almodóvar, em 2004), Todos Já Sabem parte da vontade de contar uma história bastante cotidiana e familiar, onde Laura (Penélope Cruz), uma mulher espanhola vivendo na Argentina, volta a sua terra-natal para o casamento da irmã. Lá, reencontra um amor mal resolvido do passado e, de repente, enfrenta uma jornada extrema e dolorosa que colocará os nervos, as memórias e as emoções da família à flor da pele. Farhadi, que também assina o roteiro, leva um tempo considerável da projeção apenas acompanhando os personagens em tarefas mundanas, claramente convidando o espectador a fazer parte daquele universo. A proposta não deixa de causar estranheza em um primeiro momento, pois toma tempo demais da projeção sem sugerir basicamente nada do que será a matéria-prima dos dramas posteriores.

Finalmente, quando os personagens de Todos Já Sabem passam a enfrentar o tal acontecimento que desafia a força e a consistência dos laços familiares, a preparação de terreno é percebida na tela, muito porque Javier Bardem e Penélope Cruz (dois excelentes atores que ficam ainda melhores quando atuam em espanhol) conferem por si só um inegável sentimento de intimidade para dupla de personagens que interpretam. O que derruba Todos Já Sabem, entretanto, é a escolha de Farhadi contar a história em tom de melodrama familiar, construindo uma novela limitadíssima do ponto de vista emocional que, por outro lado, tenta se apresentar como comedida e introspectiva. Não há problema algum no melodrama (ele, inclusive, quando bem trabalhado, é capaz de alcançar notas interessantíssimas, como no Álbum de Família estrelado por Meryl Streep e Julia Roberts), mas, quando inexiste qualquer resquício de frescor ou simplesmente a vontade de assumi-lo, é difícil nutrir qualquer tipo de entusiasmo.

Todos Já Sabem é um imperdoável desperdício de talentos porque tenta disfarçar o tom novelesco de uma série de dilemas no mínimo batidos para quem tem o mínimo de vivência com o universo dos filmes. Há tudo o que você pode imaginar: homens com histórico de alcoolismo, rancores envolvendo negócios familiares mal resolvidos, segredos de gravidez guardados durante anos, adolescentes em ebulição sexual e o filho da empregada que até hoje é julgado em função de sua origem. Do micro ao macro, Todos Já Sabem acumula melodramas, mas parece envergonhado de abraçá-los como parte de sua personalidade, o que é muito grave para uma trama que se desenvolve justamente a partir de desdobramentos tão novelescos. Dessa maneira, Farhadi cria uma obra contraditória: como uma odisseia familiar, não possui sequer uma verve hiperbólica para que os atores tirem algum proveito; como um suposto filme de arte, não tem a sofisticação dramática que lhe impulsione a esse título. 2019 mal começou e já temos uma das grandes frustrações do ano.

Os vencedores do BAFTA 2019

Olivia Colman foi a melhor atriz por A Favorita.

Ainda que seu eleitorado não seja necessariamente semelhante ao do Oscar, o BAFTA exerceu, na noite deste domingo (10), um papel muito interessante em termos de clarear os rumos para o prêmio concedido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Por também consagrar filmes de língua inglesa e por estar na ativa desde os anos 1940 (o que lhe dá grandes credenciais com a indústria, que sempre voa até o Reino Unido para prestigiar a cerimônia), o BAFTA pode, ao menos, ser observado como o reflexo do pensamento de um grupo específico que, de certa maneira, está alinhado aqui ou ali com outras premiações em casos mais abertos e pontuais. Especialmente na corrida deste ano, que, até então, parecia não ter favoritos (muito em função da baixa média de qualidades dos concorrentes), os britânicos parecem assinalar caminhos muito óbvios.

Tal constatação é possível porque Roma faturou a categoria principal mesmo com A Favorita levando sete troféus para casa, alguns deles estratégicos (roteiro original e filme britânico, por exemplo). A vitória surpreende porque o BAFTA é uma premiação conhecida por seu bairrismo, ainda mais em anos onde filmes britânicos como A Favorita ganham grande repercussão no circuito mundial. Por outro lado, não devemos pensar que o Oscar de melhor atriz para Glenn Close está perdido com a consagração de Olivia Colman, que de fato brilha em A Favorita, mas que foi favorecida pela histórica falta de entusiasmo do BAFTA com Glenn (antes de A Esposa ela só havia concorrido nos 1980 com Ligações Perigosas, sem ter vencido) e pelo fato ser uma grande queridinha entre os votantes (esta é quarta estatueta da atriz, considerando as vitórias por TV). De resto, nas categorias principais, saem consolidados da cerimônia o mexicano Alfonso Cuarón também na categoria de melhor direção e a dupla Rami Malek (Bohemian Rhapsody) e Mahershala Ali (Green Book: O Guia), aparentemente imbatíveis entre as interpretações masculinas.

Confira abaixo a lista completa de vencedores do BAFTA 2019

MELHOR FILME: Roma
MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Roma)
MELHOR ATRIZ: Olivia Colman (A Favorita)
MELHOR ATOR: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Rachel Weisz (A Favorita)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: A Favorita
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Infiltrado na Klan
MELHOR FOTOGRAFIA: Roma
MELHOR FIGURINO: A Favorita
MELHOR MONTAGEM: Vice
MELHOR FILME BRITÂNICO: A Favorita
MELHOR ANIMAÇÃO: Homem-Aranha no Aranhaverso
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Free Solo
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Roma
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: A Favorita
MELHOR TRILHA SONORA: Nasce Uma Estrela
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: A Favorita
MELHOR SOM: Bohemian Rhapsody
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Pantera Negra
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO: 73 Cows
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO (ANIMAÇÃO): Roughhouse
EE RISING STAR AWARD: Letitia Wright

“A Favorita”: Yorgos Lanthimos desafia as formalidades dos filmes de época e mostra do que realmente é feita uma comédia esperta e refinada

Some wounds do not close. I have many such.

Direção: Yorgos Lanthimos

Roteiro: Deborah Davis e Tony McNamara

Elenco: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Mark Gatiss, James Smith, Carolyn Saint-Pé, Faye Daveney, Emma Delves, Paul Swaine, Jennifer White, LillyRose Stevens, Denise Mack

The Favourite, Irlanda/Reino Unido/Estados Unidos, 2018, Comédia, 119 minutos

Sinopse: Na Inglaterra do século XVIII, Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) exerce sua influência na corte como confidente, conselheira e amante secreta da Rainha Ana (Olivia Colman). Seu posto privilegiado, no entanto, é ameaçado pela chegada de Abigail (Emma Stone), nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e agarra com unhas e dentes à oportunidade única. (Adoro Cinema)

Por se tratar de um filme de época com um tom assumidamente cômico, A Favorita corre o grande risco de ser subavaliado, como se não passasse de uma brincadeira passageira entre três atrizes em estado de graça. Isso porque, historicamente, comédias sempre foram, em sua maioria, relacionadas à leveza, à descontração ou, então, ao mero pastelão. Não se engane, contudo, ao achar que o novo longa do cineasta grego Yorgos Lanthimos está limitado a esse jogo de maldades e armadilhas arquitetado por duas mulheres sedentas pela atenção de uma rainha inconstante. Há mais inteligência por trás de A Favorita do que avaliações preliminares julgam supôr, e o que esse título recordista de indicações ao Oscar 2019 faz é subverter, através da comédia, a caretice tão tradicional dos filmes de época, criticando a mediocridade monárquica, a imaturidade masculina e o modo autodestrutivo com que conduzimos relações de diversas naturezas a partir das nossas próprias vaidades.

Malicioso, irônico e vibrante, A Favorita reúne, somente nessas breves adjetivações, qualidades que os filmes de época não costumam ostentar. Aliás, é de se tirar o chapéu para o fato da obra já partir de uma sábia decisão: a de se inspirar em informações históricas, e não necessariamente reproduzir fielmente fatos e acontecimentos. Sem sequer dizer para o espectador o ano em que sua trama acontece, A Favorita não apresenta sequer letreiros contextualizando o período histórico ou, ao final, explicando qualquer curiosidade sobre a veracidade das três personagens principais. É um longa, portanto, que abraça o prazer das liberdades dramáticas em detrimento da caretice de seguir à risca os fatos verídicos, o que é fundamental para que o roteiro faça adaptações afiadas e divertidas, inclusive com um vocabulário que dispensa diálogos formais e rebuscados, substituindo-os por xingamentos como bitchcunt.

A partir disso, A Favorita se permite fazer críticas sobre a tolice do regime monárquico, algo que se reflete na decisão de jogar o teor histórico para segundo plano, interpretando a política palaciana como uma espécie de estorvo na vida de três personagens cujo maior interesse é protagonizar o controle das relações de poder entre elas próprias. Não à toa, as decisões da rainha, como o aumento impostos para as terras de grandes propriedades, são tomadas com a mesma rapidez com que são desfeitas, já que Anne (Olivia Colman) governa sem ter muita noção do que está fazendo nele. Para ela, qualquer decisão política é tediosa e tem mais valor como uma forma de controlar o afeto de sua fiel escudeira Sarah Churchill (Rachel Weisz) do que de fato dar algum sentido para o reinado em si.

Aliás, as mulheres de A Favorita são representadas como figuras afiadas e maliciosas. Já os homens são toscos e imaturos: eles chutam mesas ao serem contrariados, jogam frutas uns nos outros, buscam fofocas entre os corredores para conquistar alguma informação secreta e — eis o mais divertido — correm, em termos políticos e afetivos, atrás de mulheres que estão anos-luz à frente em termos de esperteza e estratégia. É uma ideia que atualiza ainda mais a obra e que está tão enraizada na trama que a figurinista Sandy Powell resolveu reproduzi-la com plena elegância no guarda-roupa desenhado para o filme. De um lado, as personagens femininas vestem variações de roupas em preto-e-branco, como se fossem figuras de um tabuleiro de xadrez; de outro, os homens desfilam com perucas imensas, abarrotados de maquiagem e carregando diversos apetrechos, no limite de se tornarem verdadeiros bobos da corte.

Tal interpretação hiper contemporânea acerca dos papeis masculinos e femininos na sociedade elimina qualquer poeira que poderia existir em A Favorita, uma comédia que utiliza o humor como ferramenta para dar nova leitura a uma trama que, no fundo, é bastante triste. Apesar das risadas, o roteiro escrito pela dupla Deborah Davis e Tony McNamara é afiadíssimo ao analisar as consequências de atos que tomamos por puro ego e interesse — e elas pouco se referem à conquista ou não de poderes políticos, mas sim à auto-destruição afetiva e emocional que as personagens passam a alimentar de forma inconsciente. Dito isso, o desfecho é menos catártico do que se poderia esperar, especialmente considerando o jogo de disputas estabelecido ao longo do filme. Ao invés de dar as respostas fáceis de quem ganhou ou quem perdeu, A Favorita descortina o desconforto e a tristeza por trás de um humor, que, como nas melhores comédias, fala, na realidade, sobre as nossas próprias tragédias e fragilidades.

Impecáveis em papeis ricos e sagazes, Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone são um espetáculo como as três mulheres em polvorosa entre os corredores de um palácio imponente e muito bem capturado por uma suntuosa parte técnica. Como o centro de toda a história, Colman, em especial, é brilhante: poucas atrizes conseguiriam registrar com tanto controle e complexidade as oscilações de uma mulher desequilibrada, carente e insegura sem torná-la uma demente histérica — e, considerando que boa parte do seu trabalho é traduzido mais por expressões do que por diálogos, esse feito só se engrandece. Orbitando a rainha, Rachel Weisz e Emma Stone estão inspiradíssimas: a primeira tem a difícil tarefa de pincelar nas entrelinhas os afetos sinceros mas pouco verbalizados de uma mulher aparentemente inabalável e segura de sua influência no reinado de uma rainha ausente, enquanto a segunda se diverte ao representar a maquiavélica esperteza por trás do sorriso simpático de uma jovem que usa uma falsa inocência para alcançar seus objetivos.

A Favorita é, digamos, o trabalho mais “palatável” do diretor Yorgos Lanthimos, ainda que sua identidade como realizador esteja claramente impressa aqui, como nas lentes angulares que distorcem diversas sequências (outra ótima sacada para tirar o longa das convencionalidades estéticas do gênero). Em comparação a títulos como O Lagosta e o recente O Sacrifício do Cervo Sagrado, há mesmo um conceito mais brando em forma e estilo, o que, por outro lado, não parece assinalar qualquer tipo de domesticação do diretor. Inclusive, seria heresia afirmar isso, pois A Favorita é um filme de época que derruba as formalidades de incontáveis títulos dessa natureza, entregando uma comédia refinada e dedicada ao humor como uma ferramente de expressão para sentimentos muito mais elegantes e complexos do que a risada fácil que a indústria tanto acostumou o grande público a consumir.

Três atores, três filmes… com Karine Teles

Uma das grandes atrizes em atividade no cinema brasileiro, Karine Teles gentilmente me deu a honra de ser a nova convidada da coluna “Três atores, três filmes”. Além da realização pessoal de tê-la aqui, é um presente descobrir como uma talentosa intérprete como ela enxerga o trabalho dos próprios colegas e, principalmente, o quanto ela, de certa forma, é influenciada por cada um deles. Aos desavisados (ou esquecidos), Karine esteve recentemente nos cinemas com Benzinho, que foi exibido no Festival de Sundance e multipremiado no Festival de Cinema de Gramado. Anterior ao filme, estrelou títulos como o ótimo Riscado e também deu vida a grandes personagens, a exemplo de dona Bárbara, a “antagonista” do premiadíssimo Que Horas Ela Volta?. Seus próximos projetos incluem a série Gilda, onde é novamente dirigida por Gustavo Pizzi, e Hebe, cinebiografia da apresentadora Hebe Camargo (Andréa Beltrão), onde dá vida à atriz Lolita Rodrigues. Quebrando o protocolo, Karine escolheu não três, mas sim quatro interpretações para sua participação a coluna, e eu, claro, aceitei com a maior alegria. Valeu, Karine!

Giulieta Masina (Noites de Cabíria)
A combinação de força, fragilidade e humor que a atriz consegue manipular para criar sua Cabíria (sem nenhuma vaidade de ator) é extremamente poderosa, fora que Cabíria somos todos nós que, no fundo, só queremos ser amados. Assisto a esse filme sempre que quero me inspirar.

Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street)
Acho um primor a entrega dele para este personagem, que tem cenas dificílimas, mas feitas com leveza e, de novo, sem vaidade, conseguindo gerar empatia e repulsa ao mesmo tempo. Em nenhum momento você vê DiCaprio orgulhoso de si mesmo, como vemos em muitos grandes atores em importantes personagens.

Gena Rowlands (Noite de Estreia)
Acho Gena uma das mais impressionantes atrizes americanas. Ela, assim como Giulietta, consegue estar presente e verdadeira em cena ao mesmo tempo em que consegue “comentar” o que a personagem está vivendo. As pessoas falam muito de Uma Mulher Sob Influência (e eu também adoro esse filme), mas Noite de Estreia me impressiona muito mais com a complexidade da personagem e a imensa gama de emoções vividas por Gena com total destreza.

+ Sigourney Weaver (Alien, o Oitavo Passageiro)
Também gostaria de incluir a Sigourney Weaver porque me impressiona e encanta a sua capacidade de contracenar nesse grau de “fantasia”. Se acreditar em um companheiro de cena e contracenar com ele já é difícil, imagina com um boneco cheio de baba falsa quando você é uma astronauta em uma nave espacial…. O que ela faz nesse filme é da ordem da perfeição!

“Assunto de Família” e “Cafarnaum”: do Japão ao Líbano, não há nada mais bonito ou aterrador do que a própria vida

Premiados no Festival de Cannes do ano passado e agora indicados ao Oscar 2019 de melhor filme estrangeiro, Assunto de Família e Cafarnaum apresentam diferentes perspectivas para histórias centradas na miséria e nas relações familiares. Enquanto o primeiro esbanja a sábia delicadeza dos dramas japoneses, o segundo constrói uma trágica odisseia em um Líbano divido entre o desamparo e o caos. São dois relatos de abordagens amplamente opostas, mas que, conferidos em uma sessão dupla, têm muito a dizer um sobre o outro, seja como obras audiovisuais ou como preciosos registros humanos.

“ASSUNTO DE FAMÍLIA”, de Hirokazu Koreeda

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2018, o drama Assunto de Família mostra um lado completamente diferente e até mesmo desconhecido do Japão grandioso que costumamos guardar na memória. No filme de Hirokazu Koreeda, acompanhamos, na verdade, uma família pobre que, formada por sete ou oito integrantes, precisa se amontoar em uma casa de espaço limitadíssimo e inclusive roubar mercados e outros estabelecimentos para sequer ter o que comer. Cada um vive aos trancos e barrancos tentando sobreviver, o que não impede o acolhimento uma nova criança que, logo descobrem, vivia desassistida em um lar hostil. O bondoso gesto com a adorável pequena é a perfeita síntese do que torna Assunto de Família uma obra encantadora: mesmo em meio às dificuldades, os personagens nos mostram que a generosidade e o amor ao próximo podem (e devem) sempre prevalecer.

Tamanha delicadeza para ver o melhor do ser humano inclusive em seus momentos mais difíceis só poderia vir do Japão, país cuja filmografia é marcada por obras tão singelas quanto delicadas e sábias (não perca, por exemplo, o drama A Partida, citando o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009). É por buscar o minimalismo que Assunto de Família se torna tão tocante: ao invés de concentrar sua atenção nas adversidades enfrentadas por cada personagem, o longa lança um olhar carinhoso para as relações humanas, por mais cotidianas que elas possam ser. Sem jamais julgar qualquer atitude de seus personagens, Koreeda, que também escreve o roteiro, busca tocantes complexidades inclusive em atos que podem ser condenados. Afinal, como ficar indiferente à sequência em que o pai da família diz, com uma tristeza de cortar o coração, que ensina seus filhos a roubarem porque isso é a única coisa que saberia ensinar a eles?

Ao desenhar a beleza dos personagens através de suas atitudes erráticas, Assunto de Família dispensa extremos ou estereótipos para entregar uma narrativa tanto mundana quanto refinada. É bem provável que, ao longo do filme, você pense que pouco está acontecendo para, ao final, assim como na própria vida, perceber que grandes histórias não são necessariamente feitas de grandes acontecimentos. Por mais que seja ambientado em uma cultura deveras diferente da nossa, é fácil se sentir parte da família em questão, como se de fato convivêssemos com aquele pequeno grupo, compartilhando suas dores e alegrias. O terço final, aliás, ao redimensionar o afeto e a familiaridade dos personagens a partir de importantes desdobramentos dramáticos, é a comprovação máxima de como o espectador pode se pegar envolvido com toda a situação tanto quanto as figuras em cena, algo que Koreeda, com muita habilidade, alcançou de maneira quase desapercebida durante o filme.

Mais do que uma obra repleta de sabedoria em narrativa, Assunto de Família é um primor em toda a sua discretíssima concepção técnica, começando pelo design de produção, que, em uma casa apertadíssima, captura as limitações daquela família a partir de cada detalhe da decoração, com roupas empilhadas, estantes assoberbadas de objetos e camas improvisadas em ambientes que não dão conta de tantas pessoas convivendo juntas. O calor, contextualizado pelo som das cigarras e pelo sol e suor que invadem esse espaço cercado por árvores e plantações, também traz uma nova perspectiva das dificuldades dos personagens, que tomam banho de jarra por não existir sequer um chuveiro dentro do imóvel e que encontram, em uma rápida viagem à praia, um alento físico e emocional. Nessa passagem litorânea, há uma linda, natural e despretensiosa comunhão entre os personagens, que, por uma breve tarde, conseguem andar livres e, na medida do possível, sem preocupações. Precioso na essência e na estruturação de seus valores humanos, Assunto de Família é, indubitavelmente, uma pequena grande pérola.

“CAFARNAUM”, de Nadine Labaki

Vem do Líbano um dos filmes mais aterradores de que se tem notícia pelo menos nas últimas décadas. Não é por menos: Cafarnaum, o terceiro longa da cineasta Nadine Labaki, arrancou lágrimas e aplausos das plateias do último Festival de Cannes, de onde saiu com o Prêmio do Júri, uma espécie de terceiro lugar na competição. Tal comoção é plenamente justificada do início ao fim da obra, mas tentar antecipar ou se preparar para qualquer tipo de efeito que ela possa causar é inútil, pois tudo é infinitamente mais poderoso do que se poderia supor. Ao contrário de Assunto de Família, com quem disputa o Oscar 2019 de melhor filme estrangeiro, Cafarnaum é uma trágica odisseia que assume e abraça a dor, sem se preocupar em amenizá-la ou maquiá-la de alguma forma.

O cinema-verdade proposto por Labaki parte de uma história inacreditável por si só: aos 12 anos, um menino libanês decide processar os pais por eles terem lhe dado a vida, pedindo aos tribunais para que seus progenitores indiferentes e alheios aos incontáveis filhos, sejam proibidos de procriarem dali em diante. É impossível discordar do pequeno Zain (Zain Al Rafeea), que, assim como tantas outras crianças do país, vive uma realidade inacreditavelmente miserável, abandonada e desumana. Cafarnaum, contudo, é sobre a jornada anterior a esse encontro nos tribunais e sobre todas as situações que levaram o menino a se tornar um assumido adversário dos próprios pais (menino em termos, uma vez que, no final das contas, Zain se viu obrigado crescer muito antes do esperado, tornando-se, inclusive, muito mais adulto e responsável do que aqueles que lhe deram a vida).

Enquanto vende sucos, transita por ruas imundas, apanha em casa e até ajuda a irmã a esconder a primeira menstruação para que ela não seja vendida a um quitandeiro qualquer em troca de galinhas, o protagonista tenta sobreviver em um mundo impiedoso e sem a mínima perspectiva de esperança. Para capturar esse sentimento, Nadine Labaki confere, claro, grandeza cinematográfica ao projeto, mas prefere capturar a dramaticidade de seu personagem como um fidelíssimo documentário, inclusive porque todas as 200 horas de imagens capturadas (e condensadas em um longa de duas) foram encenadas por não-atores que, na maior parte dos casos, revivem histórias muito parecidas com as das suas próprias vidas. Em Cafarnaum, a existência miserável de populações esquecidas pelo mundo está posta na tela como ela realmente é, o que torna tudo ainda mais devastador.

Somente as deploráveis condições de vida colocadas na tela já bastariam para eliminar qualquer suspeita de que tantas doses cavalares de desgraça são golpe baixo ou apelação da diretora. No entanto, o que se vê em Cafarnaum é realmente adaptado de tudo aquilo que Labaki viu ou ouviu durante sua pesquisa local para o filme, sem tirar nem pôr. Não à toa, é no mínimo simbólico que, em cena, ela faça o papel da advogada que se voluntaria a trabalhar com Zain no processo contra pais. Com total respeito, Labaki entra nesse universo com a mesma proposta que fez de Central do Brasil um colosso: através da jornada trágica e particular do protagonista, observamos um país em convulsão equivalente, sendo impossível desassociá-los em toda a sua tristeza e desesperança.

A dor está tão enraizada em Cafarnaum que qualquer vislumbre de esperança soa tão poético quando devastador. É impossível segurar as lágrimas quando vemos uma mãe roubando os restos de um bolo para o aniversário de seu bebê ou quando Zain posiciona um espelho na janela para, através do reflexo, conseguir assistir ao desenho animado da TV do vizinho. Momentos como esses talvez doam porque são capazes de colocar nós, espectadores privilegiadíssimos e afortunados, no nosso devido lugar: perto da miséria que existe nesse mundo, não temos problemas algum, e qualquer reclamação que possamos fazer parece desprezível quando comparada aos obstáculos do protagonista de Cafarnaum, interpretado de maneira indescritivelmente milagrosa e poderosa pelo refugiado sírio Zain Al Rafeea. Se há algo que Nadine Labaki não quer fazer é segurar a mão do espectador ou dizer que tudo ficará bem. Muitas vezes, para a nossa própria evolução como seres humanos, a franqueza é o maior presente que podemos receber, inclusive na sala de cinema. 

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2019

Pantera Negra e o SAG de melhor elenco: vitória marca ano de consagração para os filmes populares.

Extremamente popular, o Screen Actors Guild Awards refletiu a recorrente pulverização de favoritismos nessa temporada de premiações. Com uma seleção extremamente questionável (não faz sentido algum A Favorita e Vice não terem disputado a categoria principal, por exemplo), o prêmio consagrou cinco filmes diferentes nas categorias de Cinema, entregando a honraria máxima de melhor elenco para Pantera Negra, que marca época não apenas por ser um filme de super-herói, mas também por quebrar, como um todo, a caretice de cerimônias que insistem em negar consagrações para obras mais populares. Nesse sentido, tão bacana quanto a estatueta para Pantera Negra foi a vitória de Emily Blunt como coadjuvante pelo terror Um Lugar Silencioso (todos os atores do filme fizeram campanha como coadjuvantes). Entre os principais vencedores do SAG deste ano, na verdade, somente A Esposa pode ser verdadeiramente classificado como uma produção independente. O que fica para a posteridade dessa temporada são as vitórias de Glenn Close, Rami Malek e Mahershala Ali, todos com a papelada já encaminhada para conquistar o Oscar futuramente. Pela frente, será interessante observar os movimentos do BAFTA, que também não conta com Regina King na disputa de atriz coadjuvante e que promove o confronto direto entre Roma A Favorita, os dois recordistas de indicações ao Oscar 2019. 

Confira abaixo a lista completa de vencedores do Screen Actors Guild Awards:

CINEMA

MELHOR ELENCO: Pantera Negra
MELHOR ATRIZ: Glenn Close (A Esposa)
MELHOR ATOR: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Emily Blunt (Um Lugar Silencioso)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM DRAMA: This is Us
MELHOR ELENCO EM COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Sandra Oh (Killing Eve)
MELHOR ATOR EM DRAMA: Jason Bateman (Ozark)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (Escape at Dannemora)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)

Apostas para o Screen Actors Guild Awards 2019

Menos relevante do que se poderia esperar para uma temporada altamente pulverizada, o Screen Actors Guild Awards anuncia, neste domingo (27), os vencedores de uma seleção que praticamente não exerce influência no Oscar. Sem A FavoritaRoma na disputa de melhor elenco, o prêmio reforça sua falta de sintonia com o Oscar, tendência já assinalada ano passado, quando A Forma da Água foi o grande vencedor do prêmio da Academia sem sequer concorrer na categoria principal do SAG. A ausência de Regina King, grande favorita que acumulou até agora o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Awards como atriz coadjuvante, também é outra ausência expressiva e inexplicável. Com isso, a disputa em melhor elenco está completamente aberta, inclusive porque o momento de Nasce Uma Estrela parece ter evaporado. Nesse sentido, ao menos há de se reconhecer que, ao contrário do ano passado, o SAG acontece com uma cota considerável de incógnitas, inclusive no segmento televisivo, o que é interessante para uma temporada que costuma ser tão previsível. A cerimônia será transmitida aqui no Brasil pela TNT, a partir das 22h. Confira abaixo as nossas apostas:

CINEMA

MELHOR ELENCOInfiltrado na Klan / alt: Nasce Uma Estrela
MELHOR ATRIZ: Glenn Close (A Esposa) / alt: Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
MELHOR ATOR: Christian Bale (Vice) / alt: Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Amy Adams (Vice) / alt: Rachel Weisz (A Favorita)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia) / alt: Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM DRAMAOzark / alt: The Americans
MELHOR ELENCO EM COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel / alt: The Kominsky Method
MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Sandra Oh (Killing Eve) / alt: Laura Linney (Ozark)
MELHOR ATOR EM DRAMA: Jason Bateman (Ozark) / alt: Sterling K. Brown (This is Us)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Michael Douglas (The Kominsky Method)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (Escape at Dannemora) / alt: Amy Adams (Sharp Objects)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (American Crime Story: The Assassination of Gianni Versace) / alt: Hugh Grant (A Very English Scandal)

Melhores de 2018 – Atriz Coadjuvante

Com mais de 80 produções no currículo, Laurie Metcalf é uma veterana da TV e do teatro que, em 2018, viveu tardiamente o momento mais expressivo de sua carreira cinematográfica. Consagrada em inúmeras associações de críticos por seu desempenho em Lady Bird: A Hora de Voar, Metcalf concentra uma imensa parcela do afeto transmitido por esse longa que marca a estreia de Greta Gerwig na direção. Como a mãe da protagonista-título, a atriz busca toda a delicadeza e, principalmente, os contrastes emocionais de uma mãe que, pelas mais diferentes razões, pouco consegue se comunicar com a própria filha. Entre duras exigências maternas e reprimidas demonstrações de carinho, Metcalf encanta ao iluminar, com inteligência e sutileza, as camadas de um papel incrivelmente cotidiano, mas que, por meio de sua performance, torna-se tão complexo, vivo e fascinante quanto a própria vida. Ainda disputavam a categoria: Elizabeth Debicki (As Viúvas), Lesley Manville (Trama Fantasma), Mackenzie Davis (Tully) e Rachel McAdams (Desobiência).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Clarisse Abujamra (Como Nossos Pais) | 2016 – Juliana Paes (A Despedida| 2015 – Kristen Stewart (Acima das Nuvens| 2014 – Lesley Manville (Mais Um Ano) | 2013 – Helen Hunt (As Sessões| 2012 – Viola Davis (Histórias Cruzadas| 2011 – Amy Adams (O Vencedor| 2010 – Marion Cotillard (Nine| 2009 – Kate Winslet (O Leitor| 2008 – Marcia Gay Harden (O Nevoeiro| 2007 – Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)

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