Cinema e Argumento

Melhores de 2019 – Roteiro Original

Em mais de 20 anos de carreira, o cineasta Bong Joon-ho sempre trabalhou com todo tipo de gênero, e Parasita não deixa de ser mais um trabalho onde ele mistura e subverte muitos deles, mas sua maior preocupação ao escrever o roteiro do filme era contar uma história sobre pessoas mundanas e que podem muito bem ser nossos vizinhos. Inicialmente pensado como uma peça de teatro, Parasita aos poucos foi tomando forma como uma experiência cinematográfica, com sua gênese dramática centrada na relação entre ricos e pobres, discussão já presente em Expresso do Amanhã, ficção científica assinada por Bong Joon Ho ainda quando o roteiro de Parasita estava sendo escrito por ele em parceria com Jin Won Han.

Sem estereótipos, a dupla cria dois núcleos de poder aquisitivo muito distintos, desfiando perspectivas inteligentíssimas, como a questão da (falta de) privacidade de cada família (os ricos moram em uma espécie castelo isolado, enquanto os pobre vivem em um apartamento subterrâneo cuja única janela está à altura do chão da rua, como se eles fossem mendigos). Conjugando uma trama de disparidades sociais e dinâmicas familiares, o roteiro de Parasita não limita seus personagens à mera definição de mocinhos e vilões, desenvolvendo todos com desenvoltura em um emaranhado de acontecimentos surpreendentes e empolgantes. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Dor e Glória, Entre Facas e Segredos e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Trama Fantasma | 2017 – Manchester à Beira-Mar | 2016 – Aquarius | 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

“After Life”: em fase melancólica e tragicômica, Ricky Gervais encena o luto sem fim de um homem comum

Criador, ator, produtor, roteirista e diretor do seriado After Life, Ricky Gervais abraça a melancolia e a tragicomédia para narrar a história de um homem que vive um luto sem fim. 

Esqueça o Ricky Gervais que, como apresentador do Globo de Ouro em três ocasiões, chocou meio mundo com monólogos de abertura polêmicos. Esqueça também o Ricky Gervais que deixou incontáveis plateias desconfortáveis com seriados como Extras e The Office (a versão britânica que deu origem ao sucesso estrelado por Steve Carell nos Estados Unidos). Obviamente Gervais não abriu mão de sua própria personalidade, mas o que vemos em After Life, cuja segunda temporada estreou dia 24 de abril na Netflix, é uma versão mais sentimental e melancólica de um humorista que, perto de completar 60 anos, resolveu refletir sobre a finitude da vida e sobre o estado de luto que todos nós um dia vivenciaremos.

Se antes o humor de Ricky Gervais era gosto adquirido (piadas ácidas, politicamente incorretas e até mesmo constrangedoras são para um certo nicho), agora a situação muda de cenário, pois After Life, além de trazer toda a ironia e a inteligência das melhores comédias britânicas, consegue ser universal ao equilibrar certas características do humor que consagrou Gervais e doses de emoção realmente surpreendentes se levarmos em consideração a trajetória mais célebre do humorista. Para quem gosta de ver tudo de uma tacada só, uma boa notícia: After Life é estruturada em temporadas de somente seis episódios de 30 minutos, o que também pode ser a tristeza para quem gosta de saborear histórias por um período mais longo.

As duas temporadas lançadas até agora são todas dirigidas e roteirizadas pelo próprio Gervais. Cada uma, pela curtíssima duração, parece um filme dirigido em seis partes. Gervais, no entanto, como um veterano dos seriados, sabe construir uma estrutura episódica para o programa. Resumidamente, a história gira em torno de Tony, um jornalista que, após ter perdido a esposa para o câncer, passa a enxergar o pessimismo como filosofia de vida. Para ele, o trabalho é uma atividade tola, as pessoas ao seu redor são desprezíveis e tudo parece uma conspiração para irritá-lo. Sem a esposa, Tony apenas sobrevive.

A partir de amizades improváveis e de personagens que buscam a humanidade do protagonista, After Life dosa humor e comédia para evitar o risco de se tornar o relato sobre um homem intragável.

Receita fácil para criar um personagem insuportável, a sinopse depressiva de After Life é colocada abaixo na prática. Primeiro porque Ricky Gervais, que interpreta o próprio Tony, opta por utilizar a sua cota de humor justamente para retratar o pessimismo do protagonista. Ora, é mesmo tragicômico o fato de Tony trabalhar no jornal decadente de uma pequena cidade, entrevistando pessoas que talvez nenhum jornalista sonha entrevistar, como uma senhora que diz ter o poder de falar com gatos ou o homem que vê o rosto de Kenneth Branagh em uma infiltração da casa. Também é divertido ver Tony se tratar com um psicólogo que está cansado de ouvir seus pacientes e que, no final das contas, quer apenas falar sobre ele próprio.

Além de explorar com humor as situações cotidianas afim de aliviar o peso que ele visivelmente carrega nas costas, After Life cerca o protagonista de personagens que clamam por sua humanidade, como Emma (Ashley Jensen), a enfermeira que cuida do pai de Tony em uma clínica para idosos, ou então a sua mais nova amiga Anne (Penelope Wilton), uma senhora que perdeu o marido e com quem ele tem alguns dos melhores diálogos em ambas as temporadas. A partir do convívio com essas pessoas, Tony começa gradativamente a se abrir para o mundo mais uma vez, ainda que nunca consiga se libertar das memórias da esposa, muitas delas registradas em gravações caseiras que ele assiste ao acordar e antes de dormir.

Fragmentos de memórias: nos vídeos que Tony assiste diariamente como um ritual, conhecemos um pouco sobre quem ele era antes de perder a esposa.

No tocante à discussão do luto, Ricky Gervais não cai na tentação de querer contextualizar o histórico do protagonista de forma linear. Seria fácil nos introduzir à esposa de Tony, passar alguns episódios com ela e depois fazê-lo sofrer a perda. O que After Life faz é apresentar um personagem que, depois de meses, ainda não seguiu em frente — e nem tem a intenção de seguir tamanho o vazio existencial que sente. Através das gravações que Tony guarda da esposa, a série revela, a cada episódio, fragmentos do relacionamento sincero, cúmplice e espontâneo dos dois, e aí entendemos ainda mais a razão de todo luto. Cada vez que vemos o protagonista encerrar um dia com um sorriso ou algumas lágrimas no rosto ao revisitar alguma gravação no computador, percebemos que também sentimos falta de vê-lo feliz.

O humor pessimista desse homem em luto rende momentos hilários para After Life, que busca a piada no absurdismo do dia a dia. Entretanto, é a angústia de Tony com ele próprio e com a sua incapacidade de seguir em frente que dá verniz à série. Com simplicidade, Gervais olha para o cotidiano por meio de um olhar afiado e revelador: assim como acontece na vida, o protagonista começa a colecionar amizades improváveis (a prostituta vivida por Roisin Conaty é excelente, muito em função da série não problematizar ou estereotipar a natureza da sua profissão) e a perceber que, apesar dos pesares, precisamos abraçar aquilo que a vida tem a nos oferecer, inclusive os colegas estranhos de trabalho que podem muito bem ser o ombro amigo que precisamos. No meio disso tudo, Ricky comove e diverte como ator, em um desempenho discreto e repleto de nuances.

Na primeira temporada, After Life apostou com mais frequência no humor, muito para contextualizar o quanto Tony passou a ver a vida com pessimismo. Já no segundo ano, a melancolia toma conta do seriado porque testemunhamos vários desdobramentos de suas novas relações. A mais significativa é a que ele estabelece com a enfermeira que cuida de seu pai e que logo se apresenta como um interesse amoroso que talvez o faça finalmente virar a página. Nada maniqueísta ou clichê, mas de uma sobriedade que costuma definir os trabalhos mais interessantes vindos do Reino Unido. Com o passar do tempo, Ricky realmente se tornou mais sentimental. E, partindo do que ele realiza em After Life, tal constatação só comprova a velha tese de que nem todo ator é um grande comediante, mas que, sim, todo comediante é necessariamente um grande ator. Aliás, no caso de Ricky, grande ator, produtor, diretor, roteirista…

Três atores, três filmes… com Vera Fischer

Com mais de 40 anos de carreira, Vera Fischer já ultrapassou a marca de 30 participações em novelas e seriados. No meu imaginário de ex-noveleiro, ela mora, claro, como a protagonista Helena de Laços de Família, novela do ano 2000 que, escrita por Manoel Carlos, chegou a registrar o maior índice de audiência do Canal Viva quando foi reprisada em 2016. Vera também fez filmes — mais de 20 — e sempre foi uma cinéfila de carteirinha. Recentemente, passou a compartilhar suas aventuras cinematográficas no Instagram. De grandes clássicos a sucessos modernos, ela também registra por lá os seus comentários sobre premiações como o Globo de Ouro e o Oscar (aliás, Rede Globo, já fica registrada aqui a dica para que a Vera comente a transmissão do ano que vem!). Sou grande fã da completa espontaneidade e autenticidade com que Vera produz suas postagens. Mais ainda da frequência com que ela assiste diferentes filmes para, logo em seguida, recomendar aos seus seguidores. Convidada a elencar três interpretações do cinema que lhe marcaram, Vera selecionou para a nossa coluna dois desempenhos agraciados com o Oscar e um eternizado pelo tempo. Os três primeiros comentários abaixo foram enviados por ela especialmente para o blog. Já os demais foram publicados recentemente no Instagram da Vera, onde ela também comenta especificamente sobre desempenhos de seus colegas de profissão. Tão importantes quanto os críticos não são os espectadores assíduos? Que privilégio tê-la por aqui!

Holly Hunter (O Piano)
No filme de Jane Campion, ela faz uma mulher muda que fala por sinais e que ama o seu piano mais do que tudo na vida, a ponto do piano falar por ela. Com um desempenho tão forte, tão maduro, e ao mesmo tempo tão surreal, ela me tocou profundamente.

Liza Minelli (Cabaret)
Ela estava maravilhosa nesse filme dirigido pelo coreógrafo Bob Fosse! A sua Sally Bowles, uma sonhadora americana, que canta e dança no Cabaret KitKat, em Berlim, durante a ascensão do nazismo, é digna dos maiores elogios. Ela criou, através da maquiagem e das roupas, uma personagem meio clown, uma figura patética no meio daquele ambiente decadente. Adorei como Liza conseguiu me emocionar, a cada cena, seja dançando, cantando ou apenas em silêncio, no close.

Jack Nicholson (O Iluminado)
O primeiro épico de terror que ficou amedrontador não apenas por ser uma historia de Stephen King dirigida por Kubrick, mas também pelo horror, loucura e insanidade que o ator vai revelando ao longo do filme. É impossível ficar impassível! É um grande trabalho de Nicholson e dá mesmo muito medo.

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Rita Hayworth (Gilda)
A lendária Rita Hayworth, dama da Columbia Pictures, brilha neste filme de 1946, dirigido por Charles Vidor. Com muita sensualidade e magnetismo, ela canta “Put the Blame on Mame”, num cassino ilegal em uma cidade da América Latina; é uma história cheia de reviravoltas. Gilda, mulher infiel, sedutora, ciumenta, vingativa, intimidadora e… maravilhosa. Dizem que, nunca houve uma mulher como Gilda!

Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
Encantador. Fascinante. Assassino. É assim o filme O Último Rei da Escócia, com o vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de 2007, Forest Whitaker. No papel de Idi Amin Dada, o ditador se Uganda, Forest nos brinda com uma das melhores interpretações da história do cinema moderno. Esta é a incrível história de Amin, vista através dos olhos de Nicholas Garrigan (James McAvoy, também excelente!), um jovem escocês que foi médico pessoal do instável líder, em parte devido à inesperada paixão de Amin pela cultura escocesa. Amin até se autoproclamou “O Último Rei da Escócia”. Seduzido pelo carisma de Amin e cegado pela decadência, a vida dos sonhos de Garrigan torna-se um pesadelo de traição e loucura, da qual não há fuga. Inspirado em pessoas e acontecimentos reais, esta história de grande impacto e cheia de suspense é repleta de interpretações inesquecíveis. Forest Whitaker me inspira sempre. É tão bom ator que você é fisgado no primeiro instante. Esse é um filmaço. Daqueles que, sempre que você o vê, nunca mais vai ser a mesma pessoa.

Audrey Hepburn (Bonequinha de Luxo)
Quem ainda não viu Bonequinha de Luxo, esta comédia com Audrey Hepburn, que brilha como diamante? Claro que todos já viram! Mas nunca é demais. Desde os acordes de abertura da inesquecível canção “Moon River”, de Henry Mancini e Johnny Mercer (vencedora do Oscar), todos ficam sob o encanto desta maluquinha garota de Nova York, conhecida como Holly Golightly (Audrey), nesta história baseada no best-seller de Truman Capote. George Peppard é um jovem e esforçado escritor que conhece Holly e é arrebatado para o seu intrigante e delicioso estilo de vida, mas Holly quer apenas encontrar um milionário para casar-se. Grande clássico do diretor Blake Edwards. Eu adoro, particularmente, as cenas em que ela está vestindo um Givenchy preto, diante da Tiffany’s, comendo um sanduíche ao amanhecer, admirando os diamantes, e, o momento em que, ao lado de Peppard, sentada na janela, ela canta “Moon River”. Audrey forever.

Melhores de 2019 – Roteiro Adaptado

Foi necessário um período dois anos para que o roteiro de A Vida Invisível chegasse à sua estrutura final. Ao longo desse tempo, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, que tomavam como base, claro, o livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, discutiram muitos pontos que poderiam funcionar na literatura, mas que, no cinema, talvez pudessem soar menos orgânicos para o ritmo da narrativa (a grande quantidade de saltos no tempo, por exemplo). Procurando manter a essência do romance de Martha Batalha, a dupla também propôs ajustes pontuais, como o fato de Eurídice tocar piano — e não flauta, como originalmente escrito —, um instrumento muito mais visual e que amplia a linguagem corporal da personagem.

A mistura de reverência ao livro de origem com a plena consciência de que literatura é uma coisa e cinema é outra confere ao roteiro de A Vida Invisível uma grande delicadeza. Estruturalmente bem resolvido (Karim e Murilo ainda desconstruíram o texto original para colocá-lo em ordem cronológica e, a partir daí, definirem a gênese dramática e o formato da narrativa), a adaptação contempla diversos temas — a emancipação feminina, o machismo, a relação entre irmãs, a passagem do tempo — com grande comoção, provando que é possível sim fazer um melodrama bem dosado e com raízes novelescas admiráveis. Ainda disputavam a categoria: Greta, Poderia Me Perdoar?, Querido Menino e Se a Rua Beale Falasse.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Me Chame Pelo Seu Nome | 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol |  2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

Melhores de 2019 – Montagem

Ao aceitar o convite para assinar a montagem de Parasita, Jinmo Yang já tinha em mente que Bong Joon-ho é um cineasta que escreve roteiros com espírito de montador. Por isso mesmo, a primeira conversa entre Bong e Yang foi outra: ao invés de discutirem como a casa que foi construída especialmente para o filme seria explorada pela montagem ou sobre como se dariam as transições de gênero, a dupla debateu a amplitude de cada personagem. Nas entrevistas que concedeu desde o lançamento do filme, Yang ressaltou que o grande foco da montagem de Parasita foi criar uma unidade dramática para a interação entre famílias tão diferentes. Lançando um olhar meticuloso para aquilo que estava faltando ou sobrando em cada personagem, ele leva o filme a um patamar completamente diferenciado: além de ter um excelente ritmo e de se movimentar entre variados gêneros, Parasita é, em sua gênese, um filme sobre seres humanos e suas relações, algo amplamente reverenciado por uma das montagens mais brilhantes dos últimos anos. Trabalho de mestre. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Cafarnaum, Democracia em Vertigem e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Você Nunca Esteve Realmente Aqui | 2017 – Em Ritmo de Fuga | 2016 – A Grande Aposta | 2015 – Whiplash: Em Busca da Perfeição | 2014 – O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

Melhores de 2019 – Fotografia

James Laxton acumula até aqui mais de 40 produções como diretor de fotografia, mas sua carreira está um degrau acima quando ele colabora com o cineasta Barry Jenkins. O primeiro encontro entre os dois foi em Moonlight: Sob a Luz do Luar, que rendeu a Laxton uma indicação ao Oscar. Infelizmente, reconhecimento equivalente não lhe foi dado por Se a Rua Beale Falasse, onde ele mais uma vez realiza um trabalho excepcional. Tendo como inspiração as habilidades singulares da literatura de James Baldwin — autor do livro homônimo em que o filme se baseia —, especialmente aquela de narrar sentimentos de maneira tão palpável, Laxton constrói uma fotografia pulsante para Se a Rua Beale Falasse, que, assim como a obra de Baldwin, é atmosférica nos sentimentos que busca despertar no espectador.

Em parceria com Jenkins, Laxton incorporou no trabalho outras inspirações da dupla, como o cinema de Wong Kar-Wai e Claire Denis, voltando-se também para os contrastes do romance que se materializa na tela, onde o amor é cercado pelo sofrimento ou onde o racismo e o preconceito são enfrentados com resiliência. A fotografia captura literalmente de perto as emoções dos personagens e dialoga no uso cores com a paleta de figurinos e cenários que homenageiam grandes melodramas da chamada Era de Ouro de Hollywood. Com técnicas e referências sublimes, mas, acima de tudo, com muita paixão, Laxton inebria e cria composições que deixariam Baldwin muito orgulhoso. Ainda disputavam a categoria: Ad Astra: Rumo às Estrelas, Coringa, A Favorita e Vergel.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Roma |  2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira

“Clemency”: vencedor de Sundance, drama sobre as reverberações do corredor da morte faz Alfre Woodard brilhar absoluta

I do my job.

Direção: Chinonye Chukwu

Roteiro: Chinonye Chukwu

Elenco: Alfre Woodard, Richard Schiff, Aldis Hodge, Wendell Pierce, Danielle Brooks, Michael O’Neill, Richard Gunn, LaMonica Garrett, Vernee Watson, Dennis Haskins, Alex Castillo, Alma Martinez, Michelle C. Bonilla

EUA, 2019, Drama, 112 minutos

Sinopse: A diretora (Alfre Woodard) de uma prisão de segurança máxima para homens é confrontada com seus próprios demônios psicológicos e emocionais, quando desenvolve um vínculo com o prisioneiro (Aldis Hodge) no corredor da morte que ela está programada para executar. (Adoro Cinema)

A primeira cena de Clemency, filme que venceu o Festival de Sundance em 2019, é muito impactante. Nela, Bernardine Williams (Alfre Woodard) cumpre os protocolos habituais daquela que é uma das tarefas mais recorrentes de seu cotidiano profissional: executar presidiários condenados à pena de morte. Dessa vez, entretanto, o destino parece dizer alguma coisa: os médicos não encontram uma artéria apropriada no braço para injetar o líquido que levará o homem em questão à morte. Também não encontram no pé. Até que, a muito custo, localizam a artéria femoral, situada ao longo das coxas. Algo segue dando errado: o homem começa a ter uma espécie de convulsão, e sangue passa a escorrer da artéria onde está sendo injetado o líquido fatal. Nada, no entanto, evita o óbito do condenado, mesmo com um ritual problemático e tão traumático que parecia um presságio para algum tipo de reviravolta.

Claro que toda a circunstância é inegavelmente perturbadora, mas a sequência incomoda pela expressão indecifrável, rígida e esvaziada de Bernardine naquele momento. Como a diretora de um corredor da morte, ela está acostumada a executar pessoas e enxerga tudo aquilo apenas como uma profissão, excluindo da equação o fator humano ou a brutalidade de um sistema punitivo tão tortuoso como o dos Estados Unidos. Realmente é possível alguém viabilizar um punhado de execuções com alguma naturalidade? Quantos óbitos dessa natureza um ser humano precisa testemunhar para tratar essa tarefa como mais uma entre tantas outras de uma checklist profissional? Também cito essa cena específica, pois é dela que nascem as duas abordagens fundamentais para compreender e discutir Clemency.

A primeira é hipnotizante: a do filme como estudo de caso de uma personagem. E não qualquer personagem, mas uma mulher negra bem sucedida e de personalidade, responsável por um setor onde só circulam homens. A rigidez com que Bernardine coordena o corredor da morte é abalada quando ela recebe a notícia de que, em virtude dos problemas ocorridos na execução do mais recente condenado, uma investigação acerca desse trabalho será conduzida no presídio. Mais importante do que isso, o assunto passa a repercutir dentro e fora do local, e Bernardine, talvez pela primeira vez afetada pela natureza da sua profissão, começa gradualmente a ter problemas de sono, a frequentar bares com maior frequência e a se tornar uma pessoa cada vez mais impenetrável. É um turbilhão interno de emoções muito discreto, sem o mínimo traço de obviedade.

Já o segundo recorte é menos sutil e contundente: aquele que leva Clemency para uma discussão sobre os dilemas e as contradições da pena de morte. Tal abordagem é desenhada com propriedade mulher e negra, a diretora Chinonye Chukwu é efetiva ao dosar dilemas íntimos e coletiva dentro desse contexto marcado por discussões raciais , mas o que não funciona é a atenção excessiva a uma subtrama onde acompanhamos a trajetória emocional de um presidiário negro que, supervisionado por Bernardine e defendido por um advogado em conflito com sua profissão, tem a esperança de conseguir escapar da execução. A subtrama tira a harmonia do filme porque corta tempo de tela da hipnotizante protagonista e porque, apesar dos comentários sociais e das reflexões que busca trazer, o personagem simplesmente não desperta o devido interesse.  

Sem fazer da história um relato de emoções mais clássicas e lacrimosas como Os Últimos Passos de Um Homem ou À Espera de Um Milagre, dois célebres títulos também ambientados em um corretor da morte, Clemency se apropria da rigidez da protagonista como parte de sua própria personalidade como filme. Faz sentido e funciona: na medida em que Bernardine ferve um punhado de sentimentos tempestuosos, a diretora não deixa que as eventuais angústias e desesperos da protagonista se traduzam em diálogos espetaculosos ou em conflitos hiperbólicos. Mesmo o casamento desgastado de Bernardine, que poderia ser considerada a faceta mais tradicional da trama, é desenvolvido uma dinâmica muito particular entre o casal. O próprio fato de ela ter que lidar diariamente com a morte também não é o fim do mundo, algo pouco habitual em longas dessa temática.

Ao alternar entre a história da protagonista e a jornada do detento que está prestes a ser executado, Clemency, ao invés de se complementar, resulta indeciso entre a vontade de ser o íntimo conto de uma mulher bastante particular e a reflexão acerca do sistema prisional estadunidense. Do micro ao macro, o filme se desencontra com frequência, mas acaba sempre voltando para aquilo que eleva a sua potência: Alfre Woodard. Solenemente ignorada na última temporada de premiações, inclusive pelas associações de críticos que costumam garimpar desempenhos fora da curva como esse, Alfre é uma gigante em cena. Com uma presença pulsante, ela é enigmática e transparente nas mesmas proporções para o espectador, canalizando uma imensidão de sentimentos em um desempenho milimétrico e também muito livre em criações e sentimentos. Em suma, Clemency tem sim suas virtudes, mas, no frigir dos ovos, o show é todo (e somente) de Alfre.

Melhores de 2019 – Som

Formado por Nicolas Hallet, Ricardo Cutz e Cyril Holtz, o trio responsável por capitanear o trabalho de som de Bacurau traz para o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles a experiência acumulada tanto em produções brasileiras quanto estrangeiras. Enquanto Nicolas e Ricardo já trabalharam separadamente em títulos como Edifício MasterTatuagemO Lobo Atrás da PortaA História da Eternidade, além dos longas anteriores assinados por Kleber, o francês Cyril Holtz tem na bagagem, por exemplo, o premiado Elle, de Paul Verhoeven. Ou seja, experiência é o que não falta ao trio, algo que está evidente em Bacurau, onde o som é ferramenta primordial para situar o espectador em um universo muito particular e que transita por diferentes gêneros. Da atmosfera de um povoado que vive em uma humilde (e fictícia) cidade do nordeste brasileiro aos imprevisíveis acontecimentos que, em tons de suspense e até mesmo de ficção científica, passam a assombrar os personagens do longa, Nicolas, Ricardo e Cyril usam o som para ampliar os sentidos do espectador desde os primeiros minutos de projeção. É com essa preciosa contribuição do trio que tudo em Bacurau acaba nos parecendo muito próximo e, em diversas passagens, angustiante. Ainda disputavam a categoria: Ad Astra: Rumo às Estrelas, Coringa, Nós e Rocketman.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Um Lugar Silencioso | 2017 – Dunkirk | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Até o Fim | 2013 – Gravidade | 2012 – 007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Melhores de 2019 – Design de Produção

Uma informação que redimensiona a nossa relação de fascínio com o universo de Parasita é a de que os principais ambientes em que o filme desenvolve a sua ação (a casa da família rica e a casa da família pobre) foram construídos especialmente para o projeto, tornando o design de produção um elemento fundamental na narrativa criada por Bong Joon-Ho. Em sua segunda coleboração com o diretor, Lee Ha-Jun imaginou espaços que deveriam cumprir duas funções básicas: instigar visualmente e viabilizar toda a mise-en-scène, bem como os jogos de câmera propostos por Bong Joon-Ho. Ele ainda teve o desafio extra de projetar a casa da família rica como se fosse um arquiteto, já que, em determinado momento da trama, uma personagem menciona que aquela moradia teria sido planejada sob encomenda. Enquanto isso, na casa da família pobre, tudo se afunila: com cômodos pequenos, estreitos e habitados por várias pessoas, Ha-Jun saiu de escalas amplas para dimensões quase claustrofóbicas. O resultado é um design de produção que entrega a Parasita um universo muito particular e que reforça a necessidade de sempre apurarmos o nosso olhar para trabalhos contemporâneos como esse. Ainda disputavam a categoria: Coringa, A Favorita, Rocketman e Vergel.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – A Forma da Água | 2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Animais Fantásticos e Onde Habitam | 2015 – Expresso do Amanhã | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – A Invenção de Hugo Cabret | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet | 2007 – Maria Antonieta

Rapidamente: “E Então Nós Dançamos”, “O Homem Invisível”, “As Panteras” e “Vida Selvagem”

Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, E Então Nós Dançamos foi o representante da Suécia na busca por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional em 2020.

E ENTÃO NÓS DANÇAMOS (And Then We Danced, 2019, de Levan Akin): Representante da Súecia na disputa por uma vaga na categoria de filme internacional do Oscar 2020, o drama E Então Nós Dançamos é outro relato muito bacana e econômico sobre as vivências de um jovem personagem gay. Assim como no recente Me Chame Pelo Seu Nome, Merab (Levan Gelbakhiani) tem sua rotina transformada pela descoberta de uma paixão repentina. Evidentemente, aqui pesam mais as questões de preconceito, já que E Então Nós Dançamos se passa em Tiblissi, uma cidade conservadora da Geórgia, mas o diretor e roteirista Levan Akin alcança um ótimo equilíbrio ao dar a devida dose de contextualização para esse problema sem tornar tal condição um elemento novelesco para os personagens. O foco de Akin está em como Merab, apesar das adversidades familiares, financeiras e sociais, segue tocando a vida sem se privar de suas maiores paixões. Além disso, a natureza sexual do protagonista não define E Então Nós Dançamos, que acaba sendo um relato muito mais amplo sobre a vida de um jovem atravessando todo tipo de transformação cotidiana. A vivacidade, as frustrações e as oscilações de Merab também despertam empatia extra através do caloroso desempenho de Levan Gelbakhiani, bailarino na vida real e aqui em sua primeira aparição no cinema. Somando ao personagem sua impressionante técnica como bailarino georgiano, Gelbakhiani é puro carisma e dá conta de todas as angústias características (mas não estereotipadas) da juventude. Ele, aliás, costuma ser o destaque absoluto do filme, que só não se engrandece em função de uma direção pouco inventiva.

O HOMEM INVISÍVEL (The Invisible Man, 2020, de Leigh Whannell): Acostumada a interpretar papeis sofridos ou atormentados, Elisabeth Moss acrescenta mais uma experiência dessa natureza ao seu currículo com O Homem Invisível, um dos últimos filmes a causar um interessante boca a boca antes do mundo suspender o funcionamento das salas de cinema com o início da pandemia do Coronavírus. Em que pese o tom elevado e os desdobramentos por vezes implausíveis, O Homem Invisível é robusto por utilizar o suspense como ferramenta para discutir o universo sempre muito dolorido de mulheres envolvidas  em relacionamentos abusivos. A premissa em si é a seguinte: após receber a notícia do suicídio de seu ex-namorado, Cecilia (Moss) passa a experienciar situações que sugerem a possibilidade de que a morte possa ter sido forjada. Daí em diante, O Homem Invisível não poupa o espectador de situações, conflitos e reviravoltas clássicas de suspenses exibidos durante a madrugada na TV, inclusive com uma parte técnica que reforça esse espírito, como a trilha sonora de notas altíssimas assinada por Benjamin Wallfisch. Tudo, no entanto, serve para potencializar o estado traumático enfrentado pela protagonista após anos sendo abusada emocionalmente pelo namorado. A vibe é aceitável e envolvente porque Elisabeth Moss é excelente atriz e porque O Homem Invisível sabe usar a identidade de um gênero cinematográfico para falar sobre pesadelos muito palpáveis, onde a insanidade de homens possessivos e violentos na vida real é mesmo mais absurda do que a própria ficção.

AS PANTERAS (Charlie’s Angels, 2019, de Elizabeth Banks): Quando perguntada sobre as possíveis razões que levaram um filme como As Panteras ser um retumbante fracasso de bilheteria (a arrecadação total nos Estados Unidos sequer pagou 1/4 do orçamento), a diretora Elizabeth Banks atribuiu toda a culpa ao sexismo de Hollywood, uma indústria ainda intolerante com longas de ação estrelados por mulheres e que não se enquadram em um formato masculino ou em um universo de quadrinhos. Banks não deixa de ter certa razão, mas é difícil endossar sua afirmativa quando As Panteras não motiva o espectador a defendê-lo. Desprovido do mínimo de personalidade, o filme chega a assustar pela ação genérica, pela apatia das personagens e pela trama aborrecida que nem reverencia direito a mitologia pop alcançada pelas Panteras na TV e no cinema. É inevitável a comparação até mesmo com os dois títulos anteriores a esse reboot, dirigidos por McG com um delicioso e absurdo senso de ridículo. Assim como Kristen Stewart, Naomi Scott e Ella Balinska não chegam aos pés do carisma e da atmosfera de diversão trazida por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu, o filme em si se desenrola com indiferença, provando que Elizabeth Banks, vaidosa o bastante para atuar, dirigir, roteirizar e produzir o projeto (e ainda deixar isso bem claro nos materiais promocionais!), precisa se desenvolver muito como realizadora. E a torcida é grande, pois acho que todos nós gostaríamos de poder dizer que As Panteras foi injustiçado por questões sexistas, e não por ser simplesmente uma experiência vazia, tediosa e sem uma vírgula de inspiração.

VIDA SELVAGEM (Wildlife, 2018, de Paul Dano): Paul Thomas Anderson. Paolo Sorrentino. Steve McQueen. Bong Joon-Ho. Denis Villeneuve. Ang Lee. Spike Jonze. Rian Johnson. Jonathan Dayton. Valerie Farris. Aos 36 anos, Paul Dano já teve a oportunidade de trabalhar com uma lista invejável de diretores. Por isso, parecia tão compreensível quanto inevitável que, após toda essa imensa experiência, ele decidisse realizar Vida Selvagem, seu primeiro longa-metragem como diretor e roteirista, baseado no romance de mesmo título escrito por Richard Ford em 1990. Para dividir a adaptação da obra, Dano chamou sua namorada, a atriz Zoe Kazan. A sábia decisão de trazer uma perspectiva feminina para Vida Selvagem faz a diferença: por mais que o filme parta da visão estabelecida por um adolescente em relação ao gradual processo de separação dos pais na década de 1960, a potência dramática acaba vindo da maneira com que a mãe Jeanette (Carey Mulligan) lida com o afastamento do marido. Ao não se vitimizar ou se afundar em lágrimas na cama, ela rapidamente se ocupa para superar o fato do marido ter saído de casa por tempo indeterminado. Obviamente isso é um estado de negação abraçado por Jeanette para não ter que lidar com determinados sentimentos. O que para ela é um escudo, para o filho se torna motivo de estranhamento. Vida Selvagem tropeça em ritmo e se prolonga em sequências pontuais, como aquela onde mãe e filho saem para um jantar, mas brilha na grande atenção dada a sua protagonista, interpretada por Carey Mulligan com uma inspiração que ela não apresentava desde o ótimo Educação.

Melhores de 2019 – Atriz Coadjuvante

Após ter saído da Eritreia para morar ilegalmente no Líbano, onde sequer tinha uma carteira de identidade, Yordanos Shiferaw pôde contar parte de sua própria história de vida no poderoso Cafarnaum. Como Zahil, uma imigrante ilegal que enfrenta o que for necessário para poder cuidar de seu bebê, Shiferaw (re)viveu emoções e experiências de sua própria trajetória, traduzindo para o espectador o fulminante desespero de uma existência sem perspectiva e sem o mínimo amparo de qualquer pessoa, poder ou instituição. Através da invisibilidade de Zahil, ela, que não tinha nenhuma experiência prévia em atuação, colocou a realidade e a solidariedade de muitas mulheres como ela sob os holofotes, especialmente ao cruzar o caminho de Zain, o protagonista de Cafarnaum. Quando os dois estão juntos em cena, o filme se ilumina de certa maneira, como se Zahil fosse, mesmo tão devastada, um raio de esperança para uma realidade talvez mais desoladora do que a dela. A linha aqui tão tênue entre a ficção e a realidade é matéria-prima para que Shiferaw impulsione os toques de urgência e comoção que definem todo Cafarnaum. Ainda disputavam a categoria: Cho Yeo-jeong (Parasita), Fernanda Montenegro (A Vida Invisível), Penélope Cruz (Dor e Glória) e Regina King (Se a Rua Beale Falasse).

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar) | 2017 – Clarisse Abujamra (Como Nossos Pais| 2016 – Juliana Paes (A Despedida| 2015 – Kristen Stewart (Acima das Nuvens| 2014 – Lesley Manville (Mais Um Ano) | 2013 – Helen Hunt (As Sessões| 2012 – Viola Davis (Histórias Cruzadas| 2011 – Amy Adams (O Vencedor| 2010 – Marion Cotillard (Nine| 2009 – Kate Winslet (O Leitor| 2008 – Marcia Gay Harden (O Nevoeiro| 2007 – Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)

Três atores, três filmes… com Daniel Feix

A coluna “Três atores, três filmes” foi inaugurada em abril de 2013 para trazer ao blog queridos amigos comentando interpretações que consideram marcantes no cinema. Passados sete anos, chego agora ao convidado número 50 com o imenso orgulho de, ao longo dessa trajetória, ter também incorporado ao espaço colegas do jornalismo, profissionais do cinema e até mesmo atrizes e cineastas de quem sempre fui muito fã. Para marcar a 50ª edição da coluna, trago a participação do jornalista gaúcho Daniel Feix. Mestre em comunicação, crítico de cinema, editor dos suplementos de fim de semana do jornal Zero Hora e atual presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS), Daniel é jornalista cultural desde 2000 e tem artigos publicados na série “Os 100 melhores”, da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine), em “Bernardet 80” (Paco Editorial) e “Cem autores que você precisa ler” (L&PM), entre outros livros, além de ser autor da biografia “Teixeirinha – Coração do Brasil”. Lembro de, ainda na faculdade, tê-lo entrevistado sobre, claro, crítica de cinema. Anos depois, nos tornamos colegas de jornalismo. Hoje, tenho a grande satisfação de estar junto ao Daniel na ACCIRS — aliás, foi durante sua bela gestão como presidente que recebi o convite para integrar o time de críticos dessa importante associação. Cumprindo o desafio proposto pela coluna, ele selecionou desempenhos que engrandecem três filmes assinados por cineastas icônicos: Ingmar Bergman, Jean-Luc Godard e Wong Kar-Wai. Obrigado pela participação, Daniel!

Tony Leung (Amor à Flor da Pele)
Entre os muitos bons filmes que têm como tema a impossibilidade da realização amorosa, Amor à Flor da Pele talvez seja um dos mais exasperadores – daí o sentido de suas cores quentes, sua trilha pop potente, o uso de recursos como a câmera lenta e os planos claustrofóbicos, tudo a ressaltar a dramaticidade da jornada de Chow (papel de Leung) e sua vizinha Chan (Maggie Cheung). O protagonista, no entanto, carrega uma misteriosa sobriedade, que o ator que o interpreta, sob a direção segura de Kar Wai (em sua melhor fase), usa como recurso para intrigar e mesmo seduzir o espectador. Seu desespero não aparece. Existe? No fundo, a inevitabilidade do sofrimento como que o anestesia, mas sem tirar dele o desejo, muito pelo contrário. Esse balanço que dá complexidade à composição do personagem encontrou em Tony Leung um intérprete à altura, tão capaz de comunicar sentimentos distintos, ora aparentemente opostos, que se tornou icônico quando o assunto é o amor irrealizável.

Max Von Sydow (A Paixão de Ana)
Von Sydow era alto, tinha um rosto com formato e traços muito marcantes e um olhar profundo, ressaltado por uma força expressiva rara. Mas o que o fez um ator realmente gigante foi a delicadeza. Nos filmes de Bergman (eles fizeram 10 longas-metragens juntos), invariavelmente encarnava um sujeito oprimido pelas angústias da existência, apequenado por descobrir-se insignificante diante dos desígnios de Deus. Não é preciso ter fé para partilhar desse tormento: a magnitude da vida está na sua imaterialidade; associá-la à religiosidade foi um subterfúgio bergmaniano, coerente com as inquietações pessoais do cineasta. Bergman foi um dos maiores, se não o maior dos cineastas. E ninguém encarnou com tanta propriedade suas aflições quanto Von Sydow – por conta de sua delicada expressividade. Eu poderia ter escolhido A Hora do Lobo (1967), em que a proximidade da loucura faz sua interpretação pender para um registro menos naturalista e mais impressionante, mas opto por A Paixão de Ana porque esse me parece ser o filme do completo esvaziamento – desacelerado, doloroso, inescapável – de sua alma atormentada, culminando, na histórica sequência final, com a decomposição (visual, inclusive) de sua figura.

Anna Karina (Viver a Vida)
Logo no segundo dos 12 capítulos desse pequeno grande filme, Anna Karina vai ao cinema para ver A Paixão de Joana d’Arc (de Carl T. Dreyer, 1928). Godard, que a filma com paixão, devoção, precisa de apenas um corte para estabelecer um paralelo entre a atuação histórica de Renée Falconetti e a de sua heroína sensibilizada – e, ali já vai ficando evidente, de alma nua diante da hostilidade do mundo lá fora. O filme dentro do filme mostra um diálogo apresentado em planos e contraplanos fechados de Joana d’Arc com o personagem de Antonin Artaud, deixando o espectador à expectativa de que, saindo do rosto dele, a imagem mostrará o dela – só que Godard surpreende e insere o rosto de Nana (a personagem de Anna Karina), como se fosse com ela que Artaud estivesse se comunicando. Seus traços delicados deixam a expressão ainda mais comovente, ressaltada por uma fotografia que faz brilhar as lágrimas escorrendo pelo rosto. Nem sempre valorizada como merece, a grande atuação da musa de Godard se dá pela capacidade de comunicar, ao mesmo tempo, descobertas e decepções, crescimento e abatimento, a maturidade e a aflição pelo que esta impõe.

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