Cinema e Argumento

Apostas para o Emmy 2018

Em plena segunda-feira (17), o Emmy revelará os vencedores da sua edição comemorativa de 70 anos. A cerimônia será transmitida no Brasil pela TNT, a partir das 20h. Game of ThronesThe Handmaid’s Tale lideram as indicações no segmento dramático, mas é de se esperar que a segunda volte para casa com o maior número de estatuetas, repetindo pelo menos dois prêmios do ano anterior (melhor série e atriz em drama) e acrescentando outros (Yvonne Strahovski como coadjuvante). Quanto às comédias, The Marvelous Mrs. Maisel, da Amazon, parece ser à favorita ao prêmio principal e a outros de atuação (na semana passada, a série já levou a categoria de melhor elenco em série de comédia, entre os prêmios que são entregues pelo Emmy antes da cerimônia oficial). Nas minisséries, The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story deve levar a melhor em uma seleção que está bem menos entusiasmante que a do ano passado nesse segmento. Relembre aqui a lista de indicados e confira os nossos palpites para a premiação:

MELHOR SÉRIE DRAMAThe Handmaid’s Tale / alt: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel / alt: Atlanta
MELHOR MINISSÉRIE: The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story / alt: Godless

MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale) / alt: Claire Foy (The Crown)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Allison Janney (Mom)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Laura Dern (O Conto) / alt: Edie Falco (Law & Order: True Crime)

MELHOR ATOR EM DRAMASterling K. Brown (This is Us) / alt: Jason Bateman (Ozark)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Donald Glover (Atlanta) / alt: Ted Danson (The Good Place)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story) / alt: Jeff Daniels (The Looming Tower)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale) / alt: Ann Dowd (The Handmaid’s Tale)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM COMÉDIA: Laurie Metcalf (Roseanne) / alt: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story) / alt: Judith Light (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Mandy Patinkin (Homeland) / alt: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Alec Baldwin (Saturday Night Live)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jeff Daniels (Godless) / alt: Edgar Ramírez (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)

Quais são as chances de “O Grande Circo Místico” levar o Brasil ao Oscar?

O Grande Circo Místico é o sétimo filme de Cacá Diegues a ser escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

A Comissão de Seleção da Academia Brasileira de Cinema anunciou hoje, 11 de setembro, que O Grande Circo Místico representará o Brasil na disputa por uma vaga entre os cinco finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Em tese, a escolha é acertada, pois estamos falando do novo longa de Cacá Diegues, um ícone do cinema brasileiro conhecido internacionalmente. O Grande Circo Místico também tem um elenco de primeira, além de certa carreira internacional, já que foi exibido fora de competição no último Festival de Cannes. Entretanto, na prática, a escolha não se justifica porque o filme simplesmente não está à altura dessa representativa missão. 

Já havia comentado as razões que me distanciam de O Grande Circo Místico na crítica publicada aqui no blog durante a cobertura do 46º Festival de Cinema de Gramado, mas é uma questão lógica: com uma recepção fraquíssima tanto em Cannes quanto em Gramado, era de se esperar que a comissão tivesse percebido o quanto tais reações mornas já apontavam a falta de envolvimento das plateias com o filme, que chega aos cinemas brasileiros no dia 15 de novembro. Sem o aval das duas grandes exibições que teve até agora, O Grande Circo Místico zarpa rumo à corrida por uma vaga entre os cinco finalistas do Oscar de melhor filme estrangeiro com chances quase nulas de chegar lá.

Desde Central do Brasil, em 1999, não figuramos na categoria (e a chance mais expressiva que tivemos recentemente foi com Que Horas Ela Volta?), um longo jejum que, dado o lindo cenário da nossa produção atual, já deveria ter sido quebrado. Algo, no entanto, parece ter desestabilizado a comissão desde a desastrosa escolha de Pequeno Segredo em tempos de Aquarius. Afinal, Bingo – O Rei das Manhãs, produção escolhida ano passado, tinha isoladamente qualidades de sobra para ser um forte concorrente, mas sequer havia sido exibido internacionalmente e realmente não se encaixava na linguagem das produções escolhidas pelo Oscar. Dessa forma, O Grande Circo Místico marca agora o terceiro ano consecutivo em que a seleção poderia ter um representante muito mais expressivo, mesmo que, no final das contas, ele também não nos colocasse entre os finalistas ao prêmio da Academia (e aí o erro seria da Academia de Hollywood e não nosso).

Se a decisão foi novamente errada, qual, então, seria a certa? Sou suspeito para falar porque Benzinho tem em mim um fã incondicional, mas essa era a produção com o melhor conjunto de variáveis para chegar aos votantes: de temática universal, fala com delicadeza sobre dramas afetivos e familiares de fácil identificação, além de ter começado sua trajetória internacional no Festival de Sundance, um importantíssimo celeiro do cinema independente internacional. Hoje, em sua devida dimensão de filme quase alternativo, Benzinho ainda é um sucesso no Brasil e já está viajando comercialmente mundo afora. Ah, e  também não seria loucura alguma ainda fazer uma pequena campanha ao Oscar de melhor atriz para a Karine Teles! E, se não fosse o filme de Gustavo Pizzi, não seria crime algum escolher Ferrugem por sua contemporaneidade temática e por sua passagem em Sundance, já que títulos transgressores e mais ousados como As Boas ManeirasO Animal Cordial dificilmente teriam qualquer chance.

Relembre a lista dos filmes escolhidos desde o ano 2000 para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de filme estrangeiro:

2017 – Bingo – O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende
2016 – Pequeno Segredo, de David Schurmann
2015 – Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert
2014 – Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro
2013 – O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
2012 – O Palhaço, de Selton Mello
2011 – Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro, de José Padilha
2010 – Lula, o Filho do Brasil, de Fabio Barreto
2009 – Salve Geral, de Sérgio Rezende
2008 – Última Parada 174, de Bruno Barreto
2007 – O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger
2006 – Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes
2005 – 2 Filhos de Francisco, de Breno Silveira
2004 – Olga, de Jayme Monjardim
2003 – Carandiru, de Hector Babenco
2002 – Cidade de Deus, de Fernando Meirelles
2001 – Abril Despedaçado, de Walter Salles
2000 – Eu, Tu, Eles, de Andrucha Waddington

Rapidamente: “10 Segundos Para Vencer”, “O Avental Rosa”, “A Cidade dos Piratas” e “Ferrugem”

Grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado, Ferrugem está na lista dos filmes que disputam a vaga para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.

10 SEGUNDOS PARA VENCER (idem, 2018, de José Alvarenga Jr.): Cinebiografia do boxeador brasileiro Éder Jofre, 10 Segundos Para Vencer é o primeiro longa-metragem abertamente dramático assinado por José Alvarenga Jr., que fez carreira dirigindo comédias mais populares e de expressivas bilheterias, como DivãOs NormaisCilada.com e vários títulos dos Trapalhões entre os anos 1980 e 1990. Para essa nova investida, ele optou por um formato seguro e já consolidado nas biografias produzidas pelo cinema brasileiro, onde a história, que transita pelo clássico arco dramático de apogeu, decadência e reerguimento, tem início, meio e fim muito bem definidos, sem nada muito novo em forma ou estrutura. O que dá mesmo força ao projeto é a leitura do esporte como uma ferramenta de interação humana, e não como mero exercício físico ou passatempo: para Éder Jofre, lutar era uma missão de vida e também o que lhe conectava com um pai rígido, exigente e que esperava do filho uma trajetória gloriosa dentro e fora dos ringues. Talvez a escolha por esse olhar mais íntimo e familiar do personagem explique a leitura um tanto insuficiente que 10 Segundos Para Vencer faz do ícone Éder Jofre, poucas vezes devidamente dimensionado como uma mítica figura do cenário esportivo brasileiro. Por ser muito mais sobre laços e ruídos afetivos entre pai e filho, o roteiro abre as portas para que Daniel Oliveira, em plena entrega física, crie uma ótima química com o grande Osmar Prado, aqui em desempenho marcante, buscando todo tipo de humanidade e complexidade em um sujeito que, treinador do próprio filho, dificilmente encontra o equilíbrio saudável entre o seu papel de pai e a sua missão como uma incansável líderança do boxe. Organicamente, Osmar toma conta do filme, ao mesmo tempo em que há generosidade de sobra em sua dinâmica com os outros atores em cena. Não há o que quesionar: o nocaute de 10 Segundos Para Vencer é dele.

O AVENTAL ROSA (idem, 2018, de Jayme Monjardim): Apresentado pelo próprio Jayme Monjardim como o seu primeiro trabalho mais autoral depois de super produções realizadas para o cinema e para TV, O Avental Rosa é uma homenagem ao trabalho solidário e dedicado de pessoas que cuidam de pacientes terminais, tema sempre muito delicado por ser suscetível ao discurso fácil e à panfletagem. Ao preservar muito da linguagem televisiva que tanto consagrou Monjardim na televisão, o filme se desenrola basicamente como uma novela compactada em duas horas de projeção. São pouquíssimos os traços verdadeiramente cinematográficos na tela, começando pelo roteiro, recheado de lições de moral, coincidências e diálogos redundantes, onde são explicados conflitos e questionamentos que já estavam claríssimos através das atitudes de cada personagem. E mais: com um tom fortíssimo de melodrama e de auto-ajuda, o diretor reproduz diversos cacoetes reconhecidos da TV, como quando a protagonista, atormentada pelas discussões de um dia conturbadíssimo emocionalmente, não consegue dormir e se revira na cama com flashbacks e ecos das frases que lhe foram ditas. Na estética, a lógica se repete, pois, quando ganha um creme para a pele de presente, Alicia (Cyria Coentro) passa longos minutos caminhando pela casa e passando o produto lentamente na pele, como se estivesse em um comercial de cosméticos. Com uma grande escala de orçamento, como aconteceu em Olga, é possível maquiar bastante coisa. Já em um filme menor e mais intimista como proposto aqui, as fragilidades emergem de forma mais evidente. Por isso mesmo, conclui-se que O Avental Rosa é feito para o público adepto e afeito à linguagem televisiva. Como desde 2012 não assisto à uma novela sequer (e a última foi Avenida Brasil, que era mais sofisticada do que a média apresentada em horário nobre), não consegui estabelecer qualquer conexão com o longa.

A CIDADE DOS PIRATAS (idem, 2018, de Otto Guerra): A animação A Cidade dos Piratas é tão divertidamente caótica quanto o próprio diretor Otto Guerra, além de ser uma fidelíssima alegoria sobre os nossos tempos, ainda que essa seja apenas uma coincidência do roteiro, que começou a ser escrito em 2001. À parte as questões políticas e sociais tão reivindicadas pelo diretor dentro e fora de seus trabalhos, o filme propõe uma interessante metalinguagem ao colocar o próprio Otto dentro da história: tudo começa quando ele se vê em plena crise existencial e artística após a descoberta de um câncer e de que Laerte, autora dos quadrinhos em que o filme se baseia, de repente passou a renegar os seus próprios personagens. São fatos que realmente aconteceram e que, nos bastidores, bagunçaram por completo a ideia do projeto, algo que Otto viu como uma irresistível oportunidade, incorporando muitos dos acontecimentos na tela. No bom sentido da comparação, isso faz de A Cidade dos Piratas o trabalho mais maluco já assinado pelo animador gaúcho: com personagens improváveis, inúmeras liberdades, humor afiado e, por que não, uma imensa dose de realismo no meio disso tudo, o longa coloca o espectador em terrenos incertos e imprevisíveis, provocando reações que, para o bem ou para o mal, podem ser medidas conforme o gosto de cada um pelo já reconhecido estilo do animador. No raríssimo terreno de animações brasileiras para adultos, A Cidade dos Piratas nos lembra o quanto Otto continua sendo uma figura única e provocadora, que conta uma história como bem entende, sem estar preso a regras ou domesticações, qualidade celebrada pontualmente pelo 46º Festival de Cinema de Gramado com uma menção honrosa entregue ao filme pelo júri oficial. 

FERRUGEM (idem, 2018, de Aly Muritiba): Com as redes sociais tomando conta do nosso cotidiano e da maneira com que nos relacionamos com outras pessoas e inclusive com nós próprios, é muito lógico que o cinema também passe a refletir sobre esse delicado momento geracional. O Brasil, claro, faz parte dessa safra: depois do recente Aos Teus Olhos, agora temos Ferrugem, o grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado com os Kikitos de melhor filme, roteiro e direção. Menos verbal e expositivo do que os retratos desse tema costumam ser (e do que vimos em Aos Teus Olhos, por exemplo), o filme de Aly Muritiba levanta suas discussões a partir de perspectivas bastante distintas. A primeira é a de uma garota que, após ter um vídeo íntimo vazado na internet, passa a viver um verdadeiro pesadelo no colégio. A segunda é a de um menino que, por razões um tanto nebulosas, lida muito mal como um observador de todo aquele caos. É corajosa e inesperada a virada que Ferrugem dá na metade da projeção para inverter o foco da narrativa. Todo ato tem uma consequência, e é radiografando a reverberação da culpa, seja ela íntima ou coletiva, que a história ganha uma atmosfera diferenciada para discussões que estão em voga e que ainda serão exploradas de tantas outras maneiras semelhantes no cinema. Ferrugem não é um filme para o público jovem no sentido de ser uma experiência catártica ou embalada comercialmente para esse tipo de público. Pelo contrário: contemplativo, o projeto é muito mais sobre comportamentos do que sobre acontecimentos, tornando-se até um tanto anti-climático dependendo das expectativas, principalmente na segunda parte, muito bem defendida pela ótima performance do jovem Giovanni Di Lorenzo, mesmo que seu personagem não seja o tipo de persona que desperte empatia no espectador. Ferrugem não chega a ser um grande filme, mas as importantes reticências deixadas por ele quanto ao que nos tornamos frente a movimentos tecnológicos ou geracionais colocam o resultado em um patamar no mínimo diferenciado.

“O Conto”: incômoda produção da HBO mergulha nas verdades que criamos (e aceitamos) para sobreviver

Why can’t I remember myself?

Direção: Jennifer Fox

Roteiro: Jennifer Fox

Elenco: Laura Dern, Jason Ritter, Ellen Burstyn,  Elizabeth Debicki, Frances Conroy, Common, Jessica Sarah Flaum, John Heard, Chelsea Alden, Isabelle Nélisse, Matthew Rauch, Tina Parker, Isabella Amara

EUA/Alemanha, 2018, Drama, 114 minutos

Sinopse: Jennifer (Laura Dern) tem uma ótima carreira como documentarista e professora e um relacionamento repleto de carinho e respeito mútuo com seu noivo, Martin (Common). Porém, quando sua mãe encontra uma história que ela escreveu para escola quando tinha 13 anos contando sobre um relacionamento que teve com dois adultos, ela é obrigada a revisitar um passado traumático e reconciliar suas lembranças com o que de fato aconteceu com ela. (Adoro Cinema)

O Conto teve seus direitos de distribuição adquiridos pela HBO na última edição do Festival de Sundance, quando despertou grandes sensações entre público e crítica após a sua primeira exibição. Ao contrário do que se poderia esperar para uma produção questionadora, incômoda e até mesmo polêmica, as reações foram basicamente positivas, ressaltando a urgência do tema discutido. No filme, a diretora Jennifer Fox, também autora do roteiro, relembra a sua primeira (e conturbadíssima) relação sexual, quando ainda era a criança. E ela escolhe um ponto de vista interessante: o da mulher já adulta e bem realizada (Laura Dern) que sempre viveu aparentemente bem com tais lembranças, mas que começa a questionar certezas e verdades quando sua mãe (Ellen Burstyn) encontra, escandalizada, um diário que conta toda a história de forma detalhada.

A provocação de O Conto está em lidar com um assunto delicadíssimo através de uma personagem que, a princípio, não enxerga sua própria condição como algo a ser levado a sério. Isso até a protagonista finalmente perceber que a vida adulta muitas vezes se resume às verdades que criamos e aceitamos para de alguma forma sobreviver a diferentes tipos traumas. É na desconstrução de inúmeras certezas que o filme de Jennifer Fox se torna poderoso, especialmente porque o roteiro trabalha muito bem a questão de como nossas memórias são capazes de adaptar o que de fato aconteceu apenas para corroborar aquilo que queremos tomar como verdade. A relação entre o que realmente se desenrolou e o que a protagonista crê ser realidade é representada com muito impacto, pois O Conto encena uma determinada circunstância que, vista de fora, precisa ser imediatamente diagnosticada e vista como condenável.

Incômoda, a produção toca em inúmeros tabus que evitamos discutir se tratando de sexualidade, em especial a feminina, sempre questionada e colocada à prova pela sociedade. Há precisão e consistência em tudo que O Conto discute a partir dessa perspectiva, o que, infelizmente, não se reflete na forma, que simplifica e tenta dramatizar ainda mais uma história que por si só já impacta e provoca. As tentativas de elevar o tom de urgência são rasteiras, como na primeira meia hora, onde o filme cria cerimônia e suspense para até mesmo verbalizar o que os personagens tanto clamam como traumático e absurdo sem nunca dar qualquer pista sobre o que eles estão falando. A insistência da trilha e o vai e vem na história também atrasam uma trama que talvez fluísse melhor com uma narrativa linear, acumulando no espectador a expectativa para descobrir como toda aquela conturbada infância seria traduzida para a vida adulta.

Com a estrutura proposta, O Conto muitas vezes limita Laura Dern a ser uma espécie de Amy Adams em Animais Noturnos: ela lê e relembra, volta a ler e reflete, em um ciclo que eventualmente acontece alguma coisa para somente no terço final ganhar um material mais completo, onde, aí sim, a atriz mostra seu talento indiscutível e habitual. Apesar disso, as fragilidades são compensadas por discussões que certamente reverberam após a sessão e que são redimensionadas pela maneira aberta com que a diretora expõe a sua vida, inclusive assumindo toda a negação que, durante muitos anos, abraçou para não ter que encarar traumas nefastos. Nesse sentido, O Conto assombra porque consegue, na medida do possível, nos colocar no lugar da protagonista, questionando até que ponto precisamos abraçar a negação como ferramenta para a sobrevivência.

46º Festival de Cinema de Gramado #8: balanço geral da premiação

Ferrugem, de Aly Muritiba, é o grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Com uma cerimônia efervescente do ponto de vista político, o Festival de Cinema de Gramado encerrou a sua 46º edição no último sábado, 26 de agosto. O filme escolhido pelo júri oficial como o melhor da equilibrada seleção de longas-metragens brasileiros foi o drama Ferrugem, de Aly Muritiba, que já tem estreia prevista no circuito brasileiro para o dia 30 de agosto. Acompanhando os desdobramentos trazidos pelo vazamento de um vídeo íntimo na internet, o longa também faturou os Kikitos de melhor roteiro e melhor desenho de som. Ferrugem, no entanto, não foi o grande vencedor da noite: Benzinho, de Gustavo Pizzi, a grande unanimidade desta edição, levou para casa os prêmios de atriz para Karine Teles e atriz coadjuvante para Adriana Esteves, além dos Kikitos de melhor filme pelo júri popular e pelo júri da crítica. É no mínimo estranho Benzinho não ter encantado o júri oficial, especialmente quando público e crítica concordam que este era o melhor filme em competição. Não que Ferrugem não tenha méritos, mas Benzinho é o tipo de filme que será lembrado como uma indiscutível pérola do cinema nacional recente (e é bem provável que, com razão, ainda seja escolhido como o representante do Brasil para tentar uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro).

No geral, a lista contemplou a grande pluralidade da seleção deste ano, deixando apenas dois filmes sem prêmios: O Avental Rosa, de Jayme Monjardim, e Mormaço, de Marina Meliande. O primeiro, definido por Monjardim como um trabalho muito pessoal e autoral, realmente merecia passar despercebido por sua linguagem altamente televisiva e melodramática, mas o segundo ter saído de mãos abanando é um pequeno crime, pois é contundente a análise sócio-política que a diretora faz de um Brasil em franca transformação urbana e que, durante esse processo, oprime os menos favorecidos. Também é um pouco surpreendente a vitória de André Ristum como melhor diretor por A Voz do Silêncio: seu amadurecimento como realizador desde O Outro Lado do Paraíso se traduz na tela, mas, particularmente, acredito que os trabalhos de Gustavo Pizzi e Marina Meliande sejam mais complexos e inovadores. 

Osmar Prado e o seu Kikito de melhor ator por 10 Segundos Para Vencer. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Entre as categorias técnicas, foram acertados os três Kikitos para Simonal e a menção honrosa para a animação A Cidade dos Piratas, do veterano Otto Guerra, lembrada, segundo o júri, por seu “humor não domesticado”. Contudo, nenhum momento foi tão emblemático ou comovente quanto a vitória de Osmar Prado por 10 Segundos Para Vencer, a sua primeira por um papel como protagonista em cinema ao longo de 60 anos de carreira. Pelo desempenho em si, a consagração já seria comovente (e sua emoção era genuína), mas, ao defender o ex-presidente Lula, hoje “injustamente trancafiado nas masmorras de Curitiba”, mobilizou vaias e aplausos no cinema. Para os contrários, disse “pode vaiar”. Para os que compartilhavam do sentimento, ergueu o Kikito com orgulho. Certamente, um dos momentos mais memoráveis do Festival de Cinema de Gramado nos últimos anos, fazendo jus ao engajamento e  à resistência que fizeram do Palácio dos Festivais um templo do cinema brasileiro. Ainda no plano nacional, foram bem divididas as consagrações entre os curtas-metragens. Assim como nos longas, a escolha do júri oficial (a animação Guaxuma) não coincidiu com o queridinho da crítica e do público (a também animação Torre). Felizmente, a discordância não é grave: tanto Guaxuma quanto Torre são, ao mesmo tempo, filmes pessoais e universais, além claro, de serem animações, gênero que cresce cada vez mais no cenário audiovisual brasileiro. Se há alguma ressalva na lista, essa é a do pouco caso com Nova Iorque, comovente produção estrelada por Hermila Guedes e pelo pequeno Juan Calado, que saiu de Gramado somente com o Kikito de melhor fotografia e com o prêmio do Canal Brasil para curtas. Chegando aos longas estrangeiros, “somente” não se aplica aos oito prêmios recebidos por As Herdeiras, sendo três para as atrizes Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova. Dirigido por Marcelo Martinessi, o filme foi considerado pela crítica como o franco favorito para fazer o Paraguai estrear na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro.

Confira abaixo lista completa de vencedores da 46ª edição do Festival de Cinema de Gramado:
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LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Ferrugem, de Aly Muritiba
MELHOR DIREÇÃO: André Ristum (A Voz do Silêncio)
MELHOR ATRIZ: Karine Teles (Benzinho)
MELHOR ATOR: Osmar Prado (10 Segundos Para Vencer)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Adriana Esteves (Benzinho)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ricardo Gelli (10 Segundos Para Vencer)
MELHOR ROTEIRO: Jessica Candal e Aly Muritiba (Ferrugem)
MELHOR DESENHO DE SOM: Alexandre Rogoski (Ferrugem)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Max de Castro e Wilson Simoninha (Simonal)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Yurika Yamazaki (Simonal)
MELHOR MONTAGEM: Gustavo Giani (A Voz do Silêncio)
MELHOR FOTOGRAFIA: Pablo Baião (Simonal)
MENÇÃO HONROSA: A Cidade dos Piratas, de Otto Guerra
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Benzinho, de Gustavo Pizzi
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Benzinho, de Gustavo Pizzi

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi
MELHOR DIREÇÃO: Marcelo Martinessi (As Herdeiras)
MELHOR ATRIZ: Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova (As Herdeiras)
MELHOR ATOR: Nestor Guzzini (Mi Mundial)
MELHOR ROTEIRO: Marcelo Martinessi (As Herdeiras)
MELHOR FOTOGRAFIA: Nelson Waisntein (Averno)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Averno, de Marcos Loayza
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Guaxuma, de Nara Normande
MELHOR DIREÇÃO: Fábio Rodrigo (Kairo)
MELHOR ATRIZ: Maria Tugira Cardoso, por Catadora de Gente
MELHOR ATOR: Manoel do Norte (A Retirada Para Um Coração Bruto)

MELHOR ROTEIRO: Marco Antônio Pereira (A Retirada Para Um Coração Bruto)
MELHOR DESENHO DE SOM: Fábio Carneiro Leão (Aquarela)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Manoel do Norte (A Retirada Para Um Coração Bruto)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Pedro Franz e Rafael Coutinho (Torre)
MELHOR MONTAGEM: Thiago Kistenmacker (Aquarela)
MELHOR FOTOGRAFIA: Beto Martins (Nova Iorque)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Estamos Todos Aqui, de Chico Santos e Rafael Mellim
PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS: Nova Iorque, de Leo Tabosa
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Torre, de Nádia Mangolini
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Torre, de Nádia Mangolini

46º Festival de Cinema de Gramado #7: Crítica | “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues

Jesuíta Barbosa como Celavi em O Grande Circo Místico: 18º longa do diretor Cacá Diegues atravessa um século e cinco gerações de uma mesma família circense.

Em seu 18º longa-metragem, o cineasta Cacá Diegues reuniu um elenco à altura da mitologia que lhe é atribuída no cinema brasileiro: entre papeis menores e outros de destaque, nomes como Jesuíta Barbosa, Mariana Ximenes, Juliano Cazarré, Bruna Linzmeyer, Antonio Fagundes e Marcos Frota se alternam em uma história ambiciosa que acompanha, ao longo de um século, o apogeu e a decadência de cinco gerações de uma mesma família circense. Para dar vida a O Grande Circo Místico, filme de abertura do 46º Festival de Cinema de Gramado, Cacá levou mais de dez anos entre a criação do roteiro e o corte final, dado que amplia a expectativa com uma obra que já desperta curiosidade em função da talentosa equipe reunida à frente e atrás das câmeras. Tanto tempo de maturação, entretanto, misteriosamente não livrou o filme de fragilidades recorrentes em histórias que tentam dar conta de um imenso período em menos de duas horas de projeção.

O Grande Circo Místico até joga confetes na arte circense com apresentações esteticamente idealizadas e embaladas por canções irrepreensíveis de Chico Buarque e Edu Lobo. Por outro lado, a intenção é capturar os horrores de uma arte que, com o passar dos anos, perdeu público, incentivo e, por que não, a sua própria humanidade. Para cada cena colorida nos picadeiros, há pelo menos outras duas de bastidores que descortinam violências sexuais, problemas com drogas e outras tragédias que acometem a vida de pessoas cujo propósito profissional é, ironicamente, entreter plateias. Tal proposta já faz de O Grande Circo Místico um filme distante do que seus festivos materiais promocionais indicam, mas o que embaralha o jogo é a questão estrutural. Com incontáveis saltos no tempo, o filme esvazia sua dramaticidade ao não aprofundar situações e personagens. É tiro e queda: com superficialidade e pressa, pessimismo não funciona e soa somente como artifício para tentar conferir algum tipo de consistência à trama.

A leveza mais expressiva de O Grande Circo Místico está em Celavi (Jesuíta Barbosa), misterioso e carismático personagem que não envelhece e acompanha as diferentes fases da família circense. Jesuíta, cuja carreira profissional tem origem no teatro, não exerce papel necessariamente decisivo na trama, mas é o observador que, a cada aparição, traz o encanto e a graça para uma história pesada (e, com seu carisma e talento habituais, Jesuíta cria uma persona de fato interessante). Quanto aos demais atores que estão apenas de passagem (alguns deles, como Antonio Fagundes ou Marcos Frota, estão limitados a uma ou duas cenas), há uma visível entrega — e, no caso de Mariana Ximenes e Juliano Cazarré, donos dos papeis mais trágicos, até certa potência emocional. Eles se esmeram em uma obra truncada e que, pulverizada em ritmo e narrativa, não consegue conectar plateia e personagens. Para tanta espera, O Grande Circo Místico deveria ter armado um espetáculo melhor amarrado e mais grandioso.

46º Festival de Cinema de Gramado #6: Crítica | “Mormaço”, de Marina Meliande

De Roterdã para Gramado: Mormaço, de Marina Meliande, alterna entre o realismo e a alegoria para falar sobre a truculência e a exaustão nas grandes cidades.

Mormaço é um ponto fora da curva. Exibido no Festival de Roterdã deste ano, o drama dirigido por Marina Meliande consegue o feito estranhamente fascinante lembrar outros filmes ao mesmo tempo em que tem uma identidade particular. Tematicamente, é sobre como as grandes cidades são capazes de engolir e transformar seus habitantes, seja em termos literais ou metafóricos. Da perspectiva estrutural, temos duas obras em uma: a primeira é um drama que, para o bem e para o mal, lembra Aquarius no sentido de relatar a vida de pessoas que recusam a ceder suas moradias para projetos políticos ou capitalistas, enquanto a segunda pula do plano realista para a completa alegoria. Evocando, mas jamais emulando filmes cujos ecos surgem apenas como coincidência (o roteiro começou a ser escrito em 2012), Mormaço é, especialmente na primeira parte, fragilizado pela semelhança temática com outras obras, elevando-se, por outro lado, com assustadora vitalidade na segunda, quando garimpa conturbados horrores da nossa sociedade ao mesmo tempo em que promove um angustiante exercício de estilo.

Ao mostrar o apodrecimento de uma vida urbana que se corrompe por interesses e se utiliza da truculência para oprimir os menos favorecidos, o filme apresenta a perspectiva de Ana (Marina Provenzzano), uma jovem defensora pública que trabalha em prol dos moradores da Vila Autódromo, uma das comunidades ameaçadas de remoção para as obras de construção do Parque Olímpico do Rio. Ela, uma mulher independente que mora sozinha em um apartamento da capital carioca, acredita na luta a ponto de permitir que todo o processo, incluindo as derrotas que se revelam inevitáveis, atinjam o seu estado físico e emocional. Meliande, que faz jus a sua assumida intenção de conduzir a história sem nenhuma panfletagem, suscita um discurso claro e contundente através de olhares pouco usuais, como o feminino, aqui simbolizado nessa personagem representante de uma geração cuja exaustão é diretamente definida por uma cidade impiedosa em suas dimensões, exigências e injustiças. 

Até certo ponto, Mormaço apresenta seu universo e seu posicionamento com uma condução mais clássica. O jogo se inverte depois, quando Meliande recupera angústias diárias de uma população oprimida e sem voz para fazer fazer do relato uma experiência aterrorizante. Imersiva, a segunda metade de Mormaço cresce minuto a minuto, mergulhando o espectador em um pesadelo social muitíssimo bem traduzido pela excepcional parte técnica. Mais maduro e eficaz do que 90% das obras que chegam aos cinemas e que assumem ou flertam com a natureza do horror, o projeto causa estranheza ao transformar um filme em outro. A vitória, por outro lado, está na unidade temática: Mormaço é firme em suas convicções, e ainda mais fascinante quando as transporta para a experimentação, decisão responsável por engrandecer um filme que, no realismo ou na alegoria, fala muito sobre as doenças do nosso país que pouco têm a ver com diagnósticos médicos.

46º Festival de Cinema de Gramado #5: a homenagem de Karine Teles para a resistência feminina

Com Benzinho, Karine Teles marca a sua terceira passagem pelo Festival de Cinema de Gramado. Foto: Fábio Winter/Pressphoto

Quando concorreu pela primeira vez em Gramado, a atriz Karine Teles enfrentou uma verdadeira maratona: para exibir Riscado, veio às pressas do Rio de Janeiro, onde recém havia dado luz aos seus dois filhos, e permaneceu apenas 24 horas na cidade, voltando rapidamente para cuidar dos pequenos. Sete anos após a consagrada exibição (Riscado faturou os Kikitos de melhor direção, atriz, roteiro, além do júri da crítica), ela retorna ao Festival com Benzinho, drama que narra as transformações internas de uma mãe batalhadora que se depara com a notícia de que o filho mais velho foi convidado a jogar handebol na Alemanha. Entre Riscado e Benzinho, Karine também exibiu no Palácio dos Festivais o celebrado Que Horas Ela Volta?, e todas as lembranças desse longo período despertam na atriz emoções ímpares: “Passa um filme enorme na minha cabeça, e exibir Benzinho pela primeira vez no Brasil aqui em Gramado foi emocionante. Acordei com o rosto inchado de tanto que chorei na sessão”.

A ideia de fazer o longa veio das próprias experiências de Karine e do diretor Gustavo Pizzi, seu marido à época da concepção do roteiro. Para eles, era fundamental falar sobre esse momento em que os filhos saem da casa, mas, segundo Karine, o roteiro se torna muito mais complexo na medida em que se propõe a prestar uma homenagem a todas mulheres que são mães, avós, tias ou amigas. “Eu trouxe tudo das figuras femininas da minha vida para esse filme. O nosso desejo era lançar uma luz poética e cinematográfica para as tantas mulheres que passam pela rua e não percebemos. Irene [a protagonista] é uma mulher comum como milhões de outras mundo afora. Nada de necessariamente extraordinário acontece com ela, mas o bonito do cinema é conseguir elevar histórias como essa, que acontecem nas casas de todas as famílias”, conta a atriz e roteirista.

Sobre o protagonismo feminino, Karine pensa que Benzinho estabelece um ponto de vista diferenciado, mesmo quando comparado a outros filmes naturalistas: “O próprio Boyhood, por exemplo, tem uma linda cena onde a cai a ficha da mãe que o filho está saindo de casa, mas é o único grande momento personagem ao longo do filme. Normalmente, vemos o ponto de vista do homem ou o do filho e não o da mãe ou o da mulher. Precisamos, claro, de novas histórias, mas também de novos olhares para as que já conhecemos”, avalia. Com estreia prevista para o dia 23 de agosto, Benzinho também é encarado pela atriz e roteirista como um filme sobre resistência: “Não sei exatamente de onde vem a força da personagem para superar todas as adversidades. Acredito que ela é movida por esse sentimento chamado amor, a única potência transformadora capaz de nos salvar do mundo maluco em que vivemos. Precisamos muito falar sobre isso”.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 46º Festival de Cinema de Gramado

46º Festival de Cinema de Gramado #4: Crítica | “Benzinho”, de Gustavo Pizzi

Karine Teles e Adriana Esteves em Benzinho: nova pérola do cinema brasileiro registra as complexidades femininas e maternais a partir de cotidianas transformações do ambiente familiar.

Assim como Aquarius, o drama Benzinho é um filme sobre resistência, mesmo que de outro tipo, e talvez ainda mais acachapante. Enquanto no celebrado longa de Kleber Mendonça Filho acompanhávamos os dias em que Clara (Sonia Braga), uma jornalista de sucesso, negava-se a vender o seu querido apartamento localizado à beira do mar recifense, o novo projeto assinado por Gustavo Pizzi (Riscado) traz a protagonista Irene (Karine Teles) enfrentando as pequenas batalhas do dia a dia: o marido vive de sonho em sonho sem realizar muita coisa, os filhos pequenos exigem constante atenção, a irmã sofre com um marido agressivo, as contas não param de chegar e, de repente, o filho mais velho é convidado a jogar handebol na Alemanha. Ajudando todos à volta, Irene não recebe de volta o mesmo cuidado, mas se vira nos trinta nesse registro que, cercado de delicadeza, é uma verdadeira homenagem a todas as mulheres que fazem o mundo girar com mais amor e compreensão.

Exibido em janeiro deste ano no Festival de Sundance, Benzinho foi um projeto realizado praticamente em família. À época, o diretor Gustavo Pizzi e a atriz Karine Teles eram casados e não só escreveram o filme juntos como também escalaram os próprios filhos e um sobrinho para interpretar as crianças. Na mistura, entram outros dois atores igualmente fundamentais: Adriana Esteves e Otávio Müller, que se “infiltraram” na família com uma naturalidade inquestionável. E o resultado se vê na tela, com um elenco que faz sentir o entrosamento do grupo em prol de um projeto afetivo e colaborativo. No entanto, inevitavelmente, Benzinho é centrado na Irene de Karine Teles, vista aqui como uma mulher em suas múltiplas facetas, e não como coadjuvante ou mero objeto. A personagem é uma imensidão de emoções e complexidades, todas elas provocadas pela anunciada despedida do filho que está prestes a partir para o exterior. O curioso contraste é que, por ser sempre tão confiante ao resolver os percalços do cotidiano, todos (inclusive ela) pensam que tudo está bem, quando, na verdade, não está.

Benzinho sugere ser um filme sobre a chamada síndrome do ninho vazio, mas gosto de vê-lo como um retrato muito mais completo: ao perceber que a partida do filho é inevitável, Irene resolve mexer com a sua própria vida, o que envolve desde a conclusão dos estudos até a busca por um novo emprego. E a delicadeza com que o roteiro de Pizzi e Teles captura o infinito universo de uma mulher a partir das mínimas coisas da vida é refinadíssima, pois Benzinho não deixa de buscar a alegria em meio a um material que poderia render um grande dramalhão. Outro mérito do longa é ser extremamente fiel à vida como ela é, seja ao mostrar a dinâmica de uma família que passa por muitas dificuldades à própria escolha das palavras, já que não há qualquer artificialidade nos diálogos. Por mostrar pessoas que continuam sorrindo e sonhando apesar dos obstáculos, Benzinho comove, e o faz com a maior simplicidade do mundo, tarefa muito mais difícil de cumprir do que o público está acostumado a considerar.

Com um elenco irrepreensível, Benzinho tem mesmo o seu coração na grande performance de Karine Teles. Uma das intérpretes brasileiras mais talentosas em atividade (claro que a dona Bárbara de Que Horas Ela Volta? é inesquecível, mas não deixem de garimpar Riscado, que ela realizou também em parceria com Gustavo Pizzi), Karine é maravilhosa ao traduzir todas as transformações internas de uma mulher que tenta não transparecer emoções que ela mesma não consegue diagnosticar com tanta certeza. Muito do que Karine traz para Benzinho vem de sua experiência como mãe e, claro, das mulheres que ela assume homenagear nesse projeto, mas sequências como final, capazes de, silenciosamente, somente em gestos e olhares, fazer a perfeita síntese de um universo particular, são apenas para quem tem vasto talento ou repertório. Karine e o filme como um todo proporcionam, em Benzinho, aquela sensação tão fascinante de um cinema que consegue dar uma rasteira emocional no espectador ao mesmo tempo em que o reergue de forma esperançosa. Curiosamente, não é assim que a vida costuma funcionar? 

46º Festival de Cinema de Gramado #3: em “A Voz do Silêncio”, Marieta Severo mergulha nas realidades alternativas de São Paulo

De volta à Serra Gaúcha, Marieta Severo está na disputa pelo Kikito com o drama A Voz do Silêncio, de André Ristum. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Primeira atriz a vencer o troféu Oscarito em 2002, Marieta Severo volta pela primeira vez a Gramado depois da honraria histórica. E volta na disputa pelo Kikito: em A Voz do Silêncio, longa-metragem dirigido por André Ristum que abriu a competição da 46ª edição do Festival de Cinema de Gramado, Marieta interpreta uma mulher que, submersa em culpa depois de ter rejeitado filho por razões que o filme descortina ao longo da projeção, enfrenta problemas psíquicos que a colocam em um estado emocional e mental muito particular.

A personagem integra um mosaico de histórias cotidianas onde o diretor André Ristum, premiado pelo júri popular em Gramado no ano de 2015 com O Outro Lado do Paraíso, radiografa a imensa cidade de São Paulo a partir de um viés que Marieta considera muito corajoso: “Como carioca, conheço apenas a São Paulo versão grande metrópole, com uma vida cultural intensa e repleta de programações, mas o filme apresenta a capital com uma poesia dura, buscando as pequenas batalhas dos lados B, C, D e E dessa população. É um trabalho que se distancia de qualquer experiência de impacto fácil e imediato. Você precisa assistir e digerir”.

Quando entrou em contato pela primeira vez com o roteiro, também escrito por Ristum, a atriz diz ter se encantado com a dramaturgia sólida de uma obra que tem uma estrutura pulverizada, já que a história é contada a partir de diferentes núcleos praticamente isolados. “Claro que estava no roteiro, mas o André nos deu a perspectiva que amarraria todas essas histórias. Os núcleos são trabalhados separadamente, mas tivemos temporada produtivas e objetivas de preparação. Por minha conta, mergulhei muito no arcabouço psíquico da personagem que interpreto, movida pelo desejo de ajudar a contar uma história. No final das contas, é isso o que me aproxima de um roteiro”.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 46º Festival de Cinema de Gramado

46º Festival de Cinema de Gramado #2: “Um desafio que eu queria e lutei para conquistar”, diz Jesuíta Barbosa sobre “O Grande Circo Místico”

Jesuíta Barbosa é o protagonista de O Grande Circo Místico, 18º longa-metragem do diretor Cacá Diegues. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Cinco anos atrás, Jesuíta Barbosa chegava assustado na Serra Gaúcha. Não por menos: em início de carreira, o ator exibia em Gramado o premiado Tatuagem (Kikitos de melhor filme, ator para Irandhir Santos e trilha musical, além do prêmio de melhor filme pelo júri da crítica), um de seus primeiros trabalhos no cinema. “Fiquei impactado com esse Festival tão grande, que as pessoas tanto desejam, onde todo mundo quer tirar foto com os artistas e diretores”, lembra o jovem ator, que, ao longo desses cinco anos, se firmou como um dos intérpretes mais aclamados e disputados de sua geração. “Muita coisa mudou desde aquela exibição de Tatuagem aqui em Gramado – eu fui morar no Rio de Janeiro, fiz televisão -, mas percebo que, apesar das transformações da cidade, o Festival preservou sua tradição, mantendo-se muito forte no cinema brasileiro”, conta.

Agora, em O Grande Circo Místico, Jesuíta é dirigido pelo mestre Cacá Diegues, que também marcou presença em Gramado para a primeira exibição do filme, abrindo a programação oficial desta edição. Habituado a trabalhar com célebres diretores brasileiros – entre eles, Karim Aïnouz (Praia do Futuro), Heitor Dhalia (Serra Pelada) -, o ator diz ter vivido uma experiência nova com Cacá, um cineasta que, segundo ele, “tem plena segurança no que faz e sabe defender muito bem cada ideia com uma condução muito tranquila”. Mais do que isso, esse é um projeto que Jesuíta decidiu abraçar, tanto por afinidade quanto por necessidade: “Eu estava muito pesado, e precisava de um personagem mais leve, com uma energia de espírito muito mais zen para enxergar a vida, os anos, as transformações. Celavi [o personagem] me trouxe uma outra nuance de atuação”.

Filmado em um circo montado especialmente para o projeto no interior de Portugal, O Grande Circo Místico desembarcou em Gramado após a sua primeira exibição no prestigiado Festival de Cannes em maio. E a primeira sessão nacional do longa trouxe para Jesuíta uma perspectiva diferente do período de gravações, que aconteceram, segundo o ator, cerca de 80% dentro do circo que dá título à história. “Aqui em Gramado saí da zona de narciso e parei de me observar. Talvez pela primeira vez tenha visto o trabalho como um todo, pela ótica de uma pessoa que está contando uma história. O Grande Circo Místico era um desafio que eu queria e lutei para conquistar”. A previsão de estreia do longa no circuito comercial brasileiro é para o dia 15 de novembro.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 46º Festival de Cinema de Gramado

“Alguma Coisa Assim” | Entrevista com o protagonista André Antunes

“A gente leva sempre na bagagem questões pessoais que, uma hora ou outra, vão nos colocar de frente com aquilo que a gente não pode escapar, que é responder a questão: o que você quer para a sua vida?”

Ao contrário dos colegas de equipe, André Antunes não seguiu carreira no cinema após o sucesso de Alguma Coisa Assim, premiado curta dirigido por Esmir Filho que chegou a vencer o prêmio de melhor roteiro na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Mesmo voltando para a sequência intitulada Sete Anos Depois (também em versão curta-metragem) e, agora, para o longa que une e complementa os dois primeiros projetos, André voltou sua carreira profissional para a psicologia, área que, como vocês poderão descobrir na entrevista abaixo, trouxe inúmeros subsídios para que ele retornasse ao papel do jovem Caio com muito para compartilhar. Enquanto os dois primeiros curtas capturavam as (auto)descobertas de personagens que se encontravam no centro de suas juventudes, o longa prefere, com toda razão, jogá-los de uma vez por todas na vida adulta, onde os protagonistas percebem ter menos resposta do que poderiam esperar. Filmado de forma espaçada ao longo de 12 anos, Alguma Coisa Assim acompanha, dessa forma, não somente as transformações dos personagens, mas dos próprios atores que os interpretam. André conversou comigo sobre o processo de encarar, pela terceira vez, um personagem de sentimentos ambivalentes e que reflete a vontade dos diretores Esmir Filho e Mariana Bastos de falar sobre uma geração que prefere negar qualquer tipo de rótulo. Alguma Coisa Assim estreou dia 26 de julho e segue em cartaz nos cinemas brasileiros.

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Alguma Coisa Assim é um filme que registrou, ao longo dos anos, diferentes momentos de dois personagens. Por ter sido filmado em três épocas distantes, também coloca na tela atores em momentos distintos de suas vidas. Ao contrário da Caroline Abras, você não seguiu carreira como intérprete, mas suponho que, de alguma forma, tenha levado experiências pessoais desses anos para dar vida ao Caio. Existe muito do André Antunes no teu personagem?

O roteiro do curta foi escrito por Esmir, e nele já encontramos o contorno dos dois personagens. Quando decidimos filmar a continuação da história nos reunimos eu, Esmir, Mariana [Bastos, co-diretora] e Caroline para conversar sobre como a gente pensava que estariam esses personagens sete anos depois. Nesse momento, todos participaram expondo suas ideias, dividindo experiências, trazendo temáticas que nos eram interessavam, etc. O resultado é um condensado de ideias que foram lapidadas para poder contar uma história. Então, de algum modo, sim, nossas ideias compõem a história. Agora, do lado mais pessoal, o que acho que emprestei como caraterísticas minhas de modo mais evidente para o personagem foi a dúvida, a hesitação, a ausência de certeza, a ambivalência dos sentimentos, a dificuldade em decidir…

A cidade de São Paulo é, de certa forma, uma personagem na história. É nela que Mari e Caio descobrem sentimentos e vivem as dores e as delícias da juventude, mas o filme também transfere tudo isso para Berlim, que pode ser interpretada como um contraste: o exterior, normalmente visto como um lugar de sonhos e promessas, acaba sendo, tanto para a Mari quanto para o Caio, um lugar de fuga. Assim como São Paulo, é uma cidade que também surge como elemento narrativo no filme. Como você interpreta a relação dessas duas cidades com a trajetória emocional dos dois personagens?

Primeiramente, São Paulo e Berlim são cidades efervescentes que passaram e continuam passando por transformações, demolições e construções de maneira acelerada. A [rua] Augusta é realmente um personagem que se transformou junto com os personagens. Por serem cidades com uma juventude expressiva, acho que elas capturam mais rápido do que outros lugares as mudanças na maneira como nos relacionamos. Quem já ficou um tempo fora de São Paulo e retornou sabe como essa cidade muda. Ir para outro país, para outro lugar, para o estrangeiro, pode ser visto como um lugar de fuga, sair da sua realidade conhecida na esperança de se renovar e de que seus impasses desapreçam. A gente pode ir pro outro lado do mundo querendo fugir de algo, mas a gente leva sempre na bagagem questões pessoais que, uma hora ou outra, vão nos colocar de frente com aquilo que a gente não pode escapar, que é responder a questão: o que você quer para a sua vida?

Esse é o primeiro longa-metragem do Esmir Filho a estrear nos cinemas depois de Os Famosos e os Duendes da Morte, que, apesar de também registrar os questionamentos e as transformações de um personagem jovem, o faz com estilo e narrativa completamente diferentes. Esmir, além de tudo, é seu amigo, mas como você o definiria como diretor e contador de histórias? A mesma pergunta faço em relação à Mariana Bastos, que compartilha a direção dessa história. Como o olhar dela como realizadora complementa o de Esmir?

O Esmir tem o talento de conseguir fazer da reunião de algumas pessoas um verdadeiro encontro. Como diretor, admiro sua capacidade de resolver problemas sem criar um ambiente pesado no set. Admiro também o fato de que, apesar de saber o que quer e como quer contar a história, ele sempre está aberto a sugestão não só dos atores, mas de todos que fazem o filme. Ele não só sabe intelectualmente que o cinema é uma arte coletiva, mas age assim, dando espaço para todos que rapidamente estão se sentindo importantes por poder contribuir, por poder se expressar e serem ouvidos. Com relação à Mariana, já no primeiro curta ela estava no projeto assinando a co-direção. Não a vejo como se ela complementasse o olhar dele, como um plus. Mariana é mais do que isso: ela é parte fundamental deste projeto desde o início. Ela sabe criticar, dizer o que não está bom, pedir pra refazer, sem com que as pessoas levem isso para o pessoal.

A partir do retrato específico e íntimo de dois personagens, o longa acaba contemplando toda uma geração que pode muito bem se ver representada na tela. É isso o que você também percebe? Podemos dizer que, cada vez mais, os jovens procuram relações fluidas, sem rótulos? No caso do Caio e da Mari, é um modelo de relação tomado de forma consciente por ambos ou é aí que também nascem alguns dos conflitos do filme?

Sim, acho que quem tem a idade dos personagens, uns 30 anos, foi testemunha de uma mudança radical que continua ecoado nas novas configurações dos laços amorosos. Os pais das pessoas que tem essa idade diziam “na minha época não existia isso de ficar”. Então fomos ampliando as possibilidades de experiência e dissolvendo maneiras únicas, universais de entender o que é um casal, o que é estar junto. Acho que os jovens hoje tem relações mais fluidas sim, mas também tem um número muito expressivo de pessoas casando de maneira tradicional. Acho que a tradição não é mais o único guia para vida conjugal, e que a existência das relações fluidas não nega outros modos de se relacionar, mas aparece como uma maneira a mais que inventamos para nomear esse estar junto. Não acho que seja algo consciente vivido pelos personagens. Perto da Mari, Caio é um conservador. Os dois são diferentes ideologicamente, mas têm acesso mútuo, se entendem, tem uma cumplicidade. No entanto, essa cumplicidade pode recobrir em ambos uma zona ambígua de indeterminação e desejo que, quando expostas, podem causar um turbilhão de emoção e desorganizar tudo o que parecia estar no seu devido lugar.

Em determinado ponto, Alguma Coisa Assim assume por completo a ideia de ser um filme sobre o encontro com a vida adulta, já que os personagens estão longe da família e dos amores, tentando se sustentar, achar um lar, criar uma carreira e aceitar a ideia de que não existe equação precisa para fazer uma relação dar certo. Esse não deixa de ser um salto imenso se olharmos para os dois curtas anteriores, centrados mais na dinâmica afetiva entre Caio e Mari e menos em suas trajetórias individuais. Como foi o processo de levar o Caio lá do primeiro curta em 2006 para esse novo patamar, onde agora ele precisa desconstruir inclusive muitas de suas idealizações afetivas?

Foi um processo natural, já que dez anos se passaram na vida do Caio, na minha e na de todos que estávamos no processo do filme. Muitas ideias e ideais que temos aos 20 anos são modificados quando crescemos, quando nos frustramos e reavaliamos e reinventamos quem queremos ser. Ao mesmo tempo, mostrar essas desconstruções na parte final nos motivava bastante por poder humanizar os personagens e não categorizá-los, explorando camadas menos visíveis ou inexistentes nas cenas de 2006.

Em termos práticos, gravar um longa envolve uma dose muito maior de tempo, dedicação e envolvimento. E é esse formato que, no final das contas, também permite uma cena carregada emocionalmente como aquela do terço final, onde Caio e Mari tem uma conversa super franca não apenas sobre um conflito em comum, mas também sobre coisas há muito tempo guardadas. No sentido de enfrentar uma sequência como essa, ajuda a intimidade criada especialmente com a Caroline Abras durante dez anos? Mais do que a amiga, como é trabalhar e contracenar com a Caroline atriz?

Com certeza ajuda. Essa cena especificamente fica no limite da ficção. Seria muito difícil saber até onde podemos ir um com o outro na cena se não nos conhecêssemos, se não entendêssemos o nosso jogo ali. Primeiramente, eu acho que a Caroline é amiga da câmera, e a câmera gosta dela naturalmente, mas soma-se o fato de ela ser uma atriz inteligente cenicamente, rápida no improviso e que sabe dar o tom certo pra cada cena sem economizar ou desperdiçar energia. Sem falar do fato de ela saber escolher as personagens que vai interpretar e da dedicação e cuidado que tem com a carreira. Então, como amigo e como parceiro de cena, realmente só tenho elogios.

Imagino que, desde o lançamento do curta em 2006 até o longa agora em 2018, o encontro com o público tenha sido muito bacana, já que boa parte dele praticamente cresceu junto com os personagens. A troca com os espectadores teve alguma contribuição na forma de enxergar a história, o personagem e o projeto? O que você espera desse novo encontro com o público?

Sem dúvida. As pessoas supõem que o fato de você ter participado do filme lhe dê um saber sobre ele e sobre as questões que ele levanta. O filme não fica pronto quando é feito o último corte. Ele necessita ser visto e interpretado pelos outros para que  de fato exista. Pra mim, é um experiência muito prazerosa quando leio ou escuto reflexões sobre o filme de uma perspectiva que não tinha pensado. Espero ter a oportunidade de conversar sobre o filme com as pessoas que se interessam pela história. Conversar com as pessoas que se interessaram pelo filme é realmente uma parte importante e prazerosa do processo.

Para finalizar, quais seriam as três obras (filmes, séries, livros) que você indicaria para quem gostou de “Alguma Coisa Assim”?

–  Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, de Zygmunt Bauman (livro)
O Curso do Amor, de Alain de Botton (livro)
Antes do Amanhecer, de Richard Linklater (filme)

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