Cinema e Argumento

Rapidamente: “Ad Astra”, “El Camino”, “Era Uma Vez em… Hollywood” e “A Lavanderia”

Meryl Streep em A Lavanderia: novo filme de Steven Soderbergh replica o espírito e as fórmulas de A Grande Aposta e Vice, títulos recentes assinados pelo diretor Adam McKay.

AD ASTRA: RUMO ÀS ESTRELAS (Ad Astra, 2019, de James Gray): É recomendável dar uma pesquisada na filmografia de James Gray (Os Donos da NoiteAmantesEra Uma Vez em Nova York) antes de embarcar em Ad Astra: Rumo às Estrelas. A partir dela, já é possível concluir que essa nova ficção científica estrelada por Brad Pitt não seguirá formatos óbvios e muito menos uma cartilha comercial do gênero. E é isso mesmo o que acontece: contemplativo, Ad Astra é uma experiência sensorial mais preocupada na viagem interior de um homem designado a ir atrás do próprio pai em outro planeta do que nas curiosidades ou nas possíveis adrenalinas envolvendo uma saga no espaço sideral. Munido da belíssima trilha de Max Richter e da excelente fotografia de Hoyte Van Hoytema, James Gray conduz o filme em baixa fervura e com com um toque íntimo que, especialmente no terço final da história, confere uma delicada potência emotiva à jornada do protagonista. Sendo assim, por mais que tenha uma interrogação central, o roteiro de Ad Astra não tem como objetivo desencadear um suspense ou explorar os mistérios do universo. Sua vocação é investigar os meandros de uma relação paterna mal resolvida e lacunar, algo definitivamente alinhado à identidade de Gray como realizador. Não é o tipo de filme que conquistará multidões, mas, como um ponto fora da curva em um gênero amplamente explorado nos últimos anos, Ad Astra alcança o sempre bem-vindo efeito de reverberar além da sessão.

EL CAMINO: A BREAKING BAD MOVIE (idem, 2019, de Vince Gilligan): Há de se compreender a imensa vontade do público em querer voltar ao universo da premiada série Breaking Bad. Contudo, El Camino, o filme dirigido por Vince Gilligan que avança um tantinho na história do programa, jamais se justifica — e pior: sequer está entre os momentos inspirados do seriado, que teve seu último episódio exibido em setembro de 2013. Em linhas gerais, o filme é apenas a encenação de uma nova via crucis para Jesse Pinkman, o trágico personagem vivido sempre com muita garra por Aaron Paul. Vá lá, muitos reencontros são bem-vindos, e há uma infinidade de referências nostálgicas a elementos e outros personagens da série. Entretanto, como extensão ou complemento ao universo de Breaking Bad, El Camino é uma decepção sem fim: além de ter um roteiro repleto de furos (é inadmissível que Jesse, perseguido nacionalmente pela polícia, hospede-se na casa de amigos traficantes já investigados um punhado de vezes sem que ninguém o procure lá), El Camino não tem clima ou muito menos menos uma trama que acrescente camadas desconhecidas de Jesse Pinkman. Nem como entretenimento funciona: repetitivo, o longa é uma sucessão de cenas de tensão que seguem a mesmíssima fórmula, apontando para uma falta de inspiração e cuidado que jamais poderíamos prever em um roteiro de Vince Gilligan. Apesar da nova investida, o desfecho que seguirá forte na memória é, sem dúvida alguma, o que vimos lá em 2013 no episódio Felina, e não El Camino, que tem tudo para não resistir ao tempo.

ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019, de Quentin Tarantino): Mais um trabalho de excessos assinado por Quentin Tarantino, Era Uma Vez em… Hollywood reforça a falta de objetividade que tem acometido o diretor nos últimos anos. Assim como em Os Oito Odiados, ele leva cerca de três horas para contar uma história que poderia durar muito menos. É clara dedicação em criar uma atmosfera mais calorosa e nostálgica, mas a marcha é tão lenta que a baixíssima fervura não consegue levar o espectador para muito além das homenagens afetuosas ao cinema que o diretor presta com tanta propriedade aqui (e que podem tanto deliciar os apaixonados por cinema quanto entediar as plateias mais populares que acompanham a filmografia de Tarantino. No sentido de não fazer muita coisa com o imenso tempo que toma do espectador, a mais prejudicada é Margot Robbie, resumida a irradiar tela com sua beleza bem fotografada (ela não dispõe de texto suficiente ou outras munições para expandir sua personagem). Entre ecos de outros filmes de cineasta (a reimaginação de acontecimentos reais como em Bastardos Inglórios) e o tradicional clímax sanguinolento, macarrônico e de tom elevado, Era Uma Vez em… Hollywood tem em Leonardo DiCaprio e Brad Pitt as suas melhores qualidades. Inspirados e assertivos nas facetas de papéis muito diferentes, eles são o sopro de energia em um longa maçante, excessivo e por vezes interminável. A conclusão segue a mesma: um pouco de objetividade só faria bem a esse icônico cineasta que hoje está viciado em inchaços narrativos.

A LAVANDERIA (The Laundromat, 2019, de Steven Soderbergh): É inevitável tecer comparações entre A Lavanderia e o estilo que o diretor Adam McKay passou a adotar nos últimos anos em títulos como A Grande ApostaVice. Novamente, temos um tema super complicado (para não dizer desinteressante) tratado com um tom cômico, crítico e com certas opções narrativas cujo objetivo é facilitar o entendimento da trama para o espectador mais leigo. O prolífero Steven Soderbergh, que já chegou a vencer um Oscar de melhor direção por Traffic, aborda, dessa vez, o escândalo conhecido como Panama Papers, um dos maiores escândalos de vazamento de dados da história, quando milhões de documentos revelaram um amplo esquema de ocultamento de fortunas e lavagem de dinheiro em diversos paraísos fiscais ao redor do mundo. Para tanto, ele opta se apoiar descaradamente na fórmula de A Grande Aposta Vice, entregando uma experiência requentada, quase sem personalidade, onde nem mesmo o elenco de luxo encabeçado por Meryl Streep, Gary Oldman e Antonio Banderas consegue trazer qualquer frescor. Isso é um tanto inaceitável mesmo quando lembramos de Soderbergh em seus momentos menos interessantes, já que ele sempre errou experimentando e não copiando. Há uma crítica contundente e importante na cena final, protagonizada por Meryl Streep em seu melhor momento no filme, mas é pouco para uma obra que, ao contrário dos títulos que tenta emular, não cria uma ponte efetiva entre o espectador e a difícil trama que tenta traduzir de forma irreverente.

“Greta”: com grande interpretação de Marco Nanini, longa investiga as complexas intimidades de um personagem gay na terceira idade

A felicidade nem sempre é divertida.

Direção: Armando Praça

Roteiro: Armando Praça, baseado no espetáculo “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, de Fernando Mello

Elenco: Marco Nanini, Démick Lopes, Denise Weinberg, Gretta Sttar

Brasil, 2019, Drama, 97 minutos

Sinopse: Pedro (Marco Nanini) é um enfermeiro de 70 anos que trabalha em um hospital público de Fortaleza. Sua melhor amiga é Daniela (Denise Weinberg), artista transexual que enfrenta graves problemas de saúde. Quando ela precisa ser internada, mas não encontra leito disponível, Pedro sequestra um paciente recém-chegado, Jean (Démick Lopes), e o abriga em sua casa. Inicialmente, o enfermeiro tem medo do rapaz agressivo, que se esconde da polícia por ter assassinado um homem a facadas. Depois, nasce entre eles uma relação de cumplicidade e afeto. (Adoro Cinema)

Lançado pela primeira vez como um espetáculo teatral em 1974, o texto Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá era uma comédia escrachada que fazia o público rir de personagens cujas tragédias carregavam um quê de mediocridade. Cerca de 35 anos depois, mais especificamente em 2008, a situação mudou de cenário quando o diretor Armando Praça entrou em contato com o trabalho do dramaturgo Fernando Mello: em tempos mais livres, democráticos e tolerantes, Praça, decidido a realizar seu primeiro longa-metragem, já não via mais lugar para que a história de Pedro, um enfermeiro homossexual de 70 anos apaixonado por um criminoso, fosse motivo de risada. Não que exista algo de errado com o gênero da comédia, que pode sim ser poderoso em inúmeras leituras e circunstâncias, mas, para ele, o caso era diferente: as piadas envolvendo a encenação do texto haviam envelhecido mal, tornando urgente a necessidade de uma releitura para uma história tão íntima. O que importava para o diretor era que o protagonista fosse enfim visto como um homossexual repleto de facetas e que busca ser reconhecido como… um ser humano.

De comédia teatral a drama cinematográfico, o texto, agora com o título abreviado de Greta, ganha uma perspectiva bastante realista ao narrar os anseios de Pedro, um homem imerso em solidão e invisível perante a sociedade. Por si só, o retrato já é raro: além de mostrar um personagem na terceira idade com as devidas complexidades e transformações, Greta discute o tabu da homossexualidade na velhice, fase da vida em que muitos gays voltam ao armário para escapar de uma nova rodada de preconceitos e cobranças impostas pela sociedade. A situação é ainda mais delicada, uma vez que ele, um trabalhador de classe média baixa apaixonado pela atriz Greta Garbo, está imerso em solidão e invisibilidade (sua única amiga é uma transexual que passa por sérios problemas de saúde). A partir desse isolamento social que, por tabela, é responsável por reprimir muitos dos seus desejos ainda pulsantes, Pedro tem relações sexuais tortas e tortuosas em saunas da cidade e até mesmo com alguns de seus pacientes, o que rompe qualquer traço ético que ele deveria estabelecer com uma profissão que, nessa altura da vida, exerce sem motivação alguma.

Ambientado em pouquíssimos cenários e com um número de coadjuvantes que não enchem uma mão, Greta bebe, inevitavelmente, de sua origem teatral ao fazer tanto com tão pouco. O olhar que lança para a vida de seu protagonista é desesperançoso, inclusive porque o único feixe de luz na vida de Pedro está na paixão impossível com um fugitivo da polícia que ele conhece no hospital e passa a abrigar na sua própria casa. Não há moralismo ou o mínimo resquício de pudor em Greta: ao passo que Marco Nanini se despe de qualquer vaidade em um papel que já foi do saudoso Raul Cortez nos palcos, o filme em si não alivia para o espectador, adotando uma fotografia de poucas cores e planos fechados para despertar uma sensação de claustrofobia, antes já ensaiada pela quantidade limitada de cenários (vale notar como o apartamento do protagonista é um aperto e como a câmera insiste, de forma acertada, em se aproximar dos personagens mesmo em ambientes onde eles próprios parecem não caber).

Greta não comete o erro de fazer de seu protagonista uma figura palatável. Pedro erra (com convicção) e frequentemente toma atitudes questionáveis. Ele também se entrega a relações mesmo sabendo que elas estão fadadas a incontáveis problemas, não procura justificar a substituição do seu vazio emocional por sexo casual (muitas vezes, aliás, em condições deprimentes) e parece não ter filtro para distinguir até que ponto de fato está fazendo o que bem entende ou se está apenas se humilhando. Há um ar patético, talvez preservado da origem teatral, e uma decadência inerente ao personagem que Marco Nanini captura com profundidade e sem nenhuma maquiagem, em uma entrega impressionante. Com o vasto repertório acumulado como um intérprete capaz de transitar com facilidade entre o drama e a comédia, Nanini brilha em cena, mais ainda quando navega pelo descontrole emocional de um homem que talvez já não saiba mais quantos traumas consegue aguentar antes de enlouquecer de vez (ou de enfim retomar forças para se reconstruir).

É importante entrar no universo particular de Greta sem cobrar certas verossimilhanças. Não há muita explicação, por exemplo, para o fato da polícia jamais procurar Pedro ou visitar sua casa para saber sobre o paradeiro do criminoso que ajudou a escapar do hospital e por quem se apaixonou. As evidências são claríssimas, mas o filme não se preocupa muito com essa lacuna, o que contribui para para o esvaziamento dessa situação impossível, onde o protagonista se relaciona com um homem acusado de homicídio. Dispensando esse tipo de fragilidade, Greta é tanto incômodo quanto delicado porque coloca a totalidade do que somos como dois lados da mesma moeda. Nossos ímpetos, sonhos e desejos nos identificam como seres humanos, mas, vejam que ironia, também nos separam. Muito do que tomamos como certo ao longo da vida é negado a Pedro simplesmente pela combinação entre a sua idade e a sua natureza sexual. E é no epicentro dessa rejeição que o filme, buscando conexão e sentido para um protagonista errante, evidencia muitas de nossas falhas. Armando Praça está certo: no caso de Greta, faz mesmo todo o sentido deixar as velhas piadas de lado.

Três atores, três filmes… com Reinaldo Glioche

Reinaldo Glioche é um dos queridos amigos cinéfilos que acompanho à distância há alguns anos. Hoje ele é editor de Cultura e Entretenimento do portal iG, mas nos esbarramos muito antes, mais especificamente quando ele ainda comandava o seu saudoso blog Claquete Cultural. Estreitamos nossos laços cinematográficos no Twitter, plataforma que Reinaldo, como o ótimo jornalista que é, sabe aproveitar tão bem. Dos blockbusters que faturam bilhões mundialmente às pérolas que precisam ser descobertas por todos os públicos, ele, assim como eu, é um grande entusiasta do círculo de premiações. Tanto seus textos no iG quanto a sua presença nas redes sociais são leitura indispensável para quem gosta de se manter informado sobre cinema com a devida dose de senso e crítico e ponderação. Sem mais delongas, deixo com vocês uma breve introdução que ele próprio preparou para a coluna e, claro, com as escolhas que ele defende com a propriedade que sempre lhe foi característica. Entre as três interpretações selecionadas, uma delas conquista o bicampeonato em quase 50 participações contabilizadas até aqui: Meryl Streep, mais uma vez citada com seu inesquecível desempenho em As Pontes de Madison, um dos melhores filmes de Clint Eastwood.

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Comecei a escrever sobre cinema com dez anos. A cinefilia foi algo que despontou em mim muito cedo e me ajudou a me formar como ser humano. Optei pelo jornalismo em detrimento da carreira no direito e mergulhei no sonho e desafio de atuar no jornalismo cultural e promover e viver o cinema da melhor maneira possível. Com o advento da blogsfera e a facilidade que a internet deu às pessoas de expressarem suas paixões e anseios, criei o blog Claquete Cultural, que me possibilitou conhecer pessoas maravilhosas que compartilhavam comigo do mesmo amor febril e impetuoso pelo cinema – ainda que com a maioria dessas pessoas a relação se dê apenas no campo virtual. O blog foi descontinuado em meados de 2014, quando eu já atuava como jornalista cultural no iG, onde entre outras atribuições editava a coluna Cineclube, idealizada para aprofundar a cobertura de cinema de um portal de notícias, mais inclinada a blockbusters por questões comerciais e práticas. Desde junho de 2016 sou editor de Cultura e Entretenimento do portal iG. Sou carioca, mas moro em São Paulo desde 1995 (ano do lançamento de um dos filmes que listo aqui).

Michael Fassbender (Shame)
De vez em quando acontece de um ator ter um ano especial com lançamentos engatilhados. Foi o caso do alemão naturalizado irlandês Michael Fassbender em 2011. Até então o ator era pouco conhecido do público, a despeito de já ter penetrado na epiderme da cinefilia com obras como “Fome” (2008) e “Bastardos Inglórios” (2009). Foram cinco filmes em 2011, sendo o mais famoso deles – e responsável pelo começo de sua popularização – “X-Men: Primeira Classe”, em que encarnava uma versão mais jovem e angustiada de Magneto, um dos personagens mais complexos oriundos das HQs. O romance de época “Jane Enyre”, o espetacular filme de ação de Steven Soderberg “A Toda Prova” e “Um Método Perigoso” de David Cronenberg, foram outros grandes filmes estrelados pelo ator naquele ano. É “Shame”, no entanto, o filme que o distingue. Se é justo dizer que a carreira do ator, mesmo com duas indicações ao Oscar que viriam por “12 Anos de Escravidão” e “Steve Jobs”, entrou em decadência depois do ápice que foi em 2011, é por causa de seu trabalho aqui, um dos mais impressionantes da década. A nudez completa pode ser um desafio para um ator, mas desnudar a alma de um personagem é muito mais estimulante – e complicado. Brandon, seu personagem, que é viciado em sexo, é pura dor. Um misto de tristeza e impulso em uma sonata desesperada que Fassbender tangencia com agudeza sem deixar de ser minimalista. Um equilíbrio tão raro que pode ser tido como imemorial.

Meryl Streep (As Pontes de Madison)
Eu tinha 12 anos quando “As Pontes de Madison” (1995) foi lançado e pouco mais de 14 quando o assisti. A cinefilia já estava embrenhada em mim desde muito cedo, mas este filme foi a porta de entrada para um dos maiores valores que existe no cinema: Meryl Streep. Sou fã confesso de Clint Eastwood como diretor, mas ali, aos 14 anos, não foi sua direção inequívoca, sensível e resoluta que me cativou, mas sim a densidade da atuação de Streep. Já tinha visto, claro, filmes com ela. Mas permaneciam inéditos alguns tesouros como “Kramer vs. Kramer”, “A Escolha de Sofia” e “Ironweed”. Sua Francesca é a afirmação de uma escolha dolorosamente romântica, um indício dos pesares da vida, das renúncias inerentes, de seus labirintos fortuitos, e é uma heroína que Streep habituou-se a fazer melhor do que ninguém. A filmografia da atriz nos anos 90, tirando duas comédias no alvorecer da década, se construiu sobre esse perfil maravilhosamente iluminado em “As Pontes de Madison”, decididamente um de meus Eastwoods favoritos e um drama romântico atemporal que tem na atuação de Streep não o único, mas o maior de seus virtuosismos.

Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)
Eu queria colocar Daniel Day Lewis por “Trama Fantasma” aqui, mas peço licença ao leitor para explicar esse plot twist na minha escolha. Day Lewis é um gênio e creio haver pouca ou quase nenhuma dissonância quanto a isso. É um ator magnético, metódico que mesmeriza não só a mim, mas a todos os leitores desse espaço a cada novo trabalho. E aí tem Bradley Cooper. Um cara que parecia destinado a comédias bobas lá atrás com “Penetras Bons de Bico” (2005) e “Sim Senhor” (2008) e que virou astro com o surpreendente (e bom, sim!) “Se Beber, Não Case!” (2009), mas que fez a opção por virar ator de verdade (o que é louvável, mas nem sempre possível dentro das engrenagens de Hollywood). “O Lado Bom da Vida” é o sensacional ponto de partida dessa trajetória que ostenta sete indicações ao Oscar nesta década, quatro como ator, sendo três delas seguidas – algo só conquistado por Russell Crowe e Spencer Tracy. Não é um dado desprezível. Cooper também está aqui porque defende uma atuação que conjuga drama e comédia com rara beleza e muita intuitividade. É um trabalho de muitas camadas e que a percepção que se tinha dele à época nublou. À luz de sua realização artística com “Nasce Uma Estrela” esse julgamento pode ser mais bem composto. Em “O Lado Bom da Vida”, ele vive Pat, um cara com transtorno obsessivo compulsivo que quer colocar sua vida em ordem e cisma de reconquistar uma mulher que não o quer mais e acaba se apaixonando pela pessoa errada na hora certa. Ou seria a pessoa certa na hora errada? Cooper dá graciosidade, urgência e fidedignidade a esse homem e ao retrato de uma desordem mental que acomete a tantos nesses tempos de relações líquidas.

“Transparent Musicale Finale”: sem Jeffrey Tambor, série da Amazon acerta ao se transformar em algo inteiramente novo para dizer adeus

Após a demissão de Jeffrey Tambor, Transparent não tenta remendar a ausência do ator: para seu desfecho, o seriado criado por Jill Solloway se transforma em algo inteiramente novo.

Primeiro grande sucesso produzido originalmente pela Amazon, Transparent discutiu, ao longo de quatro temporadas, uma série de temas hiper relevantes para a consciência humana e social de seus espectadores. Entretanto, seria fácil resumir o seriado criado por Jill Solloway a um drama familiar onde o protagonista resolve assumir para família que agora deixa de ser o pai como conheceram a vida inteira para se apresentar como a mulher que sempre sonhou ser. A revelação de Moira Pfefferman (Jeffrey Tambor), agora identificada como Maura, é o ponto de partida para uma sequência de conflitos e reflexões que, aí sim, encorpam a identidade do programa: entre crises familiares, conjugais e sexuais, cada membro desse clã passa a questionar a sua própria identidade e o seu verdadeiro lugar no mundo. Como na própria vida, os Pfeffermans trilham, durante toda a série, caminhos tortuosos e pedregosos para encontrar respostas muito íntimas. E o programa alcançou um notável nível de maturidade porque nunca tentou amenizar ou justificar até mesmo certos personagens que, submersos em imperfeições, muitas vezes se tornavam quase intragáveis.

Nas três primeiras temporadas de Transparent, Jill Solloway, que teve ampla participação nos bastidores do icônico seriado Six Feet Under como produtora e roteirista, criou uma verdadeira pérola, sempre impulsionada por um excelente elenco e pela inesquecível interpretação de Jeffrey Tambor como Maura, facilmente uma das melhores dessa década. Já no quarto ano, a série misteriosamente sai dos eixos com um conjunto de episódios desfocados, dispersos e que mais pareciam um filme pouco interessante dividido em dez episódios. A frustração maior ainda estava por vir: em fevereiro de 2018, Tambor foi demitido pela Amazon após uma acusação de assédio sexual durante as filmagens do programa feita por sua colega de elenco Trace Lysette. Tambor negou — e segue negando até hoje —, mas a Amazon se manteve firme, cortando o ator desse projeto que chegou a lhe render dois Emmys e um Globo de Ouro de melhor ator em série de comédia (a classificação do gênero é altamente duvidosa, diga-se de passagem). 

Subitamente sem protagonista, Transparent se viu na mesma situação de House of Cards, que também perdeu Kevin Spacey durante a enxurrada de acusações de assédio sexual que se tornaram públicas graças ao movimento #MeToo. Enquanto House of Cards resolveu remendar a situação, realizando uma temporada inteiramente nova e entregando o protagonismo absoluto à atriz Robin Wright, Transparent adotou uma estratégia diferente: pensar o desfecho em forma de filme, sem prolongar uma história que, apesar dos pesares, não teria muitas chances de sobreviver com o mesmo vigor após tamanho desfalque. Mais do que isso, a série resolveu chutar o balde com a decisão de rodar o desfecho como um musical. Há um lindo momento de Judith Light cantando Hands in My Pocket ao final da terceira temporada, mas, dado o histórico geral do programa, tal transformação era realmente impossível de antecipar como uma tendência para os momentos derradeiros da trama.

Ainda que em novo formato, Transparent Musicale Finale segue levantando as bandeiras que sempre levantou e não perde de vista as lembranças deixadas por Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor) nas temporadas anteriores.

Como acontece com basicamente todos os musicais, Transparent Musicale Finale, já disponível na plataforma de streaming da Amazon, não agradará gregos e troianos por ser uma obra cantada. É justa a indignação de quem se incomoda, afinal, como é possível um programa fazer tamanha inovação justamente em seu ato final? Jill Solloway enlouqueceu? Contudo, é possível enxergar a decisão sob outro prisma. Fazendo jus às suas reflexões sobre as mais diversas formas de transições (emocionais, físicas e de identidade), Transparent acaba, em um momento de divisão de águas, sendo ela própria sobre transformação. É importante constatar que o surgimento dessa natureza musical nos leva à ideia de que Solloway sabia o quanto seria complicado fazer um desfecho sem Jeffrey Tambor e seguindo a mesma batida dos anos anteriores. A ausência do ator seria sentida, e transformar Transparent em algo novo talvez fosse a saída perfeita para amenizar um problema irremediável.

Não se trata de fuga, mas sim de estratégia e, por que não, de posicionamento: mesmo que nem sempre assertivo ao adaptar situações cotidianas para o plano musical, Transparent Musicale Finale é um sopro de valentia em meio a seriados que, tão preocupados em agradar os espectadores, acabam se tornando reféns do próprio público, em sua maioria intolerante a conceitos que fujam das fórmulas e dos terrenos já conhecidos em uma atração. Ao mesmo tempo, o musical que encerra a jornada dos Pfeffermans não nega o legado da protagonista vivida por Jeffrey Tambor: o roteiro respira Maura por todos os lados, seja nas músicas, nos diálogos ou na própria atmosfera de luto que permeia toda a projeção. Transparent Musicale Finale assume a falta que a personagem faz e presta sua homenagem a tudo o que ela deixou em forma de reverberação emocional para os membros da família. É bonito, agridoce e com soluções dignas para contemplar a lembrança de Maura mesmo sem a presença de Jeffrey Tambor.

Não há um novo protagonista nesse desfecho, o que é justo com um elenco que assume tempos equivalentes em cena, como um coral. Duas atrizes, porém, têm brilho extra. Uma delas é Gaby Hoffman, que da vida à Ali (agora Ari), a filha mais abalada pela ausência de Maura justamente por ela própria, agora em plena transição de identidade de gênero, ser a pessoa que melhor compreendia os turbilhões íntimos de uma figura que agora não está mais presente para lhe propôr certas respostas e interrogações. A outra é Judith Light, que sempre teve um dos papeis mais difícil do programa: como a histriônica matriarca Shelly, a atriz transita entre as delicadezas de uma personagem cercada de situações complicadíssimas (abuso na infância, falta de conexão com os filhos, a verdade sobre o marido que assume uma identidade feminina) e o seu modus operandi agitado, hiperativo e não muito empático com as pessoas a sua volta. Pois agora nesse musical, Shelly passa por transformações internas importantes em relação a isso, todas capturadas com talento pela excelente atriz que é Judith Light.

Judith Light solta a voz mais uma vez: junto a Gaby Hoffman, atriz é um dos pontos altos desse desfecho que pode ser acusado de tudo, menos de preguiça ou comodismo.

Sobre a parte musical, o filme tanto acerta quanto deixa um certo gostinho de frustração. Há números que exaltam toda faceta empolgante e alegre do gênero (Joyocaust, o excelente número de encerramento), enquanto outros iluminam a natureza dialogada dessas produções, como Your Boundary is My Trigger, que, menos ritmado e sem necessariamente um refrão marcante, expõe os sentimentos e as frustrações de duas personagens a partir de uma discussão. O que corta uma parte do barato é o visível playback para disfarçar a falta de experiência de alguns atores com a cantoria. São dominantes as passagens em que o tom alcançado pelas músicas (e pelos ajustes de pós-produção delas) não condiz com as expressões em cena. Isso acontece com frequência no gênero, o que tira um pouco da veracidade que algumas sequências tentam imprimir. Transparent Musicale Finale ainda aposta em números imaginários em um único palco. Às vezes funciona, e em outras é mais do mesmo, como Rob Marshall já fez aos montes em títulos como Chicago e Nine. Como um representante do gênero, o filme é divertido e ocasionalmente tocante, ainda que nem sempre sofisticado em suas concepções.

Em uma jornada do luto ao renascimento, Transparent Musicale Finale não abre novas histórias para o filme de encerramento. Acontece o oposto: em sua despedida, a série busca amarrar todas as pontas soltas, e em 102 minutos consegue fazer isso com folga. Para a alegria de muitos, o musical, ao se aproximar do final, não resiste ao tom novelesco. Há finais felizes um tanto abruptos, assim como o resgate de personagens que poderiam muito bem ter permanecido intocados (a rabina Raquel, interpretada por Kathryn Hahn) e uma fila de outros tantos que, entre pequenas participações e figurações, ressurgem porque, claro, fizeram parte da série e não poderiam ficar de fora da festa (Cherry Jones, Bradley Whitford). Permeado por acertos e fragilidades, Transparent, enfim, despede-se como um programa inteiramente novo, e o público precisa entender isso para embarcar na versão musical. A atração não é mais a mesma, e é claro que não poderia ser. Não sem Jeffrey Tambor. Sendo assim, gostando ou não de uma cantoria, você pode acusar Transparent Musicale Finale de tudo, exceto de preguiça ou comodismo — e já não seria esse um excelente argumento de convencimento?

Os vencedores do Emmy 2019

Julia Garner, melhor atriz coadjuvante por Ozark: merecido prêmio da intérprete foi um dos pontos altos de uma noite com várias surpresas, mas igualmente empoeirada por um apego irremediável a Game of Thrones.

Tão oxigenada quanto empoeirada. Assim podemos definir a cerimônia de premiação do Emmy 2019. Afinal, é difícil entender como os votantes compreendem que o tempo de Veep já passou, mas seguem apegados a um passado glorioso já distante de Game of Thrones. É no mínimo desmoralizada a vitória do hit da HBO: segundo os votantes, o programa não tem o melhor roteiro, nem a melhor direção, muito menos os melhores protagonistas. No entanto, é a melhor série do ano? No final das contas, só quem fez par com o prêmio de melhor série pela mesma atração foi Peter Dinklage como ator coadjuvante.

A decisão surge um tanto imperdoável no ano em que o Emmy reservou surpresas pioneiras e agradabilíssimas, como o prêmio de atriz coadjuvante em série dramática para Julia Garner (Ozark), o de melhor ator em minissérie para Jharrel Jerome (When They See Us) e o de atriz coadjuvante em minissérie para Patricia Arquette (The Act). Mesmo Fleabag, que levou mais prêmios do que deveria em comparação à obra-prima que é a segunda temporada de The Marvelous Mrs. Maisel, é um excelente sinal de renovação para o Emmy. Coloque ainda na conta surpresas aclamadas como Billy Porter levando melhor ator por Pose, Michelle Willims sendo consagrada pela minissérie Fosse/Verdon e Jason Bateman surpreendendo em melhor direção de série dramática com Ozark.

E aí o Emmy resolve puxar o freio de mão com Game of Thrones no último prêmio da noite. Fica o mistério sobre o que passou pela cabeça dos votantes para celebrar a última temporada tão criticada por público e crítica do programa… Consagração pelo conjunto da obra? Prêmios como esse não são feitos para servir a tal propósito. Estamos aqui para eleger melhor série do ano (não o melhor legado), título que Game of Thrones já havia conquistado em quatro ocasiões no Emmy. Ano que vem, ao menos, estamos livres de uma estatueta como essa entregue no piloto-automático ou por algum tipo de saudosismo antecipado…

Confira abaixo a lista de vencedores do Emmy 2019:

MELHOR SÉRIE DRAMA: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Fleabag
MELHOR MINISSÉRIE: Chernobyl
MELHOR TELEFILMEBlack Mirror: Bandersnatch

MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Jodie Comer (Killing Eve)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Michelle Williams (Fosse/Verdon)

MELHOR ATOR EM DRAMA: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Bill Hader (Barry)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jharrel Jerome (When They See Us)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (The Act)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Ben Whishaw (A Very English Scandal)
MELHOR DIREÇÃO EM DRAMA: Jason Bateman (Ozark, pelo episódio Reparations)
MELHOR ROTEIRO EM DRAMA: Jesse Armstrong (Succession, pelo episódio Nobody is Ever Missing)
MELHOR DIREÇÃO EM COMÉDIA: Harry Bradbeer (Fleabag, por Episode #2.1)
MELHOR ROTEIRO EM COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag, por Episode #2.1)
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE: Johan Renck (Chernobyl)
MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE: Craig Mazin (Chernobyl)

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