Cinema e Argumento

Os indicados ao Oscar 2019

Dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos A Favorita lidera, ao lado do mexicano Roma, de Alfonso Cuarón, a lista de indicados ao Oscar 2019, concorrendo em dez categorias.

Em uma temporada marcada pelo marasmo e pela média aparentemente fraca dos principais concorrentes, o Oscar provou que pode ser muita coisa, menos influenciável em sua lista de indicados. Afinal, em qual outro grande prêmio você vê Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela) e Peter Farrelly (Green Book: O Guia) esnobados na categoria de direção para encontrar um mexicano (Alfonso Cuarón), um grego (Yorgos Lanthimos) e um polonês (Pawel Pawlikowski) na disputa? Somente no Oscar. E tal autenticidade já não é de hoje: quer você goste ou não, foi apenas a Academia que, nos últimos anos, proporcionou pérolas como as indicações de Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite), Charlotte Rampling (45 Anos) e Laura Dern (Livre), além do reconhecimento de Trama Fantasma nas categorias principais. O ano de 2019 é grandioso para a Netflix, que, além de emplacar dez indicações para Roma (incluindo atriz para Yalitza Aparicio e coadjuvante para Marina de Tavira, outra cartada exclusiva da Academia), registrou mais três menções com A Balada de Buster Scruggs, dos irmãos Coen.

No entanto, há de se reconhecer a expressiva força de A Favorita, que lidera a lista ao lado de Roma, mas com uma diferença: enquanto o filme de Alfonso Cuarón não ficou entre os finalistas de montagem (historicamente, é muito raro um filme ganhar a categoria principal sem indicação a montagem), o de Yorgos Lanthimos figura entre todos os segmentos principais, assim como Vice, que concorre em oito categorias. Quem também disputa oito prêmios é Nasce Uma Estrela que, apesar da pompa de ter seu roteiro indicado (aliás, algo simplesmente inexplicável), viu Bradley Cooper fazer a linha Ben Affleck (Argo) e ficar de fora da disputa em direção. Ainda entre os esnobados, duas atrizes foram duplamente esnobadas: Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins e Um Lugar Silencioso) e Nicole Kidman (O Peso do Passado e Boy Erased: Uma Verdade Anulada). Matematicamente, entretanto, há surpresas muito maiores, como Timothée Chalamet ficar de fora com Querido Menino e John David Washington com Infiltrado na Klan.

O Oscar revelará seus vencedores no dia 24 de fevereiro. Confira a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book: O Guia
Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra
Roma
Vice

MELHOR DIREÇÃO
Adam McKay (Vice)
Alfonso Cuarón (Roma)
Pawel Pawikowski (Guerra Fria)
Spike Lee (Infiltrado na Klan)
Yorgos Lanthimos (A Favorita)

MELHOR ATRIZ
Glenn Close (A Esposa)
Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Olivia Colman (A Favorita)
Yalitza Aparicio (Roma)

MELHOR ATOR
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Christian Bale (Vice)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Viggo Mortensen (Green Book: O Guia)
Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)
Emma Stone (A Favorita)
Marina de Tavira (Roma)
Rachel Weisz (A Favorita)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)
Sam Rockwell (Vice)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
A Favorita
No Coração da Escuridão
Green Book: O Guia
Roma
Vice

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
A Balada de Buster Scruggs
Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Poderia Me Perdoar?
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Assunto de Família (Japão)
Cafarnaum (Líbano)
Guerra Fria (Polônia)
Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha)
Roma (México)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Free Solo
Hale County: This Morning, This Evening
Minding the Gap
Of Fathers and Sons
RBG

MELHOR ANIMAÇÃO
Homem-Aranha no Aranhaverso
Ilha dos Cachorros
Os Incríveis 2
Mirai
WiFi Ralph: Quebrando a Internet

MELHOR TRILHA SONORA
Ilha dos Cachorros
Infiltrado na Klan
Pantera Negra
O Retorno de Mary Poppins
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“All the Stars” (Pantera Negra)
“I’ll Fight” (RBG)
“Shallow” (Nasce Uma Estrela)
“The Place Where Lost Things Go” (O Retorno de Mary Poppins)
“When a Cowboy Trades His Spurs for Wings” (The Ballad of Buster Scruggs)

MELHOR MONTAGEM
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book: O Guia
Infiltrado na Klan
Vice

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
A Favorita
Pantera Negra
O Primeiro Homem
O Retorno de Mary Poppins
Roma

MELHOR FOTOGRAFIA
A Favorita
Guerra Fria
Nasce Uma Estrela
Nunca Deixe de Lembrar
Roma

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível
Han Solo: Uma História Star Wars
Jogador nº 1
O Primeiro Homem
Vingadores: Guerra Infinita

MELHOR FIGURINO
A Balada de Buster Scruggs
Duas Rainhas
A Favorita
Pantera Negra
O Retorno de Mary Poppins

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Border
Duas Rainhas
Vice

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Bohemian Rhapsody
Pantera Negra
O Primeiro Homem
Roma
Nasce Uma Estrela

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Bohemian Rhapsody
Um Lugar Silencioso
Pantera Negra
O Primeiro Homem
Roma

MELHOR CURTA-METRAGEM
Detainment
Fauve
Marguerite
Mother
Skin

MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)
Black Sheep
End Game
Lifeboat
A Night at the Garden
Period. End of Sentence

MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
Animal Behaviour
Bao
Late Afternoon
One Small Step
Weekends

“A Esposa”: desempenho de Glenn Close carrega todas as qualidades que faltam ao filme como um todo

I am a kingmaker.

Direção: Björn Runge

Roteiro: Jane Anderson, baseado no romance “The Wife”, de Meg Wolitzer

Elenco: Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater, Max Irons, Christian Slater, Harry Lloyd, Annie Starke, Elizabeth McGovern, Johan Widerberg, Karin Franz Körlof, Richard Cordery, Jan Mybrand

The Wife, EUA/Reino Unido/Suécia, 2017, Drama, 100 minutos

Sinopse: Joan Castleman (Glenn Close) é casada com um homem controlador e que não sabe como cuidar de si mesmo ou de outra pessoa. Ele é um escritor e está prestes a receber um Prêmio Nobel de literatura. Joan, que passou 40 anos ignorando seus talentos literários para valorizar a carreira do marido, decide abandoná-lo. (Adoro Cinema)

A Glenn Close que provavelmente mora na sua memória é aquela que interpreta papeis de traços fortes e marcantes. Como não lembrar, afinal, de Alex Forrest em Atração Fatal? Ou então da memorável Marquesa Isabelle de Merteuil em Ligações Perigosas? Na infância de muitas gerações, ela também ficou marcada como Cruella DeVil, a inescrupulosa vilã da adaptação live-action de 101 Dálmatas. Por fim, até mesmo em uma de suas passagens mais célebres pela televisão, Glenn interpretou uma personagem implacável: a emblemática Patty Hewes, advogada que temíamos, admirávamos e questionávamos nas mesmas proporções. Pois, agora, em pleno 2019, o melhor que você pode fazer é esquecer toda essa intensa imagem da atriz para admirá-la de uma maneira bem diferente em A Esposa, onde a vemos introspectiva, discreta e delicada, algo não tão habitual em sua carreira (e que, segundo a própria atriz, é consequência dos tipos de papeis que lhe foram oferecidos ao longo dos anos). De forma isolada, a veterana intérprete já teria nosso voto de confiança ao dar vida a uma mulher que, eternamente à sombra do marido, de repente se vê obrigada a refletir sobre todas as razões que lhe deixaram uma vida inteira nos bastidores, mas, em comparação ao filme, sua presença é tão grande que nem o fato de A Esposa ser ruim abala tamanha classe. Pelo contrário: se há real complexidade, elegância e delicadeza no projeto do sueco Björn Ruge, é porque Glenn Close toma a missão para si e trata de conferi-las ao longa como um todo.

Mais interessante na teoria do que na prática, A Esposa trilha o caminho fácil de vilanizar um personagem para que tenhamos compaixão por outro. É bem certo que, do ponto de vista histórico e cultural, a dita soberania masculina tem mesmo intoxicado vidas femininas e relações amorosas, mas o que falta ao roteiro escrito por Jane Anderson, com base no romance “The Wife”, de Meg Wolitzer, é certa substância para acreditarmos que, de alguma forma, a protagonista é ou um dia foi apaixonada pelo marido que pouco carinho lhe dá e que, ao longo dia, parece tratá-la como uma assistente que cuida de seus remédios e horários. Por que, afinal, Joan (Glenn) sempre se submeteu às traições, à vaidade inflada e ao egoísmo desse homem? Quais foram as reais razões que levaram uma escritora de talento na juventude a abdicar da carreira e de sua própria identidade para servi-lo? Anderson, que surpreendentemente parece ter deixado de lado toda a sofisticação dramática que um dia apresentou como roteirista da premiada minissérie Olive Kitteridge, esquece de se debruçar sobre as complexidades da relação entre os dois para, ao invés disso, fazer de Joe (Jonathan Pryce) um mero personagem insuportável que torna a vida de sua esposa uma penitência.  

Ao contrário do que A Esposa sugere, é possível sim traçar as complexidades de um relacionamento tóxico sem pegar o atalho fácil de somente construir figuras antagônicos e quase estereotipadas, como se uma leitura mais clínica de fatos e acontecimentos não fossem possíveis ou necessários. No recente Trama Fantasma, por exemplo, Daniel Day-Lewis vive um estilista misógino e cheio de si que se apaixona por uma mulher muito mais jovem. Inicialmente submissa e sem voz, a garota, ao mesmo tempo que não consegue largar seu novo amor apesar de tantas agressões emocionais, acaba reivindicado seu espaço, nem que seja de maneira torta e macabra. Tal relação é riquíssima em complexidades no filme de Paul Thomas Anderson porque o roteiro entende a importância de cada mínima dinâmica entre o casal, sugerindo, cena a cena, todas as razões que separam e aproximam esse casal. Em contraste, isso é apenas protocolar em A Esposa: ainda que utilizando flashbacks para explicar como se deu o início da relação entre Joan e Joe, o filme propriamente dito não nos convence de que há alguma força magnética por parte de Joan, algo que frustra o embasamento dramático da obra e dá um trabalho muito ingrato para Jonathan Pryce, um ator que, na medida do possível, tenta dimensionar uma figura apenas antipática.

Entrando um pouco mais no roteiro, é decepcionante perceber que versão final do texto tenha mantido tantos aspectos dispensáveis, como a relação de Joe com o filho, que, também escritor, busca desesperadamente a aprovação do pai. Além de Max Irons ser muito ruim no papel, sua participação é rasa, tendo como missão exclusiva conduzir o espectador a uma surpresa que considero particularmente artificial e que, do ponto de vista dramático, dilui as discussões da obra ao tirar certos contextos e reflexões do plano da sugestão para a literal verbalização. Além disso, A Esposa tem dificuldade em lidar com tramas secundárias: se Christian Slater está limitadíssimo ao interpretar o mero jornalista sedento por um escândalo e que não tem outra função a não ser descortinar um ou outro trauma do passado da protagonista, Annie Stark (filha de Glenn Close na vida real) é inexpressiva ao protagonizar flashbacks que, em um roteiro mais esperto, nem existiriam, pois dão conta de acontecimentos que poderiam ser facilmente sintetizados em diálogos mais reveladores e contundentes.

Frente a tudo isso está Glenn Close, que é milimétrica na composição da sua personagem e que confere ao projeto tudo aquilo que lhe falta como um todo. Há momentos realmente grandiosos, como o misto de alegria e pesar ao receber a notícia de que seu companheiro será laureado com o prêmio Nobel ou a interiorização de um completo pavor quando testemunha o discurso do marido na cerimônia de homenagem (a título de comparação, não seria surpresa se Glenn revelasse que a cena final de 45 Anos tenha sido uma importante inspiração para esse momento). Na discrição e na sutileza, a atriz desdobra os anseios e as dúvidas dessa mulher que tenta sempre manter as aparências — e a sequência em que ela precisa manter a pose e as expressões ao ser provocada em em diferentes níveis pelo jornalista de Christian Slater é outro exemplo dos belos contrastes que existem na interpretação da atriz, mas não no longa em si. Boatos dão conta de que A Esposa, exibido desde 2017 em festivais internacionais como o de Toronto, segurou sua data de estreia para poder concorrer ao Oscar e finalmente consagrar Glenn Close após seis indicações. Se conseguirá ou não é outra história, mas, independente disso e da decepção que é o longa, certamente A Esposa marca o que vemos de melhor vindo da atriz em muitos, muitos anos.

Os vencedores do Globo de Ouro 2019

Glenn Close e o seu Globo de Ouro por A Esposa: discurso da atriz foi o ponto alto de uma cerimônia interminável, dispersa e pouco conclusiva para a temporada de premiações.

Para quem gosta da surpresa pela surpresa, o Globo de Ouro não desapontou. Afinal, poucas vezes em sua história recente o prêmio outorgado pela Hollywood Foreign Press atirou para todos os lados, premiando todos os filmes que estavam em seu alcance. Choque maior, no entanto, não houve como o de Bohemian Rhapsody ganhando a categoria de melhor filme dramático. O longa de Bryan Singer é espirituoso e cheio de energia, mas, em nenhum planeta lúcido, é melhor ou mais relevante do que títulos como Pantera Negra ou Infiltrado na Klan

Sem saber muito o que fazer entre o popular e o autoral, o Globo de Ouro sem dúvida repercute muito pouco este ano para uma temporada de premiações que parece ser a mais desinteressante em muito tempo. De efetivo mesmo para o cenário geral temos apenas a vitória de uma emocionadíssima Glenn Close (A Esposa), que, com um filme pequeno e independente, puxou o freio de mão da celebrada trajetória que Lady Gaga vinha trilhando até então com Nasce Uma Estrela. Se hoje há uma adversária à altura para Glenn, essa parece ser Olivia Colman (A Favorita), que muito provavelmente será indicada ao BAFTA de melhor atriz, ostentando desde já o título de favorita ao prêmio britânico.

Há de se considerar também um novo momento para Rami Malek (Bohemian Rhapsody), responsável por tirar uma celebração até então tida como certa para Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela) em melhor ator. De resto, pouco pode ser diagnosticado, inclusive nas categorias de atuação, já que a vencedora Regina King (Se a Rua Beale Falasse) em coadjuvante não concorre ao Screen Actors Guild Awards e que o também coadjuvante Mahershala Ali (Green Book: O Guia) venceu somente agora o Globo de Ouro que ele não havia levado por Moonlight: Sob a Luz do Luar. Futuramente, o SAG poderá nos indicar se a temporada pode seguir na indefinição (o que seria um alento em comparação aos resultados tediosamente previsíveis do ano passado) ou se teremos movimentos mais consolidados daqui para frente.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA: Bohemian Rhapsody
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICALGreen Book: O Guia
MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Roma)
MELHOR ATRIZ DRAMA: Glenn Close (A Esposa)
MELHOR ATOR DRAMA: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Olivia Colman (A Favorita)
MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Christian Bale (Vice)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
MELHOR ANIMAÇÃOHomem-Aranha no Aranhaverso
MELHOR FILME ESTRANGEIRORoma (México)
MELHOR ROTEIRO: Green Book: O Guia
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Shallow” (Nasce Uma Estrela)
MELHOR TRILHA SONORAO Primeiro Homem

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DRAMA: The Americans
MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICALThe Kominsky Method
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILMEThe Assassination of Gianni Versace: American Crime Story
MELHOR ATRIZ DRAMA: Sandra Oh (Killing Eve)
MELHOR ATOR DRAMA: Richard Madden (Bodyguard)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Michael Douglas (The Kominsky Method)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (Escape at Dannemora)
MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Clarkson (Sharp Objects)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Ben Whishaw (A Very English Scandal)

Apostas para o Globo de Ouro 2019

Primeira premiação televisionada de 2019, o Globo de Ouro revelará hoje os seus vencedores, provavelmente reforçando a grande tendência da temporada deste ano em premiar filmes mais populares como Pantera Negra, Nasce Uma Estrela e Bohemian Rhapsody. Outras obras menores ou mais autorais como Roma, de Alfonso Cuarón, e A Favorita, de Yorgos Lanthimos, devem levar para causa algumas estatuetas, mas sem o mesmo protagonismo dessas obras que faturaram alto nas bilheterias e que, cada uma a sua maneira, tornaram-se grandes eventos junto ao público durante o ano.

O movimento é interessante e necessário (premiações não podem estar alheias ao que a indústria também produz de melhor em termos de apelo popular), mas não deixa de ser estranha a mudança de comportamento agora, com títulos menos marcantes e do que outros lançados em anos anteriores e que não foram devidamente celebrados por puro preconceito (é inadmissível lembrar da derrota de Mad Max: Estrada da Fúria para O Regresso ou Spotlight, por exemplo). No final das contas, parece falta de opção. Seria um indício de que essa temporada pode ser a mais desinteressante em muitos anos?

Aqui no Brasil, a cerimônia de entrega dos Globos de Ouro será transmitida pelo canal TNT, a partir das 23h (horário de Brasília). Quer saber quem tem tudo para faturar cada categoria? Então dá uma olhadinha na nossa lista de apostas:

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA: Pantera Negra / alt: Nasce Uma Estrela
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: A Favorita / alt: Green Book: O Guia
MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Roma) / alt: Spike Lee (Infiltrado na Klan)
MELHOR ATRIZ DRAMA: Lady Gaga (Nasce Uma Estrela) / alt: Glenn Close (A Esposa)
MELHOR ATOR DRAMA: Rami Malek (Bohemian Rhapsody) / alt: Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins) / alt: Olivia Colman (A Favorita)
MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Viggo Mortensen (Green Book: O Guia) / alt: Christian Bale (Vice)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Regina King (Se a Rua Beale Falasse) / alt: Amy Adams (Vice)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia) / alt: Timothée Chalamet (Querido Menino)
MELHOR ANIMAÇÃO: Homem-Aranha no Aranhaverso / alt: Ilha dos Cachorros
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Roma (México) / alt: Assunto de Família (Japão)
MELHOR ROTEIRO: A Favorita / alt: Vice
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Shallow” (Nasce Uma Estrela) / alt: “All the Stars” (Pantera Negra)
MELHOR TRILHA SONORA: O Primeiro Homem / alt: Pantera Negra

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DRAMA: Homecoming / alt: Killing Eve
MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL: The Marvelous Mrs. Maisel / alt: Barry
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Sharp Objects / alt: The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story
MELHOR ATRIZ DRAMA: Julia Roberts (Homecoming) / alt: Sandra Oh (Killing Eve)
MELHOR ATOR DRAMA: Stephan James (Homecoming) / alt: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Kristen Bell (The Good Place)
MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Jim Carrey (Kidding) / alt: Michael Douglas (The Kominsky Method)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Amy Adams (Sharp Objects) / alt: Laura Dern (The Tale)
MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story) / alt: Hugh Grant (A Very English Scandal)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Clarkson (Sharp Objects) / alt: Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Alan Arkin (The Kominsky Method) / alt: Henry Winkler (Barry)

Melhores de 2018: “Trama Fantasma” lidera lista do Cinema e Argumento com nove indicações

Trama Fantasma é o líder de indicações na lista de melhores de 2018 do Cinema e Argumento. Concorrendo em nove categorias, o filme é seguido de perto por Você Nunca Esteve Realmente Aqui, com oito indicações.

Quando elaboradas por uma única pessoa, listas costumam ser, claro, muito particulares. Não poderia seria diferente aqui no Cinema e Argumento, quando chego agora a mais uma edição da tradicional lista de melhores do ano. Como sempre, para organizá-la, procurei o mais alto grau de coerência e fidelidade em relação às melhores experiências que tive com o Cinema ao longo de 2018. Sem amarras ou concessões, a lista, antes de tudo, tem como objetivo ser esse apanhado de tudo aquilo que mais me comoveu, impactou e surpreendeu. Simples assim, sem qualquer outra lógica. Distribuídos em 18 categorias, todos os títulos selecionados estão mais mais uma vez juntos, sem distinção por nacionalidade ou gênero, como acredito que sempre deva ser em qualquer premiação.

A categoria principal, por sinal, é uma fidelíssima representação das grandes experiências que tive ao longo do ano, além de um belo resumo de tudo aquilo que mais admiro no Cinema. Em síntese, três títulos nacionais (O Animal Cordial, Benzinho e As Boas Maneiras, fazendo jus ao marcante ano vivido pela cinematografia nacional), uma grande obra assinada por um dos melhores cineastas em atividade (Trama Fantasma, do genial Paul Thomas Anderson) e uma produção altamente independente que subverte diversas convencionalidades e expectativas (Você Nunca Esteve Realmente Aqui, novo trabalho da sempre provocadora Lynne Ramsay). Dos cinco filmes selecionados, três, inclusive, levam a assinatura de mulheres na direção.

Considerando todas as categorias, Trama Fantasma lidera a lista com nove indicações (filme, direção, ator, atriz, atriz coadjuvante, roteiro original, trilha sonora, figurino e fotografia), seguido de perto por Você Nunca Esteve Realmente Aqui, que disputa oito categorias (filme, direção, ator, roteiro adaptado, montagem trilha sonora, fotografia e som). No mais, como é tradição aqui no blog, revelaremos, ao longo das próximas semanas de janeiro, os vencedores de cada segmento, com comentários e uma pequena retrospectiva de vencedores dos anos anteriores. Lembrando que o Cinema e Argumento escolhe os seus melhores do ano desde a criação do blog, em 2007, e o histórico completo, categoria por categoria, pode ser conferido aqui. Fiquem abaixo com a lista completa de 2018!

•••

MELHOR FILME
O Animal Cordial
Benzinho
As Boas Maneiras
Trama Fantasma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR DIREÇÃO
Alfonso Cuarón (Roma)
Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial)
Juliana Rojas e Marco Dutra (As Boas Maneiras)
Lynne Ramsay (Você Nunca Esteve Realmente Aqui)
Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)

MELHOR ELENCO
O Animal Cordial
Benzinho
Infiltrado na Klan
The Post: A Guerra Secreta
As Viúvas

MELHOR ATRIZ
Charlize Theron (Tully)
Charlotte Rampling (Hannah)
Karine Telles (Benzinho)
Toni Collette (Hereditário)
Vicky Krieps (Trama Fantasma)

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Joaquin Phoenix (Você Nunca Esteve Realmente Aqui)
Murilo Benício (O Animal Cordial)
Shico Menegat (Tinta Bruta)
Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Elizabeth Debicki (As Viúvas)
Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar)
Lesley Manville (Trama Fantasma)
Mackenzie Davis (Tully)
Rachel McAdams (Desobiência)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Barry Keoghan (O Sacrifício do Cervo Sagrado)
Bruno Fernandes (Tinta Bruta)
Daniel Kaluuya (As Viúvas)
Irandhir Santos (O Animal Cordial)
Michael Stuhlbarg (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
As Boas Maneiras
Benzinho
Sem Amor
Trama Fantasma
Tully

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Desobediência
Infiltrado na Klan
Me Chame Pelo Seu Nome
Paddington 2
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR MONTAGEM
Eu, Tonya
O Processo
Roma
As Viúvas
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR FOTOGRAFIA
A Forma da Água
Roma

Sem Fôlego
Trama Fantasma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR TRILHA SONORA
A Forma da Água
O Primeiro Homem
Sem Fôlego
Trama Fantasma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald
A Forma da Água
O Retorno de Mary Poppins
Roma
Sem Fôlego

MELHOR FIGURINO
Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald
O Destino de Uma Nação
A Forma da Água
O Retorno de Mary Poppins
Trama Fantasma

MELHOR SOM
Bohemian Rhapsody
Ilha dos Cachorros
Um Lugar Silencioso
Nasce Uma Estrela
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“All the Stars” (Pantera Negra)
“Mystery of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome)
“Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa)
“Shallow” (Nasce Uma Estrela)
“Visions of Gideon” (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Jogador Nº 1
Paddington 2
Pantera Negra
O Primeiro Homem
Vingadores: Guerra Infinita

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
O Destino de Uma Nação
Eu, Tonya
Pantera Negra

Adeus, 2018! (e as melhores cenas do ano)

Para quem ama Cinema, talvez os filmes tenham sido uma espécie de salvação em um ano extremamente complicado para o Brasil. Para mim, ao menos, eles realmente foram. Além disso, na medida do possível, entre os malabarismos exigidos pela vida adulta, vi a maioria dos títulos que eu desejava — e, apesar do baixo número de filmes conferidos em comparação a tantos outros anos, fiquei muito satisfeito com a média das minhas experiências, algo que é consequência direta do exercício cada vez mais consciente que faço de escapar daqueles filmes que, de longe, já desconfio que não podem ter resultado em coisa boa. Uma imensa parte dessas experiências está registrada aqui no blog (algumas outras ainda estou em dívida e prometo tirar o atraso o quanto antes). Aliás, mesmo com uma frequência inegavelmente menor de postagens, sempre tive o compromisso de deixar o Cinema e Argumento vivo. Ele faz parte de mim e eu não teria como mudar isso, inclusive por causa de vocês, caros leitores, que são sempre tão presentes para mim, especialmente na página do blog no Facebook. Em 2019, seguimos em frente, e logo teremos a lista de melhores do ano. Por ora, dou adeus a 2018 com a tradicional seleção das minhas cenas favoritas do ano. Nos vemos em seguida, combinado?

•••

#10 – “Eu sou a sua mãe!” (Hereditário)

Toni Collette como há muito tempo não víamos. Rancor e dor em uma discussão familiar que explora o que existe de melhor em Hereditário: a utilização do luto como riquíssima matéria-prima para complexidades dramáticas e para a construção do terror psicológico.

#9 – Assumindo a direção no OASIS (Jogador Nº1)

Adrenalina pura e referências de sobra tornam a primeira corrida no jogo OASIS uma experiência de tirar o fôlego. É o primeiro grande impacto desse blockbuster que está à altura do que Steven Spielberg criou em seus melhores entretenimentos para o grande público.

#8 – Abraço na praia (Roma)

Em um abraço, todo o universo de uma mulher invisível e de uma família desmantelada pelo abandono paterno. É a mais simples demonstração de afeto pode tornando menos solitário esse mundo que, para determinadas parcelas da sociedade, é um desafio diário.

#7 – A dança de Pedro (Tinta Bruta)

Como encontrar cores e conexões em uma cidade que tanto insiste em julgar e afastar? Como encontrar sua própria voz quando nada parece ser uma certeza? Com a dança de Pedro (Shico Menegat), no entanto, um universo de possibilidades parece se abrir em Tinta Bruta.

#6 – Ally e Jackson cantam “Shallow” (Nasce Uma Estrela)

Duas pessoas perdidas na vida encontram na música e na existência do outro uma razão para seguir em frente. Nos palcos ou fora deles, todos nós merecemos ser protagonistas de vez em quando. É tudo o que Nasce Uma Estrela deveria ter sido como um todo.

#5 – De mãos dadas (As Boas Maneiras)

Um dos grandes momentos do cinema brasileiro em 2018, a sequência final de As Boas Maneiras é um comovente e esperançoso registro de resistência em um país afogado em intolerância e preconceito. Ninguém solta a mão de ninguém. Inclusive no Cinema.

#4 – Show do Queen no Live Aid (Bohemian Rhapsody)

Rami Malek alcança sua sua nota mais impressionante como Freddie Mercurie. Além disso, a arriscada (mas acertada) decisão de reproduzir uma longa apresentação musical praticamente na íntegra coloca qualquer espectador no centro de toda a imensa emoção de um momento histórico do rock mundial.

#3 – Miguel canta para a avó (Viva: A Vida é Uma Festa)

Poucas vezes tivemos, ao menos entre as animações recentes, uma sequência tão potente do ponto de vista emocional como essa em que Miguel canta para a avó em Viva. Nela, vemos um pouquinho de todos nós e de tantos queridos familiares que passaram pelas nossas vidas.

#2 – Irene, a camiseta do filho e o desfile musical (Benzinho)

Testamento máximo do imenso talento dramático de Karine Teles. Uma carta de amor para as mulheres que nos criam e que diariamente levam o Brasil para frente. Mais do que isso, um poderoso e comovente retrato da força transformadora do afeto.

#1 – Conversa entre pai e filho (Me Chame Pelo Seu Nome)

O texto mais belo do ano. Michael Stuhlbarg em estado de graça. Quando a sabedoria é passada de uma geração para a outra. A vida como um constante aprendizado, apesar da dor e dos corações partidos. O que seria de todos nós sem compreensão e apoio?

“O Retorno de Mary Poppins”: Emily Blunt brilha ao resgatar o espírito e o encantamento do clássico estrelado por Julie Andrews

Everything is possible. Even the impossible!

Direção: Rob Marshall

Roteiro: David Magee, baseado em história de autoria própria com John DeLuca e Rob Marshall, e na série de livros “Mary Poppins”, de P.L. Travers

Elenco: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw, Emily Mortimer, Colin Firth, Julie Walters, Meryl Streep, Pixie Davies, Nathanael Saleh, Joel Dawson, Jeremy Swift, Kobna Holdbrook-Smith, Dick Van Dyke, Angela Lansbury

Mary Poppins Returns, EUA, 2018, Musical, 130 minutos

Sinopse: Numa Londres abalada pela Grande Depressão, Mary Poppins (Emily Blunt) desce dos céus novamente com seu fiel amigo Jack (Lin-Manuel Miranda) para ajudar Michael (Ben Whishaw) e Jane Banks (Emily Mortimer), agora adultos trabalhadores, que sofreram uma perda pessoal. As crianças Annabel (Pixie Davies), Georgie (Joel Dawson) e John (Nathanael Saleh) vivem com os pais na mesma casa de 24 anos atrás e precisam da babá enigmática e o acendedor de lampiões otimista para trazer alegria e magia de volta para suas vidas. (Adoro Cinema)

Sempre desperta desconfiança qualquer iniciativa de estúdios e diretores em mexer com clássicos. Ora, qual a razão de repaginar um projeto consagrado pelo tempo e eternizado pelo público? Tal receio não poderia ter sido diferente quando recebemos a notícia de que Mary Poppins, emblemático título da Disney estrelado por Julie Andrews na década de 1960, receberia agora, 54 anos depois, uma continuação, marcando o maior intervalo de tempo já registrado no Cinema entre um filme original e a sua sequência. Também não era muito animadora a escolha de Rob Marshall para o comando do projeto, uma vez que ele só vinha realizando títulos do mediano para baixo após a consagração com Chicago, inclusive nas vezes em que retornara ao gênero musical (ainda hoje é inacreditável que Nine tenha sido uma decepção e que Caminhos da Floresta seja uma tremenda baderna). No entanto, contornando todos os indícios, O Retorno de Mary Poppins surpreende por ser uma homenagem respeitosa e irresistivelmente nostálgica à história da babá-título que, ainda hoje, ostenta o maior número de Oscars já conquistados pela Disney por um mesmo longa (foram cinco ao total, incluindo o de melhor atriz para Julie Andrews).

O espectador, por outro lado, precisa saber no que está embarcando: assim como o primeiro longa, O Retorno de Mary Poppins é um longuíssimo musical endereçado às crianças e aos fãs do gênero. Não gosta do título original? Então a minha sugestão é que você passe longe da sequência. Entre a admiração e o desgosto, fico no meio do caminho. Primeiro porque não compartilho grande entusiasmo pelo filme de 1964 e segundo porque, mesmo sendo um fã incondicional de musicais e de histórias que flutuam em otimismo e nostalgia, tanto a versão clássica quanto a sequência que chega agora aos cinemas são longos em demasia, inclusive por não haver uma história propriamente dita e sim todo tipo de brincadeira, música e maluquice (sim, muitas maluquices!) nas mágicas viagens proporcionadas pela protagonista. Só que as barrigas se revelam mais evidentes em O Retorno de Mary Poppins porque, no geral, as músicas são pouco memoráveis (não espere aqui nada equivalente à emblemática Supercalifragilisticexpialidocious) e, em muitos casos, perfeitamente dispensáveis. Cortando três ou quatro canções, teríamos, sem prejuízo algum, uma obra menos cansativa e com um desenrolar não tão esvaziado.

Em contra partida, a talentosíssima Emily Blunt,  que recebeu a bênção de Julie Andrews para assumir o papel e que já esteve ótima este ano em Um Lugar Silencioso, compensa os excessos com uma performance encantadora. Ao mesmo tempo em que presta uma homenagem à personagem eternizada por Andrews, Blunt permite que Mary Poppins também tenha traços indiscutivelmente seus. Com graça e elegância, ela ainda canta muitíssimo bem e, generosa que só, abre alas para que seus colegas de elenco também brilhem, seja os que aparecem em momento pontuais, como a maluca prima Topsy vivida por Meryl Streep, ou outros que, convenhamos, não precisavam de tanto protagonismo assim (por mais que seja um nome de referência na Broadway, Lin-Manuel Miranda surge sem muito carisma, desaparecendo diante da colega). A personificação de Blunt é tamanha que ela, acompanhada de um elenco de apoio super sofisticado (Ben Whishaw, Emily Mortimer, Colin Firth, Julie Walters, Dick Van Dyke, Angela Lansbury), eleva o encantamento e a inocência de O Retorno de Mary Poppins a um patamar que, apesar das cores, da nostalgia, da pureza e de todo o aparato técnico, muito provavelmente não seria alcançado sem ela.

“Tinta Bruta”: com prestigiada carreira internacional, longa gaúcho explora a busca por cores e pertencimento entre o mundo real e virtual

Tu consegue ver o teu futuro?

Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Elenco: Shico Menegat, Bruno Fernandes, Guega Peixoto, Sandra Dani, Frederico Vasques, Denis Gosh, Camila Falcão, Áurea Baptista, Zé Adão Barbosa, Larissa Sanguiné

Brasil, 2018, Drama, 118 minutos

Sinopse: O jovem Pedro (Shico Menegat) vive um momento complicado, ele responde a um processo criminal ao mesmo tempo em que precisa lidar com a mudança da irmã, sua única amiga. Como forma de catarse, ele assume o codinome GarotoNeon e passa a se apresentar anonimamente na internet dançando nu na escuridão do seu quarto, coberto apenas por uma tinta fluorescente. (Adoro Cinema)

Assim como tantas outras capitais do Brasil, a cidade de Porto Alegre, por questões majoritariamente políticas, vem definhando ano após ano. Como porto-alegrense, transito por ruas cada vez mais perigosas, pontos turísticos abandonados e espaços de convivência urbana desprezados pelo poder público, sempre tomado por um sentimento praticamente inexistente de acolhimento e hospitalidade. É nessa cidade desoladora que se desenvolve Tinta Bruta, novo projeto dos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon que chegou a vencer o prêmio Teddy no Festival de Berlim e quatro troféus no Festival do Rio em (melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante). Porto Alegre, que, na verdade, pode (e deve) ser interpretada aqui como a representação de qualquer outra grande metrópole do Brasil (e, por que não, do mundo), ainda se torna um tanto mais aterrorizante porque Tinta Bruta tem como protagonista um introvertido menino gay cuja existência por si só é negligenciada por olhares distantes nas janelas da cidade ou agredida, de uma forma ou de outra, por colegas e desconhecidos. Tudo isso traz uma incômoda dicotomia no que se vê no longa: ao mesmo tempo em que o filme é esperançoso ao convocar o espectador para a resistência e para a reação contra o conservadorismo, não deixa de ser profundamente triste que ele seja um retrato hiper fiel da desassistência e da solidão que vêm assolando as minorias em diferentes pontos do mundo.

Afeitos à geografia como fator preponderante para a construção emocional de seus personagens, Matzembacher e Reolon saem da intimidade proposta por um isolamento litorâneo em Beira-Mar para falar, dessa vez, sobre as condições de um protagonista LGBTQI+ na cidade grande e no convívio em sociedade. A dupla de diretores também sai da adolescência para a vida adulta com Pedro (Shico Menegat), que realiza performances eróticas na internet para ganhar alguns trocados ao mesmo tempo em que lida com um processo criminal e, principalmente, com a transição de inúmeros afetos em sua vida. O isolamento e o desamparo do garoto em uma cidade pouco convidativa são desoladores, evocando, de certa forma, o que o cineasta gaúcho José Pedro Goulart fez anos atrás em Ponto Zero, outro relato sobre um jovem solitário, de cabelos compridos e cheio de desejos que enfrenta uma Porto Alegre decisiva em sua condição e em seu comportamento. Se tenho profundas restrições ao drama Beira-Mar, o inverso acontece com Tinta Bruta, que é a melhor representação do tipo de Cinema que Matzembacher e Reolon vêm realizando desde os seus tempos de curta-metragistas, quando produziram títulos como Quarto Vazio, que, segundo eles, serviu de inspiração para esse novo longa. Mais do que a profundidade e a complexidade com que esmiúça as camadas de um introvertido protagonista, Tinta Bruta se potencializa através de seu timing com os nossos tempos: e não há maior prova disso do que a forma com que os personagens são desnudados em cenas eróticas e sexuais sem qualquer pudor ou acanhamento, reforçando a tese de que não há qualquer liderança política, homofóbica e conservadora que impeça as pessoas de elas expressarem quem realmente são.

Curiosamente, ainda que embalado por uma trilha sonora vibrante e coberto em cores neon, o sexo de Tinta Bruta ultrapassa o plano meramente erótico para se tornar uma das engrenagens emocionais do filme: é apenas por meio dele que o jovem Pedro consegue se expressar e ter algum tipo de intimidade com outra pessoas, mesmo que de maneira virtual. Isolado em seu apartamento, ele pouco interage com o mundo, o que é agravado pelos afetos que saem pouco a pouco da sua vida. Da irmã que está de mudança para Bahia até os seguidores online que começam a desaparecer após a chegada de um outro garoto em cores neon no site erótico, Pedro se vê cada vez mais isolado, e é por isso mesmo que toda e qualquer demonstração de carinho ou atenção recebida por ele ganha contornos tão comoventes, como o simples abraço da avó que vem lhe fazer uma breve visita. A precisão desse contraste é fundamental porque certas relações que o jovem estabelece são decisivas para a consistência emocional de Tinta Bruta, em especial a de Pedro com Leo, o garoto que passa a copiar o seu trabalho virtualmente. Ao invés de apenas tornar Leo uma nova figura que entra na vida do protagonista para depois arrancar um pouquinho mais da esperança do seu coração com algum tipo de despedida, Matzembacher e Reolon traduzem essa nova relação como uma experiência de extremo aprendizado para Pedro, que se permite desabrochar para a vida ao lado de quem até então considerava uma mera concorrência. A convivência entre os dois é um dos pontos altos da história, iluminando ainda uma gama de (in)definições envolvendo os relacionamentos contemporâneos.

Pedro e Leo se tornam tão críveis e envolventes porque Shico Menegat e Bruno Fernandes, seus respectivos intérpretes, são duas revelações em termos de interpretação. Estreante no ofício, Shico particularmente impressiona: dar vida um personagem de carga dramática tão intensa e interiorizada logo em um primeiro filme não é tarefa fácil, mas o ator surpreende na construção minuciosa do personagem, inclusive na tradução de vislumbres de felicidade, quando, por exemplo, Pedro observa, em um misto de curiosidade e fascínio, a dinâmica livre e espontânea de Leo com seus amigos, algo que até então parecia impossível nas ruas e no íntimo de uma cidade que nunca lhe proporcionou algo semelhante. Dito isso, Tinta Bruta mistura sexualidade (e consequentemente a quebra do tabu da nudez e do corpo masculino) com os dilemas de uma juventude que não sabe muito bem o que sentir ou para onde ir (todos os personagens dizem viver em uma espécia um purgatório e que não sentem que aquele é o lugar onde deveriam estar), propondo mais do que uma mensagem de resistência, mas sim de reação — e, na época nefasta que atravessamos, isso pode significar desde a coragem de não receber qualquer tipo de violência com passividade até simplesmente dançar como se ninguém estivesse olhando em uma noite qualquer, apesar de todas as adversidades.

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2019

Emily Blunt em O Retorno de Mary Poppins: atriz entra para o seleto grupo de atrizes que conseguiram dupla indicação nas categorias de Cinema do Screen Actors Guild Awards.

Com uma enxurrada de surpresas, o Screen Actors Guild Awards divulgou hoje a lista de indicados para a sua edição comemorativa de 25 anos. Votado exclusivamente por atores, o prêmio é um importante termômetro para o Oscar, visto que uma significativa parte do colegiado que escolhe os vencedores da distinção outorgada pela Academia são atores. Por isso mesmo, não há dúvidas de que Lady Gaga e Nasce Uma Estrela chegam mesmo com força total na temporada (uma cantora emplacar reconhecimento entre atores profissionais é a prova cabal desse prestígio) e que filmes mais populares como Pantera Negra e Bohemian Rhapsody têm tudo para estar estar entre os indicados ao Oscar de melhor filme, dadas as suas indicações a melhor elenco aqui.

No caminho oposto temos Vice, que emplacou lembranças para Amy Adams em coadjuvante (agora aparente favorita após a surpreendente exclusão de Regina King por Se a Rua Beale Falasse) e para Christian Bale em melhor ator, mas não para o elenco na categoria principal. Queridinha do SAG, Viola Davis, que já acumula cinco prêmios do Sindicato, não foi lembrada por As Viúvas, o que comprova de uma vez por todas a baixa do filme de Steve McQueen na temporada. Outra surpresa foi Nicole Kidman ter ficado de fora: se não fosse como protagonista por O Peso do Passado, era de se esperar que ela levasse uma indicação como coadjuvante por Boy Erased: Uma Verdade Anulada.

Considerando séries, minisséries e telefilmes, o SAG costuma ter prestígio extra também pelo fato de não estabelecer prêmios separados para coadjuvantes, que que podem ser considerados na mesma medida que os protagonistas nas categorias de melhor ator ou atriz. E é por isso mesmo que as indicações de Patricia Clarkson (Sharp Objects), Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story) e Joseph Fiennes (The Handmaid’s Tale) soam exageradas: não apenas eles não seriam os melhores concorrentes como coadjuvantes por si só como jamais mereciam competir com desempenhos de maiores dimensões, como o do próprio Darren Criss em The Assassination of Gianni Versace. Por outro lado, todos os aplausos do mundo para o SAG ao trazer o devido reconhecimento a Ozark, uma das pérolas da Netflix que pouca gente assiste e que tem um dos grandes desempenhos do ano: o de Julie Ganrer como a tempestuosa e trágica Ruth Langmore, aqui merecidamente equiparada com a colega Laura Linney em melhor atriz.

Mesmo assim, a maior estrela dessa edição do SAG é Emily Blunt, que conseguiu um feito pouco usual: uma indicação dupla nas categorias de Cinema. Como coadjuvante, concorre por Um Lugar Silencioso, onde está ótima em um filme de terror, gênero que costuma ser solenemente ignorado pelos prêmios (Toni Collette, por Hereditário, vem sendo prejudicada por isso). Já como protagonista, emplaca com uma das grandes surpresas dessa temporada: O Retorno de Mary Poppins, musical dirigido por Rob Marshall que vem sendo amplamente abraçado pela crítica. A classificação de coadjuvante por Um Lugar Silencioso é absurda, e se Blunt levará ou não para casa uma das estatuetas é outra história, mas só a dupla indicação já traz um valioso reconhecimento a essa intérprete que já esteve digna de nota em filmes como Sicario: Terra de Ninguém, O Diabo Veste Prada, A Jovem Rainha Victoria, Meu Amor de Verão e até no péssimo A Garota no Trem, mas que nunca chegou ao Oscar.

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2019 serão conhecidos no dia 27 de janeiro. Fique abaixo com a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Bohemian Rhapsody
Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra
Podres de Ricos

MELHOR ATRIZ
Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins)
Glenn Close (A Esposa)
Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Olivia Colman (A Favorita)

MELHOR ATOR
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Christian Bale (Vice)
John David Washington (Infiltrado na Klan)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Viggo Mortensen (Green Book: O Guia)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)
Emily Blunt (Um Lugar Silencioso)
Emma Stone (A Favorita)
Margot Robbie (Duas Rainhas)
Rachel Weisz (A Favorita)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)
Timothée Chalamet (Querido Menino)

 

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM DRAMA
The Americans
Better Call Saul
The Handmaid’s Tale
This is Us
Ozark

MELHOR ELENCO EM COMÉDIA
Atlanta
Barry
Glow
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR ATRIZ EM DRAMA
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Julia Garner (Ozark)
Laura Linney (Ozark)
Robin Wright (House of Cards)
Sandra Oh (Killing Eve)

MELHOR ATOR EM DRAMA
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Jason Bateman (Ozark)
John Krasinski (Jack Ryan)
Joseph Fiennes (The Handmaid’s Tale)
Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Alison Brie (GLOW)
Jane Fonda (Grace and Frankie)
Lily Tomlin (Grace and Frankie)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATOR EM COMÉDIA
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Bill Hader (Barry)
Henry Winkler (Barry)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ  EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Amy Adams (Sharp Objects)
Emma Stone (Maniac)
Patricia Arquette (Escape at Dannemora)
Patricia Clarkson (Sharp Objects)
Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Anthony Hopkins (King Lear)
Antonio Banderas (Genius: Picasso)
Bill Pullman (The Sinner)
Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Hugh Grant (A Very English Scandal)

“As Viúvas”: certeiro ao renegar definições e criar atmosfera própria, filme de Steve McQueen fraciona potência dramática no excesso de tramas e personagens

No one thinks we have the balls to pull this off.

Direção: Steve McQueen

Roteiro: Gillian Flynn e Steve McQueen, baseado no romance homônimo de Lynda La Plante

Elenco: Viola Davis, Elizabeth Debicki, Michelle Rodriguez, Colin Farrell, Daniel Kaluuya, Robert Duvall, Cynthia Erivo, Liam Neeson, Carrie Coon, Jackie Weaver, Jon Bernthal, Brian Tyree Henry, Manuel Garcia-Rulfo

Widows, EUA/Reino Unido, 2018, Drama/Policial, 129 minutos

Sinopse: Um assalto frustrado faz com que Harry Rawlins (Liam Neeson) e sua gangue sejam mortos pela polícia e o dinheiro que roubaram seja destruído pelas chamas. Isto faz com que a viúva de Harry, Veronica (Viola Davis), seja cobrada para que a quantia roubada seja devolvida. Pressionada, ela encontra um caderno de anotações de Harry que prevê em detalhes aquele que seria seu próximo golpe. Veronica então decide realizar o roubo, tendo a ajuda das demais viúvas dos mortos no assalto frustrado. (Adoro Cinema)

As Viúvas não é exatamente o que você espera, e talvez tenha sido essa a intenção do cineasta Steve McQueen. Em seu primeiro trabalho após a consagração de 12 Anos de Escravidão no Oscar, ele promove uma assumida mistura de gêneros e estilos: não somente As Viúvas está muito longe de ser um mero relato sobre mulheres que orquestram um grande assalto como também renega qualquer traço do dramalhão que poderia nascer de uma história sobre esposas que perdem os maridos mafiosos em um confronto fatídico com a polícia. Aliás, McQueen, que escreveu o roteiro ao lado de Gillian Flynn (Garota Exemplar), prefere encarar o luto com certa distância e frieza, uma vez que Veronica, a protagonista interpretada por Viola Davis, sequer tem tempo para sofrer: no mesmo dia do velório, ela já recebe a visita de um homem perigoso que exige receber os dois milhões de dólares perdidos no ataque da polícia aos falecidos mafiosos. A partir disso, As Viúvas mistura dramas pessoais, ironia, política, crítica social e adrenalina, compondo um relato cuja maior força é, justamente, não ter estilo algum, o que é no mínimo uma provocação para plateias que costumam se incomodar com qualquer dose de indefinição ou imprevisibilidade.

Subversivo no sentido de criar uma história onde mulheres estão na linha de frente de um serviço essencialmente masculino (e retratado pelo Cinema da mesma maneira), As Viúvas é um primor em termos de representatividade, começando pela protagonista, uma mulher negra que, mesmo sabendo, nunca se envolveu com os atos ilícitos de seu marido branco, construindo uma carreira própria e bem sucedida (isso é o que acusa cada look elegantíssimo que Viola Davis, nunca tão bem fotografada, ostenta entre uma cena e outra). Mais uma viúva da trama, a latina vivida por Michelle Rodriguez se preocupa, mas não entra em colapso ao ver ruir o negócio que administrava e até então dava como certo. Pelo contrário: por ser mãe em uma nova condição não tão favorável, ela vai à luta e é a primeira a seguir toda ordem disparada pela personagem de Viola Davis. Já a esguia Alice interpretada por Elizabeth Debicki carrega um perceptível histórico de abuso familiar e matrimonial, mas, aos poucos, começa a juntar forças que ela própria não imaginava ter para, de sua própria maneira, conseguir se desvencilhar dos vícios e malefícios trazidos por esses traumas. Por incrível que pareça, ainda em 2018, é importante festejar decisões como essas quando elas deveriam ser perfeitamente  corriqueiras na maioria esmagadora das produções que vemos ao longo dos anos.

Ao renegar escolhas convencionais quando retrata o processo de luto, As Viúvas ganha em sobriedade, inclusive criando uma atmosfera gélida que casa com a ameaça e a instabilidade da sociedade corrompida e calejada que procura retratar. Tanto essa contextualização dá certo que o longa parece no mínimo artificial, para não dizer novelesco, quando tenta criar alguma passagem mais calorosa, como aquela em que a personagem de Viola Davis coloca Wild is the Wind, da icônica Nina Simone, para tocar e imagina um abraço do falecido marido ao ver seu reflexo da janela da sala. É buscando a sobriedade que McQueen cria os melhores momentos de As Viúvas, quase como se quisesse criar um certo distanciamento de 12 Anos de Escravidão, longa onde não poupou sofrimento, sangue e violência ao falar sobre racismo e escravidão. Para quem desejava algo na linha do premiado filme estrelado por Chiwetel Ejiofor ou até mesmo algo mais comercial como o recente Oito Mulheres e Um Segredo por se tratar de uma história de roubo, o resultado pode ser deveras anti-climático, o que, ao meu ver, nada mais é do que uma grata surpresa.

Há, contudo, um certo estranhamento, dessa vez bem menos interessante, que é o de uma trama fracionada em uma grande quantidade de situações e personagens. Temos uma protagonista conduzindo a história, mas, em muitos casos, ela divide praticamente o mesmo tempo de tela entre com os outros personagens. Alguns deles são interessantíssimos, enquanto outros desapontam por estarem quase em um relato a parte, a exemplo do político interpretado sem muita energia ou criatividade por Colin Farell. Com isso, As Viúvas não constrói necessariamente uma unidade e acaba se embolando, como se prometesse um clímax engenhoso pra amarrar tantas jornadas paralelas. E mais: com o meio de campo tão lotado, há pouco aproveitamento de excelentes intérpretes, tanto masculinos quanto femininos, a exemplo da grande Carrie Coon, cujo potencial testemunhamos durante três anos do seriado The Leftovers. Nesse balanço irregular, os acertos são preciosos: Viola Davis traz sua intensidade de sempre para uma mulher que se vê obrigada a colocar a razão antes de qualquer emoção, Daniel Kaluuya surge com uma energia macabra como um criminoso que exala perigo e Elizabeth Debicki se destaca pela delicadeza com que tateia o reerguimento de uma mulher bastante fragilizada do ponto de vista emocional.

Como um exemplar mais sofisticado de tantos filmes de suspense que se eternizaram nas madrugadas da TV aberta, As Viúvas traz a sua boa dose de reviravoltas e revelações. Prepare-se para ver personagens virando a casaca, surpresas de última hora em situações decisivas, coadjuvantes se revelando mais fundamentais para o encaixe das pessoas do que se poderia supor e até mesmo o clássico disparo de revólver que, na verdade, não foi feito por quem o longa nos sugeriu. Quando se encaminha para o desfecho, As Viúvas traz plot twists e explicações de maneira equivalente ao seu número de personagens, o que fragiliza um tanto mais o roteiro, pois não há tempo hábil para encorpar certas reviravoltas que mereciam mais digestão e construção de atmosfera. Como exercício de direção, o longa se engrandece muito mais, e por isso mesmo o descompasso é sentido. Na dificuldade em ser conciso (até chegar a sua versão final, o primeiro corte teria registrado, segundo o próprio McQueen, um filme de três horas de duração), As Viúvas fragiliza uma potência madura e envolvente que, sejamos francos, é sempre muito difícil de ser encontrada por aí. 

Os indicados ao Globo de Ouro 2019

Se a Rua Beale Falasse, de Barry Jenkins, é um dos três títulos dirigidos por cineastas negros que concorrem ao Globo de Ouro 2019 de melhor filme dramático.

Se os prêmios outorgados pelas associações de críticos servem mais para colocar no radar uma primeira leva de filmes que podem pipocar na temporada pelos próximos meses, prêmios televisionados como o Globo de Ouro chegam para organizar o meio de campo e finalmente traçar possibilidades mais concretas para a temporada de premiações. Foi o que vimos hoje na lista apresentada pela Hollywood Foreign Press, que ontem também anunciou Andy Samberg e Sandra Oh como os apresentadores de sua próxima edição.

Uma conclusão é clara com a lista: as comédias chegam com uma disputa infinitamente mais interessante este ano, enquanto, nos dramas, parece bastante provável que o Globo de Ouro estrague a festa de três ótimos realizadores negros (Ryan Coogler com Pantera Negra, Barry Jenkins com Se a Rua Beale Falasse e Spike Lee com Infiltrado na Klan) ao se entregar à exacerbada comoção cultivada por Nasce Uma Estrela nos últimos meses. Aliás, com Roma fora da disputa em em melhor drama (o filme não pode concorrer devido a uma absurda regra do Globo de Ouro que impede produções estrangeiras de figurarem categoria principal), a disputa se torna ainda menos encorpada.

Chegando como uma grande favorita ao Oscar, Glenn Close emplacou sua esperada indicação como melhor atriz por A Esposa, mas, a exemplo do que aconteceu no Oscar de 1988 quando perdeu para Cher em Feitiço da Lua, a veterana pode ter mais uma cantora pop no caminho de sua aguardada consagração: Lady Gaga, que já tem um Globo de Ouro em casa pelo seriado American Horror Story (e nunca é prudente duvidar do amor dos votantes por uma grande estrela). Seguindo nas interpretações, não deixam de ser sentidas as ausências de Ethan Hawke (No Coração da Escuridão) e Toni Collette (Hereditário), que vivem uma boa fase entre os críticos (mais uma prova de que prêmios televisionados são um assunto à parte). Hawke, aliás, pode muito bem ser substituído, em um cenário geral daqui para frente, por Lucas Hedges, indicado a melhor ator por sua interpretação em Boy Erased: Uma Verdade Anulada.

Surpreendentemente, a briga é acirrada entre as comédias, cuja lista endossou até mesmo o excelente momento vivido por O Retorno de Mary Poppins, que chegou aos 45 do segundo tempo com excelente repercussão e uma recente menção no TOP 10 do ano promovido pelo American Film Institute. Ainda que equivocada na classificação de gênero, a maravilhosa performance de Charlize Theron em Tully é outra preciosa lembrança da lista. Time dos bons também nas canções originais (escritas, entre outros, por Lady Gaga, Troye Sivan, Dolly Parton e Kendrick Lamar) e nos indicados a trilha sonora (incluindo a ótima trilha de Justin Hurwitz para O Primeiro Homem, drama de Damien Chazelle que, no geral, foi solenemente ignorado).

Para quem acompanha seriados, o Globo de Ouro fez a sua miscelânea habitual pontuando algumas novas temporadas de programas já consagrados (a fresquíssima segunda temporada de The Marvelous Mrs. Maisel já se qualificou para essa lista!) e outros programas que fizeram sua estreia nos últimos meses (e que mal ouvimos falar), como é o caso de Kidding, série que repete a parceria entre Jim Carrey e o diretor Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças).

Além da lista de indicados, o Globo de Ouro anunciou a criação de um novo prêmio honorário, dessa vez voltado para os profissionais de TV. “Os homenageados serão selecionados com base em suas realizações e na influência e impacto que suas carreiras trouxeram para a indústria e para o público”, adiantou Meher Tatna, presidente da Hollywood Foreign Press. O agraciado desta edição será revelado futuramente. Lembrando que o Globo de Ouro 2019 acontece no dia seis de janeiro. Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA
Bohemian Rhapsody

Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra

Se a Rua Beale Falasse

MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL
A Favorita
Green Book: O Guia
Podres de Ricos

O Retorno de Mary Poppins
Vice

MELHOR DIREÇÃO
Adam McKay (Vice)

Alfonso Cuaron (Roma)
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Peter Farrelly (Green Book: O Guia)
Spike Lee (Infiltrado na Klan)

MELHOR ATRIZ DRAMA
Glenn Close (A Esposa)

Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
Nicole Kidman (O Peso do Passado)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Rosamund Pike (A Private War)

MELHOR ATOR DRAMA
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)

John David Washington (Infiltrado na Klan)
Lucas Hedges (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL
Charlize Theron (Tully)

Constance Wu (Podres de Ricos)
Elsie Fisher (Oitava Série)
Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins)
Olivia Colman (A Favorita)

MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL
Christian Bale (Vice)

John C. Reilly (Stan & Ollie)
Lin-Manuel Miranda (O Retorno de Mary Poppins)
Robert Redford (The Old Man & the Gun)
Viggo Mortensen (Green Book: O Guia)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)

Claire Foy (O Primeiro Homem)
Emma Stone (A Favorita)
Rachel Weisz (A Favorita)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Driver (Infiltrado na Klan)

Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Sam Rockwell (Vice)
Timothée Chalamet (Querido Menino)

MELHOR ANIMAÇÃO
Homem-Aranha no Aranhaverso
Ilha dos Cachorros
Os Incríveis 2

Mirai
WiFi Ralph: Quebrando a internet

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“All the Stars” (Pantera Negra)
“Girl in the Movies” (Dumplin’)
“Requiem for a Private War” (A Private War)
“Revelation” (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
“Shallow” (Nasce Uma Estrela)

MELHOR TRILHA SONORA
Ilha dos Cachorros
Um Lugar Silencioso
Pantera Negra
O Primeiro Homem
O Retorno de Mary Poppins

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Assunto de Família (Japão)

Cafarnaum (Líbano)
Girl (Bélgica)
Never Look Away (Alemanha)
Roma (México)

MELHOR ROTEIRO
A Favorita
Green Book: O Guia
Roma
Se a Rua Beale Falasse
Vice

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DRAMA
The Americans

Bodyguard
Homecoming
Killing Eve
Pose

MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Barry
The Good Place
Kidding
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME
The Alienist

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story
Escape at Dannemora
Sharp Objects
A Very English Scandal

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMA
Caitriona Balfe (Outlander)

Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Julia Roberts (Homecoming)
Keri Russell (The Americans)
Sandra Oh (Killing Eve)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Alison Brie (Glow)

Candice Bergen (Murphy Brown)
Debra Messing (Will & Grace)
Kristen Bell (The Good Place)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Amy Adams (Sharp Objects)

Connie Britton (Dirty John)
Laura Dern (O Conto)
Patricia Arquette (Escape at Dannemora)
Regina King (Seven Seconds)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMA
Billy Porter (Pose)

Jason Bateman (Ozark)
Matthew Rhys (The Americans)
Richard Madden (Bodyguard)
Stephan James (Homecoming)

MELHOR ATOR EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Bill Hader (Barry)

Donald Glover (Atlanta)
Jim Carrey (Kidding)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Sacha Baron Cohen (Who is America?)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Antonio Banderas (Genius: Picasso)

Benedict Cumberbatch (Patrick Melrose)
Daniel Bruhl (The Alieniest)
Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Hugh Grant (A Very English Scandal)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)

Patricia Clarkson (Sharp Objects)
Penelope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Thandie Newton (Westworld)
Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Alan Arkin (The Kominsky Method)

Ben Whishaw (A Very English Scandal)
Edgar Ramirez (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Henry Winkler (Barry)
Kieran Culkin (Succession)

Dez ótimos filmes que completaram dez anos de lançamento em 2018

Uma boa maneira constatar a rápida passagem do tempo é elencando quais filmes estão completando aniversário em determinado ano. E, já que entramos em dezembro, mês tradicionalmente dedicado a listas de melhores do ano e ao início da temporada de premiações, resolvi entrar nesse espírito. Em 2018, diversos filmes completaram dez anos de lançamento (aproveito para lembrar que, aqui no blog, sempre levo a estreia comercial nos cinemas brasileiros no parâmetro para definir a minha cronologia cinematográfica), entre eles, obras consagradas entre público e crítica, como Batman: O Cavaleiro das Trevas. Também tivemos o aniversário de Sangue NegroOnde os Fracos Não Têm Vez, O Escafandro e a Borboleta e Na Natureza Selvagem. Alguns chegaram a receber até uma continuação para marcar seus dez anos de lançamento, caso de Mamma Mia!, que, em 2008, considerando suas intenções e dimensões, foi um estrondoso sucesso de bilheteria. Contudo, deixo de lado esses títulos já amplamente referenciados para selecionar dez dos meus favoritos pessoais que, há exata uma década, chegavam em terras brasileiras. Quais deles também fazem parte dos queridinhos de vocês? 

•••

Philip Seymour Hoffman e Laura Linney brilham como dois irmãos em conflito no drama A Família Savage.

A FAMÍLIA SAVAGE, de Tamara Jenkins: Em 2018, a diretora e roteirista Tamara Jenkins finalmente voltou à ativa com Mais Uma Chance, seu primeiro filme desde o maravilhoso A Família Savage, lançado em 2008 e que reuniu uma dupla para ninguém colocar defeito: Laura Linney e Philip Seymour Hoffman (ela chegou a ser merecidamente indicada ao Oscar por seu desempenho). Muito mais do que um registro tradicional sobre dois filhos que precisam lidar com um pai doente, A Família Savage descortina o processo de envelhecimento sem qualquer firula ou maquiagem, mas o que torna esse trabalho tão humano e contundente é a relação entre os dois irmãos, ambos tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes — e por isso mesmo distantes do ponto de vista físico e emocional. Nas complexidades dos pequenos momentos e comportamentos tanto dos personagens quanto de todos nós, Jenkins cria uma história franca, colada à realidade e elevada a níveis tocantes por dois grandes atores em estado de graça.

CHEGA DE SAUDADE, de Laís Bodanzky: Por falar em histórias sobre envelhecimento, Chega de Saudade, da premiada diretora Laís Bodanzky, é outro título que contempla a temática da terceira idade e completa uma década de lançamento em 2018. O clima, entretanto, é totalmente diferente de A Família Savage: acompanhando cinco personagens frequentadores de um baile de dança em São Paulo, Chega de Saudade tem como cenário um animado salão que, em uma nova noite de música e dança, abre as portas para o seu público tão querido e fiel. Na pista e nos bastidores, os personagens amam, desejam, flertam, gargalham e choram, representando a inegável complexidade de longas histórias de vida. O elenco é um primor (Cássia Kis, Tônia Carrero, Clarisse Abujamra, Betty Faria, Stepan Nercessian), assim como a trilha compartilhada entre Elza Soares, Marku Ribas e a banda Luar de Prata que revive grandes sucessos dos salões de baile. Humano e simples como poucos diretores conseguiriam registrar.

APENAS UMA VEZ, de John Carney: Veio da Irlanda um dos romances comoventes dos últimos dez anos. Vencedor do Oscar de melhor canção original (“Falling Slowly”), Apenas Uma Vez é a perfeita síntese de como a simplicidade pode andar de mãos dadas com a emoção. Além disso, essa é uma produção que utiliza a música como elemento narrativo primordial, sem jamais reduzi-la a mero entretenimento ou curiosidade. É, afinal, por meio das canções que atravessamos as ruas de Dublin para conhecer um casal sem nome que muito se aproxima dos sonhos e dos anseios vividos por pessoas como eu e você. Apenas Uma Vez tem corpo, alma e uma coesão musical que muitos exemplares ambiciosos do gênero somente sonham em alcançar. Anos depois, o diretor John Carney viria a realizar outro drama romântico construído através da música, novamente na mesma batida de dramas cotidianos: o também adorável Mesmo Se Nada Der Certo.

Grandioso em escala e sentimento, Desejo e Reparação ainda é o ponto mais alto na carreira do diretor Joe Wright.

DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe Wright: São raros os filmes que conseguem ser épicos em escala e intimismo, mas Desejo e Reparação é inquestionavelmente um deles. O que Joe Wright faz aqui ainda marca o auge de sua carreira: fora o apuro estético que permanece irretocável mesmo após uma década (e que provavelmente eternizará a sua áurea de clássico contemporâneo), Desejo e Reparação avança por diferentes tempos e perspectivas para falar sobre atos, consequências e suas diferentes reverberações através da culpa. No elenco, Keira Knightley e James McAvoy formam um casal como os melhores dos clássicos norte-americanos, mas é Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Regrave que roubam a cena quando dão vida à complexa Briony Tallis em diferentes fases (e, ainda que de certa forma polêmica, a personagem é capaz de passar um turbilhão de emoções ao espectador, principalmente no desfecho avassalador). Destaque ainda para a inesquecível trilha do italiano Dario Marianelli e o impressionante plano-sequência na batalha de Dunquerque.

LONGE DELA, de Sarah Polley: Sem dirigir ou atuar desde 2012, quando realizou o documentário Histórias Que Nós Contamos, Sarah Polley provou toda sua elegância, sobriedade e delicadeza como realizadora anos antes, ao lançar, em 2008, o drama Longe Dela, sua estreia na direção de longas após quarto curtas e uma breve experiência na TV. O resultado tem consistência como se fosse assinado por uma veterana: ao adaptar o conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro, Polley registra a clássica história do marido que lida com o Mal de Alzheimer da esposa, mas o relato, centrado mais na cotidianidade emocional de seus personagens do que no sofrimento trazido pela doença, propõe olhares diferenciados para uma temática já explorada extensivamente. Ao traduzir as complexidades e as transformações de um casal que compartilhou uma vida inteira juntos, Longe Dela se torna maduro e comovente por seu respeito à vida e ao quanto nos adaptamos ao longo e ao fim dela.

WALL-E, de Andrew Stanton: Foram nada menos do que seis indicações ao Oscar (e, claro, o troféu de melhor animação daquele ano), número que já sugere um prestígio raro inclusive para hoje os dias de hoje se tratando de produções com o selo Disney/Pixar, mas a verdade é que WALL-E representa mesmo um dos mais inesquecíveis momentos na carreira de todos os envolvidos no projeto. Com um emblemático personagem-título, a animação é impactante do ponto de vista visual e envolvente ao desenvolver uma trama ambiciosa que flutua entre o planeta Terra e o espaço sideral, preservando, mesmo após dez anos, a atualidade das questões tecnológicas e ambientais levantadas na época. Em suma, é uma animação inusitada e altamente criativa, exatamente no padrão das que elevaram o nome da Pixar, estúdio que hoje já não realiza exemplares semelhantes com a mesma frequência após ter sido comprado pela Disney.

Subestimado por público e crítica, Ensaio Sobre a Cegueira teve a validação do consagrado escritor José Saramago.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de Fernando Meirelles: Da morna recepção em Cannes ao pouco apreço do público no circuito comercial, Ensaio Sobre a Cegueira teve, no entanto, a aprovação que o diretor Fernando Meirelles mais precisava: a de José Saramago, autor da obra homônima cuja adaptação era tida como impossível e que não escondeu a sua comoção ao ver seu trabalho transposto para as telas. Não concordo com as recepções medianas que Ensaio Sobre a Cegueira recebeu em seu lançamento e tenho esse filme como mais um ótimo exemplo de toda a solidez de Fernando Meirelles como realizador mesmo em terras estrangeiras. Explorando a barbárie de seres humanos que regridem para seu instinto mais primitivo após uma cegueira repentina, o relato é cru na medida exata, levando esse acertado ponto de equilíbrio dramático para a parte técnica (lembram da impactante fotografia de César Charlone?) e também para as interpretações, onde a grande Julianne Moore tem um dos desempenhos mais subestimados de toda a sua carreira.

O NEVOEIRO, de Frank Darabont: Último longa-metragem dirigido pelo prestigiado Frank Darabont (Um Sonho de LiberdadeÀ Espera de Um Milagre) até o presente momento, O Nevoeiro adapta o romance homônimo do mestre Stephen King com vigor tanto no suspense quanto nas diversas provocações suscitadas ao longo de uma história aparentemente corriqueira sobre pessoas que ficam presas em um supermercado em função de um forte nevoeiro. Para absorver o que existe de melhor do longa, é preciso compreender que o verdadeiro horror não está no que os personagens deduzem ter no lado de fora do estabelecimento, mas sim nas conturbadas e perigosas relações humanas que passam a estabelecer coletivamente em um espaço restrito. O desfecho é atordoante e a condução até lá exercita o suspense com questões cotidianas a partir de um plano mais fantástico, proporcionando momentos assustadores e que fazem emergir o pior da mente humana — e nesse sentido, a magnífica interpretação de Marcia Gay Harden dificilmente sairá da sua cabeça após a sessão.

[REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza: É o tipo de terror estrangeiro que o cinema norte-americano tentou copiar posteriormente, mas que, assim como tantos outros, não rendeu qualquer produção equivalente longe de sua terra nativa. Concebido na Espanha, [REC] acompanha uma repórter e um operador de câmera que, chamados para fazer a cobertura de uma situação de emergência em um grande prédio, acabam presos no local após acontecimentos misteriosos. A proposta de gravar tudo em primeira pessoa (o repórter, apesar de todos os acontecimentos possíveis, nunca desliga a câmera) parece batida, mas, na época e ainda hoje, [REC] a utilizou com uma visceralidade única, levando diversas plateias ao redor do mundo para os mais sombrios e angustiantes lugares que a nossa imaginação pode criar (pouco é de fato mostrado no longa, o que deixa basicamente tudo para a mente do espectador). Pela eletrizante viagem orquestrada, dá até para relevar uma certa implausibilidade do operador de câmera nunca desligar o equipamento mesmo nas situações mais desesperadoras.

VICKY CRISTINA BARCELONA, de Woody Allen: Um dos trabalhos mais inspirados de Woody Allen considerando tudo o que ele realizou desde o início dos anos 2000, Vicky Cristina Barcelona tem muito a encantar com as charmosas paisagens e locações espanholas. No entanto, o mais interessante do filme é explorar as decisões irresistivelmente tortas e inconscientes que tomamos quando não sabemos exatamente o que queremos para a vida. Assim são todos os personagens do longa: fascinantes por serem erráticos nessa busca incessante que alimentamos por um suposto caminho certo, quando, na verdade, irremediavelmente, todos não deixam de ser errados dependendo da perspectiva. Scarlett Johansson, Rebecca Hall e Javier Bardem desdobram tais reflexões com uma química impecável, mas é Penélope Cruz, em uma fase iluminada depois da merecida e positiva reviravolta trazida para a sua carreira por Volver, que rouba a cena. É, enfim, um momento inspirado na prolífera carreira de um diretor cuja trajetória no Cinema hoje está basicamente encerrada após a avassaladora onda do movimento #MeToo.

%d blogueiros gostam disto: