Cinema e Argumento

Os vencedores do Emmy 2019

Julia Garner, melhor atriz coadjuvante por Ozark: merecido prêmio da intérprete foi um dos pontos altos de uma noite com várias surpresas, mas igualmente empoeirada por um apego irremediável a Game of Thrones.

Tão oxigenada quanto empoeirada. Assim podemos definir a cerimônia de premiação do Emmy 2019. Afinal, é difícil entender como os votantes compreendem que o tempo de Veep já passou, mas seguem apegados a um passado glorioso já distante de Game of Thrones. É no mínimo desmoralizada a vitória do hit da HBO: segundo os votantes, o programa não tem o melhor roteiro, nem a melhor direção, muito menos os melhores protagonistas. No entanto, é a melhor série do ano? No final das contas, só quem fez par com o prêmio de melhor série pela mesma atração foi Peter Dinklage como ator coadjuvante.

A decisão surge um tanto imperdoável no ano em que o Emmy reservou surpresas pioneiras e agradabilíssimas, como o prêmio de atriz coadjuvante em série dramática para Julia Garner (Ozark), o de melhor ator em minissérie para Jharrel Jerome (When They See Us) e o de atriz coadjuvante em minissérie para Patricia Arquette (The Act). Mesmo Fleabag, que levou mais prêmios do que deveria em comparação à obra-prima que é a segunda temporada de The Marvelous Mrs. Maisel, é um excelente sinal de renovação para o Emmy. Coloque ainda na conta surpresas aclamadas como Billy Porter levando melhor ator por Pose, Michelle Willims sendo consagrada pela minissérie Fosse/Verdon e Jason Bateman surpreendendo em melhor direção de série dramática com Ozark.

E aí o Emmy resolve puxar o freio de mão com Game of Thrones no último prêmio da noite. Fica o mistério sobre o que passou pela cabeça dos votantes para celebrar a última temporada tão criticada por público e crítica do programa… Consagração pelo conjunto da obra? Prêmios como esse não são feitos para servir a tal propósito. Estamos aqui para eleger melhor série do ano (não o melhor legado), título que Game of Thrones já havia conquistado em quatro ocasiões no Emmy. Ano que vem, ao menos, estamos livres de uma estatueta como essa entregue no piloto-automático ou por algum tipo de saudosismo antecipado…

Confira abaixo a lista de vencedores do Emmy 2019:

MELHOR SÉRIE DRAMA: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Fleabag
MELHOR MINISSÉRIE: Chernobyl
MELHOR TELEFILMEBlack Mirror: Bandersnatch

MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Jodie Comer (Killing Eve)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Michelle Williams (Fosse/Verdon)

MELHOR ATOR EM DRAMA: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Bill Hader (Barry)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jharrel Jerome (When They See Us)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (The Act)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Ben Whishaw (A Very English Scandal)
MELHOR DIREÇÃO EM DRAMA: Jason Bateman (Ozark, pelo episódio Reparations)
MELHOR ROTEIRO EM DRAMA: Jesse Armstrong (Succession, pelo episódio Nobody is Ever Missing)
MELHOR DIREÇÃO EM COMÉDIA: Harry Bradbeer (Fleabag, por Episode #2.1)
MELHOR ROTEIRO EM COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag, por Episode #2.1)
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE: Johan Renck (Chernobyl)
MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE: Craig Mazin (Chernobyl)

Apostas para o Emmy 2019

Na noite em que o Emmy provavelmente consagrará a última temporada de Game of Thrones que até mesmo os atores da série se esquivaram de comentar ou elogiar, as comédias e as minisséries podem muito bem roubar a cena da cerimônia. Se entre os dramas a disputa é apática, os outros segmentos reservam disputas tão interessantes quanto de alto nível. Afinal, seria o retorno de Veep com uma última temporada suficiente para acabar com o reinado absoluto de The Marvelous Mrs. Maisel, que, no ano passado, faturou as categorias de melhor série, atriz, atriz coadjuvante, roteiro e direção? E como os votantes irão reagir ao embate entre When They See UsChernobyl, as duas minisséries mais aclamadas de 2019? O suspense se estende às categorias de atuação, que estão tão plurais e indefinidas quanto o talento dos concorrentes? Abaixo, deixo alguns palpites para a cerimônia de hoje à noite, que será transmitida a partir das 21h, pela TNT. Antes disso, não deixe de passar na página oficial do Cinema e Argumento no Facebook para conferir, às 19h, a nossa live com comentários sobre cada uma dessas apostas.

MELHOR SÉRIE DRAMA: Game of Thrones / alt: Ozark
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel / alt: Veep
MELHOR MINISSÉRIE: When They See Us / alt: Chernobyl
MELHOR TELEFILMEBlack Mirror: Bandersnatch / alt: Deadwood

MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Sandra Oh (Killing Eve) / alt: Laura Linney (Ozark)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep) / alt: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (Escape at Dannemora) / alt: Michelle Williams (Fosse/Verdon)

MELHOR ATOR EM DRAMA: Jason Bateman (Ozark) / alt: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Bill Hader (Barry) / alt: Michael Douglas (The Kominsky Method)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jharrel Jerome (When They See Us) / alt: Mahershala Ali (True Detective)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Julia Garner (Ozark) / alt: Fiona Shaw (Killing Eve)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Olivia Colman (Fleabag)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Clarskson (Sharp Objects) / alt: Emily Watson (Chernobyl)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones) / alt: Nikolaj Coster-Waldau (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Henry Winkler (Barry)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Asante Blackk (When They See Us) / alt: Stellan Skarsgård (Chernobyl)

“Midsommar: O Mal Não Espera a Noite”: apático e sem ritmo, novo terror de Ari Aster não cumpre as expectativas em torno do diretor

Do you feel held by him? Does he feel like home to you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill, Julia Ragnarsson

Midsommar, EUA/Suécia, 2019, Terror/Drama, 137 minutos

Sinopse: Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo vai se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã.  (Adoro Cinema)

Se há uma vertente do terror que reagrupou força e relevância nos últimos anos, essa foi a que investiga o ser humano em seus sentimentos mais nebulosos, sofridos e atordoantes. De natureza antropológica e nada comercial, A Bruxa, por exemplo, mostrou as fraquezas morais, religiosas e sociais de uma família que, entre outras coisas, não sabe sequer lidar com o crescimento de uma filha que já começa a amadurecer e a entrar na vida adulta. Já aqui no Brasil, produções maravilhosas como O Animal Cordial, As Boas ManeirasMormaço lançaram um olhar muito crítico para as profundas feridas de um país ainda assolado pelo preconceito, pela intolerância e pela desigualdade. E também existe Ari Aster que, nos Estados Unidos, exorcizou os dramas de uma família em profundo luto com o cultuado Hereditário e que agora é mais uma vez aclamado com Midsommar: O Mal Não Espera à Noite, onde encena a deterioração de um relacionamento amoroso marcado pelo individualismo, pela incomunicabilidade e pela falta de empatia.

Individualismo, incomunicabilidade e falta de comunicação são definições até generosas para o que Christian (Jack Reynor) faz com Dani (Florence Pugh). Forçando-se a cuidar da namorada que não ama mais apenas por pena ou por não conseguir terminar com ela, Christian ilude emocionalmente uma garota marcada por uma recente tragédia familiar. Sem saber dispensar a namorada, Christian convida Dani para uma viagem que ele faria com seus amigos homens para a Suécia, o que desperta uma imediata frustração no grupo que já esquematizava a frequência com que fariam sexo em terras estrangeiras. Chegando na Suécia, eles ficam hospedados em uma pequena comunidade que vive um festival de verão muito particular, onde todos são convidados a testemunhar e até mesmo participar de determinados rituais. E isso é tudo o que você precisa saber sobre a tônica de Midsommar, que passa a colocar as suas cartas na mesa a partir daí. Antes disso, Ari Aster claramente bebia da fonte do que Hereditário tinha de melhor: o luto como matéria-prima para o desatino mental e  para sentimentos desencontrados que despertam a imprevisibilidade nas ações humanas.

Vale lembrar que Aster despontou como uma verdadeira promessa ao lançar Hereditário. Ainda que irregular (e até um tanto desonesto) ao jogar fora a promessa de um terror psicológico para sucumbir a várias explicações e vícios tão comuns do gênero, o diretor mostrava grande personalidade atrás das câmeras. Tecendo comparações entre um filme e outro, Midsommar tem mais unidade do que Hereditário, sem grandes incompatibilidades narrativas ou estéticas. Por outro lado, Hereditário tinha potência quando acertava, algo que não podemos afirmar sobre Midsommar. Longa demais, a trama carece de de atmosfera. Pessoas e rituais estranhos existem aos montes (e a decisão de tentar criar tensão em um ambiente idílico, ensolarado e florido é interessante), mas fazer personagens sumirem aqui ou ali por motivos misteriosos não é necessariamente sinônimo de tensão. Tampouco instiga os desdobramentos que Aster, também autor do roteiro, faz das peculiaridades daquela comunidade: no máximo, ele desperta estranhamento quando registra um ritual que coloca em xeque os valores pré-concebidos que temos sobre suicídio e o fim da vida (e também sobre como somos intolerantes a culturas diferentes das nossas).

Entre a apatia do terror e a fragilidade das discussões dramáticas diante disso, Midsommar não é superlativo em nenhuma abordagem. Há um ponto digno de nota: o clímax, que mistura orgasmo, destruição e violência como uma recompensa direta da tomada de consciência de uma personagem que, diante do estranho, passa a se (re)conhecer. É nesse momento que o filme encorpa a vitalidade que lhe faltava até ali e que existia de sobra na primeira metade de Hereditário. Contudo, a frustração maior é mesmo a oportunidade perdida de fazer terror com as nossas angústias e com as nossas fraquezas mais íntimas. Outro ponto fraco que contribui para tal percepção é a irregularidade do elenco, que varia entre momentos bons (a maior parte deles entregues a Florence Pugh) e inexpressivos, para não dizer perfeitamente dispensáveis (Will Poulter, como o homem mais desprezível do grupo de amigos, é a perfeita representação do personagem que deveria ter sido eliminado no primeiro tratamento de roteiro). Portanto, quando é impossível se importar com os personagens, não há mesmo escapatória: sem atmosfera, empatia, ritmo ou até mesmo Toni Collette, Midsommar fica à deriva, sem jamais cumprir as expectativas criadas tanto pela ascensão recente Ari Aster quanto por tudo aquilo que o filme, em vão, tenta sinalizar.

“Big Little Lies”, segunda temporada: como a dificuldade em aceitar o conceito de minissérie é capaz de arruinar um projeto

Após adaptar por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, Big Little Lies avança na vida das Cinco de Monterey sem o refinamento narrativo e estrutural que o seu incomparável elenco merecia.

Quando o conceito de minissérie deixa de ser respeitado, chegamos a experiências vazias como a da segunda temporada de Big Little Lies. Por definição, minisséries deveriam durar um único ciclo, e a decisão de prolongá-las carrega um risco muito grande, pois significa que determinada emissora ou plataforma poderá esticar além da conta uma história inicialmente idealizada para ter início, meio e fim. No caso de Big Little Lies a situação é ainda mais complicada, uma vez que a primeira temporada da atração adaptava por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, material que deu origem à atração. São raríssimos os projetos que conseguem avançar com excelência em uma história já transposta por completo para as telas (The Leftovers, que durou três temporadas, foi impecável nesse sentido). Praticamente todos os casos, como a segunda temporada de The Handmaid’s Tale, citando outro programa recente, atestam que, mesmo com as melhores munições, tornar-se exceção à regra é missão quase impossível. Ainda assim, poucas frustrações são tão grandes como a trazida por Big Little Lies, que, neste segundo ano, ultrapassa o mero problema da expansão irregular de um universo para, em todos os aspectos, deixar um irremediável gosto amargo na boca.

A HBO nega, assim como as protagonistas/produtoras Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas não é necessário um olhar muito clínico para perceber que faz total sentido a notícia de que a diretora Andrea Arnold teria tido sua visão criativa mutilada na pós-produção para que Big Little Lies voltasse a se parecer com o que Jean-Marc Vallée fez na primeira temporada. Aliás, Arnold, que aqui não imprime marca alguma de seu estilo (em narrativas seriadas, é de sua natureza ser cotidiana e afeita aos detalhes íntimos de personagens, como vimos em Transparent), dificilmente teria topado embarcar em um projeto que nada faz além de tentar emular os tiques da primeira temporada e do próprio Vallée. A incômoda insistência em duplicar o extenso número de flashbacks e em instalar algum tipo de suspense ou engenhosidade derruba Big Little Lies de uma maneira amadora, onde a montagem entrecorta tudo o que passa pela frente e deixa o conjunto (ou até mesmo um único episódio) sem muita sequência, unidade ou conexão.

Laura Dern como Renata Klein: a atriz segue arrasando, mas a personagem tem pouca conexão e proximidade com as demais mulheres do seriado.

Se nas telas e nos bastidores o seriado se transformou em uma colcha de retalhos, o mesmo se aplica ao centro dramático da trama (ou mais precisamente à falta dele). São sete episódios que jamais se justificam, uma vez que, transcorrida a temporada, nada descobrimos de novo sobre essas mulheres cuja amizade deveria ter uma gama extra de nuances após os acontecimentos da última temporada. Ao invés disso, os roteiristas colocam uma em cada canto, sob a justificativa de que as Cinco de Monterey, movidas pelo trauma, entraram em uma crise coletiva. A partir daí, Big Little Lies imagina um conflito qualquer para as trajetórias individuais das personagens, de modo que todas se sustentem com seus próprios arcos. Ora, verdade seja dita: por mais que Laura Dern continue um arraso como Renata Klein, os dilemas envolvendo a falência dessa mulher que não cabe dentro de si própria sequer se conectam com o ano anterior, onde ela era vista como uma semi-antagonista nada receptiva com as demais personagens. Algo não se encaixa: Renata finalmente se integrou ao círculo de mães, porém, sua presença, agora avulsa em termos dramáticos, parece perfeitamente irrelevante para suas companheiras.

Entre as protagonistas, Celeste (Nicole Kidman) anda em círculos ao ainda nutrir sentimentos contraditórios pelo marido — e as sessões com a terapeuta, antes tão reverenciadas pela crítica e pelo público, agora beiram a bobagem tamanha a forma irresponsável como a psicóloga tenta ditar os rumos da vida de sua paciente. Já Madeline (Reese Witherspoon) se vê enroscada em um erro do passado que passa a ameaçar seu casamento e a própria paciência do espectador, que precisa testemunhar o desperdício de uma personagem tão interessante e o desenvolvimento de um conflito que se prolonga de maneira inexplicável. Há pouco o que se falar de Jane (Shailene Woodley), reduzida a um plot de romance-parece-cilada, não é aprofundada sob a luz do que sempre foi a sua maior força como mãe solteira: a relação de cumplicidade e delicadeza com o filho pequeno. No mais, a tentativa de dar nova amplitude a Bonnie (Zoë Kravitz) é pífia e duvidosa, já que o faz trazendo estereótipos de misticismo e abusos familiares para o plot da única personagem negra da trama.

Vivida por Meryl Streep, Mary Louise é a nova personagem de Big Little Lies que nem mesmo os próprios roteiristas compreenderam.

Deixo para citar por último a personagem de Mary Louise não por ela ser vivida por Meryl Streep, em uma de suas raras aparições em seriados, mas porque talvez esse seja o maior pecado de Big Little Lies. Promovida como um grande acontecimento tanto para o programa quando para o universo televisivo em si, a participação de Meryl está muito aquém do que poderia se esperar para alguém de seu calibre, e pior: a personagem sequer foi compreendida pelos próprios roteiristas. Relatos dão conta de que Meryl recebia orientações para interpretar Mary Louise, a mãe de Perry (Alexander Skarsgård), como uma espécie de vilã, definição imediatamente rejeitada pela atriz. E ela estava corretíssima: por mais que o seriado insista em explorar o lado passivo-agressivo da personagem e decida colocá-la em colisão com todas as outras mães da vizinhança, pouco foi abordado sobre a trágica e tortuosa negação que ela ironicamente compartilhava com Celeste em relação a Perry e sobre como isso era tanto o que unia quanto o que separava essas duas mulheres. Se há bons momentos para a personagem, é por causa de Meryl e não por méritos da série, que equivocadamente induziu o público a detestar Mary Louise e não a entendê-la.

Para arrematar o ciclo e conferir uma tração de suspense/mistério como na temporada anterior, Big Little Lies, em seus capítulos derradeiros, recorreu ao drama de tribunal. Por mais que o artifício traga os melhores momentos de Nicole Kidman e Meryl Streep neste segundo ano, tudo é muito frágil, quando não implausível: a juíza que conduz o tribunal parece estar em seu primeiro dia de profissão, deixando que advogados, testemunhas e réus tomem conta da sessão, assim como determinadas reviravoltas, a exemplo de um vídeo descoberto de forma milagrosa e conveniente demais, reforçam a percepção de um roteiro escrito no piloto-automático, sem traços de sofisticação. Para quem gosta de novela, a conclusão da segunda temporada também traz todo tipo de resposta com reconciliações, explicações e até uma cerimônia de casamento. A única porta que fica aberta é justamente a mais preocupante: aquela que, a partir da decisão de uma personagem na última cena, deixa a ligeira sensação de que Big Little Lies poderá ter uma terceira temporada. A HBO e os produtores não confirmam — e tampouco descartam oficialmente a possibilidade, para a completa angústia de quem sofreu com o total vazio de uma segunda temporada que sequer precisava existir.

47º Festival de Cinema de Gramado #9: “Pacarrete” lidera a lista de vencedores com oito Kikitos

Pacarrete leva para casa oito Kikitos, incluindo melhor filme, direção, roteiro e atriz para Marcélia Cartaxo. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Com forte tom político, a cerimônia de premiação do 47º Festival de Cinema de Gramado consagrou Pacarrete como o melhor longa-metragem brasileiro em competição. Dirigido por Allan Deberton, o filme que conta a história de uma bailarina decidida a realizar uma apresentação de ballet no interior do Ceará arrebatou os júris. Foram nada menos do que oito estatuetas para essa história protagonizada pela veterana Marcélia Cartaxo, também vencedora do Kikito de melhor atriz por seu desempenho memorável.

Nada passa pelo exagero: filme mais ovacionado por público e crítica presentes no Festival em muitos anos, Pacarrete, ainda deveria ter levado para casa o prêmio de melhor filme pelo júri da crítica, que inexplicavelmente decidiu premiar o gaúcho Raia 4, título distante de se equiparar ao fascínio despertado pelo longa de Allan Deberton. É um mistério o que levou a crítica a fechar os olhos para o furacão Pacarrete, o que acaba sendo o único ponto duvidoso de uma cerimônia justa e coerente com o que foi visto ao longo da 47ª edição do tradicional evento serrano.

Entre os longas estrangeiros, o costarriquenho El Despertar de Las Hormigas levou a melhor, assim como a animação Apneia entre os curtas, cuja lista de vencedores parece ter sido pensada milimetricamente para abranger o maior número possível de concorrentes. Por fim, a recém inaugurada categoria de melhor longa-metragem gaúcha seguiu o caminho previsto desde a divulgação da lista de concorrentes, premiando Raia 4. Tal vitório concedeu ao longa de Emiliano Cunha o segundo lugar no ranking dos filmes mais premiados da noite.

Em 2020, o Festival de Cinema de Gramado acontecerá entre os dias 14 a 22 de agosto, com curadoria reformulada: com a morte de Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho, o jornalista Marcos Santuario agora estará acompanhado do jornalista Pedro Bial e da “cantriz” argentina Soledad Villamil na prospecção e seleção dos longas-metragens concorrentes.

Assista abaixo à cerimônia de entrega dos Kikitos na íntegra e confira também a lista completa de vencedores da edição deste ano:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Pacarrete
MELHOR DIREÇÃO: Allan Deberton (Pacarrete)
MELHOR ATRIZ: Marcélia Cartaxo (Pacarrete)
MELHOR ATOR: Paulo Miklos (O Homem Cordial)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Carol Castro (Veneza) e Soia Lira (Pacarrete)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: João Miguel (Pacarrete)

MELHOR ROTEIRO: Allan Deberton, André Araújo, Natália Maia e Samuel Brasileiro (Pacarrete)
MELHOR FOTOGRAFIA: Edu Rabin (Raia 4)
MELHOR MONTAGEM: Joana Collier e Fernanda Krumel (Hebe – A Estrela do Brasil)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Sascha Kratzer (O Homem Cordial)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Tulé Peake (Veneza)
MELHOR DESENHO DE SOM: Rodrigo Ferrante e Cauê Custódio (Pacarrete)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: 30 Anos Blues
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Raia 4
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Pacarrete
MELHOR FILME (LONGA GAÚCHO): Raia 4

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
MELHOR FILME: El Despertar de Las Hormigas
MELHOR DIREÇÃO: Juan Cáceres (Perro Bomba)
MELHOR ATRIZ: Julieta Díaz (La Forma de Las Horas)

MELHOR ATOR: Fernando Arze (Muralla)
MELHOR ROTEIRO: Bernardo e Rafael Antonaccio (En el Pozo)
MELHOR FOTOGRAFIA: Rafael Antonaccio (En el Pozo)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: para as atrizes Isabella Moscoso e Avril Alpizar (El despertar de Las Hormigas), por suas excelentes atuações
MENÇÃO HONROSA: para a direção de arte de Dos Fridas
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): El Despertar de Las Hormigas
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Perro Bomba

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Apneia
MELHOR DIREÇÃO: Diogo Leite (Menino Pássaro)
MELHOR ATRIZ: Cássia Damasceno (A Mulher que Sou)

MELHOR ATOR: Rômulo Braga (Marie)
MELHOR ROTEIRO: Renata Diniz (O Véu de Armani)
MELHOR FOTOGRAFIA: Sebastian Cantillo (A Ética das Hienas)
MELHOR MONTAGEM: Daniel Sena e Thiago Foresti (Invasão Espacial)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Carlos Gomes (Teoria Sobre Um Planeta Estranho)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Guto BR (Sangro)
MELHOR DESENHO DE SOM: Gustavo Soesi (Um Tempo Só)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: para as atrizes Divina Valéria e Wallie Ruy (Marie), por nos permitirem vivenciar deslocamentos corporais inesperados e por imaginarem um futuro travesti no país que mais mata trans no mundo
MENÇÃO HONROSA: Ester Amanda Schafe (A Pedra), pela vigorosa interpretação e pelo talento promissor que revela
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Marie
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Teoria Sobre Um Planeta Estranho
PRÊMIO AQUISIÇÃO CANAL BRASIL: Marie

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