Cinema e Argumento

Homenageando David Bowie, “Moonage Daydream” captura a essência de um personagem como poucos documentários conseguem

The greatest adventure that only one person could ever have.

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Direção: Brett Morgen

Roteiro: Brett Morgen

Alemanha/EUA, Documentário, 135 minutos

Sinopse: Moonage Daydream é um documentário-concerto que segue a vida e a carreira musical de David Bowie. O filme explora a jornada criativa, musical e espiritual do artista icônico e ilumina não apenas a vida, mas também a personalidade de Bowie, que além de atuar em música e cinema, explorou outras formas de arte ao longo de sua vida, incluindo dança, pintura, escultura, colagem, audiovisual, roteiro, atuação e teatro. Para criar uma experiência artística, a obra apresenta faixas musicais e arquivos pessoais de Bowie, além de registros inéditos.

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Guardados os méritos e afetos envolvendo documentários sobre músicos contemporâneos, nada consegue competir com produções desse mesmo gênero que tomam o devido tempo e a devida perspectiva para fazer reverência a uma obra. É óbvio que o tão digitalizado século 21 clama pela instantaneidade de registrar o íntimo de astros em ascensão, mas há grandiosidades que só nascem e são observadas com o passar do tempo, algo que Moonage Daydream exemplifica gloriosamente.

Talvez só o tempo mesmo seja capaz de dar conta de uma figura como David Bowie para além do sucesso estrondoso que já podia ser observado ao longo de sua carreira. Olhar para o homem e para o legado se torna uma tarefa ainda mais difícil se tratando de Bowie, que sempre jogou para o alto quaisquer regras e nunca teve medo de se arriscar, seja no plano profissional ou pessoal. Pior ainda: como definir um artista que sempre rejeitou definições?

Somente na sala de edição, o diretor Brett Morgen ficou quatro anos debruçado sobre incontáveis imagens e entrevistas de Bowie. Sua paixão pela ideia de realizar Moonage Daydream foi tanta que, pela primeira vez, o David Bowie Estate, instituto responsável pela preservação oficial da obra do música, concedeu acesso sem precedentes à extensa coleção, um privilégio raríssimo.

Brett canalizou toda a sua admiração por Bowie em criar um documentário que fosse, principalmente, uma ode à essência de um artista sempre em plena metamorfose. Esse posicionamento faz de Moonage Daydream uma obra que, portanto, dispensa cartilhas e propõe uma experiência. Ou seja, esqueça depoimentos de amigos e familiares, cronologias de álbuns, registros da infância ou ferramentas mais alinhadas a uma reportagem televisiva.

Em 135 minutos, o documentário traz David Bowie por David Bowie, como se ele estivesse narrando a sua própria história conforme ela passa. Entre depoimentos e entrevistas históricas, como aquela concedida em 1973 para Russell Harty, a sua primeira inteiramente televisionada, a montagem se propõe a emular o imaginário de seu personagem com trechos de shows, animações, efeitos visuais e muitas referências, jamais recorrendo ao óbvio.

A efervescência de referências apresentadas em Moonage Daydream vão de Georges Méliès a Philip Glass, de F. W. Murnau a Jack Kerouac, e são diversão garantida para quem aceitar o desafio de tentar identificá-las no ritmo assumidamente frenético do documentário, que revela, no final das contas, uma visão muito particular sobre a vida, inclusive provocando o espectador a reavaliar questões existenciais e a questionar os tempos atuais.

Brett Morgen é habilidoso ao falar sobre a vida através de um legado, muito em função de Bowie sempre ter sido uma pessoa que, mesmo reconhecendo sua inabilidade social, tinha reflexões e provocações de sobra para compartilhar sobre o estado das coisas. Em certo ponto, Bowie diz que sempre gostou de se colocar em riscos para, a partir daí, ver a arte e o mundo fora de sua zona de conforto. Essa visão em constante mudança do mundo — literalmente, pois ele se desafiou a morar em realidades diferentes da sua, seja nos Estados Unidos ou no Japão — é o que dá combustível ao lado existencial da obra.

Tão importante quanto as subversões do cantor que a mídia, desde sempre fascinada e desconfortável com o novo, tentava enquadrar em frases prontas ou colocar em caixinhas é o respeito de Moonage Daydream pelo David Bowie que, mais além, decidiu abraçar o amor romântico que um dia chamou de doença e abraçou uma fase cuja maior pretensão era “apenas” agradar o público. O que os jornalistas taxaram de domesticação, para ele, era uma nova compreensão de si mesmo e de como as coisas mudam ao longo da vida.

A trilha sonora inevitavelmente primorosa — Heroes!, Life on Mars!, Let’s Dance! — pavimenta essa viagem caleidoscópica, para não escapar do termo já definitivo para falar sobre o filme. Ela é tão enérgica que impulsiona Moonage Daydream mesmo quando o filme se prolonga e corre o risco de pesar a mão no frenesi ao quase não dar espaço para silêncios e respiros. Para além disso, casa perfeitamente com o vistoso e dedicado trabalho estético de um diretor que consegue equilibrar fan service com novas ideias. Mais artistas mereciam homenagens como essa.

Os vencedores do Emmy 2022

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Matthew Macfadyen e seu merecido Emmy de melhor ator coadjuvante por Succession.

Succession não perdeu o seu reinado entre os votantes do Emmy, assim como The White Lotus confirmou um merecido favoritismo, mas, à parte as consagrações para a HBO, a cerimônia deste ano foi marcada por um perfil mais distributivista. Foram quatro prêmios para a Apple TV+, dois para a Hulu, três para a Netflix e um para o Prime Video, enquanto a HBO levou para casa 12 estatuetas, isolada em primeiro lugar. O que se apresentou foi o reflexo de um ano pouco efervescente, inclusive para a própria Succession, que perigou perder a mão e o equilíbrio em uma temporada repetitiva. Gosto muito, no entanto, de uma das melhores surpresas da noite: o prêmio de melhor coadjuvante para Matthew Macfadyen, o ator mais subestimado do prestigiado elenco e dono de um personagem difícil de compor.

Talvez Macfadyen tenha sido a surpresa máxima de uma lista sem ousadias, mesmo nos prêmios para Squid Game, que comprovaram o quanto os votantes seguem profundamente afeitos a grandes sucessos de público. Em contraponto, é difícil colocar em xeque vitórias como as de Jean Smart por Hacks e a de Julia Garner por Ozark, muito menos todos aqueles que The White Lotus levou com muita justiça. Elas são belos exemplos de como excelentes concorrentes devem ser premiados, sim, independentemente de quantas estatuetas já tenham levado. Por fim, encerro com a minha maior dor: ver o Emmy deixar Laura Linney sem um prêmio sequer por Ozark. Não testemunho o que Zendaya faz em Euphoria, mas a Wendy Byrde de Linney está entre as protagonistas mais fascinantes deste século 21 até aqui, do tipo que ainda renderá muitas análises e que pode muito bem servir de modelo para construção e evolução de personagens.

Confira os vencedores:

MELHOR SÉRIE DE DRAMASuccession
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: Ted Lasso
MELHOR MINISSÉRIE OU ANTOLOGIAThe White Lotus
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Zendaya (Euphoria)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Lee Jung-jae (Squid Game)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Matthew Macfadyen (Succession)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jason Sudeikes (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Sheryl Lee Ralph (Abbott Elementary)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Brett Goldstein (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Amanda Seyfried (The Dropout)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Michael Keaton (Dopesick)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Jennifer Coolidge (The White Lotus)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Murray Bartlett (The White Lotus)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE DRAMA: Hwang Dong-hyuk (Squid Game, episódio Red Light, Green Light)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE DRAMA: Jesse Armstrong (Succession, episódio All the Bells Say)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE COMÉDIA: MJ Delaney (Ted Lasso, episódio No Weddings and a Funeral)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Quinta Brunson (Abbott Elementary, episódio Pilot)
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Mike White (The White Lotus)
MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Mike White (The White Lotus)

Apostas para o Emmy 2022

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Missão difícil a de prever os vencedores do Emmy 2022. Muito se deve ao fato de que houve pouca renovação entre as séries celebradas nesta última temporada de premiações, com favoritismos novamente concentrados em Succession, hits fortalecidos como Squid Game e produções que parecem finalmente ter uma chance de ter a devida atenção, caso da até aqui subestimada The White Lotus. Verdade seja dita que também não se trata de um ano superlativo para as séries veteranas, o que embola ainda mais o meio de campo e, no caso de quem costuma fazer apostas, torna a cerimônia mais instigante de se assistir. A transmissão acontece a partir das 21h (horário de Brasília) na TNT.

Abaixo, um compilado de palpites:

MELHOR SÉRIE DE DRAMASuccession / alt: Squid Game
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: Abbott Elementary / alt: Ted Lasso
MELHOR MINISSÉRIE OU ANTOLOGIA: The White Lotus / alt: Dopesick
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Melanie Lynskey (Yellowjackets) / alt: Laura Linney (Ozark)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Jeremy Strong (Succession) / alt: Lee Jung-jae (Squid Game)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Julia Garner (Ozark) / alt: Sarah Snook (Succession)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Kieran Culkin (Succession) / alt: Christopher Walken (Severance)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Quinta Brunson (Abbott Elementary)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jason Sudeikes (Ted Lasso) / alt: Bill Hader (Barry)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Sheryl Lee Ralph (Abbott Elementary) / alt: Janelle James (Abbott Elementary)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Tyler James Williams (Abbott Elementary) / alt: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Amanda Seyfried (The Dropout) / alt: Lily James (Pam & Tommy)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Colin Firth (The Staircase) / alt: Michael Keaton (Dopesick)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Jennifer Coolidge (The White Lotus) / alt: Kaitlyn Dever (Dopesick)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Murray Bartlett (The White Lotus) / alt: Peter Sarsgaard (Dopesick)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE DRAMA: Mark Mylod (Succession, episódio All the Bells Say) / alt: Jason Bateman (Ozark, episódio A Hard Way to Go)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE DRAMA: Jesse Armstrong (Succession, episódio All the Bells Say) / alt: Hwang Dong-hyuk (Squid Game, episódio One Lucky Day)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Cherien Dabis (Only Murders in the Building, episódio The Boy From 6B) / alt: MJ Delaney (Ted Lasso, episódio No Weddings and a Funeral)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Quinta Brunson (Abbott Elementary, episódio Pilot) / alt: Jen Statsky, Lucia Aniello e Paul W. Downs (Hacks, episódio The One, The Only)
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Mike White (The White Lotus) / alt: Michael Showalter (The Dropout, episódio Green Juice)
MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU FILME PARA TV: Mike White (The White Lotus) / alt: Molly Smith Metzler (Maid, episódio Snaps)

“Men: Faces do Medo” tem pouco a dizer sobre a estrutura opressora do machismo

You hide. I’ll seek.

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Direção: Alex Garland

Roteiro: Alex Garland

Elenco: Jessie Buckley, Rory Kinnear, Paapa Essiedu, Gayle Rankin, Sarah Twomey,
Zak Rothera-Oxley, Sonoya Mizuno

Reino Unido, 2022, Terror, 100 minutos

Sinopse: Após uma tragédia pessoal, Harper (Jessie Buckley) decide ir sozinha para um retiro no meio de um belo campo inglês, na esperança de encontrar um lugar para se curar. Mas alguém ou algo da floresta ao redor parece estar perseguindo ela. O que começa como um pavor fervente se torna um pesadelo, habitado por suas memórias e medos mais sombrios. (Adoro Cinema)

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Com o sucesso dos cineastas Ari Aster (Hereditário, Midsommar) e Robert Eggers (A Bruxa, O Farol), o gênero de terror viu surgir uma nova demanda de produções menos caça-níqueis e mais voltadas a símbolos, camadas e comentários sociais. Isso, invariavelmente, abre visibilidade para a realização de bons títulos com essa toada, mas também acaba, vez ou outra, tendo um efeito colateral: o do mero mimetismo. É de se espantar, no entanto, que um roteirista e, eventualmente, diretor experiente como Alex Garland (Extermínio, Não Me Abandone Jamais, Ex-Machina) tenha se inclinado à mera reprodução de estilo com Men: Faces do Medo, um terror que pretende versar sobre a estrutura do machismo e seu impacto no universo feminino.

O problema não é um homem falar sobre o assunto, pois a autocrítica é sempre bem-vinda e porque realizadores do sexo masculino já foram muito felizes em adentrar a alma feminina — que o diga o chileno Sebastián Lelio, sucessivamente vitorioso em filmes como Gloria, Uma Mulher Fantástica e Desobediência —, mas sim quando fica evidente que as ideias são ralas para levar em frente uma trama que menos embasada do que acredita ser. Penso que, por exemplo, o recente (e nada pretensioso) O Homem Invisível, estrelado por Elisabeth Moss, transita com mais autenticidade entre as micro e macro agressões direcionadas diariamente às mulheres.

A frustração se acentua quando voltamos ao início do filme, que é tecnicamente impecável. O primeiro ato, inclusive, com Harper (Jessie Buckley) desbravando a região em que está hospedada, é um primor de atmosfera, especialmente porque desenvolve uma gama de sugestões sobre a personagem com o mínimo de palavras possível. Algumas cenas são genuinamente angustiantes, como aquela em que a protagonista fica em frente ao túnel embaixo de uma ponte para brincar com os ecos da própria voz e, logo em seguida, enxergar uma figura ao fundo que não consegue identificar. Isso sem falar que ajuda o fato de Jessie Buckley ser uma atriz fabulosa.

Parte da expectativa criada por Men no primeiro ato também está no diagnóstico de que Garland evita buracos comumente encontrados nesse tipo de longa. Ou já não é clichê dos mais antigos o ponto de partida em que uma personagem se isola em uma casa distante de tudo e de todos para superar um trauma? E o que dizer das desculpas esfarrapadas que roteiristas costumam inventar para que suas protagonistas continuem em um mesmo local apesar de todos os perigos e absurdos vividos ali? Pois Men contorna implausibilidades sendo capaz de fazer com que o espectador compreenda os medos e angústias de uma mulher diante de estranhas figuras masculinas.

A decepção começa a se instalar quando o longa deixa de lado o fortalecimento dessa atmosfera e aposta em uma série de contorcionismos e subtextos para fazer observações sobre uma tema que, até então, era o pano de fundo da trama. Chamo de contorcionismos porque Men tem menos a dizer do que tenta convencer o espectador. Simbologias óbvias como o homem nu e as maçãs que insistem em se mostrar presentes pouco acrescentam à discussão e, principalmente, aos sentidos do filme, o que descortina a já mencionada percepção de que certos projetos nascem da vontade de replicar o que está dando certo e não necessariamente do desejo genuíno de dizer algo novo.

Há passagens distantes das metáforas e das ambições que acabam por sintetizar melhor os objetivos de Men, incluindo diálogos simples, mas carregados de incômodas mensagens. Um deles é o que Harper encontra o padre da região e abre o coração sobre traumas passados. Falando sobre ter sido agredida pelo ex-namorado, ela recebe a resposta de que isso “acontece” e que, apesar de ser errado, não se trata de um pecado mortal. O efeito da cena é para lá de incômodo porque capitaliza a força da agressão através das palavras, algo que, para a protagonista, talvez seja até mesmo uma espécie de extensão da agressão física sofrida por ela.

Nessa passagem específica, Men consegue dar vislumbres de uma eventual vocação para criar o terror de camadas que tenta replicar. Entretanto, Garland opta pela confiança no impacto visual, esquecendo-se de que variações, quando não refinadas ou criativas, terminam por se tornar redundantes. Men, portanto, anda em círculos na ideia de mostrar o horror na forma como homens tratam mulheres, e sua falta de sutilezas não seria um problema caso estivéssemos diante de um filme sobre a estrutura opressa do machismo que tivesse algo realmente de diferente a dizer.

Rapidamente: “Os Primeiros Soldados”, “O Telefone Preto”, “A Viagem de Pedro” e “Uncharted”

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A Viagem de Pedro está entre os filmes pré-selecionados pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na categoria de melhor filme internacional do Oscar 2023.

OS PRIMEIROS SOLDADOS (idem, 2021, de Rodrigo de Oliveira): Até onde alcança a minha memória, não lembro de outro longa-metragem nacional que tenha refletido com tamanha atenção a questão da chegada do HIV no Brasil. Os Primeiros Soldados preenche essa lacuna com emoção e intensidade, munido de um bom elenco e de um terceiro ato reverberante. Para tanto, abraça a perspectiva muito pessoal de três personagens, deixando de lado didatismos para fazer contextualizações. Por meio das histórias individuais de Suzano (Johnny Massaro), Rose (Renata Carvalho) e Humberto (Victor Camilo), o roteiro escrito pelo diretor Rodrigo de Oliveira começa narrando as angústias paralelas de personagens infectados pelo vírus HIV para, no melhor recorte do filme, juntá-los em um convívio tão bonito quanto trágico. É bonito ao prestar homenagem à união e ao companheirismo de uma parcela da sociedade desassistida pela ignorância frente à descoberta de uma nova doença. E é trágico por mostrar a desumanidade com que pessoas foram largadas à morte sem qualquer amparo. Se há irregularidades na construção das narrativas paralelas, a impressão é dissipada quando Os Primeiros Soldados une Suzano, Rose e Humberto. À parte a emoção trazida pela situação dos três, o filme se engrandece pela excelente sintonia entre os atores e por ser capaz de trazer delicadeza e dignidade ao encenar uma situação tão difícil. Rodrigo de Oliveira é muito feliz em, sim, relembrar um momento da nossa história que ainda é uma lacuna no audiovisual brasileiro, mas também em terminar o filme com uma nota melancólica de esperança da qual sempre precisaremos.

O TELEFONE PRETO (The Black Phone, 2021, de Scott Derrickson): Quase 20 anos atrás, Scott Derrickson estreou como diretor com um filme de terror eficiente como poucos. O Exorcismo de Emily Rose, além do elenco excepcional — Laura Linney, Tom Wilkinson, Shoreh Aghdashloo —, dispensava obviedades para entregar uma atmosfera madura e que lançava Derrickson como uma verdadeira promessa. Desde então, ele seguiu prolífero no gênero, chegando a esse O Telefone Preto, que reafirma o seu tino para terrores com substância e sem modismos. Enquanto, em O Exorcismo de Emily Rose, o pano de fundo era o pragmatismo de uma advogada e seu imenso ceticismo quanto a fatos inexplicáveis, O Telefone Preto tem como tônica o afetuoso relacionamento entre dois irmãos que, acostumados com o desolamento da vida, enfrentam o maior medo de todos quando um deles é raptado sem deixar vestígios. Eles são interpretados por duas ótimas revelações – Mason Thorne e Madeleine McGraw – que seguram muito bem tanto o drama familiar quanto o ritmo de tensão. Thorne, aliás, tem a missão mais difícil porque, primeiro, está enclausurado em único ambiente durante boa parte do filme e, segundo, porque está diante da presença mascarada e intimidante do sequestrador vivido por Ethan Hawke. Tendo escrito o roteiro em parceria com C. Robert Cargill, Derrickson é objetivo em todos os arcos, tirando da equação sustos fáceis ou voltas e mais voltas para chegar à resolução. Tamanho pragmatismo é extremamente bem-vindo para um gênero que, por vezes, dedica-se mais a distrações do que ao que tem propriamente a dizer.

UNCHARTED: FORA DO MAPA (Uncharted, 2022, de Ruben Fleischer): Entre filmes como Cherry e O Diabo de Cada Dia, Tom Holland reserva um espacinho na agenda para participar de produções como Uncharted: Fora do Mapa, garantindo que seu estrelato como protagonista de blockbusters se mantenha aquecido com ou sem Homem-Aranha. É preciso, contudo, que Holland não faça isso de maneira protocolar, como acontece neste filme de Ruben Fleischer baseado na série de videogames homônima produzida para a PlayStation. Holland, na verdade, marca presença com seu carisma de sempre e com uma visível dedicação física para dar conta de todas as cenas de ação. Acontece que Uncharted é uma aventura empoeirada e genérica. Falta à direção de Fleischer a habilidade de produzir diversão com a proposta clássica de caça ao tesouro como Jon Turteltaub fez, por exemplo, em A Lenda do Tesouro Perdido, de 2004. Tudo parece estar no piloto-automático com a fórmula de uma pista levar a outra, e cabe ao ator tentar trazer certa graça, inclusive porque o elenco de suporte é dos mais fracos, quando não estereotipado, caso do vilão latino interpretado, claro, por Antonio Banderas em uma composição previsível dos padrões hollywoodianos. Inevitavelmente, Uncharted se assemelha muito a um videogame, mas apenas no que se refere à estrutura. Ao passar de uma fase para a outra, o protagonista Nathan Drake (Holland) avança em história, enquanto o espectador nunca chega a ser convidado para participar da mesma diversão. É essa a virada de chave que teria sido feita em um piscar de olhos por um diretor mais imaginativo.

A VIAGEM DE PEDRO (idem, 2022, de Laís Bodanzky): Em seu quinto longa-metragem para os cinemas, a diretora Laís Bodanzky sai de núcleos mais familiares e intimistas como os de As Melhores Coisas do Mundo e Como Nossos Pais para realizar o seu filme mais ambicioso até aqui, ainda que A Viagem de Pedro também seja, em última instância, uma reflexão sobre os sentimentos muito particulares de um homem sempre visto pela História como um grande emblema. A mudança de ares tem impacto, visto que longa não deve nada às superproduções estadunidenses em termos técnicos. É mesmo surpreendente o rigor com que Bodanzky orquestra um filme grandioso e que, em momento algum, soa artificial em sua ambientação. A cota de desequilíbrio acaba ficando com o roteiro, que abraça um momento específico do ano de 1831, quando Dom Pedro I (Cauã Reymond) embarca em uma fragata inglesa para enfrentar o irmão que usurpou seu reino em Portugal. No que chama de uma babel de línguas e posições sociais em que se misturam membros da corte, oficiais, serviçais e escravizados, Bodanzky imagina dias críticos na vida de um Dom Pedro I em crise física e emocional. Para isso, ela apresenta um roteiro cuja toada é revisitar símbolos históricos que tomamos como certos e que clamam por reavaliações. Trazendo um protagonista impotente sexualmente e atormentado por pesadelos e visões, A Viagem de Pedro não transita muito bem, entretanto, entra as fronteiras da ficcionalização crítica e da humanização do personagem. E, com Cauã Reymond, um ator não exatamente versátil, esse certo sentimento de confusão deixado pelo filme é pouco resolvido.

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