Cinema e Argumento

No calor do momento, o que podemos concluir sobre o Oscar de “Melhor Filme Popular”?

Foi anunciado há pouco pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: a partir de 2019, o Oscar terá a categoria de “Melhor Filme Popular”. Ao contrário do que a Academia pensa, estamos falando de um enorme desserviço, já que segmentar não é necessariamente um mérito. Os documentários e as animações estão aí para provar, pois praticamente nunca são lembrados nas ditas categorias principais. E por que não são? Ora, não há razão para indicá-los em “Melhor Filme” já que eles têm categorias próprias para concorrer. É por isso que a mudança se revela uma baita bola fora: ao criar a categoria de “Melhor Filme Popular”, o Oscar diz, nas entrelinhas, que blockbusters como Pantera Negra, por exemplo, não devem ser levados tão a sério quanto A Forma da Água ou Moonlight, citando os vencedores recentes da honraria máxima.

A mudança reflete, claro, o próprio diagnóstico que a Academia deve ter feito de seu histórico recente. E vamos muito além do fato de Batman: O Cavaleiro das Trevas ter sido ignorado na categoria principal em 2009. Mesmo ampliando o número de indicados em melhor filme, tal escolha mais diluiu a reputação do prêmio do que necessariamente aprimorou a disputa. Afinal, dois casos que corroboram essa afirmação ainda estão muito vivos na memória: Gravidade e Mad Max: Estrada da Fúria. Ambos faturaram sete e seis estatuetas respectivamente, mas não levaram para casa o título de “Melhor Filme”. No caso de Gravidade, o prêmio foi para 12 Anos de Escravidão, vencedor apenas nas categorias de roteiro adaptado e atriz coadjuvante. Já com Mad Max, a situação piora: Spotlight, vencedor daquele ano, conquistou somente o prêmio de melhor roteiro original. Como não encarar tal cenário, afeito aos “projetos sérios”, como puro preconceito com o cinema de alta repercussão popular?

O diagnóstico certamente foi feito, mas a solução é um equívoco. Não à toa, você já deve ter ouvido que animação não é cinema. Agora, futuramente, também correrá o risco de ouvir que filmes populares também não são. Com a maturidade de um MTV Movie Awards, a Academia não observa o próprio Globo de Ouro, que há décadas coloca as comédias em um cantinho à parte, decisão que inferioriza o gênero e rende indicações preguiçosas ou de gosto duvidoso, provando que o prêmio realmente não dá mesmo muita bola para esse segmento. Com tantas novas categorias para serem criadas (alô, melhor elenco!), o Oscar opta não pela inovação, mas por um caminho fácil, antiquado e que há muito tempo já se provou tão ineficiente quanto problemático em ideias. Para completar, a Academia ainda anunciou a decisão de apresentar os vencedores de determinadas categorias (a serem definidas) durante os comerciais, exibindo a entrega dessas estatuetas mais tarde na cerimônia, com os momentos já gravados e editados. Talvez ainda seja cedo para avaliar o real efeito, mas tudo isso não parece nada favorável. E, vocês, o que acham?

“Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo”: continuação aprimora aspectos do filme original, mas não compensa a ausência de Meryl Streep como protagonista

You are still my love and my life, still my one and only…

Direção: Ol Parker

Roteiro: Ol Parker, baseado em história de Catherine Johnson, Ol Parker e Richard Curtis

Elenco: Lily James, Amanda Seyfried, Julie Walters, Christine Baranski, Pierce Brosnan, Dominic Cooper, Andy Garcia, Stellan Skarsgård, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Cher, Meryl Streep, Josh Dylan, Jeremy Irvine, Hugh Skinner

Mamma Mia! Here We Go Again, Reino Unido/EUA, 2018, Musical, 114 minutos

Sinopse: Sophie (Amanda Seyfried) está prestes a reinaugurar o hotel da mãe (Meryl Streep), agora totalmente reformado. Para tanto convida seus três “pais”, Harry (Colin Firth), Sam (Pierce Brosnan) e Bill (Stellan Skarsgard) e as eternas amigas da mãe, Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski), ao mesmo tempo em que precisa lidar com a distância do marido Sky (Dominic Cooper), que está fazendo um curso de hotelaria em Nova York. O reencontro serve para desenterrar memórias sobre a juventude de Donna (Lily James), no final dos anos 70, quando ela resolve se estabelecer na Grécia.

Desprezado pela crítica quando chegou aos cinemas em 2008, Mamma Mia! agora volta à vida com uma continuação que reflete muito mais do que o imenso sucesso de público do primeiro filme, que chegou a ser maior bilheteria registrada no Reino Unido até Avatar tomar o posto no ano seguinte: em Lá Vamos Nós de Novo, subtítulo escolhido para a sequência, percebemos que o musical envelheceu muito bem porque se tornou uma obra querida inclusive para quem torcia o nariz dez anos atrás. Levou tempo, mas as pessoas aceitaram abraçar Mamma Mia!. Não restam dúvidas de que o longa original era frequentemente tosco e mal dirigido por Phyllida Lloyd. No entanto, como ficar de mal com uma produção embalada por hits do ABBA, emoldurada com lindas paisagens gregas e energizada por uma Meryl Streep que voava as tranças ao som de Dancing Queen? Cafona, inverossímil e muitas vezes primário, Mamma Mia!, de repente, viu tais defeitos se tornarem parte de sua adorada identidade, permitindo que essa continuação recém estreada nos cinemas brasileiros seja um dos títulos mais esperados do calendário comercial norte-americano em 2018.

Para os temerosos com a ideia de uma sequência, a grata surpresa é que, em inúmeros pontos, Lá Vamos Nós de Novo é superior ao original. Com a saída da diretora Phyllida Lloyd, que recusou o convite comandar a sequência (ela, com toda razão, também não dirigiu mais nada para o cinema depois de A Dama de Ferro), o espectador ganha um filme com maior esmero técnico e criatividade. Ol Parker, roteirista de O Exótico Hotel Marigold 1 e 2, repara várias das escolhas amadoras da antecessora, que vinha do teatro e tinha em Mamma Mia! a sua primeira experiência idealizada para a tela grande. Na continuação, a música se conecta de maneira mais orgânica e menos gratuita à história, inclusive com aquelas que, para satisfazer o grande público, precisam ser repetidas, como a própria canção-título. O contexto é melhor, as coreografias são aprimoradas e a trilha instrumental, assinada por Anne Dudley (Elle), faz releituras de arranjos do ABBA com graça e reverência.

Aliás, por falar em nostalgia, Lá Vamos Nós de Novo preserva a vitoriosa identidade do filme anterior e, na medida do possível, cria um clima para chamar de seu. Preserva-se aqui a alma brega, as paisagens ensolaradas, o perfil cômico de cada personagem e as coincidências fáceis. Além disso, ao transferir boa parte da narrativa para a adolescência de Donna Sheridan (Meryl Streep na versão madura, Lily James na juventude), o musical tem a chance de introduzir novos atores, explorar situações que escapam do musical em que se baseia e contar com o indiscutível carisma de uma protagonista diferente. É nesse universo que Lá Vamos Nós de Novo pulsa como nos melhores momentos do original, especialmente porque Lily James abraça a missão de corpo e alma: lembrada por seus papeis na fábula em live action de Cinderela e no seriado Downton Abbey, a atriz alcança um vigoroso equilíbrio entre a capacidade de emular a personagem interpretada por Meryl Streep e a de fazer próprias criações, sem jamais se limitar à mera cópia. Se há uma estrela no filme, essa é indiscutivelmente Lily. 

A jovem atriz faz tão bem ao filme porque mantem acesa, no físico e no espírito, a chama de uma Donna Sheridan que agora se faz ausente. Por razões que são explicadas logo no início da projeção, Donna segue como o centro dos pensamentos e das motivações de cada personagens, mas dessa vez apenas na memória. Infelizmente, isso não deixa de condenar o projeto: por melhor que seja, Lily James não é Meryl Streep, cuja presença norteava a força, a energia e emoção do longa anterior. A premiada atriz não deixa de aparecer (em uma cena comovente, por sinal), mas é muito pouco para uma história que tanto reverencia a sua lembrança e que constantemente nos lembra que o primeiro Mamma Mia! era irresistível muito em função de seu gigante talento. Sem ela, em termos de uma trama propriamente dita, Lá Vamos de Novo não parece ir a lugar algum. A falta que Donna faz ainda é muito mais forte do que a homenagem que o filme tenta prestar a ela. Nesse contexto, entra a participação de Cher, promovida como um grande acontecimento que poderia ser a jogada perfeita para compensar a ausência de um ícone com outro, mas isso acaba não se cumprindo: divertidíssima e com presença expansiva, Cher é somente uma curiosidade, inclusive pouco justificada, já que sua personagem era inclusive tida como morta no longa de 2008. 

Sem um elo mais consistente, a mesma sensação respinga no roteiro, que é frágil nas duas linhas temporais estabelecidas para a narrativa. Na juventude de Donna, por exemplo, Lá Vamos Nós de Novo falha ao dizer qualquer coisa que já não tenha sido mencionada no filme anterior, onde já eram mencionadas as resoluções de todos os conflitos apresentados aqui. Nós já sabemos que Donna se relacionará com três homens, eventualmente se apaixonará por um deles, viverá desencontros e, ao fim, criará sozinha a sua filha sem saber quem é o pai. Por mais que o filme tente criar envolvimento com cada revelação ou desdobramente, simplesmente não há como. Enquanto isso, nos dias em que Sophie (Amanda Seyfried) homenageia sua mãe, os dilemas pipocam da forma mais rasteira possível (o namorado passando uma temporada em Nova Iorque, a tempestade violenta e inesperada na véspera de uma inauguração) para depois serem resolvidos com a maior facilidade do mundo. Entretanto, assim como como no filme original, Lá Vamos Nós de Novo é o tipo de filme onde o espectador escolhe se é possível se desarmar e partir para o abraço. Caso escolha, encontrará o bom e velho Mamma Mia! que já conhece: repleto de defeitos, mas também vivo, alegre, despretensioso, sonhador e até dotado de um certo fascínio ao tornar o ridículo uma razão do seu sucesso.

“O Animal Cordial” | Entrevista com a diretora Gabriela Amaral Almeida

“Os personagens que nascem dentro de mim carregam muitas das contradições humanas que eu mesma não sei resolver (nem nunca saberei)”.

Não foram poucas as vezes que comentei aqui no blog sobre a minha relação tortuosa com os filmes de terror/horror. O que mais me fascina no gênero é, justamente, o que o grande público não busca ou pelo menos não é tão explorado quanto deveria: histórias que utilizam a morte, o medo e a insanidade (entre tantas outras matérias-primas) para falar sobre questões emocionais inerentes aos seres humanos, mesmo que de forma extremada ou sanguinolenta. Gabriela Amaral Almeida, a diretora de O Animal Cordial, trabalha a partir dessa perspectiva: nos curtas que já dirigiu e, agora, em seu primeiro longa-metragem, Gabriela define seus personagens como um reflexo de atritos que ela própria enxerga no mundo, especialmente aqueles que incomodam e que, por uma série de razões, tornam-se tabus na sociedade. E O Animal Cordial está cheio de alegorias sobre atritos e tabus, abordagem que me levou de imediato ao centro desse filme que enxerga sangue, sexo e violência sem pudor algum (não à toa, a classificação indicativa nas salas brasileiras será 18 anos). O cenário? Um restaurante de São Paulo que, prestes a encerrar o expediente, é assaltado por dois homens. No entanto, Inácio (Murilo Benício), o dono do estabelecimento, decide que a situação não pode fugir do seu controle. Muito sobre o que achei do filme está na crítica publicada aqui no blog, mas o resto eu deixo a Gabriela, que gentilmente conversou comigo sobre o filme, contar para vocês na entrevista que reproduzo abaixo. Lembrando que O Animal Cordial chega aos cinemas brasileiros no dia 9 de agosto.

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Tomando como referência determinadas obras da tua carreira, é possível perceber uma certa preferência por temas e abordagens que “incomodam”, digamos assim. Em A Mão Que Afaga, por exemplo, temos a questão de uma mãe solteira e solitária que tenta fazer uma festa de aniversário para a filha. Já Vaca Profana, que conta com o teu roteiro, propõe uma importante discussão acerca do que é “feminino” e do chamado “instinto materno”. E agora temos O Animal Cordial, que segue essa mesma linha com temas muito mais amplos. O teu cinema é assim mesmo? Inclinado a tocar em assuntos necessários, muitas vezes renegados pela sociedade, e levantar reflexões sobre eles? Isso é proposital ou coincidência?

Os personagens que nascem dentro de mim carregam muitas das contradições humanas que eu mesma não sei resolver (nem nunca saberei). Todo personagem é uma espécie de tótem das questões caras a cada escritor, uma entidade que torna de alguma maneira palpável a matéria de que todos nós somos feitos. Nesse sentido, o que compõe meus tótens-personagens está intimamente relacionado com os atritos que eu vejo e/ou sinto no mundo. Muitos desses atritos incomodam porque, ao não serem discutidos no correr dos dias úteis da vida útil, tornam-se tabu; tabu é tudo aquilo que varremos para debaixo do tapete. A sujeira pode estar escondida, mas os calombos são visíveis sob esta tapeçaria a que chamamos de “vida funcional”. O que eu tento fazer na criação dos meus personagens é entrar em contato com esses calombos. Não é uma questão de escolha deliberada de tema – “vou escolher temas incômodos para conseguir este ou aquele efeito” –, mas de uma atração inconsciente por tudo que está à margem. Estamos sempre na margem em relação a algum centro – qualquer centro. Da minha margem, eu me pergunto: para onde vão as mães sem instinto materno? E o feminino que não se encaixa nos padrões ditados pela sociedade? Os pais que não gostam dos filhos, os filhos que não gostam dos pais, os homens que matam, as mulheres que matam: “all the lonely people, where do they all belong?”. As minhas criaturas (e histórias) vêm todas dos calombos do tapete.

Poucas vezes, pelo menos se tratando do cinema brasileiro recente que chega a festivais e grandes plateias, vi um filme tão forte e cru como O Animal Cordial, mesmo se tratando de obras de terror. Como é a relação do público brasileiro com esse gênero? Claro que há iniciativas importantes para a valorização dele, como é o caso do Fantaspoa, aqui em Porto Alegre, onde o teu filme foi premiado em duas categorias (direção e atriz), mas como é de fato essa relação com as plateias? Ainda existem tabus que precisam ser quebrados junto a elas? Ou o público está mais aberto?

O cinema de terror e/ou horror sempre terá vocação para ser marginal. Nestes filmes, se discute sobretudo a morte e/ou a possibilidade da morte – e a depender de como essa abordagem é feita dentro dos limites do(s) gênero(s), o resultado final pode ser um filme não exatamente agradável. Narciso acha feio o que não é espelho: é muito, muito difícil nos reconhecermos nas sombras de uma história própria. O público brasileiro ainda não se reconhece na mitologia do filme de horror/terror nacional porque, acho: (1) ela está em formação constante e sempre submissa à mitologia do horror/terror americana ou européia, e (2) nós não somos um povo que costuma revisar seus monstros e medos extremos (vide escravidão, vide Ditadura Militar – como sociedade, agimos como se esses momentos não tivessem existido). Os mitos são mais palatáveis e agradáveis do que os monstros, né?

A pergunta anterior me leva a outra: O Animal Cordial tem um elenco fantástico, todos em uma entrega absoluta, mas como foi o processo de vender a ideia de um filme como esse para cada um deles? O elenco abraçou o projeto desde o início, destemidos e livres exatamente como os vemos na tela?

O elenco desse filme é um verdadeiro presente. Todos embarcaram no projeto desde a primeira conversa, com uma entrega rara de se ver. Foi um mês de ensaios, leituras, trocas de correspondências, laboratórios, conversas – cada personagem é um planeta neste filme, e eu agradeço a cada ator que me ajudou na construção de suas atmosferas (além de agradecer especialmente ao meu amigo e diretor René Guerra, por ter dividido a preparação comigo). Cito um exemplo de colaboração com Irandhir Santos. Ao ler o roteiro, Irandhir me presenteou com uma memória de infância poderosa. Em Limoeiro, cidade no interior de Pernambuco onde ele havia nascido, havia um cozinheiro de buffets de festa (casamento, 15 anos, etc.) que se chamava Djair. Djair era gay, discriminado na cidadezinha, mas dono de uma personalidade forte que fez dele um cozinheiro reconhecido “na capital”. Devolvi essa memória para Iran em forma de cenas. Criei a partir do chão dele. Não há nada mais bonito que isso.

Uma favorita minha no elenco é a Luciana Paes, que já trabalhou contigo anteriormente e que também estará no teu próximo longa. Além da questão do talento, o que faz da Luciana uma atriz que te motiva a repetir essa parceria?

Luciana é meu doppelganger na vida. Já estamos muito perto de nos comunicarmos por telepatia (risos). É tão especial que eu desisti de teorizar. Ela está na minha cabeça e eu na dela. Uma atriz que amo, que me inspira e que vai comigo até a beira do abismo, sempre.

Chegando às discussões do filme propriamente ditas, dois assuntos me parecem centrais: a falência da masculinidade como a sociedade conhece/perpetua e o perigo de se apaixonar. Como foi o processo de trabalho desses dois temas no roteiro? A ideia de fazer O Animal Cordial veio da vontade de falar sobre eles?

Processos criativos são muito difíceis de explicar porque muitas coisas acontecem simultaneamente, sem ordem lógica. A fagulha da história foi um evento real: um restaurante que frequentávamos eu e Luana Demange (co-autora do argumento) havia sido assaltado. Começamos a nos questionar sobre os espaços de segurança na sociedade brasileira. De repente, estávamos emboladas na vontade de amor de Sara, uma garçonete servil e totalmente inconsciente de seus verdadeiros desejos. Inácio surge, acho, do modelo masculino de sucesso que é vendido a muitos, muitos homens brasileiros – dono de seu próprio negócio, casado, branco, heterossexual. A partir daí, foi uma questão de puxar os fios que sustentavam esses desejos todos que nos mantêm ora unidos, ora em guerra, na vida.

O terror que embrulha o estômago no filme não é o das violências físicas propriamente ditas, mas sim as emocionais: o corte de cabelo do personagem de Irandhir Santos, a maneira esnobe e elitista com que a personagem da Camila Morgado trata a garçonete do restaurante… Podemos dizer que O Animal Cordial é um filme subversivo também nesse sentido: em transferir para outros planos a verdadeira agressão?

Os personagens estão sós. É uma frase que repito para mim mesma, sempre, ao escrever uma história. Eles estão sós – e o narrador da história não tem o direito de impor nenhuma verdade que não saia deles mesmos. A verdadeira violência não é a violência anunciada pelo filme, mas aquela enfrentada no embate entre os personagens.

Tratando-se da parte técnica, O Animal Cordial é um filme muito sensorial: a trilha do Rafael Cavalcanti, por exemplo, já é impactante desde os créditos de abertura. A fotografia da Barbara Alvarez cria uma unidade ao mesmo tempo que oscila conforme o ambiente, o universo próprio de cada personagem… E por aí vai. Vindo de uma fã dos filmes de terror, o quanto a parte técnica influencia o que cada espectador sente em obras dessa natureza? Como foi trabalhar a concepção visual com toda a equipe?

O visual e o sonoro são as brechas onde o narrador-de-cinema e seus colaboradores se escondem para fazer a mágica acontecer. Para mim, quão mais escondida essa mágica estiver, melhor ela funciona. A fotografia, a direção de arte, a música, o desenho sonoro: tudo está subordinado às questões dramáticas dos personagens. Na hierarquia das camadas de um filme de gênero, sobretudo, o racional deve vir por último. Meu trabalho com Rafael Cavalcanti vem desde o roteiro, que ele acompanha desde as primeiras versões (ajuda muito sermos casados). A pesquisa de sonoridades e músicas começa nesse estágio e envereda pela montagem, da qual ele participa ativamente. O desenho de som, feito pelo Daniel Turini, foi fundamental para trazer o filme à vida (ele constrói cada ambiente sonoro dramaturgicamente, seguindo as curvas dos personagens e ações; é um colaborador preciosíssimo). Com Bárbara Álvarez, o que funciona para nós é explorar ao máximo os significados secretos de cada cena – e ir traduzindo isso em imagens.

Para encerrar, quais são três filmes bacanas para quem gostou de O Animal Cordial? E por quê?

– “Singapore Sling”, do grego Niko Nikolaids (1990) – um ensaio poético noir pornográfico sobre a relação de duas mulheres e um homem, ambientado numa mansão neo-gótica. É um filme único na forma como aborda os gêneros narrativos, que se alternam alucinadamente – e nunca, nunca de forma previsível.

– “Der Fan” (1982), do alemão Eckhart Schmidt – um filme de horror feito na Berlim ocidental de 1982, que narra a obssessão de uma adolescente por seu ídolo pop. É um filme gore sem uma gota de sangue. É alucinante ver a transformação desse feminino devoto num monstro, quando ela descobre que seu ídolo não é o que ela imaginava.

– “Uma Mulher Diferente”, do americano Robert Altman (1969) – no IMDB, aparece como drama. Mas é um filme de terror. Uma mulher rica e solitária se torna obcecada por um homem que ela abriga em sua casa, num dia chuvoso e frio. A interpretação de Sandy Dennis é das coisas mais frágeis e ameaçadoras que eu já vi.


+ SOBRE GABRIELA AMARAL ALMEIDA
É mestre em literatura e cinema de horror pela UFBA (Brasil), com especialização em roteiro pela Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV) de Cuba. Escreveu (e escreve) para outros diretores, como Walter Salles, Cao Hamburger e Sérgio Machado. Como diretora, realizou os curtas Náufragos (2010, co-dirigido com Matheus Rocha), Uma Primavera (2011), A Mão que Afaga (2012), Terno (2013, co-dirigido com Luana Demange) e Estátua (2014). O conjunto de seus curtas foi selecionado para mais de cem festivais nacionais e internacionais, tais como o Festival de Cinema de Brasília, o Festival Internacional de Cinema de Roterdã, o Festival de Curtas de Nova York, dentre outros. São destaque os prêmios recebidos por algumas destas obras, como os prêmios de melhor roteiro, melhor atriz (para Luciana Paes) e prêmio da crítica no 45º Festival de Cinema de Brasília para A Mão que Afaga, e os prêmios de melhor atriz (para Maeve Jinkings) e melhor roteiro para Estátua!, no mesmo festival, dois anos depois. Com o seu projeto de longa-metragem A Sombra do Pai, foi selecionada para os laboratórios de Roteiro, Direção e Música e Desenho de Som do Sundance Institute. O projeto contou com a assessoria de Quentin Tarantino (Pulp Fiction), Marjane Satrapi (Persépolis), Robert Redford (Butch Cassidy and the Sundance Kid), dentre outros. Atualmente, trabalha no desenvolvimento de seu próximo longa-metragem, uma fábula de exorcismo (ainda sem título), a ser produzida também pela RT Features. Nos Estados Unidos, é agenciada pela WME.

Três atores, três filmes… com Suzana Uchôa Itiberê

Editora-chefe da revista Preview, a Suzana Uchôa Itiberê, que eu conheci pessoalmente nesses encontros cinéfilos proporcionados pelos festivais de cinema, separou mais do que três atores para a nossa coluna. A lista que vocês conferem abaixo traz, na verdade, três ícones do cinema mundial, em desempenhos indiscutivelmente emblemáticos. Da inesquecível Audrey Hepburn em Charada, passando por Jack Nicholson em Melhor é Impossível, até chegar aos dias de hoje com o arraso que é Daniel Day-Lewis em Trama Fantasma, a Suzana recapitula essas performances ao mesmo tempo em que ilumina as razões e os detalhes que fazem delas paradas obrigatórias na lista de qualquer cinéfilo. Abaixo, a Suzana conta tudo!

Audrey Hepburn (Charada)
Sou apegada a sutilezas. Costumo não me impressionar com interpretações marcadas por arroubos emocionais, gritarias, gente se descabelando (talvez por isso me irrite tanto com novelas). São as pequenas coisas que tornam certos personagens únicos. A icônica sequência em que a estrela canta “Moon River” na escada de incêndio em Bonequinha de Luxo é a essência da delicadeza e da solidão, mas uma das cenas mais saborosas e espontâneas que tenho guardada na memória acontece em Charada, que Stanley Donen dirigiu em 1963. Na trama, o marido da protagonista (Audrey) é assassinado e começa um jogo de gato e rato para descobrir onde foi parar o dinheiro que estava com ele. O personagem de Cary Grant oferece ajuda, mas seus motivos são suspeitos. No auge da ação, ela o pega de surpresa e pergunta: “Sabe o que você tem de errado?”. Ele, afobado e na defensiva, responde: “Não, o quê?”. E ela solta um sedutor e malandro: “Nada!”. O tom de voz perfeito e um rosto suave irresistível. Essa era Audrey Hepburn, simples, elegante e naturalmente sensual.

Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Em 2013, o astro inglês se tornou o primeiro a receber três Oscar de melhor ator. No discurso, citou o diretor de Lincoln, Steven Spielberg, claro, mas agradeceu especialmente à mulher, Rebecca Miller, por ter suportado viver com tantos homens diferentes e estranhos desde que se casaram, em 1996. Um parêntesis: Rebecca é filha do dramaturgo Arthur Miller e conheceu Day-Lewis nos bastidores da adaptação para o cinema da peça As Bruxas de Salem. Talvez ela não tenha convivido com o viúvo John Proctor, mas passou vários meses com o ex-militante do IRA Danny Flynn, de O Lutador, o gângster William Cutting (Bill Açougueiro) de Gangues de Nova York, o cineasta italiano Guido Contini de Nine, e ninguém menos que o 16º presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln. Day-Lewis não interpreta, ele se torna, e ver esse mergulho profundo é inebriante. Todos esses personagens me arrancaram arrepios, mas nenhum me pegou pelo estômago como o Reynolds Woodcock de Trama Fantasma, nova parceria com Paul Thomas Anderson (de Sangue Negro). Na Londres dos anos 1950, Woodcock é um estilista confiante e focado que comanda a Maison ao lado da irmã, Cyrill (Lesley Manville). Solteiro convicto, ele encontra inspiração nas mulheres que entram e saem da sua vida. Até o dia em que conhece Alma (Vicky Krieps), a garçonete de modos desajeitados e personalidade forte que se torna a nova musa e abala as rígidas estruturas do mago da moda. Essa breve sinopse pode dar a ideia de um romance enfadonho, mas há algo macabro nessa relação. Nada é aleatório no idiossincrático Reynolds. A maneira de segurar uma xícara, a altura do olhar, o posicionar de pernas, o tom da voz e um impagável bufar impaciente. Fiquei hipnotizada pela meticulosidade na construção desse personagem. No final, ele manda um beijinho para Alma que diz mais que mil palavras. É coisa de mestre, obra-prima da atuação. O próprio ator admite que é um enorme sofrimento largar seus personagens, uma das explicações para ter anunciado a aposentadoria depois desse trabalho sem igual. Para mim, resta a esperança de que mude de ideia.

Jack Nicholson (Melhor é Impossível)
Há uma cena de bastidores de O Iluminado (disponível no YouTube) em que Jack Nicholson se movimenta freneticamente para entrar no clima do personagem, antes de rodar a antológica sequência da machadada. É um instinto animal que ele faz brotar ali e acredito que seu canal criativo venha do âmago – enquanto o de Daniel Day-Lewis, por exemplo, pareça ser fruto de meticulosidade. O que nos leva ao excêntrico escritor Melvin Udall de Melhor é Impossível, dirigido por James L. Brooks, e que em 1998 rendeu ao ator seu segundo Oscar na categoria principal. Em tempos de #TimesUp, o personagem de Nicholson ganha atualidade como um amálgama de tudo o que é considerado execrável em um ser humano: misógino, preconceituoso, xenófobo, cruel com animais, machista, grosseiro e por aí vai… Pois o popular romancista ainda sofre de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), e almoçar todos os dias no restaurante onde Carol (Helent Hunt) é garçonete também é uma mania. Então como é possível um sujeito tão odioso ser ao mesmo tempo tão cativante? Simples. Porque Nicholson explora cada uma de suas camadas (e são muitas) com uma mescla única de humor e melancolia. É uma atuação instintiva e cheia de charme, que faz as qualidades de Melvin surgirem das formas mais inesperadas. “Você me faz ser um homem melhor”, ele responde à Carol quando ela lhe pede um elogio. E então arqueia as sobrancelhas. Melhor, impossível…

“Hannah”: com desempenho monumental, Charlotte Rampling empodera espécie de reality show sobre ausência e solidão

Direção: Andrea Pallaoro

Roteiro: Andrea Pallaoro e Orlando Tirado

Elenco:  Charlotte Rampling, André Wilms, Stéphanie Van Vyve, Simon Bisschop, Jessica Fanhan, Fatou Traoré,  Jean-Michel Balthazar, Gaspard Savini, Julien Vargas, Luca Avallone,  Miriam Fauci, Ambra Mattioli, Mathilde Rault

Itália/França/Bélgica, 2017, Drama, 95 minutos

Sinopse: Hannah (Charlotte Rampling) é uma mulher de terceira idade que divide-se entre as aulas de teatro, a natação e o trabalho como empregada doméstica. Quando o marido vai preso, ela não tem alternativa a não ser a solidão e tenta refazer laços perdidos com descendentes, mas há um segredo na família que dificulta seu relacionamento com terceiros. (Adoro Cinema)

Hannah é um filme que exige imensa preparação por parte do espectador. E isso é o que reconhece o próprio diretor Andrea Pallaoro, que, quando exibiu o longa pela primeira vez no Festival de Veneza deste ano, não escondeu seu nervosismo quanto à recepção do público. Pallaoro sabia que havia realizado um projeto difícil e desafiadora em muitos aspectos, mas que contava com um elemento decisivo na relação da obra com a plateia: o desempenho de Charlotte Rampling, para quem o cineasta italiano escreveu especialmente o papel principal. Nas tantas entrevistas que deu sobre Hannah, ele diz que Rampling é um fator crucial no processo de preencher as várias lacunas propositais deixada pelo roteiro e que, sem ela o filme talvez nem tivesse saído do papel. E, de fato, é nessa relação indissociável com a atriz que a trama se engrandece e se empodera, ainda que seu desempenho contribua para que Hannah se consolide como uma experiência pesada e exaustiva, mas também como um registro bastante assombroso.

O cerne dessa imensa densidade é de fácil diagnóstico: quase um reality show sobre ausência e solidão, Hannah apenas observa os dias de uma mulher que, após a prisão do marido, precisa readaptar toda sua vida, agora aos pedaços e sem a presença da família, que, por alguma razão, também a condena pelo desconhecido ato que levou o marido à prisão. Não há conflitos na forma clássica que o público costuma exigir: praticamente sem diálogos, o filme acompanha a personagem em afazeres banais, seja nas aulas de teatro e natação ou no simples preparo de um bolo. Também não há respostas para qualquer pergunta: desconhecemos o crime que o marido teria cometido (e é possível deduzir que o filho do casal parece ter algum tipo de culpa nessa situação), tampouco entendemos por completo a real dinâmica estabelecida pela protagonista com outros personagens coadjuvantes, como as crianças do andar de cima que causam uma infiltração no seu apartamento ou a rica patroa para quem Hannah (Rampling) presta serviços domésticos. Do início ao fim, o longa joga perguntas, mas não sente necessidade de respondê-las, como se construísse um thriller existencial, termo muito associado ao resultado final desde as primeiras exibições em festivais mundiais.

A dimensão, na realidade, está na perspectiva: à margem, Hannah (Rampling) é sufocada por uma existência que, para ela, está decididamente morta. Sua inadequação social no grupo de teatro é uma clara prova disso, pois, nas aulas, ela finalmente fala, pula, caminha, conversa, mas incorporta tudo aquilo como uma terapia interna, e não necessariamente como uma ferramenta de socialização. A maneira com que o diretor mostra Hannah observando, com extrema distância, o pulo de um grupo de crianças na piscina ou a discussão de um casal no metrô também reforça a posição isolada que tomou conta do seu emocional e do seu comportamento. Fora isso, só o fato de Hannah ser uma mulher na terceira idade, carregando a amargura trazida pela ausência da família, especialmente a do neto de quem sente tanta falta, e as expressões de alguém que já passou por muito na vida já conferem ao longa uma melancolia traduzida ainda na falta de cores de uma fotografia pensada para ser tão morta quanto a personagem principal.

Tais leituras são impulsionadas pelo desempenho monumental de Charlotte Rampling, que chegou a ser premiado em Veneza — e vejam que raridade: com essa honraria, Rampling fica a um passo de conquistar a tríplice coroa dos principais festivais de cinema do mundo (ganhou Berlim por 45 Anos e agora resta “apenas” Cannes para ela chegar lá), um cenário no mínimo sem precedentes para uma atriz acima dos 70 anos. A veterana britânica normalmente já exala mistério com sua forte persona, mas aqui ela é fundamental, pois vem dela uma gigantesca parte do que interpretamos em Hannah. Afinal, uma vez quase sem texto e sem conflitos factuais, cabe ao olhar sempre marcante de Rampling a missão de capturar a profundidade emocional de uma mulher que sente não pertencer mais a lugar algum. Nem imagino o desgaste de tamanha entrega a esse exercício de cinema lento, observador e repleto de lacunas, mas, como espectador, a recompensa é poderosa tanto pelo desempenho da atriz quanto por ela nos ajudar a atravessar uma obra de digestão complicada, desgastante e que, sem dúvida, perderá espectadores pelo caminho. 

Os indicados ao Emmy 2018

Ainda que Game of Thrones lidere mais uma vez a lista de indicados ao Emmy, The Handmaid’s Tale chega ao prêmio confirmando todo o prestígio conquistado após a celebração da primeira temporada.

Tenho incontáveis séries, minisséries e telefilmes acumulados para assistir antes de poder falar sobre o Emmy com mais propriedade (é simplesmente impossível dar conta de tudo hoje em dia!), mas, como já é tradição aqui no blog, faço questão de alguns pitacos sobre a lista de indicados deste ano. Vamos a eles:

Game of Thrones mais uma vez lidera a lista de indicações, assim como Westworld mantém toda a badalação conquistada entre os votantes com a primeira temporada, mas é The Handmaid’s Tale, a grande vencedora do ano passado, que chega com tudo: desta vez, praticamente o elenco inteiro concorre com indicações individuais, onde destaco a merecida lembrança de Yvonne Strahovski como coadjuvante, dona de um dos arcos dramáticos mais interessantes da segunda temporada.

– Por falta de opção, o Emmy não escapou de celebrar The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story mesmo quando o programa não merecia: são injustificadas, por exemplo, as inclusões de Edgar Ramírez e Ricky Martin entre os coadjuvantes. Por outro lado, Darren Criss, que é um espetáculo na série, garantiu sua merecida indicação de protagonista, assim como Judith Light, maravilhosa em apenas dois episódios, ficou entre as finalistas de atriz coadjuvante.

– Uma das séries mais subestimadas da Netflix, Ozark recebeu uma esperada (e merecida) indicação de melhor para Jason Bateman, mas faltou Laura Linney também representando o seriado como melhor atriz. De qualquer forma, a surpresa de ver dois episódios selecionados para a categoria de melhor direção de certa forma compensa a ausência.

– Depois de perder todos os principais prêmios de cinema para Allison Janney (Eu, Tonya), Laurie Metcalf volta a ser indicada pelo revival já cancelado de Roseanne, série que lhe rendeu três estatuetas nos anos 1990. Metcalf já recebeu outras oito indicações sem vitória desde então, todas por diferentes seriados, incluindo uma indicação tripla em 2016 por drama e comédia. Este ano, também faturou seu segundo Tony consecutivo no teatro. Chegou a hora de um novo Emmy?

– No geral, foram poucas as surpresas para um ano sem VeepBig Little LiesHouse of Cards e a aguardada Sharp Objects, que só é elegível para o ano que vem. Especialmente nos dramas, as listas parecem as mesmas de sempre, com variações já esperadas e um tanto óbvias. Em termos de garimpar estreias, há de se reconhecer que, mesmo inconstante e aos trancos e barrancos, o Globo de Ouro é muito mais instigante.

Os vencedores do Emmy 2018 serão conhecidos no dia 17 de setembro. Até lá, prometo compartilhar com vocês tudo o que eu tirar dessa longa lista de atraso. Confiram abaixo a lista dos selecionados para melhor série e para interpretações protagonistas e coadjuvantes. Todas as outras categorias (são mais de 100!) podem ser encontradas no site do Emmy.

MELHOR SÉRIE DRAMA
The Handmaid’s Tale
Game of Thrones
This Is Us
The Crown
The Americans
Stranger Things
Westworld

MELHOR ATRIZ – SÉRIE DRAMA
Claire Foy (The Crown)
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale
Evan Rachel Wood (Westworld)
Keri Russell (The Americans
Sandra Oh (Killing Eve
Tatiana Maslany (Orphan Black

MELHOR ATOR – SÉRIE DRAMA
Ed Harris (Westworld)
Jason Bateman (Ozark
Jeffrey Wright (Westworld)
Matthew Rhys (The Americans
Milo Ventimiglia (This Is Us)
Sterling K. Brown (This Is Us)  

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE DRAMA
Alexis Bledel (The Handmaid’s Tale
Ann Dowd (The Handmaid’s Tale
Lena Headey (Game of Thrones
Millie Bobby Brown (Stranger Things
Thandie Newton (Westworld
Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE DRAMA
David Harbour (Stranger Things
Joseph Fiennes (The Handmaid’s Tale
Mandy Patinkin (Homeland
Matt Smith (The Crown)
Nikolaj Coster-Waldau (Game of Thrones)
Peter Dinklage (Game of Thrones

MELHOR SÉRIE COMÉDIA
Atlanta
Barry
Black-ish
Curb Your Enthusiasm
GLOW
The Marvelous Mrs. Maisel
Silicon Valley
The Unbreakable Kimmy Schmidt

MELHOR ATRIZ – SÉRIE COMÉDIA
Allison Janney (Mom
Issa Rae (Insecure)
Lily Tomlin (Grace and Frankie
Pamela Adlon (Better Things)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel
Tracee Ellis Ross (Black-ish

MELHOR ATOR – SÉRIE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish
Bill Hader (Barry
Donald Glover (Atlanta
Larry David (Curb Your Enthusiasm
Ted Danson (The Good Place)
William H. Macy (Shameless)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE COMÉDIA 
Aidy Bryant (Saturday Night Live
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Betty Gilpin (GLOW)
Kate McKinnon (Saturday Night Live
Laurie Metcalf (Roseanne
Leslie Jones (Saturday Night Live
Megan Mullally (Will & Grace)
Zazie Beetz (Atlanta

MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE COMÉDIA
Alec Baldwin (Saturday Night Live
Henry Winkler (Barry)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Louie Anderson (Baskets
Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR MINISSÉRIE
The Alienist
The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story
Genius: Picasso
Godless
Patrick Melrose

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME
Antonio Banderas (Genius: Picasso)
Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Benedict Cumberbatch (Patrick Melrose)
Jeff Daniels (Godless)
John Legend (Jesus Christ Superstar Live in Concert)
Jesse Plemons (Black Mirror: USS Callister)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME
Edie Falco (Law & Order: True Crime)
Jessica Biel (The Sinner)
Laura Dern (The Tale)
Michelle Dockery (Godless)
Regina King (Seven Seconds)
Sarah Paulson (American Horror Story: Cult)

MELHOR ATOR COADJUVANTE – MINISSÉRIE/TELEFILME
Brandon Victor Dixon (Jesus Christ Superstar Live in Concert)
Edgar Ramirez (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Finn Wittrock (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Jeff Daniels (Godless)
John Leguizamo (Waco)
Michael Stuhlbarg (The Looming Tower)
Ricky Martin (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – MINISSÉRIE/TELEFILME
Adina Porter (American Horror Story: Cult)
Judith Light (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Letitia Wright (Black Mirror: Black Museum)
Merritt Wever (Godless)
Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Sara Bareilles  (Jesus Christ Superstar Live In Concert)

46º Festival de Cinema de Gramado #1: seleção de longas concorrentes busca a diversidade do cinema brasileiro e latino-americano

Após exibição no Festival de Sundance, Benzinho faz sua primeira exibição nacional no 46º Festival de Cinema de Gramado. Filme marca nova parceria entre o diretor Gustavo Pizzi e a atriz Karine Telles.

O Festival de Cinema de Gramado apresentou hoje, na coletiva de imprensa realizada na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, as novidades de sua 46ª edição, que acontece entre os dias 17 e 25 de agosto. Sem Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho, que estiveram ausentes por eventualidades pessoais, o curador Marcos Santuario falou em nome do trio: “Este ano temos a satisfação de dizer que não há um tema, há muitos. A marca das mostras competitivas em Gramado será a diversidade, como é no cinema brasileiro e latino-americano”. Julgando pela lista de filmes apresentados, essa deve mesmo ser a tônica do evento, que, na última edição, consagrou o drama Como Nossos Pais, dirigido por Laís Bodanzky.

Com nove títulos brasileiros em competição, Gramado segue apostando no ineditismo de todos os títulos selecionados. Pelo menos dois dos longas brasileiros chegam com pompa internacional: Benzinho, de Gustavo Pizzi, e Ferrugem, de Aly Muritiba, foram os representantes da nossa mais recente safra no Festival de Sundance deste ano. Junto a eles, a pluralidade se faz presente com cinebiografias (10 Segundos Para Vencer, sobre o boxeador Éder Jofre, e Simonal, sobre a trajetória, claro, do cantor Wilson Simonal), animações (A Cidade dos Piratas, do gaúcho Otto Guerra, homenageado ano passado com o troféu Eduardo Abelin), comédias (Correndo Atrás, de Jeferson De) e dramas das mais variadas temáticas (O BanqueteMormaçoA Voz do Silêncio). Ao todos, foram inscritos 665 filmes, entre longas e curtas-metragens.

Após ser palco das primeiras exibições públicas em território brasileiro de filmes como O Som ao RedorFlores RarasQue Horas Ela Volta? Aquarius, para citar trabalhos mais célebres e de expressiva carreira internacional, Gramado, apesar da mostra estrangeira muito mais enxuta este ano (são apenas cinco longas em competição, o que tem se mostrado uma tendência no evento), segue administrando muito bem o alto status construído após a mudança de curadoria entre 2011 e 2012. Isso porque, além da competição, será apresentado, em primeira mão, O Grande Circo Místico, aguardado longa-metragem de Cacá Diegues com grande elenco e exibido fora de competição em Cannes. 

Na chamada programação paralela, a Itália é o país convidado de honra da 46ª edição, dando continuidade ao projeto iniciado ano passado com o Canadá, que chegou a trazer para a Serra Gaúcha a cineasta Amber Fares, produtora da quarta temporada de Transparent, da Amazon. Outra iniciativa do Festival que ganha nova edição é o Gramado Film Market, programação focada na discussão de pontos cruciais da atividade audiovisual e nas parcerias nacionais e internacionais. Para este ano, o Gramado Film Market se concentra em três frentes de discussão: plataformas de exibição, internacionalização de conteúdos ibero-americanos e no futuro das salas de exibição.

Completando as novidades apresentadas na coletiva, o Festival de Cinema de Gramado já adianta duas de suas quatro homenagens para 2018. A primeira é para o diretor carioca Carlos Saldanha, duas vezes indicado ao Oscar e autor de obras como RioA Era do GeloO Touro Ferdinando. Desembarcando diretamente de Los Angeles, onde vive nos Estados Unidos, ele receberá o Troféu Eduardo Abelin, distinção entregue a cineastas brasileiros. Já o Troféu Cidade de Gramado será do ator Ney Latorraca. Com mais de 50 anos de carreira, Latorraca contabiliza mais de 20 longas no currículo, entre eles O Beijo no AsfaltoFor All – O Trampolim da VitóriaCarlota Joaquina. Outras duas homenagens ainda estão para ser anunciadas: o Troféu Oscarito, destinado a grandes atores do cinema brasileiro, e o Troféu Kikito de Cristal para expoentes do cinema latino-americano.

Confira abaixo a lista completa de filmes selecionados para o 46º Festival de Cinema de Gramado. Mais informações no site http://www.festivaldegramado.net.

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

10 Segundos Para Vencer (RJ), de José Alvarenga Jr.
O Banquete (SP), de Daniela Thomas
Benzinho (RJ), de Gustavo Pizzi
A Cidade dos Piratas (RS), de Otto Guerra
Correndo Atrás (RJ), de Jeferson De
Ferrugem (PR), de Aly Muritiba
Mormaço (RJ), de Marina Meliande
Simonal (RJ), de Leonardo Domingues
A Voz do Silêncio (SP), de André Ristum

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

Averno (Bolívia/Uruguai), de Marcos Loayza
Las Herederas (Paraguai/Brasil/Uruguai/França/Alemanha), de Marcelo Martinessi
Mi Mundial (Uruguai/Argentina/Brasil), de Carlos Morelli
Recreo (Argentina), de Hernán Guerschuny e Jazmín Stuart
Violeta al Fin (Costa Rica/México), de Hilda Hidalgo

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

À Tona (DF), de Daniella Cronemberger
Apenas o Que Você Precisa Saber Sobre Mim (SC), de Maria Augusta V. Nunes
Aquarela (MA), de Thiago Kistenmacker e Al Danuzio
Catadora de Gente (RS), de Mirela Kruel
Estamos Todos Aqui (SP), de Chico Santos e Rafael Mellim
Um Filme de Baixo Orçamento (SP), de Paulo Leierer
Guaxuma (PE), de Nara Normande
Kairo (SP), de Fabio Rodrigo
Majur (MT), de Rafael Irineu
Minha Mãe, Minha Filha (SP), de Alexandre Estevanato
Nova Iorque (PE), de Leo Tabosa
Plantae (RJ), de Guilherme Gehr
A Retirada Para Um Coração Bruto (MG), de Marco Antonio Pereira
Torre (SP), de Nádia Mangolini

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS – PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

À Sombra (Canoas), de Felipe Iesbick
O Abismo (Sapucaia do Sul), de Lucas Reis
Antes do Lembrar (Porto Alegre), de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes
Coágulo (São Leopoldo), de Jéssica Gonzatto
O Comedor de Sementes (São Leopoldo), de Victoria Farina
Um Corpo Feminino (Porto Alegre), de Thais Fernandes
Entre Sós (Porto Alegre), de Caetano Salerno
Fè Mye Talè (Encantado), de Henrique Both Lahude
A Formidável Fabriqueta de Sonhos Menina Betina (Pelotas), de Tiago Ribeiro
Gasparotto (Porto Alegre), de Zeca Brito
Grito (Santa Maria), de Luiz Alberto Cassol
Maçãs em Fogo (Porto Alegre), de Bruno de Oliveira
Movimento à Margem (Porto Alegre), de Lícia Arosteguy e Lucas Tergolina
Mulher Ltda (Canoas), de Taísa Ennes
Nós Montanha (Porto Alegre), de Gabriel Motta
Pelos Velhos Tempos (Porto Alegre), de Ulisses da Motta
Sem Abrigo (Porto Alegre), de Leonardo Remor
Subtexto (Caxias do Sul), de Cristian Beltrán
Vinil (Porto Alegre), de Catherine Silveira de Vargas e Valentina Peroni Freire Barata
O Viúvo (Porto Alegre), de Luiz Carlos Wolf Chemale

Rapidamente: “Eu, Tonya”, “A Melhor Escolha”, “Uma Mulher Fantástica” e “Vingadores: Guerra Infinita”

Vencedor do Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, o chileno Uma Mulher Fantástica é um relato digno e delicado sobre o luto a partir da perspectiva de uma personagem trans.

EU, TONYA (I, Tonya, 2017, de Craig Gillespie): É interessante ver um filme como Eu, Tonya durante a era das fake news: dispensando a imparcialidade e caminhando na linha tênue entre o que é a nossa opinião e o que é de fato verdade, o longa assinado por Craig Gillespie, do ótimo A Garota Ideal, assume o seu relato de defesa na história de Tonya Harding (Margot Robbie), ex-patinadora que, nos anos 1990, foi acusada de estar envolvida no planejamento de um ataque que seu então marido colocou em prática contra Nancy Kerrigan, também patinadora e concorrente de Tonya nas competições da modalidade. Com estilo ácido, ágil e desbocado, o filme cria uma mistura entre drama, comédia e documentário que questiona a veracidade (ou a intensidade) de fatos e perspectivas. O recado é claro: em circunstâncias extremas e suspeitas, tudo se resume ao que cada um vê. Margot Robbie é maravilhosa em todas as fases e facetas de Tonya Harding, naquele tipo de desempenho que define uma carreira em ascensão. Já Allison Janney, vencedora absoluta dos prêmios de atriz coadjuvante em 2018, é sempre uma ótima atriz, mas aqui está presa a uma caricatura unilateral e que se justifica de maneira simplista. Sua personagem, aliás, sintetiza aquele que é o maior problema de Eu, Tonya: o de ultrapassar a linha do politicamente incorreto para convidar o público a rir de temas que são problemas reais da nossa realidade, como o machismo, a violência doméstica e todo tipo de abuso emocional. É o único desajuste questionável (e, por que não, irresponsável) de um filme predominantemente repleto de frescor em clima, ideias e ritmo.

A MELHOR ESCOLHA (Last Flag Flying, 2017, de Richard Linklater): Fiel ao seu estilo de olhar para momentos e situações que, isoladamente, parecem corriqueiros, mas que, quando vistos em perspectiva, explicam muita coisa sobre quem nos tornamos, o diretor Richard Linklater realiza A Melhor Escolha com as qualidades e delicadezas que lhe são habituais, mas dessa vez em menor escala, mesmo com um elenco de primeiríssima qualidade (Bryan Cranston, Steve Carell, Laurence Fishburne). E, quando digo menor escala, faço referência ao próprio roteiro, que fala sobre a camaradagem masculina, os anos que nos separam e as situações que nos reúnem com inspiração moderadíssima, muitas vezes até optando por situações e arcos dramáticos previsíveis. Pela linearidade de estrutura e ideias (é fácil deduzir qual será a transformação de cada um dos personagens), A Melhor Escolha se alonga mais do que tem a dizer, o que entrega aos três atores principais a tarefa de ser a base do carisma e do principal interesse da obra. Cranston e Fishburne, como os bons atores que são, tornam a viagem prazerosa, mas cito mais uma vez em específico o sempre subestimado Steve Carell: interiorizando a dor de um homem que perdeu o filho sem recorrer aos artifícios fáceis de interpretação para esse tipo de papel, o ator é minimalista como poucos no cinema norte-americano da atualidade, adicionando outro belo momento a uma carreira já marcada por excelentes trabalhos em filmes como Pequena Miss SunshineEu, Meu Irmão e Nossa Namorada, Amor a Toda ProvaFoxcatcher A Guerra dos Sexos.

UMA MULHER FANTÁSTICA (Una Mujer Fantástica, 2017, de Sebastián Lelio): Vencedor do Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, o chileno Uma Mulher Fantástica dá novo significado ao luto quando transfere o tema para a perspectiva de uma mulher transexual. Força e originalidade são extraídas do relato somente com essa mudança de cenário: afinal, é devastadora a situação em que se encontra Marina (Daniela Vega, ótima), proibida de viver quase todos os rituais do luto (o velório de seu parceiro, o abraço reconfortante da família) simplesmente por ser transexual. Mas o bacana de Uma Mulher Fantástica é não abordar a questão da sexualidade como panfletagem, preferindo negar sentimentos fáceis (ao contrário dos estereótipos, a protagonista é uma mulher independente, trabalhadora e talentosa) ou interferências sensoriais e estéticas — e, ainda assim, quando as evoca, o resultado é emblemático, como na sequência em que protagonista encara uma intensa ventania, uma clara metáfora da contracorrente diária que ela enfrenta na vida, ou como na cena em que ela, nua, coloca um espelho no meio das pernas, refletindo aquilo que a define: o rosto e não qualquer órgão genital que ela tenha ou deixe de ter. Uma Mulher Fantástica é de uma delicadeza tremenda — característica que o cinema de língua latina domina com maestria nos melhores exemplares que se encaixam em relatos como esse —, e a vitória no Oscar de filme estrangeiro é dupla: pela celebração da representatividade e pela excelência cinematográfica.

VINGADORES: GUERRA INFINITA (Avengers: Infinity War, 2018, de Anthony e Joe Russo): Sucesso estratosférico de bilheteria e inclusive de comoção por parte da crítica, Vingadores: Guerra Infinita é o perfeito exemplo de como filmes de super heróis são uma verdadeira paixão. Para quem a tem, o que se vê é um filme inovador, marcante e corajoso. Já quando você não se empolga de forma equivalente, como é o meu caso, a situação é um mistério: no máximo bacana, Guerra Infinita não passa de outra diversão de momento. Com o grande mérito de demonstrar plena segurança em um ponto que poderia ser sua ruína — o timing e relevância de incontáveis personagens e universos —, o longa tem a seu favor um vilão de forte presença e que finalmente desperta algum sentimento de ameaça. Entretanto, além da duração tão demasiada quanto inevitável, Guerra Infinita frustra mesmo é quando, ironicamente, tenta colocar em prática as consequências da ameaça tão anunciada pelo vilão: o projeto tanto não tem culhões para traçar um destino drástico para determinado personagem quando sugere a chance quanto encerra essa primeira parte (outra virá em 2019) propondo certo pesar por uma situação que sabemos ser perfeitamente reversível, uma vez que incontáveis franquias já estão encomendadas para os próximos anos. Não precisávamos de um plot twist raso e até mesmo oportunista como esse.

“Hereditário”: luto familiar é a instigante matéria-prima para o medo e a paranoia (até chegar o terço final)

You don’t think I’m gonna take care of you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Ann Dowd, Milly Shapiro, Brock McKinney, Jake Brown, Mallory Bechtel, Morgan Lund, Bus Riley, Heidi Méndez

Hereditary, EUA, 2018, Terror, 127 minutos

Sinopse: Após a morte da reclusa avó, a família Graham começa a desvendar algumas coisas. Mesmo após a partida da matriarca, ela permanece como se fosse um sombra sobre a família, especialmente sobre a solitária neta adolescente, Charlie, por quem ela sempre manteve uma fascinação não usual. Com um crescente terror tomando conta da casa, a família explora lugares mais escuros para escapar do infeliz destino que herdaram. (Adoro Cinema)

Sucessor de Mãe! no sentido de ser o filme mais polarizador do cinema norte-americano em 2018, Hereditário, contudo, representa algo muito maior: a consolidação do terror mais sofisticado e menos simplista junto às grandes plateias. Se já vivemos épocas em que sucessos de bilheteria eram trabalhos pautados por um estilo mais grotesco e escrachado como A Casa de CeraHorror em AmityvilleO Albergue e uma infinidade de Jogos Mortais, hoje a criatividade e a autoria parecem ter lugar cativo mundo afora. Pensem comigo: Invocação do MalA BruxaCorra!Um Lugar Silencioso, citando apenas obras mais recentes, exploram as possibilidades estilísticas do gênero de forma exemplar, além de, em casos pontuais, proporem a interpretação de discussões contemporâneas a partir do medo, da tensão ou do assombro. Com Hereditário, que está em cartaz nos cinemas brasileiros, ganhamos mais um título para reforçar essa tese, e um título dos mais interessantes do ponto de vista de repercussão: independente de pré-conceitos e do quanto o resultado como um todo é capaz de envolver, você precisa assisti-lo e, principalmente, debatê-lo, sensação despertada apenas por uma mínima porcentagem dos filmes que costumamos conferir ao longo do ano.

Conduzindo situações e personagens por terrenos incertos, onde muito se deduz e pouco se diagnostica em termos daquilo que devemos temer ou suspeitar (uma qualidade tremenda, diga-se de passagem), Hereditário mostra todo o talento do diretor Ari Aster em seu primeiro longa-metragem: há uma atmosfera latente no filme, auxiliada tanto pelas ferramentas técnicas (a trilha de Colin Stetson cria o clima ideal até mesmo nas notas mais altas e previsíveis) quanto por essa matéria-prima da incerteza que define os melhores relatos de terror. A força maior, contudo, está no conceito pensado para a trama, impulsionada pela discussão sobre como a dor e o luto são capazes de nos levar a lugares que nem imaginávamos existir. Tudo começa quando Annie (Toni Collette) perde a mãe e, dias depois, sofre outro baque emocional que atingirá também e principalmente o filho Peter (Alex Wolff). Entre eles, há ainda o pai vivido por Gabriel Byrne e a estranha irmã mais nova (Milly Shapiro), mas é do intenso calvário emocional de Annie e Peter que Hereditário extrai tensão e angústia. Ao mostrar o quanto o luto mexe com as nossas ideias e sentidos, o roteiro desafia o espectador a concluir se o estado de transe dos personagens está apoiado na loucura, na realidade ou, quem sabe, até mesmo no sobrenatural. E os resultados desse processo de questionamentos são ricos no drama e no terror, inclusive porque Toni Collette e Alex Wolff são atores talentosos.

O filme que percorre caminhos tão instigantes vai por água abaixo no terço final, e por uma razão que julgo ser bastante decisiva, para não dizer um pouco desonesta: a de virar completamente do avesso o seu estilo de terror. Poderíamos dizer que, antes disso, Hereditário comete o pecado de explicar ponto a ponto o seu mistério, o que soa amador para uma obra que vinha carregando força e tensão exatamente na falta de respostas, mas o problema maior está mesmo nessa troca de estilo, que é gravíssima para um gênero tão específico como o terror. Ora, ninguém engoliria Os Outros, por exemplo, caso, de repente, todo o seu mistério fosse somente um plano do boneco Chucky. Hereditário me chateia por causa disso: além das explicações desnecessárias, a conclusão, cuja cena final é uma clara evocação do que já vimos em A Bruxa, transforma um filme em outro (um que eu provavelmente não veria), e ainda o faz a passos apressados, com guinadas e conclusões tumultuadas. Já se a mudança drástica é parte de um plano maior para causar o efeito da provocação e do incômodo, ao menos há de se reconhecer que Ari Aster acertou em cheio, pois Hereditário é, indiscutivelmente, o filme-evento da temporada.

“Oito Mulheres e Um Segredo”: sem roteiro e direção à altura, elenco feminino é a razão do entretenimento

That was spectacular!

Direção: Gary Ross

Roteiro: Gary Ross e Olivia Milch, baseado na história de Gary Ross e nos personagens de George Clayton Johnson e Jack Golden Russell

Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Mindy Kaling, Sarah Paulson, Rihanna, Awkwafina, James Corden, Richard Armitage, Midori Francis, Elliott Gould, Charlotte Kirk, Charles Prendergast

Ocean’s 8, EUA, 2018, Aventura, 110 minutos

Sinopse: Recém-saída da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) logo procura sua ex-parceira Lou (Cate Blanchett) para realizar um elaborado assalto: roubar um colar de diamantes no valor de US$ 150 milhões, que a Cartier mantém sempre em um cofre. O plano é convencer a empresa a emprestá-lo para que a estrela Daphne Kluger (Anne Hathaway) use a joia no badalado Met Gala, um dos eventos mais chiques e vistosos de Nova York. Para tanto, Debbie e Lou reúnem uma equipe composta apenas por mulheres: Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina), Rose (Helena Bonham Carter) e Tammy (Sarah Paulson). (Adoro Cinema)

Um pouco menos emblemática do que o público passou a considerar especialmente agora, a franquia iniciada com Onze Homens e Um Segredo e concluída como trilogia com Doze Homens e Outro SegredoTreze Homens e Um Novo Segredo era puro entretenimento, com o bônus de ser concebida em uma fase inspirada de Steven Soderbergh, diretor incansável e plural, mas também bastante irregular. Sua cartada mais certeira, entretanto, era o elenco de altíssimo nível, capaz de reunir, na mesma tela, atores como George Clooney, Brad Pitt, Al Pacino e Matt Damon (a lista completa poderia levar mais algumas linhas), todos eles arquitetando assaltos e outros trambiques em pleno clima de descontração. Lá, a presença feminina (Julia Roberts, Catherine Zeta-Jones) era secundárias, mas agora o jogo virou: onze anos depois do último filme, é a vez das mulheres, como em boa parte do que tem sido produzido nos dias de hoje, assumirem a dianteira de uma franquia que segue o mesmo estilo, dessa vez intitulada Oito Mulheres e Um Segredo.

A única conexão entre esse novo filme comandado por Gary Ross (A Vida em Preto e Branco, Seabiscuit – Alma de Herói e o primeiro Jogos Vorazes) e a versão masculina é o fato de Debbie Ocean (Sandra Bullock) ser irmã de Danny (Clooney), referenciado uma vez ou outra ao longo filme. O problema é que, apesar desse fiapo de conexão, Oito Mulheres e Um Segredo depende mais do estilo e do formato dos longas anteriores do que poderia se esperar. É fato: Gary Ross, também autor do roteiro, faz um trabalho bastante acomodado ao apenas remontar uma fórmula bem sucedida. Não há aqui uma linguagem própria ou ao menos certa personalidade para distanciar Oito Mulheres e Um Segredo de uma mera inversão de elenco. Há algum mal em mexer em time que sempre vence? Não necessariamente, mas, assim como no recente Mulher-Maravilha, a sensação de prato requentado nos lembra que, sim, é alta a relevância de se ter um filme comercial estrelado por mulheres, e seria ainda maior caso determinadas produções nos apontassem novas possibilidades em um mercado historicamente definido por visões masculinas (ao contrário de Mulher-Maravilha, o caso de Oito Mulheres e Um Segredo é ainda mais delicado por ter um homem na cadeira de direção).

Munido de certas liberdades que são coerentes com a veia cool da franquia (como levar a sério a personagem vivida por Sandra Bullock começar o filme com a maquiagem em dia dentro de uma… prisão?!), Oito Mulheres e Um Segredo não é um filme que preza pela verossimilhança ou por sua engenhosidade de roteiro (dependendo do ponto de vista, é o que dá a tônica da diversão) e que não se esmera na construção das personagens, todas com personalidades que existem porque lhe foram superficialmente atribuídas e não porque foram desenvolvidas. A falha mais grave, porém, é uma mera questão de atmosfera. Sem qualquer ameça ou perigo iminente, um filme de assalto não desperta euforia, e é o que acontece com Oito Mulheres e Um Segredo: não há situação que não seja contornável ou qualquer sequência que desperte o mínimo de adrenalina. Durante todo o desenrolar, nós sabemos que os ventos sempre sopram a favor das personagens. E isso, na letra fria da história, é desestimulante, além do mais quando tanta facilidade para idealizar a esperteza das personagens abre uma série de furos no roteiro (é inadmissível, por exemplo, que, em determinado ponto, a polícia acredite que um objeto tenha sido inocentemente perdido quando ele só poderia ser retirado do corpo de quem o usava com uma ferramenta que estava justamente sob os cuidados das autoridades).

Como em tantos outros trabalhos onde atores ou atrizes são maiores do que os filmes em si, Oito Mulheres e Um Segredo não foge à regra e inclusive se potencializa: são nada menos do que oito intérpretes que formam um time simplesmente irresistível. Tanto o projeto tem consciência desse poder que faz o possível para enaltecer cada personagem com trocas constantes de figurinos, maquiagens dignas de um Tapete Vermelho ou tiradas que reforcem o quanto elas são descoladas (o que é ótimo!). Anterior a esse apelo, é mesmo um prazer ver Cate Blanchett contracenando com Sandra Bullock ou Helena Bonham Carter vivendo a insegura figurinista de uma radiante e inspirada Anne Hathaway. Há personagens mais secundárias e sem tanto destaque, seja pelo papel ou por quem a interprete (Sarah Paulson poderia ter rendido mais, ao mesmo tempo em que Rihanna não se justifica muito em cena), o que não quer dizer que elas não tenham sua parcela de contribuição para o carisma do elenco como um todo. É o suficiente para fazer de Oito Mulheres e Um Segredo uma experiência entusiasmante? Quase. O longa de Gary Ross pode ser um bom entretenimento, mas, poucas horas depois da sessão, já se percebe que não tem fôlego para ficar na memória como algo maior do que uma diversão de momento. E é claro que, no frigir dos ovos, como em tudo se tratando sobre  cinema, cada um tem seu próprio gosto e estilo para dar o devido valor a essa percepção.

“Tully”: o lado exaustivo e caótico da maternidade

You only live twice, or so it seems: one life for yourself and one for your dreams.

Direção: Jason Reitman

Roteiro: Diablo Cody

Elenco: Charlize Theron, Mackenzie Davis, Mark Duplass, Ron Livingston, Emily Haine, Asher Miles Fallica, Lia Frankland, Gameela Wright, Maddie Dixon-Poirier, Elaine Tan, Marceline Hugot

EUA, 2018, Drama, 95 minutos

Sinopse: Marlo (Charlize Theron), mãe de três filhos, sendo um deles um recém-nascido, vive uma vida muito atarefada, e, certo dia, ganha de presente de seu irmão: uma babá para cuidar das crianças durante a noite. Antes um pouco hesitante, Marlo acaba se surpreendendo com Tully (Mackenzie Davis). (Adoro Cinema)


Selecionando um número qualquer de filmes sobre maternidade, é bem provável que a maioria eleve suas discussões, claro, para o quanto a chegada de um filho pode ser um dos momentos mais transformadores, comoventes e recompensadores da vida de uma mulher. Tully não é esse tipo de filme. Quero dizer, a roteirista Diablo Cody, que volta a trabalhar com o diretor Jason Reitman depois de Juno e Jovens Adultos, não deixa de ilustrar o imensurável amor de uma mãe por um filho, mas o faz de outra maneira, mostrando que, na verdade, o afeto começa na superação diária de uma vida cansativa, complicada e exaustiva. Afinal, essa é uma constatação universal: olhando metodicamente para o cotidiano, toda mãe logo conclui que ter filhos exige um esforço descomunal de sobrevivência, e é nesse vão formado entre a recompensa e o sacrifício materno que Tully deposita suas maiores questões e reflexões.

Propôr um olhar para o extremo oposto de situações clássicas é algo que Diablo Cody sempre fez muito bem. Façamos uma breve retrospectiva: em Juno, a garota que engravida está longe de ser a mais popular da escola, bem como o seu namorado desengonçado; em Jovens Adultos, o mulherão que todos julgam ser requisitada e bem sucedida é, na realidade, uma pessoa incrivelmente frustrada tanto na profissão quanto no plano afetivo; e, agora, em Tully, uma mãe ama cada um de seus três filhos, mas já não tem mais brilho nos olhos e deixa estampar, no rosto e no corpo, o peso diário de uma maternidade caótica. E é perfeito que esse novo roteiro de Diablo tenha ficado mais uma vez sob a responsabilidade de Jason Reitman, outro profissional dedicado a relatos sobre pessoas e sentimentos facilmente identificáveis, mesmo quando eles são sobre um homem riquíssimo que vive a vida de aeroporto em aeroporto pelos Estados Unidos (Amor Sem Escalas) ou sobre uma mulher que, sequestrada junto ao filho, desenvolve uma relação no mínimo atípica com seu sequestrador (Refém da Paixão).

A união do olhar apurado dessa dupla potencializa um texto que toca em outras questões que ultrapassam o plano da identificação com o universo feminino e maternal: em determinado ponto, Tully convida o espectador a refletir sobre como passamos por certas transições sem de fato notá-las, quando só mais tarde, com um misto de pesar, nostalgia e compreensão, chegamos à conclusão que, apesar dos pesares, a vida não ofereceu outra opção a não ser aceitar uma série de desprendimentos para encarar as inevitáveis trocas de papeis que precisamos fazer. Sem discursos manjados ou expositivos, Tully, enfim, percorre esse imenso mundo intimista refletindo sobre as alternativas que criamos para sobreviver e ir em frente, mesmo quando elas soam mais perigosas e capazes de colocar em xeque a nossa identidade do que estamos dispostos a admitir.

Tully, que talvez seja mesmo o melhor roteiro escrito por Diablo Cody até aqui, é minucioso ao extrair de momentos cotidianos a força de seu drama: em uma cena que claramente faz referência à sequência de Amor Sem Escalas onde o personagem de George Clooney prepara a sua mala de viagem uma centena de vezes entre um aeroporto e outro, o filme traduz todo o turbilhão que se instala em uma casa quando chega um recém-nascido (o choro, as fraldas limpas, as fraldas sujas, o peito para mamar, o banho, o acordar, o despertar, a atenção vigilante mesmo à noite). E Charlize Theron, que vem colecionando grandes desempenhos nos últimos anos (Monster – Desejo Assassino, Jovens Adultos, Mad Max: Estrada da Fúria), adiciona mais um à lista, pois sua Marlo é bastante complexa tanto por dentro como por fora, o que exige da atriz uma entrega que ultrapassa a transformação física (ela engordou 22 kg para o papel) e vai fundo nas camadas emocionais de uma protagonista cuja exaustão física e existencial se percebe em cada expressão, palavra e movimento.

Eventualmente, certos detalhes do roteiro de Tully parecem deixar furos pelo caminho (e prefiro não pontuá-los para não estragar a surpresa do que virá pela frente). É também estranha, para não dizer um pouco desconexa com o filme, uma determinada situação envolvendo a protagonista, a recém-contratada babá e o marido. Entretanto, a sensação de estranhamento com idealizações e supostos desvios de roteiro se dissipam ao fim, quando Diablo reserva uma pequena reviravolta que esclarece toda e qualquer interrogação sugerida durante o desenrolar da história. A surpresa vem para promover não a reviravolta pela reviravolta, mas para intensificar questões discutidas ao longo do filme, deixando uma sensação agridoce que permeia qualquer lembrança relacionada a esse pequeno grande filme, mas que, parando para pensar, pode ser exatamente a mesma que temos em relação à vida e ao que ela exige de todos nós.

Três atores, três filmes… com Paulo Henrique Silva

Criada em 2011, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine é a primeira entidade nacional a reunir os críticos de cinema de todas as regiões do país. Promovendo as diversas formas de pensamento crítico, reflexão e debate sobre cinema, hoje a entidade é presidida pelo jornalista mineiro Paulo Henrique Silva, que também atua no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte. Como de costume, o Paulo foi convidado a escrever para a coluna sobre três interpretações que considera marcantes no cinema. A partir desse convite, vieram três grandes atrizes em três grandes desempenhos. E vejam só: todas de intérpretes acima dos 60 anos, ativas profissionalmente e com a sorte de terem ao seu lado grandes diretores que reverenciam, na tela e fora dela, o imenso valor de suas respectivas carreiras e talentos. É, sem dúvida, uma seleção para ninguém colocar defeito. Confiram!

Meryl Streep (The Post: A Guerra Secreta)
A ferramenta principal do ator é o seu corpo, mas, no caso de Meryl Streep, o trabalho dela se dá principalmente por meio do olhar e dos lábios. Dependendo do gênero e do filme, eles nos conduzem de uma alegria contagiante a uma raiva incontrolável. Em As Pontes de Madison, Meryl não precisa dizer muito para mostrar uma mulher madura cheia de sentimentos guardados prontos para transbordar. Ela parece ser o retrato da mulher de seu tempo, ou das mulheres de seu tempo, multifacetada, uma amálgama entre a dona de casa submissa e àquela que está à frente das transformações sociais. Num filme recente como The Post, de Steven Spielberg, ela faz a síntese de uma carreira, reunindo numa mesma personagem os lados frágil e forte. Numa produção marcadamente dominada por homens, Meryl levanta a bandeira feminista, em que a atitude dela é determinante na trama. Em dois diálogos decisivos, com Tom Hanks e Bruce Greenwood, a fala num tom quase inalterado contrasta com um olhar e lábios que nos apontam muito do que acontecerá em seguida.

Isabelle Huppert (Elle)
Isabelle Huppert é um mistério. Seus personagens, num mesmo filme, apontam para vários caminhos. Talvez seja o que mais gosto nela: a imprevisibilidade. É uma risada característica que parece dizer mais da loucura interior do que qualquer outra coisa; um olhar que nos angustia ao revelar que ela irá até às últimas consequências; e uma voz que vai do angelical ao diabólico, com cada frase saindo dúbia. Seus personagens são sempre fortes. De Paul Verhoeven, ela ganhou em Elle um dos papéis mais emblemáticos de sua carreira, uma empresária que não sabe o que é, vivendo um processo assustador de autodescoberta, conectada ao pensamento de hoje – do homem? – sobre a mulher que emergirá de tantas transformações. Tanto o filme quanto ela parecem não querer dar uma resposta. A única coisa certa é que a sua ironia incômoda, outro traço marcante no trabalho de Isabelle. Vê-la em ação é sempre um prazer incômodo.

Sonia Braga (Aquarius)
Ver a brasileira Sonia Braga no filme Extraordinário, como uma avó que apoia a neta num momento familiar conturbado, é muito evocativo, como se fosse um prosseguimento de sua personagem em Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e fechando uma linha do tempo iniciada com Eu Te Amo e A Dama do Lotação, na década de 70. Ela sempre viveu uma mulher forte, em contraste com um universo masculino em decadência. Os homens dos filmes de Arnaldo Jabor e Neville D’Almeida parecem já não dar conta da emancipação feminina. Esse desconcerto é muito simbólico de uma época em que passávamos pelos últimos anos da ditadura militar no Brasil. O que nos leva a Aquarius, mais de 30 anos depois, agora em que o país sofre com o liberalismo econômico e a corrupção. Resistir à venda de sua casa, que conta a rica história de sua trajetória, é um ato político, em torno da preservação da individualidade e da liberdade contra o apagamento liderado por um suposto progresso. Sônia representa muita coisa, menos ordem e progresso.

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