Cinema e Argumento

54º Festival de Cinema de Gramado #4: Marcos Caruso pelas palavras de Irene Ravache

Coordenando o catálogo do 54º Festival de Cinema de Gramado, tive o privilégio de, como em outras edições, apresentar a trajetória de cada um dos homenageados pelo evento por meio das palavras de alguns de seus amigos e colegas. São relatos afetuosos, escritos pessoas próximas a eles e que evidenciam tanto as conquistas profissionais de cada um dos laureados quanto suas qualidades como amigos e seres humanos.

Foi uma tremenda honra ter convidado e contado com a colaborações desses profissionais do cinema que imediatamente se dispuseram a escrever sobre os homenageados do Festival de Gramado deste ano. O primeiro texto que compartilho aqui é o da atriz Irene Ravache 

Reproduzindo o material disponível no catálogo impresso e entregue no Festival, começo hoje com o depoimento da atriz Irene Ravache para Marcos Caruso, que, neste domingo, 16 de agosto, recebe o Troféu Cidade de Gramado em cerimônia no Palácio dos Festivais. Abaixo, o texto na íntrega.

Irene Ravache e Marcos Caruso no espetáculo Intimidade Indecente. Foto: Vidal Cavalcante

Caruso! Nasceu com um nome bom. E honra isso.

Bom filho, bom pai, bom avô, bom amigo, bom colega, bom de contracenar. Olhos nos olhos, e a cena flui que é uma beleza. 

Já namoramos no teatro, no cinema e na televisão – e deu certo! Não me lembro quem conheci primeiro: o autor ou o ator, ou poderia ter sido os dois ao mesmo tempo, claro que poderia. Era final dos anos 70, início dos 80, por aí.

Sempre achei o Caruso um “charme”, pois era assim que falávamos quando ele aparecia para jantar no Gigetto, o restaurante ponto de encontro dos artistas em São Paulo. Mas não ficamos imediatamente amigos. Cada um com sua turma.

É um homem sério, comprometido com seus afetos, com o que faz e com o que escolhe fazer. Poderia ter sido advogado, mas optou por outro roteiro. A OAB perdeu uma carteirinha para o DRT das Artes Cênicas. Nenhuma dúvida, foi melhor!

Não sei quem admiro mais: o autor brilhante ou o ator surpreendente. Escrevo essa frase e imediatamente penso que o Caruso jamais se descreveria assim. É que ele vai simplesmente fazendo o seu trabalho com dedicação, pesquisa, entrega, sem se preocupar com os adjetivos. Resumindo: talento.

Caruso está no Guiness. De sua autoria, “Trair e Coçar, é Só Começar”, a comédia de maior sucesso e há mais tempo em cartaz do teatro brasileiro, foi escrita em três dias e três noites. Ele conta que o trabalho como ator estava escasso, então, comprou uma máquina de escrever. E continuou na máquina, às vezes, a quatro mãos com sua grande e inesquecível amiga Jandira Martini, resultando assim em um belo alinhamento profissional com sucessos no teatro e na televisão. Prêmios!

Certa vez, em uma entrevista, referindo-se a um novo personagem, ele disse: “Eu não sei como ele é, mas eu gosto do que não sei”. Não é verdade, ele sabe. Só ainda não sabe que sabe. Mas sabe. Tipos e vozes tão diferentes e ricos em suas composições surgem de onde? De uma cartola?  Lógico que não. Ele não é mágico, ele é obstinado. O público gosta dele e a crítica também, olha que proeza!

Caruso é fácil de gostar e de ficar junto. Dizem que, se você quiser saber como realmente é uma pessoa, viaje com ela.  Aconselho ir com ele pra qualquer lugar. É curioso, divertido e cuidadoso! A curiosidade o mantém jovem – e também a bicicleta, a natação, a caminhada na beira da praia. 

Esse ator é paulistano, mas é carioca. E italiano também. E português, se calhar. Abre fronteiras com criatividade, se emociona pra valer, não despreza a técnica e escreve carinhos em bilhetes.  Diferente. Tem atitudes elegantes, tal como levar a madrasta, viúva, numa viagem pela Provence em plena temporada das lavandas!

Caruso é um perigo. Tem humor, sabedoria e distribui afetos. Um homem assim abala estruturas. Um ator assim é irresistível!

Um amigo assim é pra se guardar por todos os lados. 

E agradecer!

Irene Ravache, atriz

Três atores, três filmes… com Pedro Salassié

Pedro brinca que ele é a “forma do filme”, enquanto eu sou o “sentido do filme”, fazendo referência aos escritos de Eisenstein e tecendo a tese de que, ao falar sobre filmes, costumamos observá-los de formas distintas. Em grande parte, acredito nisso, mas, quando leio o que ele escreveu sobre três de suas performances favoritas no cinema aqui para a coluna, imediatamente discordo. Seja falando sobre Perkins, Kidman ou Nicholson, Pedro carrega consigo muito de sentido e sensibilidade. Eu e ele nos conhecemos há quase 20 anos, quando nos encontramos pela primeira vez em 2007 para assistir a Ratatouille. Desde então, com os anos e as horas entre nós, sempre preservamos uma ligação e uma amizade que, para além das afinidades cinematográficas, estendeu-se para à vida como um todo. Tê-lo aqui é muito simbólico, um desejo que tenho há muitos anos – e que agora, enfim, se materializa. Obrigado por tudo, brother!

Anthony Perkins (Psicose)
Acredito que tenho um fraco por atores (artistas em geral) que sejam estigmatizados tanto na vida real quanto pelo seu personagem mais conhecido. É o caso de Perkins, que foi durante a vida estigmatizado – a encarnação (sim, porque é algo além da interpretação) que ele fez de Norman Bates no maior clássico de Hitchcock que rendeu ao ator não só o ápice da sua carreira, mas, ao mesmo tempo, a sua “condenação”. Seus papéis anteriores, como o mocinho galã, vistos hoje em dia, chegam a ser cômicos, inverossímeis. Então, foi a caracterização do psicopata dependente emocional da mãe em Psicose, tão convincente e visceral, que o impediu de ter qualquer outro sucesso em sua vida. Resultado: terminou seus dias reprisando por mais três vezes o personagem em sequências do original de qualidade muito duvidosa. Fora das telas, é bom ser lembrado que Perkins também foi estigmatizado por coisas que ainda são alvos de preconceito nos dias de hoje: o gay que não pode se assumir, faz a “terapia da cura gay” e acaba tendo filhos contra sua vontade (Oz Perkins, o atual famoso diretor de terror, de Longlegs: Vínculo Mortal e O Macaco, para citar alguns) e também ter terminado seus dias com o grande estigma do HIV do final dos anos 1980, falecendo de complicações da AIDS em 1992. Como se a tragédia fosse pouca, a sua esposa da época (mãe de Oz) ainda faleceu nos atentados de 11 de setembro de 2001. Ela estava a bordo do primeiro avião a se chocar com as torres gêmeas.

Nicole Kidman (As Horas)
Até hoje acho ofensiva a entrega do Oscar feita por Denzel Washington a Nicole Kidman por seu trabalho em As Horas. Não foi “por um nariz”, como o ator declarou, em tom humorístico. O drama de 2002 dirigido por Stephen Daldry é, na minha opinião, o mais intimista, pessimista e psicologicamente denso já feito. Uma adaptação literária que parece ter sida pelo próprio autor do romance, de tão precisa. É natural que pessoas com tendências a serem introvertidas consigam se identificar com a Virginia Woolf que Kidman entrega aqui. A atriz mergulhou tão profundamente na personagem real – e não só aquela que está na obra As Horas, de Michael Cunningham, mas também na Virginia da vida real – que é algo muito indissociável onde termina Nicole em cena e onde começa Virginia. E ser a pedra fundamental de uma história que, baseada nela, entrega outras duas personagens tão impactantes (interpretadas por Julianne Moore e Meryl Streep) faz com que possamos nos dar conta de que essa Nicole Kidman aqui, no seu auge (tinha há pouco trabalhado até com Kubrick à época), mereceu aquele Oscar em 2003 por muito mais do que somente “um nariz”. Foi a coroação de não somente interpretar a musa dos deprimidos, a autora Virginia Woolf, mas de ter acabado se tornando a própria em tela.

Jack Nicholson (As Confissões de Schmidt)
O personagem que consigo, em toda a história do cinema, relacionar a mim mesmo. Simples assim. Todos temos aquele “velho aposentado” que mora dentro de nós, mas assumo que eu particularmente quase sempre vivi assim dia após dia. A vida é um equilíbrio desequilibrado de drama e comédia, de situações que nos envolvemos sem que pedíssemos, de ter que lidar com familiares que não pedimos para ter de levar um “tapa na cara” das pessoas que confiamos. Momentos de raiva (vamos jogar as roupas da Helen no lixo reciclável) e de profunda tristeza (vou passar todos os cremes da Helen no rosto). Momentos de ira completa (falando do “cocky bastard” do novo genro) na comunicação com a mesma pessoa em que a fragilidade do ser humano mais se mostra (o desenho feito por Ndugu). De uma forma incrivelmente hábil, Alexander Payne dirige esse filme como se fosse um carro em uma estrada cheia de cones, variando do profundo drama ao humor ácido (a parceira de uma vida morre, mas eu odiava todos os seus modos, então vamos comprar um caixão azul porque é mais barato). Simplesmente a cada dia que acordamos, não escolhemos simplesmente se o nosso dia será dramático, se será uma comédia, se passaremos medo, se estaremos ansiosos por algo. O Warren Schmidt de As Confissões de Schmidt entrega para nós esse cotidiano: o que virá pela frente?

Rapidamente: “Alpha”, “Blue Moon”, “Heartstopper: Para Sempre” e “Quarto do Pânico”

Em formato de longa-metragem, Heartstopper: Para Sempre encerra a bem-sucedida série da Netflix.

ALPHA (idem, 2025, de Julia Ducournau): Após ter levado a Palma de Ouro no Festival de Cannes com todo o furor causado por Titane, a francesa Julia Ducournau volta ao comando de um longa-metragem, mas sem o mesmo frescor ou a mesma provocação que a consagraram na Croisette. Diante de Titane, Alpha esmorece em todos os sentidos, inclusive no que tange ao horror corporal, aqui explorado por meio de uma epidemia que, aos poucos, petrifica os seres humanos. Ducournau tem ideias rasas para explorar leituras que, por óbvio, remetem à AIDS ou à própria Covid-19. A intolerância humana diante do desconhecido, a falta de preparo para lidar com uma crise emergente de saúde e o isolamento social imposto aos possíveis infectados são conflitos que carecem de originalidade e, da forma que se apresentam, talvez pudessem causar algum impacto décadas atrás. Hoje, Alpha dá a impressão de ser um filme requentado, como se nascesse de um projeto engavetado há muitos anos e desatualizado desde então. Entre o coming-of-age, o drama familiar e o body horror, o longa tampouco parece saber onde centrar-se, causando verdadeira curiosidade apenas quando explora esteticamente a petrificação dos corpos, construída pelos trabalhos exemplares de maquiagem e efeitos visuais. Créditos também devem ser dados à boa interpretação da jovem Mélissa Boros. São pontos positivos que nos lembram como Alpha não chega a ser ruim, apenas repleto de lugares-comuns — a última coisa que eu esperaria de quem causou tudo, menos indiferença em seu filme anterior.

BLUE MOON: MÚSICA E SOLIDÃO (Blue Moon, 2025, de Richard Linklater): É quase como se não tivesse existido no Brasil este mais recente filme de Richard Linklater que chegou muito discretamente ao catálogo da HBO Max em junho passado, sem ter passado pelas salas de cinema. Pois trata-se de uma injustiça, a começar pelo desempenho de Ethan Hawke, talvez em seu melhor momento. Ele interpreta o lendário letrista Lorenz Hart, que, passando a noite em um bar, tem sua autoconfiança colocada à prova quando seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) chega ao mesmo local para comemorar o sucesso da estreia de seu novo musical, Oklahoma!. Blue Moon: Música e Solidão é palavroso até dizer chega: são incontáveis os diálogos e monólogos encenados com a narrativa transcorrendo em tempo real, formato cuja recepção varia drasticamente de acordo com a afinidade do espectador. Contudo, é inegável que Linklater e, em especial, Ethan Hawke, banham o filme com a melancolia de um homem cuja maior tragédia reside na incapacidade de olhar para seu próprio estado de vida, permanecendo preso a um tempo que há muito já lhe escorreu por entre os dedos. “Ele era alerta, dinâmico e divertido” e “O homem mais triste que já conheci” dizem dois depoimentos trazidos em letreiros logo no início, quando Blue Moon já deixa clara a dualidade inerente a toda a história. Ao compreender a genialidade e a falência de um mesmo homem, o filme alcança notas bastante interessantes, sempre impulsionado pela presença do grande ator que dá vida ao protagonista.

HEARTSTOPPER: PARA SEMPRE (Heartstopper Forever, 2022, de Wash Westmoreland): Quatro anos e três temporadas depois, a série Heartstopper, da Netflix, chega ao fim em formato de longa-metragem. É uma despedida digna para a jornada afetiva do casal Charlie (Joe Locke) e Nick (Kit Connor), outrora dois jovens descobrindo a natureza de suas sexualidades e agora um par romântico que enfrenta os desafios tradicionais de qualquer relacionamento, passando por ciúmes, problemas de comunicação, distância e a busca por um meio-termo diante de conflitos. A direção fica por conta de Wash Westmoreland (Para Sempre Alice), que não inventa a roda e busca seguir a cartilha bem-sucedida de uma série importante na desconstrução de como as saídas do armário costumam ser retratadas pelo audiovisual. É claro que Heartstopper tem seus dramas, mas o que importa aqui é a esperança, a aceitação e a possibilidade de um mundo melhor para aqueles que simplesmente desejam ser quem são. Se, neste último capítulo, a criadora da HQ homônima e roteirista Alice Oseman por vezes patina na construção da trama, preterindo demais os coadjuvantes e sendo repetitiva no conflito central de Charlie e Nick, por outro lado, o resultado como um todo não desaponta por se manter fiel a seus personagens e ao tom trabalhado nas três temporadas. Heartstopper: Para Sempre termina com aquele quentinho tão característico da série, e o único deslize imperdoável aqui é colocar outra atriz no papel de Olivia Colman (devido a conflitos de agenda, ela não pôde participar desse capítulo derradeiro). Afinal, não é como se não percebêssemos — ou como se não sentíssemos falta de Olivia, que chegou a vencer um Emmy pela série.

QUARTO DO PÂNICO (idem, 2025, de Gabriela Amaral Almeida): Produção original Telecine, Quarto do Pânico foi encomendado para o streaming quando poderia ter trilhado certa carreira nas salas comerciais — e a recente mobilização das plateias em torno de filmes de suspense e terror como Obsessão e Backrooms respaldam essa tese. Lançado sem maiores alardes em fevereiro deste ano, o remake dirigido pela talentosa Gabriela Amaral Almeida do filme de David Fincher em 2002 não atualiza a história a ponto de justificar o remake. Há pouco de verdadeiramente brasileiro em uma trama que ainda bebe demais da estrutura de tensão e desenvolvimento do filme original. Talvez por ter grande reverência ao trabalho de Fincher, Gabriela pouco mexe no formato, o que fica bastante perceptível se você revê o longa de 2002 em sessão dupla. Os pontos de tensão e de viradas permanecem os mesmos, e a diretora termina por se beneficiar mais de leituras que, invariavelmente, são reflexos dos nossos tempos, como a ameaça à figura feminina e o constante estado de medo e alerta que as mulheres enfrentam. Em termos de exercício cinematográfico, Quarto do Pânico é bem menos cifrado e estimulante do que outros trabalhos de Gabriela, em especial o magnífico O Animal Cordial, seu surpreendente e visceral longa-metragem de estreia. Hoje, ela prepara Cão de Guarda, trabalho em que repetirá a parceria com Murilo Benício e que é descrito como um road movie envolto em ação e dramas psicológicos. No centro da história, um dedetizador passa a perder sua capacidade de sentir afeto após um acidente aparentemente sem consequências físicas graves. Só pela sinopse, tenho a forte suspeita de que o verdadeiro chão da realizadora está nas histórias originais. 

54º Festival de Cinema de Gramado #3: curtas brasileiros, longas documentais e gaúchos e homenagens a Selton Mello e Maria Fernanda Cândido

Maria Fernanda Cândido e Selton Mello receberão o Kikito de Cristal.

Vinte e um novos títulos acabam de entrar na disputa pelos Kikitos do 54º Festival de Cinema de Gramado com o anúncio dos filmes selecionados para as mostras competitivas de longas-metragens documentais, de longas-metragens gaúchos e de curtas-metragens brasileiros. A divulgação aconteceu na tarde de hoje (16), em coletiva de imprensa na cidade de São Paulo. Além dos novos concorrentes, que serão exibidos dentro da programação do Palácio dos Festivais, o festival — que acontece de 12 a 22 de agosto, com abertura oficial no dia 14 — anunciou os dois últimos homenageados desta edição: Maria Fernanda Cândido e Selton Mello, que serão laureados com o Kikito de Cristal — o troféu, pela primeira vez, será entregue a dois artistas. Além disso, foi revelada a exibição hors-concours de La Perra, como filme de encerramento do festival. A coprodução com o Chile que estreou em Cannes conta com direção de Dominga Sotomayor e tem Selton Mello no elenco e na produção executiva. 

Durante o encontro com a imprensa em São Paulo também foram reveladas informações sobre a 10ª edição do Gramado Film Market, segmento mercadológico do festival. Com o propósito de mobilizar gestores públicos municipais de todo o país e ampliar o diálogo entre cinema, desenvolvimento econômico e políticas públicas, o Gramado Film Market vai realizar o 1º Encontro Internacional de Cidades, que terá Medellín como cidade convidada internacional em 2026, representada por Maria Fernanda Galeano Rojo, secretária de Desenvolvimento Econômico da cidade colombiana. Também pela primeira vez, a programação do festival terá a Residência para Jovens Cineastas, que encerrou suas inscrições com 203 pessoas inscritas, representando 13 estados e o Distrito Federal, e vai anunciar as participantes selecionadas em breve.

A Rodada de Negócios também está confirmada e reunirá players fundamentais do mercado, como Amazon MGM Studios, Biônica Filmes, Boutique Filmes, Deberton Filmes, Floresta Realizações Audiovisuais, Globo Filmes, H2O Films, Lança Filmes, O2 Play, Panorâmica, Sulflix Entretenimento, Vitrine Filmes, Zapata Filmes e 4U Pictures.

O Projeto está entre os concorrentes ao Kikito de melhor documentário.

DOCUMENTÁRIOS INVESTIGAM MEMÓRIAS, TERRITÓRIOS E TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS


A curadoria dos longas-metragens brasileiros e documentários, assinada pelas atrizes Ana Flavia Cavalcanti e Camila Morgado e pelo jornalista, professor e crítico de cinema Marcos Santuario, selecionou obras vindas de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. São elas: Afrontosa (SP), de Coraci Ruiz e Julio Matos; Empeleitada (PE), de Micaele Xukuru, Chico Ludermir e Sergio Borges; Gonzaguinha, da Maior Liberdade (RJ), de Susanna Lira; e O Projeto (SP), de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic. “Trata-se de uma unidade de filmes que demonstra a potência do documentário, o espaço de reflexão, escuta e questionamento, com temáticas variadas e propostas desafiadoras”, comenta o curador Marcos Santuario.

Em Afrontosa, de São Paulo, os diretores Coraci Ruiz e Julio Matos apresentam Suzy Santos, trans, preta e periférica, que viveu anos nas ruas antes de encontrar na militância um caminho profissional e se reinventar como gestora e figura política. Ela se dedica ao cuidado de pessoas vulneráveis na conservadora cidade de Campinas. O filme é uma produção do Laboratório Cisco. Já Empeleitada representa Pernambuco e mostra a construção coletiva de uma casa de taipa para dar forma à memória e à história do povo indígena Xukuru. Uma morada que nasce diretamente da terra, da luta e dos encantados. O documentário é uma coprodução entre Símio Filmes, Ororubá Filmes, Fractais e Coquevídeo.

Gonzaguinha, Da Maior Liberdade (RJ), produção da Modo Operante, também integra a mostra. No longa, a premiada diretora Susanna Lira resgata em letras, imagens e sons a fúria e a poesia de Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha, um dos artistas mais viscerais e importantes para a construção e a discussão popular da história democrática brasileira. Produzido pela Gullane, O Projeto (SP), de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic, propõe uma viagem investigativa sobre os desdobramentos do projeto colonial europeu e da supremacia branca no Sul e Norte global. O debate é conduzido através da vida e visão de uma diretora afro-brasileira e um diretor suíço, contando com depoimentos de nomes como Djamila Ribeiro, Erika Hilton e Grada Kilomba.

– Afrontosa (SP), de Coraci Ruiz e Julio Matos
– Empeleitada (PE), de Micaele Xukuru, Chico Ludermir e Sergio Borges
– Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” (RJ), de Susanna Lira
– O Projeto (SP), de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic 

Filhas da Lua é um dos três documentários presentes na Mostra Sedac Iecine de Longas Gaúchos.

LONGAS GAÚCHOS DEBATEM IDENTIDADE E MEMÓRIA POPULAR


Os cinco filmes que vão compor a Mostra Competitiva Sedac Iecine de Longas-metragens Gaúchos do 54º Festival de Cinema de Gramado foram selecionados por uma comissão formada por: Leonardo Bomfim, programador; Luis Lomenha, escritor, roteirista, diretor e produtor; e Mônica Kanitz, jornalista. Os escolhidos revelam a pluralidade e a força do audiovisual do Rio Grande do Sul, com ficções e documentários.

Entre os longas está a ficção A História Mais Triste do Mundo, dirigida por Hique Montanari e produzida pela Container Filmes de Porto Alegre em coprodução com a Prana Filmes, que mistura live action, animação e teatro de bonecos para narrar uma jornada de amadurecimento infantil. A programação conta também com Remanente – Voltagem, obra que mistura drama, terror e ficção-científica. O longa mostra dois paramédicos que ativam acidentalmente um portal dimensional e libertam uma criatura com poderes eletromagnéticos. Integrou as competições do Frightfest (Londres) e do Imagine Film Festival (Amsterdam), além de ter sido exibido no Fantaspoa e no 25º Macabro (México). Com direção e roteiro de Kapel Furman, a produção é de Helena Portini com distribuição internacional da Raven Banner.

Na lista de documentários, a mostra apresenta Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido, com direção de Luciane Fagundes e produzido pela Século Vinte e Um Pesquisas e Informações, que mergulha na reconstrução afetiva da trajetória de um dos maiores nomes da rádio do Estado. Também no gênero documental está Filhas da Lua, dirigido por Tatiana Sager, que também assina a produção com Renato Nunes Dornelles. Com distribuição da Panda Filmes Ltda, a obra narra a trajetória de resiliência de quatro travestis que, após sobreviverem ao sistema prisional, buscam superar diversos obstáculos em busca de uma mudança de fase em suas vidas. Fechando a seleção de documentários, Morro da Cruz – Memória Popular é dirigido por Crystom Afronário e produzido pela Justiça Poética em parceria com o Instituto Sociocultural do Morro da Cruz. O filme traz o olhar de moradores, estudantes e artistas sobre a construção da identidade cultural e a celebração da periferia de Porto Alegre.

– Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido (Porto Alegre), de Luciane Fagundes 
– Filhas da Lua (Porto Alegre), de Tatiana Sager
– A História Mais Triste do Mundo (Porto Alegre), de Hique Montanari 
– Morro da Cruz – Memória Popular (Porto Alegre), de Crystom Afronário 
– Remanente – Voltagem (Porto Alegre), de Kapel Furman

Curta O Véu chega a Gramado depois de passar pelos festivais de Toronto, Guadalajara e Palm Springs.

CURTAS APRESENTAM NARRATIVAS URGENTES E OLHARES SENSÍVEIS


Doze produções de sete estados diferentes integram a mostra competitiva de curtas-brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado. Os finalistas foram selecionados por Alice Urbim, jornalista, produtora e diretora; Cavi Borges, diretor, produtor e distribuidor; Chico Izidro, jornalista, escritor e crítico de cinema; Danny Barbosa, atriz, roteirista, diretora e produtora; e Taty Behar, comunicóloga.

“A seleção foi um misto de desafio e prazer. Desafio porque era preciso escolher aproximadamente dez por cento, entre quase mil obras; prazer porque, ao exercitar a retina crítica, nos deparamos com uma diversidade que mostra caminhos novos para o cinema nacional. Nosso critério privilegiou, além da qualidade estética e do rigor técnico, filmes cujas narrativas tragam urgências de discurso e olhares sensíveis sobre temas que merecem ganhar espaço nas telas. Buscamos trabalhos que provoquem reflexões, ampliem perspectivas e deem vez a vozes pouco escutadas. A curadoria precisou contemplar a multiplicidade cultural do país desde a sua primeira etapa — olhares femininos e masculinos, raciais, trans e intergeracionais, além das distintas regionalidades que compõem o Brasil“, destaca a comissão de curadores.

Confira os filmes selecionados:

– 씨발 (Shibal) (SP), de João Rubio Rubinato
– Divino: Sua Alma, Sua Lente (MT), de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú
– Fúrias (RS), de Nica Maleoa
– As Gêmeas (RJ), de Vanessa Aguiar
– Graxa e o Zepelim (PE), de Camilo Soares
– Maior que a Casa Toda (RO), de Fabiano Barros e Neto Cavalcanti
– A Menina que Queria Ser Pedra (MG), de Jackson Abacatu
– Mulher Papaya (SP), de Camila Tarifa
– Pão Doce (SP), de Wesley Gabriel Silva Santos
– Um Passeio (SP), de Thalles Cabral e Fernanda Rocha
– Pique-Pega (RJ), de Mia Lima Rocha
– Revelação (RJ/SP/FR), de Gabriela I. Gaia

MARIA FERNANDA CÂNDIDO E SELTON MELLO RECEBEM  KIKITO DE CRISTAL


Maria Fernanda Cândido e Selton Mello serão os homenageados com o Kikito de Cristal, que destaca grandes nomes que marcam presença no cinema nacional e internacional. Com vasta experiência no audiovisual, Maria Fernanda e Selton integraram, respectivamente, os elencos de O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui, longas brasileiros que marcaram as duas últimas temporadas do Oscar. 

Nascida no Paraná, Maria Fernanda Cândido soma mais de três décadas de carreira artística. A atriz iniciou a carreira nos palcos no final dos anos 1990 em Anchieta, Nossa História. No cinema, participou de longas-metragens como Dom, pelo qual conquistou o Kikito de Melhor Atriz em 2003, A Paixão Segundo G.H., Sal de Prata, o indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional O Agente Secreto e os internacionais Il Traditore e Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore. Nas TV, conquistou o público no papel de Paola em Terra Nostra e participou de novelas de sucesso como Esperança, Lado a Lado e A Força do Querer. 

Com mais de 40 anos de carreira no audiovisual, Selton Mello coleciona papéis plurais que marcaram a cultura brasileira. Ator, diretor, produtor e dublador, iniciou a carreira ainda na infância na televisão e, desde então, teve destaque em novelas como Força de Um Desejo, Nos Tempos do Imperador e A Próxima Vítima, além de dirigir e protagonizar a série Sessão de Terapia. Nos cinemas, encantou o público com Chicó, de O Auto da Compadecida, que se tornou um dos personagens mais queridos da cultura brasileira, e emocionou brasileiros e estrangeiros com sua atuação como Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui, o primeiro longa-metragem brasileiro a conquistar o Oscar. Também participou como ator de produções memoráveis como Lisbela e o Prisioneiro e Lavoura Arcaica, e assina a direção dos longas-metragens Feliz Natal, O Palhaço e O Filme da Minha Vida. 

FILME COM SELTON MELLO QUE ESTREOU EM CANNES ENCERRA O FESTIVAL


Para fechar a programação da 54ª edição, o festival exibe o drama La Perra, dirigido pela premiada cineasta chilena Dominga Sotomayor. Coproduzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira (RT Features), o filme é baseado no livro homônimo de Pilar Quintana e traz Selton Mello no elenco principal e também assinando a produção executiva. Ambientado em uma ilha remota no sul do Chile, o longa narra a história de uma mulher solitária que resgata uma cachorra filhote, desenvolvendo um vínculo que a obriga a encarar traumas, ressentimentos e relacionamentos rompidos do passado.

54º Festival de Cinema de Gramado #2: programação contará com estreia de “Emergência 53” e homenagens a Andrea Beltrão e Renata Almeida Magalhães

O Festival de Cinema de Gramado anunciou nesta segunda-feira (13), durante evento oficial no Rio de Janeiro, dois novos homenageados de sua 54ª edição, que será realizada entre 12 e 22 de agosto na Serra Gaúcha, com abertura oficial no dia 14. A atriz Andrea Beltrão e a produtora Renata Almeida Magalhães receberão, respectivamente, os troféus Oscarito e Eduardo Abelin durante o festival. O evento também revelou a série brasileira que terá sua pré-estreia no Palácio dos Festivais: Emergência 53, dirigida por Andrucha Waddington e Claudio Torres.

A coletiva de imprensa contou com a participação da presidente da Gramadotur, Rosa Helena Volk; do secretário de Turismo de Gramado, Ricardo Bertolucci Reginato; da gestora de Patrocínio Cultural da Petrobras, Ellen Costa Mendes Soares; e do jornalista e crítico de cinema Marcos Santuario, que assina, com as atrizes Ana Flavia Cavalcanti e Camila Morgado, a curadoria dos longas-metragens brasileiros e documentários. Do filme Antártida, longa que abrirá Gramado, estiveram presentes o diretor Bruno Safadi, a roteirista Claudia Jouvin, a atriz Mariana Sena e os atores Antonio Calloni, Henrique Barreira e Renan Monteiro. Do filme Pele de Rinoceronte, em competição este ano, esteve presente o diretor Marcello Ludwig Maia. 

Elenco da série Emergência 53, que faz sua estreia no Festival de Cinema de Gramado.

SÉRIE BRASILEIRA: Emergência 53


Criada por Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington, Emergência 53 terá seu primeiro episódio exibido em Gramado no dia 17 de agosto. Em dez episódios, a produção mergulha nos dramas de médicos, enfermeiros e motoristas de uma unidade móvel de urgência. Composta por profissionais brilhantes, mas que foram renegados pelo sistema, a equipe tenta a todo custo salvar as vidas dos pacientes. O elenco traz nomes como Yara de Novaes, Emílio Dantas, Valentina Herszage, Ana Hikari, Raquel Villar, William Nascimento, Jaffar Bambirra e Emilio de Mello, além de contar com participações especiais de Fernanda Montenegro, Julia Lemmertz e Antonio Grassi. 

Com lançamento previsto ainda para 2026 no Globoplay, Emergência 53 tem produção da Conspiração e é escrita por Claudio Torres e Fábio Mendes, com colaboração de Márcio Maranhão, Carolina Neves, André Emídio e Joaquim Waddington. A direção e produção são de Andrucha Waddington e Claudio Torres, com produção executiva de Renata Brandão, Tania Pacheco e Luísa Barbosa.

Andrea Beltrão receberá o Troféu Oscarito. Foto de Bruna Sussekind.

TROFÉU OSCARITO: Andrea Beltrão


A atriz Andrea Beltrão receberá o Troféu Oscarito, que celebra profissionais que contribuíram ativamente com o cinema brasileiro. Com mais de 40 anos de carreira artística, a atriz iniciou sua trajetória no teatro O Tablado, no Rio de Janeiro, no final da década de 1970. Desde então, participou de inúmeras produções no cinema, nos palcos e na televisão, conquistando mais de 20 prêmios, entre eles um Grande Otelo de Melhor Atriz por Hebe: A Estrela do Brasil, pelo qual também foi indicada ao Emmy Internacional, e três Prêmios Shell pelas peças teatrais A Prova e As Centenárias, além de um troféu em homenagem à inauguração do Teatro Poeira, ao lado de Marieta Severo. Na televisão, Andrea Beltrão cativou o público em produções como Tapas & Beijos, A Grande Família, Mulheres de Areia, A Viagem e No Rancho Fundo. Nos cinemas participou de mais de 30 longas-metragens, com destaque para Hebe, Sob Pressão, Salve Geral, Ela e Eu e Avenida Beira-Mar. Nos palcos, estrelou montagens marcantes como Lady Tempestade e Antígona. A atriz estrela, ao lado de Marina Ruy Barbosa e Leandra Leal, Antártida, filme que abrirá oficialmente o 54º Festival de Cinema de Gramado no dia 14 de agosto. 

TROFÉU EDUARDO ABELIN: Renata Almeida Magalhães


Com mais de 40 anos de carreira, a produtora Renata Almeida Magalhães será homenageada com o Troféu Eduardo Abelin, que premia diretores, produtores e instituições de destaque no audiovisual. Eleita a primeira mulher Presidente da Academia Brasileira de Cinema, Renata começou a carreira no cinema em 1981 e, atualmente, é uma das produtoras mais atuantes, tendo produzido mais de 10 longas-metragens, além de séries, documentários, curtas-metragens, comerciais e vídeos institucionais. Ela também colaborou no roteiro de Deus é Brasileiro, um dos grandes sucessos de seu marido, o diretor Cacá Diegues, que também já foi agraciado com o troféu. Juntos, o casal formou uma das duplas mais premiadas do cinema nacional, com obras como O Maior Amor do Mundo, Orfeu e O Grande Circo Místico. 

Graduada em Direito e especialista em Legislação de Incentivo Fiscal para Cultura, Renata alinhavou parcerias entre as maiores instituições cinematográficas privadas e públicas do país. Ocupa, desde 2022, a Presidência da Academia Brasileira de Cinema, responsável pela realização do Prêmio Grande Otelo e pelas indicações brasileiras à festivais e premiações internacionais. Renata é vice-presidente do Conselho da Indústria Criativa da Firjan, integrante da AMPAS (Academy of Motion Picture Arts and Sciences, dos Estados Unidos) e já foi presidente do Conselho da Escola Darcy Ribeiro entre 2011 e 2020.