Cinema e Argumento

“1917” e os efeitos do plano-sequência: ganha o fascínio ou a dispersão?

Hope is a dangerous thing.

Direção: Sam Mendes

Roteiro: Krysty Wilson-Cairns e Sam Mendes

Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Pip Carter, Andy Apollo, Paul Tinto, Josef Davies, Billy Postlethwaite, Gabriel Akuwudike

EUA/Reino Unido, Drama, 119 minutos

Sinopse: Os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são jovens soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Quando eles são encarregados de uma missão aparentemente impossível, os dois precisam atravessar território inimigo, lutando contra o tempo, para entregar uma mensagem que pode salvar cerca de 1600 colegas de batalhão. (Adoro Cinema)

Objeto de reflexões amplas e opostas entre teóricos do cinema como André Bazin e Jacques Aumont, o tão cultuado plano-sequência costuma comover plateias. Em linhas gerais, a ideia consiste na captura de determinada cena sem cortes aparentes, como se a câmera fosse exatamente a mesma ao longo de toda uma ação. Filmes recentes foram altamente elogiados pelo uso dessa técnica, como BirdmanO Regresso (não por acaso, ambos renderam ao mexicano Alejando González-Iñárritu o Oscar de melhor direção). Contudo, há uma diferença crucial entre eles e 1917, que agora tem rendido prêmios e aclamação mundial ao diretor Sam Mendes. Enquanto Iñárritu usava o plano-sequência em momentos pontuais, 1917 narra toda a sua história com essa linguagem, propondo a ideia de que o longa é contado em tempo real durante aproximadamente duas horas. E aí se trata de uma discussão à parte.

Como em tudo no cinema, partimos inevitavelmente para o plano da identificação. Tanto o espectador pode interpretar o ambicioso plano-sequência de 1917 como uma poderosa ferramenta de imersão quanto pode se distanciar do filme justamente em função dele. Afinal, onde fica a espontaneidade ou o espaço para a criação quando tudo foi tão planejado em detalhes, além de extensivamente ensaiado para que nada ficasse fora do lugar? Sabemos, claro, que há diversos cortes camuflados em 1917, mas a lógica interna de que a história de desenvolve em um único plano exige sincronia e continuidade cirúrgicas. Informações dão conta de que os atores ensaiaram durante seis meses para cada imagem fosse registrada da maneira como o diretor Sam Mendes havia imaginado. Por ser uma produção de ampla escala, qualquer erro nesse processo também custaria a 1917 uma boa quantia em dinheiro. 

Toda essa contextualização é importante para entender como não há espaço para naturalidade ou improviso em 1917. A experiência começa muito impressionante, e a sensação de imponência é preservada até o último minuto de projeção porque a equipe técnica reunida aqui é do mais alto nível. Entretanto, com o desenrolar da trama, é possível perceber cada intenção de Sam Mendes na construção desse espetáculo. Não é necessário um olhar muito clínico para perceber onde o diretor realizou algum corte (conte as cenas em que a tela fica escura de um ambiente para outro e você já terá uma boa noção) ou onde o roteiro, escrito por Mendes em parceria com Krysty Wilson-Cairns, planejou uma pausa reflexiva em meio à adrenalina. Se abrissemos 1917 como um mapa, veríamos cada fronteira dramática e cada movimento técnico desenhados de maneira muito clara. 

Uma comparação feita com fervor até aqui pela crítica e por aqueles que não embarcam na proposta é a de que o longa se assemelha muito a um videogame. E há verdade nisso: em tempo real, os personagens parecem avançar entre fases, enfrentando um desafio a cada novo ambiente explorado. Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) passam por trincheiras, escapam de tiros, enfrentam um desabamento subterrâneo, desbravam a noite, caem na lama, são levados pela forte correnteza de um rio, administram o surgimento de inimigos inesperados e, quando passam de determinadas fases, encontram até sargentos e generais interpretados por atores famosos como Colin Firth e Benedict Cumberbatch, todos remetendo aos personagens que surgem com explicações ou informações para um jogador ao concluir uma importante etapa de um game.

Em meio a essa lógica que só não entrega um joystick ao espectador para que ele controle a brincadeira, Dean-Charles Chapman e principalmente George MacKay fazem o possível para conferir algum tipo de profundidade aos protagonistas. O desafio é impossível de ser cumprido, pois 1917 está mais preocupado com suas virtudes técnicas do que com qualquer outra coisa, e por isso só resta aos atores a comunicação corporal entre tantas exigências físicas. Ainda é pouco: Chapman e MacKay não vão muito longe dramaticamente, e é até difícil lembrar o rosto de cada um após a sessão. Ambos são empenhados e comprometidos, é verdade, mas limitados à preparação física e aos ensaios de um filme cuja amplitude dramática está concentrada no tamanho da guerra.

Como exercício técnico, 1917 entrega o espetáculo prometido com o uso do plano-sequência: o mestre Roger Deakins se esbalda na direção de fotografia (a sequência noturna é de arrepiar e está entre as mais belas imagens já criadas por ele), Thomas Newman dá o tom clássico de um filme de guerra na trilha sonora e o cuidadoso trabalho de som do quarteto Mark Taylor, Oliver Tarney, Rachael Tate e Stuart Wilson contribui para todas as intenções de imersão do longa. Mendes foi muito mais feliz casando conteúdo e estética em 007 – Operação Skyfall, mas isso não diminui a ambição técnica de 1917, que, como uma produção grandiosa, é irrepreensível. Créditos também devem lhe ser dados pela ideia de fazer uma celebração não a grandes líderes, mas aos homens comuns das trincheiras. E fica por aí. Elogiar mais do que isso está diretamente condicionado ao fato de cada espectador se conectar ou não com a proposta do plano-sequência.

Os vencedores do BAFTA 2020

Seguindo a tendência de outras premiações, 1917 foi o melhor filme no BAFTA 2020.

Na reta final rumo ao Oscar, o BAFTA revelou neste domingo (02) os vencedores de sua criticada seleção de 2020. Sem mulheres concorrendo na categoria de direção e somente com atores brancos na disputa entre atores protagonistas e coadjuvantes, o prêmio britânico seguiu com sua recente tendência de apenas tentar prever o Oscar ao invés de seguir suas próprias intuições. Frente a esse cenário, 1917 foi o grande vencedor da noite, levando sete estatuetas para casa, entre elas a de melhor filme e melhor direção para Sam Mendes. Os atores consagrados também foram os mesmos de outras premiações: Renée Zellweger (Judy), Joaquin Phoenix (Coringa), Laura Dern (História de Um Casamento) e Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood).

A única surpresa que o BAFTA proporcionou e que pode ser um sinal diferenciado para o Oscar foi prêmio de melhor roteiro original entregue a Parasita. O filme de Bong Joon-ho já havia faturado esse mesmo prêmio junto ao Sindicato de Roteiristas no sábado (01), mas lá o favorito Quentin Tarantino (Era Uma Vez Em… Hollywood) estava fora de competição por não ser filiado ao Sindicato. Tarantino, que conquistou o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Awards, de repente viu a boa fase do seu filme se dissipar. Com essa dupla vitória de Parasita, não será mais surpresa ver Bong Joon-ho levando a melhor na disputa de roteiro original. Em tempos mais autênticos, o BAFTA talvez tivesse levado a produção sul-coreana ainda mais longe. Pena que os britânicos não ostentam mais a autenticidade de antes.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME1917
MELHOR FILME BRITÂNICO1917

MELHOR DIREÇÃO: Sam Mendes (1917)
MELHOR ELENCOCoringa
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALParasita
MELHOR ROTEIRO ADAPTADOJojo Rabbit
MELHOR TRILHA SONORACoringa
MELHOR FOTOGRAFIA1917
MELHOR MONTAGEMFord vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO1917
MELHOR FIGURINOAdoráveis Mulheres
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Escândalo
MELHOR SOM1917
MELHORES EFEITOS VISUAIS1917

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESAParasita (Coréia do Sul)
MELHOR DOCUMENTÁRIOFor Sama
MELHOR ANIMAÇÃO: Klaus
MELHOR ESTREIA DE UM DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO: Bait (Mark Jenkin, diretor e roteirista; Kate Byers; Linn Waite, produtor)
MELHOR CURTA BRITÂNICO: Learning to Skateboard In A Warzone (If You’re A Girl)
MELHOR CURTA BRITÂNICO: Grandad Was a Romantic
EE RISING STAR AWARD: Micheal Ward

“Judy: Muito Além do Arco-Íris”: cinebiografia presta tributo à memória de Judy Garland sem hipocrisia, embelezamentos ou momentos edificantes

You won’t forget me, will you?

Direção: Rupert Goold

Roteiro: Tom Edge, baseado no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter

Elenco: Renée Zellweger, Jessie Buckley, Finn Wittrock, Michael Gambon, Rufus Sewell, Richard Cordery, Royce Pierreson, Darci Shaw, Andy Nyman, Bella Ramsey, Lewin Lloyd

Judy, Reino Unido, 2019, Drama, 118 minutos

Sinopse: Inverno de 1968. Com a carreira em baixa, Judy Garland (Renée Zellweger) aceita estrelar uma turnê em Londres, por mais que tal trabalho a mantenha afastada dos filhos menores. Ao chegar ela enfrenta a solidão e os conhecidos problemas com álcool e remédios, compensando o que deu errado em sua vida pessoal com a dedicação no palco. (Adoro Cinema)

Fatores externos não devem necessariamente ser pré-requisitos para a devida apreciação de um filme, mas há casos em que compreender elementos orbitantes a um projeto enriquece determinada experiência de maneira categórica. Reserve um tempo, portanto, para investigar a vida de Judy Garland antes de conferir Judy: Muito Além do Arco-Íris. E o mais importante: recupere também a carreira de Renée Zellweger, desde quando ela teve seu primeiro papel de destaque em Jerry Maguire: A Grande Virada nos anos 1990 até chegar ao próprio Judy. Espelhando a trajetória de ambas, a semelhança fica clara em um piscar de olhos: descobertas, celebradas, mastigadas e, por fim, cuspidas por Hollywood, as duas viram o melhor e o pior dessa indústria.

A diferença, claro, é que Renée não faleceu aos 47 anos em um dos momentos mais baixos de sua carreira. Na verdade, aos 50, a texana vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Cold Mountain tem a chance de renascer em Hollywood justamente ao prestar um tributo muito íntimo e particular à colega. Após ter amargado vários projetos terríveis, enfrentado anos de depressão e lidado com toda a misoginia de uma opinião pública impiedosa com a aparência e o envelhecimento das mulheres, Renée agora reverencia o legado de Garland com uma série de significados muito particulares que talvez apenas ela pudesse traduzir com tanta propriedade.

A escalação da atriz é perfeita porque Renée compreende que uma cinebiografia como essa não deve ser feita para passar a mão na cabeça de Hollywood. Judy recusa a ideia de glamourizar a vida de sua personagem-título ou de tentar amenizar todo o sofrimento vivido por ela em suas últimas semanas de vida. A escolha do recorte já é um claro recado por si só: com base no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter, o roteirista Tom Edge reúne acontecimentos da temporada em que Garland, esquecida e escanteada pelos Estados Unidos, viaja à Inglaterra para juntar algum dinheiro com uma agenda de shows e, assim, voltar a sustentar seus próprios filhos.

Ao mesmo tempo em que encena os dias de uma Judy Garland já derrotada e debilitada, o filme, em meio a essa tristeza, busca devolver à atriz algum tipo de respeito e dignidade. E o faz sem purpurinas, momentos edificantes ou a tão esperada apresentação final responsável por induzir o espectador a pensar que, apesar dos pesares, tudo ficou bem. Sem hipocrisia, Judy se apresenta como uma comovente reparação para uma estrela que, nos bastidores, não desistia apesar das adversidades. As pílulas que lhe foram empurradas goela abaixo desde criança, a pressão por ter se tornado estrela cedo demais em um mundo de aparências e as crueldades trazidas pela vida e pelo trabalho após o envelhecimento lhe abalavam, mas, até ali, nunca lhe aniquilavam.

Na pequena grande resistência de Garland, Judy tem uma personagem que, no fundo, tentava seguir em frente porque, assim como todos nós, tinha medo de ser esquecida. Essa perspectiva é traduzida na relação estabelecida pelo filme entre a protagonista e os palcos. Cantar, de certa forma, já não era mais suficiente para Garland, que muitas vezes subia ao palco alterada por remédios, bebidas e noites de insônia. No entanto, quando se empoderava sob os holofotes, dominava a atenção por completo. A mulher magra, pálida e frágil dos bastidores de repente voltava a alcançar as notas que lhe alçaram ao sucesso mundial, (re)conquistando plateias e também o espectador do lado de cá da tela.

Quando Garland eventualmente se reergue, a conexão entre Renée e ela se estreita, e aí fica difícil (no bom sentido) distinguir quem nos comove: a protagonista em si dentro daquele recorte pontual ou quem a interpreta. Essa simbiose é íntima e especial inclusive porque as canções são interpretadas por Renée. Mesmo que auxiliada pelo playback de gravações em estúdio, a atriz se junta a Taron Egerton em Rocketman e não a Rami Malek em Bohemian Rhapsody no sentido de criar a sua homenagem particular a Garland, procurando voz e interpretação próprias para encarnar uma figura que merece ser muito maior do que uma simples mímica.

Assumindo que um tributo a Garland tem mais dignidade quando inexiste a obsessão de tentar copiá-la, Renée se mostra sábia e corajosa. A cena em que ela canta Somewhere Over the Rainbow atesta tal posicionamento: para a atriz, o importante nesse momento não é reproduzir fielmente a voz de Garland, mas sim toda a rouquidão, a hesitação e a fragilidade de uma mulher tão sugada pela vida que já não consegue cantar com desenvoltura um de seus maiores clássicos. Renée, aliás, ressignifica muitas das fragilidades do filme e potencializa detalhes importantes, como a relação da protagonista com o público gay, aqui representado por um humilde casal que faz companhia a Garland em uma noite onde, assim como em tantas outras, ninguém mais lhe espera na saída do teatro para um autógrafo.

Verdade seja dita que, tratando-se de forma, Judy: Muito Além do Arco-Íris é um longa-metragem tradicional, imperfeito e até inexpressivo do ponto de vista estético. O diretor Rupert Goold, cuja carreira é muito mais teatral do que cinematográfica, não faz muita diferença no projeto: tê-lo ou não atrás das câmeras parece irrelevante, pois as decisões mais importantes não vêm dele, e sim do recorte proposto pelo roteiro e, claro, da escalação de Renée Zellweger. Judy, portanto, ganha na franqueza: sem ser apaziguador, associa a retrospectiva do legado de Garland à necessidade de fazer Hollywood refletir sobre cicatrizes que ainda continuam bastante abertas, provando que as coisas realmente não mudaram muito com o passar dos anos.

Melhores de 2019: “Parasita” e “A Favorita” lideram lista do blog com nove indicações cada

Disputando nove categorias, Parasita é o filme de língua não-inglesa com o maior número de indicações em todas as listas já realizadas pelo blog.

Criada em 2007 aqui no blog, a lista de Melhores do Ano busca, assim como qualquer outra seleção assinada por qualquer pessoa do universo, elencar as produções mais marcantes de determinado ano. É um trabalho em vão: ainda que existam exceções, somente o tempo poderá provar o quanto determinada obra é realmente grandiosa ou inesquecível. Ainda assim, adoramos listas, mas é importante lembrar que elas sempre dizem muito mais sobre quem as faz do que sobre os filmes em si. Não há certo ou errado: cada um escolhe a partir de suas preferências, afinidades, bagagens e identificações. No final das contas, o divertido mesmo é a troca de opiniões e perspectivas.

Selecionando os filmes que considero os melhores de 2019, usei, como sempre, o parâmetro de identificação. Todas as obras listadas abaixo se conectaram comigo de alguma maneira em suas respectivas categorias. E o resultado traz dois filmes liderando a lista com nove indicações cada: Parasita, de Bong Joon-ho, e A Favorita, de Yorgos Lanthimos, seguidos de perto pelo libanês Cafarnaum e pelo espanhol Dor e Glória, ambos com seis indicações. Cheguei organicamente a um conjunto mais próximo de filmes de língua não-inglesa, e verdade seja dita: foi lindo viajar por tantos países e sotaques em 2019. Os vencedores dessa seleção serão conhecidos nas próximas postagens, com comentários individuais em cada categoria. 

Confiram abaixo a lista completa de indicados, considerando os títulos lançados comercialmente no Brasil em 2019 (incluindo streaming):

MELHOR FILME
Bacurau
Cafarnaum
Dor e Glória
A Favorita
Parasita

MELHOR DIREÇÃO
Barry Jenkins (Se a Rua Beale Falasse)
Bong Joon-ho (Parasita)
Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Bacurau)
Nadine Labaki (Cafarnaum)
Pedro Almodóvar (Dor e Glória)

MELHOR ELENCO
Assunto de Família
Bacurau
Entre Facas e Segredos
A Favorita
Parasita

MELHOR ATRIZ
Camila Morgado (Vergel)
Glenn Close (A Esposa)
Lupita Nyong’o (Nós)
Olivia Colman (A Favorita)
Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

MELHOR ATOR
Adam Driver (História de Um Casamento)
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Marco Nanini (Greta)
Zain al Rafeea (Cafarnaum)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Cho Yeo-jeong (Parasita)
Fernanda Montenegro (A Vida Invisível)
Penélope Cruz (Dor e Glória)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Yordanos Shiferaw (Cafarnaum)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Al Pacino (O Irlandês)
Joe Pesci (O Irlandês)
Leonardo Sbaraglia (Dor e Glória)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Song Kang-ho (Parasita)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Bacurau
Dor e Glória
Entre Facas e Segredos
A Favorita
Parasita

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Greta
Poderia Me Perdoar?
Querido Menino
Se a Rua Beale Falasse
A Vida Invisível

MELHOR MONTAGEM
Bacurau
Cafarnaum
Democracia em Vertigem

A Favorita
Parasita

MELHOR FOTOGRAFIA
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Coringa
A Favorita
Se a Rua Beale Falasse
Vergel

MELHOR TRILHA SONORA
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Cafarnaum
Coringa
História de Um Casamento
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Coringa
A Favorita
Parasita
Rocketman
Vergel

MELHOR FIGURINO
A Favorita
Hebe – A Estrela do Brasil
O Irlandês

Rocketman
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR SOM
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Bacurau
Coringa
Nós
Rocketman

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“A Glass of Soju” (Parasita)
“(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” (Toy Story 4)
“Revelation” (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
“Zero” (WiFi Ralph: Quebrando a Internet)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Ad Astra: Rumo às Estrelas
O Irlandês
Vingadores: Ultimato

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
A Favorita
Hebe – A Estrela do Brasil
O Irlandês
Rocketman
A Vida Invisível

“O Escândalo”: mesmo com ótimas atrizes, longa perde em sutileza ao falar sobre dilemas femininos a partir de perspectivas masculinas

People don’t stop watching when there’s a conflict. They stop watching when there isn’t one.

Direção: Jay Roach

Roteiro: Charles Randolph

Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Kate McKinnon, Connie Britton, Mark Duplass, Allison Janney, Malcolm McDowell, Liv Hewson, Stephen Root, Robin Weigert, Amy Landecker, Brigette Lundy-Paine

Bombshell, EUA/Canadá, 2019, Drama, 109 minutos

Sinopse: Um gigante do telejornalismo e antigo CEO da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow) tem seu poder questionado e sua carreira derrubada quando um grupo de mulheres o acusa de assédio sexual no ambiente de trabalho. (Adoro Cinema)

Uma dose considerável de cansaço tomou conta de mim nos primeiros minutos de O Escândalo. Quebrando a quarta parte, o filme de Jay Roach sobre a derrocada do magnata Roger Ailes após inúmeras denúncias de assédio sexual por parte de funcionárias da Fox News faz uma introdução ao seu universo televisivo e corporativo com sátira, agilidade e, claro, descomplicações de determinados fatos e contextos. O cansaço veio porque já vimos demais esse estilo recentemente. Coloque na conta os dois últimos trabalhos de Adam McKay (A Grande Aposta e Vice), o Eu, Tonya de Craig Gillespie e o genérico A Lavanderia de Steven Soderbergh e você terá noção do quanto tal fórmula já soa repetitiva mesmo sendo uma tendência tão recente.

No caso de O Escândalo há um ligeiro frescor que não dissipa o sentimento de repetição, mas que brinca com uma interessante metalinguagem: apresentadora de TV, Megyn Kelly (Charlize Theron) explica eventos e circunstâncias olhando diretamente para o espectador ao transitar pelos bastidores da Fox News, com a mesma postura de alguém que está ao vivo em um telejornal. À parte essa boa brincadeira, a pegada e o ritmo são os mesmos de sempre,  o que imediatamente leva o espectador a deduzir que o filme inteiro se desdobrará dessa maneira. Não é exatamente o que acontece porque O Escândalo dá uma boa amortecida na proposta, tornando-se mais comedido do que o esperado em tiques e afetações.

Entretanto, como um relato ligeiramente mais comportado de fatos reais, o longa deixa revelar uma significativa fragilidade, alimentada desde a concepção do projeto. Ora, como é possível uma história sobre assédio sexual contra mulheres em um ambiente de trabalho não contar, justamente, com pelo menos uma presença feminina no roteiro ou na direção? Sejamos francos ao afirmar que O Escândalo funciona sem maiores problemas durante toda projeção, mas sempre há essa atmosfera de que algo está faltando. Sem um olhar feminino, o filme não cimenta as entrelinhas que deveriam explorar emocionalmente as angústias vividas por mulheres capazes de enfrentar todo tipo de adversidade para denunciar um homem e um sistema.

A limitação de olhares masculinos para dilemas femininos está exemplificada na cena em que uma das personagens confessa ter cedido às investidas imorais do chefe que prometeu colocá-la na linha de frente da Fox News caso ela provasse sua “lealdade”. A personagem em questão discursa e chora, protagonizando um momento comovente. O que acontece é que essa cena discute inúmeras cargas dramáticas de maneira expositiva, como se por si só compensasse o fato do longa não ter desenvolvido em detalhes e sutilezas os conflitos internos de uma mulher que custou a compreender o que estava acontecendo com ela própria. Para dilemas de tamanha importância, é frustrante que discussões tão sérias, profundas e relevantes acabem reduzidas a um punhado de sequências apoiadas na verbalização de conflitos internos.

Com propriedade e lugar de fala garantidos por alguma presença feminina na linha de frente, O Escândalo poderia potencializar os efeitos de uma história tão significativa para a nossa realidade, dando munição ao próprio Jay Roach, que, após ter abandonado a realização de comédias como Austin Powers e Entrando Numa Fria, dirigiu produções baseadas em histórias reais com grande talento (destaque para Virada no JogoRecontagem, dois telefilmes bastante instigantes com o selo HBO). Isso seria desejar um projeto completamente diferente, mas é bem provável que a experiência pudesse se apresentar com mais consistência, contentando-se menos com a reprodução de fatos (a cena em que uma personagem levanta a saia para Roger Ailes não seria tão gráfica nas mãos de uma diretora)  e mais nos efeitos dramáticos de cada acontecimento para a vida das protagonistas e da sociedade como um todo.

Considerando as presenças femininas de O Escândalo, destaque absoluto para o trio central de atrizes. Charlize Theron hipnotiza com o tanto que ficou parecida com Megyn Kelly, desaparecendo por completo em uma personagem que domina as atenções. Já Nicole Kidman tem em Gretchen Carlson a figura mais transparente do filme: como a primeira profissional a denunciar Roger Ailes, Gretchen quebrou barreiras, mesmo quando se viu sem o apoio inicial de suas colegas. Por fim, Margot Robbie, que tem melhor material aqui do que no recente Era Uma Vez Em… Hollywood, trabalha com uma interessante personagem ficcional que sintetiza várias outras vítimas. Charlize, Nicole e Margot, não por acaso, são o ponto alto do filme e só comprovam o quanto as discussões de O Escândalo se tornam maiores e melhores quando dominadas por figuras femininas. 

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