Cinema e Argumento

“Pieces of a Woman”: do início ao fim, um drama realista e doloroso sobre o luto materno

I lifted my head. That’s what I’m asking you to do now.

Direção: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kata Wéber

Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Molly Parker, Sarah Snook, Iliza Shlesinger, Benny Safdie, Steven McCarthy, Tyrone Benskin, Frank Schorpion, Harry Standjofski

EUA/Canadá/Hungria, 2020, Drama, 126 minutos

Sinopse: Pieces of a Woman é a jornada emocional de uma mãe que acaba de perder seu bebê. Diante dessa perda, ela terá que lidar com as consequências que seu luto tem nas relações com o marido e a mãe, lutando para que seu mundo não desabe por completo. (Adoro Cinema)

Como espectadores, fomos acostumados a esperar que o grande ato de um filme se situe, por razões óbvias, no recorte final da trama, quando respostas finalmente são dadas ou quando o desfecho, mesmo que inconclusivo, é capaz de fazer conexões simbólicas ou emocionais para que tudo o que vimos até ali encontre o seu propósito. Vou além ao instintivamente teorizar que o grande ato de um filme também pode ser um momento poderoso, um pico inesperado ou uma sequência de fatos envolventes e fascinantes estejam onde eles estiverem na linha temporal da trama. E aí me pego pensando: o que acontece quando esse grande ato está, por exemplo, no início de um filme, como acontece em Pieces of a Woman? A resposta é tão simples quanto injusta: tudo o que vem depois acaba subvalorizado pelo público. Aceitamos que um longa-metragem compense todos os seus defeitos prévios com um final capaz de superar expectativas, mas, quando um relato começa no seu ápice para depois trilhar caminhos menos poderosos, o nosso veredito de que o filme falha em preservar as expectativas criadas é imediato, como se ele tivesse a obrigação de alcançar o seu máximo do início ao fim, uma tarefa basicamente impossível. Trata-se de uma reação naturalmente instintiva e que, entretanto, deveria nos exigir um trabalho maior de reflexão, pois, no caso de Pieces of a Woman, ela desvaloriza outros aspectos bastante interessantes de um relato que analisa o luto materno com franqueza e pungência.

Adquirido pela Netflix após exibição no último Festival de Veneza, onde a protagonista Vanessa Kirby se saiu vitoriosa com a Volpi Cup de melhor atriz, Pieces of a Woman começa indiscutivelmente majestoso, com uma longa sequência de mais de 30 minutos que retrata o momento em que Martha (Kirby) entra em trabalho de parto na própria casa, local escolhido por ela para que a filha nascesse. Contudo, o tão sonhado momento vira pesadelo quando — e isso já está explícito na própria sinopse — a filha não sobrevive e Martha se vê obrigada a enfrentar um luto materno antes de sequer ter aprendido o que é ser mãe. A abertura é marcante por mostrar todo o processo de um parto natural com imensa verossimilhança. Não há espaço para glamourização aqui: em tempo real, o diretor húngaro Kornél Mundruczó, a partir de um roteiro de sua esposa Kata Wéber, retrata o parto como um momento difícil e exaustivo, onde a mulher se vê vulnerável e indefesa, amparada por uma figura masculina que, apesar das boas intenções, é quase inútil nesse momento. Funciona como uma imediata imersão no universo emocional da personagem que acompanharemos por todo o filme e como um excelente exemplo da direção equilibrada entre economia e emoção de Mundruczó, inclusive no que se refere à condução dos atores, uma vez que é particularmente formidável o trabalho de Molly Parker como a parteira de Martha. Entre a delicadeza e a angústia de uma mulher responsável por aquele parto, é através de todas as inflexões e expressões da atriz que entendemos cada movimento em cena.

Após esse prólogo, Pieces of a Woman avança para o dia em que a protagonista começa a retomar algum tipo de rotina. Sua via crucis, no entanto, continua: da discussão em torno do que será feito com o corpo do bebê até os sufocantes abraços de compaixão que recebe de conhecidos, Martha se blinda de tudo e de todos para tentar manter o mínimo de equilíbrio interno diante de um momento tão inimaginável. Para ela, essa parece ser a única saída diante de seus próprios fantasmas, enquanto todos a sua volta acham que, por evitar lágrimas e sofrimentos públicos, Martha não está sofrendo o suficiente pela filha perdida. A patrulha em cima do sofrimento alheio é uma das discussões centrais de Pieces of a Woman, já que não são apenas os olhares estranhos no trabalho e na rua que a protagonista precisa administrar, mas também o temperamento controlador de uma mãe decidida a assinar até mesmo os cheques de trâmites funerários e a desestabilização emocional de um marido que, através de discussões cotidianas e da tentativa de relações sexuais estranhas e forçadas, tenta extrair da esposa os estímulos esperados. Ao mostrar a figura masculina fragilizada e a feminina impenetrável, Mundruczó traz uma importante e atualíssima provocação sobre o peso que a sociedade coloca nos ombros das mulheres e das mães, sempre julgadas pela maneira com que externalizam um tipo de sofrimento que, em circunstância alguma, deveria ser alvo de questionamentos.

As reflexões propostas por Pieces of a Woman passam pela própria história de vida do diretor e da roteirista. Casados há vários, Mundruczó e Kata Wéber perderam um bebê enquanto ela ainda estava grávida, e a escrita do roteiro se deu para ela como um processo de cura e terapia após o trauma. Há, portanto, o chamado de lugar de fala porque Wéber transpõe para o roteiro questões que ela viveu na pele. Afinal, o quanto falamos sobre o luto e sobre os dolorosos espectros da maternidade? Ou de onde vem a nossa obsessão em tentar encontrar algum tipo de compensação – judicial, financeira, midiática – para vivências tão acidentais e aleatórias quanto a morte? O longa é certeiro e equilibrado no tocante a essas discussões centradas no universo feminino, o que já não pode ser dito quando o roteiro se volta para Sean, o marido interpretado por Shia LaBeouf. Por si só, o personagem já é consideravelmente menos interessante do que a protagonista vivida por Vanessa Kirby, e a sua subtrama com a personagem de Sarah Snooke (a Siobhan do ótimo seriado Succession) não colabora para a unidade do drama, tanto por soar descartável quanto por não ter maiores conclusões. Nesse sentido, a atenção dada à mãe de Martha surte melhor efeito. Não é o caso de uma personagem notável — inclusive porque suas aparições são pequenas e, por vezes, cíclicas —, mas a escalação da grande Ellen Burstyn eleva a presença da personagem, colocando-a como uma peça bastante interessante na composição da história.

Sem ter vivido a experiência materna na vida real, Vanessa Kirby assistiu a diversos documentários e a partos em hospitais de Londres para entender a dimensão do episódio que dá origem aos conflitos de sua personagem. E ela se sai maravilhosamente bem. Não é porque sua Martha toma distância de tudo e de todos (inclusive dela própria) que nada acontece internamente, o que Vanessa compreende com perfeição. Esse complexo contraste entre o interno e o externo é trabalho dos mais difíceis e se resolve com excelência na interpretação da atriz, cuja beleza e juventude contribuem para o retrato dessa mulher tão precocemente calejada e despedaçada pela vida. O estado enclausurado com que ela incorpora os choros represados e a inabilidade em retomar qualquer normalidade do cotidiano é verossímil e alinhado com o melhor de Pieces of a Woman, um filme que vai na contramão dos retratos clássicos sobre o luto e que nunca se entrega ao mero voyeurismo do sofrimento alheio. Afinal, a perda de uma filha já carrega elementos trágicos por si só. Inexplicavelmente lançado no Brasil sem título em português, o trabalho de Mundruczó tem seus tropeços, como os personagens e as subtramas que, na tentativa de ampliar o espectro dramático, soam como tentativas incompletas. E há, sem dúvida, para muitas pessoas, os 30 minutos iniciais tão comentados por darem uma tração que o restante do longa não consegue manter. Entretanto, comparados ao que Pieces of a Woman tem de melhor, como a performance de Vanessa Kirby e a reflexão sobre o luto materno, são aspectos menores e que não deveriam abalar o valor deste filme bonito e doloroso.

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2021

Em feito inédito, Chadwick Boseman recebeu quatro indicações ao Screen Actors Guild Awards 2021, duas delas por Destacamento Blood, filme de Spike Lee antes ignorado pelo Globo de Ouro.

Ainda que não tenha constrangimentos como aqueles proporcionados pela lista do Globo de Ouro, o Screen Actors Guild Awards apresentou hoje (04) os seus indicados provando mais uma vez que criatividade e boas descobertas deixaram de pautar os prêmios que antecedem o Oscar. Tudo é basicamente sobre tentar prever as escolhas da Academia. Créditos devem ser dados para a reparação com Destacamento Blood, filme de Spike Lee ignorado pelo Globo de Ouro, e pelo reconhecimento a Minari, que parecia circunscrito às associações de críticos, mas estamos diante de mais do mesmo e de uma seleção distante daquilo que o SAG já foi capaz de garimpar com indicações como a de Sarah Silverman, em 2015, por I Smile Back, um drama muito pequeno e pouco visto que caiu na graça dos votantes, ou como a de Emile Hirsch, em 2008, por Na Natureza Selvagem, que não concorreu ao Oscar, ao Globo de Ouro ou ao BAFTA de melhor ator.

Baterei na tecla da falta de criatividade ao longo desta temporada porque oportunidades não faltaram em tempos de pandemia para que descobertas fossem feitas. Por que não indicar, por exemplo, Julia Garner como melhor atriz por A Assistente ao invés de Amy Adams, que faz o que pode no problemático Era Uma Vez Um Sonho? Por mais que pese a admiração e o carinho que os atores tenham por Amy, fica muito claro que, no frigir dos ovos, a alternativa é sempre o lugar-comum de indicar alguma produção da Netflix, mesmo quando elas são bastante questionáveis, como é o caso do filme dirigido por Ron Howard. Assim como vem acontecendo com o BAFTA, o SAG confirma sua descaracterização como premiação, o que deixa a temporada mais desinteressante, repetitiva e desestimulante. Que os vencedores possam mudar esse cenário!

Por fim, mas não menos importante, o Screen Actors Guild Awards 2021 já está marcado por eternizar o nome de Chadwick Boseman. O ator que nos deixou prematuramente em agosto do ano passado tem quatro indicações ao prêmio, um feito até então inédito. Por Destacamento Blood e A Voz Suprema do Blues, Boseman concorre tanto individualmente quanto como melhor elenco. É o reconhecimento a uma carreira que ganhava grande tração e que foi interrompida tão abruptamente pela morte do ator. No dia 4 de abril, quando o SAG revela seus vencedores, saberemos se alguma dessas indicações será convertida em prêmio.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Os 7 de Chicago

Destacamento Blood
Minari
Uma Noite em Miami…
A Voz Suprema do Blues

MELHOR ATRIZ
Amy Adams (Era Uma Vez um Sonho)

Carey Mulligan (Bela Vingança)
Frances McDormand (Nomadland)
Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)
Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)

MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)

Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
Gary Oldman (Mank)
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Steven Yeun (Minari)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Glenn Close (Era Uma Vez um Sonho)

Helena Zengel (Relatos do Mundo)
Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte)
Olivia Colman (Meu Pai)
Yuh-Jung Yeun (Minari)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Chadwick Boseman (Destacamento Blood)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Jared Leto (The Little Things)
Leslie Odom Jr. (Uma Noite em Miami…)
Sacha Baron Cohen (Os 7 de Chicago)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMA
Better Call Saul

Bridgerton
The Crown
Lovecraft Country
Ozark

MELHOR ELENCO – COMÉDIA
Dead to Me
The Flight Attendant
The Great
Schitt’s Creek
Ted Lasso

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Gillian Anderson (The Crown)

Emma Corrin (The Crown)
Julia Garner (Ozark)
Laura Linney (Ozark)
Olivia Colman (The Crown)

MELHOR ATOR – DRAMA
Bob Odenkirk (Better Call Saul)

Jason Bateman (Ozark)
Josh O’Connor (The Crown)
Regé-Jean Page (Bridgerton)
Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA
Annie Murphy (Schitt’s Creek)

Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
Christina Applegate (Dead to Me)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Linda Cardellini (Dead to Me)

MELHOR ATOR – COMÉDIA
Daniel Levy (Schitt’s Creek)

Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Nicholas Hoult (The Great)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Ramy Yousef (Ramy)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME
Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha)

Cate Blanchett (Mrs. America)
Kerry Washington (Little Fires Everywhere)
Michaela Coel (I May Destroy You)
Nicole Kidman (The Undoing)

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME
Bill Camp (O Gambito da Rainha)

Daveed Diggs (Hamilton)
Ethan Hawke (The Good Lord Bird)
Hugh Grant (The Undoing)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)

Os indicados ao Globo de Ouro 2021

Mank, de David Fincher, lidera a lista do Globo de Ouro 2021 com seis indicações.

Fazia certo tempo que o Globo de Ouro não era tão Globo de Ouro. Ou seja, o que vimos na lista de indicados revelada hoje para a edição 2021 do prêmio entregue pela Hollywood Foreign Press Association oscilou entre o lugar-comum e a bizarrice. Para não ser injusto, faço uma correção: é de lavar a alma ver nada menos do que três mulheres concorrendo na categoria de direção, algo importantíssimo e simbólico em inúmeros sentidos. E fica por aí. Na própria categoria de direção, por exemplo, a decepção já se faz presente com as indicações de David Fincher (Mank) e Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago). Ambos são profissionais talentosos, mas, dessa vez, entregam trabalhos sem inspiração. Não deixa de ser reflexo de um grupo de votantes acomodado com os lançamentos da Netflix, que lidera a lista com 22 indicações, seguida muito de longe pela Amazon Studios com apenas sete.

Há outros fatos inexplicáveis, como James Corden concorrendo como melhor ator em comédia/musical pelo pavoroso A Festa de Formatura, enquanto sua colega Meryl Streep ficou de fora em uma categoria basicamente sem concorrência, onde ela também poderia ter emplacado por Let Them All Talk. Aliás, o segmento das comédias poucas vezes esteve tão fraco: para efeitos de projeção ao Oscar, é provável que nenhum dos indicados, sejam eles filmes ou atores, caiam nas graças da Academia. A ausência total do ótimo Destacamento Blood, de Spike Lee, também deixa um inegável gosto amargo por múltiplas razões, começando pelo fato de que a lista não incluiu filmes protagonizados por negros na categoria principal e sequer indicou Delroy Lindo como protagonista ou o próprio Spike Lee a diretor em um ano que, como já comentado, David Fincher e Aaron Sorkin são lembrados por trabalhos nada marcantes.

Ainda assim, o vexame maior fica com as indicações de melhor série e melhor atriz em comédia/musical para Emily in Paris, uma produção da Netflix repleta de clichês, tolas ingenuidades, fórmulas ultrapassadas e sem o mínimo de inspiração ou capacidade de dizer algo que já não tenha sido dito por outros programas. Seguindo linha semelhante, não há como defender a presença de Ratched em melhor série dramática, atriz e atriz coadjuvante. A série é, sem dúvidas algo exagerado e desconjuntado até mesmo para os padrões de Ryan Murphy. Tão inaceitável quanto tudo isso é o fato de I May Destroy You, da HBO, ter sido completamente ignorada, quando, na verdade, é uma minissérie que compreende como poucas os sentimentos, as relações, os traumas e as dinâmicas da juventude atual. 

Para um ano que tanto nos exigiu garimpar filmes e séries diferentes devido aos efeitos da pandemia, o Globo de Ouro se limitou a fazer mais do mesmo. E com direito a ideias bastante indigestas. Os vencedores serão revelados no dia 28 de fevereiro. Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA
Os 7 de Chicago
Bela Vingança
Mank
Meu Pai
Nomadland

MELHOR FILME – COMÉDIA/MUSICAL
Borat: Fita de Cinema Seguinte
A Festa de Formatura
Hamilton
Music
Palm Springs

MELHOR DIREÇÃO
Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
Chloé Zhao (Nomadland)
David Fincher (Mank)
Emerald Fennell (Bela Vingança)
Regina King (Uma Noite em Miami…)

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Andra Day (The United States vs. Billie Holiday)
Carey Mulligan (Bela Vingança)
Frances McDormand (Nomadland)
Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)
Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)

MELHOR ATOR – DRAMA
Anthony Hopkins (Meu Pai)
Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
Gary Oldman (Mank)
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Tahar Rahim (The Mauritanian)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Anya Taylor-Joy (Emma.)
Kate Hudson (Music)
Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte)
Michelle Pfeiffer (French Exit)
Rosamund Pike (Eu Me Importo)

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Andy Samberg (Palm Springs)
Dev Patel (A História Pessoal de David Copperfield)
James Corden (A Festa de Formatura)
Lin-Manuel Miranda (Hamilton)
Sacha Baron Cohen (Borat: Fita de Cinema Seguinte)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amanda Seyfried (Mank)
Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho)
Helena Zengel (Relatos do Mundo)
Jodie Foster (The Mauritanian)
Olivia Colman (Meu Pai)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Bill Murray (On the Rocks)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Jared Leto (Os Pequenos Vestígios)
Leslie Odom Jr. (Uma Noite em Miami…)
Sacha Baron Cohen (Os 7 de Chicago)

MELHOR ROTEIRO
Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
Chloé Zhao (Nomadland)
Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
Emerald Fennell (Bela Vingança)
Jack Fincher (Mank)

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
La Llorona (Guatemala/França)
Minari (Estados Unidos)
Nós Duas (França/Estados Unidos)
Rosa e Momo (Itália)

MELHOR ANIMAÇÃO
A Caminho da Lua
Os Croods 2: Uma Nova Era

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica
Soul
Wolfwalkers

MELHOR TRILHA SONORA
Alexandre Desplat (O Céu da Meia-Noite)
James Newton Howard (News of the World)
Ludwig Göransson (Tenet)
Trent Reznor e Atticus Ross (Mank)
Trenz Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (Soul)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
Música de Dernst Emile II e H.E.R.
Letra de H.E.R. e Tiara Thomas

“Hear My Voice” (Os 7 de Chicago)
Música de Daniel Pemberton
Letra de Celeste Waite e Daniel Pemberton

“Io Sí” (Rosa e Momo)
Música de Diane Warren
Letra de Diane Warren, Laura Pausini e Niccolò Agliardi

“Speak Now” (Uma Noite em Miami…)
Música e Letra de Leslie Odom Jr. e Sam Ashworth

“Tigrees & Tweed” (The United States vs. Billie Holiday)
Música e Letra de Andra Day e Raphael Saadiq

SÉRIES, MINISSÉRIES, ANTOLOGIAS E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA
The Crown

Lovecraft Country
The Mandalorian
Ozark
Ratched

MELHOR SÉRIE – COMÉDIA/MUSICAL
Emily in Paris

The Flight Attendant
The Great
Schitt’s Creek
Ted Lasso

MELHOR MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
O Gambito da Rainha

Nada Ortodoxa
Normal People
Small Axe
The Undoing

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Emma Corrin (The Crown)
Olivia Colman (The Crown)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Sarah Paulson (Ratched)

MELHOR ATOR – DRAMA
Al Pacino (Hunters)

Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Jason Bateman (Ozark)
Josh O’Connor (The Crown)
Matthew Rhys (Perry Mason)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)

Elle Fanning (The Great)
Jane Levy (Zoey’s Extraordinary Playlist)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Lily Collins (Emily in Paris)

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Don Cheadle (Black Monday)
Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Nicholas Hoult (The Great)
Ramy Youssef (Ramy)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Cate Blanchett (Mrs. America)

Daisy Edgar-Jones (Normal People)
Shira Haas (Nada Ortodoxa)
Nicole Kidman (The Undoing)
Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha)

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Bryan Cranston (Your Honor)

Ethan Hawke (The Good Lord Bird)
Hugh Grant (The Undoing)
Jeff Daniels (The Comey Rule)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Annie Murphy (Schitt’s Creek)

Cynthia Nixon (Ratched)
Gillian Anderson (The Crown)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Julia Garner (Ozark)

MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Brendan Gleeson (The Comey Rule)

Daniel Levy (Schitt’s Creek)
Donald Sutherland (The Undoing)
Jim Parsons (Hollywood)
John Boyega (Small Axe)

Rapidamente: “Os 7 de Chicago”, “Era Uma Vez Um Sonho”, “Mank” e “Soul”

Aguardado como o filme que finalmente poderia dar o Oscar para Amy Adams e Glenn Close, Era Uma Vez um Sonho acabou como uma das grandes frustrações de 2020 segundo a crítica norte-americana. E com razão.

OS 7 DE CHICAGO (The Trial of the Chicago 7, 2020, de Aaron Sorkin): Ben Stiller, Paul Greengrass e Steven Spielberg chegaram a se envolver com o projeto, mas quem acabou assumindo Os 7 de Chicago como diretor foi o premiado roteirista Aaron Sorkin (A Rede Social, Steve Jobs, entre outros). Seu primeiro longa na cadeira de direção foi A Grande Jogada, em 2017, e é impressionante como, depois de dois trabalhos, fica evidente o quanto Sorkin é infinitamente melhor roteirista do que diretor. Para falar bem a verdade, no caso de Os 7 de Chicago, há até uma apatia inesperada no texto, que é formulaico em estrutura e não se esmera muito para propor novos olhares a uma história maior do que o próprio filme. Trata-se de um roteiro que lida bem com a multidão de personagens em cena (são sete apenas no título!) e que consegue tornar minimamente interessante um drama de tribunal com mais de duas horas de duração. Entretanto, todas as emoções que Os 7 de Chicago tenta transmitir são pasteurizadas e didáticas, com aquele clima empoeirado de homenagear injustiçadas figuras da vida real mais para aliviar a consciência do público norte-americano do que para cutucar a ferida de incontáveis problemas dos sistemas políticos, sociais e jurídicos do país que, do ponto de vista de construção dramática, são retratados basicamente como obstáculos a serem ultrapassados pelos personagens. Nada na direção de Os 7 de Chicago aponta para a ideia de que Sorkin, após anos vendo seus roteiros tomarem forma nas mãos de grandes cineastas como Mike Nichols e David Fincher, tenha descoberto algum tipo de vocação genuína para esse ofício. É um bom entretenimento para quem se dá por satisfeito com o básico, e frustrante para quem, como este que vos fala, está sempre em busca do que existe de novo a ser dito. De qualquer maneira, em ambos os casos, dá para aproveitar a presença do excelente elenco, onde todos estão em sólida sinergia, algo no mínimo difícil para um longa construído em cima de personagens com personalidades tão distintas e interpretados por atores de diferentes naturezas e intuições.

ERA UMA VEZ UM SONHO (Hillbilly Elegy, 2020, de Ron Howard): O filme que renderia, de uma vez só, os tão aguardados Oscars de Amy Adams e Glenn Close se revelou um dos maiores desastres de 2020 junto à crítica internacional. E, de fato, razões não faltam para classificar Era Uma Vez Um Sonho como ao menos um projeto problemático, a começar pelos caminhos tortuosos tomados pelo roteiro de Vanessa Taylor (A Forma da Água) para representar a questão da saúde mental, vista aqui com descaso e ao estilo mais reducionista possível. É complicado, em pleno século XXI, ver um filme embasado na tese de que pessoas com distúrbios mentais/emocionais se “descontrolam” ou algo parecido simplesmente por não terem força de vontade, consciência ou disciplina. O problema se intensifica quando Era Uma Vez Um Sonho nunca observa de forma crítica a situação de uma família pobre, disfuncional e desassistida pelo sistema de saúde dos Estados Unidos, conhecido por seus problemas e pela falta de programas públicos. Quando tenta dar gravidade ao tema, o diretor Ron Howard, em mais um trabalho nada inventivo, usa as mais óbvias das muletas: a de criar conflitos através de discussões que levam o elenco elenco a berrar, discutir e se confrontar como se isso fosse garantia de intensidade ou profundidade. Estruturada com base em uma montagem desprovida de critério, onde o longa vai e volta no tempo sem justificar a ordem, a relevância ou a razão dos saltos temporais, a trama se concentra no personagem vivido por Gabriel Basso, jovem que deixou a família para tentar a sorte na cidade grande e que volta ao lar quando a mãe mais uma vez enfrenta problemas de longa data. Basso tenta se articular em um personagem de pouca energia, mas é jogo perdido porque, além de tudo, ele contracena com Amy Adams e Glenn Close, duas atrizes que, por serem quem são, já se destacam naturalmente. Deixo registrada uma certa defesa a elas porque, apesar das críticas pesadas também dirigidas a suas performances desde o lançamento, a dupla é dos males o menor: Amy tem coerência com uma personagem que, em função da natureza de seus distúrbios, não poderia agir ou se expressar de outra maneira e Glenn busca conferir dimensão a uma mulher quase estereotipada em sua rispidez. Não salvam o filme ou fazem algo marcante. Apenas aliviam um pouco a frustração trazida por um folhetim desconjuntado.

MANK (idem, 2020, de David Fincher): Depois de Ryan Murphy e Aaron Sorkin, agora David Fincher se soma à lista dos diretores que se banalizaram com projetos originais para a Netflix. No caso de Fincher, o trabalho em questão é Mank, seu aguardado projeto sobre os dias em que Herman J. Mankiewicz escreveu o célebre roteiro do clássico Cidadão Kane. De início, seria possível afirmar que, na realidade, esta é uma obra específica e isolada demais em si mesma, claramente circunscrita ao público cinéfilo interessado pela Hollywood dos anos 1930 e 1940, e que, por isso mesmo, não se trata de um trabalho banal. Seria verdade se não houvesse o fator David Fincher na jogada. Para um diretor de fibra e imaginação como ele, o que se vê Mank é muito óbvio, inclusive porque Herman era um homem fora da curva, marcado por seu temperamento difícil e por sua genialidade, o que não se converte em substância dramática. Do início ao fim, a partir de um punhado expressivo de flashbacks, o filme é um estilizado desfile de curiosidades e referências cinematográficas, apresentando-se como um perfeito exemplo do lado problemático de fazer aquilo que chamamos de fan service, ou seja, algo pensado para agradar fãs (no caso, os de um específico recorte Hollywoodiano). Divertido para quem gosta. Tedioso para quem espera outro tipo de envolvimento. Lamento ter saído de Mank sabendo tão pouco sobre o personagem-título e seu processo de escrita como roteirista, pois Fincher, tão determinado a fazer um filme de cinéfilo para cinéfilos, prefere explorar, em grande escala, diversos locais, bastidores e jantares característicos do período retratado, sem jamais criar uma experiência robusta em ideias e em vida própria. Eventualmente, ele ilumina o roteiro assinado por seu pai Jack Fincher ao dirigir, por exemplo, uma radiante Amanda Seyfried e também ao explorar com inteligência a fascinante parte técnica (o trabalho de som que emula os filmes daquela época e a trilha sonora da dupla Trent Reznor e Atticus Ross são um achado), mas é dominante a atmosfera de mais do mesmo, até mesmo no que se refere a Gary Oldman como Mankiewicz, em uma interpretação acomodada e nada camaleônica. 

SOUL (idem, 2020, de Pete Docter e Kemp Powers): Boas ou ruins, as animações do selo Disney/Pixar sempre conquistam uma legião de fãs porque todas reverberam na plateia com mensagens bonitas, afetivas e, por vezes, adultas e complexas, conjugando a diversão dos pequenos e as reflexões existenciais endereçadas à vida adulta. Dos casos mais completos e recentes que acertam em cheio nessa fórmula, tenho Divertida MenteViva: A Vida é Uma Festa entre os meus títulos favoritos. Já considerando aqueles onde a mensagem se sobrepõe ao todo, evidenciando a infalibilidade e, em alguns casos, as motivações puramente comerciais, estão quase todas as continuações realizadas até aqui (Os Incríveis 2Procurando DoryToy Story 4) e outros trabalhos pontuais como ValenteSoul, o novo lançamento da Disney/Pixar, talvez esteja no segundo grupo, pela simples razão de que, excluída a bonita mensagem sobre encontrar nosso propósito, enxergar a beleza das pequenas coisas da vida e entender a dimensão dos nossos verdadeiros sonhos, o que sobra é uma dobradinha de reciclagens. A primeira é a que introduz um universo mais abstrato e detalhado em conceitos, onde os personagens observam e refletem sobre a vida tomando certa distância, exatamente como aconteceu em Divertida Mente. A segunda faz graça com a eterna brincadeira da troca de corpos, uma saída fácil demais para compensar a ausência quase total de elementos lúdicos para o público infantil. A combinação desses dois aspectos torna Soul um filme menos interessante do que a comoção causada pelas mensagens sugere, até porque elas próprias são imperfeitas. Afinal, por que a vida de professor precisa ser tratada como algo inglório ou como uma profissão que só ganha sentido se passarmos por determinadas transformações e aprendizados?. É uma animação que, assim como todas da Disney/Pixar, terá um público amplo e apaixonado, ainda que esteja distante de simbolizar o pacote completo de acertos dessa parceria tão frutífera em encantamentos.

“Let Them All Talk” pulveriza o encontro de três grandes atrizes para insistir na excessiva presença de Lucas Hedges

Trying is all.

Direção: Steven Soderbergh

Roteiro: Deborah Eisenberg

Elenco: Meryl Streep, Lucas Hedges, Gemma Chan, Candice Bergen, Dianne Wiest, Daniel Algrant, John Douglas Thompson, Christopher Fitzgerald, Samia Finnerty, Fred Hechinger, David Siegel, Mike Doyle

EUA, 2020, Drama, 113 minutos

Sinopse: Uma célebre autora (Meryl Streep) faz uma viagem com algumas velhas amigas (Candice Bergen e Dianne Wiest) para se divertir e curar feridas antigas. O seu sobrinho (Lucas Hedges) junta-se a elas, bem como a sua nova agente literária (Gemma Chan), que está ansiosa para saber mais sobre o seu próximo livro.

Aos 57 anos, Steven Soderbergh já ultrapassa, segundo o IMDB, a marca de 40 títulos como diretor. É impressionante o seu vigor ao se manter na ativa porque, ao contrário de tantos outros cineastas acomodados a fórmulas, Soderbergh tem uma mente inquieta e está sempre pronto para propor e experimentar novas ideias, mesmo que grande parte de suas ousadias não se converta em bons filmes. Para fazer Let Them All Talk, seu mais novo longa-metragem disponibilizado diretamente na HBO Max, ele apostou outra vez na busca por aquilo que não é óbvio. Dessa vez, temos o diretor a bordo de um transatlântico, acompanhado de três grandes atrizes e munido de um roteiro onde o elenco recebeu a liberdade de improvisar diálogos para lapidar as ideias de um texto bastante enxuto sobre determinados conflitos. O que Soderbergh e a diretora Deborah Eisenberg queriam era fazer de Let Them All Talk uma experiência em que os intérpretes construíssem os seus personagens de forma mais intuitiva, imaginando o que poderia estar por trás das páginas do roteiro. É uma ideia ótima em função dos grandes nomes envolvidos, mas infelizmente não é o caso de um grande filme, e por uma razão difícil de acreditar: ao invés de extrair todas as possibilidades de um encontro entre Meryl Streep, Dianne Wiest e Candice Bergen, a trama insiste em desperdiçar esse trio para dar um inexplicável e excessivo destaque a outro personagem bem menos interessante interpretado pelo jovem Lucas Hedges.

A gênese dramática de Let Them All Talk está em uma atribulada amizade: Alice (Streep), Susan (Wiest) e Roberta (Bergen) se reúnem depois de muitos anos porque a primeira, uma escritora de sucesso às voltas com a finalização de um novo livro, está para receber uma homenagem e opta por viajar à Europa levando as amigas. No entanto, há um certo estranhamento entre elas, e a viagem se dará mais como uma discreta tentativa de reconciliação por parte de Alice do que como as férias dos sonhos entre três mulheres que dividiram uma vida inteira como confidentes. Let Them All Talk é muito discreto sobre a distância e o estranhamento entre essas mulheres, inclusive porque elas são quase formais umas com as outras. Também parte da tripulação, o sobrinho de Alice (Hedges) não deixa de, em tese, representar o espectador na observação dessas personagens: tanto ele quanto quem assiste ao filme tenta entender os enroscos dessa amizade de longa data e as razões quem levam Alice a manter a produção do novo livro a sete chaves. Tudo isso significa que o roteiro de Eisenberg, ao colocar uma barreira entre as protagonistas e ao se dedicar a um personagem que, assim como nós, é um estranho em meio a esse convívio, não dará a Streep, Wiest e Bergen a chance de um encontro caloroso e de deliciosa comunhão, já abalando as animadas expectativas criadas para a reunião de um elenco de tamanho talento.

As afinidades cinematográficas de cada espectador dirão se esse ponto de partida de Let Them All Talk reverbera como um banho de água fria ou como uma interessante ruptura do óbvio. Vejo como um problema, pois a proposta não é refletir sobre os meandros dos conflitos velados, e sim tentar criar alguma curiosidade, levantando questionamentos como se a relação entre as personagens fosse uma equação a ser resolvida. São muitas as perguntas feitas pelo filme, e buscar alguma resposta para elas sem de fato conheceremos as personagens acentua a frustração. Quem é o homem que Alice observa todos os dias na piscina? Por que Roberta evita tanto a amiga que tenta se reconectar com ela? Qual é, afinal, o teor do livro que Alice esconde até mesmo da própria editora? O roteiro perde um tempo precioso com as voltas dadas para construir esses pequenos mistérios, e o terço final corrobora essa sensação, quando todas as questões são respondidas com afeto, surpresa e a certeza de que Let Them All Talk só teria a ganhar se tivesse descortinado as razões de seus conflitos com antecedência. Ao colocar os pingos nos is, o roteiro proporciona, por exemplo, um belo e sincero momento entre as personagens de Meryl Streep e Candice Bergen, aí sim aproveitando suas atrizes com a devida reverência. E mais: sem muito a dizer na maior parte da projeção, o elenco parece não ter tirado grande proveito da possibilidade do improviso, o que acaba sendo um problema exclusivo de como o filme desenvolve as personagens.

Na onda do desperdício, entra o fator Lucas Hedges, um ator do qual gosto muito e que, contudo, precisa de papeis densos como os de Manchester à Beira-Mar ou Boy Erased: Uma Verdade Anulada para funcionar com substância. Sejamos justos ao concordar que é tarefa desafiadora se sobressair ao lado de atrizes como as reunidas aqui porque elas são capazes de preencher a tela apenas com suas ilustres presenças, mas Hedges realmente rema com um papel cuja presença poderia ser eliminada sem qualquer prejuízo à trama. A ideia de Let Them All Talk ter esse personagem que emula o olhar do espectador não se sustenta, pois, inclusive, descobrimos detalhes fundamentais sobre as personagens antes mesmo dele. Ou seja, tanto pela interpretação de Hedges quanto pela função do personagem dentro da narrativa, é injustificado o tempo dedicado ao garoto, que protagoniza subtramas insípidas, como os encontros repetitivos com a personagem de Gemma Chan. Para um relato essencialmente feminino, a presença de Hedges é anticlimática, nos privando de explorar melhor o íntimo das mulheres que deveriam ser as estrelas absolutas do projeto.

A decepção em não vermos ainda mais de Meryl, Candice e Diane também vem da constatação de que Let Them All Talk tem sim protagonistas com um grande repertório de camadas a ser explorado, começando pela Alice de Meryl Streep. Ela é a clássica autora angustiada por um bloqueio criativo, algo que o roteiro não torna um clichê. Primeiro porque é palpável a sua angústia, especialmente a partir do momento em que ela conhece um autor admirado pelas amigas e que está com a carreira indo de vento em poupa. E segundo porque o processo de escrita é retratado com uma abordagem muito realista, onde uma autora se vê encurralada diante de prazos e expectativas, entendendo que uma dita genialidade literária pode levar um escritor até certo ponto, mas que, como em qualquer profissão, muito depende do acaso, das circunstâncias e do estado espírito de quem executa um projeto. Não por coincidência, Alice escolheu a literatura, uma atividade solitária, como seu ganha-pão, visto que é palpável a inabilidade da personagem em administrar relações, sejam elas pessoais ou profissionais. Vale mencionar que estamos diante de um papel oferecido com pouca frequência para Meryl Streep: despida de distrações (especificamente das transformações biográficas que marcam a sua filmografia), Meryl é vista aqui em plena essência, sem caracterizações. Nesta aparição mais cristalina e cotidiana, ela possivelmente terá um dos desempenhos menos apreciados de sua carreira recente, injustiça que também a acometeu, por exemplo, em As Horas, outro papel em que dava vida a uma mulher comum.

A Alice de Meryl tem importância central, e ela está muito bem acompanhada de outras duas atrizes que, cada uma a sua maneira, contribuem para o que Let Them All Talk tem a nos oferecer de melhor: a possibilidade de vê-las juntas em cena. Quem acabou conquistando a crítica estadunidense foi Candice Bergen, dona do papel, digamos, mais chamativo do filme. Indicada ao Oscar apenas nos anos 1980 com Encontros e Desencontros, Bergen voltou a receber atenções no cinema depois de décadas confinada a papeis pequenos em comédias comerciais como Miss SimpatiaDoce LarVoando AltoNoivas em Guerra. Seu excelente repertório como atriz está bem explorado em um papel que transita entre o drama e a comédia. Infeliz no emprego e ávida por conseguir uma vida financeiramente melhor, a Roberta de Bergen tem ressentimentos de longa data com a Alice de Meryl, e é essa tônica que tira a personagem do mero alívio cômico para colocá-la como uma peça importante das melhores discussões do longa. Já Dianne Wiest abraça um papel de menos destaque em todos os sentidos, mas se junta de forma orgânica às colegas porque sua doçura habitual é perfeita para uma personagem que se vê no meio de duas amigas mal resolvidas. Toda vez que Let Them All Talk permite que as três se encontrem, a experiência sobe de patamar. É fácil perceber isso. Talvez não para Soderbergh e Eisenberg, que misteriosamente seguiram firmes com excessos de Lucas Hedges do roteiro até o corte final. Perderam, enfim, a belíssima oportunidade de festejar três grandes atrizes com a plena atenção que elas merecem. 

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