Cinema e Argumento

Melhores de 2020: categorias de interpretação

racibsupport

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Paul Raci (O Som do Silêncio)

São 72 anos de idade e 40 de carreira, mas foi somente agora, em 2021, que Paul Raci ganhou seu primeiro papel de grande repercussão com O Som do Silêncio, chegando, inclusive, a concorrer ao Oscar de melhor ator coadjuvante. A chance tardia se dá com um trabalho repleto de significados para Raci: filho de pais surdos, ele cresceu entendendo intimamente esse universo, além de ter se tornado uma figura ativa na busca pelos direitos das pessoas surdas. Toda a sua experiência como membro de um grupo de atores surdos em Los Angeles e como vocalista da banda Hands of Doom ASL Rock, que realiza performances em LIBRAS, está evidente em cada segundo de sua interpretação, que busca apresentar a surdez com mais camadas do que o cinema norte-americano costuma abordar: sem estereótipos, mas com felicidade e tristeza, pessimismo e esperança, exatamente como acontece com todos nós.

É com essa perspectiva que o ator amplifica a importância de um papel muito pequeno e que se torna peça fundamental na jornada de autoconhecimento do protagonista Ruben (Riz Ahmed). Mais do que um personagem que o próprio Raci assume ter natureza autobiográfica, Joe é a sábia representação de um homem já em paz com a ideia de que a surdez não é algo a ser consertado. Em meio a tantas pessoas lutando contra seus próprios fantasmas em uma clínica de reabilitação, o personagem é construído com uma discrição exemplar. Aliás, Raci revelou em entrevistas que foram várias as vezes em que estava comovido por dentro ao observar a angústia de um protagonista tão perdido, mas que também sabia o quanto o controle das emoções faria bem à história, a seu personagem e ao filme como um um todo. Razão e emoção em uma performance que está entre os tantos elementos responsáveis por elevar O Som do Silêncio.

lucebsactress

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Octavia Spencer (Luce)

Atriz muito querida do público, Octavia Spencer caiu nas graças de incontáveis plateias com papeis de natureza cômica, como os de A Forma da Água Histórias Cruzadas, que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Seu melhor papel, no entanto, está em Luce, onde reafirma a máxima de que bons atores não são necessariamente bons comediantes, mas bons comediantes são indiscutivelmente bons atores. Mais comedida do que o habitual, Octavia explora as nuances de uma professora que, ao ler uma redação com comentários violentos e armamentistas de um de seus alunos, passa a desconfiar de que ele realmente concorda com tudo aquilo que escreve. Também negro, o garoto é o menino perfeito adotado por uma família rica e branca, enquanto a Harriet de Octavia é uma professora rígida que precisa manter certa autoridade e se provar constantemente na vida e na profissão.

O encontro entre os dois tem um quê de Dúvida, o filme de John Patrick Shanley estrelado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman que coloca o espectador em uma sinuca de bico ao ter que decidir quem diz a verdade em um filme palavroso e costurado nas entrelinhas, mas Luce entra, claro, na seara racial, discutindo tudo o que se espera ou não de dois personagens negros tão distintos quanto semelhantes. A interpretação de Octavia é engrenagem potente na trama porque, ao invés de cair no radicalismo fácil de uma personagem que acusa tendo apenas seus instintos como argumento, ela prefere explorar as diferentes facetas de uma mulher que parece não ter certezas à toa em função da vida, do seu meio e de sua própria cor. Sem jamais julgar Harriet ou tentar manipular o espectador para que ele tome partido por ela, Spencer é sutil, firme e enigmática, travando um duelo dos mais instigantes com o também ótimo Kelvin Harrison Jr.

 smetalactor

MELHOR ATOR
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)

Ao contrário do seu colega de cena Paul Raci, o britânico Riz Ahmed embarcou em O Som do Silêncio sem uma vivência prévia com a população surda. Contudo, isso não foi um problema para o ator, que resolveu dispensar tudo o que pudesse facilitar o convívio com as pessoas surdas de verdade no set. Ahmed escolheu, por exemplo, trabalhar sem o apoio de intérpretes. Para ele, era fundamental que pudesse descobrir sozinho como se comunicar com os outros atores. Riz também decidiu usar bloqueadores auditivos nas cenas em que o seu personagem se sentia mais desorientado quanto à perda da audição. O que muitos enxergam como mérito, o ator viu apenas como parte  corriqueira de seu trabalho: no final das contas, o que ele diz ter tirado de todo esse preparo foi, na verdade, a descoberta de um profundo entendimento sobre o real sentido da comunicação e sobre como enxergar o outro vai muito além da voz e do som.

Minimalista, a interpretação de Riz é daquele tipo que marca uma carreira. A habilidade com que ele abarca uma série de situações difíceis — a perda da audição, a angústia do vício, a busca por uma nova identidade, a inevitável entrada na clínica de reabilitação — revela um ator no pleno controle técnico e emotivo de um personagem imenso em emoções e frustrações. Ao entender Ruben como um homem que se vê em uma espécie de purgatório ao ter que ressignificar o que é importante na vida, Ahmed comunica com os olhares e transmite para o espectador todas as transformações do protagonista, indo do céu ao inferno com todo o entendimento da comunicação que ele diz ter incorporado durante as filmagens. Trata-se de uma interpretação ao mesmo tempo discreta e forte, capaz de despertar a empatia do espectador do início ao fim.

clemencybactress

MELHOR ATRIZ
Alfre Woodard (Clemência)

É indesculpável o fato da Neon, distribuidora de Clemência, não ter feito uma ampla campanha para o desempenho de Alfre Woodard na temporada de premiações de 2020. Com certo atraso devido ao calendário britânico de estreias, a performance chegou a ser lembrada agora em 2021 pelo BAFTA, mas é pouco para um trabalho que, de tão forte e construído a partir do rico repertório de uma atriz, entra para o hall daqueles serão sempre referenciadas em uma filmografia. E não qualquer filmografia: a da grande Alfre Woodard. Nascida em Tulsa, nos Estados Unidos, Alfre se manteve ativa desde que iniciou sua carreira em 1978 com o telefilme The Trial of the Moke. Não passou um ano sequer sem atuar desde então e criou uma carreira sólida na TV, de Hill Street Blues, que lhe rendeu um Emmy logo na primeira indicação em 1984, a sucessos como Desperate HousewivesTrue BloodEmpire. Contudo, seu merecido e complexo protagonismo em Clemência é um caso à parte.

No drama dirigido pela nigeriana Chinonye Chuku, Alfre interpreta Bernardine, uma personagem forte e rica em possibilidades por si só. Diretora de um corredor da morte nos Estados Unidos, Bernardine é a única mulher em um ambiente masculino. Tendo que lidar diariamente com a morte e com os sentimentos extremos dos que estão à espera da execução ou daqueles que estão às vésperas de perder seus familiares, ela precisa camuflar qualquer tipo de emoção e se apresentar somente como uma profissional, sem qualquer envolvimento emocional. Na medida em que entendemos a natureza de seu trabalho e principalmente a forma com que Bernardine se comunica com as pessoas no trabalho e até mesmo com o marido que lhe reivindica mais presença e afeto, o trabalho de Alfre se engrandece em detalhes. Ao explorar a linha tênue entre razão e emoção, sua performance é de rara elegância e inteligência, culminando em uma cena final de tirar o fôlego e que só poderia ter tamanho impacto graças a combinação entre tempo, talento e repertório. Tudo o que Alfre Woodard tem de sobra.

dabloodcast

MELHOR ELENCO
Destacamento Blood

Denzel Washington e Samuel L. Jackson que me desculpem, mas é difícil imaginar Destacamento Blood sem Delroy Lindo. Também não reclamaria se Giancarlo Esposito e John David Washington estivessem no projeto, mas novamente tenho a impressão de que o filme de Spike Lee não poderia ter outra composição de elenco. É palpável a amizade entre Paul (Lindo), Otis (Clark Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e Eddie (Norm Lewis), seja em tudo que ela carrega de melhor (a cumplicidade, a camaradagem, o bom humor) ou nas consequências inevitáveis do tempo (os afastamentos, as distintas visões de vida, os diferentes rumos tomados). São todos homens marcados pelos traumas da Guerra do Vietnã, o que os afasta na medida em que também os aproxima.

A dinâmica entre o quarteto é o retrato espirituoso e maduro de uma amizade de longa data, defendido por atores talentosos e extremamente à vontade em seus papeis. Destacamento Blood ainda reserva outras participações especiais, como a de Chadwick Boseman, em um de seus últimos trabalhos; outras estelares, a exemplo do francês Jean Reno; e complementos interessantes à jornada dos protagonistas, como a presença de Jonathan Majors interpretando o filho de Paul, em uma ótima dinâmica com Delroy Lindo. É essa composição entre estilos e talentos diversos que forma ótimos elencos, caso desse subestimado filme de Spike Lee.

49º Festival de Cinema de Gramado #2: “Para o Brasil se (re)conhecer” (ou uma reflexão sobre a escolha dos curtas brasileiros)

comissaogram21

Reunião de seleção dos curtas-metragens brasileiros do 49º Festival de Cinema de Gramado.

Aproximando-se de um emblemático aniversário de 50 anos, o Festival de Cinema de Gramado realiza, entre os dias 13 e 21 de agosto, a sua 49ª edição, mais uma vez em formato híbrido, com transmissões pelo Canal Brasil e por streaming, devido às restrições que ainda vivemos em função da pandemia do Coronavírus. Mais do que celebrar a histórica resistência de um festival que nunca deixou de acontecer apesar de adversidades das mais diferentes naturezas, é importante constatar que, ao completar 49 anos, Gramado segue refletindo a força comovente de um cinema brasileiro que, nos últimos anos, vem sendo desprezado e vilipendiado pelas políticas (ou falta delas) em curso no país.

Digo que tal resistência do cinema brasileiro está representada em Gramado porque isso se reflete na lista de filmes selecionados para a edição 2021. O Brasil segue produzindo, apesar dos pesares. E pude fazer essa constatação ainda mais de perto este ano, quando fui convidado pela organização do evento a integrar a comissão responsável por selecionar os curtas-metragens brasileiros que disputarão o Kikito. Honra gigante. Responsabilidade à altura. E um exercício dos mais instigantes. Afinal, o que levar em consideração na hora de mergulhar em um universo com centenas de curtas-metragens inscritos? Não há fórmula. E é aí que está o fascínio.

Junto a Jaqueline Beltrame, Milena Moura e Thaís Cabral, tive a oportunidade de explorar, a partir dos títulos aptos a avaliação, gêneros e temáticas variadas, trabalhadas pelos mais diferentes realizadores em todos os cantos do país. Em que pese a bagagem, a identificação e as preferências cinematográficas de cada um de nós da comissão, buscamos selecionar 14 filmes que contemplassem o Brasil em que vivemos. Esse mesmo: plural e tão único, iluminado e sofrido, cambaleante e capaz de recobrar forças. Nada mais justo para uma sociedade que merece sempre se ver representada na tela, com suas qualidades e imperfeições. A meu ver, esse foi o ponto de partida do nosso trabalho, o que me deixa muito feliz, já que cinema também serve para ser o registro histórico e a eternização da identidade cultural, social e política de um país.

Outros dois aspectos nos bateram muito forte como critério: a pluralidade de regiões onde os filmes foram produzidos, tentando escapar da massiva e inevitável predominância do eixo Rio-São Paulo, e a representatividade feminina atrás das câmeras (aliás, os dois curtas escolhidos para representar o nosso Rio Grande do Sul são dirigidos por mulheres: Desvirtude, de Gautier Lee, e Eu Não Sou Um Robô, de Gabriela Lamas). Ainda há nessa mistura comédia, drama, documentário, animação e exercícios experimentais de narrativa e estilo. Engana-se, no entanto, quem pensa que essa é uma seleção de “cotas”, como se tivéssemos categorizado as vagas que gostaríamos de preencher, inclusive porque seria uma frustração, já que não foram poucos os títulos deixados de fora e cujas discussões gostaríamos de levar a Gramado. Nunca deixamos de lado o olhar tão fundamental para a excelência e a qualidade inerentes a filmes merecedores de estarem em Gramado

Inevitavelmente, os dias de trabalho trouxeram frustrações, todas muito naturais em qualquer processo semelhante a esse. E elas estão concentradas, claro, naqueles títulos que cada um de nós quatro da comissão gostaria de ter colocado na lista final, mas que não eram unânimes ou que, então, não estavam alinhados aos conceitos abraçados pelo nosso perfil curatorial. Espero que esses filmes possam encontrar seu espaço nos outros tantos festivais realizados no Brasil e que bravamente também seguem resistindo. Em contraponto a essa pequena lamentação, trago um aprendizado dos mais interessantes: acredite, tudo pode acontecer entre o primeiro e o último dia de seleção. É bastante surpreendente constatar, por exemplo, que diversos curtas selecionados por nós de forma unânime e aclamada em uma primeira discussão simplesmente não chegaram ao corte final, por uma série de razões, enquanto um ou outro mais divisivo foi incluído no grupo (obviamente não vou revelar, mas houve até um certo filme que bati pé para não entrar e acabei cedendo nos momentos finais porque era coerente com o nosso conjunto).

Por fim, não poderia deixar de destacar o quanto a honra de ter sido escolhido para participar da seleção ganha novos contornos em tempos pandêmicos. Através do formato híbrido, estamos falando de um Festival de Cinema de Gramado que chega a todos os estados brasileiros e até mesmo a públicos que, em certos casos, jamais poderiam ir presencialmente à Serra Gaúcha para acompanhar o evento. Imaginem a responsabilidade de entrar na casa das pessoas com esses filmes! Como alguém que acredita no poder transformador e educativo do cinema (não em um sentido didático, mas sim no que ele pode representar e comunicar como exercício ou entretenimento para as mais diferentes plateias), creio que, por meio dos curtas-metragens selecionados, levaremos para as telas histórias em que o Brasil possa se (re)conhecer e se questionar. Tenho meus favoritos do coração, mas isso é assunto para mais tarde, quando vocês também puderem desbravar a a lista de selecionados. Nos encontramos nos filmes, combinado?

* Texto produzido originalmente para o portal Melhor do Sul

49º Festival de Cinema de Gramado #1: apresentação dos filmes concorrentes

gramcoletiva21

Roger Lerina e Marla Martins foram os responsáveis pela apresentação da coletiva que anunciou as novidades do evento. Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto.

Uma definição clássica acerca do Festival de Cinema de Gramado é a de que ele simboliza uma histórica resistência, seja ela da cidade, do evento e do cinema brasileiro. Às vésperas de completar 50 anos, o Festival mais uma vez não deixa de acontecer, mesmo em um ano que segue enfrentando a pandemia do Coronavírus. Para tanto, a acertada estratégia de ter suas mostras competitivas em formato híbrido (Canal Brasil e streaming) é repetida, levando produções tradicionalmente circunscritas apenas ao Palácio dos Festivais para todos os cantos do país. O único porém envolvendo essa decisão é que as exibições foram movidas para às 21h30, o que levará os espectadores para perto da madrugada.

Ainda que semelhante à edição do ano passado, há de se notar que o Festival de Cinema de Gramado apresenta uma edição mais comedida, com a mostra competitiva de longas estrangeiros reduzida a quatro títulos e a de longas-metragens gaúchos sintetizada em três títulos. O segundo caso carrega certa dúvida: em um ano em que a organização divulgou o recorde de inscrições na categoria (24 títulos ao todo), só teríamos três títulos à altura de serem selecionados? Na linha dos filmes selecionados, estranho a escolha de Fourth Grade, de Marcelo Galvão, como filme de encerramento. OK, o diretor é brasileiro e se trata de uma refilmagem de um longa brasileiro do próprio Galvão, mas encerrar um festival brasileiro e latino com um filme produzido nos Estados Unidos e falado em inglês? Soa estranho.

Outro atrativo, especialmente midiático do evento, foi configurado de modo diferente. Tradicionalmente dividida em quatro troféus, as homenagens desse ano estarão representadas em uma só, celebrando todos os profissionais do cinema à frente ou atrás das telas que tiveram a missão de resistir e se reinventar em um momento tão delicado para o segmento. Se o evento não terá o glamour e o apelo de seus tradicionais homenageados, certamente o faz por uma belíssima e importante causa, principalmente quando nos encontramos diante de um governo que tanto vilipendia a categoria.

Chegando aos filmes propriamente ditos, destaque absoluto para a mostra de longas-metragens brasileiros, talvez pela primeira vez em dez anos sem cinebiografias, documentários musicais ou títulos mais “comerciais”, se pudermos dizer assim. Não há nada de errado com o comercial, mas é interessante estarmos diante de uma lista que nos instiga a desbravar cada um dos títulos, investigando a carreira dos envolvidos e criando expectativas pelas sinopses de projetos que novamente são inéditos em território nacional. Minha curiosidades específicas ficam com A Primeira Morte de Joana, com enredo muito interessante, e Homem Onça, que, desde já fazendo um palpite às escuras, deve render o Kikito de melhor ator ao grande Chico Díaz.

Reservo a conclusão dessa breve análise para dar uma palavrinha para a mostra de curtas-metragens brasileiros, sempre uma das mais instigantes do Festival por revelar novos talentos e já dar palco para os realizadores de longas-metragens de amanhã. Neste ano, tive o prazer e a imensa responsabilidade de assinar a seleção dos curtas, ao lado de Jaqueline Beltrame, Milena Moura e Thaís Cabral. Foram mais de 500 filmes inscritos, e tivemos que chegar a uma lista com 14. Trabalho árduo e que, a partir do nosso olhar, acabou por representar uma mostra onde o Brasil se (re)conhecerá em muitas de suas facetas. Mas discutiremos esse assunto logo mais em detalhes, antes da realização do próprio evento, que acontece entre os dias 13 e 21 de agosto.

Confira abaixo a lista de filmes selecionados:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Álbum em Família (RJ), de Daniel Belmonte
Carro Rei (PE), de Renata Pinheiro
Homem Onça (RJ), de Vinícius Reis
Jesus Kid (PR), de Aly Muritiba
O Novelo (SP), de Claudia Pinheiro
A Primeira Morte de Joana (RS), de Cristiane Oliveira
A Suspeita (RJ), de Pedro Peregrino

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Gran Avenida (Chile), de Moises Sepulveda
La Teoría de los Vidrios Rotos (Uruguai/Brasil/Argentina), de Diego Fernández Pujol
Planta Permanente (Argentina/Uruguai),de Ezequiel Radusky
Pseudo (Bolívia), de Gory Patiño e Luis Reneo

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
A Colmeia (Porto Alegre), de Gilson Vargas

Cavalo de Santo (Porto Alegre), de Mirian Fichtner e Carlos Caramez
Extermínio (Cachoeira do Sul), de Mirela Kruel

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
A Beleza de Rose (CE), de Natal Portela

A Fome de Lázaro (PB), de Diego Benevides
Animais na Pista (PB), de Otto Cabral
Aonde Vão os Pés (PR), de Débora Zanatta
Da Janela Vejo o Mundo (PR), de Ana Catarina Lugarini
Desvirtude (RS), de Gautier Lee
Entre Nós e o Mundo (SP), de Fabio Rodrigo
Eu Não Sou Um Robô (RS), de Gabriela Lamas
Fotos Privadas (RJ), de Marcelo Grabowsky
Memória de Quem (Não) Fui (RJ), de Thiago Kistenmacker
O Que Há em Ti (SP), de Carlos Adriano
Per Capita (PE), de Lia Leticia
Quanto Pesa (MA),de Breno Nina
Stone Heart (AM), de Humberto Rodrigues

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Brecha
(Pelotas), de Helena Thofehrn Lessa
Cacicus (Santa Cruz do Sul), de Bruno Cabral e Gabriela Dullius
Comboio Pra Lua (Pelotas), de Rebeca Francoff
Depois da Meia-Noite (Caxias do Sul), de Mirela Kruel
Desvirtude (Porto Alegre), de Gautier Lee
Um Dia de Primavera (Porto Alegre), de Lisi Kieling
Era Uma Vez… Uma Princesa (Porto Alegre), de Lisiane Cohen
Eu Não Sou Um Robô (Porto Alegre), de Gabriela Lamas
(Porto Alegre), de Thais Fernandes
Hora Feliz (Porto Alegre), de Alex Sernambi
Isso Me Faz Pensar (Porto Alegre), de Hopi Chapman
Jardim das Horas (Porto Alegre), de Matheus Piccoli
Love do Amor (Restinga Sêca), de Fabrício Koltermann
Não Sou Eu (Porto Alegre), de Theo Tajes
Nave Mãe (Sapucaia do Sul), de Gisa Galaverna e Wagner Costa
Nilson, Filho do Campeão (Santa Cruz do Sul), de Diego Tafarel
Noite Macabra (Canoas), de Felipe Iesbick
Para Colorir (Porto Alegre), de Juliana Costa
Rota (São Leopoldo), de Mariani Ferreira
Rufus (São Leopoldo), de Eduardo Reis
Solilóquio (Porto Alegre), de Marcelo Stifelman
Tom (Porto Alegre), de Felippe Steffens
Tormenta (Porto Alegre), de Emiliano Cunha e Vado Vergara
Trem do Tempo (Pelotas), de Vitor Rezende Mendonça

Os indicados ao Emmy 2021

thecrowns4

Ao lado de The Mandalorian, a quarta temporada de The Crown lidera a lista de indicados ao Emmy 2021, despontando como a favorita para finalmente dar o prêmio principal à Netflix.

Em função da pandemia e do processo de filmagem de novas temporadas, o Emmy 2021 se viu sem estreias de grandes dimensões e, principalmente, sem hits como OzarkThe Morning ShowSuccession, a grande vencedora da última edição. Também não há, entre as minisséries, um estouro à altura de Watchmen, que chegou a liderar as indicações do ano passado, levando vários troféus para casa.

A chance de procurar novas séries e fugir do óbvio foi mais uma vez desperdiçada. Ao invés de garimpar produções que costumam ser subvalorizadas, o Emmy preferiu não só indicar as mesmas séries de sempre como ampliar irrestritamente o número de indicações de cada uma, o que resultou em menções forçadas e quantidades desproporcionais de celebração.

Um exemplo é a própria The Crown, que a encabeça lista de indicados ao lado de The Mandalorian. Em que pese a sua inegável excelência, é incompreensível que Claire Foy seja indicada a melhor atriz convidada simplesmente por um flashback passageiro de cinco minutos. Também não se justifica a lembrança de Emerald Fennell entre as coadjuvantes a não ser pelo fato de que ela recentemente ganhou um Oscar de melhor roteiro original por Bela Vingança.

E os exageros não param por aí. São quatro as coadjuvantes lembradas por The Handmaid’s Tale. Entre os homens, três são indicados pela série nesse mesmo segmento. Três atores coadjuvantes estão na disputa em minissérie/telefilme com Hamilton e quatro por Ted Lasso em comédia, isso sem falar em Saturday Night Live, que emplacou cinco indicações. Inspiração repentina, simultânea e grandiosa de diferentes elencos? Não. São simplesmente escolhas fáceis e confortáveis.

Entre outras mancadas, como a de ter Emily in Paris concorrendo em melhor série de comédia, o Emmy 2021 teve um acerto aqui e outro ali. Um deles é a indicação de Mj Rodriguez (Pose), a primeira atriz transexual a estar na disputa por um Emmy. Igualmente especiais são as menções a Hacks, uma das pérolas da temporada, mesmo que Hannah Einbinder concorra a coadjuvante sendo protagonista em pé de igualdade com a maravilhosa Jean Smart.

O que se pode esperar para a premiação é que a Netflix finalmente leve o prêmio de melhor série com The Crown, especialmente se levarmos em consideração que, além de não haver forte concorrência, a série está em seu melhor momento. Entre as comédias, o domínio de Ted Lasso deve ser completo, visto o amor dos votantes traduzido no número de indicações. Quanto às minisséries, tudo leva a crer que WandaVision reinará, mas nunca, em hipótese alguma, duvide do poder da HBO, destaque na lista com Mare of Easttown.

Os vencedores serão conhecidos no dia 19 de setembro. Confira os indicados:

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
The Boys
Bridgerton
The Crown
The Handmaid’s Tale
Lovecraft Country
The Mandalorian
Pose
This is Us

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Emma Corrin (The Crown)
Jurnee Smollett (Lovecraft Country)
Mj Rodriguez (Pose)
Olivia Colman  (The Crown)
Uzo Aduba (In Treatment)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Porter (Pose)
Jonathan Majors (Lovecraft Country)
Josh O’Connor (The Crown)
Matthew Rhys (Perry Mason)
Rege-Jean Page (Bridgerton)
Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Ann Dowd (The Handmaid’s Tale)
Aunjanue Ellis (Lovecraft Country)
Emerald Fennell (The Crown)
Gillian Anderson (The Crown)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Madeline Brewer (The Handmaid’s Tale)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)
Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
John Lithgow (Perry Mason)
Max Minghella (The Handmaid’s Tale)
Michael K. Williams (Lovecraft Country)
O-T Fagbenle (The Handmaid’s Tale)
Tobias Menzies (The Crown)
Giancarlo Esposito (The Mandalorian)
Chris Sullivan (This is Us)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Black-ish
Cobra Kai
Emily in Paris
Hacks
The Flight Attendant
The Kominsky Method
Pen15
Ted Lasso

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Aidy Bryant (Shrill)
Allison Janney (Mom)
Jean Smart (Hacks)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Kenan Thompson (Kenan)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
William H. Macy (Shameless)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Aidy Bryant (Saturday Night Live)
Cecily Strong (Saturday Night Live)
Hannah Einbinder (Hacks)
Hannah Waddingham (Ted Lasso)
Juno Temple (Ted Lasso)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Rosie Perez (The Flight Attendant)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Bowen Yang (Saturday Night Live)
Brendan Hunt (Ted Lasso)
Brett Goldstein (Ted Lasso)
Carl Clemons-Hopkins (Hacks)
Jeremy Swift (Ted Lasso)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Nick Mohammed (Ted Lasso)
Paul Reiser (The Kominsky Method)

MELHOR MINISSÉRIE/ANTOLOGIA
I May Destroy You
Mare of Easttown
The Queen’s Gambit
The Underground Railroad
WandaVision

MELHOR TELEFILME
Dolly Parton’s Christmas on the Square
Oslo
Robin Roberts Presents: Mahalia
Sylvie’s Love
Uncle Frank

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Anya Taylor-Joy (The Queen’s Gambit)
Cynthia Erivo (Genius: Aretha)
Elizabeth Olsen (WandaVision)
Kate Winslet (Mare of Easttown)
Michaela Coel (I May Destroy You)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Ewan McGregor (Halston)
Hugh Grant (The Undoing)
Leslie Odom, Jr. (Hamilton)
Lin-Manuel Miranda (Hamilton)
Paul Bettany (WandaVision)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Jean Smart (Mare of Easttown)
Julianne Nicholson (Mare of Easttown)
Kathryn Hahn (WandaVision)
Moses Ingram (The Queen’s Gambit)
Phillipa Soo (Hamilton)
Renée Elise Goldsberry (Hamilton)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Anthony Ramos (Hamilton)
Daveed Diggs (Hamilton)
Evan Peters (Mare of Easttown)
Jonathan Groff (Hamilton)
Paapa Essiedu (I May Destroy You)
Thomas Brodie-Sangster (The Queen’s Gambit)

* Categorias de direção, roteiro, variedades, reality shows e outros segmentos técnicos podem ser encontrados na relação completa de indicados disponibilizada em inglês pelo Emmy.

Melhores de 2020: categorias técnicas

É chegada a hora de conhecer os vencedores da tradicional lista de melhores do ano aqui do blog. Revelados no último mês de maio, os indicados contemplam os filmes de 2020, considerando lançamentos comerciais no Brasil tanto em cinema em streaming. Sem categorizações específicas para longas brasileiros, animações ou documentários, todos concorrem juntinhos, de forma a reforçar que cinema é cinema, independentemente de gênero ou nacionalidade. Ao todo, serão três postagens para revelar os vencedores, começando hoje com as categorias técnicas e suas respectivas justificativas: canção original, maquiagem e penteados, efeitos visuais, figurino, montagem, fotografia, design de produção, trilha sonora e som. Lembrando que, desde 2007, todo o histórico de vencedores está registrado aqui.

clemencysong

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Laura Mvula, por “Brighter Dawn” (Clemência)

Com um background que vai do jazz à música gospel, a britânica Laura Mvula descobriu seu desejo pela carreira musical quando começou a prestar atenção nos corais da igreja que frequentava de maneira diferente, descolando-se de uma mera análise da vertente religiosa. A partir daí, foi questão de tempo para que ela acumulasse referências de Nina Simone, Ella Fitzgerald e Diana Ross para encontrar a sua própria voz. E parte desse repertório está traduzido na canção “Brighter Dawn”, escrita por Mvula para o ótimo e pouco visto Clemência. Enxuta, a canção que dura pouco menos de dois minutos e meio captura toda a personalidade vocal da britânica. Entretanto, o mais simbólico está mesmo na letra da música, também escrita por ela, que sintetiza toda a jornada de Bernardine (Alfre Woodard) com precisão e poesia. Trechos como “Todas as minhas cicatrizes são minhas joias mais brilhantes, todas as minhas lágrimas brilham como orvalho da manhã” atestam que, em muitos sentidos, Clemência foi realmente um filme subapreciado.

endingmakeup

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Adam Bailey, Anouck Sullivan e Sarah Hindsgaul
(Estou Pensando em Acabar Com Tudo)

Possivelmente o filme mais nichado já escrito (e agora dirigido!) por Charlie Kaufman, Estou Pensando em Acabar Com Tudo tem nas complexidades e nas possibilidades do tempo a matéria-prima para desenvolver muitas das múltiplas perspectivas tomadas pelos personagens ao longo do filme. Com isso, o trio Adam Bailey, Anouck Sullivan e Sarah Hindsgaul precisou explorar, por meio da maquiagem e dos cabelos, as várias oscilações imaginadas por Kaufman. O método escolhido não foi o de O Irlandês, por exemplo, onde os atores foram rejuvenescidos através de efeitos visuais, mas sim o da maquiagem e das próteses clássicas. Dessa forma, personagens como a de Toni Collette se desenharam a partir de um longo e minucioso trabalho que buscou aplicar diferentes camadas no rosto e nas mãos do elenco para representar os diferentes avanços no tempo e as variações propostas pelo texto de Kaufman. E a maneira como Estou Pensando em Acabar Com Tudo se utiliza dessa ferramenta com sutileza no início para depois impressionar é inegavelmente intrigante.

tenetveffects

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Andrew Lockley, Andrew Jackson, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)

Tenet é uma caricatura de tudo o que existe de pior na carreira do diretor Christopher Nolan, exceto nos quesitos técnicos. Dessa vez, a equipe de efeitos visuais reunida por ele teve o grande desafio de imaginar um filme onde toda a ação ocorre de trás para frente, o que exigiu uma mistura de efeitos práticos e sequências em CGI. Ao contrário do que se pode imaginar, Andrew Lockley, Andrew Jackson, David Lee e Scott R. Fisher não usaram a simples técnica de gravar normalmente as cenas para depois revertê-las. Como apenas metade das sequências de ação eram possíveis de ser performadas em sentido cronológico, atores e dublês tiveram o desafio de treinar os movimentos em reverso, tentando usar o máximo possível de efeitos práticos, complementados na pós-produção apenas com o que era realmente necessário ou impossível de ser materializado sem a interferência de tecnologias. O resultado é de tirar o fôlego, e não é por menos: Andrew Jackson, o supervisor de efeitos visuais de Tenet, também trabalhou em Mad Max: Estrada da Fúria, outra produção de natureza muito semelhante no sentido de se preocupar mais com a realidade do que com criações virtuais.

pacarretefigurino

MELHOR FIGURINO
Chris Garrido (Pacarrete)

Pacarrete tem uma protagonista das mais singulares, o que estabelece uma série de armadilhas para todos os envolvidos no filme. Afinal, como não tornar a incompreendida e geniosa bailarina de Russas uma caricatura pouco crível e até mesmo irritante? Pois o diretor Allan Deberton, munido de sua reverência, curiosidade e carinho por essa personagem que de fato existiu no Ceará, tratou de (re)imaginá-la para o cinema com respeito e minimalismo, algo também perceptível no belo trabalho de Chris Garrido nos figurinos. Não é só a luminosidade de uma mulher cujo nome é inspirado em pâquerrete (“margarida” em francês) que está representada, por exemplo, nos chapéus de palha decorados com flores que traduz sua singularidade, mas cada roupa inspirada em figurinos usados pela bailarina Anna Pavlova entre os anos 1930 e 1940. É entre a admiração de Pacarrete (Marcélia Cartaxo) por Pavlova e a sua personalidade incomparável como uma mulher apaixonada pela arte que Chris Garrido criou um figurino tão iluminado quanto a personagem-título.

smetalediting

MELHOR MONTAGEM
Mikkel E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)

O montador dinamarquês E.G. Nielsen embarcou em O Som do Silêncio no momento em que disse ao diretor Darius Marder o que gostaria de fazer com o material do filme. Isso foi um fator decisivo para que ele fosse contratado, pois, nas tantas entrevistas que Marder havia feito até então, os candidatos em potencial apenas perguntavam de que maneira ele gostaria de estruturar o longa, sem a firmeza e a visão que Nielsen viria a expor em uma primeira conversa. Rodado em ordem cronológica, O Som do Silêncio ganhou, através da montagem, a imersão que normalmente é reconhecida em outros elementos de um filme, como o som e a fotografia. Para o dinamarquês, o importante era sintonizar o espectador no mesmo timing de descobertas que o protagonista e se perguntar constantemente quando era a hora colocar ou tirar o personagem de determinadas situações, além do quanto ele conseguia suportar ou não novas realidades até finalmente aceitá-las, sem entregar conflitos logo de cara. É o tipo de história que Nielsen avalia ser contada com escolhas quase imperceptíveis, sensação capturada com perfeição por seu discreto e eficiente trabalho na montagem.

ladyfirecinematography

MELHOR FOTOGRAFIA
Claire Mathon (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

Foi na primeira visita às locações de Retrato de Uma Jovem em Chamas que a diretora Céline Sciamma entendeu o que precisava para o seu filme em termos de fotografia. Ao invés de se deparar com um céu acinzentado, a diretora encontrou paisagens ensolaradas na isolada ilha da Bretanha onde a trama acontece. Ou seja, quando assumiu a fotografia do filme, a experiente Claire Mathon (segundo o IMDb, já são mais de 60 títulos desde que começou a trabalhar em 2000!) sabia exatamente que Retrato de Uma Jovem em Chamas deveria ser uma experiência luminosa. O processo foi meticuloso, uma vez que o maior desafio era trazer para as locações internas a mesma vibração do sol que banhava as paisagens externas. Segundo a própria Sciamma, o longo processo de preparação de luz reduziu o tempo disponível para a gravação das cenas, mas o resultado está no que Mathon entrega: filmado digitalmente e trazendo como referência obras de arte assinadas por pintoras do final do século XVIII, a fotografia é solar e capaz de mergulhar em épocas passadas com um olhar muito contemporâneo e apurado. 

pacarreteartd

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Rodrigo Frota (Pacarrete)

Toda a proximidade pessoal e afetiva do diretor Allan Deberton com a história contada em Pacarrete serviu de base para que Rodrigo Frota criasse um design de produção fiel às memórias do diretor e próximo de toda a identidade de uma protagonista tão única. Naturalmente, o foco central foi a casa da própria Pacarrete, uma vez que é onde uma imensa parcela do longa se desenvolve. Mais do que isso, é nesse ambiente que entendemos, em cada mobília e em cada decoração, a essência de uma mulher presa a um passado que lhe desperta grande saudade e que ela vê ficar cada vez mais para trás. Escolhendo as melhores opções entre cada quatro ou cinco variações para objetos que seriam usados em cena, Rodrigo Frota criou um universo muito particular e lúdico, repleto de referências ao amor de Pacarrete pela arte (com o ballet tendo certo destaque, claro) e também à vida como ela é, pois tudo o que vemos em cena é de grande familiaridade, como se um dia já estivéssemos vivido ou pelo menos visitado uma casa como aquela.

beducationscore

MELHOR TRILHA SONORA
Michael Abels (Má Educação)

Com muita curiosidade, fui pesquisar mais sobre Michael Abels assim que terminei de assistir a Má Educação. E, para minha surpresa, descubro que esse compositor norte-americano estreou nos cinemas somente em 2017, quando, aos 54 anos, fez a trilha de Corra!. Dois anos depois, seguiu colaborando com o diretor Jordan Peele em Nós, passou pela aventura infanto-juvenil A Gente Se Vê Ontem e chegou a Má Educação, inexplicavelmente apenas o quarto trabalho de sua carreira. Dou ênfase ao inexplicável porque Abels é de um talento gigante e o que ele faz nesse drama verídico adquirido pela HBO é de um frescor raro de se ver. Acertadamente definida pelo Awards Daily como uma “queda operística”, a trilha usa a experiência de Abels como compositor de concertos para representar o intelecto do protagonista (um homem trambiqueiro, mas também muito esperto e que deduzimos ser apreciador de música clássica) e justamente causar incômodo na simultânea desconstrução que faz dele e dos próprios elementos da música clássica. É uma trilha minimalista, econômica e eficiente em tantos experimentos que poderiam facilmente dar errado em mãos menos talentosas.

smetalsound

MELHOR SOM
Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)

Talvez fosse um pouco óbvio que um filme com “som” e “silêncio” no título caprichasse na relação entre esses dois aspectos, especialmente se tratando de uma trama onde um baterista de heavy metal perde a sua audição pouco a pouco. A virada de chave é que, assim como a montagem já comentada aqui, O Som do Silêncio também utiliza mais esse setor não como mera curiosidade, mas como uma fundamental ferramenta de imersão. É acreditando que a relação de um espectador com um filme se dá no incentivo para que ele se coloque no lugar dos personagens que o quinteto formado por Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh moldar um trabalho de som capaz de absorver a relação do protagonista com o silêncio, criando um mundo de grande vibração, já que estamos falando de um personagem submerso e em busca de novas formas de observar o mundo a sua volta. Tudo com o intuito de se aproximar ao máximo da vida real, sem que as escolhas se escancararem para a plateia como pequenas manipulações.

%d blogueiros gostam disto: