Cinema e Argumento

“Hereditário”: luto familiar é a instigante matéria-prima para o medo e a paranoia (até chegar o terço final)

You don’t think I’m gonna take care of you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Ann Dowd, Milly Shapiro, Brock McKinney, Jake Brown, Mallory Bechtel, Morgan Lund, Bus Riley, Heidi Méndez

Hereditary, EUA, 2018, Terror, 127 minutos

Sinopse: Após a morte da reclusa avó, a família Graham começa a desvendar algumas coisas. Mesmo após a partida da matriarca, ela permanece como se fosse um sombra sobre a família, especialmente sobre a solitária neta adolescente, Charlie, por quem ela sempre manteve uma fascinação não usual. Com um crescente terror tomando conta da casa, a família explora lugares mais escuros para escapar do infeliz destino que herdaram. (Adoro Cinema)

Sucessor de Mãe! no sentido de ser o filme mais polarizador do cinema norte-americano em 2018, Hereditário, contudo, representa algo muito maior: a consolidação do terror mais sofisticado e menos simplista junto às grandes plateias. Se já vivemos épocas em que sucessos de bilheteria eram trabalhos pautados por um estilo mais grotesco e escrachado como A Casa de CeraHorror em AmityvilleO Albergue e uma infinidade de Jogos Mortais, hoje a criatividade e a autoria parecem ter lugar cativo mundo afora. Pensem comigo: Invocação do MalA BruxaCorra!Um Lugar Silencioso, citando apenas obras mais recentes, exploram as possibilidades estilísticas do gênero de forma exemplar, além de, em casos pontuais, proporem a interpretação de discussões contemporâneas a partir do medo, da tensão ou do assombro. Com Hereditário, que está em cartaz nos cinemas brasileiros, ganhamos mais um título para reforçar essa tese, e um título dos mais interessantes do ponto de vista de repercussão: independente de pré-conceitos e do quanto o resultado como um todo é capaz de envolver, você precisa assisti-lo e, principalmente, debatê-lo, sensação despertada apenas por uma mínima porcentagem dos filmes que costumamos conferir ao longo do ano.

Conduzindo situações e personagens por terrenos incertos, onde muito se deduz e pouco se diagnostica em termos daquilo que devemos temer ou suspeitar (uma qualidade tremenda, diga-se de passagem), Hereditário mostra todo o talento do diretor Ari Aster em seu primeiro longa-metragem: há uma atmosfera latente no filme, auxiliada tanto pelas ferramentas técnicas (a trilha de Colin Stetson cria o clima ideal até mesmo nas notas mais altas e previsíveis) quanto por essa matéria-prima da incerteza que define os melhores relatos de terror. A força maior, contudo, está no conceito pensado para a trama, impulsionada pela discussão sobre como a dor e o luto são capazes de nos levar a lugares que nem imaginávamos existir. Tudo começa quando Annie (Toni Collette) perde a mãe e, dias depois, sofre outro baque emocional que atingirá também e principalmente o filho Peter (Alex Wolff). Entre eles, há ainda o pai vivido por Gabriel Byrne e a estranha irmã mais nova (Milly Shapiro), mas é do intenso calvário emocional de Annie e Peter que Hereditário extrai tensão e angústia. Ao mostrar o quanto o luto mexe com as nossas ideias e sentidos, o roteiro desafia o espectador a concluir se o estado de transe dos personagens está apoiado na loucura, na realidade ou, quem sabe, até mesmo no sobrenatural. E os resultados desse processo de questionamentos são ricos no drama e no terror, inclusive porque Toni Collette e Alex Wolff são atores talentosos.

O filme que percorre caminhos tão instigantes vai por água abaixo no terço final, e por uma razão que julgo ser bastante decisiva, para não dizer um pouco desonesta: a de virar completamente do avesso o seu estilo de terror. Poderíamos dizer que, antes disso, Hereditário comete o pecado de explicar ponto a ponto o seu mistério, o que soa amador para uma obra que vinha carregando força e tensão exatamente na falta de respostas, mas o problema maior está mesmo nessa troca de estilo, que é gravíssima para um gênero tão específico como o terror. Ora, ninguém engoliria Os Outros, por exemplo, caso, de repente, todo o seu mistério fosse somente um plano do boneco Chucky. Hereditário me chateia por causa disso: além das explicações desnecessárias, a conclusão, cuja cena final é uma clara evocação do que já vimos em A Bruxa, transforma um filme em outro (um que eu provavelmente não veria), e ainda o faz a passos apressados, com guinadas e conclusões tumultuadas. Já se a mudança drástica é parte de um plano maior para causar o efeito da provocação e do incômodo, ao menos há de se reconhecer que Ari Aster acertou em cheio, pois Hereditário é, indiscutivelmente, o filme-evento da temporada.

“Oito Mulheres e Um Segredo”: sem roteiro e direção à altura, elenco feminino é a razão do entretenimento

That was spectacular!

Direção: Gary Ross

Roteiro: Gary Ross e Olivia Milch, baseado na história de Gary Ross e nos personagens de George Clayton Johnson e Jack Golden Russell

Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Mindy Kaling, Sarah Paulson, Rihanna, Awkwafina, James Corden, Richard Armitage, Midori Francis, Elliott Gould, Charlotte Kirk, Charles Prendergast

Ocean’s 8, EUA, 2018, Aventura, 110 minutos

Sinopse: Recém-saída da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) logo procura sua ex-parceira Lou (Cate Blanchett) para realizar um elaborado assalto: roubar um colar de diamantes no valor de US$ 150 milhões, que a Cartier mantém sempre em um cofre. O plano é convencer a empresa a emprestá-lo para que a estrela Daphne Kluger (Anne Hathaway) use a joia no badalado Met Gala, um dos eventos mais chiques e vistosos de Nova York. Para tanto, Debbie e Lou reúnem uma equipe composta apenas por mulheres: Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina), Rose (Helena Bonham Carter) e Tammy (Sarah Paulson). (Adoro Cinema)

Um pouco menos emblemática do que o público passou a considerar especialmente agora, a franquia iniciada com Onze Homens e Um Segredo e concluída como trilogia com Doze Homens e Outro SegredoTreze Homens e Um Novo Segredo era puro entretenimento, com o bônus de ser concebida em uma fase inspirada de Steven Soderbergh, diretor incansável e plural, mas também bastante irregular. Sua cartada mais certeira, entretanto, era o elenco de altíssimo nível, capaz de reunir, na mesma tela, atores como George Clooney, Brad Pitt, Al Pacino e Matt Damon (a lista completa poderia levar mais algumas linhas), todos eles arquitetando assaltos e outros trambiques em pleno clima de descontração. Lá, a presença feminina (Julia Roberts, Catherine Zeta-Jones) era secundárias, mas agora o jogo virou: onze anos depois do último filme, é a vez das mulheres, como em boa parte do que tem sido produzido nos dias de hoje, assumirem a dianteira de uma franquia que segue o mesmo estilo, dessa vez intitulada Oito Mulheres e Um Segredo.

A única conexão entre esse novo filme comandado por Gary Ross (A Vida em Preto e Branco, Seabiscuit – Alma de Herói e o primeiro Jogos Vorazes) e a versão masculina é o fato de Debbie Ocean (Sandra Bullock) ser irmã de Danny (Clooney), referenciado uma vez ou outra ao longo filme. O problema é que, apesar desse fiapo de conexão, Oito Mulheres e Um Segredo depende mais do estilo e do formato dos longas anteriores do que poderia se esperar. É fato: Gary Ross, também autor do roteiro, faz um trabalho bastante acomodado ao apenas remontar uma fórmula bem sucedida. Não há aqui uma linguagem própria ou ao menos certa personalidade para distanciar Oito Mulheres e Um Segredo de uma mera inversão de elenco. Há algum mal em mexer em time que sempre vence? Não necessariamente, mas, assim como no recente Mulher-Maravilha, a sensação de prato requentado nos lembra que, sim, é alta a relevância de se ter um filme comercial estrelado por mulheres, e seria ainda maior caso determinadas produções nos apontassem novas possibilidades em um mercado historicamente definido por visões masculinas (ao contrário de Mulher-Maravilha, o caso de Oito Mulheres e Um Segredo é ainda mais delicado por ter um homem na cadeira de direção).

Munido de certas liberdades que são coerentes com a veia cool da franquia (como levar a sério a personagem vivida por Sandra Bullock começar o filme com a maquiagem em dia dentro de uma… prisão?!), Oito Mulheres e Um Segredo não é um filme que preza pela verossimilhança ou por sua engenhosidade de roteiro (dependendo do ponto de vista, é o que dá a tônica da diversão) e que não se esmera na construção das personagens, todas com personalidades que existem porque lhe foram superficialmente atribuídas e não porque foram desenvolvidas. A falha mais grave, porém, é uma mera questão de atmosfera. Sem qualquer ameça ou perigo iminente, um filme de assalto não desperta euforia, e é o que acontece com Oito Mulheres e Um Segredo: não há situação que não seja contornável ou qualquer sequência que desperte o mínimo de adrenalina. Durante todo o desenrolar, nós sabemos que os ventos sempre sopram a favor das personagens. E isso, na letra fria da história, é desestimulante, além do mais quando tanta facilidade para idealizar a esperteza das personagens abre uma série de furos no roteiro (é inadmissível, por exemplo, que, em determinado ponto, a polícia acredite que um objeto tenha sido inocentemente perdido quando ele só poderia ser retirado do corpo de quem o usava com uma ferramenta que estava justamente sob os cuidados das autoridades).

Como em tantos outros trabalhos onde atores ou atrizes são maiores do que os filmes em si, Oito Mulheres e Um Segredo não foge à regra e inclusive se potencializa: são nada menos do que oito intérpretes que formam um time simplesmente irresistível. Tanto o projeto tem consciência desse poder que faz o possível para enaltecer cada personagem com trocas constantes de figurinos, maquiagens dignas de um Tapete Vermelho ou tiradas que reforcem o quanto elas são descoladas (o que é ótimo!). Anterior a esse apelo, é mesmo um prazer ver Cate Blanchett contracenando com Sandra Bullock ou Helena Bonham Carter vivendo a insegura figurinista de uma radiante e inspirada Anne Hathaway. Há personagens mais secundárias e sem tanto destaque, seja pelo papel ou por quem a interprete (Sarah Paulson poderia ter rendido mais, ao mesmo tempo em que Rihanna não se justifica muito em cena), o que não quer dizer que elas não tenham sua parcela de contribuição para o carisma do elenco como um todo. É o suficiente para fazer de Oito Mulheres e Um Segredo uma experiência entusiasmante? Quase. O longa de Gary Ross pode ser um bom entretenimento, mas, poucas horas depois da sessão, já se percebe que não tem fôlego para ficar na memória como algo maior do que uma diversão de momento. E é claro que, no frigir dos ovos, como em tudo se tratando sobre  cinema, cada um tem seu próprio gosto e estilo para dar o devido valor a essa percepção.

“Tully”: o lado exaustivo e caótico da maternidade

You only live twice, or so it seems: one life for yourself and one for your dreams.

Direção: Jason Reitman

Roteiro: Diablo Cody

Elenco: Charlize Theron, Mackenzie Davis, Mark Duplass, Ron Livingston, Emily Haine, Asher Miles Fallica, Lia Frankland, Gameela Wright, Maddie Dixon-Poirier, Elaine Tan, Marceline Hugot

EUA, 2018, Drama, 95 minutos

Sinopse: Marlo (Charlize Theron), mãe de três filhos, sendo um deles um recém-nascido, vive uma vida muito atarefada, e, certo dia, ganha de presente de seu irmão: uma babá para cuidar das crianças durante a noite. Antes um pouco hesitante, Marlo acaba se surpreendendo com Tully (Mackenzie Davis). (Adoro Cinema)


Selecionando um número qualquer de filmes sobre maternidade, é bem provável que a maioria eleve suas discussões, claro, para o quanto a chegada de um filho pode ser um dos momentos mais transformadores, comoventes e recompensadores da vida de uma mulher. Tully não é esse tipo de filme. Quero dizer, a roteirista Diablo Cody, que volta a trabalhar com o diretor Jason Reitman depois de Juno e Jovens Adultos, não deixa de ilustrar o imensurável amor de uma mãe por um filho, mas o faz de outra maneira, mostrando que, na verdade, o afeto começa na superação diária de uma vida cansativa, complicada e exaustiva. Afinal, essa é uma constatação universal: olhando metodicamente para o cotidiano, toda mãe logo conclui que ter filhos exige um esforço descomunal de sobrevivência, e é nesse vão formado entre a recompensa e o sacrifício materno que Tully deposita suas maiores questões e reflexões.

Propôr um olhar para o extremo oposto de situações clássicas é algo que Diablo Cody sempre fez muito bem. Façamos uma breve retrospectiva: em Juno, a garota que engravida está longe de ser a mais popular da escola, bem como o seu namorado desengonçado; em Jovens Adultos, o mulherão que todos julgam ser requisitada e bem sucedida é, na realidade, uma pessoa incrivelmente frustrada tanto na profissão quanto no plano afetivo; e, agora, em Tully, uma mãe ama cada um de seus três filhos, mas já não tem mais brilho nos olhos e deixa estampar, no rosto e no corpo, o peso diário de uma maternidade caótica. E é perfeito que esse novo roteiro de Diablo tenha ficado mais uma vez sob a responsabilidade de Jason Reitman, outro profissional dedicado a relatos sobre pessoas e sentimentos facilmente identificáveis, mesmo quando eles são sobre um homem riquíssimo que vive a vida de aeroporto em aeroporto pelos Estados Unidos (Amor Sem Escalas) ou sobre uma mulher que, sequestrada junto ao filho, desenvolve uma relação no mínimo atípica com seu sequestrador (Refém da Paixão).

A união do olhar apurado dessa dupla potencializa um texto que toca em outras questões que ultrapassam o plano da identificação com o universo feminino e maternal: em determinado ponto, Tully convida o espectador a refletir sobre como passamos por certas transições sem de fato notá-las, quando só mais tarde, com um misto de pesar, nostalgia e compreensão, chegamos à conclusão que, apesar dos pesares, a vida não ofereceu outra opção a não ser aceitar uma série de desprendimentos para encarar as inevitáveis trocas de papeis que precisamos fazer. Sem discursos manjados ou expositivos, Tully, enfim, percorre esse imenso mundo intimista refletindo sobre as alternativas que criamos para sobreviver e ir em frente, mesmo quando elas soam mais perigosas e capazes de colocar em xeque a nossa identidade do que estamos dispostos a admitir.

Tully, que talvez seja mesmo o melhor roteiro escrito por Diablo Cody até aqui, é minucioso ao extrair de momentos cotidianos a força de seu drama: em uma cena que claramente faz referência à sequência de Amor Sem Escalas onde o personagem de George Clooney prepara a sua mala de viagem uma centena de vezes entre um aeroporto e outro, o filme traduz todo o turbilhão que se instala em uma casa quando chega um recém-nascido (o choro, as fraldas limpas, as fraldas sujas, o peito para mamar, o banho, o acordar, o despertar, a atenção vigilante mesmo à noite). E Charlize Theron, que vem colecionando grandes desempenhos nos últimos anos (Monster – Desejo Assassino, Jovens Adultos, Mad Max: Estrada da Fúria), adiciona mais um à lista, pois sua Marlo é bastante complexa tanto por dentro como por fora, o que exige da atriz uma entrega que ultrapassa a transformação física (ela engordou 22 kg para o papel) e vai fundo nas camadas emocionais de uma protagonista cuja exaustão física e existencial se percebe em cada expressão, palavra e movimento.

Eventualmente, certos detalhes do roteiro de Tully parecem deixar furos pelo caminho (e prefiro não pontuá-los para não estragar a surpresa do que virá pela frente). É também estranha, para não dizer um pouco desconexa com o filme, uma determinada situação envolvendo a protagonista, a recém-contratada babá e o marido. Entretanto, a sensação de estranhamento com idealizações e supostos desvios de roteiro se dissipam ao fim, quando Diablo reserva uma pequena reviravolta que esclarece toda e qualquer interrogação sugerida durante o desenrolar da história. A surpresa vem para promover não a reviravolta pela reviravolta, mas para intensificar questões discutidas ao longo do filme, deixando uma sensação agridoce que permeia qualquer lembrança relacionada a esse pequeno grande filme, mas que, parando para pensar, pode ser exatamente a mesma que temos em relação à vida e ao que ela exige de todos nós.

Três atores, três filmes… com Paulo Henrique Silva

Criada em 2011, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine é a primeira entidade nacional a reunir os críticos de cinema de todas as regiões do país. Promovendo as diversas formas de pensamento crítico, reflexão e debate sobre cinema, hoje a entidade é presidida pelo jornalista mineiro Paulo Henrique Silva, que também atua no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte. Como de costume, o Paulo foi convidado a escrever para a coluna sobre três interpretações que considera marcantes no cinema. A partir desse convite, vieram três grandes atrizes em três grandes desempenhos. E vejam só: todas de intérpretes acima dos 60 anos, ativas profissionalmente e com a sorte de terem ao seu lado grandes diretores que reverenciam, na tela e fora dela, o imenso valor de suas respectivas carreiras e talentos. É, sem dúvida, uma seleção para ninguém colocar defeito. Confiram!

Meryl Streep (The Post: A Guerra Secreta)
A ferramenta principal do ator é o seu corpo, mas, no caso de Meryl Streep, o trabalho dela se dá principalmente por meio do olhar e dos lábios. Dependendo do gênero e do filme, eles nos conduzem de uma alegria contagiante a uma raiva incontrolável. Em As Pontes de Madison, Meryl não precisa dizer muito para mostrar uma mulher madura cheia de sentimentos guardados prontos para transbordar. Ela parece ser o retrato da mulher de seu tempo, ou das mulheres de seu tempo, multifacetada, uma amálgama entre a dona de casa submissa e àquela que está à frente das transformações sociais. Num filme recente como The Post, de Steven Spielberg, ela faz a síntese de uma carreira, reunindo numa mesma personagem os lados frágil e forte. Numa produção marcadamente dominada por homens, Meryl levanta a bandeira feminista, em que a atitude dela é determinante na trama. Em dois diálogos decisivos, com Tom Hanks e Bruce Greenwood, a fala num tom quase inalterado contrasta com um olhar e lábios que nos apontam muito do que acontecerá em seguida.

Isabelle Huppert (Elle)
Isabelle Huppert é um mistério. Seus personagens, num mesmo filme, apontam para vários caminhos. Talvez seja o que mais gosto nela: a imprevisibilidade. É uma risada característica que parece dizer mais da loucura interior do que qualquer outra coisa; um olhar que nos angustia ao revelar que ela irá até às últimas consequências; e uma voz que vai do angelical ao diabólico, com cada frase saindo dúbia. Seus personagens são sempre fortes. De Paul Verhoeven, ela ganhou em Elle um dos papéis mais emblemáticos de sua carreira, uma empresária que não sabe o que é, vivendo um processo assustador de autodescoberta, conectada ao pensamento de hoje – do homem? – sobre a mulher que emergirá de tantas transformações. Tanto o filme quanto ela parecem não querer dar uma resposta. A única coisa certa é que a sua ironia incômoda, outro traço marcante no trabalho de Isabelle. Vê-la em ação é sempre um prazer incômodo.

Sonia Braga (Aquarius)
Ver a brasileira Sonia Braga no filme Extraordinário, como uma avó que apoia a neta num momento familiar conturbado, é muito evocativo, como se fosse um prosseguimento de sua personagem em Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e fechando uma linha do tempo iniciada com Eu Te Amo e A Dama do Lotação, na década de 70. Ela sempre viveu uma mulher forte, em contraste com um universo masculino em decadência. Os homens dos filmes de Arnaldo Jabor e Neville D’Almeida parecem já não dar conta da emancipação feminina. Esse desconcerto é muito simbólico de uma época em que passávamos pelos últimos anos da ditadura militar no Brasil. O que nos leva a Aquarius, mais de 30 anos depois, agora em que o país sofre com o liberalismo econômico e a corrupção. Resistir à venda de sua casa, que conta a rica história de sua trajetória, é um ato político, em torno da preservação da individualidade e da liberdade contra o apagamento liderado por um suposto progresso. Sônia representa muita coisa, menos ordem e progresso.

“As Boas Maneiras”: formação humana e familiar em noite de lua cheia

Você gosta de criança?

Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

Roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra

Elenco: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Felipe Kenji, Andrea Marquee

Brasil, 2018, Drama/Terror, 135 minutos

Sinopse: ​Clara (Isabél Zuaa), enfermeira solitária da periferia de São Paulo, é contratada pela rica e misteriosa Ana (Marjorie Estiano) como babá de seu futuro filho. Uma noite de lua cheia muda para sempre a vida das duas mulheres.​ (Adoro Cinema)

Se você precisa categorizar As Boas Maneiras, a escolha mais óbvia seria dizer que essa é uma obra de terror. No entanto, assim como tudo na carreira da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, tal classificação só tende a simplificar a riqueza cinematográfica de seus trabalhos e dos importantes temas que ambos costumam tratar tanto nos longas que dirigem juntos (Trabalhar Cansa) quanto nos que comandam individualmente (Sinfonia da NecrópoleO Silêncio do Céu). As Boas Maneiras confirma a regra: por ter uma atmosfera de suspense fantástico, o longa é predominantemente interpretado pelo público a partir dessa perspectiva, quando, na verdade, ganha diferentes dimensões ao fazer com que a trama oscile, com extrema fluidez e versatilidade, entre momentos de mistério, drama e romance, sendo alguns deles, inclusive, pontuados por sequências musicais! Tanto frescor e desapego aos padrões fazem de Rojas e Dutra dois dos mais talentosos e instigantes realizadores de sua geração. E, para quem for aos cinemas brasileiros conferir As Boas Maneiras a partir da próxima quinta-feira, 7 de junho, outras surpresas chegam com a assinatura da dupla nesse longa que, na última edição do Festival do Rio, faturou as categorias de melhor filme, atriz coadjuvante (Marjorie Estiano) e fotografia.

Assim como os melhores relatos de terror, As Boas Maneiras usa elementos do gênero para falar sobre questões muito mais amplas e de que irrealistas não têm nada (lembram de quando falei exatamente a mesma coisa no texto sobre O Animal Cordial?). Se é difícil falar sobre o filme sem entregar elementos cruciais de sua narrativa, o que talvez baste saber é algo que os próprios diretores defendem sobre a história: ela é, em suma, sobre a formação de uma família. Nada mais justo para o mundo atual, onde redefinimos constantemente conceitos ao mesmo tempo em que nadamos contra uma corrente conservadora e elitista que defende o modelo tradicional de todo tipo de relação. As Boas Maneiras é também uma resposta direta a esse público, cujo repúdio extrapola o âmbito familiar, transformando o fato de ser “diferente” em um ato de resistência. E, por isso, As Boas Maneiras pode muito bem se configurar como um relato político, pois defende, através da alegoria, uma causa importantíssima e contemporânea que ganha leitura nas camadas de duas protagonistas opostas em quase todos os aspectos, começando pela cor da pele até a posição social em que ambas sempre se encontraram. 

Após um acontecimento que modifica por completo a sua história, As Boas Maneiras passa a concentrar sua discussão em um outro personagem. Essa quebra, contudo, não representa uma fragilidade. Muito pelo contrário, já que, na medida em que se encaminha para o desfecho, o longa potencializa a sua encenação, agora com um outro viés, sobre o que realmente define as relações humanas. Para tanto, todos os personagens de As Boas Maneiras se justificam em cena, uma vez que Dutra e Rojas, também autores do roteiro, definem muito bem a personalidade de cada um deles. Ainda que deixem para o espectador a tarefa de imaginar elementos que embasam determinados pontos dramáticos, isso surge mais como mérito do que como problema, já que as incógnitas contribuem diretamente para a atmosfera tensa que se instala já no primeiro e desconfortável encontro entre uma babá e a sua futura patroa. Seja no mistério ou na essência familiar, o projeto enaltece Isabél Zuaa, uma atriz forte e que se transforma durante o desenrolar da história, sempre muito bem acompanhada por Marjorie Estiano, pelo garotinho Miguel Lobo (um pequeno furacão!), pela “cantriz” Cida Moreira e por Andrea Marquee. É um elenco de peso, com a cara e o talento de um país que, apesar de tantas mazelas, segue se empoderando e se democratizando na tela do cinema graças a filmes como As Boas Maneiras

Rapidamente: “Maze Runner: A Cura Mortal”, “Perfeita é a Mãe 2”, “Roman J. Israel” e “Todas as Razões Para Esquecer”

Johnny Massaro em Todas as Razões Para Esquecer: filme trata com leveza e bom humor o término de um relacionamento a partir do ponto de vista masculino.

MAZE RUNNER: A CURA MORTAL (Maze Runner: The Death Cure, 2018, de Wes Ball): Sempre gostei de Maze Runner por sua total falta de pretensão em meio a uma enxurrada de franquias infanto-juvenis baseadas em bestseller como Jogos VorazesDivergente. A trilogia comandada pelo diretor Wes Ball nunca quis ser mais do que um eficiente entretenimento, e esse senso de diversão tem seu ponto alto no capítulo derradeiro chamada A Cura Mortal, que, infelizmente, chegou aos cinemas com uma tremenda falta de timing (o protagonista se machucou durante as gravações, atrasando um ano todo o cronograma de finalização e divulgação do filme). O desfecho não merecia mais esse golpe em termos de repercussão (Maze Runner, por alguma razão, nunca chegou a se tornar um verdadeiro hit) porque a trama, ainda que trabalhada em soluções fáceis demais, tem um pique admirável ao conduzir cenas de ação que, pelo realismo e pelo uso mínimo de efeitos digitais, fazem o espectador sentir o perigo e a adrenalina muito mais do que em em outros longas recentes do mesmo estilo. A Cura Mortal, assim como os capítulos anteriores de Maze Runner, tem pouco a dizer dramaticamente (uma prejudicada nesse sentido é Patricia Clarkson, cujo maior destaque ao longo da franquia foi uma esquecível reviravolta), mas será que não é um tanto injusto cobrar do projeto algo que ele próprio nunca prometeu?

PERFEITA É A MÃE 2 (A Bad Moms Christmas, 2017, de Jon Lucas e Scott Moore): Subestimado, o primeiro filme de Perfeita é a Mãe! trazia um elenco feminino de excelente timing cômico em uma história que, a partir de um tom de comédia mais popular, questionava os papeis impostos às mulheres, especialmente às mães, em um mundo onde o conceito de perfeição tem sido cada vez mais desconstruído e determinadas obrigações são felizmente questionadas. Aí imaginem a minha empolgação quando Christine Baranski e Susan Sarandon foram somadas ao time já formado por Mila Kunis, Kathryn Hahn e Kristin Bell para uma continuação. Porém, o entusiasmo termina quando o filme começa: além de antiquado na forma e com prazo de validade já estourado (comédias natalinas envolvendo confusões e desavenças familiares parecem cada vez mais experiências de décadas passadas), Perfeita é a Mãe 2 surpreende de forma negativa ao mudar a pegada do humor, agora predominantemente físico, sexual e gráfico. Dependendo do filme, situações com tapas, pontapés, drogas e ereções podem ter lá sua graça, mas aqui até o talentoso elenco surge pouco à vontade com um texto ralo e sem timing, que chega a comprometer atuações como as de Kathryn Hahn e Susan Sarandon. Previsível do início ao fim e em boa parte de mau gosto, Perfeita é a Mãe 2 é uma ressaca desnecessária.

ROMAN J. ISRAEL (Roman J. Israel, Esq., 2017, de Dan Gilroy): Os indicados ao Oscar 2018 foram anunciados em janeiro, mas ainda hoje tento entender as razões que levaram Denzel Washington a ser lembrado por um filme morno como Roman J. Israel. Denzel é sempre bom ator, mas, vindo de um desempenho intenso como o de Um Limite Entre Nós, sua presença aqui pouco impressiona. Em grande parte, há de se culpar o filme comandando por Dan Gilroy, cineasta que debutou com o visceral O Abutre, mas que, em Roman J. Israel, não preserva o mesmo talento e entusiasmo ao mais uma vez fazer um estudo de personagem. À parte a obra não ter ritmo ou criatividade, Gilroy, que também é autor do roteiro, não extrai complexidade de um protagonista desinteressante, cujas transformações ao longo da história também não são devidamente sentidas. Partindo do relato de um advogado mundano que, ao trocar de empresa, passa a enfrentar dilemas éticos, morais e profissionais ao ter que defender um homem acusado de homicídio, Roman J. Israel planta algumas promessas que acabam não se cumprindo, mas que, na medida do possível, são bem defendidas pelo desempenho sempre crível de Denzel Washington. Ainda assim, é pouco e inexpressivo para um diretor que, em seu filme anterior, já foi muito mais fundo e intenso em questões que, de certa maneira, também não deixam ser discutidas aqui.

TODAS AS RAZÕES PARA ESQUECER (idem, 2018, de Pedro Coutinho): Com o uso cada vez mais popular do termo white people problems, um longa como Todas as Razões Para Esquecer teria imensa dificuldade em ser levado a sério. Isso se o diretor Pedro Coutinho não contasse a história com leveza, contemporaneidade e um perceptível conhecimento acerca das consequências de um coração partido. Sem essas qualidades, o filme não passaria de um amontoado de situações rasas sobre um garoto branco, carioca e de classe média que trabalha em uma grande agência de publicidade e tenta superar um término de namoro entre um porre e outro. A obra em si não é necessariamente inventiva — filmes como Ela(500) Dias Com Ela, também sobre corações despedaçados, são referências óbvias inclusive na construção visual, e a tentativa de dar estofo dramático a personagens como a psicóloga vivida por Regina Braga não soam convincentes —, mas há uma certa despretensão na obra, que, ao invés de proferir filosofias ou se aprofundar em reflexões, olha para o vazio de uma geração confusa sentimentalmente tentando fazer com que ela, de alguma forma, possa se identificar com tudo aquilo, percebendo que, apesar das pedras no caminho, tudo fica bem, de um jeito ou de outro. E esse material, digamos, agridoce, ainda é certeiro para Johnny Massaro, que, após o ótimo desempenho em O Filme da Minha Vida, constrói, com versatilidade, as qualidades e defeitos de um personagem que, em teoria, sempre fica a um passo de se tornar caricato.

“O Animal Cordial”: terror brasileiro subverte o gênero slasher e explora os diferentes sentidos da brutalidade

Sabia que eu já matei muita gente?

Direção: Gabriela Amaral Almeida

Roteiro: Gabriela Amaral Almeida

Elenco: Luciana Paes, Murilo Benício, Irandhir Santos, Camila Morgado, Humberto Carrão, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Diego Avelino, Eduardo Gomes, Ariclenes Barroso

Brasil, 2018, Terror/Suspense, 96 minutos

Sinopse: São Paulo. Inácio (Murilo Benício) é o dono de um restaurante de classe média, por ele gerenciado com mão de ferro. Tal postura gera atritos com os funcionários, em especial com o cozinheiro Djair (Irandhir Santos). Quando o estabelecimento é assaltado por Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso), Inácio e a garçonete Sara (Luciana Paes) precisam encontrar meios para controlar a situação e lidar com os clientes que ainda estão na casa: o solitário Amadeu (Ernani Moraes) e o casal endinheirado Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado).

É uma questão cultural e histórica: uma significativa parcela das plateias brasileiras alimenta um infundado preconceito com a produção audiovisual de seu próprio país, ainda mais se tratando do chamado “cinema de gênero” (termo que refuto porque sempre me parece redundante, afinal todo cinema tem pelo menos um ou mais gêneros). Recupero essa percepção porque, após conferir O Animal Cordial na programação do Fantaspoa 2018, tive a certeza de que, caso fosse produzido por norte-americanos e estrelado por um elenco Hollywoodiano, o primeiro longa-metragem assinado por Gabriela Amaral Almeida daria o que falar. A partir dessa teoria de que, dada a sua nacionalidade, o filme não será devidamente valorizado, quem sai perdendo é o próprio público, que deixa de apreciar um dos trabalhos mais viscerais do cinema nacional em anos — e também uma das obras de terror mais impactantes e descontruídas da recente safra do gênero, independente da origem de quem está por trás das câmeras.

Impactante alegoria sobre barbáries sociais, o longa se utiliza da violência e de uma dose cavalar de sangue para discutir o nosso eventual retorno a um estado primitivo quando enfrentamos situações extremas. A trama parte de um assalto, mas o filme captura uma outra perspectiva: a dos comportamentos desencadeados por esse violento acontecimento. E não falamos propriamente das brutalidades cometidas ao longo de um pesadelo vivido em um pequeno restaurante paulista. A força emocional de O Animal Cordial está menos nos acontecimentos e mais na personalidade muito bem definida de personagens carregados de curvas emocionais. Mais: o longa adota como conceito que não há violência física que se equipare, por exemplo, à agressão emocional da homofobia ou ao desprezo de um casal elitista pela garçonete que trabalha no restaurante. Afinal, o verdadeiro terror é se deparar com a pior índole do ser humano nas mínimas situações.

Por se focar majoritariamente no comportamento e na natureza de seus personagens, O Animal Cordial amplia a inegável tensão que cai nos ombros do espectador durante toda projeção, começando pelos protagonistas Inácio (Murilo Benício) e Sara (Luciana Paes), pessoas que, diante do assalto, de repente encontram um tipo de protagonismo que, talvez, jamais tiveram do ponto de vista profissional e emocional em suas cotidianidades. A abordagem do roteiro é certeira porque ela se distancia de tantos outros relatos de terror ao questionar as complexidades de cada personagem, colocando quase em segundo plano o desenrolar do assalto em si. Como um drama tradicional, é possível que O Animal Cordial não tivesse metade do seu impacto, já que muitas das discussões levantadas pelo roteiro — o perigo de amar, os calos emocionais, a exploração profissional — ganham novas leituras e dimensões quando se contrastam com a extrema violência física (e não passa despercebida a maneira como o sangue desempenha papel crucial nas diversas construções de sentido do filme).

A diretora Gabriela Amaral Almeida diz que O Animal Cordial representa o seu desejo pessoal de fazer um filme que ela própria nunca viu. E faz total sentido. Gênero que, no geral, objetifica ou despreza as mulheres ao assassiná-las das mais diferentes formas, o terror ganha aqui um exemplar raro, pois Gabriela usa a falência da masculinidade como espinha dorsal do filme, onde o único homem que mostra dignidade e retidão de caráter é justamente o cozinheiro gay. Enquanto isso, a presença feminina, centrada na figura de Luciana Paes, exerce influência direta em praticamente todos os acontecimentos do roteiro. Como um exemplar do terror slasherO Animal Cordial renega a misógina concepção de seu gênero, inclusive em uma poderosa cena de sexo, onde a mulher, novamente, é quem detém o controle absoluto.

Outro aspecto que chama a atenção é o elenco estelar e de primeiríssima qualidade, algo raro se tratando de obras específicas como essa. Murilo Benício, possivelmente no papel de sua vida, e Luciana Paes, uma atriz que segue despontando como uma das mais talentosas e autorais de sua geração, encabeçam o time de atores, acompanhados de coadjuvantes igualmente intensos, como Irandhir Santos, certeiro na caracterização de um cozinheiro que reivindica seus direitos profissionais e humanos, e Camila Morgado, representando a mulher rica que se vê em uma situação onde jamais imaginou que um dia pudesse estar em função de sua posição social. A presença e o comprometimento de profissionais reconhecidos como eles com um projeto cru, brutal e despudorado comprova o grande prestígio de um filme que, sim, deve satisfazer os dedicados fãs de terror, mas também impactar — e muito — quem estiver aberto a pensar o ser humano por outras vias que não sejam as tradicionais.

Melhores de 2017 – Filme

Filme que ficará para a posteridade independente da avaliação rasteira por boa parte do público e da crítica, Mãe! brilha por sua provocação e por sua falta de padrões, qualidades que, ao contrário do que se percebe na banalização do exercício da crítica de cinema, não deveriam ser tratadas como deméritos e sim como grandes qualidades. Darren Aronofsky, que fez o filme que bem entendeu, pouco se preocupando com o que qualquer pessoa (estúdio, público, crítica) acharia ou não de seu trabalho, restaura nossa fé não na realização de um cinema pretensioso, mas sim livre, autêntico e convicto. Rico em análises, o longa pode ser visto como uma releitura de questões bíblicas, como a via crucis do que é ser uma mulher sem voz em um mundo dominado por homens ou como o retrato do lado mais obscuro do amor, onde nos doamos e nos anulamos tanto que, ao fim, o que resta é simplesmente arrancar nossos corações para seguir em frente. E por que não colocar drama, suspense, guerra, metáforas, hipérboles e literalmente todo o universo dentro de uma casa para discutir tudo isso? Cinema que divide plateias, Mãe! terá o tempo ao seu lado, sendo lembrada infinitamente mais do que obras unanimemente premiadas mundo afora. Ainda disputavam a categoriaLa La Land: Cantando Estações, Logan, Manchester à Beira-Mar e Personal Shopper.

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – Carol | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

“O Processo”: o registro desolador de um pesadelo recente (e ainda presente)

É um jogo de cartas marcadas.

Direção: Maria Augusta Ramos

Roteiro: Maria Augusta Ramos

Brasil, 2018, Documentário, 142 minutos

Sinopse: O documentário acompanha a crise política que afeta o Brasil desde 2013 sem nenhum tipo de abordagem direta, como entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. A diretora Maria Augusta Ramos passou meses no Planalto e no Congresso Nacional captando imagens sobre votações e discussões que culminaram com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo. (Adoro Cinema)

Abraçando a ideia de que a realidade pode ser mais chocante do que a ficção, a cineasta Maria Augusta Ramos realizou O Processo sem qualquer tipo de intervenção: o que se vê na tela durante os 142 minutos de projeção são imagens de bastidores do Planalto e do Congresso Nacional durante o andamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Não há depoimentos registrados especialmente para o documentário, tampouco condução de entrevistas ou análises de especialistas das áreas jurídicas, políticas ou econômicas. A matéria-prima do documentário são imagens já históricas, como a embaraçosa votação na Câmara dos Deputados e o discurso de despedida de Dilma como presidente do Brasil, complementadas por tudo o que a equipe capturou em seu acesso exclusivo a reuniões estratégicas realizadas ao longo do processo de impeachment da então presidente Dilma. Acreditando, com toda a razão, que as imagens por si só seriam suficientes para dar a devida dimensão do circo e da farsa montadas para destituir a primeira mulher governante do Brasil, Maria Augusta Ramos toca fundo não apenas na ferida de um sistema político seletivo e intransigente, mas também na desesperança de uma população que segue a deus-dará.

Boa parte dos políticos de direita negaram o acesso da equipe de filmagens aos seus bastidores, o que torna O Processo um documentário intimamente ligado aos discursos pró-Dilma, aqui centralizados em duas figuras protagonistas: o advogado José Eduardo Cardozo e a senadora Gleisi Hofmann. Mesmo com a limitação imposta pela política de direita, o documentário dá ampla visibilidade aos dois lados da trincheira quando recupera momentos-chave tanto dos bastidores quanto de sessões públicas. A diretora Maria Augusta Ramos e a montadora Karen Akerman ouvem os dois lados em todos os momentos cruciais, evitando qualquer acusação de terem selecionado depoimentos quando eles melhor serviam a algum posicionamento político do filme. E é aí que o fato da câmera só observar os bastidores faz a completa diferença: enquanto Dilma Rousseff e a cúpula do PT surgem racionais, objetivos e bem articulados, nomes da oposição como a jurista Janaína Paschoal, coautora do pedido de impeachment, beiram o descontrole, causando inclusive momentos de humor involuntário tamanha a quantidade de discursos mais passionais do que argumentativos. 

Em ordem cronológica, O Processo coloca na tela um período nefasto e recente de nossa política que, desde agora, pode e deve ser visto com certa perspectiva. Sentado na sala de cinema para conferir uma longa narrativa sobre o impeachment, fica ainda mais clara a forma orquestrada, seletiva e irresponsável com que o esse processo foi conduzido, começando pela tenebrosa votação na Câmara dos Deputados que abre o documentário, onde Eduardo Cunha, presidente da Câmara, liderava o movimento pró-impeachment mesmo com incontáveis provas e acusações que deveriam ter lhe tirado do cargo antes mesmo de qualquer movimento contra Dilma Rousseff. A partir daí, O Processo faz uma detalhada retrospectiva desse longo jogo de cartas marcadas, onde se percebe, a cada cena registrada, que os argumentos e os recursos bem defendidos pelo PT jamais teriam chance frente ao sistema imposto. O documentário causa um embrulho no estômago por conta disso: caso você não tenha percebido na época, agora está representado, com extrema clareza, que nada de fato poderia ser feito para reverter um jogo cujo resultado já estava decidido muito antes do início da partida.

Considerando a passionalidade, milhões de pessoas apoiavam a destituição da presidente, mas O Processo nos lembra que, independente de seu posicionamento, os fins não justificam os meios. E, nesse momento específico da trajetória brasileira, os meios foram escusos e suficientes para escancarar que a corrupção não é o mal de um partido, mas sim de toda uma sociedade. Impossível, no entanto, acusar O Processo de não problematizar a política de esquerda, por assim dizer: é essencial a cena em que os representantes do Partido dos Trabalhadores versam sobre as razões que levaram ao enfraquecimento da presidente e ao fortalecimento do pedido de impeachment. A falta de inserção de Dilma nos movimentos feministas e do próprio partido nas reivindicações populares despertam reflexões e autocríticas necessárias para a compreensão de toda a engrenagem que culminou no afastamento de Dilma, inclusive, e não menos importante, a relação com a imprensa, sempre tão difícil e parcial, mas tratada, de certa forma, como um simples argumento de vitimização do partido (conforme levantado pelo documentário, o PT foi o governo democrático que mais fechou rádios comunitárias em todo o Brasil, uma contradição difícil de justificar).  

Verdade seja dita que é quase impossível avaliar O Processo sem se deixar levar por posicionamentos políticos, mas essa é uma questão do próprio espectador, uma vez que o documentário faz o mínimo possível para influenciar plateias. Além de não ser propaganda eleitoral, o resultado estarrece justamente por sua narrativa sóbria, onde nem mesmo o nome de cada documentado aparece na tela. Prova maior disso são os simples, mas assombrosos letreiros finais que listam todas as mudanças políticas e sociais promovidas Michel Temer após assumir a presidência. Os fatos falam por si só e confirmam todo o interesse que havia por trás do impeachment, cujas razões oficiais que formalizaram o processo, no final das contas, dificilmente serão lembradas pela população. Como eleitor de Dilma (sinto que devia esclarecer isso, caso já não estivesse evidente pelo texto), fiquei, ao final da sessão, com um inconsolável sentimento tristeza por reviver tamanho pesadelo. Já como cinéfilo, há comemoração, pois O Processo é de uma dignidade tremenda —  e de uma relevância histórica indiscutivelmente urgente.

Melhores de 2017 – Direção

Não é apenas o talento que diferencia os grandes diretores dos demais: a convicção também é uma qualidade que faz toda a diferença. Darren Aronofsky sempre teve ambas as qualidades, e por isso mesmo não é à toa que sua filmografia é respeitadíssima e repleta de filmes inesquecíveis, como Réquiem Para Um SonhoCisne Negro e, agora, Mãe!, a obra mais polarizadora de 2018. Em seu melhor, ele sempre foi um diretor de personalidade marcante e de narrativas fortes, mas Mãe! é possivelmente o longa mais autêntico de sua carreira: ame ou odeie, você há de reconhecer que ele foi feito por alguém que queria levar suas escolhas ao limite, sem medo de que as ideias extremas pudessem afastar o público ou até mesmo os executivos de qualquer estúdio na fase embrionária do projeto. Aronofsky tem controle absoluto de seu filme, o que se percebe na forma claustrofóbica com que ele acompanha cada passo de Jennifer Lawrence em cena ou na grandiosidade técnica de uma história passada apenas em um casarão, mas que ganha leituras inegavelmente ambiciosas em termos técnicos e dramáticos. Maximizando cada detalhe com o talento sensorial que lhe é tão habitual, o diretor, a cada nova leitura provocada ou a cada potência explorada em tom, som e imagem, deixa o recado de que você pode dizer muitas coisas sobre ele, menos que ele não fez Mãe! do jeito que sempre quis: livre, convicto e sem abrir mão de qualquer uma de suas escolhas. Ainda disputavam a categoria: Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações), Jordan Peele (Corra!), Kenneth Lonnergan (Manchester à Beira-Mar) e Olivier Assayas (Personal Shopper).

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – José Pedro Goulart (Ponto Zero) | 2015 – George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria) | 2014 – David Fincher (Garota Exemplar) | 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade) | 2012 – Leos Carax (Holy Motors) | 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro) | 2010 – Christopher Nolan (A Origem) | 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?) | 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro) | 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Melhores de 2017 – Elenco

Pouco antes de ganhar um amplo e merecido reconhecimento pelo drama Me Chame Pelo Seu Nome, o diretor italiano Luca Guadagnino havia assinado uma outra pérola que, no geral, foi subavaliada pela crítica, ignorada pelos prêmios e preterida no circuito comercial. Trata-se de Um Mergulho no Passado, refilmagem do francês A Piscina, dirigido por Jacques Deray em 1969. O remake por si só é bem conduzido e rico em leituras, mas a preciosidade do elenco é um show à parte, onde dois veteranos centralizam a força dramática da trama: Tilda Swinton, vivendo uma cantora de rock que passa basicamente o tempo inteiro sem falar (sua personagem se recupera de uma cirurgia nas pregas vocais), e Ralph Fiennes, que é o completo oposto como o ex-namorado que ressurge depois de anos como um estonteante furacão verbal. E se Dakota Fanning misteriosamente consegue imprimir aqui a malícia e a sexualidade que inexistiam nos três capítulos da franquia Cinquenta Tons de Cinza, o belga Matthias Schoeanaerts se sai muito bem ao vencer a sua indiscutível beleza para dar vida a um homem comum que, de certa maneira, tenta ser a normalidade em meio a figuras tão pulsantes e extremas entre si. Na maratona de entrevistas concedidas para o lançamento do filme, Guadagnino revelou que esse era, até então, o melhor grupo de atores com quem  já havia trabalhado. Basta assistir ao resultado para entender por completo tal afirmativa. Ainda disputavam a categoriaComo Nossos PaisEstrelas Além do TempoO Estranho Que Nós AmamosMoonlight: Sob a Luz do Luar.

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – Animais Noturnos | 2015 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) |  2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

Melhores de 2017 – Atriz

Jennifer Lawrence se tornou a jovem atriz mais bem sucedida dos últimos anos em Hollywood por uma série de razões, entre elas as colaborações com o diretor David O. Russell, as frequentes indicações ao Oscar e o sucesso grandioso da franquia Jogos Vorazes. Ao mesmo tempo, a superexposição prejudicou imensamente a atriz: em determinado ponto, ela estava em todos os lugares, aparecia em todo tipo de entrevista, virava notícia por qualquer coisa e até interpretava papeis que claramente não se encaixam com seu perfil, mas que ainda assim lhe rendiam novas indicações ao Oscar (Joy – O Home do Sucesso é o caso mais questionável nesse sentido). Lawrence, enfim, havia se tornado uma atriz expansiva também em frente às câmeras: não havia filme em que ela passasse despercebida ou papel que não a iluminasse em cena. Até chegar Mãe!, que pode ser hiperbólico em muita coisa, menos no desempenho de sua protagonista.

Oportunidades não faltaram para que Lawrence também o fosse, já que o diretor Darren Aronofsky optou, por exemplo, por estar sempre com a câmera grudada no rosto do atriz, fazendo com que não exista qualquer cena do filme sem a sua presença. E Lawrence, apesar da imensa tentação, não cai na vaidade: ao abandonar propositalmente a sua tão marcante persona, ela está contida e neutra como poucas vezes na carreira, o que reflete uma maturidade muito marcante da intérprete, aqui totalmente alinhada com essa personagem sem voz, reprimida, apática e intimidada pela principal figura masculina de sua vida. A neutralidade da atriz é consciente e certeira, trazendo o equilíbrio perfeito para um filme deliciosamente estonteante, mas que Lawrence, mesmo em baixa fervura e na contracorrente de todo o tom da obra, jamais deixa engoli-la. Ainda disputavam a categoria: Emma Stone (A Guerra dos Sexos), Jessica Chastain (Armas na Mesa), Kate Winslet (Roda Gigante) e Kristen Stewart (Personal Shopper).

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – Isabelle Huppert (Elle) | 2015 – Camila Márdila e Regina Casé (Que Horas Ela Volta?) | 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar| 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin| 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia| 2010 – Carey Mulligan (Educação| 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho| 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!| 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

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