Cinema e Argumento

Os Indicados ao Oscar 2008

O post pode parece atrasado, mas foi proposital. Deixei passar um pouco essa “onda” de comentar os indicados ao prêmio da Academia pra poder produzir alguns comentários meus. Ao estilo do post sobre os indicados ao BAFTA, aí vai:

  1. Sério que teve gente que se surpreendeu com a inclusão de O Leitor em melhor filme? Não é nem pelo filme de Stephen Daldry ser sobre o Holocausto, mas só pelo fato de que o longa já tinha aparecido em duas importantes premiações (BAFTA e Globo de Ouro) nas categorias de filme e diretor já dava pra considerá-lo um candidato em potencial para uma vaga entre os cinco filmes da Academia.
  2. Mesmo precisando de audiência – afinal, a do ano passado foi vergonhosa – o prêmio não se rendeu aos blockbusters para conseguir maior público e deixou Batman – O Cavaleiro das Trevas de fora das categorias principais. Assino embaixo da exclusão, já que eu não acho que o filme seja tão merecedor para aparecer entre os cinco de melhor filme.
  3. Não esperava tanto Benjamin Button na lista. Acho que tem potencial para vencer quase todas as categorias técnicas em que aparece.
  4. Aconteceu exatamente o que eu queria: Kate Winslet foi indicada em uma categoria só. Por mais que isso tire um dos maiores suspenses da festa – já que é imensamente provável que ela vença dessa vez – parece que a classificação de Winslet foi perfeita.
  5. Simpesmente odeio as seleções com apenas três indicados na categoria de melhor canção. A categoria normalmente já é ruim na seleção com cinco nomeados e esse ano inventaram de indicar duas de Quem Quer Ser Um Milionário? (só Jai Ho bastava) e deixaram The Wrestler de fora.
  6. Michael Shannon para ator coadjuvante? Tá, ele tem boa presença no longa, mas aparece tão pouco em um longa tão sem graça que nem merecia ser lembrado. Nem os protagonistas foram…
  7. Melissa Leo e seu Rio Congelado. E o cinema independente, mais uma vez, conquista um merecido espaço na premiação.
  8. WALL-E superou Ratatouille no número de indicações e, ao que tudo indica, a Pixar deve sair da festa com mais de um simples Oscar de animação. Muito mais, arrisco a dizer.
  9. Clint Eastwood não foi indicado a nada! Eu nunca pensei que eu ia dizer isso, mas bem feito! Não merecia mesmo.
  10. Penélope Cruz foi a única menção para Vicky Cristina Barcelona. Será mesmo que o prêmio dela é uma barbada tão grande assim?
  11. A categoria de trilha sonora é uma das mais disputadas. A.R. Rahman é o único dos selecionados que é novato na lista. Todos os outros já foram indicados e mereciam ter o prêmio. Será a vez do Thomas Newman? Do James Newton Howard? Do Danny Elfman? Ou do Desplat? Todos estupendos compositores. Difícil escolher.

Desafio + SAG

postpic

O blogueiro Rafael do Tablito e o friendo Wally do Cine Vita me indicaram esse desafio. Acho que todo mundo já sabe mais ou menos como funciona, mas aqui vai a explicação de novo: a) Ir até a quarta pasta do meu computador, onde minhas imagens estão arquivadas. b) Pegar a quarta foto dessa quarta pasta. c) Explicar a foto. d) Escolher quatro pessoas para fazer o mesmo.

Bom, felizmente dei sorte de pegar uma foto bem simples, onde não tem nada para ser explicado (leia-se “constrangedor a ser explicado, haha). É o seguinte: aí na foto está presente eu, Matheus, o dono desse blog. Junto comigo, está a Bruna, outra cinéfila de carteirinha que sempre comenta os filmes comigo e que, desde o ano passado, assiste o Oscar junto comigo. A foto foi tirada no verão de 2008 na praia de Torres, num show do Pato Fu. Aliás, chovia muito! Mas valeu a pena por causa da companhia =) Então, quem deve fazer esse desafio também. Pedro (Tudo é Crítica), Robson (Portal Cine), Vinicius (Sob a Minha Lente), Gustavo (Fina Ironia). E perdão se eu escolhi quem já foi indicado ou quem já postou esse desafio. Eu tenho memória fraca.

Aproveitando esse post, vou publicar rapidamente minhas apostas para o SAG, que acontece nessa noite de domingo às 23h.

Melhor Elenco: Dúvida

Melhor Ator: Sean Penn, por Milk – A Voz da Igualdade

Melhor Ator Coadjuvante: Heath Ledger, por Batman – O Cavaleiro das Trevas

Melhor Atriz: Meryl Streep, por Dúvida

Melhor Atriz Coadjuvante: Kate Winslet, por O Leitor

Ainda estou devendo meus comentários sobre os indicados ao Oscar. Eles serão assunto do próximo post. Ah, e não esqueçam de prestigiar os vencedores do Blog de Ouro hoje à noite também!

Gran Torino

Direção: Clint Eastwood

Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Brian Haley, Geraldine Hughes, William Hill, John Caroll Lynch, Dreama Walker

EUA, 2009, Drama, 117 minutos, 14 anos.

Sinopse: O funcionário aposentado da indústria automotiva Walt Kowalski (Clint Eastwood) é um veterano da Guerra da Coréia. Ele preenche seus dias fazendo consertos em casa, tomando cerveja e com visitas mensais ao barbeiro. Inflexível e com determinação inabalável, vive num mundo em transformação e se vê forçado pelos vizinhos imigrantes – que acabam de se mudar, vindos do Laos – a confrontar seus próprios preconceitos quando um deles tenta roubar seu Gran Torino mas logo em seguida pede o seu perdão e vira seu amigo.

grantorino

Clint Eastwood não precisa provar mais nada pra ninguém. Tem uma coleção de prêmios em casa, apresenta grande vitalidade para sua idade e constantemente realiza obras de ótima qualidade. O problema é quando ele resolve inventar. Por alguma razão resolveu fazer esse Gran Torino, dirigido, produzido, estrelado e cantado (!!!) por ele mesmo. É de se estranhar que ele lance um filme justamente nessa época de premiações onde ele também vem com o drama A Troca, protagonizado por Angelina Jolie. O que me vem a mente é que ele queria concorrer ao Oscar de melhor ator. O que não aconteceu, como podemos ver na lista oficial da Academia divulgada poucos dias atrás.

Temos um fiapo de história que origina um longa de quase duas horas de duração. Na realidade, Gran Torino é uma reciclagem de vários temas que Clint já trabalhou em filmes anteriores. Temos a violência urbana de Sobre Meninos e Lobos, a relação mestre-aluno de Menina de Ouro e também a religiosidade. Só que dessa vez todas essas abordagens estão em um filme de estrutura muito mais simples, de pouca inspiração. Ainda que funcione e em nenhum momento desaponte em sua qualidade, fica a sensação de que algo faltou em Gran Torino. E eu aposto que a carência do filme reside na falta de originalidade.

Outro problema no longa é a figura criada pelo protagonista. Um tremendo chato e mal humorado, que tem como princípio de que homem só é homem se falar palavrões, dirigir um grande carro, sair com várias mulheres e ter várias armas em casa. É o tipo esterótipo que já vimos no rosto de Clint em outras produções – o velho rabugento, com problemas familiares mas que aos poucos vai mudando sua personalidade por causa de um relacionamento novo. O que vemos é um bom desempenho, mas longe de ser algo novo ou sequer interessante.

Gran Torino, então, decepciona por ser um filme bem abaixo da média. Especialmente agora que Clint vinha mostrando enorme vitalidade. Contudo, o longa não chega a ser tão ruim. É apenas irregular para o grande nome do diretor, que consegue sim criar uma boa atmosfera e um clima interessante, mas fica preso demais na simplicidade. Dessa vez o egocentrismo lhe impediu de realizar um longa de qualidade.

FILME: 6.0

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Melhores de 2008 – Ator Coadjuvante

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Se o Oscar de 2008 não foi aprovado pela maioria dos cinéfilos no quesito entretenimento, ninguém pode reclamar da distribuição de estatuetas no setor das interpretações. Um exemplo é Javier Bardem, que levou o prêmio da Academia de ator coadjuvante por sua arrebatadora interpretação em Onde Os Fracos Não Têm Vez. Ele é, provavelmente, a grande força do filme; sustenta o interesse do espectador na história, criando uma figura muito intrigante. Ele é o mal em pessoa, um dos melhores vilões do cinema contemporâneo. Bardem impressiona com seu cabelo estranho, compondo uma representação excepcional sobre a falta de sentimento, noção e piedade do ser humano. Entretanto, o trabalho é muito mais do que apenas um personagem incrível. É a soberba técnica de um ator mais do que competente. Vencedor do ano passado: Casey Affleck por O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford.

Heath Ledger como Coringa em Batman – O Cavaleiro das Trevas

melhledO público já cantava o sucesso de Heath Ledger antes mesmo de o filme ir para os cinemas. E com toda razão. Ledger não apenas tem em Batman – O Cavaleiro das Trevas o melhor papel de sua vida (já acabada), tem uma personificação memorável. Fica evidente, durante o filme inteiro, que todos os méritos do Coringa são dele. Ledger conduz com maestria os momentos que lhe são proporcionados e seus trejeitos são impecáveis. Mas tudo sem nunca cair no exagero. Sem falar, é claro, que ele é ajudado por um grande filme que tem vários aspectos positivos para favorecer sua trajetória bem-sucedida. Seu personagem pode até não ter um desfecho satisfatório (só eu reclamo disso?), mas isso é  mero detalhe perto da atuação do ótimo Ledger.

Paul Dano como Eli Sunday em Sangue Negro

melhdanEsse é um jovem talento que ainda é meio subestimado por parte da crítica especialiazada. Já realizou filmes bem sucedidos como Pequena Miss Sunshine (e já merecia uma indicação ao Oscar, mais que seu companheiro Alan Arkin) e agora volta a acertar com Sangue Negro. Muitos julgam o seu papel no filme de Paul Thomas Anderson como exagerado (até porque o fanatismo religioso do personagem tem bastante disso), mas a verdade é que Dano captou muito bem a essência da figura que interpreta. Mesmo competindo em cena com um perfeito Daniel Day-Lewis, ele consegue seu espaço em cena. Isso já acaba sendo uma prova do quão competente é a atuação de Dano. Merecia mais respeito por seu momento em Sangue Negro. INDICAÇÃO ANTERIOR: Melhor Ator Coadjuvante em 2006 por Pequena Miss Sunshine

Mark Ruffalo como Dwight Arno em Traídos Pelo Destino

melhmarkMark Ruffalo faz parte de um dos grandes filmes de 2008: Ensaio Sobre a Cegueira. Mas não é no projeto de Fernando Meirelles que ele tem um destaque significativo. Em um ano muito fraco entre os atores coadjuvantes, Ruffalo conseguiu se sobressair com sua interpretação no pouco visto (e subestimado) Traídos Pelo Destino. Ele tem o papel mais interessante no filme de Terry George – um homem cheio de culpa por ter causado um acidente e matado um garoto. Além de ser a figura mais trabalhada da história, o personagem dá a chance de Ruffalo mostrar mais uma vez que é um excelente ator. Se o filme tivesse feito mais sucesso ou se até mesmo não fosse tão comum, o ator certamente teria mais reconhecimento (que já merece faz um bom tempo).

David Strathairn como Arnie Copeland em Um Beijo Roubado

melhstratDavid Strathairn já conquistou meu respeito faz um bom tempo. Desde sua marcante interpretação em Boa Noite e Boa Sorte, o ator nunca caiu na qualidade. Sua participação em Um Beijo Roubado é bem restrita (e o filme não chega a ser mais significativo), mas temos aqui mais uma prova de sua enorme competência. Seu papel é basicamente clichê – um homem com problemas de bebida que não consegue esquecer um amor do passado – mas Strathairn humaniza a figura de tal maneira que o resultado acaba sendo hipnotizante a todo momento que ele aparece em cena. A química com sua companheira de tela, Rachel Weisz (igualmente excelente, e até melhor), só ajuda na qualidade. INDICAÇÃO ANTERIOR: Melhor Ator Coadjuvante por O Ultimato Bourne em 2007.

Os visitantes discordaram da opinião do Cinema e Argumento e elegeram Batman – O Cavaleiro das Trevas como o melhor na categoria. Abaixo, a opinião dos visitantes, na pesquisa realizada:

  1. Heath Ledger – Batman: O Cavaleiro das Trevas (53%, 19 votos)
  2. Javier Bardem – Onde Os Fracos Não Têm Vez (39%, 14 votos)
  3. Paul Dano – Sangue Negro (8%, 3 votos)
  4. David Strathairn – Um Beijo Roubado (0%, 0 votos)
  5. Mark Ruffalo – Traídos Pelo Destino (0%, 0 votos)

Foi Apenas Um Sonho

Direção: Sam Mendes

Elenco: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Kathy Bates, Michael Shannon, Zoe Kazan, David Harbour.

Revolutionary Road, EUA, 2008, Drama, 118 minutos, 12 anos.

Sinopse: Durante os anos 50, April (Kate Winslet) e Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) formam um casal aparentemente feliz, que vive com os dois filhos em um subúrbio de Connecticut. April é uma dona de casa que abandonou o sonho de ser atriz, enquanto Frank tem um emprego bem remunerado, mas chato. Assim, o casal não sabe se vai atrás de seus verdadeiros desejos ou enfrenta o peso do conformismo.

O tema banal tratado de forma previsível não ajuda Foi Apenas Um Sonho, que é apenas uma simples releitura sobre os dramas que afetam pessoas casadas e infelizes. Cabe, então, aos seus protagonistas dar algum tipo de impulso ao filme, em especial Kate Winslet.”

Sempre tento não criar expectativas demais em cima de um filme. Mas como não aguardar ansiosamente um projeto que reúne o diretor de maravilhas como Beleza Americana e Estrada Para Perdição? Sem falar da presença Kate Winslet, uma das melhores atrizes (se não a melhor) de sua geração. Com ou sem expectativas, o espectador vai ver que Foi Apenas Um Sonho é um filme muito simples, que pode ser até uma repetição sem diferencial desse tema que é tratado com maestria pelo diretor Todd Field (Entre Quatro Paredes e Pecados Íntimos) – os dramas do cotidiano que habitam as casas das cidades.

Não há muito o que se falar desse novo filme de Mendes, que tem uma produção bem cuidada e é conduzido com segurança, sem erros. Pode, então, ficar a pergunta: por que o filme não satisfaz? Isso se deve ao simples fato de que Foi Apenas Um Sonho faz pouquíssimo com a equipe que reuniu. Era de se esperar que, com um diretor ótimo e um excelente elenco, o filme realizasse dramas mais interessantes. Os problemas do casal protagonista, April (Kate Winslet) e Frank (Leonardo DiCaprio), nunca chegam a empolgar. Os típicos questionamentos sentimantais de “aparentamos felizes mas não somos”, “você mudou desde que nos conhecemos” e “vamos recomeçar em outro lugar” já foram explorados de maneiras mais instigantes em outras produções. Aqui enxergamos um tratamento linear, com uma visão rasa. Nem mesmo nas discussões entre os personagens o texto fica diferente.

A sorte é que temos uma preciosidade como Kate Winslet para salvar o dia. Ela nunca esteve tão à vontade (talvez por estar trabalhando com o seu marido na direção?) e a sua naturalidade em atuar é absurdamente visível. Está longe de ser o seu melhor trabalho, mas ela consegue mais uma vez se sobressair. Já o seu companheiro, Leonardo Di Caprio, melhorou bastante com o tempo, mas está claro que ele é inferior quando comparado com sua colega de trabalho. Algumas vezes exagera um pouco – já que são muitos os momentos em que ele levanta o tom da voz e grita – mas DiCaprio prova que vem adquirindo maturidade e pode muito bem estar em um filme de calibre como esse. Outros aspectos relevantes são a direção de arte, os figurinos e a fotografia. Todos satisfatórios para um filme como esse.

A previsível trilha sonora de Thomas Newman aplica – sem muito sucesso – um clima de melancolia que não existe em Foi Apenas Um Sonho. O roteiro não faz com que torçamos pelo casal infeliz e a direção não ousa. E, estranhamente, o filme até que funciona, mas de maneira um pouco desanimadora. Querendo ou não, você terá expectativas com Foi Apenas Um Sonho. Mesmo que os críticos falem mal dele ou que fracasse nas premiações. Ou ao menos você terá o seu senso crítico mais elevado. Não consegui me despir de expectativas e por isso achei esse longa um tanto decepcionante. E só teve esse efeito em mim por causa da extrema banalidade do tratamento dramático da película em questão.

FILME: 6.5

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