Cinema e Argumento

Melhores de 2008 – Montagem

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A montagem de Onde Os Fracos Não Têm Vez confere muita agilidade para o conflito entre Llewelyn Moss (Josh Brolin) e Anton Chigurh (Javier Bardem). O mais interessante, porém, é que o trabalho dos irmãos Coen na edição não fica com qualidade apenas no setor de ação. Cada cena foi montada de forma espetacular, especialmente aquelas que envolvem os tensos diálogos que o personagem de Javier Bardem trava com as suas vítimas. Provavelmente esse é o melhor aspecto técnico desse filme vencedor de quatro Oscar. Vencedor do ano passado: Babel.

edibutO Escafandro e a Borboleta / Só pelo artifício ousado de narrar boa parte de sua história através da visão do protagonista (literalmente), a edição de O Escafandro e a Borboleta já merecia ser mencionado. Realmente é um trabalho muito bonito e digno que, junto com a linda fotografa (que já apareceu aqui na lista de melhores do ano na sua categoria), consegue ser o maior atrativo do longa-metragem.

ediwalleWALL-E / Outro setor técnico da Pixar que se aprimora cada vez mais quando um novo trabalho é apresentado. A montagem de WALL-E impressiona de tão madura, com seqüências que deixam muita gente por aí com inveja. Se Ratatouille ano passado já dava sinais de brilhantismo nessa categoria, WALL-E comprova que já chegou a hora de as animações serem reconhecidas da maneira que merecem.

edibatBatman – O Cavaleiro das Trevas / Mais um aspecto fundamental para a grande repercussão de O Cavaleiro das Trevas. Não importa se são as grandiosas cenas de ação ou os tensos diálogos travados pelo vilão Coringa; o filme de Christopher Nolan é ótimo em sua montagem e é possivelmente a melhor já apresentada em uma adaptação de história de quadrinhos. Mais uma parte de um filme excelente.

edibloodSangue Negro / Com certeza não é o setor mais brilhante de Sangue Negro, mas a montagem é fundamental para a narrativa da saga de ambição de Daniel Plainview. Tal grandiosidade exposta pelo filme de Anderson é mérito da boa edição realizada no filme, que imprime ao longa a alma de uma produção que já pode ser considerada cult. Sem falar que é a produção mais madura do diretor.

Os visitantes não conseguiram se decidir e elegeram Batman – O Cavaleiro das Trevas e Onde Os Fracos Não Têm Vez como os melhores da categoria em iguais proporções. Abaixo, o resultado da pesquisa realizada:

1. Onde Os Fracos Não Têm Vez e Batman – O Cavaleiro das Trevas (29%, 5 votos)

2. O Escafandro e a Borboleta (24%, 4 votos)

3. WALL-E (12%, 2 votos)

4. Sangue Negro (6%, 1 voto)

Road To The Oscars – Danny Elfman

Danny Elfman, por Milk – A Voz da Igualdade

Nunca fui grande fã dos trabalhos de Danny Elfman. Essa trilha de Milk – A Voz da Igualdade é bem passageira, acabando num piscar de olhos. Isso acontece por ela ter uma grande qualidade. Não me lembro da última vez o compositor me agradou tanto – talvez com suas composições para o seriado Desperate Housewives. O trabalho de Elfman é relativamente curto em nessa trilha de Milk, com algumas faixas bem curtas (como The Kiss ou Weepy Donuts). Estranhamente algumas delas conquistam mais que as faixais mais compridas (Gay Rights Now! ou Politics Is Theater). Contudo, o balanceamento de qualidade é visível. Na corrida pela estatueta dourada, torço para uma indicação para o Danny Elfman. Não é a melhor trilha da temporada (O Curioso Caso de Benjamin Button, de Alexandre Desplat é), mas com certeza merece ser conhecida.

Potencial para indicação ao Oscar:


O Curioso Caso de Benjamin Button

Direção: David Fincher

Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Tilda Swinton, Elle Fanning, Julia Ormond, Faune A. Chambers, Elias Koteas, David Ross, Patterson

The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008, Drama, 170 minutos, 14 anos.

Sinopse: Nova Orleans, 1918. Benjamin Button (Brad Pitt) nasceu de forma incomum, com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos mesmo sendo um bebê. Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Quando ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver.


O Curioso Caso de Benjamin Button pode ser comparado com Forrest Gump – O Contador de Histórias. Ambos os filmes relatam a trajetória de um homem diferente, que conhecem vários lugares e convivem com diversas pessoas pelo mundo. O mais novo filme de David Fincher é exatamente isso, um relato detalhado da vida de um homem que, desde o momento que nasceu, foi condenado a ter uma vida diferente. Muita expectativa foi crescendo em torno da excentricidade do filme, mas o que deve se ter em mente ao ir assisitir O Curioso Caso de Benjamin Button é que o filme não se importa muito em explorar os efeitos da “vida inversa” do protagonista, ele quer mostrar que, independente de nossas idades, todos nós somos seres humanos dotados de sentimentos. A idade não é necessariamente um problema, nós que fazemos com que ela seja assim.

O roteiro de O Curioso Caso de Benjamin Button podia ser um completo problema para o longa, já que é um trabalho que se utiliza de quase três horas para compôr a história do protagonista. Não é o caso aqui; é claro que fica uma pequena sensação de desconforto, afinal é complicado permanecer tanto tempo assistindo uma história que não tem muitas variações, mas a sensação que fica é de uma história bem contada. Pouca coisa fica parecendo desnecessária e ninguém pode alegar que a história ficou mal apresentada. O roteiro de Eric Roth pode até não ser enxuto ou objetivo, mas o detalhismo ajuda para que o longa tenha um saldo positivo. Junto com o bom trabalho realizado na parte escrita, temos a excepcional maquiagem. O que vemos em cena nesse setor é óbvio, mas espetacular. E não apenas no personagem de Brad Pitt. Outro aspecto técnico interessante é a bela trilha sonora do ótimo Alexandre Desplat, presente lidamente durante todo o filme.

Considerado forte candidato a diversos Oscar, O Curioso Caso de Benjamin Button merece mênção em diversos deles. Além dos óbvios técnicos, minha maior torcida é para que o protagonista Brad Pitt consiga ser lembrado. Assim como sua esposa Angelina Jolie, ele vem se mostrando um excelente ator faz bastante tempo e tem aqui seu maior momento de destaque – sem excessos, controlado e mutio adequado para o papel. Sua companheira de tela, Cate Blanchett, só vai aparecer depois da metade, mas realiza trabalho satisfatório. Ainda no elenco as boas Taraji P. Henson e Tilda Swinton.

Não há dúvidas de que esse filme de David Fincher é bem produzido e com aspectos muito interessantes. Agora, considerá-lo uma obra-prima ou sequer espetacular é uma heresia, uma vez que o diretor Fincher já mostrou maior genialidade em outros trabalhos. O Curioso Caso de Benjamin Button sofistica excepcionalmente uma história simples – que só é diferente em sua proposta – e que não vai nem deixar grandes lembranças. É bonito e competente, mas longe de ser alguma preciosidade.

FILME: 8.0

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NA PREMIAÇÃO DO CINEMA E ARGUMENTO:



Os indicados ao BAFTA

Finalmente foram divulgados os indicados ao BAFTA, um dos meus prêmios favoritos. A lista não tem maiores surpresas, a não ser o esquecimento de Batman – O Cavaleiro das Trevas (de novo?!) e o excesso de indicações para A Troca, que foi lembrado até na categoria de direção. Abaixo, breves comentários sobre a lista. Os vencedores serão divulgados dia oito de fevreriro. Para conferir os indicados, na lista completa do prêmio, clique aqui.

  1. E novamente Batman – O Cavaleiro das Trevas foi esquecido. Depois de ter sido esnobado no Globo de Ouro, o filme de Christopher Nolan só conseguiu indicações técnicas no BAFTA. Será mesmo que consegue chegar aos finalistas do Oscar?
  2. Também repetindo o efeito da sua dupla vitória no Globo de Ouro, Kate Winslet recebe dupla-indicação… Na mesma categoria! Tenho até medo do que o Oscar está reservando pra ela. Ainda fico com a opinião de que ela tem que ter apenas uma indicação, porque assim ganha o prêmio da Academia de uma vez! Com isso, abre espaço para a vitória de Meryl Streep no prêmio inglês. Ou até mesmo da Kristin Scott Thomas.
  3. Milk – A Voz da Igualdade ganha mais forças com sua indicação na categoria principal, mas Gus Van Sant não foi lembrado.
  4. Todo mundo sabe que o Dev Patel (Slumdog Millionaire) não vai ser lembrado como ator principal no Oscar, mas aqui a sua classificação na categoria foi perfeita. Afinal, ele é o protagonista.
  5. Quem também recebe indicação dupla é… Brad Pitt! Além de ser lembrado por O Curioso Caso de Benjamin Button, foi lembrado por Queime Depois de Ler.
  6. Tilda Swinton como melhor atriz coadjuvante por Queime Depois de Ler? Exagero, hein.
  7. Amy Adams se fortalece na categoria de atriz coadjuvante enquanto sua companheira Viola Davis foi esquecida. Adams está cada vez mais perto de uma indicação ao Oscar.
  8. Muita gente pode achar a indicação de Mamma Mia! para melhor filme britânico um exagero. O filme pode até não merecer, mas diante do estrondoso sucesso do filme na Inglaterra, era de se esperar essa indicação. Sem contar que o longa de Phyllida Lloyd foi indicado para trilha sonora também. Que coisa engraçada!
  9. Sério, pra quê tantas indicações para A Troca??? Direção? Montagem? Roteiro Original? Som? Era só o que me faltava ver o Clint Eastwood ser indicado ao Oscar de diretor por um trabalho tão sem personalidade dele como esse. Falando em Clint, foi esquecido – de novo – por Gran Torino
  10. Uma surpresa por der O Leitor, que conseguiu indicações para filme, atriz, roteiro adaptado, fotografia e direção.
  11. Se Batman – O Cavaleiro das Trevas foi esquecido, WALL-E também foi. Conseguiu apenas três indicações. Mas ainda acredito no filme.
  12. E provavelmente a Penélope Cruz vence dessa vez, né?
  13. Não tem jeito, Slumdog Millionaire é o favorito absoluto, enquanto O Curioso Caso de Benjamin Button deve fazer apenas nome nas festas.

Fatal

Direção: Isabel Coixet

Elenco: Ben Kingsley, Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Peter Sarsgaard, Dennis Hopper, Sonja Benett, Deborah Harry

Elegy, EUA, 2007, Dram, 107 minutos, 16 anos.

Sinopse: David Kepesh (Ben Kingsley) é um renomado professor de faculdade que se encanta por Consuela Castillo (Penélope Cruz), uma de suas alunas. Logo eles começam a namorar, apesar de David manter um relacionamento puramente sexual há mais de 20 anos com Carolyn (Patricia Clarkson). David aos poucos se apaixona por Consuela, mas sempre teme que a diferença de idade entre eles seja um empecilho.

Isabel Coixet mais uma vez acerta na melancolia da vida para compôr uma história adulta e madura.

Isabel Coixet é uma diretora de emoções, não de grandes filmes. Todas as histórias que ela conta são envolvidas por uma interessante melancolia e uma efetiva dramaticidade. Entretanto, seus filmes nunca passam de satisfatórios; não chegam a ser empolgantes ou de maior magnitude. É o caso, também, desse Fatal, longa mais maduro da diretora, que discursa sobre como o amor afeta as pessoas mais velhas e solitárias.

Na realidade, a diferença de idades entre o professor David (Ben Kigsley, ótimo) e sua aluna Consuela (Penélope Cruz, boa, mas sem inspiração) é mero pretexto para uma história de isolamento de pessoas. David é um homem que, apesar de possuir uma relação de 20 anos sem compromisso com Carolyn (Patricia Clarkson), encontra-se sempre sozinho. Consuela é linda, mas não sabe o que fazer com sua beleza, e passa o tempo inteiro indo e vindo, com uma inquietude interior muito presente. O encontro entre os dois muda bastante coisa, mas a percepção que ambos têm um do outro difere. Ela gosta dele, mas não consegue aplicar os seus sentimentos para algo mais sólido. Ele é completamente cheio de afeto por ela, mas não demonstra isso. E, em diversas vezes, acaba por perdê-la por não demonstrar o que sente.

Fatal é um longa muito adulto, cheio de análises – e restrito por conta disso. É um pouco complicado entrar no mundo do longa, que possivelmente vai funcionar mais para paladares mais sensíveis e subjetivos. Assim como toda a filmografia da diretora Coixet. A diferença é que aqui ela não se utiliza de uma tragédia para criar o fio condutor de sua história, ao contrário de seus outros filmes. Em Minha Vida Sem Mim, tinhamos a mãe que sofre de uma doença e que em breve vai morrer. Em A Vida Secreta das Palavras, um homem sofre queimaduras e forma um laço sentimental com sua enfermeira. A tragédia aparece sim em Fatal, mas só no final. E isso é um erro, já que fica um pouco fora de contexto e não emociona da maneira como deveria. O filme acaba meio que repentinamene e sem grandes emoções – diria até que em um ponto baixo da projeção.

Tudo é muito tímido, carente de originalidade ou ousadias. Contudo, a diretora nunca deixa a qualidade cair. Sempre, durante toda a história, vemos uma história muito bem narrada em Fatal. O longa certamente possui defeitos, mas a habilidade da diretora em falar sobre sentimentos mascara fatos mais incomodativos que possam chamar a atenção do espectador. Os méritos do lado positivo do filme não se devem somente a ela. Ben Kinglsey realiza um excelente trabalho. Ele, que é um ótimo ator, encontra o tom certo para seu personagem e, num balanço geral, é o ponto alto. Sua companheira Penélope Cruz já teve momentos melhores e expõe sua personagem de forma simpática – mas com aquele seu terrível sotaque que parece fazer com que ela não seja uma boa atriz. O que não é verdade. Fatal, então, é simples. Não é o melhor filme da diretora e muito menos um marco na vida de qualquer um dos envoldidos. Mas só por sua maturidade já vale a pena ser assistido.

FILME: 7.0

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