Cinema e Argumento

Guerra ao Terror

Direção: Kathryn Bigelow

Elenco: Guy Pearce, David Morse, Jeremy Renner, Brian Geraghty, Evangeline Lilly, Anthony Mackie, Ralph Fiennes

The Hurt Locker, EUA, 2008, Guerra/Drama, 130 minutos, 14 anos

Sinopse: Para um grupo de soldados americanos, alguns dias os separam do retorno para casa. Um período relativamente curto, se não fosse por tantas ocorrências que transformassem esse fim de jornada em um verdadeiro inferno. As forças armadas precisam de especialistas não só nos campos de combate mas também no dia a dia, na proteção do grupo contra insurgentes que promovem atentados, matando milhares de cidadãos.

Guerra ao Terror descobriu uma fórmula e se agarrou nela até o último minuto para obter sucesso. É mais ou menos assim: 1) Os personagens recebem uma missão, 2) Muita tensão na hora de desarmar uma bomba ou de atacar um inimigo, 3) Alguma coisa dá errado ou alguém não segue o plano, 4) Eles conseguem dar um jeito e 5) Acompanhamos os efeitos que esses acontecimentos causaram nos envolvidos. Até aí tudo bem, mas Guerra ao Terror se utiliza dessa estrutura o tempo inteiro – o que tira o ritmo do filme.

A diretora Kathryn Bigelow, por um outro lado, aparece muito segura atrás das câmeras. Tudo bem que é meio óbvio que filmes de guerra, em sua maioria, destacam-se na direção – mas Bigelow vai além: ela não cai nas típicas armadilhas de filmes sobre guerra e realiza um longa que nunca se torna maçante ou sequer difícil de acompanhar. Pena que o roteiro se repita o tempo inteiro e não dê maior espaço para outras abordagens.

No entanto, vale constatar que as etapas da história citadas acima funcionam em sua totalidade. É fácil ficar tenso com Guerra ao Terror e até mesmo envolvido por alguns acontecimentos. Mas um outro problema que afeta o conjunto geral é a forma mecânica como tudo se desenvolve. Pouca emoção é vista e não dá pra torcer pelos personagens. Isso se deve ao fato de que o retrato que a produção quer mostrar é mais o da guerra em si (todos os procedimentos, entre alguns exemplos) do que a trajetória pessoal de cada um deles.

Lançado diretamente em dvd aqui no Brasil (está disponível nas locadoras desde abril desse ano), Guerra ao Terror acumula indicações a prêmios e muito reconhecimento, tornando-se um dos fortes nomes para os prováveis indicados ao Oscar. Pra falar bem a verdade, não é um filme que justifique toda essa badalação. No entanto, não é justo deixar de valorizar o que existe de bom nele. É sim um filme que funciona, mas ele simplesmente não é uma produção de qualquer grandeza mais significativa.

FILME: 7.5

Comunicado de fim de ano

Não sei se estou certo, mas acho que devo ser um dos primeiros blogueiros a divulgar a lista de melhores do ano. Em 2009 não vai ser diferente. Através desse post venho comunicar que o blog vai diminuir a sua frequência por um tempo para que o editor que vos fala possa montar todas as categorias. Ainda existem alguns filmes a serem conferidos (que serão comentados aqui na medida do possível), mas em posts futuros a premiação do Cinema e Argumento já vai começar, contando com a participação de vocês, claro, que poderão votar nos seus favoritos. Como forma de aquecimento, relembro os vencedores do ano passado (o top 10 pode ser conferido aqui).

Livro – Conversas Com Almodóvar

Lia o tempo todo. Devia ter nove anos quando comprei meu primeiro livro. Como ninguém me disse o que devia ler, nem me recomendou o quer que fosse, fiz minhas descobertas sozinho. Não sei se eu era maduro, mas hoje percebo que as coisas que me interessam agora já me interessavam naquela época. Não precisei de educação para descobri-las; elas me foram reveladas muito cedo. Eu estava sozinho, completamente sozinho. Houve poucas trocas nas relações que tive com os meus colegas, nossos interesses não eram os mesmos. Entrei em contato com tudo que gostava na mais absoluta solidão. Mas as crianças desenvolvem uma grande força na solidão. Também podem desenvolver uma grande neurose, mas por sorte não foi o que me aconteceu, com certeza porque era também um espectador muito bom da vida dos outros. Mas, apesar de tudo, uma testemunha, nunca um participante.

– Pedro Almodóvar

Um livro que vale muito a pena.

Quem sabe você também não se identifica com alguma coisa?

As melhores composições de 2009

Esse foi um ano muito forte para as trilhas sonoras. Portanto, resolvi fazer uma lista das melhores composições do ano. Eu, que sou um apaixonado e  viciado por trilhas, fiquei encantado com cada uma das composições citadas abaixo. Esse post, também, já é uma prepapração para a lista de melhores do ano do Cinema e Argumento, que começará em breve. E lembrando que todas as composições dessa lista são puramente instrumentais.

A.R. Rahman – “Mausam & Escape”, from Slumdog Millionaire

Alberto Iglesias – “Final y a Ciegas”, from Los Abrazos Rotos

Alexandre Desplat – “Postcards”, from The Curious Case of Benjamin Button

Alexandre Desplat – “Benjamin and Daisy”, from The Curious Case of Benjamin Button

Alexandre Desplat – “Sunrise on Pontchartrain”, from The Curious Case of Benjamin Button

Alexandre Desplat – “Casino de Deauville”, from Coco Avant Chanel

Alexandre Desplat – “Julia’s Theme”, from Julie & Julia

Clint Eastwood – “Main Title”, from Changeling

Hans Zimmer – “503”, from Angels & Demons

Hans Zimmer – “Watergate”, from Frost/Nixon

Howard Shore – “Doubts”, from Doubt

James Newton Howard – “War”, from Duplicity

Michael Giacchino – “Memories Can Weigh You Down”, from Up

Michael Giacchino – “Stuff We Did”, from Up

Nico Muhly – “Go Back to Your Friends”, from The Reader

Nicholas Hooper – “Harry & Hermione”, from Harry Potter and the Half-Blood Prince

Nicholas Hooper – “Farewell, Aragog”, from Harry Potter and the Half-Blood Prince

Abraços Partidos

Direção: Pedro Almodóvar

Elenco: Lluís Homar, José Luis Gómez, Penélope Cruz, Blanca Portillo, Rubén Ochandiano, Tamar Novas, Ángela Molina

Los Abrazos Rotos, Espanha, 2009, Drama, 127 minutos, 14 anos

Sinopse: Há 14 anos, o cineasta Mateo Blanco (Lluís Homar) sofreu um trágico acidente de carro, no qual perdeu simultaneamente a visão e sua grande paixão, Lena (Penélope Cruz). Sofrendo aparentemente de perda de memória, abandonou sua posição de cineasta e preservou apenas seu lado de escritor, cujo pseudônimo é Harry Caine. Um dia, Diego (Tamar Novas), filho de sua antiga e fiel diretora de produção, passa mal e Harry vai em seu socorro. Quando o jovem indaga Harry sobre seus dias de cineasta, o amargurado homem revela se lembrar de detalhes marcantes de sua vida e do acidente.

É sempre gratificante assistir a qualquer filme de Pedro Almodóvar. O espanhol é um profissional que tem grandes características cinematográficas e seus filmes sempre possuem um estilo muito autoral e que se diferencia dos demais diretores de seu país. Mesmo quando o resultado é meio insuficiente, vale a pena dar uma conferida. É o caso de Abraços Partidos, que se encaixa como uma certa decepção na carreira de Almodóvar.

Penélope Cruz, novamente, é a musa da história. Mas, quem estiver esperando uma atuação surpreendente como a de Volver ou empolgante como a de Vicky Cristina Barcelona vai se decepcionar. Cruz não tem tanto destaque em cena e, infelizmente, não chega a ter o destaque que merecia e que poderia ter tido. Ora, ela cumpre a sua missão de apresentar uma boa atuação, mas o problema de Abraços Partidos é o roteiro, que tira um pouco do brilho da atriz.

Não sei se o problema é a história neutra, mas o resultado não empolga em momento algum. A película tem o sério problema de não envolver o espectador – e isso se deve ao tratamento frio e distante que permeia o filme durante todo o tempo. Não conseguimos sentir a paixão que supostamente os personagens têm por Lena (Penélope Cruz) ou muito menos que tipos de sentimentos algumas lembranças trazem para Mateo/Harry (Lluís Homar). Fica tudo muito vago e sem vida.

Falta paixão narrativa em Abraços Partidos. O que é estranho, já que Almodóvar sempre tem o costume de deixar bem evidente toda a sua veia sentimental em suas histórias. Não é o que acontece aqui. Sempre fica aquela incômoda sensação de que algo está faltando. Algo que vai fazer a produção alçar voo. É um descompasso que incomoda. Enquanto os atores estão bem em cena, o roteiro fica sem se destacar.

Por um outro lado, não dá pra ficar indiferente com Abraços Partidos. É um longa-metragem que todo mundo vai ver, independente de opiniões negativas. Críticas não desmotivam os fãs do diretor – que podem até encontrar coisas boas na história. E elas existem sim, já que o filme funciona sem maiores problemas e consegue, com muita facilidade, ser um bom drama. Só que é pouco vindo de um diretor que sempre encantou com sua paixão pelo cinema em obras visivelmente cheias de sentimentalismo como  em Fale Com Ela e como no mais recente Volver.

FILME: 6.5