Cinema e Argumento

“Fim”, a revelação literária de Fernanda Torres

fimtorres

Fernanda Torres em seu mais novo papel: o impresso. Já não bastasse sua belíssima carreira no cinema e no teatro, a atriz recentemente se lançou em uma nova aventura: a literária. Mas antes de falar sobre Fim em si, nada mais justo do que rememorar a carreira de Fernanda que certamente está refletida em toda a genialidade que vemos em sua primeira investida na escrita de romances. Fora o óbvio fato de ter o cinema em seu âmbito familiar (é filha da grande Fernanda Montenegro, esposa do diretor Andrucha Waddington e irmã do diretor Cláudio Torres), tem uma série de conquistas e experiências que a carimbam como uma de nossas melhores atrizes.

Ora, Fernanda Torres foi a primeira intérprete de nosso país a ganhar o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes em 1986 por Eu Sei Que Vou Te Amar. Ao longo dos anos, foi protagonista do filme que mais venceu prêmios no Festival de Cinema de Gramado (A Marvada Carne), teve filme indicado ao Oscar (O Que é Isso Companheiro?) e, entre os 30 longas que participou, foi dirigida por nomes como Eduardo Coutinho e Walter Salles. Ou seja, a Vani de Os Normais pode até ter lhe dado o maior reconhecimento de público de sua carreira, mas ela é muito mais do que isso.

Toda a sensibilidade e desenvoltura que Fernanda Torres adquiriu em suas experiências como intérprete está perfeitamente registrada agora em Fim. Durante pouco mais de 200 páginas, somos brindados com a revelação de mais um talento da atriz, que curiosamente acerta ao falar sobre um universo em que, talvez, não tivesse muita autoridade: a amizade masculina. No caso, as melhores e piores lembranças de Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro durante o calor escaldante, os carnavais e a vida particular do Rio de Janeiro dos anos 1960.

Só que para falar sobre a vida deles, a obra utiliza, curiosamente, a morte como ponto de partida. Em cada capítulo, Fernanda começa com os próprios personagens narrando suas percepções da vida para, em determinado ponto, matá-los e fazer com que outros familiares e amigos revelem, a partir de seus pontos de vista, mais sobre os falecidos. Com a morte de Álvaro, por exemplo, a esposa Irene assume a voz da narrativa; na sequência, o padre Graça, que reza o velório; e por aí vai, até chegar a um novo amigo cujo capítulo seguirá a mesma estrutura.

O cineasta João Moreira Salles definiu que, apesar do título ser Fim, essa é uma obra sobre a vida – plena, forte, caliente e safada. Definição realmente apropriada para um livro que se utiliza da narração de os mais diversos momentos da vida – sejam eles grandes ou pequenos, pouco importa -, para nos despertar um grande desejo de fazer amizades, amar, beber, enlouquecer, externalizar sentimentos. Mas estão enganados os que pensam que Fernanda (vista pela maioria como uma figura exclusivamente cômica), se dedica – e acerta – apenas no humor. O que vemos em Fim é, na realidade, uma debutante na escrita de romances que se mostra absurdamente talentosa ao transitar da comédia para o drama em questão de poucas páginas.

É fácil se divertir com um irresistível personagem para, logo em seguida, refletir sobre seus erros, escolhas não feitas, arrependimentos e outras questões inerentes não só a ele ou aos homens que protagonizam aquele círculo de amizade, mas também a todo e qualquer ser humano. E esse talento não está apenas no conteúdo, mas também na forma: Fernanda Torres escolhe as frases curtas, os diálogos que fluem com rapidez e a linguagem cheia de referências mas próxima de todos nós. Popular, é possível dizer. Só que tudo sem subestimar a inteligência ou beirar o simplório, com desenvoltura, deboche, inteligência e humor característicos da atriz. Sua personalidade está ali. Para bem ou para o mal. Você decide. Para mim, uma leitura irresistível. Que venham mais obras assinadas por Fernanda Torres!

Livro – Como Ver Um Filme

No último dia 27, a crítica de cinema Ana Maria Bahiana esteve em Porto Alegre para uma sessão de autógrafos do seu mais recente livro, Como Ver Um Filme. Além disso, a autora também ministrou, na capital gaúcha, o curso Como Ver um Filme 2: Os Gêneros (a blogueira Kamila, do Cinéfila por Natureza, fez um excelente texto sobre a experiência). Tive o prazer de participar do curso e, também, da sessão de autógrafos, o que foi o suficiente para conhecer melhor Bahiana e, claro, entrar de cabeça em todas as propostas dela com o curso e o livro. O texto que segue é, assim, uma breve análise sobre a versão literária de Como Ver Um Filme (editora Nova Fronteira, 2012) e como ela pode ser considerada, sem exageros, o manual cinematográfico mais recomendável e interessante da atualidade.

Primeiro, precisamos saber quem é Ana Maria Bahiana. Jornalista e escritora, em três décadas de cobertura cultural já escreveu para publicações do calibre da Rolling Stone e do The New York Times. Também já foi roteirista do filme 1972 e, atualmente, reside em Los Angeles, onde é a correspondente brasileira da famosa Hollywood Foreign Press, do Globo de Ouro. Depois, é necessário compreender o objetivo de Como Ver Um Filme. O livro, que, segundo Bahiana, já estava pronto faz certo tempo e que só viu a luz do dia agora, é uma obra que pretende educar o olhar do espectador, mostrando a ele todo o processo de criação de um longa-metragem, desde quando a ideia é lançada para algum realizador (o famoso pitch), a escolha de elenco, a escrita do roteiro, as gravações, etc. Também é um livro que faz um estudo sobre todos os gêneros cinematográficos, apresentando a premissa de cada um deles e também referências para que o espectador posso identificá-los.

Em pouco mais de 250 páginas, Ana Maria Bahiana prima por uma linguagem simples e bem explicativa, mas sem nunca soar didática demais. Como Ver Um Filme, dessa forma, é uma obra para todo e qualquer leitor interessado em cinema. Isso por si só já é um grande mérito, uma vez que a grande maioria das obras literárias sobre cinema e até mesmo dos textos de escritores e críticos do ramo costumam apostar, digamos, em uma linguagem erudita demais, como se entender cinema fosse sinônimo de se expressar com um jeito pomposo e altamente intelectual. Bahiana, então, subverte as expectativas e apresenta um resultado extremamente agradável para qualquer público.

Outro mérito admirável de Como Ver Um Filme é considerar filmes contemporâneos. Se formos procurar obras mais segmentadas ou até mesmo universais, será difícil encontrar aquelas que exemplifiquem seus conceitos com longas mais recentes. Ora, filme bom não é só é filme antigo. E Bahiana, ao mesmo tempo em que cita obras como O IluminadoCidadão KaneE.T., também aponta longas mais atuais que possuem aspectos admiráveis, como Namorados Para SempreKill BillOnde os Fracos Não Têm Vez. E tal decisão é fundamental para aproximar o cinéfilo leigo que ainda não tem vasto conhecimento e que só teve maior vivência com filmes que conferiu nos últimos anos. Mais uma vez, a autora dialoga com todos, sem segmentar seu público-alvo.

Como Ver Um Filme é, de certa forma, uma enciclopédia cinematográfica que nunca se torna cansativa. Claro que o texto, uma vez ou outra, adota traços mais didáticos para explicar tópicos que só poderiam ser comentados dessa maneira, mas nada que altere a essência simples e altamente eficiente proposta pela autora. É um trabalho mais do que recomendado, uma experiência enriquecedora  que merece reconhecimento por nunca julgar o gosto do espectador. Na realidade, a autora quer é entregar ao leitor ferramentas para que ele próprio faça comparações e perceba detalhes que normalmente não vê para depois construir uma nova percepção sobre o cinema quando procurar uma sessão ou uma locadora. Bahiana une o clássico ao contemporâneo e fala com todos. Algo que, nos dias de hoje, está estranhamente raro… Principalmente quando o cinema se torna cada vez mais democrático.

Tempo e vento em nova forma

Foto: Jayme Monjardim

Porto Alegre, 1949. Pela primeira vez, O Continente, segmento inicial da trilogia O Tempo e o Vento, era publicado. Nas páginas do livro, a formação do Rio Grande do Sul, através das famílias Terra e Cambará. O ponto de partida está na história de Ana Terra, que, a contragosto do pai, tem um filho com o índio Pedro Missioneiro. A partir daí, seguem personagens e situações icônicas da literatura gaúcha. O cenário? Santa Fé, palco de dramas familiares, romances conturbados e conflitos históricos do Rio Grande do Sul. A obra escrita pelo gaúcho Erico Verissimo abrange a história do Estado de 1680 até 1945 (ano em que o Estado Novo chegou ao fim).

O Tempo e o Vento, estruturado em três partes (O Continente, O Retrato e O Arquipélago) é considerado, até hoje, um dos grandes marcos da literatura gaúcha. Seus sete livros são tratados por muitos como obras definitivas sobre o Estado. No entanto, foi O Continente, a parte mais rica em personagens e conflitos, que conseguiu maior reconhecimento. Em nível nacional, a primeira parte da trilogia chegou a ser adaptada para a TV: na minissérie exibida em 1985, o diretor Paulo José e os roteiristas Regina Braga e Doc Comparato condensaram o enredo em 25 capítulos, trazendo, no elenco, nomes como Glória Pires, Tarcísio Meira e Louise Cardoso.

Reprisada recentemente pelo canal Viva, O Tempo e o Vento também recebeu adaptações para o cinema que não chegaram a ser grande sucesso. Agora, a obra de Erico Verissimo volta a ter destaque. O infinito encanto da trilogia é tema do novo filme do diretor Jayme Monjardim que está sendo produzido, homônimo à obra de Erico. O próprio Monjardin, que, anteriormente, começou sua carreira no cinema com Olga, já entrou no clima gaúcho: a partir do dia 8 de março, ele se muda para o Rio Grande do Sul, de onde só sai quando as filmagens na região tiverem chegado ao fim. Apesar das cenas de estúdio serem feitas no Polo Cinematográfico de Paulínia, em São Paulo, outras tomadas serão feitas em Bagé, onde o trabalho para a escolha de figurantes já começou (mais de 600 candidatos em menos de 15 dias).

Os gaúchos, claro, não poderiam deixar de estar presentes na equipe do longa. O diretor-assistente, Federido Bonani, é de Santana de Livramento, e não esconde o contentamento com um trabalho sobre a sua terra: “Fui criado na fronteira e muito próximo dos costumes e do universo literário riograndense. Quando fui convidado pelo Jayme, há uns cinco anos, na hora pensei: ‘Não existe obra literária mais cinematográfica que O Tempo e o Vento. Depois deste filme posso pendurar as chuteiras’, pois já estaria satisfeito com as minhas participações em realizações cinematográficas”.

Bonani, que trabalha frequentemente como diretor e também como assistente, já havia participado de uma importante produção gaúcha, Netto Perde Sua Alma. Para ele, muito mudou desde esse trabalho. Além de um impulso em sua carreira, representou um voto de confiança que até hoje tem resultados: “O Tabajara Ruas e o Beto Souza confiaram em mim para a direção das cenas de batalha e, até hoje, colho os frutos daquela sequência de guerra. Há pouco tempo fui chamado para batalha do início da novela Cordel Encantado, e já dirigi cenas de guerra e cenas de ação em A Casa das Sete Mulheres, Olga, Um Só Coração, América, Eterna Magia, Sítio do Pica-pau Amarelo, entre outras”.

Mais especificamente sobre O Tempo e o Vento, o diretor-assistente acredita que a experiência será imensurável, principalmente no que se refere à equipe reunida. “Só tem gente experiente!”, exclama. Monjardin trouxe para o filme nomes como Affonso Beato, que já fez a fotografia de trabalhos internacionais como A Rainha, Tudo Sobre Minha Mãe e O Amor Nos Tempos do Cólera. O roteiro ficou a cargo de Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas, que têm a missão de capturar os 150 anos que são retratados pelo filme, basicamente centrado na primeira parte da trilogia, O Continente.

O filme, atualmente, encontra-se na conclusão de elenco e cenários para, em breve, entrar na etapa de leituras, ensaios e preparação de atores. Sem falar, claro, nas visitas às locações com o fotógrafo e sua equipe. “Muitas providências serão tomadas nas semanas que faltam”, comenta Bonani, que ainda destaca alguns desafios da produção, como a complexidade da estrutura do roteiro, a constante evolução da cidade de Santa Fé e dos personagens ao longo dos 150 anos retratados pelo longa, o trabalho com os índios e as cenas de guerra.

A diretora de arte, Tiza Oliveira, aponta que a maior responsabilidade de fazer um filme como O Tempo e o Vento é fazer algo à altura do povo gaúcho, que conhece perfeitamente sua história e que tem “um cunho patriota raro de se ver”. Para isso, Tiza está entrando de cabeça na história gaúcha, não só fazendo pesquisas baseadas em referências iconográficas de pintores da época retratada pela produção, mestrados e doutorados sobre a obra de Erico, mas também participando de encontros com grandes nomes da cultura riograndense, como Paixão Côrtes e Telmo de Lima Freitas. “A produção é trabalhosa, pois os objetos daquela época são raros, difíceis de achar, então há que produzi-los – desde baralhos, passando por jornais, rocas de fiar, carros de boi, gado e armas de época, e por aí vai”, comenta.

Tiza, assim como Bonani, já havia trabalhado com cinema anteriormente. Ela fez a direção de arte do filme Olga. O processo para O Tempo e o Vento, no entanto, é completamente oposto. Ao passo que Olga era uma produção urbana feita em locações que precisavam diferenciar Rúsia, Alemanha e Brasil, o novo filme de Jayme Monjardim exige algo diferente: marcar a passagem do tempo. “Temos construções de sets de gravação de épocas distantes, desde as Missões, em 1747, passando pelo rancho de Ana Terra, ainda no século 18, até chegarmos à cidade cenográfica de Santa Fé, cuja história dura todo o século 19”, aponta.

O Tempo e o Vento, além da equipe experiente, já conseguiu importantes nomes para o elenco. Thiago Lacerda será Capitão Rodrigo, enquanto Fernanda Montenegro dará vida à Bibiana em seus últimos anos de vida. Recentemente, Marjorie Estiano e Rafael Cardoso também foram integrados ao grupo que já reúne outros atores como Leonardo Machado, Luiz Carlos Vasconcelos e Leonardo Medeiros.

A obra de Erico Verissimo parece ser suficientemente inspiradora para que as diferenças culturais não sejam mais obstáculos. Paulista, Tiza de Oliveira reconhece toda a importância da trilogia gaúcha: “Conheço desde sempre a obra de Erico, que considero obrigatória, não só pelo valor literário, como pela história. Não há quem leia essa obra sem se sentir realmente nos pampas, acompanhando essa saga, sentindo o Minuano nos ossos e se orgulhando de seu país”.

Federico Bonani não esconde suas expectativas com o filme: “Que o filme seja lindo e bom, que o público assista ao filme e perceba que adaptamos a obra com o maior respeito, e a nossa narrativa seja fluente e traga uma boa experiência ao espectador. E o mundo conheça um pouco mais da história da nossa gente”. O Tempo e o Vento, portanto, mostra que, apesar de contar uma história tradicionalista, não se restrige à terra dos gaúchos. É, antes de mais nada, um registro histórico e humano. Que o filme consiga passar essa mesma sensação. O Tempo e o Vento tem estreia prevista para o final de 2012.

(matéria produzida originalmente para o site Cultnews).

Livro – O Clube do Filme

Sentado lá, na escuridão, no meio daquelas moças com olhos pintados demais e agasalhos de esqui, confesso que tive uma ligeira e secreta vontade de chorar. Não sei ao certo por que eu estava chorando – por causa dele, suponho, por ele e pela natureza fugidia e irrecuperável do tempo…

Já tinha lido O Clube do Filme faz bastante tempo, mas só agora resolvi colocar em palavras o que achei desse livro de David Gilmour. Estava fugindo dessa missão porque queria evitar a modinha que se instalou na época que essa obra foi lançada. Entretanto, o mais portante é que eu fugia dessa missão porque não estava com vontade de escrever sobre um livro que me decepcionou tanto. Não que eu esperasse que O Clube do Filme fosse uma obra genial, mas pelo menos aguardava uma leitura interessante e que fizesse uma homenagem aos efeitos que o cinema pode exercer nas pessoas.

Não encontrei nada disso. Absolutamente nada. Não  concordo com a famosa frase que “a unânimidade é burra”, mas sempre tendo a desconfiar quando algo faz sucesso demais e é aprovado por todos. Foi assim com O Clube do Filme. Adorado em todos os cantos pelos cinéfilos, o livro nada mais é do que uma jogada muito oportunista de David Gilmour. Ele não tem consistência na escrita e isso fica evidente a cada página. Digo isso porque a proposta que era para conduzir a dramaticidade da trama (como os filmes podem ajudar alguém) simplesmente não é bem executada.

Gilmour fala aleatoriamente dos filmes – e, em alguns casos, de maneira muito superficial – e não consegue fazer um paralelo sólido com a vida de seu filho. Os fracos diálogos ainda só pioram essa sensação. O Clube do Filme é um livro vaidoso, onde o autor pensa que, só por ser cinéfilo e por ter mudado a vida de seu filho com a paixão pela sétima arte, pode construir uma obra literária de qualidade. Mero engano. O que poderia servir de inspiração para cinéfilos e motivar aqueles que não são adeptos de forma voraz ao mundo do cinema revelou-se uma verdadeira enganação.

Acompanhamos, então, página após página, conflitos apresentados de forma quase amadora, diálogos simplistas, personagens repetitivos e menções gratuitas a filme. Gilmour não consegue nem despertar vontade no leitor de assistir aos filmes que está comentando. Portanto, é com um aperto no coração que digo que desaprovei por completo O Clube do Filme, uma obra cheia de boas pretensões mas que desliza até mesmo na sua principal proposta. Não é uma ode ao cinema, muito menos uma experiência marcante. É uma decepção. Com todas as letras.

Livro – Minha Vida na França

Paul e eu gostávamos de viajar no mesmo ritmo lento. Ele sempre sabia muito sobre tudo, descobria maravilhas ocultas, notava muros antigos ou aromas nativos, e eu sentia falta da sua presença calorosa. Antigamente era uma solteira feliz, mas agora não suportava mais a solidão.

Livros de memórias são complicados. Alguns podem dizer que, para se realizar uma obra nesse estilo, é necessário que a protagonista tenha tido uma vida extraordinária. Mas a verdade é que, assim como em qualquer literatura, não basta tem um rico material em mãos se ele não for bem executado. É o caso de Minha Vida na França, que procura desenvolver os acontecimentos mais marcantes da vida de Julia Child, desde quando colocou os pés na França pela primeira vez até quando se tornou um expoente da culinária no país.

Como assistimos em Julie & Julia, filme de Nora Ephron baseado não só em Minha Vida na França mas também no livro da norte-americana Julie Powell, Julia Child não tinha nenhuma noção de culinária e, após sofrer muito em aulas de níveis avançados no Cordon Bleu, começou a levar jeito para o negócio. Ela passou a dar aulas, lançou um livro de culinária para americanas que moravam na França e, mais tarde, foi apresentar um programa gastronômico na TV. Ou seja, aquela desengonçada norte-americana que as escolas de culinária desprezavam no início se tornou um dos nomes mais importantes no ramo.

Julia Child pode ter sido uma ótima mestre-cuca, mas fica claro em Minha Vida na França que a literatura não era o seu forte. Ela escreveu o livro em parceria com Alex Prud’homme, um jornalista e também autor de outros livros de não-ficção. Contudo, os dois não conseguiram trazer a vida de Julia Child da forma mais atraente para os leitores. Parece que Minha Vida na França é um capricho de Child: um livro escrito para que ela sempre pudesse relembrar as pessoas que conheceu, os lugares que visitou ou as situações que enfrentou. Interessante para ela, não tanto para os outros.

O livro já começa sofrendo de um sério problema: a adaptação. São inúmeras as expressões francesas ou os vocabulários que simplesmente não foram traduzidos. O francês, em alguns momentos, se mistura com o português, como se o leitor tivesse obrigação de saber o que algumas frases significam. O máximo que dá para conseguir é deduzir, através do contexto, o que aquilo pode significar. Algumas passagens possuem a explicação do que a citação francesa significa, mas é incômodo encontrar tantas passagens com referências ao idioma e que nós não entendemos.

Quanto ao livro, Minha Vida na França deixa a forte sensação que não tem uma linha narrativa definida. A ordem cronológica dos fatos existe, mas tudo é muito solto e sem conexão. Se já não bastasse os milhões de nomes  de pessoas e de lugares visitados, Julia Child narra toda e qualquer situação corriqueira de sua vida de forma superficial. Não existe intensidade nem muitos detalhes nas situações apresentadas, o que confere ao livro aquela velha estrutura de mil histórias contadas e que, no final, quase nenhuma será lembrada pelo leitor.

Com toda a certeza posso dizer que, além de ser um livro altamente decepcionante, Minha Vida na França me deixou muito cansado. Demorei meses para terminar uma obra que nem é extensa, mas que parece ter o triplo de seu tamanho em função do ritmo irregular e da narrativa perdida. Sei que sou um estranho no ninho (os atendentes da livraria em que comprei o livro, por exemplo, disseram que o livro é ótimo) e sei que alguns podem gostar do resultado. Contudo, fiquei triste ao constatar que eu terminei de ler a obra com muita má vontade, contando as páginas para que tudo logo chegasse ao fim. Logo eu, um fã de carteirinha da França e da storyline de Julia Child no filme de Nora Ephron. Nesse sentido, o filme fez milagres com as memórias da mestre-cuca.

%d blogueiros gostam disto: