Cinema e Argumento

Uma Prova de Amor

Direção: Nick Cassavetes

Elenco: Cameron Diaz, Abigail Breslin, Alec Baldwin, Jason Patric, Evan Ellingson, Sofia Vassilieva, Joan Cusack, Nicole Marie Lenz

My Sister’s Keeper, EUA, 2009, Drama, 104 minutos, 12 anos

Sinopse: A pequena Anna (Abigail Breslin) não é doente, mas bem que poderia estar. Por treze anos, ela foi submetida a inúmeras cirurgias e transfusões para que sua irmã mais velha Kate (Sofia Vassilieva) pudesse, de alguma forma, lutar contra a leucemia que a atingiu ainda na infância. Anna foi concebida para que sua medula óssea prorrogasse os anos de vida de Kate, papel que ela nunca contestou… até agora. Tal como a maioria dos adolescentes, ela está começando a questionar quem ela realmente é. Mas, ao contrário da maioria dos adolescentes, ela sempre teve sua vida definida de acordo com as necessidades da irmã. Então, Anna toma uma decisão que seria impensável para a maioria, uma atitude que irá abalar sua família.

Todo mundo já sabe, antes mesmo de assistir o filme, que Uma Prova de Amor é feito para arrancar lágrimas. Assim como quase todo longa-metragem que fala de câncer, essa história vai ter lembranças familiares muito ternas, várias situações lacrimosas e frases sentimentais. Portanto, quem vai assistir um filme assim, não pode esperar muita coisa. E é isso mesmo, a película de Nick Cassavetes usa a velha fórmula cancerígena de narrar situações assim e obtem um resultado até que positivo, mas não isento de falhas.

Até aí tudo bem, mas o que incomoda no enredo é a falta de estrutura dele. Tudo é narrado com diversos pontos de vista (em determinado momento, a cada minuto, um personagem passa ser o narrador da história) e a trama vai e volta no tempo com a intenção de explicar como a situação chegou no atual ponto. Mas, mais do que isso, a verdadeira intenção de Uma Prova de Amor é querer emocionar. Nick Cassavetes, o diretor, faz de tudo para isso. Desde a trilha sonora com músicas de bandas tristes, muito choro e personagens com visuais realmente chocantes (a persoagem de Sofia Vassilieva causa tristeza com a sua aparência tão detonada).

Mas, a questão é: o filme consegue emocionar? Bom, cumpre a sua missão com quem é mais fraco com esse tipo de história, mas deixa muito a desejar com quem espera emoções mais genuínas. Não é que Uma Prova de Amor não seja sincero, ele só não consegue soar muito natural a exemplo de outros excelentes filmes dessa temática como Lado a Lado. Podemos unir a isso, ainda, uma surpresinha no final da trama – que, de certa forma, acovarda uma personagem afim de trazer ainda mais emoção para a película.

Porém, é aquela velha situação: não dá pra ser crítico com um filme que é assumidamente projetado para arrancar lágrimas. Uma Prova de Amor tem bons momentos, atuações na medida e reflexões interessantes. Só não consegue ser muito feliz na hora de estruturar a história, que é contada de forma um pouco questionável e que tira um pouco do impacto. Nesse sentido, temos aqui um filme que desaponta por não conseguir ser tão emocionante como poderia. Contudo, basta ter boa vontade para tirar alguma coisa boa da produção.

FILME: 6.5


Filmes em DVD

Jean Charles, de Henrique Goldman

Com Selton Mello, Vanessa Giácomo e Luís Miranda

Jean Charles é um dos filmes brasileiros mais contidos dos últimos tempos, tornando-se especial justamente por causa dessa abordagem. O roteiro foge de exageros e de cenas explosivas. Aqui, a movimentação sentimental dos personagens é muito sutil e tal “calma” contribui de forma muito positiva para o resultado geral. O diretor Henrique Goldman criou um filme que se diferencia de tantos produzidos pelo cinema brasileiro e entrega uma obra interessante, que é chefiada por mais uma excelente interpretação de Selton Mello – possivelmente uma de suas melhores. Com certeza Jean Charles vai ter o público que reclame de sua narrativa devagar e parada em acontecimentos. O que é uma pena.

FILME: 8.0


O Quarto Poder, de Costa Gavras

Com Dustin Hoffman, John Travolta e Blythe Danner

Filme com uma boa essência jornalística e que traz muitas questões para serem debatidas sobre o mundo da imprensa. Além de ser tenso com frequência, O Quarto Poder se dá ao direito de discursar sobre a mídia e ainda consegue criar dramas suficientemente interessantes para manter a atenção do espectador. É certo que o final é meio abrupto e que tudo termina com aquela velha sensação de inversão de papéis entre os personagens para causar justiça, mas a direção de Costa Gavras é segura, Dustin Hoffman é controla as rédeas muito bem como protagonista e a história tem saldo positivo.

FILME: 8.0

Veronika Decide Morrer, de Emily Young

Com Sarah Michelle Gellar, David Thewlis e Melissa Leo

Sinto uma grande satisfação quando sou surpreendido por filmes que eu desprezava antes mesmo de assistir. É o caso de Veronika Decide Morrer – baseado no best-seller do intelectual de araque Paulo Coelho. A produção surpreende em diversos aspectos, em especial na verossimilhança de suas intenções. O filme não é ganancioso, é bastante humilde na sua condução. As emoções são válidas, a abordagem dramática é satisfatória e as interpretações são na medida (até mesmo Sarah Michelle Gellar, no melhor papel de sua carreira). Veronika Decide Morrer, portanto, é um drama que merece ser conferido. Especialmente porque não é o que parece ser.

FILME: 8.0

Eu Te Amo, Cara, de John Hamburg

Com Paul Rudd, Rashida Jones e Rob Huebel

Longe de ser uma comédia com genialidades, Eu Te Amo, Cara encontra a sua graça na simplicidade. É um filme divertido, que apenas quer ser um entretenimento descompromissado. Tem um ritmo legal, um protagonista competente (Paul Rudd sempre se sai bem nesse gênero) e uma história que traz muitas risadas. Claro que não dá pra querer que o roteiro seja mais elaborado, já que a história em si é muito rada, limitada. No entanto, a história lida bem com a temática e transforma Eu Te Amo, Cara em uma experiência, no mínimo, comicamente válida.

FILME: 7.5

A Vida Secreta das Abelhas, de Gina Prince-Bythewood

Com Dakota Fanning, Jennifer Hudson e Queen Latifah

Típico filme melodramático que faria muito sucesso nas tardes da Globo. A Vida Secreta das Abelhas é meloso do início ao fim, desde o seu roteiro até suas resoluções para os conflitos. O que vale ressaltar aqui é o bom elenco feminino, todas atrizes que, quando administradas da maneira correta, funcionam em cena. No entanto, o roteiro meio vazio não segura a peteca e o filme parece sempre estar carente de algo mais, de algo diferente. Dá pra assistir numa boa, mas resta saber até onde você consegue ir com uma história tão novelesca como essa.

FILME: 6.0

Julie & Julia

Direção: Nora Ephron

Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Mary Lynn Rajskub, Jane Lynch, Linda Emond

EUA, 2009, Comédia, 123 minutos, 12 anos

Sinopse: 1948. Julia Child (Meryl Streep) é uma americana que passou a morar em Paris devido ao trabalho de seu marido, Paul (Stanley Tucci). Em busca de algo para se ocupar, ela se interessou por culinária e, anos mais tarde, passou a a apresentar um programa de TV sobre o assunto. Cinquenta anos depois, Julie Powell (Amy Adams) está prestes a completar 30 anos e está frustrada com a vida que leva. Em busca de um objetivo, ela resolve passar um ano cozinhando as 524 receitas do livro de Julia Child, “Mastering the Art of French Cooking”. Ao longo deste período Julie escreve para um blog, onde relata suas experiências.

Todos os filmes recentes sobre gastronomia têm algo em comum: eles utilizam a comida para metaforizar a batalha dos personagens, a busca dos protagonistas por seus respectivos sonhos. Se em Ratatouille acompanhamos a inusitada jornada de um ratinho querendo ser cozinheiro, aqui em Julie & Julia observamos a vida de duas mulheres muito reais que mudaram seu jeito de viver ao descobrirem um refúgio na culinária.

A primeira é Julia Child, famosa mestre-cuca que, com muita dedicação, tornou-se uma grande cozinheira, mesmo quando os profissionais do ramo diziam que ela não tinha futuro. Ela é interpretada por Meryl Streep que, mais uma vez, apresenta uma metamorfose, desaparecendo em mais uma personificação muito divertida – e que aqui é pontuada por uma personagem impagável e inusitada, mas que conquista facilmente com seu jeito de ser. Streep está, claramente, divertindo-se em cena.

A segunda é Julie Powell, mulher comum e frustrada com o trabalho, mas que encontrou nas receitas de Julia Child uma razão para se reinventar. Tal figura ganha contornos nas mãos de Amy Adams. Sem dúvida a personagem perde – e muito – em questão de carisma para Julia Child, mas Adams é tão adorável, que fica difícil querer reclamar dela, que está visivelmente confortável durante todo o filme.

Julie & Julia é o que pode se esperar de um filme da diretora Nora Ephron. Ela sempre dirigiu longas agradáveis, mas que nunca saem do básico. Aqui não é diferente. Parece que o roteiro do filme nunca engata numa marcha que fará o diferencial. A história é carente de variações e tudo o que se enxerga é uma repetição. Por sorte, temos uma Meryl Streep divertida (e reparem no excepcional trabalho corporal dela também) e uma Amy Adams suficientemente satisfatória para encobrir esses defeitos.

É certo que esse filme vai ser esquecido depois de alguns minutos da sessão e o que ficará perpetuando na cabeça é a presença de Streep. Mas, até que para um filme previsível e certinho, Julie & Julia tem bons atrativos: é bem feito e  não subestima a paciência ou inteligência de ninguém. O filme sabe que realmente não é grande coisa e por isso não tem ambição de pesar a mão no humor ou de querer ser diferente em algum aspecto. É na obviedade que ele encontra seu pecado, mas também a sua redenção.

FILME: 7.5


1948. Julia Child (Meryl Streep) é uma americana que passou a morar em Paris devido ao trabalho de seu marido, Paul (Stanley Tucci). Em busca de algo para se ocupar, ela se interessou por culinária e passou a apresentar um programa de TV sobre o assunto. Cinquenta anos depois, Julie Powell (Amy Adams) está prestes a completar 30 anos e está frustrada com a vida que leva. Em busca de um objetivo, ela resolve passar um ano cozinhando as 524 receitas do livro de Julia Child, “Mastering the Art of French Cooking”. Ao longo deste período Julie escreve para um blog, onde relata suas experiências.

Opinião – Ator x Personagem

No último fim-de-semana, estava discutindo cinema com o Robson, do Portal Cine, e fomos parar num questionamento muito interessante: até que ponto um personagem pode influenciar nossa percepção sobre uma atuação? O assunto surgiu quando questionei o merecimento do Oscar de Penélope Cruz. Mencionei que, para mim, a grande interpretação de Penélope está em Volver e que em Vicky Cristina Barcelona ela foi mais impulsionada por um maravilhoso personagem do que pela interpretação em si. Mas, veja bem, de forma alguma estou dizendo que ela não teve boa interpretação. O que alego é que Maria Elena é muito mais interessante do que Penélope Cruz.

Sim, partilho da visão de que personagem e ator podem andar separados. Uma interpretação pode ser maravilhosa e o personagem ser terrível. Assim como a interpretação pode ser negativa e o personagem maravilhoso. Outra atriz que surgiu no contexto do bate-papo foi Viola Davis. Arrasadora em Dúvida, podemos observar que o impacto de sua aparição no longa de John Patrick Shanely se deve mais ao brilhantismo da atriz do que ao perfil da personagem – até porque a sra. Miller tem pouco tempo em cena para ganhar uma maior abordagem. Já partindo para uma situação mais radical, podemos citar Sally Hawkins em Simplesmente Feliz. Personagem pavorosa ofuscando completamente uma boa atuação.

Em outras situações, podemos ter grandes atuações e personagens atuando juntos. E aí podemos citar vários exemplos: Meryl Streep em O Diabo Veste Prada, Heath Ledger em Batman – O Cavaleiro das Trevas, Julianne Moore em As Horas e Javier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez, por exemplo. É fácil encontrar fusões assim. Mas, agora, será mesmo que atuações e personagens podem influenciar uns aos outros? Será que um personagem independe de um ator ou vice-e-versa para conseguir êxito? Eu acho que sim, completamente.  E você?

O que esperar de Nine?

Eu adoro filmes com grandes nomes do elenco. Sou aquele tipo de cinéfilo que é fanático por interpretações – tanto, que nas premiações essas são, disparadas, as minhas categorias favoritas. Nine, portanto, teria que me fazer salivar (também por ser um musical). Mas não faz. Aprendi a não confiar em filmes com grandes nomes. A Grande Ilusão e Bobby foram algumas decepções envolvendo grandes atores.

Contudo, o que não me atrai em Nine é o nome do diretor Rob Marshall no comando. Ele, que esteve dirigindo o musical mais superestimado da década (sim, Chicago, pra mim, é nada mais que apenas aceitável), é um diretor completamente irregular. Chicago é um teatro com música que até funciona, mas parece não ter personalidade. Depois ele pisou na bola com Memórias de Uma Gueixa, um filme esteticamente lindo mas que é totalmente perdido no roteiro e na direção.

Agora, ele quer retomar sua era de ouro com Nine. E cada vez mais me convenço que Marshall parece estar vindo com um Chicago 2. A cada imagem e a cada vídeo fico mais convencido disso. Esse trecho do filme que posto aqui só me cativou por uma razão: Marion Cotillard. Ela parece estar mostrando de forma definitiva que não é só Piaf. Ela tem sim muito talento. Portanto, não espero um grande filme de Nine. Ele até pode ser um dos maiores espetáculos do ano sim e eu posso estar redondamente enganado. Mas, até agora, não tenho motivos para sentir expectativas.