Cinema e Argumento

Querido John

The saddest people I’ve ever met in life are the

ones who don’t care deeply about anything at all.

Direção: Lasse Hallström

Elenco: Channing Tatum, Amanda Seyfried, Richard Jenkins, Henry Thomas, D.J. Cotrona, Cullen Moss, Gavin McCulley

Dear John, EUA, 2010, Drama, 108 minutos

Sinopse: Querido John conta a história de John Tyree (Channing Tatum) e de Savannah Curtis (Amanda Seyfried). Durante sete tumultuosos anos, o casal é separado pelas missões cada vez mais perigosas de John. Apesar de se encontrarem apenas esporadicamente, o casal mantém o contato por meio de uma enxurrada de cartas de amor.

Lasse Hallström nunca foi um diretor comercial. Ele sempre realizou produções autorais e que não tinham muito perfil de grande apelo popular. Foi, inclusive, celebrado em premiações por seu trabalho em Regras da Vida. Hallström, entretanto, nos últimos tempos, resolveu apostar em filmes de maior repercussão entre o grande público. Se em Sempre ao Seu Lado ele apostou no típico formato história-triste-de-cachorro, em Querido John o diretor resolve contar o velho estilo de romance açucarado. Hallström, portanto, está se desviando de suas habituais narrativas. Mas, nem por isso começou a apresentar filmes ruins.

Querido John possui exatamente aquilo que tem de tudo para conquistar jovens apaixonadas e deixar os marmanjos sem paciência no cinema. É uma história altamente clichê (mas nem por isso tratada dessa forma) e que nunca se desvia dos caminhos óbvios percorridos por tantas produções melosas desse estilo. Mas, é até um certo alívio, ao fim da sessão, chegar a conclusão que Lasse Hallström não realizou um filme insuportável. Longe de mim dizer que o filme não tem falhas e que é digno de grandes elogios. No entanto, não posso deixar de afirmar que o filme acertou no tom. Água com açúcar? Sim. Irritante? Não.

O que não deixa Querido John ser um filme melhor é exatamente a distância entre os dois personagens. A partir do momento em que John (Channing Tatum) vai para a guerra e se comunica com Savannah (Amanda Seyfried) por cartas, o roteiro perde a força. O romance dos dois parece não ter tanta força quando eles não estão juntos em cena e os momentos de John na guerra não são lá interessantes. Além das narrações amorosas sem originalidade das cartas, o filme chega num ponto em que não sabe se fará um drama ou um romance. Querido John, em sua essência, é romântico, mas, a partir de determinado momento, deixa de ter essa veia.

A única ressalva do elenco é o protagonista Channing Tatum. Fica visível que ele não é o ator ideal para o papel. Pode até ter o porte e o visual necessário para um romance teen, mas, ao contrário de sua companheira Amanda Seyfried, não possui talento algum. Tatum está sempre com a mesma expressão e não consegue dar qualquer abordagem para o personagem que vá além do óbvio. Mesmo que funcione com Seyfried, não consegue se sustentar quando está sozinho em cena. Além de Seyfried, Richard Jenkins também tem bom desempenho como o problemático pai de John. São por esses dois atores e pela direção na medida de Hallström que o filme vale a pena. De resto, mais do mesmo.

FILME: 7.0

Grey Gardens

Direção: Michael Sucsy

Elenco: Drew Barrymore, Jessica Lange, Jeanne Tripplehorn, Daniel Baldwin, Justin Louis, Ken Howard, Kenneth Welsh

EUA, 2009, Drama, 104 minutos

Sinopse: Inspirado no documentário homónimo de 1975 que conta a história de mãe e filha chamadas Edith Bouvier Beale, tia e prima em primeiro grau de Jacqueline Kennedy. Big Edie (Jessica Lange) e Little Edie (Drew Barrymore) são mulheres do jet-set da época dos anos 40 e 50, mas que depois, já nos anos 70, estão completamente pobres numa mansão em East Hampton. Através de um documentário que está sendo produzido sobre elas, o mundo descobre que as duas moram nessa casa decadente e com precárias condições de higiene.

Grey Gardens é aquele tipo de filme que tem uma história cheia de potencial mas que não é trabalhada da maneira mais interessante. Esse telefilme da HBO tem produção requintada e boas interpretações – características constantes nos trabalhos da emissora – mas falha no roteiro e na direção de Michael Sucsy. Os problemas não apagam os aspectos positivos, mas, certamente, não deixam Grey Gardens ser mais cativante. Ainda assim, a produção recebeu grande destaque na temporada de premiações – seja em estatuetas para Drew Barrymore e Jessica Lange ou, então, para o próprio filme.

Inspirado em um documentário de 1975, Grey Gardens narra a difícil relação entre mãe (Lange) e filha (Barrymore) que, enquanto ricas e cheias de glamour, nunca se entendiam nem permaneciam muito tempo juntas. Após problemas financeiros, ambas são obrigadas a permanecerem unidas na miséria, ainda achando que estão com a bola toda. E o problema começa aí: o roteiro fica se alternando entre as duas épocas das personagens, o que termina por tirar todo o possível impacto emocional que a história poderia ter. Seria muito mais interessante acompanhar a jornada das duas de forma linear: da riqueza até a pobreza. O que acontece é que já sabemos, no início do filme, que ambas ficam velhas, pobres, sozinhas e decadentes.

A relação entre as duas também é narrada de forma tortuosa. Nunca fica visível, de forma bem explorada, a difícil vivência entre as duas. Nós apenas sabemos que elas não se dão muito bem. Ponto. É um misto de admiração e distância entre as duas. Nunca é trabalhado o porquê ou situações mais aprofundadas sobre a dificuldade de relacionamento das personagens. Outro aspecto do longa-metragem que não ajuda é como o texto não encena passagens mais interessantes. São narrados apenas momentos corriqueiros na história. Senti falta de um texto mais emocionante e sentimental.

Drew Barrymore e Jessica Lange são a força do filme. Mesmo que isso não eleve o resultado a outro patamar, as duas estão ótimas em cena. A primeira ganhou o Globo de Ouro e o SAG, enquanto a segunda conquistou o Emmy. As duas dominaram as premiações na categoria. Não considero merecido (prefiro Sigourney Weaver, que tinha papel mais difícil e emocionante em Orações Para Bobby), mas Lange e Barrymore possuem uma boa química, que contribui muito para aquilo que o roteiro tem certa carência: emoção. Grey Gardens possui vários setores admiráveis, é verdade. Contudo, está longe de ser algo marcante ou especial.

FILME: 7.5


Na coleção… Batman – O Cavaleiro das Trevas

Logo quando entrou em cartaz, Batman – O Cavaleiro das Trevas causou enorme burburinho em torno da performance de Heath Ledger como Coringa. O ator, que faleceu antes mesmo da estreia do filme, despertou a curiosidade de todos. Ledger, de fato, está fenomenal nessa ótima produção de Christopher Nolan. No entanto, O Cavaleiro das Trevas está muito longe de ser apenas sobre a presença do ator. Nolan realizou um filme cheio de méritos – e que, também, mereciam ser igualmente reconhecidos pelo público.

Talvez, o maior destaque dessa adaptação de quadrinhos seja o tom extremamente sério que ficou no ar. Mesmo que existam super heróis e vilões “clássicos” desse estilo de produção, O Cavaleiro das Trevas consegue ser realista – principalmente porque as cenas foram filmadas em cenários reais. Gotham City foi representada como uma cidade qualquer e, nesse aspecto, o filme se aproximou mais da verossimilhança. Os efeitos especiais são no tom certo para a ação e o setor sonoro apresentam ótimo resultado.

Do ponto de vista técnico, o longa impressiona. Igualmente interessantes são as interpretações do elenco. Ainda tenho dificuldades em ver Bale como protagonista, mas os coadjuvantes compensam. Ledger, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Morgan Freeman e Michael Caine estão ótimos em cena. Pena que a mocinha da história, dessa vez interpretada por Maggie Gyllenhaal, não seja lá muito interessante. Portanto, temos aqui um feito possivelmente inédito: um filme de ação e quadrinhos onde o elenco é um dos principais atrativos.

O resultado não está isento de falhas. Acredito que uma a ser ressaltada é o roteiro. A história é bem arquitetada, mas longa e, em algumas partes, cansativa e complexa. Não sei se o grande público terá facilidade em compreender algumas passagens do filme. É preciso prestar atenção em  detalhes de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Tenho minhas dúvidas se essa produção é realmente extraordinária como muitos apontaram. Mas, não ouso questionar a qualidade notável apresentada aqui.

FILME: 8.5


Sex and the City 2

I go to children’s birthday parties for you! You’re going to Abu Dhabi for me!

Direção: Michael Patrick King

Elenco: Sarah Jessica Parker, Kim Cattral, Cynthia Nixon, Kristin Davis, Chris Noth, Willie Garson, John Corbett, Liza Minelli, Penélope Cruz, Miley Cyrus

EUA, 2010, Comédia, 146 minutos, 12 anos

Sinopse: Carrie (Sarah Jessica Parker), Samantha (Kim Cattral), Charlotte (Kristin Davis) e Miranda (Cynthia Nixon) arrasam novamente pela Big Apple. No entanto, uma viagem surge e leva as amigas para um lugar exótico. Lá, elas avaliam suas vidas e se descobrem que estão envolvidas nas regras tradicionais do casamento e da maternidade.

Quando subiram os créditos finais do primeiro filme de Sex and the City, lembro que fiquei com um sorriso no rosto. O filme tinha inúmeras falhas, mas trabalhava com humor e certa vitalidade  a amizade das quatros personagens. A cena final em que elas comemoravam o aniversário de Samantha (Kim Cattral, sempre a melhor do elenco) ao som de All Dressed in Love encerrava de forma iluminada a aventura cinematográfica do seriado. O primeiro filme tinha como missão matar a saudade dessas figuras tão queridas. Conseguiu o feito, mesmo que em um filme falho.

Como tudo em Hollywood é na base da bilheteria, a equipe cresceu o olho e resolveu fazer uma continuação. Necessidade não havia e a publicidade envolvendo o segundo volume era péssima. Tudo apontava para um desastre: o photoshop nos cartazes era terrível, o trailer era super cafona, a trilha sonora era decepcionante e ainda quase não se criou expectativas em torno do filme. O resultado não poderia ser outro. Sex and the City 2 já é forte candidato para os piores filmes de 2010. É até difícil enumerar, em uma breve crítica, o que dá errado.

É óbvio constatar que as pessoas que irão ao cinema assistir Sex and the City 2 já sabem o que estará presente no filme. Todos os elementos estéticos que fizeram do seriado um sucesso estão aqui: roupas exuberantes, muito brilho, lugares luxuosos e produção de visual impecável. O estranho é que tais elementos nunca pareceram tão superficiais e passageiros. Ao contrário do filme anterior, os figurinos de Patricia Field nem parecem personagens na história. Continuam com aquela elegância de sempre, mas longe de ser algo que tenha vida própria e uma presença impactante em cena. É tudo bem plastificado e sem vida (algo que nunca havia acontecido). A culpa, no entanto, não é da figurinista e sim do roteirista.

O texto de Sex and the City 2 é um dos mais simplórios que o cinema viu nos útimos tempos. Não existe um momento original ou sequer uma reflexão sentimental interessante. Se o seriado e até o primeiro filme tinham como engrenagem as narrações de Carrie (Sarah Jessica Parker) sobre diversos assuntos do coração, essa continuação peca por falar coisas óbvias e que nem a terapeuta mais amadora do mundo falaria. Carrie reflete momentos desinteressantes e superficiais. Culpa da jornada das personagens, que é boba e sem variações – e com os rasos dilemas, claro.

Chega a ser engraçado (no sentido ruim) ver como o roteiro se presta a criar situações tiradas do nada para fazer uma personagem chorar ou outra começar a ter dúvidas sobre o que é um casamento de verdade. Também temos participações gratuitas de Penélope Cruz (em uma única cena que dura, em média, uns dois minutos), Miley Cyrus, John Corbett (que traz um conflito, de certa forma, promissor, mas que não chega a lugar algum) e Liza Minelli. Essa última tem direito a um momento de vergonha alheia onde canta Single Ladies. O quarteto principal sempre apresenta bom resultado e, de fato, é o atrativo do filme. Contudo, isso não quer dizer muita coisa, já que a história pouco serve como um reencontro delas.

Fica bem claro que as atrizes se divertem em cena. Agora, quem não se divetiria com um guarda-roupa deslumbrante, viagens super caras, festas badaladas e muitos flashes? Se antes o elenco contagiava o espectador com a diversão, agora somos apenas observadores. Elas se divertem, nós não. O tédio toma conta, a fragilidade do roteiro fica cada vez mais visível e, em certo ponto, fica difícil ter qualquer boa vontade com um filme que sequer tem uma história para contar. É um momento legal aqui, outra piada tosca ali e o ciclo não acaba nunca. São raros os bons momentos, que ficam apagados perto de tanta bobagem.

Sex and the City 2, portanto, não só é um produto pobre de linguagem cinematográfica como também uma verdadeira decepção para quem tinha simpatia pela série. É certo que para Parker, Cattral, Nixon e Davis a diversão é imensa. No entanto, é necessário existir um bom senso. Até que ponto vale ganhar dinheiro e desfrutar dos holofotes com uma franquia dessas e deixar de lado a qualidade? Somos nós, espectadores, que ditamos o futuro do cinema. E, se depender de mim, Sex and the City não ganha mais meu dinheiro. O legal de ir ao cinema é se divertir, mesmo que com uma bobagem, e não ficar o tempo inteiro olhando para o relógio contando os minutos…

FILME: 4.5


 

Eu e Orson Welles

Direção: Richard Linklater

Elenco: Zac Efron, Claire Danes, Christian McKay, Eddie Marsan, Ben Chaplin, Kelly Reilly, James Tupper, Patrick Kennedy

Me and Orson Welles, EUA/Inglaterra, 2009, Drama, 114 minutos, 12 anos

Sinopse: Na Nova York de 1937, Richard Samuels (Zac Efron) não quer saber de estudar, pois sonha em ser ator da Broadway. O jovem adolescente, então, vê sua chance ao se candidatar a uma vaga na montagem de Júlio Cesar, de William Shakespeare, comandada por Orson Welles (Christian McKay)

Para muitas pessoas, Zac Efron encontra-se na mesma situação de Robert Pattinson: participou de filmes que fizeram a cabeça das adolescentes, estampou muitas capas de revistas e logo já afasta uma boa parcela do público quando encabeça o elenco de algum filme. Essas afirmações são verdades, mas existe uma grande diferença entre Zac Efron e Robert Pattinson. Enquanto o descabelado vampiro tem a audácia de achar que é grande ator para, por exemplo, ser Salvador Dalí em Poucas Cinzas, Efron se preocupa em demonstrar carisma e naturalidade em papéis não muito audaciosos.

O protagonista de High School Musical não tem maiores pretensões e é uma pessoa verdadeira, longe de parecer caricato ou forçado. 17 Outra Vez poderia ter sido uma bobagem na carreira dele, mas Efron se utilizou do filme para mostrar carisma. O filme não era lá muito interessante, mas o jovem ator dava sinais de que, por trás de tanta badalação em torno de sua beleza e dos filmes insuportáveis do início de sua carreira, existia alguém disposto e com capacidade para representar sem apelar.

Efron repete o feito em Eu e Orson Welles. Dessa vez, está envolvido em um projeto mais alternativo (e que é óbvio que as fãs que se dizem devotas ao ator não devem nem saber da existência), com uma história puramente teatral. Dirigido por Richard Linklater (de Antes do Amanhacer/Pôr do Sol e Escola de Rock), a história narra a vida de um garoto (Efron) que se envolve em uma montagem de Shakespeare que será encenada no teatro e terá comando de Orson Welles (Christian McKay).

Acompanhamos, então, toda a produção dessa peça e como a relação entre os envolvidos nessa montagem pode ser complicada, sentimental e divertida. Como protagonista, Efron se sai muito bem, novamente, ao emprestar naturalidade para o papel. No entanto, não consegue se sobressair  tanto quando um certo Christian McKay está em cena. McKay, indicado ao BAFTA desse ano de melhor ator coadjuvante por seu desempenho, tem 37 anos e encontra aqui o seu primeiro papel no cinema. É uma ótima surpresa, já que demonstra pleno domínio da figura que representa e também consegue trabalhar muito bem a difícil personalidade do papel.

No resto, Eu e Orson Welles é um longa bem comum. Se por um lado o roteiro ganha pontos ao escolher o tipo de narrativa envolvendo a montagem da peça de teatro, por outro também sai perdendo. Não sei quanto a vocês, mas não consigo me envolver tanto com esse tipo de história – que parece focar mais no grande acontecimento do filme do que nos personagens. É assim que alguns relacionamentos amorosos e amizades soam um pouco superficiais. Mas, Eu e Orson Welles, apesar de ser apenas comum, nunca deixa a peteca cair. Algo fundamental em um filme que, infelizmente, está fadado ao preconceito por causa de seu protagonista.

FILME: 7.5