Cinema e Argumento

Conheça o “Sala de Cinema”

O projeto do “Sala de Cinema” já existia desde o ano passado. Quando entrei na faculdade de jornalismo e fiquei sabendo que era possível gravar programas na rádio da instituição, logo tive o desejo de fazer um programa sobre a sétima arte. Como eu ainda não era familiarizado com o cotidiano de rádio, não coloquei meu plano em prática. Agora, no terceiro semestre de faculdade, que é dedicado ao rádio, entrei de cabeça no projeto. Eu e meu colega cinéfilo Luan Pires criamos o “Sala de Cinema”, um programa semanal com notícias, comentários sobre estreias da semana e filmes em dvd, além de músicas e dicas de outros cinéfilos.

O “Sala de Cinema” já está na sua décima edição. Resolvi divulgar só agora aqui no blog porque procurei mostrá-lo quando ele já estivesse estável na programação da webradio da faculdade. O programa dessa semana foge do formato habitual do programa e traz um bate-papo com a professora e jornalista Laura Glüer. O tema da troca de ideias é o jornalismo no cinema. Aqui, podem ser conferidos comentários sobre filmes como Leões e Cordeiros, Frost/Nixon, Boa Noite e Boa Sorte, A Rainha, entre outros. Para ouvir, basta clicar aqui. No player disponível abaixo da arte do programa, você confere a edição dessa semana. Para ouvir outras edições, basta clicar em “Ouvir os programas anteriores”. Conto com a audiência de vocês. Dúvidas e sugestões? Basta comentar aqui ou lá mesmo!

Filmes em DVD

Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio

Documentário

Narrando, sem palavras ou diálogos, o descompasso entre as grandes metrópoles e a natureza, o documentário Koyaanisqatsi usa apenas trilha e imagens para transmitir a sua mensagem. O curioso é que, com essa estrutura, o trabalho do diretor Godfrey Reggio consegue ser muito mais interessante do que vários filmes desse gênero. A harmonia entre trilha e imagem consegue ser, inclusive, impactante artisticamente. Philip Glass, em mais um momento espetacular, traduz toda a força da mensagem em suas melodias que variam entre a melancolia e a sensação frenética.  Méritos também, claro, para a ótima montagem. Koyaanisqatsi é um filme para poucos. No entanto, é impossível fica indiferente com tal experiência.

FILME: 8.5

Powaqqatsi, de Godfrey Reggio

Documentário

A segunda parte da trilogia “qatsi”, iniciada com o ótimo Koyaanisqatsi, já não se mostra tão impactante ou especial nesse segundo volume. Powaqqatsi parece ser apenas um retrato sem ousadias da cultura e das dificuldades de países pobres. A trilha de Philip Glass continua em ótimo momento e a fotografia permanece bela. Porém, falta uma sincronia maior entre os setores audiovisuais. Música e imagem não parecem tão bem balanceados como em Koyaanisqatsi. Fica a sensação de que são apenas imagens embaladas, sem qualquer pretensão, por músicas. Isso, de certa forma, tira o potencial do filme e deixa Powaqqatsi apenas no nível do satisfatório.

FILME: 7.5

Naqoyqatsi, de Godfrey Reggio

Documentário

Tecnologia é o assunto de Naqoyqatsi, último volume da trilogia “qatsi”. Para isso, o diretor Godfrey Reggio resolveu colocar efeitos de computador em praticamente todas as imagens. São vários efeitos visuais, variações de cor e alternância de tecnologias. Esteticamente interessante, conseguiu ser melhor que o volume anterior, Powaqqatsi, mas não conseguiu alcançar o mesmo nível de impacto e hipnose de Koyaanisqatsi. O último capítulo tem a seu favor o fato do jogo de imagens computadorizadas ser bem interessante e de ter uma trilha sonora espetacular. Philip Glass sempre está ótimo, mas aqui ele aposta em violinos, o que traz uma diferente sonoridade para o resultado. Naqoyqatsi é vítima do formato, que já não surpreende mais, mas não merece desprezo em função disso.

FILME: 8.0

A Carta, de William Wyler

Com Bette Davis, Herbert Marshall e James Stephenson

Esse é um dos filmes mais simples da carreira de Bette Davis. A Carta conta a história de uma mulher (Davis), que comete um crime e quer, a todo custo, ser inocentada. O filme segue os caminhos mais comuns e não traz grandes inovações. Mas, para a época, apresenta alguns aspectos bem marcantes. A própria personagem de Davis, por exemplo, que é convicta de cada palavra que está dizendo, mas que também um pouco dissimulada por dentro. A Carta, apesar de convencional, tem como coringa a ótima interpretação da atriz – que, mais uma vez, empresta sua representação de mulher geniosa e misteriosa para a personagem. O final é um pouco insatisfatório (e diria até um pouco negativo demais e fora de tom), mas nada que apague a prazerosa experiência que é ver Davis atuando novamente.

FILME: 8.0

É Proibido Fumar, de Anna Muylaert

Com Glória Pires, Paulo Miklos e Marisa Orth

É Proibido Fumar foi o grande vencedor desse ano do Grande Prêmio de Cinema Brasileiro. Devido ao estranho resultado da lista de indicados, o filme mereceu a vitória (antes ele do que Se Eu Fosse Você 2 ou A Mulher Invisível), mas, fica longe do excelente resultado de À Deriva. Esse filme de Anna Muylaert é bem convencional em todos os aspectos, tanto no roteiro linear quanto na simples técnica. Ainda assim, é uma história que funciona. Talvez, seja mais em função da presença da ótima Glória Pires (cuja melhor cena é aquela em que fala do bolo de sua falecida tia). Portanto, é fácil constatar que É Proibido Fumar é uma produção comum, mas que também funciona com muita facilidade.

FILME: 7.5

O Solista, de Joe Wright

Com Robert Downey Jr., Jamie Foxx e Catherine Keener

Mesmo que Desejo e Reparação seja um trabalho espetacular, nunca colocaria a mão no fogo por Joe Wright. Ao passo em que ele alcança resultado fenomenais, como no filme anteriormente citado, também consegue construir filmes monótonos e convencionais como O Solista. Dessa vez, o problema não foi nem Robert Downey Jr. (sem os seus maneirismos de sempre) ou Jamie Foxx (o ator que foi da excelência para a canastrice no mais curto espaço de tempo), mas sim o roteiro lento e quadrado. Todo mundo já está cansado de ver longas sobre pessoas talentosas mas que possuem problemas pessoais ou alguma doença que os impedem de ir a frente com o seu dom. O Solista conta toda essa ladainha de novo. E sem a menor originalidade.

FILME: 6.0

O Golpista do Ano

Direção: Glenn Ficarra e John Requa

Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Rodrigo Santoro, Leslie Mann, Allen Boudreaux, Marylouise Burke, Clay Chamberlin, Tommy Davis

I Love You Phillip Morris, EUA/2009, Comédia, 102 minutos

Sinopse: Steven Russell (Jim Carrey) é um policial texano que decide assumir sua homossexualidade. Porém logo ele descobre que, para ser gay, é preciso ter muito dinheiro. Ele passa a realizar diversas trapaças e fraudes, de forma a manter seu alto padrão de vida. Ao ser preso, Steven é levado a uma penitenciária estadual. Lá ele conhece Phillip Morris (Ewan McGregor), seu companheiro de cela, por quem se apaixona. A partir de então Steven passa a fugir e ser preso diversas vezes, sempre agindo em nome de seu amor.

Um dos destinos mais cruéis que um filme pode ter é ser fadado ao fracasso em função de uma propaganda errada. Vejam O Golpista do Ano, por exemplo: estrelado por Jim Carrey, cartazez toscos e trailer enganador. Toda publicidade envolvendo o filme indicava uma típica comédia-pastelão estrelada por Carrey. De certa forma, temos aqui um filme estruturalmente cômico, mas que esconde muitos outros aspectos dentro do roteiro.

Se O Golpista do Ano pode ser considerado um Prenda-Me Se For Capaz gay, também devemos analisar outras facetas da trama. Existe romance e até momentos densos dramaticamente (principalmente nos momentos finais, quando o roteiro impõe uma grave doença a um personagem). Dá para destacar, iclusive, uma ou outra estranha cena de sexo – essas cenas, por sinal, são curiosas, pois não sabemos se devemos levá-las a sério ou rir.

Mas, a verdade é que O Golpista do Ano trata sobre a história de um homem que perde tudo na vida porque não consegue parar de mentir. Chega a ser angustiante ver alguém que tem tudo o que desejava em mãos e que simplesmente joga tudo para o alto porque não tem forças para lutar contra o hábito da mentira. Nesse sentido, o filme de Glenn Ficarra e John Requa acerta. Mesmo que sem profundidades.

É a mistura de gêneros que causa estranheza nesse filme. Comédia, drama e romance parecem estar visivelmente separados. Portanto, a cada momento, acompanhamos um tipo diferente de abordagem. Essa alternância incomoda bastante e prejudica o andamento de O Golpista do Ano. Mais do que tudo, causa afastamento naqueles que procuravam um filme qualquer estrelado por Jim Carrey. Se fosse mais simplista e apostado nesse formato, talvez tivesse sido melhor aceito.

O Golpista do Ano é para ser visto sem preconceitos. É verdade que o filme tem um tratamento cômico na maior parte do seu tempo, mas ele também sabe respeitar o romance homossexual que está sendo mostrado em cena. Existe o momento de rir e o momento de levar a sério a história dos personagens de Carrey e Ewan McGregor (o maior destaque do elenco). Quem não consegue ter esse discernimento, deve passar longe. Aliás, serão os poucos que conseguirão entrar no clima. Que lástima, já que o filme, mesmo com problemas é assistível e tem seus atrativos…

FILME: 7.5


Últimas Trilhas Sonoras

Koyaanisqatsi, por Philip Glass

Koyaanisqatsi é considerado um dos grandes trabalhos de Philip Glass. E merece o título de obra-prima por diversas razões. Além de ser uma sinfonia assombrosa de tão efetiva, tem o poder de conduzir todo o filme – que não possui diálogos. Junto com o excelente jogo de imagens, Glass trouxe uma trilha sonora singular, que representa um grande momento do compositor. Não é só a música-tema que fica perpetuando na mente, mas também toda a trilha, que deixa uma impressão muito marcante. Trabalho de mestre.

Powaqqatsi, por Philip Glass

Quem ouvir a trilha de Powaqqatsi, pode muito bem ficar com a pulga atrás da orelha. O álbum desperta a sensação de “já ouvi isso antes”. E já ouviu mesmo. Uma famosa composição, The Anthem, utilizada em O Show de Truman, é derivada daqui. Powaqqatsi é um álbum que já começa de forma super empolgante (a faixa de abertura, Serra Pelada, é impecável), mas não consegue sustentar o encantamento por muito tempo. É mais um ótimo resultado de Glass, mas não consegue se equiparar a Koyaanisqatsi. Sem falar, que possui algumas passagens que destoam do conjunto, como From Egypt.

Naqoyqatsi, por Philip Glass

Foi golpe baixo: Philip Glass resolveu produzir toda a trilha de Naqoyqatsi usando violinos como matéria-prima. O que ouvimos aqui não é nada menos que excepcional. Além de se igualar ao primeiro volume da trilogia, é bem possível que seja até superior. Glass realizou, em Naqoyqatsi, uma bela sucessão de composições geniais. Incrível como ele conseguiu fazer qualquer coisa com violinos, indo da tensão até o drama em questão de segundos. Escutar o que o compositor conseguiu na trilogia é obrigatório para qualquer fã de trilhas.

The Cove, por J. Ralph

Surpreendente trabalho de J. Ralph em A Enseada, provando que 2010 está sendo um ano muito significativo para as trilhas de filmes que chegam ao Brasil. Por mais que tenha 27 faixas, J. Ralph nunca perde a mão e consegue, frequentemente, inovar no seu estilo. É extremamente satisfatório ver como uma trilha tão elaborada dessas foi feita justamente para um documentário, gênero não muito apreciado pela maioria. Mais uma prova de que esse estilo de cinema tem sim grandes atrativos. O compositor pode se dar por satisfeito com o resultado alcançado, já que arrebentou no produto final.

The Ghost Writer, por Alexandre Desplat

Alexandre Desplat chegou em um momento da carreira onde até as suas trilhas mais convencionais possuem um ou outro momento de excelente inspiração. É o caso do trabalho em O Escritor Fantasma. Podemos até não ter uma música marcante, mas só de ouvir faixas como a música-tema ou The Truth About Ruth, já dá para notar que, mesmo com tantas trilhas, Desplat nunca perde o fôlego. Junto com a nebulosa fotografia, a boa parte musical é o que traz o tom certo para o filme de Roman Polanski.

Toy Story 3, por Randy Newman

Não sou fã das trilhas sonoras de Randy Newman. Acredito que elas podem até funcionar dentro do filme, mas, quando escutadas fora, não conseguem funcionar como apenas um produto musical. A trilha de Toy Story 3 é assim: tem um bom papel dentro do filme, mas chega a ser repetitiva e meio chata quando escutada fora dele. Claro que existem algumas faixas bem legais (a versão espanhola para You’ve Got a Friend in Me é ótima), mas, aos poucos, a repetição fica visível e o álbum não passa do convencional.

Em Busca de Uma Nova Chance

And then on the last day… he talked to me. And everything he said was exactly how I pictured it would be. And I was the happiest I’ve ever been. Happy and scared all at the same time.

Direção: Shana Feste

Elenco: Susan Sarandon, Pierce Brosnan, Carey Mulligan, Johnny Simmons, Michael Shannon, Miles Robbins, Zoë Kravitz

The Greatest, EUA, 2009, Drama, 99 minutos

Sinopse: No último dia de aula, Rose (Carey Mulligan) enfim consegue conversar com Bennett (Aaron Johnson), que a paquera desde o primeiro dia. Eles iniciam um romance arrebatador, onde um é o que o outro sempre sonhou. Só que, logo após terem sua primeira noite de amor, um caminhão atinge o carro em que estão. O acidente mata Bennett, o que coloca seus pais, Allen (Pierce Brosnan) e Grace (Susan Sarandon), além do irmão Ryan (Johnny Simmons), em choque. Três meses depois, Rose bate à porta da família Brewer para avisá-los que está grávida de Bennett.

O pôster nacional é algo cretino (o que não é novidade nos trabalhos de divulgação da Playarte), o trailer é clichê e a premissa não não poderia ser mais batida. É louco quem vai assistir Em Busca de Uma Nova Chance achando que o filme trará algo espetacular ou uma inovação nesse ramo tão explorado que é o drama de pais que perdem um filho. O cinema estrangeiro já deu um tapa na cara dos americanos com o impactante O Quarto do Filho. O cinema hollywoodiano bem que tenta, mas, em praticamente todas as vezes, não consegue chegar aos pés do filme do italiano Nanni Moretti.

Em Busca de Uma Nova Chance é mais uma dessas histórias melodramáticas que querem ser emocionantes. Ora, o filme funciona para aquela sua tia que acha que sempre usa o termo “bela fotografia” para elogiar um filme ou para aquela vovó que acha que todo filme de dramas familiares tem lições de vida muito bonitas. Ou seja, o longa-metragem de estreia da diretora Shana Feste agrada exatamente quem tem que agradar: aqueles desprovidos de criticismo e que conseguem acompanhar um amontoado de clichês repetitivos sem qualquer restrição.

Infelizmente, vai acumular a antipatia de todos que não consegue acompanhar um filme que sequer tem uma cena original. Aí está o problema de Em Busca de Uma Nova Chance: tudo é reciclagem e nada tem um pingo de novidade. O filme estreia no mesmo dia de Toy Story 3 aqui no Brasil. E, quem diria, um filme sobre brinquedos que tomam vida consegue arrancar várias lágrimas e um filme sobre a história de um casal que perdeu um filho em um trágico acidente não consegue nem emocionar. Falta emoção no trabalho de Shana Feste. Podia ter, ao menos, aquela sensação de guilty pleasure. Mas, nem isso chega a ficar muito presente.

Todavia, como já citado, é louco quem esperava algo mais de um filme como esses. Queria dizer que Em Busca de Uma Nova Chance merece ser visto por aqueles que curtem histórias assim, mesmo que com falhas. Não consigo. Sou fã confesso desses melodramas e não consegui me envolver com a história. Um filme desses precisa levar o espectador para o sofrimento dos personagens e não deixá-lo como mero observador da situação. Nós não sentimentos a dor dos personagens. Não o suficiente para torcer por eles. Reclamações à parte, é um filme que tem seus momentos.

A maioria deles se deve ao trabalho de duas ótimas atrizes. É certo dizer que Susan Sarandon e Carey Mulligan rivalizam com papéis óbvios e, por vezes, fora de tom. Contudo, ambas são ótimas atrizes e só a boa presença delas já deixa um certo ar de qualidade. A primeira, que parece ter se especializado em perder filhos no cinema, tem sempre a favor de si o fato de ter uma presença muito humana. A segunda, indicada ao Oscar por Educação, tem simpatia e desenvoltura, o que é fundamental para a aceitação do espectador. Os homens (Pierce Brosnan, o jovem Johnny Simmons e Michael Shannon, em rápida aparição), apesar de esforçados, não conseguem resultados sem falhas.

Não dá para achar explicações do porquê de Em Busca de Uma Nova Chance ter sido exibido nos cinemas e não ter sido lançado direto em dvd. Um filme comum desses não merecia espaço nas telonas. O ideal é vê-lo naquela noite de sábado onde não existe outra melhor opção. Pelo texto, pode parecer que eu destetei o debut de Shana Feste. Não é verdade. Na realidade, até defendo: ele não chega a ser ruim. Só me irrita demais o fato de uma história dessas não conseguir emocionar nem empolgar com as atrizes que tem em mãos e com a premissa que sempre funciona quando bem trabalhada. É, diretora, às vezes, infelizmente, experiência é fundamental para se achar o tom certo. Quem sabe na próxima?

FILME: 6.0