Cinema e Argumento

Eclipse

Well, I am hotter than you.

Direção: David Slade

Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Dakota Fanning, Bryce Dallas Howard, Anna Kendrick, Xavier Samuel

The Twilight Saga: Eclipse, EUA, 2010, Aventura, 124 minutos

Sinopse: Bella Swan (Kristen Stewart) precisa enfrentar as consequências de ser amiga do lobisomem Jacob Black (Taylor Lautner) e namorada do vampiro Edward Cullen (Robert Pattinson). Ao mesmo tempo, a moça se vê aterrorizada por uma misteriosa onda de assassinatos em Seattle e o fato de estar sendo perseguida por uma vampira.

Durante toda o histórico cinematográfico de Harry Potter, vários diretores comandaram a saga do menino que sobreviveu. É claro que alguns momentos foram marcantes e outros bem superficiais. Contudo, sempre existia algo de novo a cada filme. Podia ser uma direção inovadora (Alfonso Cuarón) ou então uma interpretação-surpresa, como Imelda Staunton. Não é o que acontece com a saga Crepúsculo. A qualidade (ou melhor, falta dela) dos longas é estagnada. Parece que todos os filmes falam do mesmo assunto e que os erros nunca se apagam – pelo contrário, só se acentuam.

Chegando em seu terceiro capítulo, a história de amor entre Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson) apresenta algo muito curioso: tudo o que foi apresentado nesses três filmes poderia muito bem ter sido resumido em um longa-metragem de 90 minutos. Claro que isso é proveniente de um produto literário igualmente incompetente, mas, muitas vezes, já vimos no cinema que um diretor é capaz de ter autonomia e criar um filme que se diferencie (para melhor, claro) do texto original. Entretanto, reclamar desses aspectos da saga é cair no lugar-comum.

Todo mundo sabe que o elenco é pavoroso, que os acontecimentos são superficiais, que os questionamentos dos personagens são risíveis e que o filme não faz a mínima questão de se dar ao respeito e criar algo inspirado. Portanto, resta, apenas, avaliar Eclipse de forma individual, sem fazer paralelos com os habituais defeitos que todos nós já conhecemos. O terceiro volume, na realidade, é o mais movimentado. Mas, ao mesmo tempo, não se livra de tomadas entediantes. Acompanhamos uma alternância entre tédio e aventura que não causa interesse algum.

Antes a aventura mal realizada fosse o principal problema de Eclipse. O maior defeito do filme de David Slade é a protagonista Bella Swan e a sua intérprete, Kristen Stewart. Não exclusivamente da péssima atuação da atriz, mas também do que a personagem representa. Dá nos nervos ver como todo mundo ama e protege Bella. Equipes são montadas apenas com o intuito de protegê-la e os dois pretendentes da moça estão o tempo inteiro de implicância só para ficar com ela. Pretextos idiotas surgem na tela apenas com o intuito de acirrar essa disputa dos dois pelo amor da mocinha. Mas, afinal, o que enxergam de tão extraordinário nessa garota antipática, tapada e sem expressão para esse alvoroço todo?

É notável, também, como o roteiro não faz a mínima questão de esconder a falta de conteúdo. Cerca de metade do longa é sobre “gosto de você ou não gosto?”, “beijo ou não beijo?”, “caso ou não caso?”, “transo ou não transo?”. São situações que testam a paciência de qualquer um, principalmente quando encenadas por atores tão ineficientes. Se Stewart e Pattinson mantiveram o título de pior casal da atualidade, Lautner – que era o menos pior do filme anterior – agora aparece com uma representação igualmente irritante e sem expressão. É uma história que se resume a conflitos bobos, atuações sem expressão, momentos de ação que praticamente não funcionam e um amadorismo impressionante no texto.

Eclipse é isso: um filme mal realizado e que repete (ou melhor, amplia) tudo o que já tinha dado errado antes. Não adianta trocar o diretor, tudo continua se repetindo. Mas, quem somos nós para irmos contra uma produção que arrecada fortuna nas bilheterias e move milhões de pessoas, todos os anos, para o cinema? Somos aquela minoria que é conhecida como chata e implicante. Aquela minoria que não é e nunca será ouvida. O que nos resta a fazer? Desistir. E isso foi exatamente o que eu decidi depois que terminei de assistir Eclipse. Bella e Edward nunca mais verão a cor do meu dinheiro.

FILME: 4.5


Na coleção… Bobby

Qual foi o último filme que tinha milhares de nomes famosos no elenco e que deu completamente certo? Nine e A Grande Ilusão é que não foram. Bobby também não. Mas, ao contrário do vazio musical de Rob Marshall e da mal realizada refilmagem estrelada por Sean Penn, o filme de Emilio Estevez tem um resultado satisfatório. O destaque, sem dúvida, é o elenco. Contudo, é injusto resumir esse filme a um produto apenas de atores.

Bobby narra a história de 22 pessoas que estiveram no hotel Ambassador no dia em que Robert F. Kennedy foi assassinado no local. 22 pessoas. Um número exagerado de personagens, não? É isso que não deixa Bobby ser um filme melhor. Não conhecemos nenhuma figura a fundo e sempre fica aquela sensação de que um ou outro personagem que nos causou mais simpatia merecia um destaque maior. Só que, infelizmente, Emilio Estevez não é nenhum Paul Thomas Anderson para contar várias histórias sem se perder.

Apesar desse problema, certos atores conseguem chamar mais atenção. Sharon Stone como a cabeleireira traída pelo marido, Demi Moore como a alcóolatra cantora, Freddy Rodriguez como o mexicano fã de baseball e Helen Hunt como a esposa riquinha são exemplos de personagens que nos passam bons momentos. Por um outro lado, os dois estudantes que procuram drogas e as telefonistas do hotel já não desperam interessante. Portanto, dentro do possível, os atores se saem muito bem.

Excetuando o elenco, Bobby também tem outros atrativos. As cenas que trazem filmagens reais de Kennedy são um achado. Não só são bem intercaladas com as filmagens de atores, como também trazem ótimas reflexões. Os momentos finais, com a narração de Kennedy sobre a ameaça irracional da violência são exemplares. Ou, também, a cena em que acompanhamos a admiração do público por Kennedy ao som de The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel.

Esse é um filme que decepciona por ser apenas satisfatório. Infelizmente, a grande quantidade de atores famosos não foi o suficiente para que Bobby conseguisse ir além. É um retrato interessante, mas que é prejudicado por uma foco narrativo descentralizado demais. Com isso, acompanhamos uma história de qualidades, mas que nunca chega a ser notável como poderia ter sido. A boa notícia é que, apesar da decepção, Bobby é um bom filme.

FILME: 7.5

Conheça o “Sala de Cinema”

O projeto do “Sala de Cinema” já existia desde o ano passado. Quando entrei na faculdade de jornalismo e fiquei sabendo que era possível gravar programas na rádio da instituição, logo tive o desejo de fazer um programa sobre a sétima arte. Como eu ainda não era familiarizado com o cotidiano de rádio, não coloquei meu plano em prática. Agora, no terceiro semestre de faculdade, que é dedicado ao rádio, entrei de cabeça no projeto. Eu e meu colega cinéfilo Luan Pires criamos o “Sala de Cinema”, um programa semanal com notícias, comentários sobre estreias da semana e filmes em dvd, além de músicas e dicas de outros cinéfilos.

O “Sala de Cinema” já está na sua décima edição. Resolvi divulgar só agora aqui no blog porque procurei mostrá-lo quando ele já estivesse estável na programação da webradio da faculdade. O programa dessa semana foge do formato habitual do programa e traz um bate-papo com a professora e jornalista Laura Glüer. O tema da troca de ideias é o jornalismo no cinema. Aqui, podem ser conferidos comentários sobre filmes como Leões e Cordeiros, Frost/Nixon, Boa Noite e Boa Sorte, A Rainha, entre outros. Para ouvir, basta clicar aqui. No player disponível abaixo da arte do programa, você confere a edição dessa semana. Para ouvir outras edições, basta clicar em “Ouvir os programas anteriores”. Conto com a audiência de vocês. Dúvidas e sugestões? Basta comentar aqui ou lá mesmo!

Filmes em DVD

Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio

Documentário

Narrando, sem palavras ou diálogos, o descompasso entre as grandes metrópoles e a natureza, o documentário Koyaanisqatsi usa apenas trilha e imagens para transmitir a sua mensagem. O curioso é que, com essa estrutura, o trabalho do diretor Godfrey Reggio consegue ser muito mais interessante do que vários filmes desse gênero. A harmonia entre trilha e imagem consegue ser, inclusive, impactante artisticamente. Philip Glass, em mais um momento espetacular, traduz toda a força da mensagem em suas melodias que variam entre a melancolia e a sensação frenética.  Méritos também, claro, para a ótima montagem. Koyaanisqatsi é um filme para poucos. No entanto, é impossível fica indiferente com tal experiência.

FILME: 8.5

Powaqqatsi, de Godfrey Reggio

Documentário

A segunda parte da trilogia “qatsi”, iniciada com o ótimo Koyaanisqatsi, já não se mostra tão impactante ou especial nesse segundo volume. Powaqqatsi parece ser apenas um retrato sem ousadias da cultura e das dificuldades de países pobres. A trilha de Philip Glass continua em ótimo momento e a fotografia permanece bela. Porém, falta uma sincronia maior entre os setores audiovisuais. Música e imagem não parecem tão bem balanceados como em Koyaanisqatsi. Fica a sensação de que são apenas imagens embaladas, sem qualquer pretensão, por músicas. Isso, de certa forma, tira o potencial do filme e deixa Powaqqatsi apenas no nível do satisfatório.

FILME: 7.5

Naqoyqatsi, de Godfrey Reggio

Documentário

Tecnologia é o assunto de Naqoyqatsi, último volume da trilogia “qatsi”. Para isso, o diretor Godfrey Reggio resolveu colocar efeitos de computador em praticamente todas as imagens. São vários efeitos visuais, variações de cor e alternância de tecnologias. Esteticamente interessante, conseguiu ser melhor que o volume anterior, Powaqqatsi, mas não conseguiu alcançar o mesmo nível de impacto e hipnose de Koyaanisqatsi. O último capítulo tem a seu favor o fato do jogo de imagens computadorizadas ser bem interessante e de ter uma trilha sonora espetacular. Philip Glass sempre está ótimo, mas aqui ele aposta em violinos, o que traz uma diferente sonoridade para o resultado. Naqoyqatsi é vítima do formato, que já não surpreende mais, mas não merece desprezo em função disso.

FILME: 8.0

A Carta, de William Wyler

Com Bette Davis, Herbert Marshall e James Stephenson

Esse é um dos filmes mais simples da carreira de Bette Davis. A Carta conta a história de uma mulher (Davis), que comete um crime e quer, a todo custo, ser inocentada. O filme segue os caminhos mais comuns e não traz grandes inovações. Mas, para a época, apresenta alguns aspectos bem marcantes. A própria personagem de Davis, por exemplo, que é convicta de cada palavra que está dizendo, mas que também um pouco dissimulada por dentro. A Carta, apesar de convencional, tem como coringa a ótima interpretação da atriz – que, mais uma vez, empresta sua representação de mulher geniosa e misteriosa para a personagem. O final é um pouco insatisfatório (e diria até um pouco negativo demais e fora de tom), mas nada que apague a prazerosa experiência que é ver Davis atuando novamente.

FILME: 8.0

É Proibido Fumar, de Anna Muylaert

Com Glória Pires, Paulo Miklos e Marisa Orth

É Proibido Fumar foi o grande vencedor desse ano do Grande Prêmio de Cinema Brasileiro. Devido ao estranho resultado da lista de indicados, o filme mereceu a vitória (antes ele do que Se Eu Fosse Você 2 ou A Mulher Invisível), mas, fica longe do excelente resultado de À Deriva. Esse filme de Anna Muylaert é bem convencional em todos os aspectos, tanto no roteiro linear quanto na simples técnica. Ainda assim, é uma história que funciona. Talvez, seja mais em função da presença da ótima Glória Pires (cuja melhor cena é aquela em que fala do bolo de sua falecida tia). Portanto, é fácil constatar que É Proibido Fumar é uma produção comum, mas que também funciona com muita facilidade.

FILME: 7.5

O Solista, de Joe Wright

Com Robert Downey Jr., Jamie Foxx e Catherine Keener

Mesmo que Desejo e Reparação seja um trabalho espetacular, nunca colocaria a mão no fogo por Joe Wright. Ao passo em que ele alcança resultado fenomenais, como no filme anteriormente citado, também consegue construir filmes monótonos e convencionais como O Solista. Dessa vez, o problema não foi nem Robert Downey Jr. (sem os seus maneirismos de sempre) ou Jamie Foxx (o ator que foi da excelência para a canastrice no mais curto espaço de tempo), mas sim o roteiro lento e quadrado. Todo mundo já está cansado de ver longas sobre pessoas talentosas mas que possuem problemas pessoais ou alguma doença que os impedem de ir a frente com o seu dom. O Solista conta toda essa ladainha de novo. E sem a menor originalidade.

FILME: 6.0

O Golpista do Ano

Direção: Glenn Ficarra e John Requa

Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Rodrigo Santoro, Leslie Mann, Allen Boudreaux, Marylouise Burke, Clay Chamberlin, Tommy Davis

I Love You Phillip Morris, EUA/2009, Comédia, 102 minutos

Sinopse: Steven Russell (Jim Carrey) é um policial texano que decide assumir sua homossexualidade. Porém logo ele descobre que, para ser gay, é preciso ter muito dinheiro. Ele passa a realizar diversas trapaças e fraudes, de forma a manter seu alto padrão de vida. Ao ser preso, Steven é levado a uma penitenciária estadual. Lá ele conhece Phillip Morris (Ewan McGregor), seu companheiro de cela, por quem se apaixona. A partir de então Steven passa a fugir e ser preso diversas vezes, sempre agindo em nome de seu amor.

Um dos destinos mais cruéis que um filme pode ter é ser fadado ao fracasso em função de uma propaganda errada. Vejam O Golpista do Ano, por exemplo: estrelado por Jim Carrey, cartazez toscos e trailer enganador. Toda publicidade envolvendo o filme indicava uma típica comédia-pastelão estrelada por Carrey. De certa forma, temos aqui um filme estruturalmente cômico, mas que esconde muitos outros aspectos dentro do roteiro.

Se O Golpista do Ano pode ser considerado um Prenda-Me Se For Capaz gay, também devemos analisar outras facetas da trama. Existe romance e até momentos densos dramaticamente (principalmente nos momentos finais, quando o roteiro impõe uma grave doença a um personagem). Dá para destacar, iclusive, uma ou outra estranha cena de sexo – essas cenas, por sinal, são curiosas, pois não sabemos se devemos levá-las a sério ou rir.

Mas, a verdade é que O Golpista do Ano trata sobre a história de um homem que perde tudo na vida porque não consegue parar de mentir. Chega a ser angustiante ver alguém que tem tudo o que desejava em mãos e que simplesmente joga tudo para o alto porque não tem forças para lutar contra o hábito da mentira. Nesse sentido, o filme de Glenn Ficarra e John Requa acerta. Mesmo que sem profundidades.

É a mistura de gêneros que causa estranheza nesse filme. Comédia, drama e romance parecem estar visivelmente separados. Portanto, a cada momento, acompanhamos um tipo diferente de abordagem. Essa alternância incomoda bastante e prejudica o andamento de O Golpista do Ano. Mais do que tudo, causa afastamento naqueles que procuravam um filme qualquer estrelado por Jim Carrey. Se fosse mais simplista e apostado nesse formato, talvez tivesse sido melhor aceito.

O Golpista do Ano é para ser visto sem preconceitos. É verdade que o filme tem um tratamento cômico na maior parte do seu tempo, mas ele também sabe respeitar o romance homossexual que está sendo mostrado em cena. Existe o momento de rir e o momento de levar a sério a história dos personagens de Carrey e Ewan McGregor (o maior destaque do elenco). Quem não consegue ter esse discernimento, deve passar longe. Aliás, serão os poucos que conseguirão entrar no clima. Que lástima, já que o filme, mesmo com problemas é assistível e tem seus atrativos…

FILME: 7.5