Cinema e Argumento

A trilha sonora de… A Origem

Desde que produziu Batman Begins, as trilhas dos filmes de Christopher Nolan seguiram o mesmo estilo. Se nas produções do justiceiro mascarado Hans Zimmer fazia dupla com James Newton Howard, aqui em A Origem ele assume sozinho o cargo de compositor. Não sei foi a ausência de Howard, mas o resultado não foi inspirado. De maneira alguma questiono a habilidade de Zimmer e muito menos desprezo o que ele consegui fazer em A Origem. No entanto, esse álbum parece mais uma reciclagem de outras trilhas dos filmes de Nolan. O mesmo estilo, a mesma sonoridade e o mesmo ritmo. Interessante? Sim. Mas, se for para ouvir repetições, prefiro revisitar  o maravilhoso momento musical de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Para fazer o download da trilha de A Origem, clique aqui.

1. Half Remembered Dream

2. We Built Our Own World

3. Dream is Collapsing

4. Radical Notion

5. Old Souls

6. 528491

7. Mombasa

8. One Simple Idea

9. Dream Within a Dream

10. Waiting for a Train

11. Paradox

12. Time

Mr. Nobody

There comes a time in life where everything seems narrow. Choices have been made. I can only continue on. I’ve done everything to reach this point and now that I’m here, I’m fucking bored. The hardest thing is knowing whether I’m still alive.

Direção: Jaco Van Dormael

Elenco: Jared Leto, Sarah Polley, Diane Krueger, Rhys Ifans, Linh-Dan Pham, Natasha Little, Juno Temple, Daniel Mays, Michael Riley

Canadá, 2009, Drama/Ficção Científica, 138 minutos

Sinopse: Em um futuro não muito distante, Nemo Nobody (Jared Leto) tem 120 anos de idade e é o último mortal a conviver com as pessoas imortais. Durante esse período, ele relembra os seus anos reais e imaginários de casamento.

Como você sabe que está assistindo um filme marcante na sua vida? Bom, eu identifico da seguinte maneira: quando, durante o filme, olho para o relógio e começo a desejar que o tempo nunca passe, pois nunca mais aquilo que está sendo reproduzido na tela será inédito para mim. Quero manter o encatamento e ficar, para sempre, com aquela sensação de que cada cena me surpreende. Foi exatamente assim que me senti ao assistir Mr. Nobody, uma produção do ano passado que até agora não tem título nem futuro definido no Brasil.

Mr. Nobody não é uma produção grandiosa e nem foi comandado por um diretor que todo mundo elogia horrores mesmo quando o resultado não é nada demais. Também, não encontramos aqui atores consagrados ou uma produção que acumulou inúmeros prêmios. O filme, na realidade, tem um caráter independente e até hoje passa despercebido em todos os cantos do mundo. É o caso de uma injustiça sem tamanho. Mr. Nobody, além de ser um filme que funciona em todos os aspectos, transborda originalidade.

Pode-se imaginar que o nome do diretor Jaco Van Dormael seja o de um iniciante. Mas, não é. Esse belga de 53 anos de idade já ganhou prêmio em Cannes e ainda foi indicado ao BAFTA e ao Leão de Ouro em Veneza (nesse caso, por Mr. Nobody). Os maiores méritos dessa produção estrelada por Jared Leto são praticamente todos de Van Dormael. Ele, que dirigiu e escreveu o roteiro, demonstra absurda genialidade na realização desse projeto. A própria história, que une ficção e drama, e também a dinâmica direção são o ponto alto.

É uma história sobre possibilidades e sobre como nossas vidas podem ser diferentes caso uma escolha seja diferente. Mas, comentar qualquer coisa sobre o enredo de Mr. Nobody é estragar a completa surpresa que ele traz. Tanto, que não consigo expressar muito bem tudo o que esse filme me passou. Não falei metade dos elogios que eu poderia falar e muito menos de alguns tropeços que noto em certos momentos (e que nem chegaram a me incomodar). Acho que apenas uma frase já basta: um dos filmes da minha vida.

FILME: 9.0


Filmes em DVD

A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz (revisto)

Com Bette Davis, Anne Baxter e George Sanders

A Malvada é um dos melhores filmes que trata sobre os bastidores da vida artística. Ao narrar a vida de Margo Channing (Bette Davis, em desempenho emblemático), que é ofuscada pela chegada de uma interesseira fã chamada Eve Harrington (Anne Baxter, ótima), o diretor Mankiewicz criou um dos filmes mais bem sucedidos da história do cinema. Recordista de indicações ao Oscar (são 14, ao total), A Malvada é uma aula de como fazer um filme acertar em todos os aspectos. Se na maioria dos filmes de Bette Davis ela é a estrela máxima, aqui isso não acontece. Ela não brilha sozinha. O filme todo é uma sucessão de acertos.

FILME: 8.5

Frost/Nixon, de Ron Howard (revisto)

Com Michael Sheen, Frank Langella e Sam Rockwell

Frost/Nixon nem parece ser um filme de Ron Howard. Quer dizer, é tão bem realizado que fica a dúvida se foi o formulaico Howard mesmo que dirigiu. Ainda assim, não é um filme que necessariamente me empolgue como cinema. Mas, por um outro lado, admiro demais toda a faceta jornalística da história. É nesse tratamento que Frost/Nixon encontra a sua força. O embate na entrevista  entre os personagens de Michael Sheen (subestimado, diga-se de passagem) e Frank Langella é o ponto alto. Considere, também, uma excelente montagem e uma ótima trilha sonora de Hans Zimmer.

FILME: 8.0

Feitiço da Lua, de Norman Jewison

Com Cher, Nicolas Cage e Olympia Dukakis

Cher foi a última atriz a vencer um Oscar de protagonista por um filme de comédia. Feitiço da Lua funciona com bastante segurança, mas, por outro lado, não justifica a celebração em torno de Cher. Ela, que alcançou uma vitória duvidosa (concorria com Glenn Close e Meryl Streep), está realmente ótima. Mas, será mesmo que era digna de tantos aplausos? Não se formos levar em consideração tantas outras atrizes que ganharam por filmes comuns e por atuações sem qualquer grandeza… Falando um pouco do filme, Feitiço da Lua é uma comédia romântica extremamente agradável e que encontra no carisma dos personagens a sua maior força. Uma história simples, mas que conquista por ser exatamente assim.

FILME: 8.0

De Repente, Califórnia, de Jonah Markowitz

Com Trevor Wright, Brad Rowe e Tina Holmes

Certos filmes querem tanto escapar dos clichê que terminam rasos e superficiais. É o caso de De Repente, Califórnia, um filme gay que não tem aquele tratamento repetitivo que sempre vemos no cinema. No entanto, na tentativa de fazer algo diferente, não conseguiu ir muito longe. Até dá para entrar na história e simpatizar com a relação dos dois, mas nenhum conflito trabalhado no roteiro tem grande repercussão. Tudo é passageiro e resolvido em questão de instantes. Tanto, que o maior conflito de De Repente, Califórnia é a complicada relação do protagonista com sua irmã, que é uma mãe relapsa e joga toda a responsabilidade que ela deveria ter com o filho para o irmão. Portanto, não é nem a auto-aceitação do personagem ou o relacionamento homossexual a principal engrenagem de De Repete, Califórnia. É um filme assistível e sutil, mas que tem medo do próprio tema e foge da responsabilidade de aprofundar o seu verdadeiro assunto principal.

FILME: 6.5

Ela é o Diabo, de Susan Seidelman

Com Roseanne Barr, Meryl Streep e Ed Begley Jr.

O primeiro pensamento que tive quando estava assistindo Ela é o Diabo foi que o filme tem, realmente, um formato de clássico da Sessão da Tarde. Mas, vale lembrar que nem todo filme que funciona nesse programa da rede Globo precisa necessariamente funcionar em dvd, por exemplo. Esse filme de Susan Seidelman tem seus atrativos quando exibido na TV, mas ao ser conferido mais criteriosamente em DVD, fica claro que ele tem inúmeros defeitos. Pode ser a trilha exagerada, a história inverossímil ou a direção irregular. A verdadeira protagonista, Roseanne Barr, também não faz muita coisa. O destaque, na realidade, fica com Meryl Streep e Ed Begley Jr. Ele está impagáel como o típico homem cafajeste, enquanto Streep já demonstrava talento cômico para interpretar megeras. Se não fosse pelos dois, o filme seria mais irregular do que já é.

FILME: 6.0

Cadê os Morgan?, de Marc Lawrence

Com Sarah Jessica Parker, Hugh Grant e Elisabeth Moss

Se um filme lembra Recém Chegada, já é um péssimo sinal. Mesmo que Cadê os Morgan? não seja tão desprezível quanto essa péssima comédia estrelada por Renée Zellweger, chega quase no memo nível de erros. Mas, por razões diferentes. Por exemplo, o filme de Marc Lawrence tem um humor besta como Recém Chegada, mas possui uma história absurdamente vazia, um casal que não combina em momento algum e reflexões que chegam a causar sono de tão previsíveis. Parker, que só está no mundo das comédias porque deu sorte com Sex and the City (além de ser estranha, não tem vigor para comédias no cinema) não consegue ter química com Hugh Grant (que está reduzido sempre ao mesmo papel de homem engraçadinho e sarcástico). Esse é o principal problema do filme. Além de Cadê os Morgan? não fugir do bobo esquema de gente rica e mimada indo para a roça, tem um casal totalmente fora de sintonia…

FILME: 5.5

Ma Mère

Direção: Christophe Honoré

Elenco: Louis Garrel, Isabelle Huppert, Emma de Caunes, Joana Preiss, Jean-Baptiste Montagut, Dominique Reymond, Olivier Rabourdin

Ma Mère, França, 2004, 110 minutos

Sinopse: Pierre (Louis Garrel), um adolescente de 17 anos, tem um amor cego pela mãe, (Isabelle Huppert) mas ela não está disposta a assumir o que o filho projeta dela. Recusando a ser amada por aquilo que não é, ela decide quebrar o mistério e revelar sua verdadeira natureza – a de uma mulher para quem a imoralidade se tornou um vício. Pierre pede para ser iniciado por ela e deixa-se levar até ao limite em jogos cada vez mais perisogosos.

O cinema do diretor Christophe Honoré nunca me conquistou. Apesar de alguns trabalhos até terem certos pontos interessantes, todos possuem aquele ar de “quero ser cult”. Problemas com filmes cults não tenho. Só acho uma pena quando alguma produção quer, a todo custo, se encaixar nesse perfil e não consegue. A maioria dos filmes de Honoré é assim. Mas, esse Ma Mère ultrapasa certos limites para conseguir essa classificação. Protagonizado por duas estrelas do cinema francês (a veterana Isabelle Hupert e o astro do momento, Louis Garrel), o longa-metragem se perde nas próprias pretensões.

Filmes onde filhos se atraem pelas mães sempre causam desconforto. Não exclusivamente pela temática, mas porque os roteiros não traduzem os conflitos de maneira satisfatória. Pecados Inocentes, por exemplo, falha ao ser frio e distante. O mesmo pode se dizer de Ma Mère, que não alcança nenhum momento inspirado. Mas, ao contrário do filme estrelado por Julianne Moore, o longa de Honoré usa e abusa de sexo para querer impactar o espectador. É fácil notar que o impacto está nas cenas de sexo e não no conteúdo.

O elenco é outro problema. Todos parecem perdidos ou inexpressivos com o roteiro mal elaborado. Nunca pensei que ia dizer isso na vida, mas Isabelle Hupert está completamente sem vida e tem pouco a fazer como a mãe do protagonista. Falta aquele vigor de personagem complexo ou a sexualidade repreendida de A Professora de Piano. Louis Garrel, apesar de linear, nunca esteve tão ineficiente. É o caso onde dois aspectos ruins (a direção e o roteiro) conseguem tirar força até mesmo daquilo que poderia ser um atrativo que salvasse o resultado final.

Ma Mère, portanto, confirma Christophe Honoré como um dos diretores mais trabalhadores do cinema francês (difícil achar algum outro diretor que lance filmes com a mesma frequência que ele), mas que não sabe equilibrar quantidade com qualidade. Na verdade, talvez não seja nem esse o problema. Provavelmente, já tenha passado da hora de Honoré perceber que nem tudo o que ele realiza tem o poder de ser cult ou inteligente. Existe uma linha muito tênue entre esses dois aspectos e a prentensão que é capaz de afundar um filme.

FILME: 5.0


Na coleção… Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Não gosto quando dizem que Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças é um filme romântico. Devo concordar, claro, que acompanhamos a trajetória de um casal. Mas, ao meu ver, o filme de Michel Gondry é mais sobre as dores trazidas por um relacionamento do que sobre os momentos de paixão de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet). Além de não ser uma produção do típico romance idealizado pelo cinema, conta a história com uma abordagem inovadora e diferente – o que é algo que pode despertar a idolatria em certo público e o afastamento em outro.

Quando Joel descobre que sua ex-namorada Clementine resolveu apagá-lo da memória através de um programa criado pelo dr. Howard Mierzwiack (Tom Wilkinson), ele também resolve fazer o mesmo. Mas, no meio do procedimento (que consiste em fazer o paciente reviver as memórias), Joel se arrepende de ver os momentos que passou com Clementine sendo apagados de sua memória e começa a fazer de tudo, dentro da própria mente e do corpo “anestesiado”, para impedir esse acontecimento.

Não é fácil gostar de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Não fui um grande fã do filme logo na primeira vez que o assisti. No entanto, algo é fundamental: rever o longa-metragem em diferentes momentos da vida. Não é somente uma história que vai fazer você perceber coisas novas a cada revisão, mas também vai mostrar o quanto você aprendeu com a vida (mais especificamente com os relacionamentos) desde a última vez que você o assistiu. Temos, portanto, algo raro: o tempo e a vida fazem, com o passar dos anos, que o filme se torne cada vez mais admirável. É uma produção que entende o espectador. E, acima de tudo, que consegue transmitir isso para quem o assiste.

Falando um pouco mais do resultado em si, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças também tem outros aspectos notáveis além do enredo. A fotografia gélida (que, inclusive, pode passar a sensação de que o filme é, de fato, frio), a montagem bem arquitetada ou os próprios efeitos chamam muito a atenção… Mas, sem dúvida, o destaque maior é do casal principal. Kate Winslet, em mais um momento inspirado, cria uma personagem maravilhosa. Agora, quem mais merecia créditos pelo filme era Jim Carrey. Não só está no seu melhor momento, como também apresenta uma das interpretações mais interessantes dos últimos anos. Brilho Eterno, no final, causa estranhamento e uma sensação de que vimos um filme completamente diferente… e cheio de qualidades.

FILME: 9.0