Pedro brinca que ele é a “forma do filme”, enquanto eu sou o “sentido do filme”, fazendo referência aos escritos de Eisenstein e tecendo a tese de que, ao falar sobre filmes, costumamos observá-los de formas distintas. Em grande parte, acredito nisso, mas, quando leio o que ele escreveu sobre três de suas performances favoritas no cinema aqui para a coluna, imediatamente discordo. Seja falando sobre Perkins, Kidman ou Nicholson, Pedro carrega consigo muito de sentido e sensibilidade. Eu e ele nos conhecemos há quase 20 anos, quando nos encontramos pela primeira vez em 2007 para assistir a Ratatouille. Desde então, com os anos e as horas entre nós, sempre preservamos uma ligação e uma amizade que, para além das afinidades cinematográficas, estendeu-se para à vida como um todo. Tê-lo aqui é muito simbólico, um desejo que tenho há muitos anos – e que agora, enfim, se materializa. Obrigado por tudo, brother!
Anthony Perkins (Psicose)
Acredito que tenho um fraco por atores (artistas em geral) que sejam estigmatizados tanto na vida real quanto pelo seu personagem mais conhecido. É o caso de Perkins, que foi durante a vida estigmatizado – a encarnação (sim, porque é algo além da interpretação) que ele fez de Norman Bates no maior clássico de Hitchcock que rendeu ao ator não só o ápice da sua carreira, mas, ao mesmo tempo, a sua “condenação”. Seus papéis anteriores, como o mocinho galã, vistos hoje em dia, chegam a ser cômicos, inverossímeis. Então, foi a caracterização do psicopata dependente emocional da mãe em Psicose, tão convincente e visceral, que o impediu de ter qualquer outro sucesso em sua vida. Resultado: terminou seus dias reprisando por mais três vezes o personagem em sequências do original de qualidade muito duvidosa. Fora das telas, é bom ser lembrado que Perkins também foi estigmatizado por coisas que ainda são alvos de preconceito nos dias de hoje: o gay que não pode se assumir, faz a “terapia da cura gay” e acaba tendo filhos contra sua vontade (Oz Perkins, o atual famoso diretor de terror, de Longlegs: Vínculo Mortal e O Macaco, para citar alguns) e também ter terminado seus dias com o grande estigma do HIV do final dos anos 1980, falecendo de complicações da AIDS em 1992. Como se a tragédia fosse pouca, a sua esposa da época (mãe de Oz) ainda faleceu nos atentados de 11 de setembro de 2001. Ela estava a bordo do primeiro avião a se chocar com as torres gêmeas.
Nicole Kidman (As Horas)
Até hoje acho ofensiva a entrega do Oscar feita por Denzel Washington a Nicole Kidman por seu trabalho em As Horas. Não foi “por um nariz”, como o ator declarou, em tom humorístico. O drama de 2002 dirigido por Stephen Daldry é, na minha opinião, o mais intimista, pessimista e psicologicamente denso já feito. Uma adaptação literária que parece ter sida pelo próprio autor do romance, de tão precisa. É natural que pessoas com tendências a serem introvertidas consigam se identificar com a Virginia Woolf que Kidman entrega aqui. A atriz mergulhou tão profundamente na personagem real – e não só aquela que está na obra As Horas, de Michael Cunningham, mas também na Virginia da vida real – que é algo muito indissociável onde termina Nicole em cena e onde começa Virginia. E ser a pedra fundamental de uma história que, baseada nela, entrega outras duas personagens tão impactantes (interpretadas por Julianne Moore e Meryl Streep) faz com que possamos nos dar conta de que essa Nicole Kidman aqui, no seu auge (tinha há pouco trabalhado até com Kubrick à época), mereceu aquele Oscar em 2003 por muito mais do que somente “um nariz”. Foi a coroação de não somente interpretar a musa dos deprimidos, a autora Virginia Woolf, mas de ter acabado se tornando a própria em tela.
Jack Nicholson (As Confissões de Schmidt)
O personagem que consigo, em toda a história do cinema, relacionar a mim mesmo. Simples assim. Todos temos aquele “velho aposentado” que mora dentro de nós, mas assumo que eu particularmente quase sempre vivi assim dia após dia. A vida é um equilíbrio desequilibrado de drama e comédia, de situações que nos envolvemos sem que pedíssemos, de ter que lidar com familiares que não pedimos para ter de levar um “tapa na cara” das pessoas que confiamos. Momentos de raiva (vamos jogar as roupas da Helen no lixo reciclável) e de profunda tristeza (vou passar todos os cremes da Helen no rosto). Momentos de ira completa (falando do “cocky bastard” do novo genro) na comunicação com a mesma pessoa em que a fragilidade do ser humano mais se mostra (o desenho feito por Ndugu). De uma forma incrivelmente hábil, Alexander Payne dirige esse filme como se fosse um carro em uma estrada cheia de cones, variando do profundo drama ao humor ácido (a parceira de uma vida morre, mas eu odiava todos os seus modos, então vamos comprar um caixão azul porque é mais barato). Simplesmente a cada dia que acordamos, não escolhemos simplesmente se o nosso dia será dramático, se será uma comédia, se passaremos medo, se estaremos ansiosos por algo. O Warren Schmidt de As Confissões de Schmidt entrega para nós esse cotidiano: o que virá pela frente?