
Em formato de longa-metragem, Heartstopper: Para Sempre encerra a bem-sucedida série da Netflix.
ALPHA (idem, 2025, de Julia Ducournau): Após ter levado a Palma de Ouro no Festival de Cannes com todo o furor causado por Titane, a francesa Julia Ducournau volta ao comando de um longa-metragem, mas sem o mesmo frescor ou a mesma provocação que a consagraram na Croisette. Diante de Titane, Alpha esmorece em todos os sentidos, inclusive no que tange ao horror corporal, aqui explorado por meio de uma epidemia que, aos poucos, petrifica os seres humanos. Ducournau tem ideias rasas para explorar leituras que, por óbvio, remetem à AIDS ou à própria Covid-19. A intolerância humana diante do desconhecido, a falta de preparo para lidar com uma crise emergente de saúde e o isolamento social imposto aos possíveis infectados são conflitos que carecem de originalidade e, da forma que se apresentam, talvez pudessem causar algum impacto décadas atrás. Hoje, Alpha dá a impressão de ser um filme requentado, como se nascesse de um projeto engavetado há muitos anos e desatualizado desde então. Entre o coming-of-age, o drama familiar e o body horror, o longa tampouco parece saber onde centrar-se, causando verdadeira curiosidade apenas quando explora esteticamente a petrificação dos corpos, construída pelos trabalhos exemplares de maquiagem e efeitos visuais. Créditos também devem ser dados à boa interpretação da jovem Mélissa Boros. São pontos positivos que nos lembram como Alpha não chega a ser ruim, apenas repleto de lugares-comuns — a última coisa que eu esperaria de quem causou tudo, menos indiferença em seu filme anterior.
BLUE MOON: MÚSICA E SOLIDÃO (Blue Moon, 2025, de Richard Linklater): É quase como se não tivesse existido no Brasil este mais recente filme de Richard Linklater que chegou muito discretamente ao catálogo da HBO Max em junho passado, sem ter passado pelas salas de cinema. Pois trata-se de uma injustiça, a começar pelo desempenho de Ethan Hawke, talvez em seu melhor momento. Ele interpreta o lendário letrista Lorenz Hart, que, passando a noite em um bar, tem sua autoconfiança colocada à prova quando seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) chega ao mesmo local para comemorar o sucesso da estreia de seu novo musical, Oklahoma!. Blue Moon: Música e Solidão é palavroso até dizer chega: são incontáveis os diálogos e monólogos encenados com a narrativa transcorrendo em tempo real, formato cuja recepção varia drasticamente de acordo com a afinidade do espectador. Contudo, é inegável que Linklater e, em especial, Ethan Hawke, banham o filme com a melancolia de um homem cuja maior tragédia reside na incapacidade de olhar para seu próprio estado de vida, permanecendo preso a um tempo que há muito já lhe escorreu por entre os dedos. “Ele era alerta, dinâmico e divertido” e “O homem mais triste que já conheci” dizem dois depoimentos trazidos em letreiros logo no início, quando Blue Moon já deixa clara a dualidade inerente a toda a história. Ao compreender a genialidade e a falência de um mesmo homem, o filme alcança notas bastante interessantes, sempre impulsionado pela presença do grande ator que dá vida ao protagonista.
HEARTSTOPPER: PARA SEMPRE (Heartstopper Forever, 2022, de Wash Westmoreland): Quatro anos e três temporadas depois, a série Heartstopper, da Netflix, chega ao fim em formato de longa-metragem. É uma despedida digna para a jornada afetiva do casal Charlie (Joe Locke) e Nick (Kit Connor), outrora dois jovens descobrindo a natureza de suas sexualidades e agora um par romântico que enfrenta os desafios tradicionais de qualquer relacionamento, passando por ciúmes, problemas de comunicação, distância e a busca por um meio-termo diante de conflitos. A direção fica por conta de Wash Westmoreland (Para Sempre Alice), que não inventa a roda e busca seguir a cartilha bem-sucedida de uma série importante na desconstrução de como as saídas do armário costumam ser retratadas pelo audiovisual. É claro que Heartstopper tem seus dramas, mas o que importa aqui é a esperança, a aceitação e a possibilidade de um mundo melhor para aqueles que simplesmente desejam ser quem são. Se, neste último capítulo, a criadora da HQ homônima e roteirista Alice Oseman por vezes patina na construção da trama, preterindo demais os coadjuvantes e sendo repetitiva no conflito central de Charlie e Nick, por outro lado, o resultado como um todo não desaponta por se manter fiel a seus personagens e ao tom trabalhado nas três temporadas. Heartstopper: Para Sempre termina com aquele quentinho tão característico da série, e o único deslize imperdoável aqui é colocar outra atriz no papel de Olivia Colman (devido a conflitos de agenda, ela não pôde participar desse capítulo derradeiro). Afinal, não é como se não percebêssemos — ou como se não sentíssemos falta de Olivia, que chegou a vencer um Emmy pela série.
QUARTO DO PÂNICO (idem, 2025, de Gabriela Amaral Almeida): Produção original Telecine, Quarto do Pânico foi encomendado para o streaming quando poderia ter trilhado certa carreira nas salas comerciais — e a recente mobilização das plateias em torno de filmes de suspense e terror como Obsessão e Backrooms respaldam essa tese. Lançado sem maiores alardes em fevereiro deste ano, o remake dirigido pela talentosa Gabriela Amaral Almeida do filme de David Fincher em 2002 não atualiza a história a ponto de justificar o remake. Há pouco de verdadeiramente brasileiro em uma trama que ainda bebe demais da estrutura de tensão e desenvolvimento do filme original. Talvez por ter grande reverência ao trabalho de Fincher, Gabriela pouco mexe no formato, o que fica bastante perceptível se você revê o longa de 2002 em sessão dupla. Os pontos de tensão e de viradas permanecem os mesmos, e a diretora termina por se beneficiar mais de leituras que, invariavelmente, são reflexos dos nossos tempos, como a ameaça à figura feminina e o constante estado de medo e alerta que as mulheres enfrentam. Em termos de exercício cinematográfico, Quarto do Pânico é bem menos cifrado e estimulante do que outros trabalhos de Gabriela, em especial o magnífico O Animal Cordial, seu surpreendente e visceral longa-metragem de estreia. Hoje, ela prepara Cão de Guarda, trabalho em que repetirá a parceria com Murilo Benício e que é descrito como um road movie envolto em ação e dramas psicológicos. No centro da história, um dedetizador passa a perder sua capacidade de sentir afeto após um acidente aparentemente sem consequências físicas graves. Só pela sinopse, tenho a forte suspeita de que o verdadeiro chão da realizadora está nas histórias originais.