Coordenando o catálogo do 54º Festival de Cinema de Gramado, tive o privilégio de, como em outras edições, apresentar a trajetória de cada um dos homenageados pelo evento por meio das palavras de alguns de seus amigos e colegas. São relatos afetuosos, escritos pessoas próximas a eles e que evidenciam tanto as conquistas profissionais de cada um dos laureados quanto suas qualidades como amigos e seres humanos.
Foi uma tremenda honra ter convidado e contado com a colaborações desses profissionais do cinema que imediatamente se dispuseram a escrever sobre os homenageados do Festival de Gramado deste ano. O primeiro texto que compartilho aqui é o da atriz Irene Ravache
Reproduzindo o material disponível no catálogo impresso e entregue no Festival, começo hoje com o depoimento da atriz Irene Ravache para Marcos Caruso, que, neste domingo, 16 de agosto, recebe o Troféu Cidade de Gramado em cerimônia no Palácio dos Festivais. Abaixo, o texto na íntrega.

Irene Ravache e Marcos Caruso no espetáculo Intimidade Indecente. Foto: Vidal Cavalcante
Caruso! Nasceu com um nome bom. E honra isso.
Bom filho, bom pai, bom avô, bom amigo, bom colega, bom de contracenar. Olhos nos olhos, e a cena flui que é uma beleza.
Já namoramos no teatro, no cinema e na televisão – e deu certo! Não me lembro quem conheci primeiro: o autor ou o ator, ou poderia ter sido os dois ao mesmo tempo, claro que poderia. Era final dos anos 70, início dos 80, por aí.
Sempre achei o Caruso um “charme”, pois era assim que falávamos quando ele aparecia para jantar no Gigetto, o restaurante ponto de encontro dos artistas em São Paulo. Mas não ficamos imediatamente amigos. Cada um com sua turma.
É um homem sério, comprometido com seus afetos, com o que faz e com o que escolhe fazer. Poderia ter sido advogado, mas optou por outro roteiro. A OAB perdeu uma carteirinha para o DRT das Artes Cênicas. Nenhuma dúvida, foi melhor!
Não sei quem admiro mais: o autor brilhante ou o ator surpreendente. Escrevo essa frase e imediatamente penso que o Caruso jamais se descreveria assim. É que ele vai simplesmente fazendo o seu trabalho com dedicação, pesquisa, entrega, sem se preocupar com os adjetivos. Resumindo: talento.
Caruso está no Guiness. De sua autoria, “Trair e Coçar, é Só Começar”, a comédia de maior sucesso e há mais tempo em cartaz do teatro brasileiro, foi escrita em três dias e três noites. Ele conta que o trabalho como ator estava escasso, então, comprou uma máquina de escrever. E continuou na máquina, às vezes, a quatro mãos com sua grande e inesquecível amiga Jandira Martini, resultando assim em um belo alinhamento profissional com sucessos no teatro e na televisão. Prêmios!
Certa vez, em uma entrevista, referindo-se a um novo personagem, ele disse: “Eu não sei como ele é, mas eu gosto do que não sei”. Não é verdade, ele sabe. Só ainda não sabe que sabe. Mas sabe. Tipos e vozes tão diferentes e ricos em suas composições surgem de onde? De uma cartola? Lógico que não. Ele não é mágico, ele é obstinado. O público gosta dele e a crítica também, olha que proeza!
Caruso é fácil de gostar e de ficar junto. Dizem que, se você quiser saber como realmente é uma pessoa, viaje com ela. Aconselho ir com ele pra qualquer lugar. É curioso, divertido e cuidadoso! A curiosidade o mantém jovem – e também a bicicleta, a natação, a caminhada na beira da praia.
Esse ator é paulistano, mas é carioca. E italiano também. E português, se calhar. Abre fronteiras com criatividade, se emociona pra valer, não despreza a técnica e escreve carinhos em bilhetes. Diferente. Tem atitudes elegantes, tal como levar a madrasta, viúva, numa viagem pela Provence em plena temporada das lavandas!
Caruso é um perigo. Tem humor, sabedoria e distribui afetos. Um homem assim abala estruturas. Um ator assim é irresistível!
Um amigo assim é pra se guardar por todos os lados.
E agradecer!
Irene Ravache, atriz