Cinema e Argumento

O Garoto de Liverpool

There’s just no point hating someone you love.

Direção: Sam Taylor-Wood

Elenco: Aaron Johnson, Anne-Marie Duff, Kristin Scott Thomas, Thomas Brodie-Sangster, Sam Bell, Josh Bolt, Ophelia Lovibond

Nowhere Boy, Inglaterra/Canadá, Drama, 98 minutos

Sinopse: John Lennon (Aaron Johnson) é um jovem que não aceita bem as regras impostas na escola e dentro de casa. Abandonado pela mãe quando tinha cinco anos, ele vive com seus tios George (David Threfall) e Mimi (Kristin Scott Thomas). Quando George morre, Lennon é obrigado a viver com Mimi, extremamente austera e sisuda. No funeral do tio, ele vê sua mãe (Anne-Marie Duff), que se mantém afastada. Seu primo consegue o endereço dela, o que faz com que Lennon resolva visitá-la. O reencontro com o filho é a realização de um sonho para Julia, que passa cada vez mais seu tempo com ele. Animada e um tanto quanto inconsequente, ela apresenta ao filho o rock’n’roll. Logo, desperta nele a vontade de montar uma banda de rock.

Quando escrevi meu texto para Coco Antes de Chanel, critiquei o filme de Anne Fontaine no sentido de que a vida de Coco Chanel (Audrey Tautou) antes da fama não era interessante e que, por isso, o filme não tinha força nem momentos de maior destaque. Também apoiei a ideia de que, no cinema, histórias biográficas precisam ser movimentadas e falar de figuras extraordinárias. Antes de Chanel, Coco era uma pessoa comum, o que transformou o filme de Anne Fontaine em um longa-metragem sem atrativos especiais. Sorte que a vida de John Lennon antes dos Beatles foi dramaticamente interessante para sustentar, com facilidade, um filme inteiro.

O Garoto de Liverpool poderia muito bem se chamar Lennon Antes dos Beatles, já que a história nem sequer cita o nome da banda durante a projeção. Focado inteiramente na adolescência de John Lennon (Aaron Johnson), esse filme da diretora Sam Taylor-Wood usa o bom e velho estilo britânico para narrar a conturbada relação do jovem com sua distante mãe, Julia (Anne-Marie Duff), e com sua tia, Mimi (Kristin Scott Thomas). Esse é o principal foco de O Garoto de Liverpool, que se preocupa bastante em humanizar o protagonista e deixar a música apenas como pano de fundo em uma história familiar. Interpretado pelo ótimo Aaron Johnson, John Lennon aparece como um jovem qualquer, vivenciando problemas com a família, aproveitando a juventude e admirando a cultura de sua época.

Mesmo que o trabalho envolvendo o protagonista e que o ator sejam excelentes, são as duas coadjuvantes do filme que mais chamam a atenção. Anne-Marie Duff, que recentemente fez uma ponta em Notas Sobre Um Escândalo e já havia provado talento antes no notável Em Nome de Deus, traz o típico papel da personagem simpática e adorável, mas que, aos poucos, descobrimos não ser a maravilhosa pessoa que aparenta ser. Kristin Scott Thomas, por um outro lado, faz um retrato gélido e rígido de uma mulher que aparenta ser desprovida de emoções. No entanto, assim como a personagem de Anne-Marie Duff, a Mimi de Kristin revela-se uma pessoa diferente no desenrolar do filme. Ambas atrizes foram indicadas ao BAFTA de coadjuvante e merecem o reconhecimento, já que são o maior atrativo do filme.

Utilizando uma narrativa clássica, O Garoto de Liverpool, assim como  o também britânico Educação, dedica-se a um estilo mais formal para narrar sua história. Ao meu ver, ganha muitos pontos por isso. A reconstituição de época é ideal, o formato funciona e o clima é de competência. Por mais que cinebiografias tendam a cair em obviedades, O Garoto de Liverpool consegue fugir de várias delas, ainda que tenha alguns momentos meio didáticos. De qualquer forma, podemos até não ter nesse filme um resultado espetacular, mas encontramos um produto bem produzido. Talvez não agrade aqueles que procurem um filme dedicado aos Beatles ou ao John Lennon famoso (mas quem se der ao trabalho de ler a sinopse poderá notar que esse não é o propósito da diretora). No entanto, creio que deva agradar ao público que procura embarcar numa história mais contida e nada comercial.

FILME: 8.0


Atração Perigosa

I need your help. I can’t tell you what it is, you can never ask me about it later, and we’re gonna hurt some people.

Direção: Ben Affleck

Elenco: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jon Hamm, Jeremy Renner, Blake Lively, Pete Postlethwaite, Chris Cooper, Brian Scannell

The Town, EUA, 2010, Drama/Policial, 125 minutos

Sinopse: Doug MacRay (Ben Affleck) lidera um grupo de ladrões de bancos que sempre sai impune, apesar das investigações do FBI. Um dia, ao realizar um assalto, seu parceiro Jem (Jeremy Renner) leva uma refém, por precaução. Ela é Claire Keesey (Rebecca Hall), subgerente do banco assaltado. Solta próximo à praia algum tempo depois, Claire fica traumatizada com o acontecimento. O problema é que Jem descobre que Claire mora a apenas quatro quarteirões do bando, tornando-se uma ameaça para o grupo. Doug fica encarregado de vigiá-la mas, após uma conversa ocasional na lavanderia, inicia um relacionamento com ela.

Ben Affleck já havia provado em Medo da Verdade ser um sujeito que deveria ficar atrás das câmeras. Por mais que eu não aprecie muito o primeiro filme de Affleck, reconheço todos os méritos dele na direção – até porque o que não me agradava no longa é o roteiro. Atração Perigosa é o segundo trabalho dele como diretor e, mais uma vez, consegue provar que leva jeito para o cargo. Orquestrando uma trama sobre assalto a bancos, Affleck conduz o enredo com segurança e entrega um bom filme que consegue, com facilidade, sustentar-se durante duas horas misturando drama e um enredo de investigação policial.

Atração Perigosa nem chega a ser um filme engenhoso sobre assalto a bancos como O Plano Perfeito, por exemplo. Na realidade, o filme de Ben Affleck se preocupa mais em traçar uma linha dramática entre os personagens que se envolvem, como vítimas ou vilões, nessas situações criminosas. Com isso, ganha pontos negativos e positivos. O roteiro tropeça ao cair em alguns clichês como o do vilão que, anonimamente, faz algo terrível para a mocinha mas depois passa a ter uma relação com ela e se arrepende dos erros que cometeu. Ao mesmo tempo que confere obviedade ao enredo de Atração Perigosa, o retrato “humano” dos personagens também traz um certo diferencial para a produção, já que ele não se foca apenas em assaltos ou planos criminosos.

Conduzido com segurança, Atração Perigosa pode até não ser um filme muito original, mas tem muitos aspectos interessantes. Se a direção de Ben Affleck, possivelmente, seja o maior deles, não podemos deixar de citar, claro, o bom grupo de atores que aqui está reunido. Ben Affleck, além de dirigir, também protagoniza a história. Ainda tenho certas dificuldades em aceitá-lo como ator, mas é visível que ele parece mais seguro nesse aspecto. No entanto, os outros atores conseguem alcançar maior notoriedade, em especial a sempre satisfatória Rebecca Hall. Atração Perigosa, portanto, é um entretenimento objetivo e, de certa forma, estruturalmente comum. Mas o que importa é que o resultado funciona com muita tranquilidade.

FILME: 8.0


Filmes em DVD

Direito de Amar, de Tom Ford (revisto)

Com Colin Firth, Julianne Moore e Nicholas Hoult

Difícil encontrar, em 2010, outro filme que me encante tanto quanto Direito de Amar. Lembro que fui assisti-lo no cinema cheio de expectativas, e fiquei absolutamente maravilhado por elas terem sido superadas em todos os aspectos. Mais do que isso, Direito de Amar me transmitiu brilhantismo em cada momento. Se Colin Firth tem um desempenho arrasador (Jeff Bridges ganhou aquele Oscar só por causa da carreira e não por verdadeiro merecimento) e o roteiro entrega momentos sublimes, o setor técnico é igualmente encantador: a trilha do polonês Abel Korzeniowski é uma das mais belas que já escutei, a fotografia é genial e a direção de arte e figurinos são impecáveis. Em um momento ou outro, a direção de Tom Ford escorrega ao querer embelezar demais algumas tomadas. No entanto, isso é mero detalhe de um filme que já está entre os meus favoritos.

FILME: 9.5

Orações Para Bobby, de Russell Mulcahy (revisto)

Com Sigourney Weaver, Ryan Kelley e Austin Nichols

O dvd desse filme ainda não foi lançado no Brasil (e nem tem previsão), mas já pode ser adquirido em lojas do exterior – recomendo demais o dvd da Alemanha, que pode até só ter o áudio em inglês sem legendas, mas tem uma capa lindíssima e roda em qualquer aparelho de dvd. Pena que esse filme não tenha feito sucesso e é lamentável que não tenha sido produzido para o cinema. Digo isso porque Orações Para Bobby é o filme que melhor defende os direitos homossexuais. Sem falar que consegue fazer isso com muita humanidade, tornando-se o filme mais emocionante com relação a essa temática. Como é um filme feito para tv, a produção é bem compacta e vai direto ao ponto, sem muitas enrolações. O desempenho de Sigourney Weaver também é outro destaque (e ela merecia ter sido lembrada nas temporadas de premiações, onde não conquistou nenhuma estatueta), assim como a genuína representação de Ryan Kelley. Orações Para Bobby é um filme escondido e que quase ninguém sabe da existência. Uma pena, já que é uma história obrigatória para qualquer ser humano.

FILME: 9.0

Shrek Para Sempre, de Mike Mitchell

Com as vozes de Mike Myers, Cameron Diaz e Eddie Murphy

Sou fã apenas do segundo volume (por alguma razão que não consigo explicar, acho o primeiro superestimado), mas é fato que a franquia perdeu o fôlego no terceiro filme. Com a tentativa de recuperar o que foi perdido em uma suposta despedida, Shrek Para Sempre tenta trazer de volta tudo o que deu certo na história do ogro. Entretanto, mais uma vez, o resultado fica abaixo do esperado. Para uma despedida, Shrek se encerrou de forma passageira e esquecível, em uma história que não tem inspiração e que não faz nada além do óbvio. Aliás, não sei nem se crianças conseguirão ter paciência com esse enredo que tem lições de moral e uma estrutura longe de ser fácil para o público infantil. Alguns momentos divertem, mas nada que seja digno de maior nota. Uma pena que a série tenha acabado com um filme mediano desses… Agora, cadê o clima de despedida? Nem isso eu senti aqui.

FILME: 6.5

O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de Terry Gilliam

Com Christopher Plummer, Andrew Garfield e Heath Ledger

Existe uma certa cota de loucuras para mim nos filmes. O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus ultrapassa esse meu limite. Até certo ponto, consegui entrar nas bizarrices e nas inventividades da história. Mas, em determinado momento, não consegui mais ver saldos positivos nas loucuras do roteiro. Além da história começar a complicar um enredo que não precisava ser complicado, o filme começa a perder ritmo e termina no nível do decepcionante. O elenco é interessante, trazendo o último desempenho de Heath Ledger e outras estrelas como Jude Law, Johnny Depp e Colin Farrell. Pena que os atores e a ótima direção de arte não sejam o suficiente para salvar esse filme de suas próprias loucuras narrativas.

FILME: 6.0

Marie & Bruce, de Tom Cairns

Com Julianne Moore, Matthew Broderick e Bob Balaban

Nada pior do que um filme que tem a proposta de ser estranho e não consegue alcançar bom resultado por causa disso. Marie & Bruce tem uma história simples, mas resolve dificultar a narrativa com escolhas bem estranhas, o que confere ao filme aquele velho tom insatisfatório de irregularidade. É outro trabalho ruim na carreira de Julianne Moore, que tenta fazer de tudo para dar ao filme alguma qualidade. Contudo, ela não consegue rivalizar com esse roteiro que é vazio e sem emoções – algo muito errado, uma vez que o conflito principal é a separação de um casal que não se suporta mais. Frio e perdido, Marie & Bruce só tem momentos mais interessantes quando chega perto do desfecho.

FILME: 5.0

As melhores composições de 2010

2009 foi um grande ano para as trilhas e 2010 também conseguiu ter esse rótulo. Amo trilhas sonoras e escolher as melhores composições do ano sempre é um prazer para mim. Nesse ano, a missão foi bem mais fácil que a do ano passado – até porque consegui enxergar de forma mais clara quais foram as trilhas que mais me conquistaram, enquanto em 2009 o resultado era mais racional do que afetivo. Antes de qualquer coisa, quero deixar bem explicado que a lista abaixo, em momento algum, influencia na minha futura seleção de melhores trilhas sonoras do ano ou define uma escala de preferência quanto aos meus álbuns favoritos de 2010. Então, tá querendo ouvir algumas demonstrações do que eu achei de melhor nas trilhas desse ano? Basta procurar pelas composições abaixo…

Abel Korzeniowski – Becoming George, from “A Single Man”

Abel Korzeniowski – And Just Like That, from “A Single Man”

Abel Korzeniowski – Clock Tick, from “A Single Man”

Abel Korzeniowski – Snow, from “A Single Man”

Alexandre Desplat – The Oblivation, from “Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 1”

Alexandre Desplat – The Ghost Writer, from “The Ghost Writer”

Alexandre Desplat – The Truth About Ruth, from “The Ghost Writer”

Clint Mansell – Memories (Someone We’ll Never Know), from “Moon”

Clint Mansell – The Nursery, from “Moon”

Daft Punk – Disc Wars, from “Tron: Legacy”

Hans Zimmer – Dream is Collapsing, from “Inception”

Hans Zimmer – Time, from “Inception”

J. Ralph – Dolphins & Ric, from “The Cove”

Marcelo Zavros – I Know You Can Hear Me, from “Remember Me”

Nick Cave & Warren Ellis – The Road, from “The Road”

Nick Cave & Warren Ellis – The Far Road, from “The Road”

Randy Newman – So Long, from “Toy Story 3”

Profecias para as premiações #2

Não sei bem se chega a ser uma “profecia” minha ou mais um desejo mesmo. Adoro Annette Bening e, inclusive, acho que ela tem uma cena muito especial em Minhas Mães e Meu Pai (aquela em que ela canta uma música de Joni Mitchell na hora do jantar). Mas, sinceramente, não sei o porquê de tanta badalação em torno da atriz. Pode parecer implicância minha, mas ela nem é a protagonista da história, aparece tanto quanto os outros (e, em certos momentos, chega, inclusive, a aparecer apenas de forma superficial) e está tão bem quanto a sua subestimada colega Julianne Moore. Também não ajuda o fato de que considero o filme bem fraco.

As últimas atrizes que venceram o Oscar de melhor atriz por um filme de comédia foram Cher, por Feitiço da Lua, na década de 80 e Helen Hunt, por Melhor é Impossível, em 1997. Portanto, lá se vão vários anos desde que uma profissional ganhou na categoria por um filme desse gênero. Era esperado que Meryl Streep tivesse quebrado esse jejum ano passado com Julie & Julia, mas, inexplicavelmente, foi derrotada por uma insossa Sandra Bullock. Se Meryl não conseguiu quebrar essa “regra”, fico meio desapontado de pensar que Annette pode conseguir esse feito com um filme tão sem inspiração e com uma interpretação que nem chega a ser tão especial assim. Contudo, já começo a me preparar psicologicamente para uma possível vitória de Bening.

Ela sempre foi uma candidata em potencial e, de uns tempos pra cá, sua força aumentou. Mas algo ainda me diz que ela não será a vitoriosa da categoria. As possibilidades existem (até porque a Academia tem débito com ela), mas, por tudo que já citei nesse texto, acredito que ela não vencerá – apesar da grande maioria pensar diferente de mim e adorar a performance da atriz. Se fosse para ela ter algum tipo de reconhecimento, então, que fosse como Susan Sarandon e Geena Davis por Thelma & Louise. Em Minhas Mães e Meu Pai é Annette Bening e Julianne Moore que merecem ser mencionadas, não apenas Bening. É injusto apenas uma ser reconhecida.