Cinema e Argumento

Melhores de 2010 – Efeitos Especiais

Nunca fui muito fã de filmes com cenários computadorizados e com clima cibernético. Tanto que detesto Speed Racer, que tem uma concepção visual, ao meu ver, desinteressante. Tron – O Legado, por um outro lado, conseguiu me deixar impressionado. Não sei se é porque assisti o longa em 3D (e, das produções que vi nesse formato, essa foi a que melhor utilizou esse recurso), mas entrei por completo na proposta visual do filme de Joseph Kosinski. As cenas de ação conseguem ser executadas com qualidade por causa dos efeitos impecáveis e o cenário ganha uma dimensão detalhada também em função desse aspecto. Tron – O Legado é um blockbuster que possui as falhas habituais desse tipo de filme, principalmente no que se refere ao enredo raso. Contudo, o visual sombrio iluminado por neons e todo o mundo representado no filme são maravilhosamente bem construídos por um excelente uso de efeitos especiais.

SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO

Os efeitos especiais de Scott Pilgrim Contra o Mundo não são necessariamente utilizados para impressionar, mas sim para construir visualmente as tantas referências nerds do filme. Se a insistente vontade do filme em querer mostrar que é super cool quando resolve materializar referências estéticas e visuais de videogames chega a irritar, pelo menos o acertado uso de efeitos compensa as pretensões de Scott Pilgrim. Eles trazem um bom ritmo para as tomadas onde são utilizados, construindo a grande diversão que, pelo menos pra mim, ficou faltando no roteiro falho.

A ORIGEM

Os efeitos especiais do longa de Christopher Nolan possuem uma carcaterística que é bem interessante. Eles querem estar próximos da realidade. O que acontece em A Origem é ficção, claro. Mas os efeitos recebem a missão de transportar aquela história para o mais próximo da realidade. Ou seja, cada tomada – seja ela de ação ou meramente expositiva visualmente – transmite verossimilhança. Não é um mundo absurdo. Propósito que foi cumprido com precisão pelos ótimos efeitos e, mais importante ainda, pela excelente inserção deles dentro do universo criado por Nolan.

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Escolha do público:

1. A Origem (33 votos, 70.21%)

2. Tron – O Legado (10 votos, 21.28%)

3. Scott Pilgrim Contra o Mundo (4 votos, 8.51%)

Melhores de 2010 – As regras e os elegíveis

I. São considerados todos os filmes lançados comercialmente no Brasil no ano de 2010.

II. Qualquer filme lançado diretamente em DVD (desde que inédito no Brasil) ou nos cinemas (idem) está apto a concorrer.

III. As categorias são: filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro original, roteiro adaptado, elenco, montagem, fotografia, canção original, efeitos especiais, trilha sonora, figurino, animação, edição/mixagem de som e direção de arte

IV. Em cada categoria, são admitidos apenas cinco concorrentes e um vencedor. A exceção encontra-se em efeitos especiais e animação, onde são três filmes na disputa.

V. Após divulgados, os indicados e os vencedores não poderão ser alterados posteriormente. A avaliação é feita de acordo com os filmes conferidos em 2010 e o que for assistido após a premiação não poderá interferir no resultado já divulgado.

VI. Algumas definições se adaptam aos princípios do autor do blog. Por exemplo: o circuito de premiações considera os roteiros de Toy Story 3 e Tropa de Elite 2 adaptados por se basearem em personagens que já existiam antes. No entanto, o Cinema e Argumento considera roteiro a história de um longa e não os personagens. Portanto, os filmes já citados se enquadram na definição de roteiro original para esta premiação.

VII. Não existe limite de indicações indicações ou vitórias para determinado profissional em uma categoria. Como visto na premiação do ano passado, Meryl Streep recebeu indicação dupla, ao passo que Kate Winslet venceu em duas categorias diferentes.

VIII. Os filmes elegíveis para a edição do 2010 do prêmio Cinema e Argumento são: Adam, Alice no País das Maravilhas, Amélia, Amor Sem Escalas, Antes Que o Mundo Acabe, Atividade Paranormal 2, Atração Perigosa, Cadê os Morgan?, A Caixa, Cartas Para Julieta, Caso 39, Chéri, Chico Xavier, Comer Rezar Amar, Como Treinar o Seu Dragão, Coração Louco, Demônio, Direito de Amar, Eclipse, Educação, Em Busca de Uma Nova Chance, A Enseada, Enterrado Vivo, Entre Irmãos, O Escritor Fantasma, A Estrada, Os Famosos e os Duendes da Morte, A Fita Branca, O Garoto de Liverpool, O Golpista do Ano, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1, Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, Um Homem Sério, Idas e Vindas do Amor, Ilha do Medo, Invictus, A Jovem Rainha Victoria, Kick-Ass: Quebrando Tudo, Lembranças, Lunar, Mary & Max – Uma Amizade Diferente, As Melhores Coisas do Mundo, O Mensageiro, Minhas Mães e Meu Pai, O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, Nine, Uma Noite Fora de Série, Nosso Lar, Um Olhar do Paraíso, Onde Vivem os Monstros, A Origem, Pânico na Neve, Par Perfeito, Por Uma Vida Melhor, Preciosa – Uma História de Esperança, O Preço da Traição, Querido John, Red – Aposentados e Perigosos, A Rede Social, Salt, Scott Pilgrim Contra o Mundo, O Segredo dos Seus Olhos, Sex and the City 2, Sherlock Holmes, Shrek Para Sempre, Simplesmente Complicado, O Solteirão, Um Sonho Possível, Toy Story 3, Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, Tron – O Legado, Tudo Pode Dar Certo, O Último Mestre do Ar, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos e Wall Street 2 – O Dinheiro Nunca Dorme

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

Sometimes illusions are better than medicine.

Direção: Woody Allen

Elenco: Naomi Watts, Anthony Hopkins, Josh Brolin, Gemma Jones, Antonio Banderas, Freida Pinto, Lucy Punch, Christian McKay

You Will Meet a Tall Dark Stranger, EUA, 2010, Comédia, 98 minutos

Sinopse: Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones) estão casados há 40 anos, até que um dia ele resolve que precisa recuperar a juventude perdida e decide pedir o divórcio. Helena fica destroçada com a notícia e, com o apoio da filha, Sally (Naomi Watts), passa a consultar periodicamente Crystal (Pauline Collins), uma vidente. Paralelamente Sally precisa lidar com o desejo crescente por seu novo chefe, Greg (Antonio Banderas), e com a crise em seu casamento com Roy (Josh Brolin), um escritor que apenas fez sucesso em seu livro de estreia e enfrenta dificuldades em concluir seu novo trabalho. Enquanto aguarda a resposta da editora sobre seu novo livro, Roy passa a flertar com sua nova vizinha, Dia (Freida Pinto), que sempre se veste de vermelho.

Todos conhecem aquela velha afirmação de que quantidade não é sinônimo de qualidade. Ultimamente, diretores como Clint Eastwood e Woody Allen parecem ter esquecido disso. Longe de mim dizer que eles entregam trabalhos ruins ou que o talento deles está ficando questionável. O que incomoda é ver profissionais tão talentosos diluindo os seus talentos em uma vontade desnecessária de lançar pelo menos um longa-metragem por ano. Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, por exemplo, foi o segundo filme de Woody Allen que chegou nos cinemas brasileiros em 2010 (o anterior foi Tudo Pode Dar Certo). O resultado? Mais um filme corriqueiro do diretor, ainda que muito injustiçado.

Agora, onde está a injustiça sofrida por Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos? Ora, muito simples: já não é de hoje que Allen está apresentando filmes que ficam abaixo das expectativas. O problema é que o público e a crítica resolveram implicar logo com essa produção que é bem agradável e tem um ótimo elenco. Teria sido mais coerente se tivessem falado mal do monótono O Sonho de Cassandra ou até mesmo de Scoop – O Grande Furo, que é um dos momentos mais fracos de toda a carreira do diretor. Essa necessidade de mostrar que é um sujeito sempre na ativa tem tirado a concentração de talento de Allen. Muito filme para pouco efeito. Mas, como sempre, existem aspectos muito legais a serem considerados em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos.

Como é rotina na filmografia de Allen, essa é mais uma produção cheia de diálogos bem pensados e que possuem uma dinâmica muito agradável. Se formos prestar atenção, podemos notar que os conflitos trabalhados são batidos, mas o texto consegue ultrapassar essa barreira e entregar um produto com momentos interessantes. O roteiro, claro, é ajudado por um elenco totalmente à vontade. É sempre um prazer ver Naomi Watts e Anthony Hopkins atuando e aqui eles correspondem às expectativas. Os outros atores, como Gemma Jones (com um papel repetitivo, mas de destaque) e Josh Brolin também conseguem um ou outro momento para chamar a atenção. Quem ainda não me convence é Freida Pinto, a insossa Latika de Quem Quer Ser Um Milionário?, uma atriz que não tem carisma e muito menos presença em cena.

É um filme que não tem os melhores diálogos de Allen e também não vai ficar na safra dos resultados mais destacáveis do diretor nos últimos anos (Vicky Cristina Barcelone e Match Point foram os últimos trabalhos mais interessantes). Contudo,Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos tem características facilmente reconhecíveis do cinema de Woody Allen e é uma produção que tem saldo positivo, além de ter vários aspectos que tornam  válida uma conferida. O longa não vai mudar a vida de ninguém, assim como tampouco está entre os melhores do ano. Só não merecia ter sido recebido com tanto descaso. Afinal, como já mencionado, Woody Allen já apresentou vários outros filmes irregulares que não foram criticados. Não sei o porquê de terem implicado logo com esse, que é bem realizado e agradável.

FILME: 8.0


So long, farewell, 2010!

Pois é, mais um ano se passou e o Cinema e Argumento, novamente, começa a montar a lista de melhores do ano. Em breve, serão publicadas as habituais regras da premiação e a lista de filmes elegíveis. Nenhuma categoria está plenamente fechada até ser publicada. Então, se quiserem enviar seus recados de For Your Consideration, não pensem duas vezes! Só espero que, esse ano, eu não tenha nenhum momento de insanidade mental ao colocar, por exemplo, Avatar entre os melhores roteiros do ano. Vou tomar os meus remédios certinhos antes de fazer a seleção, ok? Brincadeiras à parte, espero que vocês gostem da quarta edição do prêmio Cinema e Argumento de melhores do ano.

Também gostaria de deixar registrado aqui o meu agradecimento a todos os leitores e a todas as pessoas que foram importantes na minha jornada com o blog. Sem vocês, o Cinema e Argumento não teria completado três anos de existência no último dia sete! Aproveito a ocasião, claro, para desejar a todos um feliz ano novo, com um 2011 cheio de realizações e, claro, bons filmes. Para finalizar bem o ano, vou preparando a lista de melhores de 2010. Eu adoro essa função e desejo muito que vocês gostem também! Começando o aquecimento, coloco abaixo os vencedores do ano passado.

Melhor Filme: Dúvida

“Dúvida é, acima de tudo, cinema obrigatório. Denso, reflexivo e anormalmente bem escrito. Todo o efeito irá pairar como uma nuvem sob sua cabeça por um bom tempo. E não há certeza tão forte quanto a dúvida que o texto te deixa.”

– Wally Soares (Cine Vita)

“É um filme que é caracterizado por um casamento perfeito entre atores e roteiro. O interessante, porém, é que, assim como Ian McEwan, e, ao contrário de Machado de Assis, ele tem plena consciência de que não existe um lado vencedor. A culpa sempre irá existir. A grande pergunta é: quem sabe conviver com ela? Aí, sim, teremos alguém levando vantagem – se é que isso é possível.”

– Kamila Azevedo (Cinéfila Por Natureza)

“A direção discreta é eficiente justamente por depositar no seu elenco os melhores momentos do longa. É tão intenso, que até a minúscula aparição de Viola Davis se torna inesquecível!”

– Gustavo Bezerra (Fina Ironia)

Red – Aposentados e Perigosos

I remember the Secret Service being tougher.

Direção: Robert Schwentke

Elenco: Bruce Willis, Mary-Louise Parker, John Malkovich, Helen Mirren, Morgan Freeman, Karl Urban, Julian McMahon, Rebecca Pidgeon, Chris Owens

Red, EUA, 2010, Ação, 111 minutos

Sinopse: Frank Moses (Bruce Willis) é um ex-agente da CIA, hoje aposentado, que tenta levar uma vida normal. Ele está interessado por Sarah (Mary-Louise Parker), com quem volta e meia conversa ao telefone, apesar de ainda não conhecer pessoalmente. Um dia, a casa de Frank é atacada por agentes da CIA. Sem saber o que está acontecendo, ele deduz que logo perceberão sua ligação com Sarah e parte para protegê-la. Para entender o porquê de ter sido atacado, Frank precisará da ajuda de seus antigos companheiros Joe (Morgan Freeman), Marvin (John Malkovich) e Victoria (Helen Mirren), todos também aposentados.

Logo quando fiquei sabendo de Red – Aposentados e Perigosos, fiquei me perguntando o porquê dele ter reunido tantos atores bons. Conferi as fotos e as minhas dúvidas cresceram ainda mais. Afinal, o que levaria Helen Mirren a aceitar um papel onde ela precisa segurar uma metralhadora e atirar em várias pessoas? Bom, os créditos finais de Red – Aposentados e Perigosos apareceram na tela e eu permaneço sem saber responder  todas essas perguntas. O máximo que consigo deduzir é que os atores resolveram se divertir nas férias com esse longa-metragem.

Sejamos sinceros: Red – Aposentados e Perigosos tem uma história fraca e que, inclusive, brinca superficialmente com a sua própria proposta de mostrar personagens aposentados se aventurando em missões perigosas. O diretor Robert Schwentke (do bom, mas falho Plano de Vôo) não realizou nada além de um convencional filme de ação onde o protagonista (Bruce Willis, o que menos entrou no clima de brincadeira) precisa escapar de alguém que quer vê-lo morto. No caminho, reencontra algumas pessoas de seu passado e ainda precisa cuidar da mocinha por quem se apaixonou.

Uma premissa dessas, nas mãos de um diretor original, poderia render um delicioso guilty pleasure. Não foi o que aconteceu aqui. Red – Aposentados e Perigosos tem sim os seus momentos de descontração e diversão, mas, na maioria do tempo, fica dividido entre esse sentimento de guilty pleasure e o desnecessário. Alguns momentos de humor beiram o óbvio e a ação se desenvolve de forma corriqueira com algumas pitadas de exagero. As resoluções são totalmente normais e sem impacto, assim como toda a estrutura do filme (notem também como a trilha sonora utiliza, durante dois longos momentos e de forma descarada, a composição War que James Newton Howard fez para Duplicidade).

Apesar de todas as previsibilidades e falhas que já poderiam ser esperadas de um filme desse tipo, Red – Aposentados e Perigosos funciona naquele esquema onde o espectador não deve assistir com exigência. Os atores estão ali se divertindo, a história não apela para o ridículo e a direção até que consegue sustentar a ação que é apresentada. Ou seja, é uma produção mediana que não deve ser levada a sério. Uma pequena bobagem para se assistir caso não exista outra opção melhor – e, levando em consideração o desastre que o filme poderia ter sido, isso é até um elogio.

FILME: 6.5