Cinema e Argumento

Melhores de 2010 – Animação

Antes de qualquer definição, é recomendável que todos saibam que Mary & Max – Uma Amizade Diferente não é uma animação para crianças. Ilustrando sua história com várias problematicas (uma personagem alcoólatra, tentativa de suicídio e até mesmo descoberta de homossexualidade), esse trabalho do diretor Adam Eliott encontra na maturidade narrativa o seu ponto mais forte. Isso quer dizer que Mary & Max tem uma história que parece vinda de um filme com pessoas reais, além de uma dramaticidade digna de tantos filmes reflexivos sobre amizade e distância. Dublado com notável precisão pelos ótimos Philip Seymour Hoffman e Toni Collette, é uma animação que dialoga de forma contundente com todas as pessoas que possuem uma pessoa especial que mora a quilômetros de distância. Assim, Mary & Max terá um significado todo especial para esse público – podendo, inclusive, emocionar bastante. Todavia, isso não significa que o enredo não funcionará para os outros públicos. Muito pelo contrário. A história comandada por Adam Elliott é universal justamente por ser extremamente humana e verdadeira. Um trabalho adulto e cheio de belas mensagens.

TOY STORY 3

Mantendo o excelente padrão criado pela Pixar, Toy Story 3 foi outro atestado de originalidade e competência do estúdio. O resultado não me empolgou tanto como Ratatouille ou WALL-E, mas também é digno de muitos elogios. Repleto de personagens sempre carismáticos, a animação de Lee Unkrich também tem a seu favor o fato de trazer um notável retrato sobre como a transição entre fases de nossa vida pode ser melancólica. Tal característica está ilustrada de forma excepcional na última cena, capaz de emocionar qualquer um.

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO

Grata surpresa da Dreamworks, que parecia redimida a viver das fracassadas continuações de Shrek. Bom ver que o estúdio ainda tem fôlego para criar animações cheias de diversão e personagens simpáticos como os vistos em Como Treinar o Seu Dragão. Se formos prestar atenção, a história é batida e as resoluções são previsíveis, mas a animação tem a habilidade de retratar cada momento com pura descontração. É fácil se conectar com a história e torcer pelos personagens. Um longa sobre ultrapassar as barreiras da diferenças e também sobre a necessidade de mudar princípios antiquados.

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Escolha do público:

1. Toy Story 3 (32 votos, 66.67%)

2. Mary & Max – Uma Amizade Diferente (12 votos, 25%)

3. Como Treinar o Seu Dragão (4 votos, 8.33%)

Enterrado Vivo

I’m so sorry, Paul.

Direção: Rodrigo Cortés

Elenco: Ryan Reynolds, Ivana Miño e vozes de José Luis García Pérez, Robert Paterson, Samantha Mathis, Stephen Tobolowsky, Kali Rocha

Buried, EUA/Espanha/França, 2010, Suspense, 95 minutos

Sinopse: Paul Conroy (Ryan Reynolds) é um americano que trabalha como motorista de caminhão no Iraque. Ele acorda, sem saber como, enterrado vivo dentro de caixão de madeira. Sem saber o que aconteceu e o porquê de estar ali, ele tem em suas mãos apenas um telefone celular e um isqueiro. Começa então uma tensa corrida contra o tempo e a falta de ar. A pressão aumenta ainda mais quando os sequestradores exigem um resgate milionário para libertá-lo e um vídeo com suas imagens vai parar no YouTube.

São 95 minutos de filme em apenas um cenário. Não existe outra pessoa em cena além do ator Ryan Reynolds. E, para completar, tudo se passa dentro de um caixão. Só de saber de uma proposta dessas, já ficaria muito curioso para conferir o resultado. Imagine, então, quando o filme consegue uma boa recepção de público e crítica. Assim é Enterrado Vivo, um suspense claustrofóbico comandado pelo espanhol Rodrigo Cortés e que foge dos padrões convencionais do estilo norte-americano de fazer suspense. Ou seja, mais uma excelente surpresa vinda de mãos espanholas (para quem não se lembra, o excelente [REC] também era comandado por diretores da Espanha).

Mesmo que falado todo em inglês e protagonizado por um popular ator dos Estados Unidos, dá para notar que Enterrado Vivo não se assemelha muito com um suspense qualquer vindo da terra do tio Sam. Se a proposta por si só já é original, o longa também surpreende por conseguir manter o ritmo e a qualidade durante todo o tempo. Com uma estrutura dessas (principalmente no que se refere ao difícil trabalho de limitar-se a um único e pequeno cenário), seria fácil cair em armadilhas. Felizmente, não é o que acontece aqui. O diretor Rodrigo Cortés soube explorar com muita objetividade todas as possibilidades para história. Algo que, possivelmente, diretores norte-americanos poderiam arruinar e entupir de exageros e inverossimilhanças.

Nem por isso Enterrado Vivo está livre de falhas. Demorando para apresentar de fato alguma tensão real além de apenas claustrofobia, a primeira metade da história limita-se a sucessivas ligações do protagonista por um celular. A trilha de Victor Heyes, que muitos comparam com as trilhas dos filmes de Hitchcock, também não me agradou, tornando-se um pouco exagerada em diversos momentos. Depois da primeira parcela de duração é que o roteiro finalmente engrena e consegue construir um cenário muito mais envolvente e desesperador – muito devido ao ótimo desempenho de Ryan Reynolds e às situações criadas pelo roteiro. Alguns momentos previsíveis existem, é verdade, mas tudo isso passa despercebido em um filme bem arquitetado e que possui um final corajoso e nada parecido com os de tantos suspenses que estamos acostumados a ver.

FILME: 8.0

Melhores de 2010 – Efeitos Especiais

Nunca fui muito fã de filmes com cenários computadorizados e com clima cibernético. Tanto que detesto Speed Racer, que tem uma concepção visual, ao meu ver, desinteressante. Tron – O Legado, por um outro lado, conseguiu me deixar impressionado. Não sei se é porque assisti o longa em 3D (e, das produções que vi nesse formato, essa foi a que melhor utilizou esse recurso), mas entrei por completo na proposta visual do filme de Joseph Kosinski. As cenas de ação conseguem ser executadas com qualidade por causa dos efeitos impecáveis e o cenário ganha uma dimensão detalhada também em função desse aspecto. Tron – O Legado é um blockbuster que possui as falhas habituais desse tipo de filme, principalmente no que se refere ao enredo raso. Contudo, o visual sombrio iluminado por neons e todo o mundo representado no filme são maravilhosamente bem construídos por um excelente uso de efeitos especiais.

SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO

Os efeitos especiais de Scott Pilgrim Contra o Mundo não são necessariamente utilizados para impressionar, mas sim para construir visualmente as tantas referências nerds do filme. Se a insistente vontade do filme em querer mostrar que é super cool quando resolve materializar referências estéticas e visuais de videogames chega a irritar, pelo menos o acertado uso de efeitos compensa as pretensões de Scott Pilgrim. Eles trazem um bom ritmo para as tomadas onde são utilizados, construindo a grande diversão que, pelo menos pra mim, ficou faltando no roteiro falho.

A ORIGEM

Os efeitos especiais do longa de Christopher Nolan possuem uma carcaterística que é bem interessante. Eles querem estar próximos da realidade. O que acontece em A Origem é ficção, claro. Mas os efeitos recebem a missão de transportar aquela história para o mais próximo da realidade. Ou seja, cada tomada – seja ela de ação ou meramente expositiva visualmente – transmite verossimilhança. Não é um mundo absurdo. Propósito que foi cumprido com precisão pelos ótimos efeitos e, mais importante ainda, pela excelente inserção deles dentro do universo criado por Nolan.

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Escolha do público:

1. A Origem (33 votos, 70.21%)

2. Tron – O Legado (10 votos, 21.28%)

3. Scott Pilgrim Contra o Mundo (4 votos, 8.51%)

Melhores de 2010 – As regras e os elegíveis

I. São considerados todos os filmes lançados comercialmente no Brasil no ano de 2010.

II. Qualquer filme lançado diretamente em DVD (desde que inédito no Brasil) ou nos cinemas (idem) está apto a concorrer.

III. As categorias são: filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro original, roteiro adaptado, elenco, montagem, fotografia, canção original, efeitos especiais, trilha sonora, figurino, animação, edição/mixagem de som e direção de arte

IV. Em cada categoria, são admitidos apenas cinco concorrentes e um vencedor. A exceção encontra-se em efeitos especiais e animação, onde são três filmes na disputa.

V. Após divulgados, os indicados e os vencedores não poderão ser alterados posteriormente. A avaliação é feita de acordo com os filmes conferidos em 2010 e o que for assistido após a premiação não poderá interferir no resultado já divulgado.

VI. Algumas definições se adaptam aos princípios do autor do blog. Por exemplo: o circuito de premiações considera os roteiros de Toy Story 3 e Tropa de Elite 2 adaptados por se basearem em personagens que já existiam antes. No entanto, o Cinema e Argumento considera roteiro a história de um longa e não os personagens. Portanto, os filmes já citados se enquadram na definição de roteiro original para esta premiação.

VII. Não existe limite de indicações indicações ou vitórias para determinado profissional em uma categoria. Como visto na premiação do ano passado, Meryl Streep recebeu indicação dupla, ao passo que Kate Winslet venceu em duas categorias diferentes.

VIII. Os filmes elegíveis para a edição do 2010 do prêmio Cinema e Argumento são: Adam, Alice no País das Maravilhas, Amélia, Amor Sem Escalas, Antes Que o Mundo Acabe, Atividade Paranormal 2, Atração Perigosa, Cadê os Morgan?, A Caixa, Cartas Para Julieta, Caso 39, Chéri, Chico Xavier, Comer Rezar Amar, Como Treinar o Seu Dragão, Coração Louco, Demônio, Direito de Amar, Eclipse, Educação, Em Busca de Uma Nova Chance, A Enseada, Enterrado Vivo, Entre Irmãos, O Escritor Fantasma, A Estrada, Os Famosos e os Duendes da Morte, A Fita Branca, O Garoto de Liverpool, O Golpista do Ano, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1, Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, Um Homem Sério, Idas e Vindas do Amor, Ilha do Medo, Invictus, A Jovem Rainha Victoria, Kick-Ass: Quebrando Tudo, Lembranças, Lunar, Mary & Max – Uma Amizade Diferente, As Melhores Coisas do Mundo, O Mensageiro, Minhas Mães e Meu Pai, O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, Nine, Uma Noite Fora de Série, Nosso Lar, Um Olhar do Paraíso, Onde Vivem os Monstros, A Origem, Pânico na Neve, Par Perfeito, Por Uma Vida Melhor, Preciosa – Uma História de Esperança, O Preço da Traição, Querido John, Red – Aposentados e Perigosos, A Rede Social, Salt, Scott Pilgrim Contra o Mundo, O Segredo dos Seus Olhos, Sex and the City 2, Sherlock Holmes, Shrek Para Sempre, Simplesmente Complicado, O Solteirão, Um Sonho Possível, Toy Story 3, Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, Tron – O Legado, Tudo Pode Dar Certo, O Último Mestre do Ar, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos e Wall Street 2 – O Dinheiro Nunca Dorme

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

Sometimes illusions are better than medicine.

Direção: Woody Allen

Elenco: Naomi Watts, Anthony Hopkins, Josh Brolin, Gemma Jones, Antonio Banderas, Freida Pinto, Lucy Punch, Christian McKay

You Will Meet a Tall Dark Stranger, EUA, 2010, Comédia, 98 minutos

Sinopse: Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones) estão casados há 40 anos, até que um dia ele resolve que precisa recuperar a juventude perdida e decide pedir o divórcio. Helena fica destroçada com a notícia e, com o apoio da filha, Sally (Naomi Watts), passa a consultar periodicamente Crystal (Pauline Collins), uma vidente. Paralelamente Sally precisa lidar com o desejo crescente por seu novo chefe, Greg (Antonio Banderas), e com a crise em seu casamento com Roy (Josh Brolin), um escritor que apenas fez sucesso em seu livro de estreia e enfrenta dificuldades em concluir seu novo trabalho. Enquanto aguarda a resposta da editora sobre seu novo livro, Roy passa a flertar com sua nova vizinha, Dia (Freida Pinto), que sempre se veste de vermelho.

Todos conhecem aquela velha afirmação de que quantidade não é sinônimo de qualidade. Ultimamente, diretores como Clint Eastwood e Woody Allen parecem ter esquecido disso. Longe de mim dizer que eles entregam trabalhos ruins ou que o talento deles está ficando questionável. O que incomoda é ver profissionais tão talentosos diluindo os seus talentos em uma vontade desnecessária de lançar pelo menos um longa-metragem por ano. Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, por exemplo, foi o segundo filme de Woody Allen que chegou nos cinemas brasileiros em 2010 (o anterior foi Tudo Pode Dar Certo). O resultado? Mais um filme corriqueiro do diretor, ainda que muito injustiçado.

Agora, onde está a injustiça sofrida por Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos? Ora, muito simples: já não é de hoje que Allen está apresentando filmes que ficam abaixo das expectativas. O problema é que o público e a crítica resolveram implicar logo com essa produção que é bem agradável e tem um ótimo elenco. Teria sido mais coerente se tivessem falado mal do monótono O Sonho de Cassandra ou até mesmo de Scoop – O Grande Furo, que é um dos momentos mais fracos de toda a carreira do diretor. Essa necessidade de mostrar que é um sujeito sempre na ativa tem tirado a concentração de talento de Allen. Muito filme para pouco efeito. Mas, como sempre, existem aspectos muito legais a serem considerados em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos.

Como é rotina na filmografia de Allen, essa é mais uma produção cheia de diálogos bem pensados e que possuem uma dinâmica muito agradável. Se formos prestar atenção, podemos notar que os conflitos trabalhados são batidos, mas o texto consegue ultrapassar essa barreira e entregar um produto com momentos interessantes. O roteiro, claro, é ajudado por um elenco totalmente à vontade. É sempre um prazer ver Naomi Watts e Anthony Hopkins atuando e aqui eles correspondem às expectativas. Os outros atores, como Gemma Jones (com um papel repetitivo, mas de destaque) e Josh Brolin também conseguem um ou outro momento para chamar a atenção. Quem ainda não me convence é Freida Pinto, a insossa Latika de Quem Quer Ser Um Milionário?, uma atriz que não tem carisma e muito menos presença em cena.

É um filme que não tem os melhores diálogos de Allen e também não vai ficar na safra dos resultados mais destacáveis do diretor nos últimos anos (Vicky Cristina Barcelone e Match Point foram os últimos trabalhos mais interessantes). Contudo,Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos tem características facilmente reconhecíveis do cinema de Woody Allen e é uma produção que tem saldo positivo, além de ter vários aspectos que tornam  válida uma conferida. O longa não vai mudar a vida de ninguém, assim como tampouco está entre os melhores do ano. Só não merecia ter sido recebido com tanto descaso. Afinal, como já mencionado, Woody Allen já apresentou vários outros filmes irregulares que não foram criticados. Não sei o porquê de terem implicado logo com esse, que é bem realizado e agradável.

FILME: 8.0