Cinema e Argumento

O Turista

20 million dollars worth of plastic surgery… And that’s the face you choose.

Direção: Florian Henckel Von Donnersmarck

Elenco: Angelina Jolie, Johnny Depp, Paul Bettany, Timothy Dalton, Steven Berkoff, Rufus Sewell, Christian De Sica, Alessio Boni

The Tourist, EUA/França, 2010, Aventura, 103 minutos

Sinopse: Os passos de Elise Clifton-Ward (Angelina Jolie) são acompanhados de perto pela equipe chefiada pelo inspetor John Acheson (Paul Bettany). O motivo é que ela viveu por um ano com Alexander Pearce, procurado pela polícia devido a sonegação de impostos em torno de 700 milhões de libras. Ninguém sabe como é o rosto de Pearce, nem mesmo Elise, já que ele passou por várias operações plásticas para escapar de seus perseguidores. Ele entra em contato com Elise ao lhe enviar um bilhete, onde pede que vá encontrá-lo em Veneza e, no caminho, procure alguém com tipo físico parecido com o seu, para enganar a polícia. Elise segue as ordens à risca e, no trem a caminho da cidade italiana, se aproxima do professor de matemática Frank Tupelo (Johnny Depp), que viaja sozinho. Ele fica atraído por sua beleza e aceita a oferta de ir até o hotel dela, assim que chegam a Veneza. Só que logo Frank se torna alvo de Reginald Shaw (Steven Berkoff), um poderoso gângster que teve mais de US$ 2,5 bilhões roubados por Pearce.

Sr. & Sra. Smith fez sucesso pelos motivos errados. O filme nada mais era do que uma aventura prolongada demais e cheia de exageros (ainda que divertidos). A maior sorte do filme foi ter dois atores que estão no grupo dos mais desejados do planeta: Angelina Jolie e Brad Pitt. A química entre eles deu certo, o filme de Doug Liman estourou por causa disso e, inclusive, o casal juntou os trapos tempos depois. O Turista, numa tentativa de repetir o sucesso colocando Jolie com outro ator desejado pelos quatro cantos do mundo, falha naquilo em que Sr. & Sra. Smith tanto acertava: na sincronia entre o casal protagonista. Jolie e Johnny Depp podem mesmo ser lindos e eficientes. Mas, quando colocados lado a lado, estão muito longe de funcionar.

Não sei se a culpa é de um ou de outro, mas a apatia dos dois chega a incomodar. Ela ainda se beneficia por estar mais diva do que nunca (sua beleza não tem fim, está lindamente fotografada e desfila com belos figurinos e jóias impressionantes), mas ele, coitado, deve estar no pior momento da carreira. Nunca pensei que fosse dizer isso na vida, mas Johnny Depp é o que mais atrapalha. Enquanto Jolie se sustenta muito bem sozinha, Depp parece completamente perdido e sem carisma algum. Minha teoria é que ele tem problemas com papéis de sujeitos comuns (o seu John Dillinger, por exemplo, em Inimigos Públicos era morno). Depp está me levando a crer que é ator de um tipo só. Talvez nem isso, uma vez que sua aparição em Alice no País das Maravilhas foi mais do mesmo. Afinal, o que está acontecendo com Johnny Depp?

Entretanto, seria muito injusto dizer que O Turista fracassou com crítica e público apenas por causa da falta de química entre os protagonistas. Pelo contrário, Florian Henckel Von Donnersmark, que já mostrou extrema habilidade como diretor em A Vida dos Outros, surge castrado no sentido autoral, rendendo-se ao mundo Hollywoodiano em um filme que aposta em obviedades e previsibilidades desses thrillers americanos que misturam romance, aventura e algumas cenas engraçadas. O Turista é um produto comercial da cabeça aos pés. É bem provável que o principal problema do filme de Von Donnersmarck seja mesmo a falta de personalidade. Se Jolie e Depp sofrem pela falta de sincronia, a direção e o roteiro também surgem igualmente mal personalizados. Falta uma marca em O Turista ou alguém que traga algum diferencial.

Longe de ser o desastre que muitos apontaram, o filme nada mais é do que um típico passatempo norte-americano que não tem um pingo de originalidade. O Turista pode até ter uma resolução desnecessária e que subestima a paciência do espectador, mas consegue ser assistível dentro de suas limitações. Se não tivesse tanto dinheiro envolvido, locações luxuosas e atores que despertam o interesse do público, talvez O Turista nem tivesse sido massacrado. É uma produção vítima de expectativas e que não soube ir além do óbvio. Mesmo tendo todas as cartas em mãos para a construção de um thriller bem sucedido, Florian Henckel Von Donnersmarck não soube fazer a jogada certa para surpreender. Ele achou que só Angelina Jolie e Johnny Depp seriam o suficiente para sua historinha óbvia. Não foram. Só o que eles fizeram foi aproveitar todo o luxo que as filmagens proporcionaram.

FILME: 6.5

A trilha sonora de… O Discurso do Rei

Hoje em dia, não deve existir compositor que trabalhe tanto quanto o francês Alexandre Desplat. Indicado três vezes ao Oscar (pelas ótimas trilhas de A Rainha, O Curioso Caso de Benjamin Button e O Fantástico Sr. Raposo), ele repete o feito esse ano, conseguindo uma quarta indicação por seu trabalho em O Discurso do Rei. Realezas e política parecem atrair o interesse de Desplat, já que essa é uma de tantas trilhas que ele realiza envolvendo esses temas (outro exemplar, além do já citado A Rainha, foi o ótimo resultado alcançado pelo francês ao fazer o score de The Special Relationship).

Agora fica a pergunta: quando que o compositor finalmente levará a sua primeira estatueta? Ao julgar pelo trabalho que podemos conferir em O Discurso do Rei, não será dessa vez. Pelo menos não por merecimento. Longe de mim dizer que Desplat não é digno de reconhecimento (ele é um incontestável expoente entre os compositores contemporâneos), mas seria meio injusto vê-lo vencedor por um trabalho que está longe de representar um de seus momentos mais inspirados. A trilha de O Discurso do Rei é apenas satisfatória.

O álbum é relativamente curto (são apenas 13 faixas, onde 11 são de autoria de Desplat) e, em várias composições, repete a melodia de piano utilizada na música-tema do filme, The King’s Speech. Piano, por sinal, é utilizado em muitas passagens dessa trilha, que adota um pouco do estilo apresentado pelo compositor em A Rainha. Mas como o francês nunca se repete, cria algo com personalidade e, acima de tudo, com qualidade. Ou seja, a trilha de O Discurso do Rei está longe de representar um Desplat muito inspirado ou digno de empolgação. Mas, como nós todos já sabemos, Desplat é Desplat: sempre vale a pena. Para fazer o download, clique aqui.

1. Lionel and Bertie

2. The King’s Speech

3. My Kingdom, My Rules

4. The King is Dead

5. Memories of Childhood

6. King George VI

7. The Royal Household

8. Queen Elizabeth

9. Fear and Suspicion

10. The Rehearsal

11. The Threat of War

12. Speaking Unto Nations (Beethoven Symphony no. 7 – II)

13. Epilogue (Beethoven Piano Concert no. 5 Emperor – II)

Melhores de 2010 – Atriz Coadjuvante

Quando penso em Nine o primeiro nome que me vem à cabeça é o de Marion Cotillard. Preterida pelas premiações enquanto a sua companheira de tela Penélope Cruz recebia várias indicações, Cotillard foi a verdadeira estrela desse musical decepcionante. Dona dos melhores momentos musicais, a francesa, mais uma vez, demonstrou grande versatilidade. Introspectiva (ela é total destaque quando canta My Husband Makes Movies) e sensual (arrasa em Take it All), Cotillard é o coração de Nine. Sua Luisa Contini é a única lembrança positiva que o espectador leva dessa passageira experiência proporcionada pelo diretor Rob Marshall. Marion, portanto, conseguiu se firmar como uma das mais talentosas atrizes de sua geração e, desde já, é um nome que sabemos que dificilmente desapontará. Afinal, ser a melhor  interpretação de um elenco que traz Daniel Day-Lewis, Judi Dench e Sophia Loren não é para qualquer uma. Cotillard nos entrega uma atuação na medida e que ficou comigo durante um bom tempo após o filme. E existe melhor jeito de avaliar o quanto uma interpretação marcou se não o quanto ela fica na nossa memória após os créditos finais?

VERA FARMIGA (Amor Sem Escalas)

Anna Kendrick tinha o papel mais “simpático” e que também utilizava muito mais a emoção do que o de Vera Farmiga. Entretanto, como na maioria dos casos, tenho forte tendência a apreciar melhor os papéis contidos. Combinando perfeitamente com George Clooney (os dois formam um dos melhores casais do cinema contemporâneo), Farmiga demonstra competência em cada cena de Amor Sem Escalas. Transmitindo toda a independência e maturidade de uma mulher dedicada por completo ao mundo profissional, a atriz foi um dos grandes destaques do filme de Jason Reitman. Pena que não teve chances contra Mo’Nique na época dos prêmios.

MO’NIQUE (Preciosa – Uma História de Esperança)

Para ser bem sincero, não acho que Mo’Nique seja todo esse estouro que as premiações disseram ou que a crítica apontou. De qualquer forma, não posso deixar de reconhecer tudo o que a atriz conseguiu realizar em Preciosa – Uma História de Esperança. Se durante mais da metade do filme ela surge como uma maquiavélica mãe que parece não ter nenhum sentimento pela filha ou por qualquer um, também alcança destaque quando humaniza a sua personagem em uma sequência decisiva do longa. Em determinados momentos, parece que sua representação cai em repetições – mas, por sorte, é um retrato que sempre consegue chamar a atenção e atingir o público.

JULIANNE MOORE (Direito de Amar)

Certas atrizes são tão maravilhosas que nem precisam de muito tempo em cena para uma marcante aparição. Se Viola Davis já havia conseguido esse feito com Dúvida, Julianne Moore conseguiu repetir a situação em Direito de Amar. No auge de sua beleza com um visual estonteante, a subestimada atriz brilhou em cada minuto no filme de Tom Ford. Como a rica e bela mulher que é cheia de amigos mas, no fundo, é solitária e frustrada por não ter sido a escolha amorosa de George (Colin Firth), Moore traduziu com perfeição o glamour e as decepções de uma mulher que está longe de ser o que aparenta. Trabalho irretocável.

SAMANTHA MORTON (O Mensageiro)

Outra atriz injustiçada não só na última temporada de premiações, mas também nos últimos anos. Samantha Morton compreendeu todo o lado emocional proposto por O Mensageiro e entregou uma atuação digna de aplausos. Emotiva mas longe da visceralidade dos seus companheiros de tela, Ben Foster e Woody Harrelson, Morton adota um tom mais singelo para compor sua personagem. Escolha acertada, já que esse tipo de representação combinou totalmente com Morton, que foi um dos destaques mais interessantes de O Mensageiro. Ela é uma grande contribuição para esse retrato humano sobre os efeitos da guerra do Iraque.

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Escolha do público:

1. Mo’Nique (13 votos, 34.21%)

2. Julianne Moore (11 votos, 28.95%)

3. Marion Cotillard (10 votos, 26.32%)

4. Samantha Morton (2 votos, 5.26%)

5. Vera Farmiga (2 votos, 5.26%)

Biutiful

Direção: Alejandro González Iñárritu

Elenco: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanaa Bouchaib, Guillermo Estrella, Eduard Fernández, Cheikh Ndiaye, Diaryatou Daff

México, 2010, Drama, 147 minutos

Sinopse: Catalunha. Uxbal (Javier Bardem) coordena vários negócios ilícitos, que incluem a venda de produtos nas ruas da cidade e a negociação do trabalho de um grupo de chineses, cujo custo é bem menor por não serem legalizados e viverem em condições precárias. Além disto, ele possui o dom de falar com os mortos e usa esta habilidade para cobrar das pessoas que desejam saber mais sobre seus entes que partiram há pouco tempo. Uxbal precisa conciliar sua agitada vida com o papel de pai de dois filhos, já que a mãe deles, Marambra (Maricel Álvarez), é instável. Até que, após sentir fortes dores por semanas, ele resolve ir ao hospital. Lá descobre que está com câncer e que tem poucos meses de vida.

Em Biutiful, a história de Uxbal (Javier Bardem) segue duas correntes. A primeira é sobre a difícil vida que ele leva com os filhos, a descoberta do câncer de próstata e o relacionamento com a problemática ex-mulher, Marambra (Maricel Álvarez). A segunda é sobre como Uxbal coordena uma série de atividades ilícitas, entre elas a pirataria e o trabalho de um grupo de orientais que vive no México ilegalmente. Quando decide narrar a primeira abordagem, Biutiful alcança os seus melhores momentos. Já na hora de trabalhar a segunda, cai na monotonia. Ou seja, funciona numa parcela e peca na outra.

O mexicano Alejandro González Iñárritu sempre realizou filmes compridos, mas nunca, em nenhum momento, deixou suas produções se tornarem cansativas. Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, por exemplo, eram lentos, mas nunca monótonos. Biutiful, por um outro lado, é o primeiro filme do diretor que pode deixar o espectador meio aborrecido. Com uma narrativa pouco interessante quando decide narrar as atividades ilícitas do protagonista, o roteiro peca por dar atenção demais a esse assunto e não apostar prioritariamente no que existe de melhor no enredo: o drama de Uxbal ao lidar com um câncer e com os filhos. É algo para se lamentar, uma vez que, nos momentos finais (especialmente em função da boa trilha de Gustavo Santaolalla), Biutiful dá a entender que essa é a parte que ele quer que o público leve na memória.

Em contraponto, Alejandro González Iñárritu continua sendo um diretor que sabe filmar muito bem os aspectos sociais de países – aqui a pobreza e as dificuldades da Espanha são salientadas pela fotografia e pelos jogos de câmera utilizados por ele. Também permanece como um sujeito que sabe orquestrar bons atores. E é com toda certeza que afirmo que Biutiful não seria o mesmo sem a extraodirnária presença de Javier Bardem. Mostrando-se sempre versátil, Bardem é um dos atores expoentes do seu país e, por esse trabalho, chegou a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Humano na medida exata e sempre incrivelmente eficiente, ele é a razão para se assistir Biutiful, um longa com momentos interessantes, mas que termina sendo o mais fraco da carreira do diretor.

FILME: 6.5


O Oscar das ausências…

Ah, querida Julianne Moore! Não adianta mais você tentar se reinventar!

Já foram três anos consecutivos…

Arrasou  na cegueira. Dançou lindamente com Colin.

Nem como esposa de Annette. O Oscar tem algum problema contigo!

Nem BAFTA ou Globo de Ouro. Nada te ajudou a ser finalista em melhor atriz!
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Mas consolo sempre existe… Ah, se existe!

Querida Julie, pense que o gênio Nolan também não está lá.

Pense que o filme do Fincher já não tem mais o mesmo brilho.

Num mundo de injustiças, o Oscar sempre consegue se superar.

Esse é mais um ano sem Julianne Moore.

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Esse é mais um ano de escolhas previsíveis, quando não absurdas.

Mais um ano de apresentadores que não despertam expectativas.

Mas, como sempre, mais um ano que vamos xingar e continuar assistindo…

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Tron sem efeitos, Garfield esnobado, DiCaprio esquecido.

O Oscar já não é mais um prêmio querido.

Na missão de ser o maior prêmio do cinema, se esforça em ser o oposto.