Cinema e Argumento

51º Festival de Cinema de Gramado #7: “Mussum, o Filmis”, de Silvio Guindane

mussumfilmis

Se há alguma magia a ser alcançada por qualquer cinebiografia, essa deveria ser a de conseguir emular, em seu próprio espírito, as razões que popularizaram um personagem a ponto de ele ser digno de virar filme. Não são muitas as que conseguem, mas podemos creditar bons exemplos a filmes como Rocketman, que se apropria da imaginação de Elton John para contar sua história por meio de um musical, e até mesmo o documentário Cássia Eller, que, mesmo convencional em formato, consegue capturar a verve da cantora-título ao fazer escolhas certeiras de depoimentos ou recortes específicos. E, por mais que reproduza a cartilha de sempre das cinebiografias, Mussum, o Filmis se junta a esses resultados felizes em que um projeto parece mesmo tomado pela energia de seu personagem.

A estreia nos cinemas brasileiros está prevista para o dia 3 de novembro, e não será surpresa alguma se o filme de Silvio Guindane conseguir mobilizar plateias com a boa mistura alcançada entre humor, samba e dramas familiares. Mussum, o Filmis é, antes de qualquer coisa, muito brasileiro e habilidoso ao construir uma fácil comunicação com o público, principalmente porque não tenta engrandecer a todo custo a história do protagonista, sempre visto com um homem simples e comum, sem aqueles tradicionais arcos de ascensão, fama e queda que já são de praxe no gênero. O longa acerta em preferir o ser humano ao ícone cômico do início ao fim, o que confere grande dignidade tanto a Mussum (Aílton Graça) quanto a figuras importantes de sua vida.

É nos encontros que ele tem com, por exemplo, Grande Otelo, e na relação estabelecida com a mãe que o personagem ganha nosso afeto. Entretanto, tais conexões não teriam a mesma eficiência se o elenco reunido por Guindane não fosse tão coeso. Os louros dados a Aílton Graça são mais do que justificados, além de serem um presente para esse ator prolífero e que aguardava um momento de destaque como esse, mas todos merecem nota, sejam aqueles em pontas importantes, como o próprio Grande Otelo de Nando Cunha, ou os que estão ali para fazer transições, a exemplo do Mussum mais jovem de Yuri Marçal e das mães vividas por Cacau Protásio e Neusa Borges. Todos eles contam com um excelente trabalho de caracterização que se estende à personificação de outros ícones como Elza Soares e Jorge Ben.

Ao mesmo tempo em que tais acertos tiram a experiência do clima enfadonho que já é característico das tantas cinebiografias produzidas atualmente, eles não nos distraem da falta de ousadia no formato, da escolha por evitar polêmicas (o maior conflito, por assim dizer, é a separação muito discreta dos Trapalhões em função de Didi) e dos discursos literais e edificantes, como aquele em que, próximo ao final da projeção, o protagonista dá a um grupo de crianças carentes. Contudo, na hora de fechar a conta, Mussum, o Filmis pode até não ser um grande longa, mas tem coração de sobra para já ser melhor do que a média das dramatizações que chegam aos cinemas envolvendo figuras da vida real.

51º Festival de Cinema de Gramado #6: os vencedores da mostra competitiva de curtas brasileiros

curtasgram51

Dirigido por Roger Gihl, o curta-metragem Remendo foi o grande vencedor da 51ª edição do Festival. Foto: Edison Vara/Pressphoto.

Em uma sábia decisão, o Festival de Cinema de Gramado resolveu dividir a cerimônia de premiação na edição deste ano. Antes abarrotada com dezenas de categorias em um cerimonial que ultrapassava as quatro horas de dureação, a entrega dos Kikitos deste ano teve a sua primeira parte nesta sexta-feira, 18 de agosto, quando foram revelados os vencedores da mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros. Isso não só desafoga todo o ritual de premiação como dá maior visibilidade e protagonista aos curtas-metragistas, que são presença fundamental no evento gaúcho.

Ainda bem que bem balanceado em termos de pluralidade (estética, temática, regional, etc.), o ano não foi particularmente interessante para os curtas, e as escolhas do júri acabaram sendo um tanto distributivistas, com apenas três títulos de 12 em competição saindo sem um Kikito da premiação. O grande vencedor foi o deliciosamente caótico Remendo, uma surpresa diante dos merecidos prêmios de melhor atriz, roteiro e júri popular para o sensível Ela Mora Logo Ali. De qualquer forma, considero ambos os destaques da mostra, junto a outros menos destacados pelo júri, como Casa de Bonecas, um horror queer muito interessante e ousado em suas experimentalidades.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Remendo, de Roger Ghil
MELHOR DIREÇÃO: Mariana Jaspe (Deixa)
MELHOR ATRIZ: Agrael de Jesus (Ela Mora Logo Ali)
MELHOR ATOR: Phillipe Coutinho (Sabão Líquido)
MELHOR ROTEIRO: Fabiano Barros e Rafael Rogante (Ela Mora Logo Ali)
MELHOR MONTAGEM: Luiza Garcia (Camaco)
MELHOR FOTOGRAFIA: Morzanel Iramari (Mãri-Hi – A Árvore do Sonho)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Felipe Spooka e Jacksciene Guedes (Casa de Bonecas)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Mano Teko e Aquahertz (Yãmî Yah-Pá – Fim da Noite)
MELHOR DESENHO DE SOM: Kiko Ferraz (Sabão Líquido)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Mãri-Hi – A Árvore do Sonho
MENÇÃO HONROSA: Cama Vazia, de Fábio Rogério e Jean-Claude Bernardet

MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Ela Mora Logo Ali
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Camaco, de Breno Alvarenga

51º Festival de Cinema de Gramado #5: “Mais Pesado é o Céu”, de Petrus Cariry

mpceufilme

No melhor da linha tênue entre o pessimista e o realismo, Mais Pesado é o Céu pinta o retrato de um Brasil já terminado, com dois protagonistas que, apesar das duras adversidades, precisam olhar para frente, mas que sequer conseguem abrir os olhos. Eles são Antônio (Matheus Nachtergaele) e Teresa (Ana Luiza Rios), estranhos à beira da estrada que acabam unidos pelo aparecimento de um bebê abandonado. Seria essa pequena criança um vislumbre de esperança para uma vida repleta de incertezas e desprovida de perspectivas?

Mais Pesado é o Céu pode ser resumido a partir desse recorte. No entanto, o segundo longa-metragem do cearense Petrus Cariry é mais sobre atmosfera e menos sobre uma história propriamente dita. Aliás, leva um certo tempo para que o espectador, naturalmente inclinado a desvendar o que acontecerá com os personagens em termos de acontecimentos, acostume-se à ideia de que o objetivo do diretor está em se comunicar por meio de imagens e, principalmente, sensações, convidando a plateia para um mergulho na vida de duas pessoas que mal sabem como ou onde estarão ao final do dia.

Também fotógrafo do filme e autor do roteiro ao lado de Firmino Holanda e Rosemberg Cariry, Petrus registra a estrada não como a esperançosa via para se chegar a um destino, mas como um não-lugar em que pessoas estão vivas sem necessariamente estarem vivendo. O bebê que poderia ser o símbolo de um futuro diferente ou, quem sabe, da construção de uma família logo exige de Antônio e Teresa sacrifícios ainda maiores em comparação ao que estavam acostumados em suas vidas como andarilhos, colocando-os praticamente em queda livre.

Mais Pesado é o Céu não economiza na dureza com que trata seus protagonistas, ao mesmo tempo em que também lhes observa com outros traços. Uma cena que exemplifica muito bem essa mistura é aquela em que Antônio, a partir de um gesto muito natural, toma o resto de leite da mamadeira do bebê. Trata-se de algo ao mesmo tempo incômodo, tragicômico e compreensível, pois mostra a decisão errática tanto de um homem que rouba o já escasso alimento de uma criança quanto a de um desamparado também estado de fome.

Na estrada de Petrus Cariry, bebês são abandonados, mulheres precisam se prostituir para garantir seu sustento e homens são tão medíocres quanto violentos. Entretanto, Mais Pesado é o Céu reserva, sim, espaço para algum tipo de luz no fim do túnel, seja nas entrelinhas do desfecho violentamente vertiginoso ou nas personagens de suporte vividas por Danny Barbosa e Silvia Buarque, ambas mulheres que tentam, na medida do possível, dar algum ombro ou acolhimento para a sofrida Teresa.

“O que a gente fez com a gente?”, pergunta, em certo ponto, o Antônio de Matheus Nachtergaele. A pergunta representa perfeitamente o que Mais Pesado é o Céu coloca na tela em imagens, seja por meio da excelente fotografia do próprio Cariry ou da intensa e atmosférica trilha sonora de João Victor Barroso. Não é para qualquer tipo de público — assim como, de imediato, logo após a sessão, pensei que não fosse para mim —, mas trata-se de uma experiência no mínimo fora da curva e que, mesmo difícil e pesada de se digerir, pode muito bem se engrandecer conforme é relembrada e refletida.

51º Festival de Cinema de Gramado #4: “Tia Virgínia”, de Fabio Meira

tiavirginiafilme

O diretor Fabio Meira diz que levou dez anos para escrever o roteiro de Tia Virgínia, mas que, na verdade, a gênese está em uma “pesquisa” de 43 anos observando a sua própria família e as mulheres que o formaram como ser humano. Assim é o cinema de Fabio: inspirado em lembranças pessoais e cercado de delicadeza para falar sobre aquilo que lhe é muito próximo, conhecido e, claro, familiar. As Duas Irenes, seu precioso trabalho de estreia, era baseado em histórias que o diretor ouvia e, agora, Tia Virgínia coloca na tela momentos que ele próprio testemunhou. Isso explica muita coisa sobre um longa-metragem tão bem apropriado de suas personagens e das relações estabelecidas entre elas.

A tia Virgínia do título é vivida por Vera Holtz. Trata-se de uma mulher que viu o tempo passar e não realizou nada na vida. Hoje, cansada e refém de uma rotina extenuante, cuida da mãe mais velha e que está em uma cadeira de rodas sem sequer conseguir falar. E, mais do que exausta, não estaria tia Virgínia enlouquecendo um pouco também? Sua tragédia pessoal não é esse contexto em si, mas sim a constatação de que ela está do jeito que está porque suas duas outras irmãs jogaram para ela a responsabilidade de cuidar da mãe, ainda que se abstenham de reconhecer qualquer parcela de autoria nisso. É nessa ciranda familiar que Tia Virgínia concentra ressentimentos, sonhos perdidos e, quem sabe, o vislumbre de uma ruptura.

Assim como no Álbum de Família de Tracy Letts, a tia Virgínia de Vera Holtz mal abre as janelas e as cortinas da casa, traduzindo o sufocamento vivido pela personagem e, logo em seguida, trazido pelas irmãs que chegam para o Natal. O grande atrito encenado pelo filme de Fabio Meira mora nessa interferência que as irmãs Valquíria (Louise Cardoso) e Vanda (Arlete Salles) insistem em fazer no modo como Virgínia vive sua vida e até mesmo cuida da casa e da mãe. Como o excelente roteirista que é, Meira transcende a abordagem clássica de irmãs que amam e se odeiam para também deixar o espectador curioso sobre o que a protagonista, frequentemente surpreendente e imprevisível, reserva para uma véspera de Natal em que promete fazer um importante anúncio.

Há muito mais do que a mistura entre drama e comédia no texto de Tia Virgínia. A cena em que a protagonista, por exemplo, cai em uma gargalhada descontrolada na hora do almoço é um passeio pelas variadas emoções dela própria e dos outros personagens à mesa, com diversão, estranhamento e até constrangimento. Ter as irmãs questionando a sanidade da irmã torna tudo ainda mais interessante tanto porque nos coloca nesse mesmo lugar quanto nos faz entender que muitas das “loucuras” de Virgínia são uma maneira da personagem extravasar aquilo que a manipulação não tão velada das irmãs varre para debaixo do tapete em um constante jogo de aparências.

Para dar vida às personagens, Fabio Meira reuniu um elenco de primeira. Impossível não começar a falar sobre ele sem esbaldar reconhecimento para o grande desempenho de Vera Holtz, que não costuma receber protagonismos como esse no cinema brasileiro. Ela encontra o equilíbrio perfeito entre todas as facetas de Virgínia e tem momentos que levaram a plateia do 51º Festival de Cinema de Gramado à apoteose, com direito a aplausos em cena aberta. Vera está muitíssimo bem acompanhado de Arlete Salles e Louise Cardoso, seja pela performance individual de cada uma ou pela inegável química como um trio. Ainda há o pequeno papel de Antônio Pitanga, que diverte sem se estabelecer como um simples alívio cômico.

Como diretor, Fabio Meira comanda Tia Virgínia com esmero, fazendo escolhas interessantíssimas e, por que não, ousadas, a exemplo de quando deixa fora de quadro um embate catártico da trama, entregando ao espectador a missão de tentar imaginar aquilo que não conseguimos ver. A mise-em-scéne garante que o resultado não se assemelhe a uma peça de teatro filmada (o que costuma ser uma dificuldade para longas ambientados em um único espaço) e a cuidadosa direção de arte comunica discretamente a história daquele núcleo familiar. Se, com As Duas Irenes, Fabio Meira já era um cineasta a se acompanhar, agora, com Tia Virgínia, consolida sua identidade como realizador e deixa a curiosidade se o que vem por aí é, quem sabe, o último capítulo de uma trilogia inspirada em suas crônicas familiares.

51º Festival de Cinema de Gramado #3: “Angela”, de Hugo Prata

angelafilme

Não acho que exista estrutura mais elegante para uma cinebiografia do que abordar a vida de uma personagem a partir de um momento ou de um recorte específico. Quanto menos o roteiro parecer uma linha de tempo da Wikipedia, melhor. Em Elis, seu trabalho de estreia em longas-metragens, o diretor Hugo Prata foi superficial ao, justamente, tentar abraçar a vida — e quase todo o repertório musical — da eterna Elis Regina. Já em Angela, a aposta é outra, com Prata encenando apenas os últimos quatro meses de vida da socialite mineira Angela Diniz, quando ela se relacionou e foi assassinada por seu companheiro Raul, conhecido como Doca Street.

Infelizmente, o resultado é bastante similar ao de Elis no sentido de Angela não conseguir capturar as dimensões de sua protagonista. Inclusive, tudo parece mais esvaziado nesse segundo filme do diretor, o que se deve ao fato de que o roteiro assinado por Duda de Almeida não se expande para muito além do relacionamento entre Diniz e Doca. A dinâmica entre os dois poderia revelar várias camadas da vida pregressa da personagem e de sua personalidade, mas Angela é resumida a essa conexão tóxica com um homem que parece talhar-lhe qualquer senso de decisão e determinação. Para quem desconhece a história real, dificilmente o longa de Hugo Prata ajudará a dar uma boa contextualização sobre quem de fato foi a biografada.

Há outros problemas significativos nesse recorte de uma nota só. Assim como vimos há pouco tempo em Blondie, a protagonista é resumida ao sofrimento, e as nuances de sua “forte” personalidade são limitadas a um comportamento desbocado com quem quer que seja. Essa fragilidade se acentua na medida em que Angela é circular na dinâmica estabelecida entre o casal. O ritual é sempre o mesmo: euforia de amor, cenas de sexo com muita música, crise de ciúmes (provocados ou imaginados), brigas com violência em escalada, término e, por fim, reconciliação. Algo no mínimo redundante para um filme de quase duas horas e que deixa escapar a chance de refletir sobre a questão do abuso ao invés de somente reconstituir ou reimaginar fatos.

O maior elo de Angela é a performance de Ísis Valverde, visivelmente entregue a personagem e colocando em sua performance mais do que o roteiro lhe dá como base. Como Doca Street, Gabriel Braga Nunes não foge muito do tipo que costuma interpretar, mas se encaixa bem à forma com que o texto desenha seu personagem. Eles acabam preservando o interesse por uma história cujo desfecho sabemos que é trágico e que Angela resolve usar como ponto final. Todo o desenrolar jurídico e de opinião popular sobre o caso fica apenas para uma série de letreiros antecedendo aos créditos, o que é anticlimático e abrevia reflexões fundamentais para o projeto como um todo.