Cinema e Argumento

“Pedágio” é o reflexo que o Brasil não quer enxergar frente ao espelho

Tem coisa que nunca muda.

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Direção: Carolina Markowicz

Roteiro: Carolina Markowicz

Elenco: Maeve Jinkings, Kauan Alvarenga, Thomás Aquino, Aline Marta Maia, Isac Graça, Caio Macedo, Clarissa Pinheiro, Erom Cordeiro

Brasil, 2023, Drama, 102 minutos

Sinopse: Suellen (Maeve Jinkings), cobradora de pedágio, percebe que pode usar seu trabalho para fazer uma renda extra ilegalmente. O seu objetivo é financiar a ida de seu filho (Kauan Alvarenga) à caríssima cura gay ministrada por um famoso pastor estrangeiro.

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Um personagem de Pedágio diz que, “se pastor e político forem comprar tudo certinho, acabou o Brasil”. É sintomática a contradição contida nessa afirmação, pois o próprio personagem, um homem de negócios escusos, ganha a vida na ilegalidade. E aí está o Brasil que a talentosa cineasta Carolina Markowicz quer mostrar: aquele de uma imoralidade normalizada porque sempre é possível lavar as mãos, terceirizar a culpa e justificar um ato ilegal diante de outros supostamente piores. Pedágio alerta para essa espécie de terra de ninguém em que cada um faz o que bem entende conforme seus valores (ou da falta deles), sem tirar um minuto sequer para se olhar no espelho e entender que escolhas erradas, por menores que possam parecer, nunca devem ser justificadas pela existência de outras.

Markowicz, que teve uma bela estreia em longas-metragens com Carvão, também emoldurado pelas contradições do Brasil, lança um olhar ainda mais microscópico para a hipocrisia nossa de todo dia com Pedágio. A religião tem papel fundamental para suas novas observações, especialmente a figura Suellen (Maeve Jinkins), que vê a homossexualidade do filho como um problema suficientemente grave para que cometa ilegalidades em busca de um tratamento que promete a famosa “cura gay”. O tema é um terreno fértil porque mexe com valores, crenças e essa soberba de dizer ao outro o que é certo ou errado. O longa-metragem coloca o dedo nessa ferida em muitos sentidos, seja pelo próprio conflito central de Suellen com o filho ou com subtramas envolvendo personagens que, em um momento, condenam a sexualidade alheia em nome de Deus e, no outro, descumprem os votos do matrimônio fazendo sexo às escondidas entre um intervalo e outro do trabalho.

Exímia roteirista, Markowicz transita pelas diversas contradições expostas Pedágio com a consciência de que a realidade já garante personagem suficientemente estereotipados, evitando pesar a mão em suas representações. A construção de Suellen se destaca nesse sentido, pois a protagonista não se apresenta com uma religiosa fervorosa de trajes brancos e cabelos compridos, mas sim como uma mulher que se coloca contra a sexualidade do filho em função do olhar alheio e do que lhe é dito por terceiros, ao invés de refletir sobre suas convicções pessoais — que, aliás, talvez ela própria não saiba exatamente quais são. A relação estabelecida com o filho Tiquinho (Kauan Alvarenga) também foge ao lugar-comum quando Markowicz captura o dia a dia entre os dois como conflituoso em vários níveis e não como o tormento religioso imposto por uma mãe que deseja doutrinar o filho. Pedágio merece os devidos louros pela abordagem sóbria e que, em outras mãos, descambaria para a simples caricatura.

Inclusive o que poderia ser classificado como paródia é usado com perspicácia, caso do pastor português que desembarca no Brasil com a promessa da cura gay. Todos os exercícios e reflexões propostas por ele com o objetivo de “reverter” os “hábitos” dos participantes são tão absurdos que somente a caricatura poderia dar conta de representar. No mais, a excelente notícia é que Pedágio jamais pode ser classificado como um filme temático, digamos assim, uma vez que diretora-roteirista costura todas as discussões com personagens muito críveis e conflitos fiéis à realidade brasileira. Sua capacidade de inserir o afeto em meio a tudo isso é, de certa forma, surpreendente, com atribuições frequentemente invertidas, como a capacidade de amar incondicionalmente, incorporada pelo único personagem que realmente se (re)conhece e está perfeitamente confortável em sua pele. E é graças a figuras como ele que não estamos em um país Brasil (e em um mundo) ainda pior.

Das páginas para as telas, “Fim” medita sobre a vida a partir da morte e é excelente adaptação de Fernanda Torres para seu próprio romance

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Dez anos separam o lançamento do livro Fim e a estreia de sua versão para o audiovisual. Há várias alterações na adaptação, e elas sempre preservam a essência da obra original.

Lembro de ler Fim, romance de estreia da atriz Fernanda Torres, com grande deslumbre. À época, mais especificamente no ano de 2013, Fernandinha já havia se provado o suficiente, seja com suas consagrações como intérprete, aventurando-se na escrita de roteiros como o de Redentor ou trabalhando sua escrita observadora e apurada em crônicas assinadas para o jornal Folha de São Paulo e para as revistas Piauí e Veja Rio. Só que escrever um romance é uma história completamente diferente e, por que não, uma ambição que poderia descambar para um mero capricho. Isso se não estivéssemos falando de Fernanda Torres. Fim não só alcançou o status de best seller com centenas de milhares de cópias vendidas como ganhou um prêmio Jabuti, o mais prestigiado do mercado brasileiro. Ou seja, ela, mais uma vez, provava ser imparável e uma das nossas artistas mais múltiplas em atividade.

Dez anos depois, o raio volta a cair no mesmo lugar com a adaptação de Fim para uma minissérie estruturada em dez episódios, todos também escritos por ela. Ser uma boa adaptação por si só já seria o bastante, pois o romance homônimo tem uma estrutura narrativa tão única e uma condução tão própria de Fernanda para o formato literário que o transpor para o audiovisual seria um desafio difícil de resolver. Como roteirista, entretanto, sua opção foi das mais sábias e desprovidas de vaidade, dispensando o zelo excessivo com material original para a escritora dar lugar à roteirista. Ao longo de seus episódios, Fim traduz na tela a vocação folhetinesca e rodrigueana de sua premissa com linguagem própria, não deixando vestígios de traços literários ou algo similar. É uma adaptação com várias alterações em formato, mas preservando o frescor de sua essência.

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Fábio Assunção e Marjorie Estiano são Ciro e Ruth, um dos tantos casais em transformação que Fim explora a partir de idas e vindas no tempo.

A narrativa deixa de ter um personagem como foco a cada episódio para misturar todos eles com idas e vindas no tempo, além de uma adição mais do que acertada: as mulheres em pé de igualdade com os homens, o que garante que a versão em minissérie de Fim tenha como norte as relações afetivas vividas por Ciro, Neto, Álvaro, Ribeiro e Silvio, o quinteto de boêmios cariocas que, ao atravessar décadas a partir dos anos 1960, experimenta todas as surpresas e transformações inerentes à vida como a conhecemos. O roteiro é exitoso em muitos aspectos, a começar pela notável habilidade em transitar entre pelo menos uma dezena de personagens e diferentes linhas temporais sem causar confusão. Pelo contrário. As diversas portas abertas por Fim só colaboram para sublinhar a proposta de falar sobre a vida por meio da morte e, principalmente, sobre o que fazemos (ou deixamos de fazer) com a irrefreável passagem do tempo. 

Não há como assistir à minissérie sem tentar se encontrar em algum daqueles personagens — ou melhor, em algum daqueles pares (trios?). Do casal apaixonado e fiel até a morte de um deles, passando por outro que desconstrói a ideia de que a vida finalmente entra nos trilhos após o casamento, ao mulherengo convicto e independente que abandona a mulher e os filhos para viver como sempre bem entendeu, Fim nos lembra de que não existem modelos certos ou errados de relacionamentos e que, na verdade, são as nossas decisões em torno deles que moldam boa parte de quem nos tornamos. Nesse sentido, o vai e vem entre os diferentes tempos jamais se apresenta como mera muleta para revelar segredos ou montar uma intrincada ciranda de afetos, e sim como uma excelente ferramenta dramática, pois ao encontrarmos os personagens já envelhecidos, decadentes ou à beira da morte, a experiência de vê-los tão jovens, vivos e otimistas se torna no mínimo agridoce.

Sob o comando dos diretores Andrucha Waddington e Daniela Thomas, o elenco reflete a harmonia da minissérie como um todo. Na realidade, é um verdadeiro prazer acompanhar a diversidade de talentos e instintos de intérpretes tão diferentes e complementares entre si. Como Ciro e Ruth na juventude, Fábio Assunção e Marjorie Estiano esbanjam carisma para, com o passar dos anos, mergulharem nas dores e frustrações de um casal diante do desmoronamento do seu castelo de conto de fadas. Já na pele de Neto e Célia, Heloísa Jorge e David Junior traduzem o afeto, mas também a firmeza, de quem mostra que, sim, o “felizes para sempre” é possível quando tudo é conversado às claras. Por outro lado, Thelmo Fernandes, como o tragicamente ingênuo Álvaro, e Debora Falabella, dando vida à uma afiada Irene, mostram os machucados e desencontros de duas pessoas unidas por mera pressão das convenções da época. Por fim, enquanto Emilio Dantas captura a eterna falta de perspectiva afetiva de Ribeiro, Bruno Mazzeo (em seu melhor momento) e Laila Garin são ótimos ao contrastar as diferenças de duas pessoas com visões de mundo muito diferentes e que só concordam em discordar sobre a forma como enxergam a vida e suas responsabilidades.

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Destaque dado a personagens femininas garante que Fim não seja celebração masculina em épocas marcadas pelo machismo normalizado.

Além de dividir a direção dos episódios com Daniela Thomas, Andrucha Waddington ficou a cargo de toda a concepção artística de Fim, uma missão árdua, tendo em vista as várias décadas contempladas, o fato de o elenco permanecer o mesmo durante toda trama e o próprio tom a ser empregado diante de um material amplo em sentimentos e personagens. Para isso, ele se utiliza de uma parte técnica primorosa que também captura em detalhes o bairro de Copacabana ao longo dos anos. A direção de arte assinada por Kiti Duarte e Rafael Cabeça, por exemplo, é meticulosa na reconstituição de época, assim como a trilha sonora de Gabriel Ferreira e do mestre Antonio Pinto cadencia os diferentes gêneros explorados com temas nada óbvios, como aquele marcante que encerra cada um dos capítulos. Andrucha concebe Fim artisticamente garantindo a alternância de fases da trama sem artificialismos, e isso é muito importante, pois evita distrações e garante fluidez na maneira como a minissérie contextualiza o espectador.

Aos 32 anos, tenho a felicidade de preservar grandes amigos, e Fim me pega muito nesse aspecto. Além de encenar os momentos de festa e diversão experimentados por Ciro, Álvaro, Neto, Silvio e Ramiro, a história coloca os amigos em conflito com a finitude de suas juventudes, de seus laços e, claro, de suas vidas. Por que um deixou esse plano antes do outro? Quem será o próximo? Em que momento eles deixaram de ser incansáveis foliões para se tornarem dependentes de remédios? Como a vida foi distanciando pessoas que um dia já foram tão íntimas? Impossível não se colocar no lugar deles — e no de suas esposas e namoradas, figuras essenciais para que Fim não seja a celebração de homens em uma época de machismo normalizado, mas sim daquilo que Fernanda Torres chama de “epitáfio do macho”. Se realmente não houver outra vida, eles todos se deparam com a conclusão aterradora de que certos erros nunca poderão ser consertados e de que biografias não podem ser reescritas. O que resta é, parafraseando a canção “Divino Maravilhoso”, seguir atento e forte, sem medo de temer a morte — porque, afinal, ao contrário do que diz Álvaro em uma das cenas mais bonitas de Fim, ela deveria, sim, ensinar alguma coisa a todos nós.

“Assassinos da Lua das Flores” traz olhar mais íntimo de Martin Scorsese para um importante registro histórico

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Direção: Martin Scorsese

Roteiro: Eric Roth e Martin Scorsese, baseado no livro “Killers of the Flower Moon: The Osage Murders and the Birth of the FBI”

Elenco: Leonardo DiCaprio, Robert De Niro, Lily Gladstone, Jesse Plemons, Tantoo Cardinal, Cara Jade Myers, Janae Collins, William Belleau, Jillian Dion, Jason Isbell, John Lithgow, Brendan Fraser, Scott Shepherd

Killers of the Flower Moon, EUA, 2023, Drama/Policial, 206 minutos

Sinopse: Na virada do século 20, o petróleo trouxe uma fortuna para a nação Osage, que, da noite para o dia, tornou-se uma das mais ricas do mundo. A riqueza desses nativos americanos atraiu imediatamente intrusos brancos, que manipularam, extorquiram e roubaram dinheiro Osage antes de recorrerem a assassinatos.

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Não é um whodunit, e sim um who-didn’t-do-it. Nas palavras do próprio diretor Martin Scorsese, Assassinos da Lua das Flores não coloca o espectador na busca pela identidade de quem teria cometido uma série de crimes contra a nação Osage, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1920. A tragédia foi tamanha que o filme sabiamente dispensa o mistério para refletir sobre a moralidade (ou a falta dela) através de um recorte em que o crime é dado como hábito. O difícil mesmo é descobrir quem não está por trás de uma conspiração em busca de território, fortuna e poder que, como tantas outras, expõe as cicatrizes da formação dos Estados Unidos como nação.

Baseado no livro homônimo de David Grann, Assassinos da Lua das Flores poderia ser, em linhas gerais, um clássico policial com a marca de Scorsese. Entretanto, o cineasta vem munido de grande sensibilidade ao equilibrar uma áurea épica com as jornadas íntimas dos personagens. Para chegar neste equilíbrio, uma mudança de perspectiva foi fundamental: aquela proposta por Leonardo DiCaprio de que o roteiro não fosse focado, como inicialmente escrito, na investigação dos crimes pelos olhos de um xerife, e sim na vivência de quem abraçou e perpetuou a violência contra a nação Osage.

Ao concordar com a ideia de DiCaprio, o roteirista Eric Roth e o próprio Scorsese tecem uma trama protagonizada por figuras conflituosas, afinal, os crimes eram arquitetados, majoritariamente, por homens que se casavam com as mulheres herdeiras da fortuna adquirida a partir da descoberta de petróleo nos territórios Osage. De explosivos implantados em pontos estratégicos a um esquema médico que envolvia injeções adulteradas de insulina, os métodos variavam conforme conveniência de cada golpe, e são vistos no filme a partir da relação entre Ernest (DiCaprio), que é envolvido pelo tio William Hale (Robert De Niro) no esquema, e Mollie (Lily Gladstone), que vê a sua comunidade ameaçada diante dos crimes.

A alternância entre o corrompimento de Ernest e o contido desespero de Mollie é o que faz de Assassinos da Lua das Flores o trabalho mais instigante entre os lançados por Scorsese nos últimos anos. As características que lhe tornaram Scorsese seguem presentes, mas com outro ritmo, outra atmosfera. Por sinal, ainda que tenha custado mais de 200 milhões de dólares, o projeto é comedido em escala, seja ela a técnica ou a emocional, como podemos perceber na trilha sonora de Robbie Robertson, sutil até mesmo quando precisa criar algum sentimento de tensão, e no excelente elenco, com destaque para a interpretação econômica e ao mesmo tempo muito contundente de Lily Gladstone, que rouba o filme para si toda vez que entra em cena, e para Robert De Niro, que se equilibra habilmente entre o verdadeiro caráter de seu personagem e o que ele busca transparecer para a sociedade.

São mais de três horas de projeção que o diretor conduz com admirável unidade, o que nem sempre costuma acontecer, como é possível constatar em O Irlandês, seu trabalho anterior. Isso talvez venha de um perceptível afeto de Scorsese pelo romance original, que também foi cotado para adaptação por diretores como JJ Abrams e George Clooney. Difícil imaginar outra pessoa contando essa história, mesmo que ela, inevitavelmente, seja frequentemente mais inclinada para abordagens já conhecidas de Scorsese com seus personagens masculinos gananciosos do que para de fato uma inédita representatividade temática. À parte isso, Assassinos da Lua das Flores é, sim, um dos filmes imperdíveis do ano.

Três atores, três filmes… com Henrique Perez

treshperezHenrique e eu temos algumas coisas em comum — ambos somos, por exemplo, jornalistas com experiência em assessoria de imprensa, produção de conteúdo e gestão de redes sociais, além, claro, de cultivarmos um profundo amor pelo cinema —, mas a que mais me marca é o imenso carinho que compartilhamos por atrizes, sejam elas brasileiras, de língua inglesa ou de qualquer parte do mundo. Por isso, não foi nenhuma surpresa encontrar em sua seleção escolhas preciosas e que trazem uma diva como a eterna e insubstituível Marília Pêra, uma veterana britânica que brilha em uma franquia de cifras bilionárias e uma estadunidense que, mesmo prolífera e versátil, ainda está por receber seu devido reconhecimento. Todas com desempenhos aqui lembrados por meio do olhar sempre sensível de um cinéfilo repleto de afeto pela arte de interpretar. 

Marília Pêra (Pixote: A Lei do Mais Fraco)
A performance de Marília Pêra em Pixote: A Lei do Mais Fraco, de Héctor Babenco, possui uma reputação que transcende o filme e sobre a qual eu ouvi durante muitos anos antes de finalmente assisti-la. Qual foi a minha surpresa, quando ao ver o filme, não vi Marília na primeira hora e meia de exibição. Como uma performance que mal aparece no filme poderia ser tão famosa, tão lembrada, tão premiada? Mas eis que na meia hora final chega Marília, ou melhor, Sueli, como um furacão. E nada ficou no lugar. Nem no filme nem em todos os conceitos que eu tinha sobre essa (grande) atriz. Absolutamente visceral, sem nenhum pudor moral ou físico em embarcar em lugares obscuros da psiquê humana, Marília se mistura sem vaidade entre os não atores e se conecta com Pixote como nenhuma outra pessoa do filme. É impressionante o quanto ela mostra (sensualidade, maternidade, humor, dor…) e o quanto ela provoca (repulsa, empatia, constrangimento…) com tão pouco, transcendendo talvez a função que Héctor Babenco havia inicialmente concebido pra ela no filme.

Parker Posey (O Melhor do Show)
O universo cinematográfico dos mocumentários de Christopher Guest é um deleite para apaixonados por atrizes. Como esquecer a composição absurda de Catherine O’Hara como uma atriz em campanha por uma indicação ao Oscar em For Your Consideration? Ou a balança perfeita entre humor e emoção genuína da mesma Catherine O’Hara em A Mighty Wind? E dos grandes momentos de Jennifer Coolidge em obras audiovisuais pré-White Lotus? Parker Posey, uma das melhores atrizes do cinema norte-americano dos últimos 30 anos, ainda não devidamente celebrada (assim como a obra de Guest como um todo), é peça fundamental desse universo. Em O Melhor do Show, ela interpreta a dona de uma Weimaraner que vai participar de uma competição de cachorros. Completamente desprovida de vaidade e autoconsciência como atriz, Posey vai ao limite do humor para mostrar o ridículo do ser humano e garante que todas suas cenas (algumas criadas por ela própria) sejam inesquecíveis. Sua personagem, neurótica e desequilibrada, é um exemplo clássico de um ser humano medíocre que se dá importância demais. A atriz, por sua vez, é o exemplo clássico de uma artista talentosa cujo talento se sobressai ainda mais por ela não se levar a sério.

Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)
Na pele de Dolores Umbridge, a subsecretária sênior do Ministro da Magia, transformada em professora e posteriormente diretora de Hogwarts, Imelda Staunton rouba o show de tal maneira no quinto filme da saga Harry Potter que, mesmo ela dando vida à criação mais repulsiva criada por J. K. Rowling (se desconsiderarmos alguns de seus tweets recentes), é impossível tirar os olhos dela em cada momento que ela está na tela. É um trabalho minimalista, tão assustador quando divertido, e jamais caricatural (há algo de quase humano na excessiva insegurança de Dolores). Em cada revisitada ao filme, você descobre novos detalhes na composição da atriz que fazem você odiar Umbridge e admirar Imelda na mesma proporção.

51º Festival de Cinema de Gramado #8: vitória de “Mussum, o Filmis” estreita relação com o público ou destoa do esperado de um festival de cinema?

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Dupla incontestável: Vera Holtz foi a melhor atriz por Tia Virgínia, e Aílton Graça o melhor ator por Mussum, o Filmis.

Festivais de cinema são, de certa forma, uma realidade paralela porque, neles, os filmes não falam por si só. Para que um ou outra longa se consagre vencedor, há uma equação repleta de variáveis, da reação da plateia ao dia da semana em que a projeção acontece. Mussum, o Filmis, de Silvio Guindane, deu a sorte de se sair bem em todas elas. Digo isso porque, isoladamente, não há muita razão para o longa sobre a vida do humorista-título ter levado o tanto de Kikitos que levou no 51º Festival de Cinema de Gramado, incluindo o de melhor filme. Última sessão da mostra competitiva de longas brasileiros e abertamente adorado pelo o público, Mussum certamente pegou o júri oficial desprevenido, que, sim, pode mesmo ter se entusiasmado com o filme, mas que também deve ter sentido certo receio em ignorar a reação calorosa da plateia. Entre uma digressão ou outra sobre o que levou à vitória de Mussum, expresso minha resistência à consagração porque, perto de concorrentes como Tia Virgínia, Mais Pesado é o Céu e O Barulho da Noite, o filme perde em inventividade, vigor e fuga ao lugar comum.

Não me entendam mal quando digo que também resisto à consagração de Mussum simplesmente por ele ter grande apelo popular. Não é isso. Inclusive porque fui um dos que não crucificou a vitória de Colegas em cima de O Som ao Redor na 40ª edição do evento. Vejo festivais de cinema como eventos de descoberta e experimentação, e não à toa eles são a primeira e, muitas vezes, única tela de determinadas produções. Colegas foi uma descoberta de Gramado. Mussum, o Filmis não exatamente. Diante do imenso apelo que as cinebiografias têm alcançado junto ao público e da figura carismática retratada, seu diálogo com a plateia jamais viria como uma surpresa. Pelo contrário: era mais do que previsível. Na medida em que o longa segue inúmeras cartilhas do gênero, é certo premiá-lo somente por uma popularidade que independe de Gramado?

Ao meu ver, o júri realmente pesou a mão ao dar tantos prêmios para o filme, especialmente quando há até uma menção honrosa para ele enquanto o interessante O Barulho da Noite, único longa dirigido por uma mulher em competição, sai de mãos abanando. O próprio Uma Família Feliz poderia ter sido minimamente reconhecido por bancar a realização de um thriller, gênero pouquíssimo explorado pelo cinema brasileiro. E há também certos cacoetes refletidos nas escolhas, como o de considerar a melhor trilha sonora aquela que apenas traz o melhor compilado de repertórios já existentes e marcados no nosso imaginário cultural. É uma injustiça com trabalhos densos e originais como o de João Victor Barroso para Mais Pesado é o Céu.

Ainda assim, há coisas muito boas na lista de vencedores, começando pelo amplo reconhecimento ao ótimo Tia Virgínia, de Fábio Meira, que rendeu um incontestável Kikito de melhor atriz para Vera Holtz. A atenção dada ao difícil Mais Pesado é o Céu também é outro destaque (somente o diretor Petrus Cariry saiu com três consagrações: melhor direção, fotografia e montagem), assim como determinados prêmios que o próprio Mussum mereceu, sim, levar para casa, como o de melhor ator para a inspirada interpretação de Aílton Graça. Para a próxima edição do evento serrano, fica a pergunta: teria o filme de Silvio Guindane estreitado a relação entre o festival e o grande público ou ele é um estranho no ninho de Gramado?

Confira abaixo a lista de vencedores:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Mussum, o Filmis
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Tia Virgínia
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Mussum, o Filmis
MELHOR DIREÇÃO: Petrus Cariry (Mais Pesado é o Céu)
MELHOR ATRIZ: Vera Holtz (Tia Virgínia)
MELHOR ATOR: Aílton Graça (Mussum, o Filmis)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Neusa Borges (Mussum, o Filmis)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Yuri Marçal (Mussum, o Filmis)
MELHOR ROTEIRO: Fábio Meira (Tia Virgínia)
MELHOR FOTOGRAFIA: Petrus Cariry (Mais Pesado é o Céu)
MELHOR MONTAGEM: Firmino Holanda e Petrus Cariry (Mais Pesado é o Céu)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Max de Castro (Mussum, o Filmis)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Ana Mara Abreu (Tia Virgínia)
MELHOR DESENHO DE SOM: Rubem Valdés (Tia Virgínia)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Ana Luiza Rios (Mais Pesado é o Céu)
MENÇÃO HONROSA: Vera Valdez (Tia Virgínia) e Martin Macias Trujillo (Mussum, o Filmis)

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
MELHOR FILME: Hamlet
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Sobreviventes do Pampa
MELHOR DIREÇÃO: Zeca Brito (Hamlet)
MELHOR ATRIZ: Carol Martins (O Acidente)
MELHOR ATOR: Fredericco Restori (Hamlet)
MELHOR ROTEIRO: Marcelo Ilha Bordin e Bruno Carboni (O Acidente)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro, Joba Migliorin, Lívia Pasqual e Zeca Brito (Hamlet)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Richard Tavares (O Acidente)
MELHOR MONTAGEM: Jardel Machado Hermes (Hamlet)
MELHOR DESENHO DE SOM: Kiko Ferraz, Ricardo Costa e Cristian Vaz (Céu Aberto)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Rita Zart e Bruno Mad (Céu Aberto)

MELHOR LONGA-METRAGEM DOCUMENTAL
Anhangabaú

MELHOR FILME UNIVERSITÁRIO
Cabocolino