W.E. – O Romance do Século
Darling, they can’t hurt you if you don’t let them.

Direção: Madonna
Roteiro: Madonna e Alek Keshishian
Elenco: Abbie Cornish, Andrea Riseborough, James D’Arcy, Oscar Isaac, Richard Coyle, David Harbour, James Fox, Judy Parfitt, Laurence Fox, Christina Chong
W.E., Inglaterra, 2011, Drama, 119 minutos
Sinopse: Anos 30. O Duque de Windsor, Eduardo VIII (James d’Arcy), é o primeiro na lista de sucessão da coroa britânica. Ele conhece e se apaixona por Wallis Simpson (Andrea Riseborough), uma americana casada. Quando Eduardo assume o trono passa a sofrer pressão para que não se case com Wallis, devido ao fato dela não ser inglesa e ter dois divórcios no currículo. Para ficar com seu grande amor, ele renuncia ao trono, que passa a ser ocupado por seu irmão Bertie (Laurence Fox). Em 1998, Wally Winthrop (Abbie Cornish) é obcecada pela história de amor entre Eduardo e Wallis. Ela trabalha na preparação de um grande leilão de objetos do casal e costuma fantasiar como seria a vida deles. Entretanto, na vida real Wally enfrenta vários problemas no casamento com William (Richard Coyle). (Adoro Cinema)

Nunca devemos colocar a mão no fogo por atores ou cantores que resolvem virar diretores. De vez em quando, a ideia dá certo e temos maravilhosos trabalhos de astros como George Clooney ou Sean Penn, por exemplo. Só que, na maioria das vezes, o resultado está muito longe de ser admirável. E, em 2011, pelo menos duas artistas artistas sem grandes experiências atrás das câmeras resolveram se arriscar no ramo. Guiadas pelo egocentrismo, Angelina Jolie e Madonna contaram histórias de amor proibidas que desafiaram épocas. Ambas apresentaram filmes complemente problemáticos. E a primeira dessas decepções já chegou em território brasileiro: W.E. – O Romance do Século, comandado pela rainha do pop.
Madonna está pouco preocupada com dinheiro (tem a música para isso). Por isso, ela quer, na verdade, alcançar status com W.E. – O Romance do Século, filme que é cheio de traços que sempre foram muito presentes em sua carreira musical. E, de fato, W.E. parece uma canção pop: tem uma produção legal e um estilo interessante – mas, no fundo, tudo isso é mero disfarce para um conteúdo óbvio repleto de mensagens batidas. Esse é o segundo filme de Madonna (o primeiro foi Filth and Wisdom, que passou despercebido por aqui) e, em sua nova investida, ela parece ter se dedicado de corpo e alma ao projeto: W.E. tem produção requintada, enquadramentos diferentes e uma grande vontade de surpreender. Só que Madonna não tem cacife para isso. Música é música, filme é filme. Com tanta glória em sua carreira musical, ela não precisava da pretensão de também querer ser cineasta.
Em muito a direção de Madonna quer reproduzir todo aquele grande impacto visual que Tom Ford apresentou em Direito de Amar. E podemos dizer que, nesse aspecto, ela alcança alguns pontos positivos. Só que o problema maior aqui não é a direção e sim o roteiro. Escrito por Madonna, em parceria com Alek Keshishian, o texto de W.E. é cheio de irregularidades. Não devemos nem levar em consideração o fato do filme narrar com desleixo duas histórias paralelas que se comunicam – até porque qualquer conexão profunda ou sutil entre elas está anos-luz do estupendo resultado alcançado em As Horas, por exemplo. As falhas se encontram, antes disso, nas próprias histórias, separadamente. E elas merecem comentários individuais.
A primeira, que traz os conflitos reais (para quem não lembra, acompanhamos a história do irmão do personagem de Colin Firth em O Discurso do Rei), é a storyline que, sem dúvida, mais interessa. Por outro lado, a trama deixa a sensação de que não deveria contada em cápsulas, esquivando-se de cenas que seriam fundamentais para a intensidade dramática do filme. Assim, nunca vemos como foram as separações dos casais ou os detalhes dos problemas que o tal relacionamento proibido trouxe para a família real. É tudo muito básico e pouco aprofundado – sem falar que é difícil criar conexão com a história, já que ela é constantemente interrompida pela outra, narrada nos dias atuais.
Por sinal, a história contemporânea é um dos pontos mais fracos de W.E. – O Romance do Século. Já devemos partir do pressuposto que é difícil torcer por uma protagonista completamente inerte perante o violento e abusivo marido. Ele espanca a esposa, deixa bem explícito que a trai e não tem a mínima ideia do que é tornar um matrimônio agradável. O que ela faz? Apanha, chora e… vai para uma exposição todo santo dia! Lá ela se sente completa, encontra uma amizade esperançosa e, claro, se dá conta que precisa ir até Paris para se encontrar na vida. Claro, nos filmes, quase ninguém sofre na pobreza. Todo mundo pode sofrer em Paris. É de dar pena, portanto, que a talentosa Abbie Cornish tenha amargado essa personagem tão vazia.
Essa falta de diálogo entre as duas histórias, a inverossimilhança de uma e o tratamento raso da outra são quase insuportáveis. Quase. Quase porque Madonna não é boba. Como roteirista, ela realmente pode ser fraquíssima, mas ao criar impacto visual ela não é (e nunca foi) incompetente. Pelo contrário. No mínimo dois aspectos de W.E. – O Romance do Século são dignos de muitos elogios. O primeiro é o belo trabalho de Abel Korzeniowski na trilha sonora, trazendo composições ímpares que confiram o talento inigualável que ele já havia apresentado em Direito de Amar. O segundo é o figurino criado pela conceituada Arianne Phillips, que concorreu ao Oscar e deveria ter sido coroado pela elegância e sutileza.
Assim, é de se lamentar que tais aspectos e um visual tão interessante ilustrem um roteiro mal desenvolvido. Infelizmente, W.E. – O Romance do Século não é um filme envolvente. E poderia ser. Deveria ser. Madonna, aqui, deve aprender uma valiosa lição: no mundo da música, ela pode fazer o mais fraco dos cds e ainda assim ter um público que vai escutá-la e elogiá-la, seja pela admiração incondicional ou pelo simples fato de que um cd, na maioria dos casos, não toma mais do que 90 minutos de alguém. No cinema não é assim. Não basta ser Madonna na sétima arte. Errar na música é mais perdoável e inofensivo. Não é qualquer um que vai sentar em uma sala de cinema durante duas horas e ter paciência para procurar aspectos elogiáveis só para defender W.E. em função do nome da rainha do pop. A dinâmica é diferente, Maddie!
FILME: 5.0

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:






