Cinema e Argumento

O Exótico Hotel Marigold

Everything will be all right in the end… if it’s not all right then it’s not the end.

Direção: John Madden

Roteiro: Ol Parker, baseado no romance “These Foolish Things”, de Deborah Moggach

Elenco: Judi Dench, Bill Nighy, Maggie Smith, Tom Wilkinson, Dev Patel, Penelope Wilton, Celia Imrie, Tena Desae, Lucy Robinson, Hugh Dickson

The Best Exotic Marigold Hotel, EUA/Inglaterra/Emirados Árabes, 2011, Comédia Dramática, 124 minutos

Sinopse: Os aposentados Muriel (Maggie Smith), Douglas (Bill Nighy), Evelyn (Judi Dench), Graham (Tom Wilkinson) e mais três amigos decidem curtir a aposentadoria em lugar diferente e o destino é a Índia. Encantados com o exotismo do local e com imagens do recém restaurado Hotel Marigold, a trupe parte para lá sem pestanejar e são recebidos pelo jovem sonhador Sonny (Dev Patel). O único detalhe é que nada era muito bem como parecia ser, mas as experiências que eles irão viver mudarão para sempre o futuro de todos. (Adoro Cinema)

A ideia de um filme como O Exótico Hotel Marigold era no mínimo animadora. Não pela direção de John Madden (que até hoje traz desânimo em função de Shakespeare Apaixonado) ou pelo formato “viaje para outro país para ter seus problemas resolvidos”. O entusiasmo vinha do elenco de quinta grandeza, que reúne vários veteranos do cinema britânico. Então, pouco importava se o filme desse errado: Judi Dench, Maggie Smith, Bill Nighy e Tom Wilkinson estariam ali para salvar o dia. E, no final das contas, O Exótico Hotel Marigold cai em um certo ostracismo ao se levar a sério demais e não perceber que o resultado deveria ser entregue inteiramente aos atores.

Em sua composição, o novo filme de John Madden tem todos os ingredientes de um feel good movie: arco dramático com início, meio e fim, todos conflitos solucionados, locações estrangeiras que trazem inspiração e alguns diálogos reflexivos. Só que falta em O Exótico Hotel Marigold algum senso de “liberdade”. Nós já vimos todos esses elementos e, ao invés de centralizar o filme em seus seus magníficos intérpretes, Madden parece insistir na ideia de que seu trabalho como diretor vai além do ótimo elenco. Só que não vai – por questões básicas, como o roteiro não conseguir causar surpresas (o que será que acontece quando um casal de recém conhecidos é confundido com um casal?) e desenvolver situações que nada acrescentam à proposta principal (o personagem do jovem Dev Patel não cria qualquer ponte de reflexão com as figuras experientes). Leva tempo demais para dizer o que já sabemos – e não para deixar o espectador se deliciar com o talento dos atores.

Todos esses detalhes, porém, não levam o filme a um patamar negativo. Só estamos diante do fator da decepção, já que um enredo como esse deveria servir de escada para o show de grandes intérpretes. Se Meryl Streep participa constantemente de comédias convencionais que lhe dão os devidos momentos especiais, o elenco de O Exótico Hotel Marigold apenas segue uma cartilha que lhes foi dada. Assim, o resultado é apenas uma história mediana que recebe rostos de profissionais superlativos. Em nenhum momento devemos desmerecê-los: é sempre um prazer ver damas incomparáveis como Judi Dench e Maggie Smith em cena, principalmente em um filme mais leve e acessível. Os atores são a luz desse filme que, certamente, seria um total fracasso caso não tivesse no cartaz o peso desses adoráveis intérpretes britânicos. Como duas horas acompanhados deles, O Exótico Hotel Marigold é agradável. Como algo mais especial e além dos meros discursos de produções sobre autodescobertas em outros países, poderia ter feito bem mais.

FILME: 6.5

Leontina

La primera vez que vi a mi abuela llorar fue cuando mis tios, primos y yo comenzamos a irnos. Observe su cara y encontré mi vejez.

Direção: Boris Peters

Roteiro: Boris Peters e Roberto Aschieri

Chile, Documentário, 2011, 70 minutos

Sinopse: Um documentário sobre Leontina Miranda Sandoval, uma mulher que viveu isolada no sul do Chile durante 82 anos. Separada da sua família e sem conexão com a modernidade, ela viveu sozinha em seu próprio mundo. O filme revela suas memórias, intimidades e sua visão do mundo. Uma homenagem do neto de Leontina, que resolveu contar a história de sua vó.

Leontina é um dos mais belos documentários dos últimos anos. Dirigido por Boris Peters com devida formalidade e afetividade, o longa chileno é um relato muito pessoal de seu autor: durante pouco mais de uma hora, acompanhamos o retrato feito por ele do cotidiano de sua solitária avó. Ao despi-la – literalmente – de qualquer vaidade, Peters fala também sobre as dores do envelhecimento, os repetitivos ciclos de uma rotina isolada e a triste possibilidade de uma vida sem sonhos. Só que nada em Leontina é encenado demais ou enfadonho. Durante cada minuto do documentário, percebemos que o resultado é genuíno e, acima de tudo, humano.

Logo nos primeiros minutos, é possível perceber que o documentário não tem qualquer amarra com os convencionais formatos do gênero: nada de entrevistados dando depoimentos frente às câmeras ou narrações em off, por exemplo. Leontina fala através de imagens e, a exemplo de Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio, tem a trilha sonora como fator essencial para definir sua cadência. É dessa forma que os planos detalhes nas envelhecidas mãos de Leontina dizem muito mais do que qualquer outro documentário conseguiria dizer através de entrevistas. As cenas em que coloca sua avó pequena diante da grandiosa paisagem chilena também são um dos pontos altos da direção de Boris Peters.

É muito fácil conferir Leontina e lembrar do excepcional Direito de Amar, pois ambos utilizam uma ótima combinação de trilha e imagem para expressar a solidão de um protagonista. Aqui no longa chileno, portanto, o compositor Jorge Aliaga merece todos os aplausos do mundo por criar uma trilha que beira a perfeição e que, em muitos momentos, é a responsável por boa parcela das emoções do longa. Tudo isso resulta em um documentário que joga com os limites do gênero, que convida o espectador a uma experiência que foge do convencional e que já se diferencia pela proposta mais afetuosa do que formal. Antes de tudo, nós sentimos a solidão e a desesperança da personagem.

O que pode ser um pouco frustrante em Leontina é a forma como o filme tem vários finais, deixando a sensação de que poderia ter acabado em diversos momentos – algo que termina por quebrar o ritmo do longa e a beleza das cenas que o encerrariam com perfeição. No entanto, é apenas um pequeno detalhe dessa experiência cheia de lirismo contada com uma dose de afetividade poucas vezes vista no gênero. É de se admirar a coragem do diretor Boris Peters ao retratar alguém de sua família de forma tão intensa e sincera. Com isso, qualquer um que assistir ao filme conseguirá sair da sessão no mínimo tocado por essa homenagem de Peters à sua vó. Afinal, mais do que um filme, Leontina é uma declaração de amor.

FILME: 9.0

* Exibido no 40° Festival de Cinema de Gramado

Katy Perry: Part of Me

Direção: Dan Cutforth e Jane Lipsitz

EUA, 2012, Documentário, 93 minutos

Sinopse: Documentário em 3D sobre a cantora Katy Perry, abordando o início de sua trajetória musical como cantora gospel até se tornar um dos maiores ícones da música pop. Trata ainda de seu relacionamento e divórcio com o ator Russel Brand.

Quem gosta de Katy Perry certamente encontrará momentos de diversão no documentário Katy Perry: Part of Me, exibido nos cinemas em versão 3D. E não é para menos: dona de irresistíveis hits pop como I Kissed a Girl, Firework e Hot ‘n’ Cold, a estadunidense tem um repertório de dar inveja em muita gente. Não à toa, bateu recordes com seu segundo disco, Teenage Dream, tornando-se a primeira artista a ter alcançado o primeiro lugar das paradas de sucesso com cinco singles de um mesmo álbum – façanha que nem Elvis Presley ou Beatles conseguiram. Portanto, entrar no mundo colorido de Katy Perry nesse documentário dirigido por Dan Cutforth e Jane Lipsitz empolga nos momentos musicais. No entanto, como retrato de uma cantora, falha por cair no velho e manjado discurso da humilde garota sonhadora que sempre sonhou ser uma pop star.

Apesar dos recordes que alcançou, Katy Perry não tem uma carreira extensa. E muito menos polêmicas, grandes acontecimentos ou trajetória cheia de experiências que a coloquem em um patamar de outras divas como Madonna e Kylie Minogue. Por isso, em termos de relatos e conteúdo, Katy Perry: Part of Me é bastante frustrante. Tudo que é contado por fãs, amigos e pela própria cantora não é nada que não pudéssemos encontrar em qualquer entrevista de Perry com um bom jornalista, por exemplo. Passando por todas as fases da vida da cantora, desde quando era uma jovem cantora gospel, sua dolorosa separação com o Russel Brand e seus momentos nos palcos e fora deles, o documentário encontra seu maior problema não na forma como executa tudo, mas sim na falta de material – o que deixa evidente que Katy Perry: Part of Me é prematuro. A cantora ainda não tem background pra sustentar um longa. Pelo menos não até agora.

É por cair em discursos convencionais – e que, claro, tiram o empolgante ritmo das canções de sua intérprete – que esse documentário-musical não consegue ir além de um mero produto dirigido aos fãs. E quando me refiro a eles, falo dos fãs de verdade, aqueles que realmente estão dispostos a ir ao cinema e pagar o preço abusivo do 3D para conferir mais sobre a cantora. Eu, como apenas simpatizante – e não grande entusiasta – das músicas de Perry, conferi tudo sem grandes expectativas e, mesmo assim, senti falta de maior personalidade no longa de Cutforth e Lipsitz. Do jeito que ficou, se fosse para ver a cantora nas telas de cinema, que fosse, então, como o registro de Kylie Minogue em Aphrodite: Les Folies: a turnê em questão na íntegra, com um excelente uso do 3D e que trouxesse empolgação do início ao fim. Nem Kylie, que tem 25 anos de carreira, resolveu fazer um documentário sobre sua vida. Perry deveria ter seguido o mesmo rumo. Com certeza, seria mais animador.

FILME: 6.0

Juventude para sempre?

Quando realizou Apenas o Fim, o diretor Matheus Souza tinha apenas 20 anos de idade e ainda cursava a faculdade de cinema. Cheio de boas ideias, ele teve imediato destaque por entregar um filme de interessantes reflexões sobre relacionamentos e diálogos dinâmicos. Apenas o Fim virou um cult queridinho – principalmente entre os adolescentes de gosto mais alternativo – e Matheus Souza, claro, uma promessa. Em sua segunda investida atrás das câmeras, Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida, a situação já é bem diferente. Repetindo diversos aspectos temáticos de seu debut, o diretor, agora, deixa a sensação de que já disse tudo o que tinha a dizer sobre o mundo adolescente. Hora de trocar o disco.

Os filmes de Matheus Souza, na realidade, são uma extensão de seu próprio jeito de ser: ele é um jóvem meio baixinho que usa óculos, fala rápido, tem um humor meio autodepreciativo, gosta de conversar usando referências e sempre acha um jeito de extrair humor de pessoas e situações. Enfim, um “querido”. Adjetivo também corriqueiramente usado para definir seus trabalhos no cinema. “Fofo”, “simpático” e “agradável”, mas a dura verdade é que ninguém se arrisca a dizer mais do que isso. Principalmente em relação a Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida, longa que carece de evolução temática se comparada ao trabalho anterior do diretor e de um olhar mais amadurecido sobre o que apresenta.

Não é muito difícil perceber que Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida anda em círculos no desenvolvimento de sua história e até mesmo na forma como a executa: as situações são praticamente as mesmas (variando apenas em personagens e cenários) e até mesmo os planos escolhidos são constantemente idênticos. O esquema do filme é muito simples: menino dá conselho para menina a fim de ajudá-la a descobrir sua verdadeira vocação profissional. Ela conversa com alguém, aprende alguma coisa e descobre que não é aquilo que procurava. Um ciclo que se repete até, claro, ela achar (ou não) a profissão ideal – dilema que é o fio condutor do filme. Portanto, se já é difícil acreditar que uma protagonista enjoada (e uma intérprete tão sem variações) tenha sido aprovada no vestibular de medicina, como fazer para admirar um longa que a cada dez minutos repete seu formato?

Para não dizer que nosso olhar foi só depreciativo, admitimos que Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida também tem seus momentos. A forma como a própria frase do título é utilizada no longa é surpreendente, além de dita com muito pesar e veracidade. E se afirmássemos que Matheus Souza não tem boas sacadas, estaríamos sendo injustos. Aqui, pelo menos duas são marcantes: o curta caseiro que faz referência aos momentos contemplativos de A Árvore da Vida e a frase: “nossa, vô, só Nicolas Cage fez mais escolhas erradas do que você nessa vida”. Em suma, Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida dialoga com facilidade em vários momentos, mas se repete em muitos outros – o que causa decepção. Como próximo projeto, Matheus Souza tem uma animação que, segundo ele, completará essa sua trilogia “geracional”. Pelo visto, ainda vai demorar um pouquinho para vermos uma outra vertente…

FILME: 6.5

* Exibido no 40º Festival de Cinema de Gramado

360

Direção: Fernando Meirelles

Roteiro: Peter Morgan, baseado na peça “La Ronde”, de Arthur Schnitzler

Elenco: Anthony Hopkins, Maria Flor, Jude Law, Ben Foster, Rachel Weisz, Juliano Cazarré, Lucia Siposová, Jamel Debbouze, Marianne Jean-Baptiste

Inglaterra/Áustria/França/Brasil, 2011, Drama, 110 minutos

Sinopse: Inspirado em “La Ronde”, clássica peça de Arthur Schnitzler, 360 é uma reunião de histórias dinâmicas e modernas, passadas em diversas partes do mundo. Laura (Maria Flor) é uma mulher que deixou a vida na terra natal para tentar a sorte em Londres ao lado do namorado Rui (Juliano Cazarré). Ao descobrir que o parceiro está tendo um caso com Rose (Rachel Weisz), ela decide voltar para o Brasil. Na volta pra casa, ela conhece um simpático senhor (Anthony Hopkins) e Tyler (Ben Foster), duas pessoas em momentos difíceis em suas vidas. Num outro lado da história, Mirka (Lucia Siposová) é uma jovem tcheca que começa a trabalhar como prostituta para juntar dinheiro. Ao mesmo tempo, lida com a desaprovação da irmã Anna (Gabriela Marcinkova). O primeiro cliente de Mirka é Michael (Jude Law), que por sua vez é casado com Rose. (Adoro Cinema)

Nunca eu diria que 360 é um filme de Fernando Meirelles. Nunca. Passaria pela minha cabeça qualquer diretor, menos ele. Primeiro porque 360 é um filme convencional. Segundo porque Fernando Meirelles não é de contar histórias sem deixar algum tipo de marca. Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e o subestimado Ensaio Sobre a Cegueira – para mencionar seus trabalhos mais conhecidos – possuem algo de contundente e que atesta o vigor atrás das câmeras. Não é o caso de 360, um filme menor – e, como o diretor aponta, mais  intimista – que não consegue se expressar muito bem. Realizado com baixo orçamento, essa investida pessoal de Meirelles ao invés de mostrar um lado autoral e sensível do diretor, mostra que ele só funciona com histórias que fogem do convencional e que sejam diferentes em seu formato.

Não que Meirelles realize 360 com desleixo. Não é isso. Só que vindo de um diretor tão criativo, era de se esperar que o filme mostrasse uma outra vertente desse profissional que é um dos expoentes do cinema nacional. Só que 360, dentro do que se propõe, é mais do mesmo. E o pior: cai na velha armadilha da narrativa multiplot. Isso quer dizer que a proposta se perde em um infinito emaranhado de personagens que, como de costume, deixam o longa muito irregular, com histórias mais interessante do que outras. O formato acarreta, também, o desperdício de vários atores que, frente a um espaço tão limitado em cena, não conseguem sequer desenvolver algo de mais especial, como é o caso de Jude Law e Rachel Weisz, dois atores que não têm muito a fazer a não ser emprestar a pompa de suas presenças ao projeto.

O sopro de vitalidade de 360 está mesmo com Anthony Hopkins. É claro que, nesse longa, ele está interpretando a si mesmo e não necessariamente um personagem – o que o próprio ator confessou. Entretanto, é gratificante vê-lo tão à vontade em cena. Isso, por sinal, nos recorda de como veteranos como Hopkins não são frequentemente explorados com papeis e cenas mais livres, onde possam esbanjar todo o talento que lhe fizeram grandes. Por isso, pouco importa se a cena de seu personagem no Alcoólicos Anônimos parece batida. Ele, contracenando com a iluminada Maria Flor (que em nenhum momento se intimida perto de Hopkins), é um dos pontos altos do longa, que ainda dá destaque para outro excelente ator (Ben Foster). Pena que tantos saiam perdendo por não ter qualquer profundidade, como é o caso do brasileiro Juliano Cazarré, que sai do nada para o lugar nenhum.

360, apesar de tudo, tem várias tentativas de contar sua história com certo estilo. Nesse sentido, Meirelles usa recursos bem interessantes, especialmente quando mostra dois personagens conversando por telefone em ambientes diferentes ou quando faz conexões entre algumas histórias. Só que tanto as investidas quanto a ótima trilha escolhida cuidadosamente por Ciça Meirelles não conseguem trazer empolgação a esse filme que sofre com a narrativa multiplot. Na exibição em Gramado, o diretor assumiu que sofreu demais para fazer 360 e que admira Robert Altman por conseguir fazer tanto com milhares de personagens. Meirelles também revelou que nunca mais se arriscará no formato. Não seria essa, de certa forma, uma pequena confissão de que 360 não saiu do jeito que ele imaginava?

FILME: 6.0

* Exibido no 40º Festival de Cinema de Gramado