Cinema e Argumento

Um Divã Para Dois

He is everything. But I’m… I’m really lonely. And to be with someone, when you’re not really with him can… it’s… I think I might be less lonely… alone. 

Direção: David Frankel

Roteiro: Vanessa Taylor

Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell, Elisabeth Shue, Jean Smart, Ben Rappaport, Marin Ireland, Brett Rice, Charles Techman

Hope Springs, EUA, 2012, Comédia Dramática, 100 minutos

Sinopse: Kay (Meryl Streep) e Arnold Soames (Tommy Lee Jones) estão casados há 30 anos. O relacionamento entre eles caiu na rotina e há tempos não tem algum tipo de romantismo. Querendo mudar a situação, Kay agenda para ambos um fim de semana de aconselhamento com o dr. Feld (Steve Carell), que passa a lhes dar conselhos sobre como reavivar a chama da paixão. (Adoro Cinema)

Dos nichos cinematográficos que surgiram nos últimos tempos, o que trata da meia/terceira idade deve ser o mais interessante. Tudo começou com o ótimo Alguém Tem Que Ceder, que era diferente por trazer Jack Nicholson e Diane Keaton em uma comédia romântica que falava sobre as expectativas e decepções de pessoas já experientes e que não sabem muito bem o que fazer com diferentes tipos de solidão. Desde então, surgiram várias produções que dialogam com esse público até então inexplorado. Mais recentemente, por exemplo, tivemos O Exótico Hotel Marigold, comédia de John Madden sobre um grupo de idosos em uma viagem de auto-descoberta na Índia. Agora, Um Divã Para Dois se une a esse nicho, trazendo uma perspectiva mais reflexiva e menos de entretenimento sobre os desafios da vida a dois depois dos 60.

No mais novo filme de David Frankel – que, aqui, repete a parceria com Meryl Streep depois de O Diabo Veste Prada – acompanhamos a vida de Kay (Meryl) e Arnold (Tommy Lee Jones), um casal que já não tem mais aquele encanto de um matrimônio. Ele trabalha, ela é dona-de-casa. Os filhos são adultos, já saíram de casa e têm pouca participação em suas vidas. Só que a situação é ainda mais complicada: Kay e Arnold não dormem no mesmo quarto, são mais colegas de casa do que necessariamente conhecidos e só trocam palavras para falar sobre trivialidades como o prato especial para o jantar ou o que precisa ser comprado para a casa. Arnold está acomodado com essa sensação enquanto Kay, dia após dia, olha para o marido com a esperança de que eles voltem a se conectar. Um dia, ela toma a decisão de comprar um pacote de terapia intensiva com um psicólogo de outra cidade para alcançar esse objetivo. Relutante, Arnold aceita a ideia e ambos viajam até Maine para, quem sabe, conseguir uma segunda chance.

Pode parecer um limitador, mas na verdade não é: se dizer que Um Divã Para Dois só funciona por ter protagonistas mais velhos pode parecer demérito, logo essa ideia desaparece durante o longa. É por contar uma reflexiva história sobre pessoas de tal idade que o filme de David Frankel ganha o espectador – que, em determinado ponto, releva vários problemas só pela delicadeza da proposta. Vendido como uma comédia (principalmente no Brasil), Um Divã Para Dois, apesar de ter vários momentos de humor, é um drama em sua essência. Especificamente, um drama com toques de comédia. Para falar bem a verdade, todas as piadas envolvendo os personagens podem ser até um pouco incômodas, já que rimos de um casal que não sabe mais se conectar, de suas inabilidades em se comunicar, de sua incapacidade de demonstrar afeto e até mesmo de suas frustrações sexuais. Com um olhar mais crítico, Um Divã Para Dois nem engraçado é. E, para todos os efeitos, isso não é necessariamente um defeito. Pelo contrário: só enaltece a proposta do filme de trazer um olhar mais profundo sobre esse casal.

O que existe de mais belo em Um Divã Para Dois é a forma como ele fala sobre esperança. Se o personagem de Tommy Lee Jones cai no estereótipo de velhinho rabugento só para fazer o público rir (e o ator, em contrapartida, aproveita bastante os momentos de drama), o de Meryl Streep transborda humanidade: ela é o coração dessa relação. Sua Kay não quer desistir, mesmo que seu marido tenha se tornado uma pessoa particularmente desagradável e muito diferente daquela com quem um dia ela causou. Entre os constrangimentos de não ser uma perita na cama e de não conseguir falar sobre aquilo que lhe magoa, ela nos lembra que, a partir de certa idade, não temos mais a possibilidade de desistir. E se temos, esse será, possivelmente, o desafio mais doloroso e amedrontador de nossas vidas. Um casamento de 30 anos não se sustenta à toa. Kay sabe disso e prefere batalhar por ele. Com isso, Meryl esbanja sua habitual naturalidade e competência para, com um único olhar, dizer tudo aquilo que a direção de David Frankel muitas vez não consegue transmitir.

Por não ter uma direção mais consistente – e, por que não, experiente – como seus protagonistas, Um Divã Para Dois, em diversos momentos, descamba para um estilo água com açúcar mais simplista e mastigado do que deveria. Existe um certo impasse ali: não é nem tão contundente para ser abraçado como um produto refinado nem tão popular para fazer sucesso de bilheteria. Assim, as ótimas cenas dramáticas se misturam com uma estrutura meio estranha que traz repetitivas cenas de terapia (o que não ajuda tanto a contida interpretação de Steve Carell como um unilateral terapeuta) e uma ou outra cena de humor só para cumprir tabela. Sorte que o interessante roteiro de Vanessa Taylor e a boa dinâmica entre Streep e Tommy Lee Jones conseguem ultrapassar esses obstáculos e conquistar o coração do espectador. Quem sabe o que esperar (sem muita exigência) passará, pelo menos, quase duas horas com bons atores em um filme descompromissadamente agradável.

FILME: 7.5

Dores cantadas

O Que se Move, ao contrário do que o título indica, é um filme sobre imobilidade – emocional, especificamente. Narrando as histórias de três mães que lidam com perdas e reencontros com seus filhos, o diretor Caetano Gotardo emprega lirismo a esse enredo estruturado em três blocos, onde os ápices emocionais estão todos em dolorosos momentos musicais. A experiência proposta pelo diretor é, assim, difícil, pesada e extremamente complexa – tanto no conteúdo quanto na forma. Gratificante para quem estiver disposto a embarcar na viagem, mas bastante complicada para o público desprevenido.

Lembrando brevemente Coisas Que Você Pode Dizer Só de Olhar Para Ela e Questão de Vida, longas menores que falam sobre o universo feminino através de histórias isoladas, O Que se Move, em um primeiro momento, causa estranhamento. Além dos espectadores não estarem acostumados com a música como forma de expressão dramática em um filme brasileiro, o trabalho de Gotardo ainda tem um ritmo lento, quase imóvel – o que, claro, é uma extensão da vida e dos sentimentos das próprias personagens.

Só que existe algo muito precioso nas sensações passadas por O Que se Move. Apesar do longa ser difícil em uma análise inicial, ele cresce após a sessão. Não é o tipo de história que fica apenas na sala de cinema. E isso já diz bastante sobre o filme, que merece ser conhecido pelo menos em função de um fator fundamental nessa sensação de que a história reverbera após a sessão: o extraordinário trio de protagonistas. Não gosto de fazer comparações com filmes que considero superlativos, mas aqui é o caso: desde As Horas não via três atrizes tão impressionantes e com tanta sintonia – mesmo que suas histórias nunca se cruzem.

Cida Moreira, Andrea Marquee e Fernanda Vianna parecem pessoas da vida real. São personagens e não atrizes em cena. E isso é um dom cada vez mais raro. Todas estão arrasadoras, tanto na sutileza quanto na hora em que precisam extravasar os sentimentos das vidas sufocantes das figuras que interpretam. E é no momento musical que elas ganham qualquer um por completo. Cantando com som direto (o que, segundo o diretor, foi fundamental para que as atrizes pudessem evidenciar ainda mais a dor das personagens), Cida, Andrea e Fernanda tocam o espectador e criam as mais belas cenas de O Que se Move.

De certa forma “ousado” na estrutura e mais complexo do que estamos acostumados a ver no cinema brasileiro, o filme de Caetano Gotardo precisa de tempo para ser processado. Certamente, esse texto não será meu registro final sobre o que acho de O Que se Move. Até porque ainda não consigo discernir muito bem até que ponto o ritmo arrastado e como cada história demora a dizer ao que veio em seus dramas me incomoda. De todo jeito, é, certamente, uma experiência diferente e que só poderá ser absorvida com o passar do tempo e algumas revisões. E não é esse o melhor tipo de cinema?

* Exibido no 40º Festival de Cinema de Gramado

Colegas

Direção: Marcelo Galvão

Roteiro: Marcelo Galvão

Elenco: Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Breno Viola, Leonardo Miggiorin, Lima Duarte, Juliana Didone, Christiano Cochrane, Marco Luque, Maytê Piragibe, Otávio Mesquita, Theo Werneck

Brasil, 2011, Comédia, 99 minutos

Sinopse: Três amigos portadores da síndrome de Down vão superar suas limitações para correr atrás de seus maiores sonhos. Um dia, inspirados pelo filme Thelma & Louise, o grupo foge no antigo carro do jardineiro (Lima Duarte) e parte numa viagem que tem a felicidade como objetivo. Márcio deseja voar como um pássaro, Aninha espera arrumar um bom partido para se casar e Stalone só quer ver o mar pela primeira vez. Eles vão viver diversas aventuras juntos e irão descobrir que a liberdade é um direito de todos. (Adoro Cinema)

Só por sua proposta, Colegas já merecia aplausos. Ora, quando foi que o mundo das pessoas com deficiência – e, nesse caso, síndrome de down – teve um retrato tão livre de preconceitos e estereótipos? Normalmente, essa temática sempre é trabalhada com um olhar vitimizador, por muitas vezes enfadonho. É, então, no mínimo louvável a escolha do diretor Marcelo Galvão de criar uma história que, além de quebrar essa constante do retrato de pessoas com deficiência, brinca com o tema e traz uma inovadora percepção sobre o assunto. Ao contar a história de três jovens (Ariel Goldenberg, Breno Viola e Rita Pokk) fãs do filme Thelma & Louise que resolvem fugir da instituição onde vivem para realizar seu sonhos, Colegas esbanja otimismo e um humor nonsense irresistível.

Stalone quer ver o mar. Aninha quer um marido. Márcio quer voar. A partir dessas motivações, os personagens roubam um carro e passam a ser procurados pela polícia. Com muitas referências (e elas são realmente infinitas, indo de Psicose a Cidade de Deus, por exemplo),  Colegas é uma grata surpresa por, justamente, unir o tema síndrome de down com uma narrativa perfeitamente cinematográfica, sem nunca parecer mera panfletagem ou um hino de culpa social. Grande vencedor do 40° Festival de Cinema de Gramado, onde foi ovacionado em sua sessão com aplausos entusiasmados durante e após o filme, o novo trabalho de Marcelo Galvão ainda fez bonito nos bastidores: no Festival, teve sessão de audiodescrição – prática ainda inacreditavelmente escassa e que só tornou a sessão ainda mais especial. A recepção refletiu a proposta de Colegas: fazer com que o espectador esqueça o fator síndrome de down e embarque em uma divertida aventura.

Claro que, por se tratar de um longa protagonizado por jovens com síndrome de down, Colegas toma algumas liberdades que não seriam possíveis com protagonistas convencionais. Ou melhor, tornariam o filme forçado, irritante. Ariel Goldenberg, Breno Viola e Rita Pokk são as grandes estrelas do longa. É gratificante acompanhá-los nessa jornada que, através da caricatura de personagens que seriam os “vilões” (como é o caso dos policias e dos apresentadores de TV exagerados), brinca com extrema naturalidade com temas delicados, a exemplo do corriqueiro uso de termos como “retardado” e “mongolóide”. Além da naturalidade, Colegas ainda faz piada disso. Em determinado momento, um dos protagonistas, apaixonado por uma “gordinha”, pede para beijá-la. A moça imediatamente responde: “Você não notou que somos diferentes?”. E ele retruca: “Não tem problema, eu gosto de gordas”. Por momentos assim, onde não existe qualquer amarra com o politicamente correto ou com a necessidade de falar sobre o tema com receio, o longa ganha o espectador.

Contando com os mais variados tipos de locação (incluindo algumas em Buenos Aires), Colegas é espirituoso e bem humorado no seu tom de fábula. Por fugir da abordagem emocional (o que talvez decepcione quem espera algo mais dramático) e por tratar do tema sem qualquer preconceito, o filme de Marcelo Galvão faz o espectador sair da sessão de alma leve. É uma baita lição, e o longa não precisa estampar isso a cada cena. No acender das luzes, o espectador sai da sessão sem se importar muito com o final apressado e abrupto, com os coadjuvantes inexplorados (Lima Duarte é um deles) ou com situações não tão inspiradas ou bem executadas. A verdade é que Colegas, antes de tudo, é uma experiência humana. E esse seu inestimável valor já significa mais do que muitas tentativas de expressão de nosso cinema. Uma vitória!

FILME: 8.0

35

Esperar Para Sempre

Truth is nothing. What you believe to be true is everything.

Direção: James Keach

Roteiro: Steve Adams

Elenco: Tom Sturridge, Rachel Bilson, Blythe Danner, Richard Jenkins, Nikki Blonsky, Matthew Davis, Scott Mechlowicz, Jaime King

Waiting for Forever, EUA, 2010, Drama/Romance, 95 minutos

Sinopse: Emma (Rachel Bilson) e Will (Tom Sturridge) eram grandes amigos na infância. Porém, devido ao destino, os dois se separaram. Enquanto Emma se tornou uma estrela da TV, Will vaga pelo mundo fazendo apresentações de rua. O que Emma não sabe é que Will continua apaixonado por ela e que ele a segue por todos os lados para manter o seu amor vivo. Quando Emma volta para a cidade onde os dois um dia foram melhores amigos, ela precisa lidar com a enfermidade do seu pai (Richard Jenkins) e o reencontro com Will. (Adoro Cinema)

Os defensores da saga Crepúsculo enfatizam a ideia de que a história de Edward (Robert Pattison) e Bella (Kristen Stewart) é encantadora porque valoriza aquele romance idealizado que está tão escasso nos dias de hoje. Esperar Para Sempre segue essa mesma linha de que o amor é lindo, o combustível da vida, e que ele pode superar qualquer obstáculo. Só que, ao contrário de Crepúsculo, consegue transmitir esse ideal com, digamos, um pouco mais de naturalidade e eficiência. Entretanto, isso não quer dizer que Esperar Para Sempre esteja isento de problemas. Os mais diabéticos não conseguirão acompanhar a história sem ter crises de irritação, principalmente no que se refere ao personagem Will. Interpretado pelo jovem Tom Sturridge (que já contracenou com Philip Seymour Hoffman, Bill Nighy e Emma Thompson em Os Piratas do Rock), ele é aquele menino sonhador e apaixonado que acredita no amor para vencer todas as barreiras. Artista de rua, é o garoto “idealizado” pelas pessoas mais sonhadoras.

Já a Emma de Rachel Bilson segue um caminho bem diferente. Ela está sofrendo com o câncer do pai, além de estar envolvida num relacionamento problemático. Ela não está na mesma sintonia de Will. E é exatamente aí que surge o maior problema de Esperar Para Sempre. Abordando essas duas histórias paralelamente, o roteiro constrói a vida de cada um dos personagens durante boa parte do filme, juntando os dois somente depois da metade. O resultado é o seguinte: as duas storylines separadas até que funcionam. Mas, a partir do momento que o roteiro tenta formar um romance, não é bem sucedido – afinal, são pessoas diferentes, com vidas diferentes e que parecem não ter nada em comum a não ser as lembranças de quando eram amigos de infância.

Sturridge, que tem forte amizade com Robert Pattinson na vida real, lembra muito seu amigo fisicamente. No entanto, consegue ter mais desenvoltura, atribuindo ao personagem todo o “encantamento” necessário sem parecer forçado. Bilson, por outro lado, ainda é marcada por sua Summer de The O.C. e não faz nada além do correto. O destaque, claro, fica com Blythe Danner e Richard Jenkins. Ambos são ótimos atores e conseguem destaque em função de seus papeis dramáticos. Pena que estejam sempre reduzidos a esses romances açucarados para adolescentes. Apesar da incompatibilidade do casal (não pela falta de química, mas pelas histórias que não combinam), Esperar Para Sempre tem saldo positivo para aqueles que procuram assistir a uma produção melosa. O filme de James Keach é inofensivo e está muito longe de mudar a vida de qualquer pessoa. Só é para um público específico.

FILME: 6.5

40º Festival de Cinema de Gramado: resultados

“Colegas” foi o melhor filme pelo júri oficial

O Festival de Cinema de Gramado renasceu. Se exista qualquer dúvida sobre a nova curadoria formada por José Wilker, Rubens Ewald Filho e Marcos Santuário, ela foi esquecida durante todo o desenrolar do evento. Agora, Gramado livrou-se das amarras de filmes excessivamente alternativos (e, por isso mesmo, incompreensíveis em muitas vezes) para abraçar o cinema de boa qualidade, independente de gênero ou formato. A 40ª edição trouxe dramas, comédias, documentários e muitas surpresas agradáveis para o público cinéfilo que compareceu à cidade gaúcha de 10 a 18 de agosto.

Se o primeiro dia de exibição não foi lá muito inspirado, com o decepcionante filme de abertura, 360, de Fernando Meirelles, e o apenas simpático Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida, de Matheus Souza, a programação, posteriormente, trouxe obras com diferentes olhares e que fazem uma interessante radiografia do cinema brasileiro contemporâneo: O Que se Move falou sobre intensos dramas femininos; Colegas é uma comédia sensível de fazer qualquer um sair leve e renovado do cinema; O Som ao Redor fez mais o estilo da crítica; e a música invadiu o Palácio dos Festivais com Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now! e Jorge Mautner: O Filho do Holocausto.

Andrea Marquee e Cida Moreira receberam o prêmio de melhor atriz representando Fernanda Vianna, por “O Que se Move”

Como qualquer premiação do mundo, o Festival de Cinema de Gramado teve suas injustiças na hora de escolher os melhores do ano. Porém, nenhuma tão grave a ponto de sequer chegar perto de abalar a nova reputação construída pelo evento. Mas algumas injustiças foram mais sentidas entre os premiados. A maior delas, sem dúvida, foi a premiação para a atriz Fernanda Vianna, de O Que se Move. Injusta no sentido de que ela deveria dividir o prêmio com as suas duas companheiras de tela, Cida Moreira e Andrea Marquee. Todas estão sobrenaturais nesse filme em que, assim como no impecável As Horas, é impossível dizer que uma é melhor do que outra – especialmente quando elas, no filme de Caetano Gotardo, possuem histórias dividas em três blocos, que nunca se cruzam.

E se a crítica não ficou lá muito empolgada com a vitória de Colegas como melhor filme pelo júri oficial – confirmando o bobo preconceito com comédias mais “comerciais” para o grande público (o que também mostra a falta de compreensão com o novo olhar da curadoria) -, os especializados não podem reclamar muito, já que O Som ao Redor conquistou importantes prêmios do júri popular e da crítica. Entre os curtas, Menino do Cinco foi soberano, em parte ao seu polêmico e impactante desfecho. Meu favorito, por outro lado, Um Diálogo de Ballet, saiu de mãos vazias. O conflito de gerações entre dois homossexuais narrado de forma bastante lírica parece não ter conquistado os votantes.

César Charlone dominou os prêmios latinos com seu “Artigas, La Redota”

A mediana seleção de filmes latinos desse ano se refletiu na própria cerimônia de premiação. César Charlone executa Artigas, La Redota com sua habitual competência, mas parece que os júris se apaixonaram excessivamente com o filme, que não deu qualquer chance para outros exemplares se destacarem na distribuição de Kikitos. Assim, é de se lamentar que o belíssimo Leontina, documentário muito pessoal do diretor Boris Peters sobre sua solitária avó, tenha saído com uma mísera (mas merecida) lembrança na categoria de melhor fotografia. Pela forma contemplativa com que traz belas imagens e usa a impecável trilha de Jorge Aliaga como elemento fundamental para a cadência do filme, Leontina merecia, inclusive, superar o filme de Charlone. Seria mais original, menos previsível e, claro, merecido.

Tudo isso, porém, são questões de preferência mesmo e que não diminuem a boa posição que o 40º Festival de Cinema de Gramado alcançou em seus oito dias de programação. Fora os problemas técnicos, como a falta de energia e as falhas sonoras (perfeitamente corriqueiras em vários festivais), Gramado alcançou, realmente, um nível surpreendente se comparado ao que vinha apresentando em anos anteriores. Agora, o cinema apresentado no Festival é universal. Os ingressos a preços populares, a proximidade entre realizadores e público em debates e a constante presença de toda a equipe do evento deram ao Festival o pontapé inicial para a retomada de sua carreira de referência no cenário da cinematografia latino-americana. Confira, no site oficial, a lista completa de vencedores.