Cinema e Argumento

Inscrições abertas para o CLOSE 2012

Corealização do SOMOS – Comunicação, Saúde e Sexualidade* com a Avante Filmes*, o Festival CLOSE tem como objetivo a valorização e difusão de obras cinematográficas que promovem reflexões sobre a diversidade de expressões da sexualidade humana. Em 2012, o CLOSE, que acontece em Porto Alegre, comemora sua terceira edição – e as inscrições para participar do Festival já estão abertas (conferir o site oficial).

No ano passado, as mostras competitiva e informativa ocuparam diferentes salas da capital gaúcha, com programação inteiramente gratuita, bem como a programação paralela repleta de encontros e diálogos entre cineastas, estudantes, pesquisadores e cinéfilos. Na edição passada do CLOSE, conversei com os diretores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, da Avante Filmes, sobre a realização do Festival (originalmente para o portal Cultnews). Agora, dada a abertura das inscrições, acho válido replicar esse bate-papo aqui no blog. Confiram!

Qual a importância do cinema e de festivais para a discussão da diversidade de expressões da sexualidade humana?

A arte em geral serve, principalmente, para reflexão dos anseios, sentimentos, discussões e necessidades humanas. Assim, um festival que aborda a temática da sexualidade, em sua amplitude, gera debates e questionamentos importantes para a evolução de uma sociedade. No momento em que um evento desses é criado, mais pessoas assistem filmes ligados a essa temática, mais debates e novos questionamentos são gerados. Todos os filmes que buscamos, acima de tudo, têm de ser obras consistentes. Assim passam melhor suas mensagens… E, por isso, a qualidade dos filmes no Festival é bem alta. O conjunto é bem poderoso. O Festival também ofereces encontros e debates, pois achamos essencial esse contato. Com essa aproximação, o público entende todas as intenções da equipe e os realizadores recebem o feedback de suas obras perante o público.

Como é a parceria entreoa SOMOS e a Avante Filmes para a realização do CLOSE?

A parceria começou ano passado, quando organizamos a primeira edição do CLOSE juntos. O SOMOS havia ganho um edital de pontão de cultura, que incluia a produção de um festival de cinema, e a Avante Filmes foi convidada a participar da elaboração e produção do mesmo. O trabalho conjunto deu muito certo, e passou a ir além de uma parceria para edições futuras. Só nesse ano, fora o CLOSE, realizamos juntos quatro curtas-metragens, um vídeo institucional, e temos projetos bem bacanas e ambiciosos para um futuro próximo.

Quais foram os principais desafios para realizar um Festival como esse?

Apesar da boa receptividade, nem todo mundo está interessado ainda em apoiar projetos de gênero, o que de certa forma dificulta a realização (pensando-se ainda que é um projeto ligado à cultura). Trabalhar com cultura no Brasil não é fácil e com cultura de gênero menos ainda. Contudo, conseguimos agregar ao projeto diversos apoiadores que facilitaram a execução do CLOSE 2011. Esperamos que, a cada ano que passe, as entidades públicas e privadas invistam mais em cultura e em projetos que abordem a diversidade sexual. É necessário e é gratificante.

E o apoio? Quem são as pessoas que ajudaram a tornar o CLOSE uma realidade?

Além de todos os funcionários do Grupo SOMOS e da Avante Filmes, tivemos muitos parceiros nesse processo. Os críticos de cinema Marcus Mello e Christian Petermann abraçaram as curadorias do evento. A Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul, a Secretaria de Direitos Humanos do Governo Federal e a E O Vídeo Levou possibilitaram que fizéssemos um festival do porte que gostaríamos. O CineBancários, a Cinemateca Paulo Amorim, o Memorial do Rio Grande do Sul e o Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo nos deram a infraestrutura necessária. A identidade visual, que está belíssima, ficou a cargo do fotógrafo Eduardo Carneiro e do designer Carlos André Pires. A assessoria de imprensa foi feita pelo SOMOS e pela Camejo Comunicações. Além de todos esses, se envolveram restaurantes, bares, casas noturnas, albergue, escola de idiomas, entre muitos outros. Todos querendo ajudar e participar do processo, por acreditarem na idéia.

Essa já é a segunda edição do Festival. Como vocês avaliam a primeira edição dele?

Foi um sucesso. Nem mesmo nós tinhamos a certeza de que seria tão positivo. Sessões lotadas (fomos o evento com maior índice de audiência do CineBancários ano passado), público super participativo e interessado, realizadores do país inteiro presentes. Tivemos até a presença de dois atores argentinos super em acensão, Ines Efron e Martin Rodriguez. As reclamações se limitavam ao fato de que o evento tinha “apenas” quatro dias de duração, e as pessoas queriam mais. Foi uma prova de que o Rio Grande do Sul estava carente de um festival assim, que abordasse esse gênero específico. O feedback que tivemos do público foi muito bacana. Eram pessoas de diversos estilos, faixas etárias, classe social, orientação sexual. Mas todos estavam interessados em ver bons filmes e debater cinema e sexualidade. Ao longo do ano, tivemos pessoas ligando e perguntando se haveria CLOSE esse ano também, pois queriam muito participar novamente.

Como é o processo de escolha dos filmes concorrentes e vencedores do Festival?

Os filmes são através dos curadores. Esse ano, pela segunda vez consecutiva, as mostras Competitiva e Paralela ficaram a cargo do crítico de cinema Marcus Mello. Os filmes tinham que ser inscritos pelo site, com cópias que passavam pela seleção. Os vencedores da Competitiva serão julgados por três jurados, que comparecerão às sessões. Há, também, o júri popular, que é um voto do público presente. Já a Mostra Informativa, que abrange curtas, médias e longas-metragens, de qualquer época e lugar, é uma seleção pessoal do também crítico Christian Petermann. Ele é de São Paulo, e não o conheciamos pessoalmente ainda, apenas seu trabalho. Fizemos contato, ele gostou da idéia e topou embarcar.

Quais são os planos para as próximas edições?

Nosso objetivo é expandir o CLOSE cada vez mais. Ainda é cedo para falar em reformulações específicas. Mas criar uma versão menor, itinerante, que percorra o país, certamente está nos planos. Independente do rumo que o evento siga, queremos manter sempre seu caráter de fomentar e democratizar o acesso à cultura.

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* SOMOS é uma organização de sociedade civil criada em 10 de dezembro de 2001, formada por uma equipe multidisciplinar de profissionais das áreas da Educação, Saúde, Direito, Comunicação e Cultura. Sua missão é trabalhar por uma cultura de respeito às sexualidades através da educação da sociedade e afirmação de direitos.

* Avante Filmes é uma produtora portoalegrense que já realizou, em vôo solo, ou em coproduções, doze curtas-metragens com premiações e passagem em mais de 80 festivais de cinema e mostras nacionais e internacionais de destaque, incluindo o Festival de Cinema de Cannes, além de diversos institucionais, séries para televisão e internet, videoclipes e mostras.

Heleno

Dizem que eu vou morrer de arrogância…

Direção: José Henrique Fonseca

Roteiro: José Henrique Fonseca, Felipe Bragança e Fernanda Castets, com a colaboração de L.G. Bayão

Elenco: Rodrigo Santoro, Aline Moraes, Herson Capri, Othon Bastos, Angie Cepeda, Orã Figueiredo, Erom Cordeiro, Henrique Juliano, Candido Damm

Sinopse: O jogador de futebol Heleno de Freitas (Rodrigo Santoro) era considerado o príncipe do Rio de Janeiro dos anos 40, numa época em que a cidade era um cenário de sonhos e promessas. Sendo ao mesmo tempo um gênio explosivo e apaixonado nos campos de futebol, além de galã charmoso nos salões da sociedade carioca, tinha certeza de que seria o maior jogador brasileiro de todos os tempos. Mas seu comportamento arredio, sua indisciplina e a doença (sífilis) foram minando o que poderia ser uma grande jornada de glória, transformando-a numa trágica história. Baseado no livro “Nunca Houve um Homem como Heleno”, de Marcos Eduardo Novaes. (Adoro Cinema)

Qual foi o último filme marcante do cinema brasileiro contemporâneo que você viu? Vasculhando minhas memórias, lembro, logo de cara, do maravilhoso À Deriva. Não sei se esqueci de outros, mas, desde a experiência que tive com o longa de Heitor Dhalia, não ficava tão satisfeito com o nosso cinema como em Heleno. Cinebiografia do primeiro jogador de futebol considerado “craque” no Brasil, o filme de José Henrique Fonseca se destaca por tomar rumos completamente diferentes de outras terríveis obras sobre jogadores produzidas pelo cinema brasileiro como Garrincha – Estrela Solitária. Existe pouco futebol em Heleno – no máximo dois ou três momentos que encenam partidas (e todas ao som de óperas). Na realidade, o esporte serve apenas como guia para compreendermos a difícil figura do protagonista dessa história.

Heleno, primeiro jogador brasileiro vendido ao exterior (e por um valor recorde), era considerado o “príncipe” do Rio de Janeiro dos anos 1940. Não era para menos: sucesso nos campos, esbanjava beleza, tinha uma ativa vida boêmia e era sempre rodeado por mulheres. Como ele mesmo dizia, tinha exatamente tudo o que desejava – só faltava conhecer John Wayne e acender um cigarro como ele. E é maravilhoso constatar que, ao invés de cair na obviedade e apresentar Heleno como uma figura solitária, mesmo sendo tão badalada, o filme tem seu foco na autodestruição do personagem, mostrando como toda sua arrogância foi fator fundamental para o início de sua decadência.

Cheio de si, Heleno acreditava que sua beleza seria infinita, que doenças nunca abalariam seu desempenho nos campos e que ele poderia fazer e falar o que quiser por ser o maior astro do futebol até então. Contados com muita sutileza, esses fatos ganham tons interessantíssimos naquele que deve ser o aspecto mais fascinante de Heleno: a interpretação de Rodrigo Santoro. O ator, que investiu dinheiro do próprio bolso para a realização do filme, alcança um momento superlativo com essa chance, nunca tendo sua beleza como elemento limitador (pelo contrário, só ajuda no magnetismo do personagem) e transitando com notável naturalidade por todas as fases da figura que interpreta, de talentoso e desejado jogador até decadente e enfermo homem apegado ao passado.

Narrado com bastante elegância e com um preto-e-branco fundamental nesse processo, Heleno aposta na falta de cronologia para apresentar sua história. Só que, ao contrário do recente A Dama de Ferro, tal escolha tem lógica e só conta pontos a favor: serve para construir a personalidade do protagonista e não só para impressionar com o excepcional trabalho corporal de Santoro. E se o roteiro não consegue, uma vez ou outra, se desviar dos clichês básicos do gênero (e não poderia falar o casamento feliz que, depois, traz a situação do marido ausente e a mulher descabelada com nenê chorando no colo), o roteiro consegue lidar muito bem com aquilo que poderia ser fatal nas mãos erradas:o gênio difícil e o destempo do protagonista. Não temos repulsa, mas sim curiosidade em acompanhar a trajetória desse difícil sujeito. E essa é apenas uma das qualidades inegáveis de Heleno.

FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Maybe it’s time we stop trying to avoid the truth and let it have its day.

Direção: Christopher Nolan

Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan

Elenco: Christian Bale, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Gary Oldman, Anne Hathaway, Marion Cotillard, Michael Caine, Morgan Freeman, Cillian Murphy

The Dark Knight Rises, EUA, 2012, Ação, 164 minutos

Sinopse: Oito anos após a morte de Harvey Dent, a cidade de Gotham City está pacificada e não precisa mais do Batman. A situação faz com que Bruce Wayne (Christian Bale) se torne um homem recluso em sua mansão, convivendo apenas com o mordomo Alfred (Michael Caine). Um dia, em meio a uma festa realizada na Mansão Wayne, uma das garçonetes contratadas rouba um colar de grande valor sentimental. Trata-se de Selina Kyle (Anne Hathaway), uma esperta e habilidosa ladra que, apesar de flagrada por Bruce, consegue fugir. Curioso em descobrir quem é ela, Bruce retorna à caverna para usar os computadores que tanto lhe serviram quando vestia o manto do Homem-Morcego. Aos poucos começa a perceber indícios do surgimento de uma nova ameaça a Gotham City, personificada no brutamontes Bane (Tom Hardy). É o suficiente para que volte a ser o Batman, apesar dos problemas físicos decorrentes de suas atividades como super-herói ao longo dos anos. (Adoro Cinema)

Às vezes, dependendo do ponto de vista, ter status não é algo bom. Tomemos o caso de Christopher Nolan como exemplo. Ele, nos últimos anos, provou ser um realizador de extrema competência, reinventando o até então alegórico mundo do Batman e fazendo outros filmes extremamente inventivos como A Origem. Ok, Nolan deve estar muito satisfeito por ser ovacionado ao redor do mundo. O problema é o público, que, em grande parte, não sabe moderar sua cega paixão por ele. Assim, surge essa atmosfera de ter que ir ao cinema já na obrigação de achar tudo um espetáculo digno de aplausos. E quem não acha não é normal. E, na maioria das vezes, o resultado é sim digno de honrarias. No entanto, quando aparece algo decepcionante como Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, fica a sensação de que os fãs não conseguem – ou não querem – enxergar falhas e pretensões básicas de um diretor que pode sim, de vez em quando, não ser tão brilhante assim…

Com esse longa que encerra a nova trilogia do homem-morcego, fica evidente, definitivamente, a vontade de Christopher Nolan de ter sempre que complicar histórias – mesmo quando ela não precisam ser tão complicadas! Tal atitude desnecessária é o que mais incomoda em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge que, em sua incômoda duração, traz detalhes e informações demais para um enredo que poderia ser muito mais econômico e direto. Assim, o roteiro escrito pelo próprio diretor em parceria com Jonathan Nolan, leva mais de uma hora nesse processo de tornar tudo complexo e difícil, como se roteiro bom fosse sinônimo de história complicada. O público que não é familiarizado com o universo de Nolan e que procura um simples filmes de heroi com capa e ação deve sair da sessão entediado – até porque se Batman aparece três ou quatro vezes uniformizado em cena já é demais. A partir de certo ponto, fica cansativo prestar atenção em vários personagens que não fazem muito além de apenas embolar a história.

O último volume da trilogia, que é mais sobre Gotham City do que sobre o Batman, desaponta no sentido de que demora demais para chegar ao clímax. Os últimos momentos de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, por sinal, em nada esbanjam originalidade. Pelo contrário, caem na fácil armadilha de resumir a tensão do filme ao protagonista ter que salvar a cidade de uma bomba (e, claro, em três minutos, o cronômetro dela só anda 20 segundos). Do que adianta, portanto, querer ser tão compexo durante mais da metade do filme para, depois, se entregar à obviedade? Em termos de plot, o filme decepciona bastante, especialmente depois do volume anterior, onde a ação era toda movimentada por um vilão que trazia situação inimagináveis e mirabolantes. Tais problemas são agravados pela montagem mal planejada de Lee Smith. Por ser tratar de um filme grandioso e que, querendo ou não, é dirigido às grandes massas, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge deveria ser mais enxuto. Afinal, quanto mais resumido é um filme, mais sua essência fica evidente. Rodeios, de vez em quando, não são muito aconselháveis – como aqui.

Mas para não ficarmos só no que deu errado, temos que reconhecer os pontos positivos que, claro, existem no longa. Mesmo com o excesso de personagens, todos os atores cumprem suas respectivas missões – e se são neutros, como é o caso de Marion Cotillard, a culpa é do personagem mal escrito, não de seu intérprete. Anne Hathaway se sai muito bem nos contorcionismos, Michael Caine continua sendo o coração da história, Gary Oldman é o coadjuvante mais irresistível, Tom Hardy está imponente com seu trabalho corporal e Christian Bale não perdeu o fôlego como o Batman mais simbólico que o cinema já viu. Já na cadeira de direção, Nolan mostra que continua como o maior mestre ao dirigir cenas de ação para adaptações de quadrinhos: tudo em Gotham City continua incrivelmente real e nada, absolutamente nada, transparece ter sido feito com tecnologias e artifícios computadorizados. A ação de Batman é impecável e o diretor não dá sinal de ter perdido a capacidade de dar aula nesse aspecto.

De forma alguma é justo dizer que Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um filme ruim. Afinal, se Nolan algum dia realizar um filme ruim, é o fim dos tempos. O que acontece é que, assim como qualquer outro diretor, ele é suscetível a erros. Ou melhor, ele tem o direito de, uma vez ou outra, não ser tão brilhante. O que é realizado nesse fim de trilogia é melhor do que muitos filmes de heróis realizados recentemente (incluindo aqueles que resolvem dar uma nova chance para alguns personagens, como O Espetacular Homem-Aranha). Poucos tem o direito de dizer que fizeram uma trilogia que alcançou sucesso de crítico e de público. Agora, difícil saber o que será de Batman daqui para frente. Alguém terá a insanidade de abordar o personagem novamente e ser comparado com Nolan? Espero que não. O diretor, em contrapartida, continua sendo um sujeito de confiança, mas em O Cavaleiro das Trevas Ressurge ele, pela primeira vez, ficou devendo bastante. O resultado não é ruim. É apenas decepcionante. Quem sabe passado o calor do momento, comece a ser julgado como deve: com os pés no chão.

FILME: 7.0

Para Roma, Com Amor

Don’t psychoanalyse me! Many have tried. All have failed.

Direção: Woody Allen

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Jesse Eisenberg, Woody Allen, Ellen Page, Penélope Cruz, Roberto Benigni, Alec Baldwin, Alison Pill, Judy Davis, Alessandro Tiberi, Flavio Parenti

To Rome, With Love, EUA/Itália/Espanha, 2012, Comédia, 112 minutos

Sinopse: O longa é dividido em quatro segmentos. Em um deles, um casal americano (Woody Allen e Judy Davis) viajam para Roma para conhecer a família do noivo de sua filha. Outra história envolve Leopoldo (Roberto Benigni), um homem comum que é confundido com uma estrela de cinema. Um terceiro episódio retrata um arquiteto da Califórnia (Alec Baldwin) que visita a Itália com um grupo de amigos. Por último, temos dois jovens recém-casados que se perdem pelas confusas ruas de Roma. (Adoro Cinema)

O que falar de Woody Allen? Que o seu filme mais fraco é melhor do que muita coisa que vemos durante o ano? Que ele apresenta uma vitalidade de dar inveja? Que suas ideias nunca acabam? Tudo isso é, com o perdão do clichê, chover no molhado. Todo mundo sabe – e todo mundo já leu essas afirmações. Levando em consideração que todos os filmes do diretor são muito idênticos, é mais aconselhável analisar suas obras de forma isolada, sem julgar o resultado pelo conjunto de seus longas. Isso porque  porque, na maioria das vezes, as obras não chegam a trazer grandes momentos do diretor, já que os marcos de Woody Allen acontecem, mais ou menos, de três em três anos, com filmes como Match PointVicky Cristina BarcelonaMeia-Noite em Paris. Tal sensação de mais do mesmo se ampliou desde que o diretor começou a rodar o mundo, gravando de país em país. Só que basta não limitar sua percepção com maiores comparações para embarcar nas viagens dele. E o mesmo se aplica, definitivamente, ao divertido Para Roma, Com Amor.

A princípio, o longa passado na capital italiana pode parecer um genérico de Meia-Noite em Paris. Mas, ao longo do filme, é bom constatar que estamos errados. Se no filme anterior de Woody a geografia era fator fundamental para uma história que exigia um mínimo de cultura para ser compreendida comicamente, em Para Roma, Com Amor, as paisagens são mais um cartão-postal para histórias de humor acessível e que, certamente, agradarão o grande público. Por sinal, novas plateias têm abraçado o diretor (Meia-Noite em Paris foi o maior sucesso de bilheteria dele e, pelo menos onde assisti ao filme, a sessão de Para Roma, Com Amor estava lotada). Não é para menos: todos os personagens desse novo longa são divertidos, dão vida a situações simples e eficientes. Até mesmo aquelas figuras que não chamam tanto a atenção têm seus momentos em função de circunstâncias absurdas que só podem ser relevadas – e apreciadas – com maior naturalidade no mundo de Woody Allen.

É um prazer embarcar nessa viagem. Afinal, não é todo dia que vemos uma linda cidade servindo de cenário para bons atores comandados por um diretor que ainda tem sim muito a dizer. Para Roma, Com Amor pode funcionar primordialmente como uma comédia para um público abrangente, mas basta olhar mais de perto para encontrar questões com a devida dose de complexidade sendo discutidas com tanta sutileza que, depois da sessão, ainda estarão em sua mente: a superficialidade da fama, a liquidez dos sentimentos, a facilidade em trocarmos algo sólido por uma empolgação passageira, a nossa capacidade de saber até que ponto devemos nos contentar com a mesmice… Questões desenvolvidas sem o mínimo de pretensão e que se encaixam com a devida dose de humor nas liberdades criativas que aceitamos por serem de Woody Allen.

Porém, pequenos detalhes impedem Para Roma, Com Amor de empolgar o espectador. Podemos citar, de começo, a narrativa episódica. Ela não incomoda tanto no sentido de que o filme se estrutura em blocos (e, nessa perspectiva, é fácil perceber quais histórias são realmente boas e outras apenas satisfatórias), mas no fato de que todas as discussões e reflexões propostas pelo roteiro simplesmente não convergem para um mesmo ponto. São histórias soltas, individuais, sem qualquer relação. Com isso, falta uma unidade em Para Roma, Com Amor, ou uma simples costura que poderia facilmente levar o filme a um outro patamar. Talvez essa falta de “preocupação” de Woody em querer surpreender seja, de fato, algo natural dele. Só que, aqui, a ausência de algo mais elaborado em termos de estrutura deixou escapar ligeiramente a consistência que tornaria o filme uma experiência muito mais do que simplesmente divertida e agradável. Com um pulso mais firme amarrando as histórias, Para Roma, Com Amor seria imperdível.

FILME: 7.5

O Espetacular Homem-Aranha

We all have secrets: the ones we keep… and the ones that are kept from us.

Direção: Marc Webb

Roteiro: James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Klose, baseado na história de James Vanderbilt e nos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko

Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Martin Sheen, Sally Field, Irrfan Khan, Denis Leary, Campbell Scott, Embeth Davidtz, Max Charles

The Amazing Spider-Man, EUA, 2012, Aventura, 126 minutos

Sinopse: Peter Parker (Andrew Garfield) é um rapaz tímido e estudioso, que inicou há pouco tempo um namoro com a bela Gwen Stacy (Emma Stone), sua colega de colégio. Ele vive com os tios, May (Sally Field) e Ben (Martin Sheen), desde que foi deixado pelos pais, Richard (Campbell Scott) e Mary (Embeth Davidtz). Certo dia, o jovem encontra uma misteriosa maleta que pertenceu a seu pai. O artefato faz com que visite o laboratório do dr. Curt Connors (Rhys Ifans) na Oscorp. Parker está em busca de respostas sobre o que aconteceu com os pais, só que acaba entrando em rota de colisão com o perigoso alter-ego de Connors, o vilão Lagarto. (Adoro Cinema)

É estranho assistir aos emaranhados de teias tomando conta dos créditos iniciais de O Espetacular Homem-Aranha e constatar que não existe mais o emblemático tema criado pelo compositor Danny Elfman. Ele faz falta. Entretanto, essa ausência é apenas o início de muitas outras que serão sentidas ao longo desse reboot. Primeiro é preciso lembrar que a franquia Homem-Aranha comandada por Sam Raimi deu certo por uma razão – em especial os dois primeiros exemplares (sendo o segundo, até hoje, uma das adaptações que mais entendeu o espírito de diversão dos quadrinhos). Proveniente de uma época em que o cinema ainda não lançava dinheiro para o alto com qualquer proposta boba de adaptação, os longas protagonizados por Tobey Maguire eram, de fato, muito interessantes. Mesmo com algumas falhas, eles empolgavam, dialogavam com o espectador. Já o reboot de Marc Webb é mais um exemplar banal de super-herói nessa multidão de filmes idênticos do gênero no cinema recente.

O Espetacular Homem-Aranha levanta, óbvio, a discussão sobre qual a hora certa para se reinstalar uma franquia. E, ao meu ver, o filme estrelado por Andrew Garfield e Emma Stone confirma a hipótese de que contar a mesma história poucos anos depois dela já ter sido apresentada não é lá muito interessante. Digo isso porque até é possível se desligar dos filmes de Sam Raimi, mas a trama é tão idêntica em vários aspectos narrativos que é praticamente inevitável não fazer comparações. Ora, no reboot, acompanhamos o garoto que apanha na escola e que depois é picado por uma aranha. Ele descobre novos poderes e flerta com uma mocinha aparentemente inalcançável. É o gênio da ciência que se envolve com outro gênio e depois descobre os perigos disso. Sofre uma perda familiar, elabora um uniforme e resolve virar justiceiro. Procurado pela polícia, amado pelo povo. Enfim, a mesma história. Contada toda de novo. E inferior ao que Raimi criou em quase todos os aspectos. Sim, reboot significa recomeço. Mas, nesse caso, um recomeço prematuro demais que atrapalha uma nova percepção do enredo.

Não existe razão para O Espetacular Homem-Aranha existir – a não ser, claro a financeira. Nunca li os quadrinhos e não sei se essa versão foi mais fiel que as anteriores. No entanto, como fã de cinema, não consegui me envolver com tal repetição. É claro que Andrew Garfield e Emma Stone são infinitamente melhores que Tobey Maguire e Kirsten Dunst – tanto em termos de atuação quanto na capacidade de apresentar uma adorável química -, mas, de resto, nada é muito inspirado. Culpa nem tanto do diretor, mas sim do roteiro, mais preocupado em ser piadista (irritante norma dos filmes de heroi: todos têm que ter, no mínimo, uma piada a cada cinco minutos) do que cuidar de detalhes básicos, como o descaso com alguns personagens (em certo ponto, nem lembramos mais que a tia May de Sally Field existe) e a má construção do vilão, uma figura desenvolvida superficialmente e que, quando recebe foco, é só para causar barulho, correria e destruição – além de sofrer com efeitos visuais que poderiam ser mais caprichados.

A aventura foi deixada um pouco de lado para que O Espetacular Homem-Aranha falasse mais sobre a personalidade de Peter Parker e os dramas que o assombram desde o sumiço de seus pais na infância. Com esses moldes, portanto, é estranho constatar que, mesmo com quase 2h20 de duração, nada que nós não saibamos sobre o protagonista tenha sido dito. Sem falar, ainda, dos clichês que nunca são colocados de escanteio: a promessa feita no leito de morte, a redenção do bad boy na escola, etc. Essas bobeiras deram certo antes, mas, para um filme que deseja reinstalar uma franquia, tais abordagens poderiam ser minimizadas, principalmente quando a história carece de um espírito diferenciado em uma época onde, como já mencionado, todos os filmes de heróis parecem iguais. Portanto, com sua história repetida e sem novidades, O Espetacular Homem-Aranha faz sentir a sua longa duração.

Não quero me expressar mal e fazer entender que o segundo long de Marc Webb é ruim. Não, não é. Tem suas virtudes (o casal, a história em si que é sempre agradável, a boa produção), mas sofre por quase nos obrigar a fazer comparações com os outros filmes existentes do protagonista. Sim, dessa vez, o reboot prematuro prejudicou a percepção de toda uma parcela de público. Não tenho qualquer receio de dizer que me incluo nesse grupo e que não consegui me livrar das amarras dos filmes anteriores de Raimi. Especialmente porque sou um entusiasta deles. Talvez, O Espetacular Homem-Aranha faça sucesso entre a nova geração (não em termos de bilheteria, porque isso não conta mais como termômetro), mas para quem teve uma pré-adolescência marcada por uma franquia que foi um dos pontapés para o sucesso dos herois que vemos hoje em dia, o trabalho de Webb não se diferencia de seus semelhantes.

FILME: 6.0