Cinema e Argumento

TOP 10: Kate Winslet

Britânica e filha de atores de teatro, Kate Elizabeth Winslet tem uma carreira digna de dar inveja em muitas atrizes. Só que, ao contrário do que se pensa, seu primeiro papel importante não foi no hit Titanic, mas sim em Almas Gêmeas, longa de Peter Jackson que já trouxe para a atriz algumas indicações em pequenas associações. Apesar dos comentários negativos (um crítico chegou a dizer que ela seria marcada pelo difícil papel e que nunca se tornaria uma grande estrela), Kate já está prestes a conquistar o EGOT (Emmy, Grammy, Oscar e Tony), faltando apenas o prêmio de teatro em sua lista. Coitado do tal crítico… Casada durante sete anos com o diretor Sam Mendes, foi indicada ao Oscar seis vezes – e só foi ganhar na sexta vez, quando se saiu vitoriosa com O Leitor. Confira, abaixo, o top 10 da atriz. Assim como o de Julianne Moore, foi bem difícil de elaborar, especialmente na hora de colocar em ordem de preferência cada uma das interpretações. Espero ter sido justo.

1. TITANIC (1997): Papel mais emblemático da carreira de Kate Winslet, Rose DeWitt Bukater ganhou notáveis contornos na mão da atriz – que, por seu desempenho, poderia ter facilmente vencido o Oscar. Longe de ser linear, Winslet transita muito bem por todas as variações da personagem e o mais importante: nunca se intimida perante a grandiosidade de Titanic. Seu talento ao brilhar em todas as cenas de um filme desse porte é simplesmente admirável. Por isso, ela, inclusive, pode ser muito bem comparada às intérpretes de grandes épicos, como Vivien Leigh, por exemplo, em …E o Vento Levou.

2. BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (2004): Se a Rose de Titanic é um dos papeis mais marcantes de Kate Winslet, a Clementine Kruczynski de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças não fica muito atrás. O que mais chama atenção nessa atuação de Kate é como ela consegue criar uma personagem excêntrica sem nunca cair na caricatura. Clementine tem um jeito todo diferente e alternativo, o que consegue ser transmitido com singular autenticidade por sua intérprete. Composição melhor do que muitos julgam ser e que complementa o trabalho do igualmente ótimo Jim Carrey.

3. MILDRED PIERCE (2011): O filme original estrelado por Joan Crawford era mais interessante e enxuto, mas Kate Winslet se saiu muito melhor como a sofrida Mildred Pierce que dá título à minissérie dirigida por Todd Haynes. A interpretação da atriz acompanha todas as fases da personagem: desde mulher traída e falida à procura de um emprego até a bem sucedida empresária lidando com a filha que parece ter como missão incomodar a vida da mãe. É um trabalho que traz tudo o que existe de melhor em Kate Winslet, que é dona de vários momentos excepcionais (a cena final é um deles).

4. FOI APENAS UM SONHO (2008): Na confusão das premiações entre Kate Winslet coadjuvante por O Leitor e Kate Winslet protagonista por Foi Apenas Um Sonho, a segunda saiu mais prejudicada. Na realidade, é uma das atuações recentes mais interessantes da atriz e que merecia ter vencido prêmios na mesma proporção – se não em até maior escala – que O LeitorFoi Apenas Um Sonho, apesar de completamente convencional e até decepcionante para os padrões da equipe reunida, dá todas as chances para Kate, que aproveita cada momento e termina como o ponto alto dessa produção mediana.

5. O LEITOR (2008): Depois de anos repletos de bons papeis e várias injustiças, o Oscar finalmente chegou! E Kate Winslet precisou fazer um filme bem acadêmico e que, entre tantas temáticas, aborda o nazismo para construir seu drama. Mas é bobagem pensar que tais aspectos são deméritos. Não, O Leitor é até subestimado e Kate, de fato, está ótima nesse longa de Stephen Daldry. A veracidade com que a atriz transmite toda a ignorância (ou ingenuidade, como preferirem) dessa personagem que não viu mal nos terríveis ator que cometeu é de tirar o chapéu. Kate, mais uma vez, convence, emociona e afirma sua versatilidade.

6. ALMAS GÊMEAS (1994): Kate já poderia ter começado sua jornada de sucesso nas premiações logo com esse filme dirigido por Peter Jackson. Em Almas Gêmeas, ela tem, até hoje, um dos seus papeis mais intensos, onde interpreta a inconsequente Juliet Hulme, que, junto com sua isolada colega de classe, Pauline Parker, comete um crime terrível que sempre será impactante. A atriz não só faz uma notável parceria com a também ótima Melanie Lynskey, como ainda é peça importante na qualidade desse longa pouco conhecido e que pode causar certo incômodo por ser tão realista.

7. EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA (2004): Deve ser uma das interpretações mais emotivas de Kate e é uma pena que tenha aparecido logo na época de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, quando não teve chance alguma de concorrer a prêmios (foi lembrada só pelo BAFTA). Vale a pena conhecer esse momento muito delicado da atriz nesse maravilhoso filme que ainda traz a melhor atuação de Johnny Depp. Junto com ele, Kate consegue tocar o espectador, seja nos momentos de cortar o coração com o jovem Freddie Highmore ou quando o roteiro lhe dá grande destaque (a cena da Terra do Nunca é uma das mais belas do cinema contemporâneo).

8. RAZÃO E SENSIBILIDADE (1995): Foi esse filme de época dirigido por Ang Lee e roteirizado por Emma Thompson que deu os primeiros reconhecimentos para Kate Winslet. O longa não faz muito o meu estilo, mas devo reconhecer o excelente trabalho de elenco, que ainda reúne grandes nomes como Alan Rickman e Tom Wilkinson. Por isso, é no mínimo louvável a capacidade de Kate ao se sobressair em um elenco com vários titãs do cinema britânico. Sua Marianne Dashwood é dona de vários momentos interessantes do filme e a interpretação recebeu merecidas indicações no circuito de prêmios.

9. PECADOS ÍNTIMOS (2006): Não chega a ser um grande desempenho (das cinco atrizes indicadas ao Oscar em seu respectivo ano, era a que tinha o momento menos marcante), mas certamente merece figurar entre os mais interessantes da atriz. Kate encontrou o tom exato para a sua insatisfeita Sarah Pierce, que começa uma vida paralela nos braços de um amante. Ela, na realidade, é um dos tantos elementos que tornam o filme de Todd Field incômodo: a forma como Kate conduz sem qualquer vaidade a sua personagem em um subúrbio completamente problemático é essencial para a atmosfera proposta pelo diretor.

10. A VIDA DE DAVID GALE (2003): Subestimado suspense de Alan Parker, A Vida de David Gale é forte e intenso. O que falar, então, quando um ótimo elenco está a favor de um thriller como esse? Não bastasse a presença dos sempre ótimos Kevin Spacey e Laura Linney, o filme ainda conta com uma versátil Kate Winslet sendo eficiente como uma jornalista que investiga um crime muito duvidoso. Não é um desempenho marcante e sequer será lembrado por algumas pessoas (devo confessar que só está presente aqui para completar a lista), mas sua boa presença eleva o papel essencialmente banal, o que  já é motivo para certo destaque.

Paixão pela música

“Eu nunca dei importância para o que os outros pensavam de mim. O que eles achavam não me incomodava. Eu fiz o que eu queria fazer e, bom, eu não me importava. Fui assim durante toda a minha vida – e isso me livrou de muitas incomodações. Até quando o assunto é música eu não me importo com o que os outros pensam. Sabe, existe muita música no mundo. Você não precisa escutar a minha. Existe Mozart, Beatles… Escolha qualquer outra coisa, não precisa me ouvir. Você tem a minha bênção, vá em frente, escute outra coisa. Eu não me importo”.

O depoimento acima é apresentado em off, junto a imagem de uma câmera subjetiva em um carrinho de montanha-russa. Quando ele chega ao fim, o carrinho, após subir uma determinada altura, despenca no violento circuito daquele brinquedo. Logo, descobrimos quem está nele: Philip Glass. A cena, que tem como trilha a composição The Grid, segue exatamente o mesmo princípio de Koyaanisqatsi, um dos filmes mais célebres da carreira de Glass: a exata união entre imagem e música. É a velocidade frenética da montanha-russa com uma trilha que expressa perfeitamente essa movimentação. E somente com essa primeira cena já podemos perceber que o diretor Scott Hicks é um profundo conhecedor da carreira do compositor.

E, de fato, ao longo de quase duas horas de Glass: A Portrait of Philip in Twelve Parts (2007, e nunca lançado no Brasil), chegamos ao acordo que Hicks sabe muito da vida e carreira de Philip Glass. Conhece tanto que conseguiu permissão para conviver com o diretor durante um ano – desde as férias na casa da praia, o cotidiano com a família, o processo criativo de músicas e a agenda cheia de grandes apresentações. Hicks documenta tudo isso deixando Glass muito à vontade, algo que por si só já impressiona. O compositor, considerado um dos mais importantes em atividade, não tem qualquer frescura ou arrogância. Pelo contrário, sua sabedoria e humildade só despertam ainda mais admiração.

De encanador e taxista até cidadão parisiense, Glass conta sua história desde a juventude, quando tinha medo de cometer erros na frente de sua professora de piano ou quando, na época em que começou a se apresentar nas ruas, um músico lhe abordou dizendo que ele não sabia fazer… música! Mas as dificuldades da vida – não só profissionais mas também pessoais (Glass perdeu uma esposa para o câncer) – nunca abalaram o compositor que, como ele mesmo faz questão de enfatizar, sempre fez o que queria fazer, nunca se importando com a opinião dos outros.

Glass: A Portrait of Philip in Twelve Parts é, assim, um verdadeiro mergulho na vida desse profissional singular. Para os cinéfilos, um ótimo documentário (funciona mesmo que você não conheça o trabalho dele). Para os fãs, um inestimável registro de sua vida e intimidade. O diretor Scott Hicks (Shine) fez questão de não realizar um trabalho formal, uma vez que acompanhamos depoimentos de Glass em situações corriqueiras, onde ele está fazendo pizza ou, então, brincando com os filhos. São declarações muito valiosas e que, antes de serem apenas um retrato de um verdadeiro mestre, são também uma declaração de amor ao mundo da música.

Na parte do documentário referente ao cinema, o resultado se torna ainda mais interessante. Simplesmente pelo fato de que traz pelo menos dois grandes diretores falando sobre como foram os seus trabalhos com Philip Glass. O principal deles é Woody Allen que, na época de realização do filme, estava produzindo O Sonho de Cassandra. Allen, enfático ao dizer que seu longa precisava especificamente da trilha de Glass, é o mais aproveitado: é possível vê-lo trabalhando com Glass e, claro, declarando toda sua admiração pelo trabalho do compositor. O segundo grande cineasta a falar sobre ele é Martin Scorsese (ambos trabalharam juntos em Kundun).

Por fim, Glass: A Portrait of Glass in Twelve Parts é eficiente ao fazer um perfil extremamente completo desse grande compositor. Grande por sua magnífica obra e por ser uma pessoa autêntica e de fortes ideias. Mais do que isso, encantador, principalmente, ao mostrar que é um verdadeiro apaixonado pelas artes. Ao fim do documentário, saímos contagiados por essa paixão. É uma pena, portanto, que tal documentário nunca tenha sido disponibilizado no mercado brasileiro. Uma pena porque é obrigatório para qualquer fã de música, além de um retrato extremamente eficiente em termos cinematográficos.

The Space Between

And for that little tiny sliver of the moment, he’s right there by your side with you. And nothing, no other person, no distance or time, can take him away from you.

Direção: Travis Fine

Roteiro: Travis Fine

Elenco: Melissa Leo, Anthony Keyvan, Brad William Henke, AnnaSophia Robb, Hunter Parrish, Philip Rhys, Kelli Williams, Don Franklin, Kyle Bornheimer

EUA, 2010, Drama, 90 minutos

Sinopse: Montine (Melissa Leo) é uma aeromoça que, quando não está trabalhando, vive uma vida solitária. Ela tem a mãe doente e acaba de sofrer uma perda. No dia 11 de setembro de 2001, em um vôo, ela conhece o jovem Omar (Anthony Keyvan), que foi enviado para Los Angeles pelo pai para estudar em uma escola para crianças com altas habilidades. Quando o avião pousa, no entanto, Omar descobre que o World Trade Center foi destruído. Com o tráfego aéreo paralisado, Montine ajuda Omar a voltar para Nova York pelas estradas dos Estados Unidos, com o intuito de descobrir se o pai do garoto está vivo ou não.

Dependendo do diretor, a previsibilidade não chega a ser algo negativo. Vejam Travis Fine, por exemplo, que dirigiu, roteirizou e produziu esse telefilme chamado The Space Between. A história contada por ele nada mais é do que um drama repleto de elementos que já vimos várias vezes em outras experiências cinematográficas: a tragédia do 11 de setembro, a improvável amizade entre um adulto e uma criança, uma viagem que muda a vida de duas pessoas, a mulher amargurada que usa a bebida para afogar as tristezas, e por aí vai… E poderíamos, durante horas, ficar listando tudo o que existe de previsível nos acontecimentos desse telefilme estrelado por Melissa Leo. Contudo, Travis Fine comanda tudo de forma tão simples que até relevamos esses detalhes que, nas mãos de um diretor mais pretensioso, poderiam afundar a história.

O que encontramos, portanto, é um longa previsível, mas completamente inofensivo: nada de tramas aborrecidas por serem batidas, estereótipos forçados ou resoluções enfadonhas. The Space Between, em suas limitações, consegue contornar tais problemas e colocar a experiência no nível do agradável – para dizer o mínimo. Essa sinceridade de não querer ser mais do que realmente é tira o longa de Travis da zona de risco dos clichês e deixa a história com uma cara destinada ao grande público da TV: ou seja, o formato é acessível, os dramas não são lá muito complexos, o ritmo é bom e tudo se encaixa com o devido rigor para que a história cumpra cirurgicamente os 90 minutos da grade de programação destinada ao longa.

Em contrapartida, The Space Between não dialoga com o público que exige mais intensidade, uma vez que o formato é – repetindo – pensado para ser acessível. Por isso, o trabalho de Travis pode não ser visto com muita simpatia pela parcela do público que espera algo novo ou diferente. Eles, pelo menos, devem reconhecer que o diretor foi inteligente ao escalar Melissa Leo para encabeçar o elenco, já que ela é uma atriz que tem as características perfeitas para o papel que desempenha. Leo, sempre com um dom espescial para personagens sofridos e que possuem a tristeza estampada no rosto (arrasou em Rio Congelado, lembram?), é o principal atrativo do longa. Ao contrário de seu teatro desnecessário quando venceu o Oscar de melhor atriz coadjuvante, ela é extremamente sutil em papeis como o de The Space Between. Leo, afinal, sabe lidar com o tom ameno e açucarado desse filme esse que não é uma maravilha, mas que serve aos seus pequenos propósitos.

FILME: 7.5

Happy birthday, Meryl!

Nossos infinitos votos de felicidade para a maior atriz que o cinema já viu. Parabéns, Meryl, por 63 anos de puro talento!

Na coleção… Um Estranho no Ninho

Segundo filme a vencer as cinco categorias principais do Oscar (filme, direção, ator, atriz e roteiro), Um Estranho no Ninho é aquele tipo de clássico que não é grandioso ou cheio ambições. É, justamente, único por ser singelo e humano. Na obra mais célebre do diretor Milos Forman, Jack Nicholson interpreta R.P. McMurphy, um sujeito que já foi preso várias vezes por agressão e que, agora, é acusado de estuprar uma menina de 15 anos. Para escapar da prisão, ele finge ter problemas mentais e é enviado para um manicômio, onde será observado durante dias para um diagnóstico final. No ambiente, ele precisa se encaixar em uma nova vida, mergulhando na ingenuidade, loucura e amizade dos pacientes de lá. Ao mesmo tempo, ele rivaliza com a enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher), uma mulher de ferro que parece ser a única a oferecer, de fato, algum risco para a farsa do protagonista.

Baseado no romance homônimo de Ken Kesey, o roteiro de Um Estranho no Ninho não planeja ser um estudo sobre a vida dentro de um manicômio ou uma análise sobre a sanidade de seus personagens. O objetivo, aqui, é mostrar que todas as pessoas, em sua essência, são iguais. Loucas, mas também esperançosas, sonhadoras e… em busca da felicidade. A entrada do personagem de Nicholson nesse ambiente muda não apenas o cotidiano dos pacientes, mas dele próprio, que não age com o mínimo de preconceito ou maldade lá dentro. Pelo contrário: parece que a missão do personagem é, justamente, unir os pacientes e construir um ambiente melhor para eles. Foi através de sutilezas como essas que Um Estranho no Ninho conquistou gerações e é considerado, até hoje, um dos clássicos mais queridos do cinema. Por isso, deve ser elogiado o excelente trabalho de Milos Forman não só ao orquestrar tantos elementos narrativos e técnicos, mas também ao dirigir notavelmente seus atores. E eles merecem citações à parte.

Importante notar, aqui, que, antes de seus protagonistas, o elenco de suporte também é certeiro: Danny DeVito e Christopher Lloyd, por exemplo, são alguns dos nomes que compõe esse excelente grupo de atores que tornam a experiência não só trágica, mas também cômica (o humor do filme é muito genuíno). Só que o destaque mesmo é Nicholson. Possivelmente, o ator nunca esteve tão à vontade em um papel. Por seu ótimo trabalho, ganhou merecidamente o seu primeiro Oscar. Louise Fletecher, que estranhamente nunca mais teve um grande papel depois do filme, também é um destaque: como a gélida enfermeira Ratched, merece aplausos por construir com eficiência uma figura simplesmente detestável que não dá um sorriso sequer. Ela mesma reconheceu o difícil trabalho: logo depois do final das gravações, tirou o uniforme e ficou apenas de roupa íntima frente ao elenco para mostrar que não era fria como sua personagem. Por fim, em sua simplicidade, Um Estranho no Ninho se torna uma grata surpresa. Revolucionário ou não, deve, pelo menos, levar o espectador do drama ao humor com uma naturalidade invejável.

FILME: 8.5