Cinema e Argumento

TOP 10: Bette Davis

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Talvez Bette Davis tenha sido atriz de um papel só. Mesmo quando não interpretava personagens inegavelmente maldosas, como a Regina Giddens, de Pérfida, ou a própria Baby Jane, de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, ela sempre tinha em seu currículo mulheres de temperamento forte e gênio difícil, marca que esteve presente até os últimos anos de sua carreira (lembro particularmente de Baleias de Agosto, onde Bette, já velhinha, interpretava uma senhora cega e mal humorada). Só que o mais impressionante é que ela nunca deixou a sensação de que estava se repetindo. Sempre inspirada e afiada, a atriz teve uma carreira repleta de personagens marcantes e filmes que, cada um ao seu modo, marcaram época. Bette deu adeus à vida em 1989, quando perdeu uma luta contra o câncer de mama. Fora as figuras icônicas que deixou para o cinema, a atriz, em seus últimos anos, ainda escolheu uma sucessora: Meryl Streep, para quem escreveu uma carta dando seu aval de admiração pela até então iniciante. Assim, não à toa, as duas melhores atrizes que o cinema já viu compartilham as mesmas qualidades: talento e humildade. Por isso, elencar as melhores interpretações de Bette Davis não foi uma tarefa fácil – em qualquer sentido. Torço para que a listagem abaixo faça um bom balanço do que foi a carreira dessa intérprete incomparável…

1. O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (1962): Já disseram que é um momento decadente de Bette Davis e que ela se perdeu em papeis excessivamente bizarros como esse no final de sua carreira. E não é que eu acho justamente o contrário? Sua Baby Jane é uma síntese extremada de todos os tipos que ela interpretou na vida. Divertidíssima com seu humor ácido e com uma figura completamente única, a atriz entrega aqui aquele desempenho que, junto ao de A Malvada, é o mais icônico de sua carreira. Claro que sua companheira de tela Joan Crowford tem uma personagem ingrata, mas é praticamente impossível concorrer com a Baby Janes de Davis. Simplesmente genial em todos os seus extremos.

2. A MALVADA (1950): Ao contrário do que o título indica, não é Bette Davis a tal malvada e tampouco a estrela absoluta desse filme de Joseph L. Mankiewicz. Ela divide o protagonismo com a ótima Anne Baxter, mas tem este que é um dos grandes momentos de sua filmografia. Como a estrela Margo Channing, Davis entrega aqui o papel que mais reproduz com sutilezas o seu tipo de mulher ácida e geniosa. Ao contrário de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? – que seria realizado na década seguinte -, em A Malvada, a atriz aposta na na lógica de que menos é mais para criar uma personagem marcante. É uma interpretação irretocável e que felizmente é devidamente apreciada até os dias de hoje.

3. A CARTA (1940): Quando Leslie Crosbie arromba portas disparando várias vezes contra um homem logo na cena que abre A Carta, já podemos notar o quão marcante a protagonista será. Aqui, temos uma perfeita combinação entre um personagem muito bem desenvolvido (impossível não se envolver com as atitudes dissimuladas dela) e uma atuação cheia de grandes momentos de Davis. Com direito às clássicas lágrimas quando se atira em uma cama para lamentar alguma coisa, a atriz tem nesse filme uma de suas personagens mais intensas. E o show não é só dela: o filme de William Wyler também é surpreendente como a sua própria protagonista.

4. VITÓRIA AMARGA (1939): Bette Davis não teve qualquer chance contra Vivien Leigh e o furacão … E o Vento Levou no Oscar, mas que justiça seja feita e todos assistam ao belo trabalho da atriz em Vitória Amarga. Como uma mulher que descobre ter uma doença terminal (ela, pouco a pouco, vai perdendo a visão), Davis consegue, inclusive, estar tocante nesse ótimo filme que, fora a indicação para melhor atriz, foi merecidamente lembrado em várias outras categorias do Oscar. Mais do que isso, Vitória Amarga envolveu as plateias da época, tornando-se o maior sucesso de bilheteria da atriz até aquele ano.

5. VAIDOSA (1944): Quando jovem, Fanny tinha todos os homens aos seus pés. Gostava de aproveitar o que podia de cada um deles, sempre encantando-os com um jeito difícil. Mas logo ela trocava de flerte e dispensava qualquer pretendente com extrema facilidade. Só que o tempo passa e não é nada generoso com Fanny, que, em certo ponto, encontra-se sem muitas opções de matrimônio. Por isso, casa-se, justamente, com um homem que era apaixonado por ela antigamente e que, apesar dos pesares, sobreviveu a sua esnobação. Toda essa transição de Fanny é acompanhado com grande talento por Bette Davis, que não se repete ao longo do filme e que distingue com precisão as diferentes fases de uma mulher repleta de transformações.

6. UMA VIDA ROUBADA (1946): Poucos conhecem esse excelente filme, que tem uma história que viria a ser popularizada no Brasil com a novela Mulheres de Areia: a do conflito entre uma irmã gêmea má e outra boa. A atriz consegue tirar os dois papeis de letra, nunca levando qualquer uma das personagens a extremos. Como  a boa, não a inocenta demais. Como a má, nunca vulgariza a figura, deixando-a apenas como uma pessoa complicada. Por já conhecermos o enredo, os rumos são conhecidos, mas vale a pena apreciar o filme, que tem ótimos momentos e excelentes interpretações de Bette.

7. PÉRFIDA (1941): Regina Giddens é uma das “vilãs” mais marcantes da carreira de Bette Davis. Se o filme em si demora a compreender que é nessa personagem que reside o seu maior mérito (todas as outras figuras são bem desenvolvidas, mas não causam o mesmo encantamento), a atriz faz questão de aproveitar cada minuto que lhe é dedicado. A esposa gananciosa que não mede esforços para conseguir o que deseja financeiramente se destaca particularmente no final, com confrontos pra lá de marcantes (destaque para as cenas com a filha e o marido) e uma resolução totalmente coerente com o que plantou ao longo da história. Se fosse a estrela absoluta de Pérfida, certamente seria ainda mais marcante.

8. PERIGOSA (1935): Com esse filme, veio o primeiro Oscar de Bette Davis – após uma indicação por Escravos do Desejo. Por mais que o resultado não seja lá muito especial, é perfeitamente compreensível a celebração da atriz: aqui, temos aquele tipo de trabalho que já mostra toda a força de uma principiante que se revelava uma das grandes apostas da época. No longa de Alfred E. Green, ela é Joyce Heath, uma atriz com problemas alcoólicos que é colocada em reabilitação mas se mostra ainda mais perigosa nesse processo de “desintoxicação”. Falta algo mais forte no filme, só que Bette compensa tudo, pois já começava a construir o tipo de mulher difícil e geniosa que permearia toda a sua carreira.

9. LÁGRIMAS AMARGAS (1952): Foi um dos últimos papeis de Bette Davis indicado a premiações. E o filme é, de certa forma, uma previsão dos últimos dias da carreira da atriz, que, conforme muitos dizem, entregou-se a papeis estranhos e aparições bizarras. Em Lágrimas Amargas, ela é Margaret Elliot, atriz cuja popularidade e fortuna não estão bem das pernas. Toda ironia e senso de humor de Bette estão presentes nesse papel frequentemente óbvio, mas que dá as devidas chances para a atriz. Posteriormente, ela só viria a ser celebrada com O Que Terá Acontecido a Baby Jane?

10. JEZEBEL (1938): A primeira parceria com o diretor William Wyler já foi de ouro: por seu papel em Jezebel, Bette ganhou seu segundo Oscar (o primeiro, como já mencionado, foi por Perigosa). Porém, é um tanto incompreensível o entusiasmo: primeiro porque este está longe de ser um dos melhores momentos da atriz e segundo porque Jezebel é um longa que beira o monótono. A proposta, contudo, tinha seus atrativos: uma jovem egocêntrica da aristocracia local provoca o rompimento do seu noivado ao usar um vestido vermelho, em uma época em que as moças deviam usar branco. Apesar de seu antigo noivo se casar com outra mulher, ela continua amando-o. Ela tem a grande chance de lhe provar que realmente deixou de ser uma jovem mimada quando uma peste se abate sobre a cidade.

TOP 10: trilhas sonoras contemporâneas

É sempre um prazer falar de trilhas. E quando, através do Twitter, me sugeriram um TOP 10 sobre esse tema, fiquei, claro, muito entusiasmado. No entanto, elencar trilhas sonoras de toda a existência do cinema é, no mínimo, injusto. Portanto, resolvi fazer um recorte: assim como no post de filmes estrangeiros, optei por falar sobre exemplares contemporâneos – de 2000 até agora – o que é bem mais fácil e acessível a todos. Na lista, compositores estadunidenses, argentinos, franceses, poloneses e italianos. E todas as trilhas listadas são, ao meu ver, dignas de ocuparem espaço na coleção de todo bom fã do gênero!

1. AS HORAS, por Philip Glass: Já devo ter feito todos os elogios do mundo ao trabalho de Philip Glass para As Horas, mas nunca me canso de falar sobre essa trilha que – não hesito em afirmar – é uma das melhores já feitas no cinema. Que ela tem toda a precisão que só um mestre como Glass poderia trazer todo mundo já sabe, mas o que conta mesmo é a forma como a trilha, além de ser uma ferramenta narrativa essencial do filme, ainda é um personagem à parte. O compositor nunca esteve tão inspirado frente ao piano – e isso inclui a sua carreira não só no cinema, mas na música como um todo. Pura perfeição. A não premiação no Oscar ainda é um dos maiores absurdos dessa vida.

2. DIREITO DE AMAR, por Abel Korzeniowski: Se alguém chegou perto de alcançar o nível de Philip Glass em As Horas, esse foi o polonês Abel Korzeniowski. Sua trilha para o subestimado Direito de Amar é tão impressionante que parece ser de um verdadeiro compositor veterano. Só que essa foi sua primeira trilha fora da Polônia com algum tipo repercussão. Ouvir esse álbum, que ainda conta com composições adicionais de Shimgeru Umbayashi, e não ficar completamente arrasado com a versatilidade e a habilidade do compositor em criar passagens geniais – e, por muitas vezes, dolorosas – é uma missão simplesmente impossível. Serve perfeitamente ao filme de Tom Ford.

3. LEONTINA, por Jorge Aliaga: Exibido no 40º Festival de Cinema de Gramado, o documentário chileno Leontina ainda é inédito no circuito comercial brasileiro. Porém, é bom ficar de olho no nome do responsável pela trilha sonora desse injustiçado filme. Fica evidente a sintonia entre o compositor argentino Jorge Aliaga e o diretor Boris Peters nessa trilha responsável por definir todo o ritmo de Leontina. Aqui, os belos violinos são fundamentais para enaltecer a íntima proposta desse documentário sobre envelhecimento e solidão. Muito mais do que uma trilha, o trabalho de Aliaga, bem como todos dessa lista, ultrapassa as fronteiras do cinema e se torna uma ótima pedida para qualquer apreciador de música.

4. DESEJO E REPARAÇÃO, por Dario Marianelli: Joe Wright alcançou o seu auge como diretor em Desejo Reparação, um verdadeiro clássico contemporâneo. E o mesmo pode ser dito do trabalho do italiano Dario Marianelli, que chegou a vencer o Oscar pela trilha realizada para esse longa. Originalidade é a palavra-chave dessa trilha que, misturando os mais clássicos instrumentos com sonoridades inusitadas (as teclas de uma máquina de escrever, por exemplo), está sempre totalmente à altura dos momentos sublimes e grandiosos do filme de Joe Wright. Marcante.

5. A VILA, por James Newton Howard: Aspecto fundamental para levar o espectador para dentro do clima do filme, a trilha sonora de A Vila é um dos grandes momentos de James Newton Howard, que trabalha constantemente com M. Night Shyamalan, mesmo em tragédias como Fim dos Tempos. Aqui, ambos estão extremamente inspirados e Howard, ao adotar o trabalho com violinos como “matéria-prima”, realizou um trabalho que vai do drama ao suspense com uma versatilidade de impressionar. Certamente, A Vila não seria o mesmo filme sem a trilha sonora que é certeira ao nos levar para dentro do universo criado por Shyamalan.

6. O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN, por Yann Tiersen: Filme à parte (não vejo nada de especial nesse longa a não ser Audrey Tautou e a técnica), O Fabuloso Destino de Amélie Poulain deu ao francês Yann Tiersen a chance de realizar aquele que é, possivelmente, o trabalho mais encantador  de sua carreira. A trilha, que hoje é utilizada em qualquer produto audiovisual que mostre a França, é uma verdadeira ode ao país. Do início ao fim, o álbum nos oferece uma prazerosa viagem ao território francês. Trilha muito subestimada e que merecia todos os reconhecimentos possíveis – mas, certamente, o tempo fez jus ao que ela representa.

7. CASA DE AREIA E NÉVOA, por James Horner: Um dos filmes mais intensos da década passada, Casa de Areia Névoa é uma verdadeira surpresa não só em termos dramáticos, mas na própria direção de Vadim Perlman ou, claro, na estupenda trilha sonora de James Horner. Mais conhecido por seus trabalhos para grandes filmes como Titanic e Avatar, o compositor tem aqui aquele que é, possivelmente, o melhor trabalho de sua carreira. As composições são delicadas e totalmente de acordo com o filme, mesmo aquelas que têm cerca de 15 minutos de duração. Horner dá o tom certo ao longo e, na lógica de que menos é mais, entrega um resultado simplesmente sublime.

8. ADEUS, LENIN!, por Yann Tiersen: Dois anos depois de realizar a trilha sonora de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Yann Tiersen realizou outro trabalho superlativo: Adeus, Lenin!. Sucesso de público na Alemanha, o filme de Wolfang Backer deve boa parte de sua delicadeza e de sua melancolia ao que Tiersen compôs para a história. É um álbum que, ao utilizar piano em todas as faixas, consegue criar melodias inesquecíveis, como Summer 78. Mais uma vez, Tiersen foi injustiçado e não teve reconhecimento por sua trilha, mas é assim que nascem os trabalhos que resistem intactos ao tempo.

9. RÉQUIEM PARA UM SONHO, por Clint Mansell: Filme mais perturbador já realizado por Darren Aronofsky, Réquiem Para Um Sonho tem boa parte de sua intensa carga dramática na trilha sonora do sempre ótimo Clint Mansell. A clássica Lux Aeterna, tão utilizada em programas da TV brasileira, é apenas um exemplo de como Mansell compreendeu por completo o espírito incômodo proposto por Aronofsky. É, certamente, um trabalho de admirável precisão e que pontua de forma contundente a temática de Réquiem Para Um Sonho. Como sempre, uma grande trilha – impactante até hoje – ignorada pelas premiações.

10. O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON, por Alexandre Desplat: Não é justo falar de trilhas contemporâneas sem mencionar Alexandre Desplat. Repleto de trabalhos ecléticos e de destaque nos últimos anos, o compositor tem seu ponto alto, certamente, em O Curioso Caso de Benjamin Button. Uma trilha é clássica quando basta ouvirmos apenas uma composição para lembrarmos imediatamente do filme. E é assim com o trabalho de Desplat para o filme de David Fincher. Bastam algum segundos de Postcards, por exemplo, para embarcarmos em uma viagem rumo a O Curioso Caso de Benjamin Button. Poucos têm esse mérito.

TOP 10: Kate Winslet

Britânica e filha de atores de teatro, Kate Elizabeth Winslet tem uma carreira digna de dar inveja em muitas atrizes. Só que, ao contrário do que se pensa, seu primeiro papel importante não foi no hit Titanic, mas sim em Almas Gêmeas, longa de Peter Jackson que já trouxe para a atriz algumas indicações em pequenas associações. Apesar dos comentários negativos (um crítico chegou a dizer que ela seria marcada pelo difícil papel e que nunca se tornaria uma grande estrela), Kate já está prestes a conquistar o EGOT (Emmy, Grammy, Oscar e Tony), faltando apenas o prêmio de teatro em sua lista. Coitado do tal crítico… Casada durante sete anos com o diretor Sam Mendes, foi indicada ao Oscar seis vezes – e só foi ganhar na sexta vez, quando se saiu vitoriosa com O Leitor. Confira, abaixo, o top 10 da atriz. Assim como o de Julianne Moore, foi bem difícil de elaborar, especialmente na hora de colocar em ordem de preferência cada uma das interpretações. Espero ter sido justo.

1. TITANIC (1997): Papel mais emblemático da carreira de Kate Winslet, Rose DeWitt Bukater ganhou notáveis contornos na mão da atriz – que, por seu desempenho, poderia ter facilmente vencido o Oscar. Longe de ser linear, Winslet transita muito bem por todas as variações da personagem e o mais importante: nunca se intimida perante a grandiosidade de Titanic. Seu talento ao brilhar em todas as cenas de um filme desse porte é simplesmente admirável. Por isso, ela, inclusive, pode ser muito bem comparada às intérpretes de grandes épicos, como Vivien Leigh, por exemplo, em …E o Vento Levou.

2. BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (2004): Se a Rose de Titanic é um dos papeis mais marcantes de Kate Winslet, a Clementine Kruczynski de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças não fica muito atrás. O que mais chama atenção nessa atuação de Kate é como ela consegue criar uma personagem excêntrica sem nunca cair na caricatura. Clementine tem um jeito todo diferente e alternativo, o que consegue ser transmitido com singular autenticidade por sua intérprete. Composição melhor do que muitos julgam ser e que complementa o trabalho do igualmente ótimo Jim Carrey.

3. MILDRED PIERCE (2011): O filme original estrelado por Joan Crawford era mais interessante e enxuto, mas Kate Winslet se saiu muito melhor como a sofrida Mildred Pierce que dá título à minissérie dirigida por Todd Haynes. A interpretação da atriz acompanha todas as fases da personagem: desde mulher traída e falida à procura de um emprego até a bem sucedida empresária lidando com a filha que parece ter como missão incomodar a vida da mãe. É um trabalho que traz tudo o que existe de melhor em Kate Winslet, que é dona de vários momentos excepcionais (a cena final é um deles).

4. FOI APENAS UM SONHO (2008): Na confusão das premiações entre Kate Winslet coadjuvante por O Leitor e Kate Winslet protagonista por Foi Apenas Um Sonho, a segunda saiu mais prejudicada. Na realidade, é uma das atuações recentes mais interessantes da atriz e que merecia ter vencido prêmios na mesma proporção – se não em até maior escala – que O LeitorFoi Apenas Um Sonho, apesar de completamente convencional e até decepcionante para os padrões da equipe reunida, dá todas as chances para Kate, que aproveita cada momento e termina como o ponto alto dessa produção mediana.

5. O LEITOR (2008): Depois de anos repletos de bons papeis e várias injustiças, o Oscar finalmente chegou! E Kate Winslet precisou fazer um filme bem acadêmico e que, entre tantas temáticas, aborda o nazismo para construir seu drama. Mas é bobagem pensar que tais aspectos são deméritos. Não, O Leitor é até subestimado e Kate, de fato, está ótima nesse longa de Stephen Daldry. A veracidade com que a atriz transmite toda a ignorância (ou ingenuidade, como preferirem) dessa personagem que não viu mal nos terríveis ator que cometeu é de tirar o chapéu. Kate, mais uma vez, convence, emociona e afirma sua versatilidade.

6. ALMAS GÊMEAS (1994): Kate já poderia ter começado sua jornada de sucesso nas premiações logo com esse filme dirigido por Peter Jackson. Em Almas Gêmeas, ela tem, até hoje, um dos seus papeis mais intensos, onde interpreta a inconsequente Juliet Hulme, que, junto com sua isolada colega de classe, Pauline Parker, comete um crime terrível que sempre será impactante. A atriz não só faz uma notável parceria com a também ótima Melanie Lynskey, como ainda é peça importante na qualidade desse longa pouco conhecido e que pode causar certo incômodo por ser tão realista.

7. EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA (2004): Deve ser uma das interpretações mais emotivas de Kate e é uma pena que tenha aparecido logo na época de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, quando não teve chance alguma de concorrer a prêmios (foi lembrada só pelo BAFTA). Vale a pena conhecer esse momento muito delicado da atriz nesse maravilhoso filme que ainda traz a melhor atuação de Johnny Depp. Junto com ele, Kate consegue tocar o espectador, seja nos momentos de cortar o coração com o jovem Freddie Highmore ou quando o roteiro lhe dá grande destaque (a cena da Terra do Nunca é uma das mais belas do cinema contemporâneo).

8. RAZÃO E SENSIBILIDADE (1995): Foi esse filme de época dirigido por Ang Lee e roteirizado por Emma Thompson que deu os primeiros reconhecimentos para Kate Winslet. O longa não faz muito o meu estilo, mas devo reconhecer o excelente trabalho de elenco, que ainda reúne grandes nomes como Alan Rickman e Tom Wilkinson. Por isso, é no mínimo louvável a capacidade de Kate ao se sobressair em um elenco com vários titãs do cinema britânico. Sua Marianne Dashwood é dona de vários momentos interessantes do filme e a interpretação recebeu merecidas indicações no circuito de prêmios.

9. PECADOS ÍNTIMOS (2006): Não chega a ser um grande desempenho (das cinco atrizes indicadas ao Oscar em seu respectivo ano, era a que tinha o momento menos marcante), mas certamente merece figurar entre os mais interessantes da atriz. Kate encontrou o tom exato para a sua insatisfeita Sarah Pierce, que começa uma vida paralela nos braços de um amante. Ela, na realidade, é um dos tantos elementos que tornam o filme de Todd Field incômodo: a forma como Kate conduz sem qualquer vaidade a sua personagem em um subúrbio completamente problemático é essencial para a atmosfera proposta pelo diretor.

10. A VIDA DE DAVID GALE (2003): Subestimado suspense de Alan Parker, A Vida de David Gale é forte e intenso. O que falar, então, quando um ótimo elenco está a favor de um thriller como esse? Não bastasse a presença dos sempre ótimos Kevin Spacey e Laura Linney, o filme ainda conta com uma versátil Kate Winslet sendo eficiente como uma jornalista que investiga um crime muito duvidoso. Não é um desempenho marcante e sequer será lembrado por algumas pessoas (devo confessar que só está presente aqui para completar a lista), mas sua boa presença eleva o papel essencialmente banal, o que  já é motivo para certo destaque.

TOP 10: Julianne Moore

Depois de Meryl Streep, o Cinema e Argumento continua a sua série de TOP 10, agora com Julianne Moore. Ela que, pasmem, até hoje não tem Oscar ou sequer um Globo de Ouro, é uma atriz que, ao longo de sua diversificada carreira, sempre apresentou bons desempenhos. Mesmo quando cometia alguns deslizes – e eles não foram poucos (A Cor de Um CrimeOs Esquecidos) -, fazia questão de estar sempre muito à frente dos erros do filme em questão. Com 51 anos de idade, Moore é uma profissional versátil em suas escolhas: de telefilmes e séries até longas de ficção, do drama à comédia, merece atenção em tudo que faz. A seleção das interpretações que figurariam nesse TOP 10 foi feita rapidamente. O maior desafio, claro, foi ordená-las. Afinal, são tantas marcantes que fica difícil dizer que uma é melhor que outra. Mas já que o TOP 10 serve para isso, eis o meu ranking:

1. AS HORAS (2002): Dá um embrulho no estômago só de pensar que Gwyneth Paltrow foi considerada para o papel da complexa Laura Brown em As Horas. Ora, só uma atriz do calibre de Julianne Moore seria ideal para um papel forte como esse. Não só a atriz fez uma escolha magnífica ao participar do impecável longa de Stephen Daldry como também trouxe a melhor interpretação de todo o elenco. Deve ser um dos maiores absurdos dos últimos tempos o total descaso das premiações com esse desempenho sublime e que apresenta todas as qualidades e competências de Julianne Moore. Facilmente, o grande momento de sua carreira.

2. LONGE DO PARAÍSO (2002): Tenho essa teoria de que, na outra encarnação, Julianne Moore foi uma dona-de-casa dos anos 1950. Se não bastasse seu magnífico desempenho em As Horas como, justamente, uma mulher com esse perfil, eis que ela repete a dose em Longe do Paraíso. E os resultados, em termos de qualidade, são extremamente parecidos – mas os personagens nunca repetidos em suas composições. No filme dirigido por Todd Haynes, ela executa com a devida sutileza os pequenos detalhes desse papel extremamente contido. Outro momento marcante e subestimado dela.

3. VIRADA NO JOGO (2012): Da fase mais recente da atriz, essa é a atuação que mais impressiona. A TV, inclusive, pode ser a responsável por Julianne Moore finalmente ganhar seus primeiros prêmios: pelo telefilme da HBO, ela recebeu elogios incontestáveis por todo o mundo, o que a coloca como principal favorita para as próximas edições do Emmy, SAG e Globo de Ouro. E não tem como discutir. Como a polêmica republicana Sarah Palin, Moore foi além do perfeito mimetismo: ela transmitiu todo o emocional da personagem com uma habilidade de dar inveja. Digna de muitos aplausos.

4. ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (2008): Pior que ser indicada a prêmios e não vencer é sequer constar nas listas. E esse completo disparate aconteceu com a interpretação de Julianne Moore para Ensaio Sobre a Cegueira. Tudo bem que o filme de Fernando Meirelles foi recebido, injustamente, com muita frieza, mas isso não era motivo para deixar de celebrar esse intenso retrato de uma mulher enfrentando uma situação extremamente caótica e impensável. Forte e vulnerável, a “mulher do médico” incorporada por Moore impressiona em uma história que por si só já consegue abalar o espectador.

5. FIM DE CASO (1999): Estranho filme que encena uma lacrimosa história de amor onde o que mais emociona é a figura representada por Moore. Por esse trabalho, ela recebeu uma merecida segunda indicação ao Oscar – mas não tinha como concorrer com Hilary Swank, por Meninos Não Choram. De qualquer forma, a atriz esteve, mais uma vez, sublime, agora fazendo par com Ralph Fiennes. Tal resultado veio do grande interesse de Moore em fazer o papel: inicialmente, Miranda Richardson e Kristin Scott Thomas eram consideradas para o papel. O diretor Neil Jordan, entretanto, mudou de ideia após receber uma carta de Moore declarando seu total interesse pela adaptação.

6. MAGNÓLIA (1999): Milhares de atores nesse filme de Paul Thomas Anderson… E todos eles em bons momentos. Só que Moore, claro, foi além: além de alcançar um nível excelente, também impressionava toda vez que aparecia. Dona de um papel meio polêmico (a complicada jovem esposa de um homem muito mais velho que está morrendo de câncer), tem vários momentos memoráveis, em especial aquele que descarrega sua raiva quando compra remédios em uma farmácia. Sua Linda Partridge é apenas uma de tantas pequenas coadjuvantes que Julianne Moore elevou para um outro nível de grandeza.

7. BOOGIE NIGHTS – PRAZER SEM LIMITES (1997): Falar de papeis coadjuvantes na carreira de Julianne Moore e não mencionar Boogie Nights – Prazer Sem Limites é uma verdadeira heresia. Por esse filme, ela recebeu sua primeira indicação ao Oscar (e já merecia ter vencido logo de cara) como uma bela e popular atriz pornô que, entre vários dramas, disputa a guarda nos filhos na justiça. Assim como em Magnólia (sua segunda parceria com o diretor Paul Thomas Anderson), ela precisa disputar a atenção do espectador com centenas de personagens, mas consegue o feito de ter sempre os holofotes para si quando surge em cena. E isso é para poucas.

8. DIREITO DE AMAR (2009): Essa lógica de brilhar nos poucos momentos em que aparece foi repetida por Julianne Moore recentemente na sua breve – mas emotiva – participação no belo Direito de Amar. Como Charley, a melhor amiga do melancólico professor de literatura George Falconer (Colin Firth), ela teve a oportunidade de esbanjar a invejável beleza que tem para alguém de sua idade (e o diretor Tom Ford não seria bobo de ignorar isso), apresentar um impecável sotaque britânico e ainda fazer parte de uma das melhores cenas do filme em questão. Mais um desempenho subestimado entre tantos de sua carreira.

9. MINHAS MÃES E MEU PAI (2010): Julianne Moore foi injustamente ofuscada por sua colega Annette Bening nas premiações por Minhas Mães e Meu Pai. Tão boa quanto ela – e até melhor, arrisco dizer -, Moore é o coração desse filme de Lisa Cholodenko que, basicamente, é todo dos atores. Ao mostrar a vulnerabilidade de uma mulher que comete vários erros que colocam o seu casamento em risco, Moore utilizou todas suas conhecidas habilidades para transitar entre cenas cômicas e outras de cortar o coração (as discussões entre ela e Bening são verdadeiros destaques). Um trabalho bem sincero da atriz, que merecia ter sido celebrado na mesma proporção que o de sua colega.

10. SHORT CUTS – CENAS DA VIDA (1993): Chega a assustar a quantidade de bons atores que Robert Altman conseguiu reunir em Short Cuts – Cenas da Vida. E, em uma característica que se tornaria uma constante posteriormente em longas como MagnóliaBoogie Nights, Moore conseguiu roubar a cena em um grupo cheio de bons atores. Inclusive, uma cena dela em Short Cuts é considerada clássica: aquela em que a atriz, sem medo de fazer nu frontal, discute com o marido. Um papel bem pequeno mas que, em seus poucos momentos, é suficientemente intenso para marcar.

TOP 10: Meryl Streep

A Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos divulgou, neste domingo (20), um TOP 10 com as melhores interpretações de Meryl Streep. O ranking é resultado de uma votação dos próprios membros, que elencaram, por ordem de preferência, quais os seus desempenhos favoritos da mais recente vencedora do Oscar de melhor atriz. O Cinema e Argumento, como bom fã de Meryl, não poderia deixar de apresentar a sua seleção. Aproveito, também, para anunciar que o TOP 10 também será uma nova seção do blog. Confira aqui o top 10 da SBBC e fique, abaixo, com as nossas interpretações favoritas da atriz:

1. AS PONTES DE MADISON (1995): O terceiro Oscar já deveria ter vindo com essa impecável performance que é o maior momento da carreira de Meryl Streep. Não só o filme surpreende (afinal, é um Clint Eastwood submerso em emoções), como a própria atriz consegue se superar em um papel incrivelmente triste e marcante: a cena de Francesca Johnson segurando a maçaneta do carro na chuva já justifica qualquer elogio. Estranhamente, ela não ganhou prêmio algum por essa interpretação que não perde nada de sua intensidade através dos anos.

2. A ESCOLHA DE SOFIA (1982): Alguns gostam de dizer que esse é um trabalho superestimado de Meryl. Não vejo como possa ser. A total entrega da atriz ao papel da sofrida Sofia fica evidente em cada minuto do filme de Alan J. Pakula. Além da entrega física e da dedicação ao aprender alemão e polonês para compôr sua personagem, ainda precisamos ressaltar a sensibilidade de Meryl: em entrevista à Oprah Winfrey, ela disse que nunca teve coragem de rever a cena-título por ela ser dolorosa demais para qualquer mãe.

3. KRAMER VS. KRAMER (1979): Apesar de já ter alcançado visibilidade com O Franco Atirador, foi com Kramer vs. Kramer que Meryl despontou como uma grande promessa. Seu papel no filme de Robert Benton já chamaria atenção só por ser polêmico para a época (e, por que não, para os dias de hoje?), mas a atriz consegue fazer com que o espectador deixe a antipatia de lado e até se sensibilize com a vida indecisa de sua personagem. Um desempenho muito emotivo e que ajudou ajudou a carreira de Meryl a despontar de vez. Com todos os méritos, venceu seu primeiro Oscar.

4. O DIABO VESTE PRADA (2006): Ela já havia feito Ela é o Diabo e A Morte Lhe Cai Bem, mas foi com O Diabo Veste Prada que Meryl Streep também se firmou como uma grande atriz de comédias. Ora, ela é o total destaque de um filme extremamente pop, agradável em seu humor e com outras boas interpretações (Emily Blunt, Stanley Tucci). Anos-luz à frente de todos, Meryl fez com que a megera Miranda Priestly se tornasse uma de suas personagens mais emblemáticas. Com um olhar mortal e frases cortantes, é uma vilã que amamos odiar. Atuação simplesmente perfeita.

5. AS HORAS (2002): Interpretação mais subestimada do longa de Stephen Daldry. Ok, Nicole Kidman chama a atenção por interpretar uma figura real e Julianne Moore tem a presença mais intensa, mas Meryl tem uma figura totalmente calcada em sutilezas. Sem qualquer maquiagem ou alegoria, ela transmite todos os sentimentos da madura e insatisfeita Clarissa Vaughan com uma naturalidade absurda.  Além de ser a atriz que mais aparece no filme, consegue fazer bonito ao lado de seus colegas, principalmente quando divide a cena com Ed Harris em momentos arrebatadores. Emocionante.

6. A DAMA DE FERRO (2011): Dos desempenhos mais recentes de Meryl, esse é o mais importante. Tão importante que conseguiu superar um filme mal dirigido e que, a cada revisão, torna-se ainda mais sobre… Meryl. Impossível não associar A Dama de Ferro exclusivamente ao nome dela. Transitando com maestria por quase todas as fases da polêmica Margaret Thatcher, ela passa da vitalidade de uma mulher recém-chegada ao poder até os solitários dias em que alucina com seu falecido marido. Pelo papel, ganhou, merecidamente, o seu tão esperado terceiro Oscar. E conseguir isso com um filme ruim não é para qualquer atriz.

7. A MULHER DO TENENTE FRANCÊS: Por esse filme, Meryl foi consagrada pela primeira vez no BAFTA como melhor atriz, o que foi uma grande justiça. Aqui, ela interpreta dois papeis completamente diferentes em um filme que traz todo o já conhecido estilo britânico de fazer cinema. Alternando entre as personagens Sarah e Anna, ela tira essa variação de letra: são composições completamente distintas e com méritos específicos. A Mulher do Tenente Francês também teve cinco indicações ao Oscar.

8. SOB O DOMÍNIO DO MAL (2004): Um dos papeis coadjuvantes mais interessantes da carreira de Meryl. Aqui, a dubiedade de sua personagem (que está mais para a vilania mesmo), é o que traz grandes impressões. É uma atuação que, ao mesmo tempo que faz o espectador ser seduzido por essa personagem intrigante, também o afasta em função de seus segredos. O filme não é lá tão interessante, mas a atriz consegue se sobressair com esse desempenho pouco apreciado. Arrisco a dizer que ela é o melhor de Sob o Domínio do Mal.

9. DÚVIDA (2008): Como a neurótica irmã Aloysius Beauvier, Meryl arrebatou plateias e, inclusive, chegou a ser uma concorrente de respeito no Oscar de melhor atriz que foi parar nas mãos de Kate Winslet por O Leitor. A verdade é que, em Dúvida, ela lida com um papel extremamente difícil e antipático – o que é um grande obstáculo na história repleta de figuras que são justamente o oposto. Mas isso não é problema para Meryl que, assim como em O Diabo Veste Prada, conseguiu destilar veneno sem se tornar completamente detestável.

10. A DANÇA DAS PAIXÕES (1998): Esse filme é um belo trabalho não só de Meryl, mas também de todo o elenco (essencialmente feminino). Como Kate Mundy, ela faz o clássico papel da irmã mais rígida e insensível que parece não conseguir aproveitar os pequenos prazeres da vida. Apresentando um impecável sotaque irlandês, Meryl é uma importante engrenagem dessa história familiar que, em seus momentos finais, traz passagens emocionantes – e uma deles para a própria protagonista. Merecia mais atenção.

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