Cinema e Argumento

51º Festival de Cinema de Gramado #1: o que esperar do evento e da competição deste ano?

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Sem recursos da LIC, 51ª edição do evento gramadense é mais compacta. Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto.

O Tapete Vermelho já está estendido para o início do 51º Festival de Cinema de Gramado, que acontece hoje com a exibição dos filmes produzidos pelo Educavídeo, projeto que leva o fazer cinematográfico para as escolas municipais de Gramado. É uma pena que críticos e imprensa em geral não marquem presença nessa noite em que os jovens gramadenses se veem na tela do Palácio dos Festivais como qualquer outro cineasta que concorra ao Kikito. Digo isso porque há afeto de sobra nesse momento, e a diversão é garantida. Sem falar, claro, que é um grande incentivo para que, desde cedo, os alunos alimentem a curiosidade pelo cinema e pela cultura em geral. Ao todo, dez trabalhos serão exibidos nesta noite inteiramente dedicada ao Educavídeo.

Já amanhã, sábado, 12 de agosto, o Festival começa a todo vapor com a Mostra Gaúcha de Curtas promovida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul pela parte da tarde. Logo em seguida, Kleber Mendonça Filho se faz presente no evento para exibir o ainda inédito Retratos Fantasmas em caráter hors concours, abrindo a programação. Kleber, aliás, já exibiu todos os seus longas-metragens na Serra Gaúcha, algo de grande prestígio para o Festival. É um ponto muito positivo as sessões começarem às 17h30 porque, após Retratos Fantasmas, a mostra competitiva de longas começa com Angela, novo filme do diretor Hugo Prata. Isso sem falar nos curtas-metragens em competição, que sempre antecedem os longas. Haja fôlego!

No geral, o desafio é dos grandes, uma vez que a 50ª edição, realizada no passado, foi marcante do ponto de vista cinematográfico. Primeiro, pela própria qualidade dos filmes. Segundo, por marcos importantes, como a vitória de Noites Alienígenas, primeiro longa do Acre produzido para as salas de cinema. Por fim — e principalmente — pela admirável coesão entre os filmes brasileiros em competição, reconhecida pela imprensa como o retrato de “um Brasil em convulsão social”. Com a saída de Dira Paes da curadoria, Caio Blat assume a missão de selecionar os longas em competição ao lado de Marcos Santuario e Soledad Villamil.

Particularmente, minhas expectativas são baixas com a seleção deste ano, talvez pela falta de surpresas. Fabio Meira e Hugo Prata, que estrearam seus primeiros longas no evento, voltam a Gramado com Tia Virgínia e Angela, respectivamente. José Eduardo Belmonte que, no ano passado, exibiu O Pastor e o Guerrilheiro, também retorna, dessa vez com Uma Família Feliz. E há as vagas de cinebiografias ocupadas por Angela, baseado na vida de Angela Diniz, e Mussum, o Filmis, sobre a trajetória do eterno trapalhão-título. Como no ano passado, minha curiosidade fica com os “estreantes”: Eva Pereira com O Barulho da Noite e Petrus Cariry com Mais Pesado é o Céu. Também aposto minhas fichas em Tia Virgínia porque acho As Duas Irenes, trabalho de estreia do diretor Fabio Meira, uma pérola, além de ser estrelado por um trio talentoso de atrizes: Vera Holtz, Arlete Salles e Louise Cardoso.

Realizada sem recursos da LIC após o evento não ter sido contemplado pelo Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul, a 51ª edição do Festival de Cinema de Gramado é, no geral, mais compacta, inclusive com a exclusão da mostra competitiva de longas estrangeiros, presente no evento desde 1992. As homenagens, no entanto, seguem acontecendo, pela primeira vez consagrando apenas mulheres: Lea Garcia e Laura Cardoso recebem o Troféu Oscarito, Lucy Barreto fica com o Troféu Eduardo Abelin, Alice Braga leva para casa o Kikito de Cristal e Ingrid Guimarães é reverenciada com o Troféu Cidade de Gramado. A programação completa do evento, assim como detalhes de todos os filmes em competição, pode ser conferida em www.festivaldegramado.net.

Rapidamente: “Elementos”, “Holy Spider”, “Super Mario Bros.” e “Viver”

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Bill Nighy recebeu sua primeira indicação ao Oscar por Viver.

ELEMENTOS (Elemental, 2023, de Peter Sohn): Do ponto de vista visual e tecnológico, Elementos exigiu um esforço descomunal da Pixar. Foram mais de 150 mil tons de cores utilizados na paleta, o que exigiu do estúdio novos computadores para a produção. É um número impressionante se compararmos, por exemplo, com o clássico Toy Story, que contabiliza apenas 294 tons. O resultado é perceptível na tela, muito em função da extensa gama de universos que coexistem na trama, com foco nos personagens de fogo, inspirados na vida do próprio diretor Peter Sohn, que se mudou da Coréia para os Estados Unidos sem falar uma palavra sequer em inglês. Esteticamente, trata-se mesmo de uma festa para os olhos — talvez mais pela quantidade de personagens e cenários do que pelo conceito em si —, o que sustenta bastante o entretenimento diante de uma história sem grandes insights. Falta tempero ao clássico conflito envolvendo dois personagens de universos opostos que criam um laço afetivo para desgosto dos pais e das tradições. Os protagonistas são simpáticos e o modo como Elementos brinca com o cruzamento entre dois mundos também, mas o roteiro escrito pelo trio Brenda Hsueh, John Hoberg e Kat Likkel é plano ao lidar com dilemas que a própria Pixar já explorou um sem número de vezes vezes. E o fato de Peter Sohn não ser um diretor exatamente inventivo deixa Elementos limitado à escala do apenas simpático.

HOLY SPIDER (idem, 2022, de Ali Abbasi): Na cidade iraniana de Mashad, prostitutas começam a ser assassinadas, e a suspeita é a de que há um serial killer metódico envolvido nos crimes. Intrigada pela situação, uma destemida repórter (Zar Amir Ebrahimi, premiada como melhor atriz no Festival de Cannes por seu desempenho) viaja até o local para escrever sobre o caso e abraça a investigação munida de fortes convicções e posicionamentos, a ponto de se envolver mais do que o esperado em todo o enredo. Holy Spider, portanto, nos dá a ideia de esse será o centro da trama, inclusive porque seria o ponto de vista natural para um filme que se propõe a abordar a misoginia. Não é o que acontece porque o diretor e roteirista Ali Abbasi opta por dar imenso enfoque ao fanático religioso vivido por Mehdi Bajestani, descortinando em pouco tempo a identidade do serial killer e seu modo de operar. Apesar da discussão envolvendo o fanatismo religioso funcionar, a questão sobre misoginia e a forma como aquela população em específico trata as mulheres acaba ficando em segundo plano. A falta de equilíbrio entre duas tramas paralelas prejudica Holy Spider e evidencia a falta que uma diretora mulher faz na cadeira de direção, principalmente na escrita do roteiro, afinal, é um tanto quanto inexplicável o escanteamento de uma personagem feminina que tinha muito mais a dizer em todos os sentidos.

SUPER MARIO BROS. – O FILME (The Super Mario Bros. Movie, 2023, de Aaron Horvath, Michael Jelenic e Pierre Leduc): A incursão da Nintendo na produção de longas-metragens vem quebrando recordes. Somente até a data de publicação deste texto, Super Mario Bros. – O Filme já se tornou a terceira maior bilheteria para uma animação no mundo, algo perfeitamente compreensível se considerarmos o capital nostálgico de um personagem que marcou incontáveis gerações, sejam elas gamers ou não. Não é diferente comigo: muito da minha infância girou em torno das versões de Super Mario World e Super Mario Kart para o Super Nintendo, garantindo a minha cota de afeto para um filme que, justamente por ser baseado em um verdadeiro hit, tinha desafios de mesmas proporções. Não que a adaptação careça de carisma ou fan service, mas falta história mesmo no roteiro escrito por Matthew Fogel. Há também fragilidades difíceis de esconder, como a participação de Luigi, inicialmente colocado em pé de igualdade no protagonismo com Mario para depois praticamente ser esquecido pela trama, ainda que a missão central seja seu resgate. Reconheço, entretanto, que a nostalgia bate de maneiras muito diferentes no público e que ela pode ser um fator decisivo na apreciação da obra. Como os números vem provando, Super Mario Bros. acertou em cheio ao apostar nela. Colorido, acelerado e com várias tiradas, o filme capta bem o espírito do game ao mesmo tempo em que evidencia uma possível franquia, mas muito ainda a ser amadurecido em termos de narrativa.

VIVER (Living, 2022, de Oliver Hermanus): Sem ter visto o longa de 1952 dirigido por Akira Kurosawa, conferi Viver impossibilitado de tecer comparações com a obra original, o que, às vezes, costuma ser uma bênção. Devo conferir em breve o trabalho de Kurosawa para quitar essa dívida, mas o que posso dizer é que o remake dirigido pelo cineasta sul-africano Oliver Hermanus tem seu maior trunfo na interpretação do grande Bill Nighy. Ele interpreta um personagem conhecido como sr. Williams, funcionário público de Londres que busca manter a ordem em uma montanha de trabalhos burocráticos. Sobrecarregado e solitário em casa, ele recebe um diagnóstico médico que lhe dá pouco tempo de vida pela frente. O conflito em questão já foi explorado de mil e uma maneiras pelo cinema, e não é como se essa refilmagem propusesse algo de novo 70 anos após o lançamento do longa original. Só que Bill Nighy é um legítimo representante do que existe de melhor nos intérpretes britânicos, das sutilezas ao minimalismo, e evita tratar o protagonista como uma grande vítima do destino, mas sim de suas próprias escolhas e de um instransponível jeito de ser. Se o trabalho vocal já chama a atenção — Nighy fala baixíssimo, revelando um protagonista em constante autorrepressão —, Viver ainda dá ao ator momentos de “vá lá e brilhe”, como quando ele canta “The Rowan Tree” em uma noite boêmia. Vale, entretanto, o aviso: boa parte do que conhecemos do personagem vem da maneira como outros o enxergam em casa ou no trabalho, o que causa uma certa frustração por não vermos mais de Nighy e, principalmente, pelo remake nem sempre acertar no equilíbrio entre as perspectivas que formam o protagonista.

Os vencedores do Oscar 2023

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Redenção, reconhecimento e comeback: o quarteto de atores vencedores do Oscar 2023.

Quando conferi Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo pela primeira vez, jamais imaginei que o filme de Daniel Kwan e Daniel Scheinert chegaria tão longe ao ponto de conquistar nada menos do que sete Oscars. Por mais que Parasita tenha descortinado oportunidades, estamos falando de um longa-metragem frenético sobre o conceito de multiversos e que mistura uma série de gêneros, entre eles, a comédia, que nem sempre é levada a sério pela Academia. Que bela surpresa, portanto, ver o Oscar de peito aberto a uma experiência como essa, mostrando que, apesar de tropeços feios aqui e ali com Green Book, por exemplo, os votantes não estão mais tão reféns de velhos paladares. Se você gosta ou não do filme é outra história. O importante aqui é ver o que a sua consagração significa para um prêmio que tenta se renovar há anos.

Bato na tecla da relevância da vitória porque detratores de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo clamam como injustiça a derrota de TárOs Fabelmans, curiosamente filmes elogiados como “sérios”, “adultos” e “maduros” quando, na verdade, estão mais para a vertente nichada e de pouca reverberação que a crítica tanta costuma questionar em diversos vencedores do Oscar. Não há como negar o sucesso de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, muito menos a recepção positiva desde o seu lançamento em março de 2022, garantindo quase um ano de estrada para o filme até a noite do Oscar. O longa ainda garantiu outro lindo feito: o de premiar Michelle Yeoh como melhor atriz. Uma atriz oriental vencendo a estatueta como uma heroína de ação com traços cômicos e dramáticos? É um sopro de luz em uma categoria tão viciada nas maquiagens e mímicas de cinebiografias, começando por Jessica Chastain com Os Olhos de Tammy Faye no ano passado.

A cerimônia esteve repleta de discursos emocionantes. Alguns já esperados, como o de Brendan Fraser e Ke Huy Quan, premiados como melhor ator e ator coadjuvante, respectivamente. Outros genuínos em suas surpresas, a exemplo de Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) em melhor atriz coadjuvante, que homenageou o chamado cinema de “gênero” tão fundamental na sua carreira e, claro, seus pais, os atores Tony Curtis e Janet Leigh, nunca premiados com o Oscar. A noite também valeu pela vitória de Sarah Polley em roteiro adaptado com Entre Mulheres, principalmente porque Polley já começou o discurso agradecendo à Academia por não ter se intimidado com um filme que tem womentalking no título original.

Há mais amor do que equívocos no Oscar 2023 (será que Nada de Novo Front precisava realmente ter vencido quatro estatuetas enquanto outros vários filmes saíram de mãos abanando?), e o quarteto de atores vencedores prova isso: para todos, a consagração é um retorno, um abraço uma saudação após vários episódios de sofrimento, preconceito e esquecimento na indústria. Isso me comove e faz com que a edição do Oscar 2023 fique na minha memória como uma das mais coerentes e sentimentais dos últimos anos. 

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILMETudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
MELHOR DIREÇÃO: Daniel Kwan e Daniel Scheinert (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
MELHOR ATRIZ: Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
MELHOR ATOR: Brendan Fraser (A Baleia)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALTudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
MELHOR ROTEIRO ADAPTADOEntre Mulheres
MELHOR FILME INTERNACIONALNada de Novo no Front (Alemanha)

MELHOR DOCUMENTÁRIONavalny
MELHOR ANIMAÇÃOPinóquio por Guillermo del Toro
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Nada de Novo no Front

MELHOR FOTOGRAFIANada de Novo no Front
MELHOR FIGURINO: Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
MELHOR MONTAGEMTudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
MELHOR SOMTop Gun: Maverick
MELHOR TRILHA SONORA: Nada de Novo no Front
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Naatuu Naatu” (RRR: Revolta, Rebelião, Revolução)
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: A Baleia
MELHORES EFEITOS VISUAISAvatar: O Caminho da Água
MELHOR CURTA-METRAGEMAn Irish Goodbye
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃOThe Boy, the Mole, the Fox and the Horse
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIOThe Elephant Whisperers

Apostas para o Oscar 2023

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O jogo ainda está aberto em muitas categorias do Oscar 2023. Se parece extremamente improvável que Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo não leve o prêmio principal — vale lembrar que o filme de Daniel Kwan e Daniel Scheinert ganhou todos os principais sindicatos da temporada —, categorias como a de melhor atriz, ator e atriz coadjuvante serão definidas voto a voto, pois não há franco favoritismo e vários dos indicados ostentam uma narrativa para justificar a vitória. A Academia se renderá, por exemplo, ao “comeback” de Brendan Fraser em A Baleia ou negará a estatueta ao ator assim como negou a Mickey Rourke por O Lutador? Cate Blanchett conseguirá tão ligeiro um terceiro Oscar com Tár ou Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo impulsionará a vitória de Michelle Yeoh? E como cravar uma aposta convicta entre Kerry Condon (Os Banshees de Inisherin), Angela Bassett (Pantera Negra: Wakanda Para Sempre) e Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) em atriz coadjuvante? Escolha qualquer um desses cenários e você terá belas justificativas para o seu bolão.

A indefinição segue nas categorias técnicas, especialmente após a grande performance de Nada de Novo no Front no BAFTA e na própria lista de indicados ao Oscar. O filme da Netflix tem fôlego, por exemplo, para tirar o Oscar tão certo de roteiro adaptado para Sarah Polley (Entre Mulheres), assim como pode desbancar Top Gun: Maverick em melhor som e garantir com folga a categoria de fotografia. A matemática dos prêmios técnicos pode fazer com que determinados longas saiam de mãos abanando, entre eles, Os Fabelmans — ou será que a Academia dará, por exemplo, um novo Oscar para o compositor John Williams depois de quase três décadas, naquela que é, possivelmente, a sua última indicação ao Oscar? Nada parece impossível no Oscar 2023, a não ser, claro, o prêmio de melhor filme para Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo e o de ator coadjuvante para Ke Huy Quan pelo mesmo filme. Em uma temporada que tantos prêmios eram dados como garantidos, como o de Cate Blanchett por Tár, isso é, no mínimo, muito empolgante. Por mais temporadas assim!

Confira abaixo apostas para todas as categorias: 

MELHOR FILME: Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo / alt: Nada de Novo no Front
MELHOR DIREÇÃO: Daniel Kwan e Daniel Scheinert (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) / alt: Steven Spielberg (Os Fabelmans)
MELHOR ATRIZ: Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) / alt: Cate Blanchett (Tár)
MELHOR ATOR: Brendan Fraser (A Baleia) / alt: Austin Butler (Elvis)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Kerry Condon (Os Banshees de Inisherin) / alt: Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) / alt: Barry Keoghan (Os Banshees de Inisherin)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo / alt: Os Banshees de Inisherin
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Entre Mulheres / alt: Nada de Novo no Front
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Nada de Novo no Front (Alemanha) / alt:  Argentina, 1985 (Argentina)

MELHOR DOCUMENTÁRIO: Navalny / alt: All the Beauty and the Bloodshed
MELHOR ANIMAÇÃO: Pinóquio por Guillermo del Toro / alt: Gato de Botas 2: O Último Pedido
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOBabilônia / alt: Elvis

MELHOR FOTOGRAFIANada de Novo no Front / alt: Elvis
MELHOR FIGURINO: Elvis / alt: Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
MELHOR MONTAGEM: Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo / alt: Top Gun: Maverick
MELHOR SOM: Nada de Novo no Front / alt: Top Gun: Maverick
MELHOR TRILHA SONORA: Babilônia / alt: Os Fabelmans
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Naatuu Naatu” (RRR: Revolta, Rebelião, Revolução) / alt:  “This is Life” (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: Elvis / alt: A Baleia
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Avatar: O Caminho da Água / alt: Top Gun: Maverick
MELHOR CURTA-METRAGEM: An Irish Goodbye / alt: Le Pupille
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: The Boy, the Mole, the Fox and the Horse / alt: The Flying Sailor
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: The Elephant Whisperers / alt: Haulout

Rapidamente: “Bardo”, “Os Fabelmans”, “Império da Luz” e “Nada de Novo no Front”

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Em Império da Luz, Olivia Colman busca conferir camadas a uma protagonista bastante irregular.

BARDO, FALSA CRÔNICA DE ALGUMAS VERDADES (Bardo, Falsa Crónica de Unas Cuantas Verdades, 2022, de Alejandro G. Iñárritu): Criticar o estilo de um cineasta vale até certo ponto. Afinal, do que adianta, por exemplo, seguir “acusando” Baz Luhrmann de “exagerado” quando ele sempre o foi em cada um de seus longas? O mesmo é válido para a filmografia do mexicano Alejandro G. Iñárritu, diretor frequentemente rotulado de ególatra, vaidoso, maneirista e ávido por aparecer mais do que a própria história. A meu ver, das duas uma: paramos de ver seus filmes porque eles não nos apetecem ou tentamos compreender de que forma o estilo do diretor contribui ou não para o relato em questão. Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades performou muito abaixo do esperado junto a público e crítica porque, talvez, seja o filme de Iñárritu que mais pese a mão em simbologias, sonhos e metáforas regados a uma pluralidade de ângulos, enquadramentos e movimentos de câmera super estilizados. Se isso um dia já lhe rendeu dois Oscars de direção consecutivos (Birdman e O Regresso), hoje parece distanciar o espectador de vez. Contudo, tratando-se de um filme amplamente inspirado em memórias e sentimentos de Iñárritu, não vejo como ele poderia fazer diferente. À parte essas questões, é interessante, por exemplo, a conversa entre pai e filho sobre identidade a partir da imigração deles próprios do México para os Estados Unidos. Já outros momentos soam repetitivos até para os moldes do diretor, como o diálogo sobre arte, sucesso e fracasso no terraço de uma festa. A longa duração de 159 minutos amplifica fragilidades e acertos, além de afetos e desafetos para com o filme. Goste-se ou não, o que ninguém pode dizer é que, com Bardo, Iñárritu se desvirtuou ou deixou de ser fiel ao seu próprio cinema.

OS FABELMANS (The Fabelmans, 2022, de Steven Spielberg): Era questão de tempo para que Steven Spielberg fizesse um filme sobre sua juventude e, principalmente, sobre como o cinema foi fundamental para a sua formação como profissional e ser humano. Não por modismo, já que há uma onda de diretores dedicados a revisitar suas vidas ou a fazer homenagens ao cinema — James Gray com Armageddon Time, Damien Chazelle com Babilônia, Sam Mendes com Império da Luz —, mas porque Os Fabelmans é um projeto muito antigo de Spielberg. E o longa reforça o afeto do consagrado por contar histórias e mostrar como não só Spielberg se descobriu do ponto de vista pessoal e profissional como também aprendeu a compreender a sua família e as pessoas a sua volta a partir do cinema. No seu primeiro roteiro desde A.I.: Inteligência Artificial, de 2001, ele volta ao passado pincelando outras questões importantes na sua formação: a relação com os pais, a origem judaica, a desmistificação do cinema como mero hobby, o primeiro e inusitado amor… Tudo é muito bem equilibrado, com uma atmosfera calorosa e personagens interpretados por atores perfeitamente escalados, do protagonista-revelação Gabriel LeBelle aos pais vividos por Michelle Williams e Paul Dano. As emoções genuínas de Os Fabelmans garantem um filme mais universal e menos nichado, algo bastante positivo, mesmo que, por vezes, o conjunto parece linear demais, sem a palpável efervescência de Amor, Sublime Amor, longa anterior de Spielberg. Também não deixa de ser um coming of age de alguém que olha para o seu passado sem julgamentos, e sim com compreensão e generosidade, como deveria acontecer com todos nós.

IMPÉRIO DA LUZ (Empire of Light, 2022, de Sam Mendes): Tenho mil restrições com o termo Oscar bait, comumente usado para se referir a filmes que parecem ter sido feitos para ganhar o Oscar. Não só acho complicado acreditar que estúdios ainda sejam guiados por esse tipo de encomenda com tanta frequência como já não é mais tão fácil prever as escolhas da Academia de Ciências Cinematográficas de Hollywood, que, de um ano para o outro, premia Green Book e Parasita, títulos extremamente opostos em qualquer ângulo. Não vejo, entretanto, outra forma de definir Império da Luz, o primeiro filme de Sam Mendes após as inúmeras consagrações de 1917. Tudo começa já no roteiro escrito por ele próprio, que mistura uma série de temas sem conseguir aprofundá-los, da homenagem às salas de cinema a transtornos mentais. Em determinada altura, Mendes também tenta versar sobre racismo ao introduzir uma história de amor protagonizada por um casal sem química. Nada se conecta, ao ponto de ninguém conseguir elevar o resultado — e, considerando nomes como Roger Deakins na fotografia e a dupla Trent Reznor e Atticus Ross na trilha sonora, isso não é pouca coisa. O peso maior acaba nas costas da protagonista Olivia Colman, que, sozinha, busca construir texturas para uma personagem bastante irregular em termos de roteiro. Lançado em dezembro nos cinemas estadunidenses para se posicionar como um candidato ao Oscar, Império da Luz foi silenciosamente ignorado por público e crítica. Mesmo descontando as expectativas criadas em função dos talentos reunidos e a efetividade de um belo teaser, não é difícil entender o porquê.

NADA DE NOVO NO FRONT (All Quiet on the Western Front, 2022, de Edward Berger): Ao contrário do que estamos acostumados a ver em muitos filmes de guerra, não há momentos heroicos e gloriosos em Nada de Novo no Front. Para falar bem a verdade, o patriotismo efervescente dos personagens vai por água abaixo logo que eles entram nas trincheiras e compreendem que todo aquele horror é um caminho sem volta. A proposta do diretor Edward Berger é mais do que traçar um retrato hiper-realista da guerra: ele quer colocar o espectador na pele dos personagens, seja através da assombrosa e retumbante trilha sonora de Volker Bertelmann ou por meio de pesadas cenas de confronto entre os soldados da Primeira Guerra Mundial. E consegue. Nada de Novo no Front impacta desde o primeiro momento em que jovens garotos, antes tão ávidos por defender sua nação, colocam o pé no campo de batalha com imenso espanto. A parte técnica tem papel fundamental, mas o acerto está mesmo nessa ideia de mostrar a vida suja, insalubre e traumatizante de pessoas comuns que se dão conta da terrível realidade a qual estão submetidas. Aqueles que não simpatizam com o filme citam obras desde Vá e Veja até 1917 para defender a tese de que Nada de Novo Front não passa de mais do mesmo no gênero. Acontece que, quando ainda precisamos testemunhar países como Rússia e Ucrânia travando batalhas descabidas, obras como essa são muito pertinentes, pois nos lembram que nunca há vencedores em guerras, apenas dolorosas destruições que, no final das contas, sequer passam perto daqueles que, confortáveis, estão tomando todas as decisões com apenas uma caneta na mão.