Cinema e Argumento

Das páginas para as telas, “Fim” medita sobre a vida a partir da morte e é excelente adaptação de Fernanda Torres para seu próprio romance

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Dez anos separam o lançamento do livro Fim e a estreia de sua versão para o audiovisual. Há várias alterações na adaptação, e elas sempre preservam a essência da obra original.

Lembro de ler Fim, romance de estreia da atriz Fernanda Torres, com grande deslumbre. À época, mais especificamente no ano de 2013, Fernandinha já havia se provado o suficiente, seja com suas consagrações como intérprete, aventurando-se na escrita de roteiros como o de Redentor ou trabalhando sua escrita observadora e apurada em crônicas assinadas para o jornal Folha de São Paulo e para as revistas Piauí e Veja Rio. Só que escrever um romance é uma história completamente diferente e, por que não, uma ambição que poderia descambar para um mero capricho. Isso se não estivéssemos falando de Fernanda Torres. Fim não só alcançou o status de best seller com centenas de milhares de cópias vendidas como ganhou um prêmio Jabuti, o mais prestigiado do mercado brasileiro. Ou seja, ela, mais uma vez, provava ser imparável e uma das nossas artistas mais múltiplas em atividade.

Dez anos depois, o raio volta a cair no mesmo lugar com a adaptação de Fim para uma minissérie estruturada em dez episódios, todos também escritos por ela. Ser uma boa adaptação por si só já seria o bastante, pois o romance homônimo tem uma estrutura narrativa tão única e uma condução tão própria de Fernanda para o formato literário que o transpor para o audiovisual seria um desafio difícil de resolver. Como roteirista, entretanto, sua opção foi das mais sábias e desprovidas de vaidade, dispensando o zelo excessivo com material original para a escritora dar lugar à roteirista. Ao longo de seus episódios, Fim traduz na tela a vocação folhetinesca e rodrigueana de sua premissa com linguagem própria, não deixando vestígios de traços literários ou algo similar. É uma adaptação com várias alterações em formato, mas preservando o frescor de sua essência.

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Fábio Assunção e Marjorie Estiano são Ciro e Ruth, um dos tantos casais em transformação que Fim explora a partir de idas e vindas no tempo.

A narrativa deixa de ter um personagem como foco a cada episódio para misturar todos eles com idas e vindas no tempo, além de uma adição mais do que acertada: as mulheres em pé de igualdade com os homens, o que garante que a versão em minissérie de Fim tenha como norte as relações afetivas vividas por Ciro, Neto, Álvaro, Ribeiro e Silvio, o quinteto de boêmios cariocas que, ao atravessar décadas a partir dos anos 1960, experimenta todas as surpresas e transformações inerentes à vida como a conhecemos. O roteiro é exitoso em muitos aspectos, a começar pela notável habilidade em transitar entre pelo menos uma dezena de personagens e diferentes linhas temporais sem causar confusão. Pelo contrário. As diversas portas abertas por Fim só colaboram para sublinhar a proposta de falar sobre a vida por meio da morte e, principalmente, sobre o que fazemos (ou deixamos de fazer) com a irrefreável passagem do tempo. 

Não há como assistir à minissérie sem tentar se encontrar em algum daqueles personagens — ou melhor, em algum daqueles pares (trios?). Do casal apaixonado e fiel até a morte de um deles, passando por outro que desconstrói a ideia de que a vida finalmente entra nos trilhos após o casamento, ao mulherengo convicto e independente que abandona a mulher e os filhos para viver como sempre bem entendeu, Fim nos lembra de que não existem modelos certos ou errados de relacionamentos e que, na verdade, são as nossas decisões em torno deles que moldam boa parte de quem nos tornamos. Nesse sentido, o vai e vem entre os diferentes tempos jamais se apresenta como mera muleta para revelar segredos ou montar uma intrincada ciranda de afetos, e sim como uma excelente ferramenta dramática, pois ao encontrarmos os personagens já envelhecidos, decadentes ou à beira da morte, a experiência de vê-los tão jovens, vivos e otimistas se torna no mínimo agridoce.

Sob o comando dos diretores Andrucha Waddington e Daniela Thomas, o elenco reflete a harmonia da minissérie como um todo. Na realidade, é um verdadeiro prazer acompanhar a diversidade de talentos e instintos de intérpretes tão diferentes e complementares entre si. Como Ciro e Ruth na juventude, Fábio Assunção e Marjorie Estiano esbanjam carisma para, com o passar dos anos, mergulharem nas dores e frustrações de um casal diante do desmoronamento do seu castelo de conto de fadas. Já na pele de Neto e Célia, Heloísa Jorge e David Junior traduzem o afeto, mas também a firmeza, de quem mostra que, sim, o “felizes para sempre” é possível quando tudo é conversado às claras. Por outro lado, Thelmo Fernandes, como o tragicamente ingênuo Álvaro, e Debora Falabella, dando vida à uma afiada Irene, mostram os machucados e desencontros de duas pessoas unidas por mera pressão das convenções da época. Por fim, enquanto Emilio Dantas captura a eterna falta de perspectiva afetiva de Ribeiro, Bruno Mazzeo (em seu melhor momento) e Laila Garin são ótimos ao contrastar as diferenças de duas pessoas com visões de mundo muito diferentes e que só concordam em discordar sobre a forma como enxergam a vida e suas responsabilidades.

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Destaque dado a personagens femininas garante que Fim não seja celebração masculina em épocas marcadas pelo machismo normalizado.

Além de dividir a direção dos episódios com Daniela Thomas, Andrucha Waddington ficou a cargo de toda a concepção artística de Fim, uma missão árdua, tendo em vista as várias décadas contempladas, o fato de o elenco permanecer o mesmo durante toda trama e o próprio tom a ser empregado diante de um material amplo em sentimentos e personagens. Para isso, ele se utiliza de uma parte técnica primorosa que também captura em detalhes o bairro de Copacabana ao longo dos anos. A direção de arte assinada por Kiti Duarte e Rafael Cabeça, por exemplo, é meticulosa na reconstituição de época, assim como a trilha sonora de Gabriel Ferreira e do mestre Antonio Pinto cadencia os diferentes gêneros explorados com temas nada óbvios, como aquele marcante que encerra cada um dos capítulos. Andrucha concebe Fim artisticamente garantindo a alternância de fases da trama sem artificialismos, e isso é muito importante, pois evita distrações e garante fluidez na maneira como a minissérie contextualiza o espectador.

Aos 32 anos, tenho a felicidade de preservar grandes amigos, e Fim me pega muito nesse aspecto. Além de encenar os momentos de festa e diversão experimentados por Ciro, Álvaro, Neto, Silvio e Ramiro, a história coloca os amigos em conflito com a finitude de suas juventudes, de seus laços e, claro, de suas vidas. Por que um deixou esse plano antes do outro? Quem será o próximo? Em que momento eles deixaram de ser incansáveis foliões para se tornarem dependentes de remédios? Como a vida foi distanciando pessoas que um dia já foram tão íntimas? Impossível não se colocar no lugar deles — e no de suas esposas e namoradas, figuras essenciais para que Fim não seja a celebração de homens em uma época de machismo normalizado, mas sim daquilo que Fernanda Torres chama de “epitáfio do macho”. Se realmente não houver outra vida, eles todos se deparam com a conclusão aterradora de que certos erros nunca poderão ser consertados e de que biografias não podem ser reescritas. O que resta é, parafraseando a canção “Divino Maravilhoso”, seguir atento e forte, sem medo de temer a morte — porque, afinal, ao contrário do que diz Álvaro em uma das cenas mais bonitas de Fim, ela deveria, sim, ensinar alguma coisa a todos nós.

“Assassinos da Lua das Flores” traz olhar mais íntimo de Martin Scorsese para um importante registro histórico

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Direção: Martin Scorsese

Roteiro: Eric Roth e Martin Scorsese, baseado no livro “Killers of the Flower Moon: The Osage Murders and the Birth of the FBI”

Elenco: Leonardo DiCaprio, Robert De Niro, Lily Gladstone, Jesse Plemons, Tantoo Cardinal, Cara Jade Myers, Janae Collins, William Belleau, Jillian Dion, Jason Isbell, John Lithgow, Brendan Fraser, Scott Shepherd

Killers of the Flower Moon, EUA, 2023, Drama/Policial, 206 minutos

Sinopse: Na virada do século 20, o petróleo trouxe uma fortuna para a nação Osage, que, da noite para o dia, tornou-se uma das mais ricas do mundo. A riqueza desses nativos americanos atraiu imediatamente intrusos brancos, que manipularam, extorquiram e roubaram dinheiro Osage antes de recorrerem a assassinatos.

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Não é um whodunit, e sim um who-didn’t-do-it. Nas palavras do próprio diretor Martin Scorsese, Assassinos da Lua das Flores não coloca o espectador na busca pela identidade de quem teria cometido uma série de crimes contra a nação Osage, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1920. A tragédia foi tamanha que o filme sabiamente dispensa o mistério para refletir sobre a moralidade (ou a falta dela) através de um recorte em que o crime é dado como hábito. O difícil mesmo é descobrir quem não está por trás de uma conspiração em busca de território, fortuna e poder que, como tantas outras, expõe as cicatrizes da formação dos Estados Unidos como nação.

Baseado no livro homônimo de David Grann, Assassinos da Lua das Flores poderia ser, em linhas gerais, um clássico policial com a marca de Scorsese. Entretanto, o cineasta vem munido de grande sensibilidade ao equilibrar uma áurea épica com as jornadas íntimas dos personagens. Para chegar neste equilíbrio, uma mudança de perspectiva foi fundamental: aquela proposta por Leonardo DiCaprio de que o roteiro não fosse focado, como inicialmente escrito, na investigação dos crimes pelos olhos de um xerife, e sim na vivência de quem abraçou e perpetuou a violência contra a nação Osage.

Ao concordar com a ideia de DiCaprio, o roteirista Eric Roth e o próprio Scorsese tecem uma trama protagonizada por figuras conflituosas, afinal, os crimes eram arquitetados, majoritariamente, por homens que se casavam com as mulheres herdeiras da fortuna adquirida a partir da descoberta de petróleo nos territórios Osage. De explosivos implantados em pontos estratégicos a um esquema médico que envolvia injeções adulteradas de insulina, os métodos variavam conforme conveniência de cada golpe, e são vistos no filme a partir da relação entre Ernest (DiCaprio), que é envolvido pelo tio William Hale (Robert De Niro) no esquema, e Mollie (Lily Gladstone), que vê a sua comunidade ameaçada diante dos crimes.

A alternância entre o corrompimento de Ernest e o contido desespero de Mollie é o que faz de Assassinos da Lua das Flores o trabalho mais instigante entre os lançados por Scorsese nos últimos anos. As características que lhe tornaram Scorsese seguem presentes, mas com outro ritmo, outra atmosfera. Por sinal, ainda que tenha custado mais de 200 milhões de dólares, o projeto é comedido em escala, seja ela a técnica ou a emocional, como podemos perceber na trilha sonora de Robbie Robertson, sutil até mesmo quando precisa criar algum sentimento de tensão, e no excelente elenco, com destaque para a interpretação econômica e ao mesmo tempo muito contundente de Lily Gladstone, que rouba o filme para si toda vez que entra em cena, e para Robert De Niro, que se equilibra habilmente entre o verdadeiro caráter de seu personagem e o que ele busca transparecer para a sociedade.

São mais de três horas de projeção que o diretor conduz com admirável unidade, o que nem sempre costuma acontecer, como é possível constatar em O Irlandês, seu trabalho anterior. Isso talvez venha de um perceptível afeto de Scorsese pelo romance original, que também foi cotado para adaptação por diretores como JJ Abrams e George Clooney. Difícil imaginar outra pessoa contando essa história, mesmo que ela, inevitavelmente, seja frequentemente mais inclinada para abordagens já conhecidas de Scorsese com seus personagens masculinos gananciosos do que para de fato uma inédita representatividade temática. À parte isso, Assassinos da Lua das Flores é, sim, um dos filmes imperdíveis do ano.

Três atores, três filmes… com Henrique Perez

treshperezHenrique e eu temos algumas coisas em comum — ambos somos, por exemplo, jornalistas com experiência em assessoria de imprensa, produção de conteúdo e gestão de redes sociais, além, claro, de cultivarmos um profundo amor pelo cinema —, mas a que mais me marca é o imenso carinho que compartilhamos por atrizes, sejam elas brasileiras, de língua inglesa ou de qualquer parte do mundo. Por isso, não foi nenhuma surpresa encontrar em sua seleção escolhas preciosas e que trazem uma diva como a eterna e insubstituível Marília Pêra, uma veterana britânica que brilha em uma franquia de cifras bilionárias e uma estadunidense que, mesmo prolífera e versátil, ainda está por receber seu devido reconhecimento. Todas com desempenhos aqui lembrados por meio do olhar sempre sensível de um cinéfilo repleto de afeto pela arte de interpretar. 

Marília Pêra (Pixote: A Lei do Mais Fraco)
A performance de Marília Pêra em Pixote: A Lei do Mais Fraco, de Héctor Babenco, possui uma reputação que transcende o filme e sobre a qual eu ouvi durante muitos anos antes de finalmente assisti-la. Qual foi a minha surpresa, quando ao ver o filme, não vi Marília na primeira hora e meia de exibição. Como uma performance que mal aparece no filme poderia ser tão famosa, tão lembrada, tão premiada? Mas eis que na meia hora final chega Marília, ou melhor, Sueli, como um furacão. E nada ficou no lugar. Nem no filme nem em todos os conceitos que eu tinha sobre essa (grande) atriz. Absolutamente visceral, sem nenhum pudor moral ou físico em embarcar em lugares obscuros da psiquê humana, Marília se mistura sem vaidade entre os não atores e se conecta com Pixote como nenhuma outra pessoa do filme. É impressionante o quanto ela mostra (sensualidade, maternidade, humor, dor…) e o quanto ela provoca (repulsa, empatia, constrangimento…) com tão pouco, transcendendo talvez a função que Héctor Babenco havia inicialmente concebido pra ela no filme.

Parker Posey (O Melhor do Show)
O universo cinematográfico dos mocumentários de Christopher Guest é um deleite para apaixonados por atrizes. Como esquecer a composição absurda de Catherine O’Hara como uma atriz em campanha por uma indicação ao Oscar em For Your Consideration? Ou a balança perfeita entre humor e emoção genuína da mesma Catherine O’Hara em A Mighty Wind? E dos grandes momentos de Jennifer Coolidge em obras audiovisuais pré-White Lotus? Parker Posey, uma das melhores atrizes do cinema norte-americano dos últimos 30 anos, ainda não devidamente celebrada (assim como a obra de Guest como um todo), é peça fundamental desse universo. Em O Melhor do Show, ela interpreta a dona de uma Weimaraner que vai participar de uma competição de cachorros. Completamente desprovida de vaidade e autoconsciência como atriz, Posey vai ao limite do humor para mostrar o ridículo do ser humano e garante que todas suas cenas (algumas criadas por ela própria) sejam inesquecíveis. Sua personagem, neurótica e desequilibrada, é um exemplo clássico de um ser humano medíocre que se dá importância demais. A atriz, por sua vez, é o exemplo clássico de uma artista talentosa cujo talento se sobressai ainda mais por ela não se levar a sério.

Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)
Na pele de Dolores Umbridge, a subsecretária sênior do Ministro da Magia, transformada em professora e posteriormente diretora de Hogwarts, Imelda Staunton rouba o show de tal maneira no quinto filme da saga Harry Potter que, mesmo ela dando vida à criação mais repulsiva criada por J. K. Rowling (se desconsiderarmos alguns de seus tweets recentes), é impossível tirar os olhos dela em cada momento que ela está na tela. É um trabalho minimalista, tão assustador quando divertido, e jamais caricatural (há algo de quase humano na excessiva insegurança de Dolores). Em cada revisitada ao filme, você descobre novos detalhes na composição da atriz que fazem você odiar Umbridge e admirar Imelda na mesma proporção.

51º Festival de Cinema de Gramado #8: vitória de “Mussum, o Filmis” estreita relação com o público ou destoa do esperado de um festival de cinema?

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Dupla incontestável: Vera Holtz foi a melhor atriz por Tia Virgínia, e Aílton Graça o melhor ator por Mussum, o Filmis.

Festivais de cinema são, de certa forma, uma realidade paralela porque, neles, os filmes não falam por si só. Para que um ou outra longa se consagre vencedor, há uma equação repleta de variáveis, da reação da plateia ao dia da semana em que a projeção acontece. Mussum, o Filmis, de Silvio Guindane, deu a sorte de se sair bem em todas elas. Digo isso porque, isoladamente, não há muita razão para o longa sobre a vida do humorista-título ter levado o tanto de Kikitos que levou no 51º Festival de Cinema de Gramado, incluindo o de melhor filme. Última sessão da mostra competitiva de longas brasileiros e abertamente adorado pelo o público, Mussum certamente pegou o júri oficial desprevenido, que, sim, pode mesmo ter se entusiasmado com o filme, mas que também deve ter sentido certo receio em ignorar a reação calorosa da plateia. Entre uma digressão ou outra sobre o que levou à vitória de Mussum, expresso minha resistência à consagração porque, perto de concorrentes como Tia VirgíniaMais Pesado é o CéuO Barulho da Noite, o filme perde em inventividade, vigor e fuga ao lugar comum.

Não me entendam mal quando digo que também resisto à consagração de Mussum simplesmente por ele ter grande apelo popular. Não é isso. Inclusive porque fui um dos que não crucificou a vitória de Colegas em cima de O Som ao Redor na 40ª edição do evento. Vejo festivais de cinema como eventos de descoberta e experimentação, e não à toa eles são a primeira e, muitas vezes, única tela de determinadas produções. Colegas foi uma descoberta de Gramado. Mussum, o Filmis não exatamente. Diante do imenso apelo que as cinebiografias têm alcançado junto ao público e da figura carismática retratada, seu diálogo com a plateia jamais viria como uma surpresa. Pelo contrário: era mais do que previsível. Na medida em que o longa segue inúmeras cartilhas do gênero, é certo premiá-lo somente por uma popularidade que independe de Gramado?

Ao meu ver, o júri realmente pesou a mão ao dar tantos prêmios para o filme, especialmente quando há até uma menção honrosa para ele enquanto o interessante O Barulho da Noite, único longa dirigido por uma mulher em competição, sai de mãos abanando. O próprio Uma Família Feliz poderia ter sido minimamente reconhecido por bancar a realização de um thriller, gênero pouquíssimo explorado pelo cinema brasileiro. E há também certos cacoetes refletidos nas escolhas, como o de considerar a melhor trilha sonora aquela que apenas traz o melhor compilado de repertórios já existentes e marcados no nosso imaginário cultural. É uma injustiça com trabalhos densos e originais como o de João Victor Barroso para Mais Pesado é o Céu.

Ainda assim, há coisas muito boas na lista de vencedores, começando pelo amplo reconhecimento ao ótimo Tia Virgínia, de Fábio Meira, que rendeu um incontestável Kikito de melhor atriz para Vera Holtz. A atenção dada ao difícil Mais Pesado é o Céu também é outro destaque (somente o diretor Petrus Cariry saiu com três consagrações: melhor direção, fotografia e montagem), assim como determinados prêmios que o próprio Mussum mereceu, sim, levar para casa, como o de melhor ator para a inspirada interpretação de Aílton Graça. Para a próxima edição do evento serrano, fica a pergunta: teria o filme de Silvio Guindane estreitado a relação entre o festival e o grande público ou ele é um estranho no ninho de Gramado?

Confira abaixo a lista de vencedores:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Mussum, o Filmis
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Tia Virgínia
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Mussum, o Filmis
MELHOR DIREÇÃO: Petrus Cariry (Mais Pesado é o Céu)
MELHOR ATRIZ: Vera Holtz (Tia Virgínia)
MELHOR ATOR: Aílton Graça (Mussum, o Filmis)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Neusa Borges (Mussum, o Filmis)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Yuri Marçal (Mussum, o Filmis)
MELHOR ROTEIRO: Fábio Meira (Tia Virgínia)
MELHOR FOTOGRAFIA: Petrus Cariry (Mais Pesado é o Céu)
MELHOR MONTAGEM: Firmino Holanda e Petrus Cariry (Mais Pesado é o Céu)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Max de Castro (Mussum, o Filmis)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Ana Mara Abreu (Tia Virgínia)
MELHOR DESENHO DE SOM: Rubem Valdés (Tia Virgínia)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Ana Luiza Rios (Mais Pesado é o Céu)
MENÇÃO HONROSA: Vera Valdez (Tia Virgínia) e Martin Macias Trujillo (Mussum, o Filmis)

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
MELHOR FILME: Hamlet
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Sobreviventes do Pampa
MELHOR DIREÇÃO: Zeca Brito (Hamlet)
MELHOR ATRIZ: Carol Martins (O Acidente)
MELHOR ATOR: Fredericco Restori (Hamlet)
MELHOR ROTEIRO: Marcelo Ilha Bordin e Bruno Carboni (O Acidente)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro, Joba Migliorin, Lívia Pasqual e Zeca Brito (Hamlet)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Richard Tavares (O Acidente)
MELHOR MONTAGEM: Jardel Machado Hermes (Hamlet)
MELHOR DESENHO DE SOM: Kiko Ferraz, Ricardo Costa e Cristian Vaz (Céu Aberto)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Rita Zart e Bruno Mad (Céu Aberto)

MELHOR LONGA-METRAGEM DOCUMENTAL
Anhangabaú

MELHOR FILME UNIVERSITÁRIO
Cabocolino

51º Festival de Cinema de Gramado #7: “Mussum, o Filmis”, de Silvio Guindane

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Se há alguma magia a ser alcançada por qualquer cinebiografia, essa deveria ser a de conseguir emular, em seu próprio espírito, as razões que popularizaram um personagem a ponto de ele ser digno de virar filme. Não são muitas as que conseguem, mas podemos creditar bons exemplos a filmes como Rocketman, que se apropria da imaginação de Elton John para contar sua história por meio de um musical, e até mesmo o documentário Cássia Eller, que, mesmo convencional em formato, consegue capturar a verve da cantora-título ao fazer escolhas certeiras de depoimentos ou recortes específicos. E, por mais que reproduza a cartilha de sempre das cinebiografias, Mussum, o Filmis se junta a esses resultados felizes em que um projeto parece mesmo tomado pela energia de seu personagem.

A estreia nos cinemas brasileiros está prevista para o dia 3 de novembro, e não será surpresa alguma se o filme de Silvio Guindane conseguir mobilizar plateias com a boa mistura alcançada entre humor, samba e dramas familiares. Mussum, o Filmis é, antes de qualquer coisa, muito brasileiro e habilidoso ao construir uma fácil comunicação com o público, principalmente porque não tenta engrandecer a todo custo a história do protagonista, sempre visto com um homem simples e comum, sem aqueles tradicionais arcos de ascensão, fama e queda que já são de praxe no gênero. O longa acerta em preferir o ser humano ao ícone cômico do início ao fim, o que confere grande dignidade tanto a Mussum (Aílton Graça) quanto a figuras importantes de sua vida.

É nos encontros que ele tem com, por exemplo, Grande Otelo, e na relação estabelecida com a mãe que o personagem ganha nosso afeto. Entretanto, tais conexões não teriam a mesma eficiência se o elenco reunido por Guindane não fosse tão coeso. Os louros dados a Aílton Graça são mais do que justificados, além de serem um presente para esse ator prolífero e que aguardava um momento de destaque como esse, mas todos merecem nota, sejam aqueles em pontas importantes, como o próprio Grande Otelo de Nando Cunha, ou os que estão ali para fazer transições, a exemplo do Mussum mais jovem de Yuri Marçal e das mães vividas por Cacau Protásio e Neusa Borges. Todos eles contam com um excelente trabalho de caracterização que se estende à personificação de outros ícones como Elza Soares e Jorge Ben.

Ao mesmo tempo em que tais acertos tiram a experiência do clima enfadonho que já é característico das tantas cinebiografias produzidas atualmente, eles não nos distraem da falta de ousadia no formato, da escolha por evitar polêmicas (o maior conflito, por assim dizer, é a separação muito discreta dos Trapalhões em função de Didi) e dos discursos literais e edificantes, como aquele em que, próximo ao final da projeção, o protagonista dá a um grupo de crianças carentes. Contudo, na hora de fechar a conta, Mussum, o Filmis pode até não ser um grande longa, mas tem coração de sobra para já ser melhor do que a média das dramatizações que chegam aos cinemas envolvendo figuras da vida real.