Cinema e Argumento

Cosmópolis

Talent is more erotic when it’s wasted.

Direção: David Cronenberg

Roteiro: David Cronenberg

Elenco: Robert Pattinson, Juliette Binoche, Samantha Morton, Paul Giamatti, Mathieu Amalric, Sarah Gadon, Jay Baruchel, Kevin Durand, Zeljko Kecojevic

França/Canadá/Portugal/Itália, 2012, Drama, 109 minutos

Sinopse: A cidade de Nova Iorque está em tumulto e a era do capitalismo está chegando ao fim. Uma visita do presidente dos Estados Unidos paralisa Manhattan e Eric Packer (Robert Pattinson), o menino de ouro do mundo financeiro, tenta chegar ao outro lado da cidade para cortar o cabelo. Durante o dia, ele observa o caos e percebe, impotente, o colapso do seu império. Packer vive as 24 horas mais importantes da sua vida e está certo de que alguém está prestes a assassiná-lo. (Adoro Cinema)

O futuro decepciona porque nele somos sempre felizes e vitoriosos, diz a personagem vivida por Samantha Morton. Porém, o futuro não decepciona Eric Packer (Robert Pattinson), jovem bilionário de Nova York. Não decepciona porque ele simplesmente não pensa no futuro. Para Packer, o que importa é o momento:  a próxima conversa, a próxima transa, o próximo corte de cabelo. E a estrutura de Cosmópolis é basicamente essa: várias situações e personagens isolados que moldam o mundo e a personalidade do protagonista. A cada cena e a cada diálogo, descobrimos um pouco mais sobre ele. Cosmópolis, assim, pode ser considerado um road movie passado nas ruas da Big Apple. Tudo, claro, com um jeito muito David Cronenberg – cujo último filme, Um Método Perigoso, ficou devendo nesse aspecto.

Passado boa parte dentro de uma luxuosa limusine, Cosmópolis tem sua principal força nos diálogos, que levantam questões como o domínio do capitalismo, a instantaneidade dos dias atuais e a alienação trazida pela internet. Eric Packer é um sujeito que tem tudo ao seus pés mas que, por outro lado, não sabe o que fazer da vida. Ou seja, um retrato da geração atual. A limusine de Packer ainda é uma metáfora do que a internet provoca: tudo em um único lugar, mas, ao mesmo tempo, nada que desperte atitude ou a vontade de sair do comodismo. Sem falar, claro, da falta de verdadeiro contato humano. E Cronenberg desenvolve todas essas questões sem nunca parecer forçado. São diálogos que, apesar de didáticos e engessados, conseguem ser dinâmicos e, acima de tudo, questionadores.

Junto com a eficiente fotografia de Peter Suschitzky (constante colaborador do diretor), Cronenberg transmite toda a mecânica, frieza, e racionalidade dos dias atuais com uma notável sobriedade: a limusine de Cosmópolis alcança o nível certo de claustrofobia, os planos fazem um ótimo diálogo com o texto e todas as cores ajudam a levar o espectador para dentro do cotidiano do protagonista. É o ótimo retrato de um personagem que precisa procurar qualquer tipo de estímulo para se sentir vivo (mesmo que seja necessário apelar para a violência) e que, apesar de esbarrar com tantas pessoas, parece não se conectar com ninguém. E, nesse sentido, os coadjuvantes fazem um excelente trabalho. Não precisamos saber quem eles são, o que importa é o que eles acrescentam à proposta de Cosmópolis.

Todo esse resultado, porém, vai todo por água abaixo a partir da metade. E não é nada relacionado ao péssimo desempenho de Robert Pattinson (que aqui até nem incomoda tanto porque, justamente, seu jeito robótico tem tudo a ver com o clima do filme), mas sim com o roteiro. Quando Cosmópolis abandona o verbal e começa a investir nas situações fora da limusine, na movimentação e na necessidade de uma história de fato – com direito a tiros, sangue, etc -, o resultado começa a perder força. Essa escolha divide Cosmópolis. São dois filmes dentro de um: o primeiro cheio de desenvoltura e o segundo mais prático, apoiado na necessidade de ação (seja ela verbal ou física) para dar um fechamento ao que tinha sido mostrado até então. Cosmópolis, então, ao meu ver, cai minuto a minuto depois dessa “divisão”. Cronenberg tem estilo e isso não podemos negar – sem falar que, aqui, nunca esquecemos que estamos diante de um filme dele – só é uma pena que as questões levantadas por ele, no final, terminem mais interessantes que o fechamento e a execução em si.

FILME: 6.5

CLOSE 2012: “Tudo Que Deus Criou”

“Eu só quero saber o que é prazer, nem que seja por caridade” diz, em certo ponto, uma personagem de Tudo Que Deus Criou. A frase exemplifica bem a proposta do filme de André da Costa Pinto: nele, o sexo é um ato mecânico, muitas vezes feito apenas por dinheiro, quando não responsável apenas por causar dor, sejam elas físicas ou emocionais. Só que, se a trama gira completamente em torno do tema, Tudo Que Deus Criou aposta em uma estrutura que dá um olhar mais abrangente a tudo: a de vários núcleos inseridos em um mesmo local (no caso, um bairro de baixa renda).

Fica evidente que o filme de André da Costa Pinto não tem grandes ambições técnicas – até porque é realizado com bastante simplicidade – mas o resultado se sobressai porque a história fala de sexualidade sem rodeios e levanta vários questionamentos. Afinal, um homem pode se dizer heterossexual mesmo transando com garotos de programa? Até que ponto uma mãe sabe sobre a verdadeira sexualidade de seu filho? Qual o momento certo de um jovem assumir sua homossexualidade? Tudo isso em um filme que também consegue ser sobre uma comunidade específica, onde nunca um personagem se sobrepõe a outro.

As casas precárias e os cenários sujos do bairro paraibano imprimem realismo a Tudo Que Deus Criou, que ainda tem a seu favor um elenco extremamente eficiente. O destaque com Guta Stresser. Conhecida basicamente por seu papel cômico no seriado A Grande Família, aqui ela mostra uma grande força dramática (o que já era perceptível no sombrio Nina), naquele que é o papel mais sofrido de todos. Como uma mulher que perdeu a juventude e a beleza ao lado de um marido abusivo, ela transmite dor mas também a esperança de uma mulher que ainda não quer ver os seus dias acabados.

Tudo Que Deus Criou não está isento de falhas e elas estão relacionadas ao desenvolvimento de algumas figuras femininas. A senhora praticamente inválida que só atormenta a vida da família, por exemplo, é uma personagem óbvia e que em quase nada acrescenta ao filme. Letícia Spiller, com sua figura curiosa que ganha mais sentido perto do desfecho, demora demora para dizer ao que veio. A religião ainda deveria estar mais presente e provocativa, como na cena em que um menino pergunta ao pai se Deus fez o homem só para gostar de mulheres. Em um filme cujo título é Tudo Que Deus Criou, esperava-se uma profundidade maior nesse sentido.

De qualquer forma, André da Costa Pinto realizou um longa bastante satisfatório. E o mais importante de tudo: conseguiu versar sobre sexualidade sem nunca perder a mão. Todas as cenas mais pesadas são incômodas por, justamente, estarem cercadas de um realismo que a sociedade não quer enxergar. Tudo Que Deus Criou trata o sexo com muita naturalidade, seja em diálogos ou em encenações. E alcança até mesmo momentos tocantes, a exemplo daquele em que a homossexualidade de um personagem finalmente é verbalizada para um familiar. Vidas duplas e secretas em uma história que, se não realizada com o primor que merecia, fala um pouco sobre todos nós. Inclusive sobre o que não queremos admitir.

* Filme conferido na cobertura do CLOSE 2012

Chegou a hora do CLOSE 2012!

Começa, na próxima terça-feira (16), a edição 2012 do CLOSE – Festival Nacional de Cinema da Diversidade Sexual, em Porto Alegre. A programação, que se estende até domingo (21), terá exibições no CineBancários e na sala Norberto Lubisco, da Casa de Cultura Mário Quintana. Com ênfase em filmes de baixo orçamento, o festival traz um panorama do cinema contemporâneo independente do Brasil e do mundo, com foco, claro, na diversidade sexual. O CLOSE é uma co-realização do SOMOS e da Avante Filmes. Confira, abaixo, a programação completa:

CINE BANCÁRIOS

16/10 – TERÇA-FEIRA

19h – Cerimônia de abertura
19h30 – Panorama (classificação indicativa: 18 anos)
Tudo o que Deus Criou, de André da Costa Pinto (ficção, Brasil, 105 min, 2012)

17/10 – QUARTA-FEIRA

17h – Cinema Social, Cinema Transformador + Mostra da Casa (classificação indicativa: 10 anos)
Um Diálogo de Ballet, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon (documentário, RS, 7 min, 2012)
Máscaras, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon (videoclipe, RS, 4 min, 2012)
Ontem, de Guilherme Ferreira (ficção, RS, 2 min, 2012)
Donaléo, de Rodrigo Paulino (documentário, CE, 14 min, 2012)
Onde o Tempo Corre Devagar, de Marcos Rocha e Iara Moura (documentário, CE, 26 min, 2012)
Mulheres da Comuna, de Daiana Gomes e Roger Garcia (documentário, CE, 18min, 2012)

20h – Panorama (classificação indicativa: 12 anos)
As Filhas da Chiquita, de Priscilla Brasil (documentário, Brasil, 51 min, 2006)

18/10 – QUINTA-FEIRA

15h – Panorama: Curtas Internacionais (classificação indicativa: 14 anos)
Alle Werden, de Piet Baumgartner (ficção, Suíça, 19 min, 2012)
Out of Bounds, de Nicholas Paul Ybarra (ficção, Estados Unidos, 17 min, 2012)
What do you Know?, de Ellen Brodsky (documentário, Estados Unidos, 13 min, 2012)
Teens Like Phil, de Dominic Rosler e David Rosler (ficção, Estados Unidos, 20 min, 2012)
It’s Consuming Me, de Kai Stãnicke (ficção, Alemanha, 3 min, 2012)

17h – Panorama (classificação indicativa: 18 anos)
Mary Marie, de Alexandra Roxo (ficção, Estados Unidos, 80 min, 2010)

20h – Panorama (classificação indicativa: 12 anos)
The Children of Srikandi, de Laura Coppens, Hera Danish, Yulia Dwi Andriyanti, Dian Eggie, Oji Ijo, Angelika Levi, Stea Lim, Afank Mariani, Imelda Taurinamandala e Winnie Wibowo (documentário, Indonésia, 73 min, 2012)

19/10 – SEXTA-FEIRA

15h – Panorama: Curtas Internacionais II (classificação indicativa: 14 anos)
Akin, de Chase Joynt (documentário, Canadá, 9 min, 2012)
Mariquita, de Bill Bilowit (ficção, Estados Unidos, 14 min, 2011)
Gasp, de Eicke Bettinga (ficção, Alemanha/Taiwan, 15 min, 2012)
Tsuyako, de Mitsuyo Miyazaki (ficção, Japão, 24 min, 2011)

17h30 – Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens I
Desvelo, de Clarissa rebouças (ficção, BA, 15 min, 2012)
O Segredo dos Lírios, de Brunna Kirsch e Cris Aldreyn (documentário, RS, 16 min, 2012)
Homem Completo, de Rui Calvo (ficção, SP, 15 min, 2012)
Assunto de Família, de Caru Alves de Souza (ficção, SP, 12 min, 2010)
Uma, Duas Semanas, de Fernanda Teixeira (ficção, RJ, 17 min, 2012)

20h – Panorama (classificação indicativa: 18 anos)
Reincarnate, de Thunska Pansittivorakul (ficção, Tailândia, 73 min, 2010)

20/10 – SÁBADO

15h – Panorama (classificação indicativa: 18 anos)
Aqueles Dois, de Sérgio Amon (ficção, Brasil, 75 min, 1985)

17h30 – Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens II
Diálogo, de Dannon Lacerda (ficção, RJ, 18 min, 2010)
Na Sua Companhia, de Marcelo Caetano (ficção, SP, 21 min, 2011)
Chapô, de Eduardo Mattos (ficção, SP, 23 min, 2012)
Leve-me Para Sair, de José Agripino (documentário, SP, 20 min, 2012)
30 Segundos, de Wagner Pina (ficção, PB, 12 min, 2012)

20h – Panorama (classificação indicativa: 18 anos)
Otto; Or, Up With Dead People, de Bruce LaBruce (ficção, Alemanha/Canadá, 94 min, 2008)

21/10 – DOMINGO

14h – Panorama (classificação indicativa: 18 anos)
All About Evil, de Joshua Grannel (ficção, Estados Unidos, 98 min, 2010)

16h – Panorama (classificação indicativa: 18 anos)
Bedways, de Rp Kahl (ficção, Alemanha, 79 min, 2012)

18h30 – Panorama (classificação indicativa: 16 anos)
Todo El Mundo Tiene a Alguien Menos Yo, de Raúl Fuentes (ficção, México, 100 min, 2011)

21h – Cerimônia de encerramento

SALA NORBERTO LUBISCO – CCMQ

17/10 – QUARTA-FEIRA

19h30 – Mostra Paralela
Gaydar, de Felipe Cabral (ficção, RJ, 11 min, 2012)
A Arte de Andar pelas Ruas de Brasília, de Rafaela Camelo (ficção, DF, 17 min, 2011)
Resiliência, de Juba Bezerra (ficção, RS, 16 min, 2012)
Joelma, de Edson Bastos (ficção, BA, 20 min, 2011)
Abismo, de Aleques Eiterer (ficção, RJ, 20 min, 2011)

18/10 – QUINTA-FEIRA

19h30 – Mostra Paralela II
Apenas Um, de Leo Tabosa (ficção, PE, 7 min, 2011)
Tchaka em Transe, de Lívia Vieira (documentário, SP, 23 min, 2012)
E Resta Dúvida?, de Luini Nerva (ficção, RS, 12 min, 2012)
Além das 7 Cores, de Camila Biau, (Documentário; SP; 19 min; 2012)
Young Girl, de Cadu Barros (ficção, RJ, 10 min, 2012)

19/10 – SEXTA-FEIRA

19h30 – Panorama (classificação indicativa: 12 anos)
The Children of Srikandi, de Laura Coppens, Hera Danish, Yulia Dwi Andriyanti, Dian Eggie, Oji Ijo, Angelika Levi, Stea Lim, Afank Mariani, Imelda Taurinamandala e Winnie Wibowo (Indonésia, 73 min, 2012)

20/10 – SÁBADO

19h30 – Panorama (classificação indicativa: 18 anos)
Reincarnate, de Thunska Pansittivorakul (Tailândia, 73 min, 2010)

21/10 – DOMINGO

19h30 – Panorama (classificação indicativa: 18 anos)
Otto; Or, Up With Dead People, de Bruce LaBruce (Alemanha/Canadá, 94min, 2008)

Na coleção… Harry Potter e a Pedra Filosofal

Em 2001, começava uma das sagas mais importantes das últimas décadas. Harry Potter e a Pedra Filosofal foi o primeiro capítulo da história do jovem Harry Potter (Daniel Radcliffe), que, após a morte dos pais, foi criado a contragosto por seus tios e descobre ser um bruxo. E não um bruxo qualquer: um dos mais famosos por ter sobrevivido ao ataque do temido Voldemort quando bebê. O filme narra toda essa descoberta de Harry, sua ida à escola de magia de Hogwarts, a construção de um verdadeiro laço de amizade com pessoas que recém conheceu e, claro, uma minuciosa apresentação do mundo dos bruxos. Era o pontapé inicial de uma saga que, ao longo de 11 anos, acompanharia o seu público – e, principalmente, cresceria com ele. Dirigido por Chris Columbus, Harry Potter e a Pedra Filosofal foi certeiro ao apostar em um tom bastante infantil e leve, alcançando pleno êxito ao fazer a introdução do universo baseado no best seller da britânica J.K. Rowling.

Com os filmes seguintes (mais maduros e intensos), muito criticou-se o trabalho de Columbus. No entanto, o que deve ser levado em consideração é que, para o público de Harry Potter na época, o tom fantasioso e colorido foi fundamental para encantar toda uma geração e marcar a memória afetiva de milhões de fãs. E, nesse sentido, Harry Potter e a Pedra Filosofal é um filme totalmente Chris Columbus em sua essência – o que, repetindo, é muito válido para ao o início da saga: humor inofensivo, cenas previsíveis mas encantadoras, e lições de amizade e lealdade com frases prontas. Por isso, impossível rever o longa sem aquele sentimento de nostalgia e, principalmente, de que não temos mais clássicos infantis tão envolventes como A Pedra Filosofal. É, sem dúvida, um conjunto de acertos, desde o trio protagonista (todos ótimos) e o requintado grupo de coadjuvantes, que traz personificações impecáveis, como o eterno Alvo Dumbledore de Richard Harris, a Minerva McGonagall de Maggie Smith e o misterioso Severo Snape de Alan Rickman.

Indicado ao Oscar de melhor direção de arte, trilha sonora e figurino, Harry Potter e a Pedra Filosofal não teve como concorrer com os gigantes O Senhor dos Aneis – A Sociedade do AnelMoulin Rouge! – Amor em Vermelho, mas qualquer lembrança para a parte técnica do filme já é válida. O tema inesquecível de John Williams e o impressionante design de produção do longa são os pontos altos, contribuindo muito para todo o encantamento que provocou no público da época. Claro que se formos analisar A Pedra Filosofal com um olhar mais crítico, veremos que o roteiro de Steve Kloves segue uma cartilha muito clara: ele se utiliza de todos os elementos possíveis do livro de J.K. Rowling para tornar aquele universo o mais mágico possível, faz questão de elencar o maior número de personagens e não tem qualquer caráter mais autoral para não correr o risco de decepcionar os fãs na questão de adaptação. Só que esses detalhes só ficam mais evidentes para quem não tem um grande relacionamento com Harry Potter e não embarca por completo na proposta da saga. Ainda bem que não faço parte desse grupo.

FILME: 8.5

Um pouco sobre curtas…

CASA AFOGADA, de Gilson Vargas: Logo no primeiro plano, Casa Afogada já causa impacto: em um cenário solitário, ainda mais impressionante com a bela fotografia de Bruno Polidoro, enxergamos uma pequena casa de madeira situada em um rio. Logo, pouco a pouco, descobrimos que aquela casa é uma metáfora do protagonista que vive isolado, aparentemente sem contato com o mundo. O que existe de mais admirável não só no curta, mas na direção do gaúcho Gilson Vargas, é como cada detalhe de Casa Afogada ajuda a construir esse universo. Palavras não são necessárias (e, de fato, elas não existem no curta): o resto já diz tudo.

MENINO DO CINCO, de Marcelo Matos de Oliveira e Wallace Nogueira: O final de alto impacto fica mais na memória do que o curta em si, que poderia ser mais enxuto no desenvolvimento de sua história. De qualquer forma, isso não diminui a experiência diferente que é Menino do Cinco, o grande vencedor do 40° Festival de Cinema de Gramado, onde levou praticamente todas as categorias. Ao escolherem uma figura que mexe fácil com o espectador (um filhote de cachorro), a dupla Marcelo Matos de Oliveira e Wallace Nogueira falaram, através do animal, sobre amizade, maldade, solidão e egoísmo. Eficiente, mas um pouco superestimado.

FUNERAL À CIGANA,  Fernando Honesko: Com ciganos de verdade no elenco (inclusive entre os protagonistas), o curta de Fernando Honesko traduz toda a pesquisa realizada por ele sobre a cultura desse povo. Como retrato, Funeral à Cigana até que desperta curiosidade. O problema é que Honesko, ao mostrar um grupo de ciganos viajando para fazer o funeral de um importante integrante, aposta demais na comédia e, em muitos casos, deixa-se levar pelo caricatural. No fim, tantos personagens ficam perdidos na história convencional e que deveria ser contada com mais sobriedade.

#, de André Farkas e Arthur Gutilla: Não vai muito além de um interessante experimento visual. A combinação de preto e neon, clara referência ao mundo de Tron – O Legado, também salta aos olhos. Para quem acredita que um curta não precisa ter necessariamente uma história quando aposta mais no visual, # (jogo-da-velha, sustenido, ou como você quiser, conforme os diretores) chama a atenção. Mas se você não faz parte do grupo, é bem provável que ache o resultado bem dispensável.

UM DIÁLOGO DE BALLET, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon: Era o melhor em competição entre os curtas nacionais do 40° Festival de Cinema de Gramado e fiquei surpreso da crítica não ter se entusiasmado com ele. Apresentando um admirável rigor narrativo e estético, Um Diálogo de Ballet integra o documentário Other Than, exibido no último festival de Cannes. No curta de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, a incomunicabilidade e as diferenças entre dois homossexuais de idades bem distintas. Com certeiras narrações em off e uma bela escolha de trilha, Um Diálogo de Ballet é uma grata surpresa.