Cinema e Argumento

Melhores de 2012 – Efeitos Visuais

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O Hobbit: Uma Jornada Inesperada é esse filme de excessos narrativos que todos nós vimos. Mas não é um encanto voltar à Terra Média? Impressionante como no mais novo filme de Peter Jackson nos sentimos dentro do mesmo universo de O Senhor dos Aneis. Muito em função dos efeitos visuais: os longas anteriores não envelheceram e essa nova adaptação de uma obra de R.J.J. Tolkien utiliza os mesmos princípios que vimos na consagrada trilogia de Jackson. Não está necessariamente errado quem diz que O Hobbit é mais do mesmo nesse quesito. No entanto, é meio injusto deixar de reconhecer que esse é um filme que apresenta um mesmo mundo de anos atrás com exatamente o mesmo encantamento. Efeitos primorosos, detalhistas e sempre muito realistas – para os padrões da Terra Média, claro. Qual o problema da repetição quando ela é simplesmente grandiosa?

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 OUTROS INDICADOS:

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Do impecável naufrágio aos detalhes do tigre Richard Parker, os efeitos visuais de As Aventuras de Pi contribuem para a instigante viagem visual que é o filme de Ang Lee / Como não ficar sem fôlego com o impressionante trabalho de efeitos na cena do tsunami em O Impossível? / Como podemos ver em Prometheus, o senso de Ridley Scott para efeitos visuais continua intacto / Se Os Vingadores não foi lá uma maravilha de filme, mas pelo menos apresentou efeitos bastante dignos.

EM ANOS ANTERIORES: 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar

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ESCOLHA DO PÚBLICO:

1. As Aventuras de Pi (61.76%, 21 votos)

2. O Impossível (11.76%, 4 votos)

3. Os Vingadores (11.76%, 4 votos)

4. Prometheus (8.82%, 3 votos)

5. O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (5.88%, 2 votos)

Oscar 2013 – Filme

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Pela primeira vez o esquema com mais de cinco indicados funcionou na categoria principal do Oscar. Mesmo que você não concorde com algumas escolhas dos votantes, há de de se reconhecer: as indicações de todos os filmes são perfeitamente justificáveis. E a seleção conseguiu ser a melhor em anos! É, acima de tudo, uma lista com os mais variados gêneros, que inclui, por exemplo, uma produção francesa e um musical. 2013 também foi o ano dos veteranos: seis dos nove diretores com filmes indicados na categoria principal já têm a estatueta em casa – seja por roteiro ou direção.

O jogo já parece decidido para Argo, mas a dúvida ainda paira: afinal, o Oscar vai com a maré ou assinará embaixo da rejeição de Ben Affleck na categoria de direção para consagrar outro filme – Lincoln, quem sabe, que sempre pareceu a alternativa mais óbvia? Argo já levou todos os prêmios possíveis, mas é bom lembrar de O Segredo de Brokeback Mountain. Só que, ao contrário do ano de Crash – No Limite, agora, em 2013, não nos surpreenderíamos com a derrota do favorito – o que, para todos os efeitos, pode ser um tanto frustrante. O suspense mais interessante está mesmo no resto da cerimônia, repleta de categorias indefinidas.

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AMOR (Amour, de Michael Haneke): Foi uma grande satisfação ver que, ao contrário de prêmios como o Globo de Ouro e SAG, o Oscar deu a devida atenção para esse filme pesado e sem concessões, que faz um dos retratos mais realistas sobre o envelhecimento. Apesar do título, Amor não é meloso ou muito menos apelativo quanto ao sentimento – o que pode surpreender certos públicos. Com ótimos desempenhos de dois veteranos do cinema francês, o longa é um dos mais marcantes da carreira de Michael Haneke e não seria surpresa vê-lo faturando importantes categorias como direção e atriz.

ARGO (idem, de Ben Affleck): É a sensação da temporada – e não é muito difícil entender o porquê: extremamente acessível, o novo filme de Ben Affleck dialoga com todos os públicos. Porém, esse perfil mais aberto não reduz o filme à previsibilidade: Argo tem uma história consistente, um clima de suspense eficiente e um roteiro muito bem resolvido. De vez em quando, quase apela para deixar o espectador nervoso, mas nada que altere o excelente resultado. Tem tudo para ser o vencedor da categoria principal e faturar outras como roteiro adaptado e montagem.

AS AVENTURAS DE PI (Life of Pi, de Ang Lee): Não tenho tanto apreço por esse novo filme de Ang Lee, que já está destinado a faturar várias categorias técnicas (trilha sonora, fotografia, efeitos visuais). Estranhamente, não é muito considerado para as categorias principais (mas lembrem-se que Lee foi o único diretor indicado a todos os prêmios da temporada). O reconhecimento técnico já está de bom tamanho para o longa, que tem um final interessante e até mesmo emotivo, mas cujo desenvolvimento não foge de vários esquemas presentes em histórias de sobrevivência.

DJANGO LIVRE (Django Unchained, de Quentin Tarantino): Não foi unanimidade, mas é um legítimo Tarantino, cheio de excelentes sacadas, personagens marcantes, violência e diálogos inteligentes. Merecia mais reconhecimento. Peca, como a maioria dos longas indicados, pelo excesso (a duração é um empecilho), mas Tarantino está sempre ali sendo diferente e ousado. Pela matemática, deve dar um segundo Oscar para Christoph Waltz (que já venceu o Globo de Ouro e o BAFTA) e, talvez, uma nova vitória para Tarantino em roteiro original.

A HORA MAIS ESCURA (Zero Dark Thirty, de Kathryn Bigelow): Ganhou várias associações de críticos, mas não fez uma grande carreira no Oscar e em outros prêmios. É um filme que traz Kathryn Bigelow ainda mais segura atrás das câmeras, mas que, tematicamente, não chega a trazer grandes novidades desde Guerra ao Terror. É o estilo da diretora, claro, mas A Hora Mais Escura não escapa da sensação de repetição. Suas maiores chances de não sair da festa de mãos abanando estão com o roteiro original de Mark Boal e, em menor grau, com a protagonista Jessica Chastain.

INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild, de Benh Zeitlin): Estrelinha na testa desse filme por ser o único com menos de duas horas de duração entre os indicados. Representante mais significativo do cinema independente na cerimônia de 2013, conseguiu importantes – e inesperadas – indicações, como a de Benh Zeitlin em direção. Indomável Sonhadora impressiona mais pela força da pequena Quvenzhané Wallis como protagonista do que pelo filme em si – o que pode resultar em uma provável surpresa na categoria de melhor atriz.

O LADO BOM DA VIDA (Silver Linings Playbook, de David O. Russell): Impossível não associar o exacerbado entusiasmo por O Lado Bom da Vida com a influência de Harvey Weinstein. Complicado achar outra explicação para a paixão pelo filme de David O. Russell, que merecia, no máximo, ter indicações para Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Todas as outras lembranças são puro exagero: nada do que é apresentado nessa adaptação chega a ter o mesmo frescor ou originalidade de tantas outras excelentes comédias independentes que chegaram ao Oscar.

LINCOLN (idem, de Steven Spielberg): Líder de indicações, tem tudo para ser um Gangues de Nova York e quebrar a cara na cerimônia de premiação. Não dá para calcular mais que três estatuetas para o filme (de doze indicações), sendo uma a mais que previsível para Daniel Day-Lewis. Só que vale ficar de olho: Lincoln, mesmo convencional, pode ser a oportunidade da Academia sair à francesa da delicada questão envolvendo Argo. Consagrando o filme de Steven Spielberg, os votantes amorteceriam a polêmica, já que Lincoln foi, desde o anúncio das indicações, o longa que mais pareceu destinado a vencer o Oscar.

OS MISERÁVEIS (Les Misérables, de Tom Hooper): Seria um verdadeiro escândalo se Os Miseráveis fosse eleito melhor filme. Já virou obrigação falar mal de Tom Hooper e o longa não faz questão de agradar a todos (é, literalmente, ame ou odeie). Seria uma escolha polêmica, mas a vitória é mais do que improvável. Outro filme que começou a temporada de premiações com bastante força e que foi perdendo o brilho, até ser considerado, agora, um azarão. Merecia mais reconhecimento (afinal, sou do grupo que aprovou o resultado), mas seu esquecimento não dá para ser questionado devido à grande rejeição.

 OS ESQUECIDOS

No meu mundo justo – e bastante imaginativo para os padrões do Oscar – a categoria de melhor filme, com dez indicados, seria a seguinte:

007 – Operação Skyfall
Amor
Argo
Django Livre
Ferrugem e Osso
Holy Motors
O Mestre
Os Miseráveis
Moonrise Kingdom
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Oscar 2013 – Ator

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Ano mais do que marcante para os intérpretes masculinos. Entre as atuações, a categoria de melhor ator é com a melhor média de atuações. Por isso mesmo, alguns podem considerar um tanto frustrante que a disputa esteja tão definida. É Daniel Day-Lewis na cabeça, mas não seria injustiça alguma ver qualquer um dos outros vencendo – menos Denzel Washington, em indicação bastante dispensável. O terceiro Oscar para Day-Lewis também é uma forma de celebrar Lincoln em uma das categorias principais, já que o filme de Steven Spielberg tem tudo para não conquistar nem um terço dos prêmios a que concorre. Difícil questionar a vitória do ator, mas também igualmente angustiante é ter que dizer quem é melhor em um ano tão notável para os homens.

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BRADLEY COOPER (O Lado Bom da Vida): Poderia ser uma espécie de exagero das premiações: um ator que normalmente não associaríamos ao papel saindo-se relativamente bem nele. Porém, Bradley Cooper está mesmo ótimo em O Lado Bom da Vida. Não apenas conduz muito bem o cargo de protagonista do filme de David O. Russell como também é a interpretação mais marcante de um filme que tem nomes como Jennifer Lawrence e Robert De Niro no elenco. Como o bipolar Pat, Cooper teve a chance de ouro de sua carreira. E soube aproveitá-la.

DANIEL DAY-LEWIS (Lincoln): Era de se pensar que, depois de Sangue Negro, Daniel Day-Lewis não fosse impressionar novamente tão cedo. Que engano! Tudo bem que Nine foi um deslize na sua carreira (lá ele é totalmente ofuscado pelas mulheres), mas é sempre válido esperar superação de Day-Lewis. É o que acontece no papel de Lincoln, que pode não ser o estilo mais instigante (quem ainda aguenta cinebiografias?), mas que o ator mais uma vez tira de letra com seu inegável talento: da postura ao tom de voz e dos olhares às palavras do presidente-título, ele nos entrega, outra vez, um dos melhores desempenhos de sua carreira.

DENZEL WASHINGTON (O Voo): Denzel Washington está sobrando entre os atores indicados ao Oscar desse ano. Tem um papel que a Academia gosta, mas o estereótipo de alcoolista em recuperação já foi trabalhado mil vezes pelo cinema. E o filme de Robert Zemeckis, além de não tratar o tema com originalidade, não dá grandes chances para Denzel – que lidera a história com segurança, mas não tem um momento mais especial. A indicação de O Voo na categoria de roteiro original também é bastante questionável… Pelo visto, os votantes tiveram um certo carinho pelo longa.

HUGH JACKMAN (Os Miseráveis): Hugh Jackman nasceu para ser Jean Valjean. Quem viu o ator soltando a voz, anos atrás, na cerimônia do Oscar 2009, já tinha como deduzir que, um dia, ele teria talento musical de sobra para protagonizar um filme do gênero. Mas o que poucos esperavam é que ele se saísse tão bem na parte dramática de Os Miseráveis. No mais novo trabalho de Tom Hooper, ele marca o seu território e transita muito bem entre os sofridos anos de seu personagem. É precipitado dizer que esse é, desde já, o desempenho de sua vida?

JOAQUIN PHOENIX (O Mestre): Joaquin Phoenix tem se especializado em papeis de homens problemáticos. Foi assim quando arrasou em Johnny & June e é agora no magnífico O Mestre. Lidando com um papel extremamente difícil, Phoenix encabeça esse incrível trabalho de elenco. Em parceria com o igualmente ótimo Philip Seymour Hoffman, ele tem várias cenas marcantes e nunca deixa que o gênio difícil de seu Freddie Quell seja um empecilho para o filme. Atuação grandiosa e cheia de pequenos detalhes que seria mais reconhecida caso não estivesse na disputa com Daniel Day-Lewis.

 O ESQUECIDO

oscthrhawkesPena que só Helen Hunt tenha sido lembrada por essa pequena surpresa chamada As Sessões. O trabalho dela é feito todo em sintonia com o de John Hawkes, que chegou a concorrer ao SAG e ao Globo de Ouro por seu desempenho mas que não conseguiu chegar ao Oscar. Não é de se surpreender – poucas vezes trabalhos menores e singelos são reconhecidos pela Academia – mas não dá para deixar de sentir sua falta.

As Sessões

I believe in a God with a sense of humor. I would find it absolutely intolerable not to be able to blame someone for all this.

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Direção: Ben Lewin

Roteiro: Ben Lewin, baseado no artigo “On Seeing a Sex Surrogate”, de Mark O’Brien

Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Annika Marks, Adam Arkin, Moond Bloodgood, W. Earl Brown, Robin Weigert, Ming Lo, Tobias Forrest, Jarrod Bailey, Blake Lindsley, Rhea Perlman

Sinopse: Mark O’Brien (John Hawkes) é um escritor e poeta que, ainda criança, contraiu poliomielite. Devido à doença ele perdeu os movimentos do corpo, com exceção da cabeça, e precisa passar boa parte do dia dentro de um aparelho apelidado de “pulmão de aço”. Mark passa os dias entre o trabalho e as visitas à igreja, onde conversa com o padre Brendan (William H. Macy), seu amigo pessoal. Sentindo-se incompleto por desconhecer o sexo, Mark passa a frequentar uma terapeuta sexual. Ela lhe indica os serviços de Cheryl Cohen Greene (Helen Hunt), uma especialista em exercícios de consciência corporal, que o inicia no sexo. (Adoro Cinema)

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Jornalista e poeta, Mark O’Brien teve poliomelite quando criança e ficou com o corpo paralisado do pescoço para baixo. Sua vida já havia sido retratada em um documentário de curta-metragem, Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien, de Jessica Yu, que chegou a vencer o Oscar em sua respectiva categoria em 1997. Agora, a vida de O’Brien recebe um enfoque diferente, dessa vez dramatizado, em um filme muito bem sucedido chamado As Sessões. Dirigido pelo polonês Ben Lewis, o longa estrelado por John Hawkes e Helen Hunt começou sua trajetória de sucesso no Festival de Sundance, onde ganhou merecidamente o prêmio especial do júri e do público. As Sessões é um filme que lida muito bem com a circunstância física do protagonista e com a trajetória emocional não só dele mas também de Cohen (Hunt), uma mulher especialista em “exercícios de consciência corporal”. Um pequeno grande acerto repleto de características que diferenciam sua abordagem de tantos outros relatos sobre um personagem como O’Brien.

As Sessões é, basicamente, sobre a descoberta sexual – mas também afetiva – do jornalista e poeta que, com mais de 30 anos, ainda era virgem. Lembro particularmente dessa temática em uma história secundária de Livre Para Voar, onde a personagem de Helena Bonham Carter queria saciar o seu desejo nunca realizado (devido a sua deficiência) de ter uma experiência sexual. É sempre muito humano ver histórias como essa (o recente Ferrugem e Osso também fala bastante do assunto), já que, normalmente, o cinema se preocupa muito mais em reproduzir as deficiências físicas para dar grandes chances a um ator do que de fato fugir do lugar-comum e fazer algo mais humano e menos apelativo. Por isso, é gratificante ver um longa como As Sessões, que pouco se preocupa em mostrar as lamúrias de um personagem que não consegue mover o corpo: o que interessa aqui é a sua humanidade e suas necessidades tão básicas como a de qualquer outro ser humano. Para isso, o diretor Ben Lewis traz uma visão espirituosa e leve da vida de O’Brien. Mas um espirituoso diferente de Intocáveis, por exemplo, que ficava constantemente fazendo humor com a condição de um de seus protagonistas.

Talvez o carisma do filme também se deva muito ao do próprio O’Brien, sujeito que, mesmo com tantas inseguranças e algumas ingenuidades, tinha uma visão positiva da vida. Comunicativo e bem humorado, era uma figura cativante, o que é bem explorado pelo roteiro de As Sessões, baseado no artigo “On Seeing a Sex Surrogate” (publicado na revista Sun em 1990). Mas voltemos ao assunto que é o mote do filme: a relação dele com a especialista Cohen. Em seis sessões (número máximo definido por ela), ele aprenderá tudo sobre o ato sexual e sobre como fazê-lo em sua condição física. Ao longo das sessões, ele passa não apenas a desenvolver esses objetivos como também a conhecer melhor a própria Cohen. Surge, então, uma dinâmica genuína de cumplicidade, retratada por um diretor que retrata a questão sexual com naturalidade e que nunca se aproveita de toda a circunstância para se aproveitar do emocional. Na realidade, a emoção de As Sessões é resultado das próprias personalidades dos personagens e da relação um tanto inusitada à primeira vista estabelecida por eles.

John Hawkes dá um show de discrição como Mark O’Brien, em uma interpretação cheia de desenvoltura. Antes fosse apenas um trabalho corporal: o ator, que começou a ser reconhecido por Inverno da Alma está sempre em plena sintonia com a  igualmente eficiente Helen Hunt – uma atriz que nunca conseguiu emplacar depois de Melhor é Impossível e que aqui tem o seu melhor momento em anos. Ambos demonstram plena entrega aos papeis, principalmente ela, que é frequentemente vista totalmente nua, sem qualquer preocupação com vaidades. Se As Sessões tem seus melhores momentos quando os dois estão juntos, a história também se sustenta muito bem narrando a vida separada dos dois. Só que o mais importante é como o resultado nunca chega à linha do previsível em qualquer aspecto: a história não é quadrada como uma biografia, não confunde seu clima espirituoso com comédia e não tem grandes pretensões de fazer algo genial. É um filme que tem um resultado certeiro dentro de sua estrutura linear e que conquista justamente por essa cativante simplicidade.

É uma excelente surpresa que, uma vez ou outra, parece flertar além da conta com o emotivo e com o melodrama mas que, ao invés de soar irritante, até consegue emocionar (principalmente nos minutos finais). Isso porque As Sessões está longe de querer ser uma lição de vida e de se preocupar em esmiuçar desnecessariamente alguns fatos, como o fato de Cohen ajudar pessoas com deficiência a desenvolver conhecimento prático sobre o ato sexual mesmo sendo casada e prestes a se converter ao judaísmo. A religião, por sinal, não é um dos pontos fortes do longa: o que se reflete na figura do padre vivido por William H. Macy, quase um “anexo” do que está sendo narrado. Entretanto, o importante do filme de Ben Lewis é a preocupação em falar sobre o ser humano, sobre os pequenos detalhes da vida… Um pequeno filme que coloca todos no mesmo patamar, onde a condição do protagonista é apenas pretexto para que se fale sobre sentimentos, frustrações e esperanças. Especial em sua humildade, As Sessões merece reconhecimento pela forma humana com que lida com questões tão delicadas.

FILME: 8.5

4

Oscar 2013 – Atriz

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A categoria de melhor atriz sempre é a minha favorita nas temporadas de premiações. Talvez porque eu cultive um carinho muito maior pelas intérpretes femininas ou por a disputa ser realmente mais intensa entre elas. Entretanto, nunca estive tão indiferente  como nessa seleção de 2013. Todas as cinco indicadas são talentosas e estão em bons momentos, mas nenhuma está superlativa – o que se reflete na própria disputa, que não tem uma favorita absoluta. Jennifer Lawrence está um pouco na frente, já que conquistou o Globo de Ouro de melhor atriz em comédia/musical e o SAG. Jessica Chastain, da mesma “geração” que ela e uma dessas estrelas recentes, também tem um prêmio em casa (o Globo de Ouro de atriz em drama). Mas o buzz tem crescido para a veterana Emmanuelle Riva, que recentemente venceu o BAFTA. Quem corre mesmo por fora é Naomi Watts e Quvenzhané Wallis, mas que, mesmo assim, não devem ser desconsideradas (em especial a segunda, que eu apostaria como uma das possíveis surpresas da noite). Wallis, por sinal, é a mais jovem atriz indicada ao Oscar, enquanto Riva é a mais velha. Recordes curiosos de um ano não muito interessante para as mulheres.

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EMMANUELLE RIVA (Amor): Ganhou muitas associações de críticas e foi ignorada pelas premiações “maiores”, mas conseguiu chegar ao Oscar, ocupando a vaga de estrangeira do ano. É, sem dúvida, uma atuação muito especial e humana, que deixa fortes impressões devido ao minucioso trabalho físico. No entanto, o filme é mais de Jean-Louis Trintignant (em papel menos “chamativo”) do que dela. Riva, em determinado ponto, vai perdendo destaque (até porque, devido às condições da personagem, ela fica sem falar e apenas deitada em uma cama), deixando quase todo o protagonismo para o seu companheiro de cena.

JENNIFER LAWRENCE (O Lado Bom da Vida): Gosto muito de Jennifer Lawrence e acho que todo o seu talento já foi mais do que comprovado em Inverno da Alma, filme que só é interessante em função dela. Claro que são obras bastante distintas, mas ela já esteve bem melhor lá do que agora em O Lado Bom da Vida. Talvez o favoritismo da atriz seja em função dessa versatilidade que ela apresentou nos últimos anos (saltou do cinema independente aos sucessos de bilheteria com uma impressionante rapidez). Lawrence defende bem a personagem, mas, assim como Riva, seu par é quem domina o filme: no caso, Bradley Cooper, em notável desempenho.

JESSICA CHASTAIN (A Hora Mais Escura): Ao lado de Quvenzhané Wallis, é a atriz que mais tem o filme entregue ao seu protagonismo. Só que A Hora Mais Escura não é um filme de atuações. E, em função disso, Chastain deixa a sensação de ter demorado um pouquinho para se achar no papel (especialmente no início, quando o filme avança várias vezes no tempo sem lhe dar muitas chances), sendo até “careteira” em alguns momentos. A moça, por outro lado, pouco a pouco toma as rédeas e, tarde demais ou não, passa a segurar bem o filme.

NAOMI WATTS (O Impossível): Não esperava que Naomi Watts fosse chegar entre as finalistas. A lógica de sua personagem é basicamente a mesma da concorrente Emmanuelle Riva: uma mulher debilitada que passa quase todo filme deitada apoiando o protagonismo de um outro personagem. Mas ambas tiram essa condição de letra. Watts ainda é beneficiada pelo próprio filme: da trilha de Fernando Velázquez ao ótimo trabalho de maquiagem, é impossível não se emocionar com a sua Maria Belón. A atriz, no entanto, deve ser a que menos tem chances, especialmente por ter a cinebiografia da princesa Diana guardada para ano que vem.

QUVENZHANÉ WALLIS (Indomável Sonhadora): Se essa menina de nove anos tem uma vantagem em relação a todas as outras candidatas, essa é o fato de ser a que mais deixa impressões – seja pelo desempenho notável para alguém de sua idade ou pelo próprio papel, que é o principal destaque de Indomável Sonhadora. Há quem diga que, nesse caso, atuação se confunde com a naturalidade de uma criança. Que seja: essa naturalidade, pelo menos ao meu ver, consegue ser infinitamente melhor do que várias tentativas frustradas de outras atrizes que tentam tanto arrasar…

 A ESQUECIDA

oscfthrmarionJá perdi a conta de quantas vezes Marion Cotillard foi injustamente esquecida depois de ganhar o Oscar por Piaf – Um Hino ao Amor. Entretanto, em 2013, a ausência é mais sentida do que das outras vezes: indicada ao Globo de Ouro, BAFTA, Critics’ Choice e SAG, o excelente desempenho dela em Ferrugem e Osso merecia estar entre os finalistas da categoria. Saiu prejudicada por ter uma outra francesa chegando forte na disputa (Emmanuelle Riva).