Cinema e Argumento

Os piores filmes de 2012

A minha lista de piores do ano não tem Battleship – A Batalha dos MaresAs Aventuras de Agamenon ou Abraham Lincoln – O Caçador de Vampiros. Eles não estão presentes porque sempre procuro sofrer o menos possível quando vou ao cinema. Não preciso ver esses filmes para saber que são péssimos. Simples assim. E com o ingresso do cinema cada vez mais caro, fico ainda mais atento quanto aos filmes que escolho ver. É economia de tempo, dinheiro e paciência. Por isso, a minha lista de piores do ano – que segue abaixo, em ordem alfabética – pode ser um pouco diferente do que você está acostumado a ver por aí. Dentro do universo de longas que assisti em 2012, selecionei dez que me irritaram profundamente – alguns por serem inquestionavelmente ruins mesmo e outros por serem grandes decepções. De Steven Spielberg a Phyllida Lloyd, o que eu vi de mais insuportável no cinema em 2012:

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AMOR IMPOSSÍVEL, de Lasse Hallström: E pensar que, um dia, o sueco Lasse Hallström já reuniu nomes de calibre como Judi Dench em filmes que volta e meia eram celebrados pelo Oscar. Mas a verdade é que ele nunca foi um grande diretor. E Amor Impossível traz toda a sua mediocridade como cineasta. Culpa também do roteiro horroroso escrito por Simon Beaufoy (festejado mundialmente por seu trabalho em Quem Quer Ser Um Milionário?), que em nada ajuda a proposta desinteressante e monótona. Não sei quem disse aos envolvidos que uma história sobre pesca de salmão no Iêmen era um assunto estimulante. Até o elenco está murcho aqui, incluindo Kristin Scott Thomas, frequentemente beirando a caricatura. De cortar os pulsos.

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CAVALO DE GUERRA, de Steven Spielberg: Talvez seja mais por implicância mesmo, mas não tenho muita paciência com esses filmes açucarados que brincam com a boa vontade do espectador. Cavalo de Guerra pede que eu acredite demais em coincidências e que, em consequência disso, eu embarque em um clima excessivamente manipulador. Há quem goste. Não é o meu caso. E, por isso, Cavalo de Guerra é o meu filme menos favorito do Spielberg em anos. Para agravar a situação, a Primeira Guerra Mundial é mal situada e retratada com todas as formalidade do gênero. Ah, e ainda tem espaço para alívio cômico, aqui representado por um “divertido” ganso… Dessa vez não deu, Spielberg.

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A DAMA DE FERRO, de Phyllida Lloyd: Nunca pensei que Meryl Streep fosse ganhar o seu tão aguardado terceiro Oscar por um filme ruim. Não era nenhuma novidade que Phyllida Lloyd não tinha currículo para dirigir a cinebiografia de uma polêmica figura política, mas aqui ela impressionou – no sentido negativo – não só por trazer uma abordagem completamente neutra de Margaret Thatcher (uma personagem que merecia complexidades em função de seus posicionamentos fortes) – mas por cometer o erro de achar que, para conhecermos por completo a protagonista, precisamos acompanhar toda a sua vida. Sem falar que A Dama de Ferro é contado do ponto de vista errado, repleto de alucinações cansativas e irrelevantes de uma idosa Thatcher.

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A HORA DA ESCURIDÃO, de Chris Gorak: Os filmes sobre o fim do mundo estão em crise. Já não bastasse o péssimo 2012, outro exemplar mostra que esse cenário pode ser bem tedioso. É A Hora da Escuridão, que até consegue criar certo clima de suspense em seus primeiros momentos, mas que, aos poucos, perde o fôlego e cai na monotonia. É uma pena ver o talentoso Emile Hirsch envolvido nesse filme B que não chega nem perto de empolgar. Exibido nos cinemas em cópias 3D e convencionais, passou completamente despercebido por todos. Também pudera: se é pra mostrar uma trama batida, que pelo menos seja de forma divertida.

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MAGIC MIKE, de Steven Soderbergh: Particularmente, uma das grandes decepções do ano. Primeiro porque falta diversão: Magic Mike não é pop, descontraído ou sequer um guilty pleasure. Segundo porque perde muitas oportunidades, como a de quebrar o preconceito com a nudez masculina no cinema. Infelizmente – principalmente depois do ótimo Contágio -, é mais um atestado de que Steven Soderbergh tem pouca personalidade e não consegue mais manter uma boa média nos trabalhos que realiza. Foi lembrado em algumas associações de críticos em função do desempenho de Matthew McCounaghey – o que é um mistério, já que nada nesse filme é digno de honrarias.

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NA TERRA DE AMOR E ÓDIO, de Angelina Jolie: Alguns defenderam que tem o seu valor histórico e de denúncia, mas eu só consegui ter sono. As ideias e as propostas de Angelina Jolie são nobres, mas ela falha imensamente como diretora e roteirista. No romance, erra ao não fazer o espectador torcer pelo amor impossível do casal. Na guerra, apenas choca com as cenas mais fortes, sem fazer com que alguém realmente se interesse pelos conflitos da Guerra Iugoslava. Não à toa, só foi lembrado pelo Globo de Ouro na categoria de filme estrangeiro. E foi lembrado por ser de Angelina Jolie, já que, como todos nós sabemos, o Globo de Ouro nunca perde a chance de bajular uma grande celebridade.

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A SAGA CREPÚSCULO: AMANHECER – PARTE 2, de Bill Condon: A Saga Crepúsculo não poderia chegar ao fim sem, claro, estar entre os piores do ano. Apesar de ser considerado o “melhor” da série, Amanhecer – Parte 2 é repleto de falhas como qualquer outro longa protagonizado por Edward (Robert Pattinson) e Bella (Kristen Stewart). Falta consistência, desculpas convincentes e, principalmente, um fechamento que dê sentido à existência de tantos filmes. Tem uma boa cena de batalha na neve, mas até ela está cercada de decisões bastante questionáveis. É o mais açucarado e direcionado aos fãs, mas isso não justifica muita coisa.

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SOMBRAS DA NOITE, de Tim Burton: Possivelmente, o pior filme de toda a carreira de Tim Burton. Além de ser extremamente repetitivo (quem ainda consegue ver algo de positivo nas recicladas interpretações de Johnny Depp, por exemplo?), o filme tem um humor batido e uma história extremamente dispersa, prejudicada pelo excesso de personagens. Copiando descaradamente longas como A Morte Lhe Cai BemSombras da Noite é uma das experiências mais aborrecidas de 2012. Sorte que Burton conseguiu se reerguer posteriormente com o excelente Frankenweenie.

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TED, de Seth MacFarlane: Ainda tento entender como conseguem defender essa comédia que não passa de um completo besteirol americano de mau gosto. Inclusive, também tento entender como um prêmio tão quadrado como o Oscar convocou o diretor e roteirista Seth MacFarlane para apresentar a próxima cerimônia. Rotulado como politicamente incorreto, Ted não tem ritmo e não escapa dos clichês da história do homem que não cresce e é influenciado por um amigo imaturo. Chega dar até pena ver Mila Kunis perdida no meio dessa bobagem. Lamentável.

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W.E. – O ROMANCE DO SÉCULO, de Madonna: As intenções são louváveis e o requinte da parte técnica é exemplar (figurinos e trilha são o ponto alto), mas W.E. – O Romance do Século é muito e mal desenvolvido. Culpa da megalomania de Madonna, aqui exercendo total controle sobre o filme, ocupando os cargos de diretora, roteirista e produtora – o que certamente se reflete no resultado final, que deixa bem claro suas limitações em função de uma comandante que pode até ser boa na música, mas que ainda não está nem perto de ser uma cineasta de confiança. A história merecia mais.

Detona Ralph

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Direção: Rich Moore

Roteiro: Rich Moore, Phil Johnston, Jim Reardon e Jennifer Lee

Com as vozes originais de: John C. Reilly, Sarah Silverman, Jack McBrayer, Jane Lynch, Ed O’Neill, Dennis Haysbert, Alan Tudyk, Mindy Caling, Joe Lo Truglio, Edie McClurg, Jess Harnell, Rachael Harris, Skylar Astin, Adam Carolla

Wreck-it Ralph, EUA, 2012, Animação, 108 minutos

Sinopse: Ralph (John C. Reilly) é o vilão de Conserta Félix Jr., um popular jogo de fliperama que está completando 30 anos. Apesar de cumprir suas tarefas à perfeição, Ralph gostaria de receber uma atenção maior de Felix Jr. (Jack McBrayer) e os demais habitantes do jogo, que nunca o convidam para festas e nem mesmo o tratam bem. Para provar que merece tamanha atenção, ele promete que voltará ao jogo com uma medalha de herói no peito, no intuito de mostrar seu valor. É o início da peregrinação de Ralph por outros jogos, em busca de um meio de obter sua sonhada medalha. (Adoro Cinema)

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Detona Ralph está destinado a ser conhecido como o Toy Story dos video games. Em tudo que tange essa comparação, nada, no entanto, pode ser considerado depreciativo: o filme de Rich Moore também traz outras semelhanças com várias outras animações, mas nada que sequer chegue perto de influenciar o resultado final. Detona Ralph, apesar de várias comparações, é uma das animações mais divertidas exibidas no cinema recententemente. Se o material de divulgação e até mesmo o trailer apontavam para um longa bobo e extremamente comercial – principalmente por reunir incontáveis personagens clássicos de video games – é uma surpresa constatar que esse mais novo trabalho da Disney (sem o selo Pixar) é divertido, envolvente, original e cheio de referências (que tornam a experiência ainda mais interessante para quem as reconhece).

Detona Ralph poderia se apoiar exclusivamente na nostalgia de um público específico, utilizando personagens de jogos como Pac Man e Street Fighter, por exemplo, para se isentar de construir uma boa história. Afinal, os mais saudosos certamente já terão um maior apreço pelo longa só em função dessa homenagem ao mundo dos games. Só que Detona Ralph não é preguiçoso e em muito retoma vários elementos clássicos da Disney para conquistar todos os públicos, começando pelo próprio protagonista: o grandão Ralph (voz de John C. Reilly na versão original), um vilão que não consegue se relacionar com ninguém dentro do seu próprio jogo. Durante o dia, ele presta o seu serviço durante as partidas no fliperama, mas, à noite, quando o local é fechado e os personagens vivem suas próprias vidas (eis aí a referência ao mundo de Toy Story), ele é ignorado por todos justamente por ser o vilão. Ralph, então, resolve provar que também pode ser um herói, invadindo outros jogos com a finalidade de ganhar uma partida e conseguir uma medalha que prove isso.

Com essa premissa, Detona Ralph orquestra várias simbologias que não só são eficientes mas que também mexem com o emocional do espectador: aqui, temos a clássica história da superação protagonizada por um personagem renegado e que deseja provar seu valor. É, em suma, uma animação que trabalha com o conflito dos rótulos e das minorias sem soar piegas, transmitindo boas mensagens para o público infantil, além de entreter os adultos. E essa é uma das características mais fortes de Detona Ralph: dialogar com todos. Mesmo que o protagonista seja do sexo masculino, logo uma garotinha entra na história para acompanhá-lo. Ao longo de quase duas horas, eles vão dos jogos de guerra a universos coloridos e cheio de doces. O resultado, portanto, é uma comunicação muito harmônica com todos os pequenos – meninos e meninas – que vão conseguir se identificar e se divertir com os personagens e com o apuro visual da animação de Rich Moore.

Com um roteiro escrito por quatro pessoas (o que dá um tapa de luva na Pixar, que decepcionou em função da direção e do roteiro compartilhado demais no recente Valente), Detona Ralph é uma admirável surpresa por ter uma trama sólida enquanto poderia facilmente se perder com um roteiro disléxico responsável por apenas atirar referências. Felizmente, não é o que acontece com o filme de Rich Moore, sempre mais preocupado em contar uma jornada com um arco bem definido, passando por momentos emotivos, cômicos e de pura aventura. Propositais ou não, os ecos de Monstros S.A. (o grandão assustador fazendo amizade com uma garotinha), Up – Altas Aventuras (o tão desejado objeto que é substituído por um presente feito à mão), Toy Story e outras referências não incomodam diante da personalidade própria de Detona Ralph.

Enquanto as crianças se divertem com o filme – que tem um ótimo ritmo – os adultos podem ficar de olho nos pequenos detalhes da trama: é um roteiro que não deixa pontas soltas, que frequentemente retoma pequenas informações apresentadas durante a história e que não transforma a vida de qualquer personagem sem um propósito realmente justificável. São por esses e  por tantos outros pequenos presentes de um bom roteiro que Detona Ralph se torna uma das diversões indispensáveis para o início de 2013. Tenho certeza que todos vão embarcar na história, curtir o visual e se divertir bastante. Se uma vez ou outra a animação parece inverter seu ritmo (resultado da troca de cenários e jogos) e deixar a sensação de que não sabe muito bem para onde está indo, logo já volta aos trilhos e acerta novamente. Como é bom ser surpreendido!

FILME: 8.5

4

Adeus, 2012! (e as melhores cenas do ano)

oscarmsceneTive a sensação que 2012 passou voando… Pessoalmente, foi um ano de desafios, mas também de muitas recompensas. Quanto ao cinema, creio que 2012 teve períodos de grandes decepções (da temporada do Oscar até mais ou menos a metade do ano, os lançamentos, em sua maioria, não cumpriram expectativas) e outros de várias surpresas (os últimos meses foram particularmente interessantes). Foi um ano que valeu – antes de mais nada – por dois momentos muito esperados pelo escriba que vos fala: o terceiro Oscar de Meryl Streep (nunca comemorei tanto frente a uma TV!) e o primeiro prêmio importante para Julianne Moore, uma atriz singular que só agora foi reconhecida – dessa vez, pelo retrato impecável da republicana Sarah Palin em Virada no Jogo. Considerando os lançamentos do circuito comercial brasileiro, conferi 69 filmes – o que é um índice relativamente satisfatório, já que, entre trabalho e faculdade, sempre escrevi sobre tudo que assisti. Agora, como de costume, encerro o ano listando os meus dez momentos favoritos dos filmes que vi durante os doze meses que passaram. A relação que segue abaixo não segue nenhuma ordem. No mais, um excelente 2013 a todos e que a paixão pela sétima arte continue sempre viva dentro de todos nós. Afinal, vale sempre lembrar, esse blog não seria possível sem vocês, leitores. Um forte abraço! =)

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A cena final de Guerreiro

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Kylie Minogue canta “Who Were We?” em Holy Motors

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A visita final de Precisamos Falar Sobre o Kevin

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Os créditos iniciais de 007 – Operação Skyfall

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O tsunami invade a Tailândia em O Impossível

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Video Killed the Radio Star no Crazy Dance em Entre o Amor e a Paixão

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A cena do elevador em Drive

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A cena final de O Abrigo

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Matt King (George Clooney) se despede da esposa em Os Descendentes

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A sequência incial com Brandon (Michael Fassbender) no metrô em Shame

As Aventuras de Pi

Doubt is useful. It keeps faith a living thing. After all, you cannot know the strength of your faith until it is tested.

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Direção: Ang Lee

Roteiro: David Magee, baseado no romance “Life of Pi”, de Yann Martel

Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Ayush Tandon, Gautam Belur, Adil Hussain, Rafe Spall, Tabu, Gérard Depardieu, Ayan Khan, Mohd Abbas Khaleeli, Vibish Sivakumar, James Saito, Shravanthi Sainath, Jun Naito

Life of Pi, EUA/China, 2012, 127 minutos

Sinopse: Pi Patel (Suraj Sharma) é filho do dono de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia. Após anos cuidando do negócio, a família decide vender o empreendimento devido à retirada do incentivo dado pela prefeitura local. A ideia é se mudar para o Canadá, onde poderiam vender os animais para reiniciar a vida. Entretanto, o cargueiro onde todos viajam acaba naufragando devido a uma terrível tempestade. Pi consegue sobreviver em um bote salva-vidas, mas precisa dividir o pouco espaço disponível com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala chamado Richard Parker. (Adoro Cinema)

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O taiwanês Ang Lee tem uma carreira muito especial. Celebrado mundialmente, já realizou filmes dos mais variados gêneros e nunca chegou a entregar um resultado ruim. Ele já foi do drama de época (Razão e Sensibilidade) ao mundo dos quadrinhos (Hulk), sempre produzindo longas que, mesmo imperfeitos, talvez não pudessem ser realizados por outros diretores. É também o caso de As Aventuras de Pi, seu mais recente longa-metragem que o coloca de volta na temporada de premiações depois de ter vencido o Oscar de melhor direção seis anos atrás por O Segredo de Brokeback Mountain, um longa que considero bastante superestimado. Agora, Ang Lee volta a provar que, apesar dos pesares, só ele poderia ter feito As Aventuras de Pi. Dependendo de quem estivesse atrás das câmeras, o filme poderia descambar para a panfletagem espiritual/filosófica, resumir-se a um mero filme de sobrevivência ou, em um caso mais extremo, tornar-se apenas uma aventura cheia de pirotecnias. Não com Ang Lee, que não chega a realizar uma obra empolgante, mas que, pelo menos, não peca pelos excessos.

O primeiro terço de As Aventuras de Pi não é o que podemos chamar de um exemplo de originalidade, até porque a decisão de contar a história através da narração de um personagem que relembra o passado não chega a trazer muitas utilidades. A introdução, apesar de frequentemente divertida (quem não se divertiu com a origem do nome do protagonista?), é prolongada demais, seja pela história que não dá muitos indícios para onde está indo ou pela expectativa criada logo no início do longa, quando um personagem diz que está prestes a contar um fato tão extraordinário que fará um homem ateu passar a acreditar em Deus. E essa expectativa criada não é necessariamente atendida: ok, a sobrevivência do protagonista sozinho com um tigre em alto mar é realmente impressionante (e é a partir da ótima cena do naufrágio que As Aventuras de Pi começa realmente a funcionar), mas filmes de sobrevivência em situações inusitadas o cinema já fez muitos. No que esse, então, é diferente dos outros? Em um único detalhe: o garoto passou semanas em alto mar com um tigre! Agora, um relato tão revolucionário – em termos cinematográficos – a ponto de mudar as crenças de alguém? Você decide.

Só que Ang Lee não é bobo, claro. Se em muito As Aventuras de Pi não escapa da sensação um pouco repetitiva de filmes de sobrevivência, o mesmo já não pode ser dito das questões que ele levanta. Ainda considero todas as propostas um tanto rasas (várias questões foram apenas jogadas ao ar sem maiores discussões), mas são exatamente elas que fazem a experiência ser mais intrigante: da relação cheia de simbologias entre o jovem Pi (Suraj Sharma) e os animais – especialmente o tigre – aos questionamentos de que até que ponto devemos ser fiéis a apenas uma religião, As Aventuas de Pi se sai bem ao colocar tais abordagens na história que apresenta. Por outro lado, parece frequentemente esquecê-las ou, então, não fortalecê-las em situações que pediam mais subjetividade. Os desprevenidos podem se surpreender, então, com esse caráter mais “complexo” do longa. Afinal, os títulos não dizem muito sobre o que o filme realmente é. O original, “A Vida de Pi” – em uma tradução literal – passa a ideia de que a história contará cada fase da vida do protagonista, do nascimento à morte – o que não é verdade: acompanhamos apenas um recorte. O brasileiro, As Aventuras de Pi, consegue ser pior: Pi não viaja o mundo desbravando continentes ou se metendo em enrascadas. A aventura dele é apenas uma.

O visual é um caso a parte. Já não bastasse a cena do naufrágio – que, em cinco minutos, supera longas inteiros como Poseidon – Ang Lee nos brinda com um filme que nunca deixa de ter um belo apuro estético. A fotografia é impressionante, com imagens que parecem realmente uma pintura. Os efeitos visuais são impecáveis, onde o tigre Richard Parker é o ponto alto: nem parece ser resultado de tecnologias tamanho o realismo. Mais importante ainda: em momento algum As Aventuras de Pi se entrega ao visual e se esquece que está contando uma história. Portanto, o longa pode até ser, na minha percepção, um espetáculo mais visual do que narrativo, mas não dá para deixar de reconhecer a habilidade do diretor em conseguir sustentar boa parte do filme só com um menino e um tigre. As Aventuras de Pi chega a ser levemente decepcionante por levar duas horas e ainda deixar de aprofundar várias de suas propostas, só que pelo menos conquista com a habilidade de mostrar uma história de sobrevivência sem nunca ficar monótono. De novo: imperfeito ou não, é um longa que cujos méritos só poderiam ser alcançados por um diretor contido como Ang Lee.

FILME: 7.5

3*

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

O Impossível

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Direção: Juan Antonio Bayona

Roteiro: Sergio G. Sánchez

Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast, Geraldine Chaplin, Marta Etura, Ploy Jindachote, Johan Sundberg, Douglas Johansson, Jan Roland Sundberg, Tor Klathaley

Lo Imposible, Espanha, 2012, Drama, 114 minutos

Sinopse: O casal Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor) está aproveitando as férias de inverno na Tailândia junto com os três filhos pequenos. Mas na manhã de 26 de dezembro de 2004, enquanto curtiam aquele paraíso após uma linda noite de Natal, um tsunami de proporções devastadoras atinge o local, arrastando tudo o que encontra pela frente. Separados em dois grupos, a mãe e o filho mais velho vão enfrentar situações desesperadoras para se manterem vivos, enquanto em algum outro lugar, o pai e as duas crianças menores não têm a menor ideia se os outros dois estão vivos. É quando eles começam a viver uma trágica lição de vida, movida pela esperança do reencontro e misturando os mais diversos sentimentos. (Adoro Cinema)

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“A dor é universal, mas também a esperança”, já dizia o material de divulgação de Babel, filme do mexicano Alejandro González Iñárritu. Essa mesma frase de efeito pode muito bem ser aplicada a O Impossível, que retrata as consequências devastadoras do tsunami que invadiu a Tailândia no dia 26 de dezembro de 2004 e deixou milhares de mortos. Dirigido pelo cineasta espanhol Juan Antonio Bayona, o longa sempre deixa bem claro que pensa primeiro na emoção do que em qualquer outro aspecto. Por isso, há quem o chame de “apelativo” ou até mesmo “exagerado”, mas a verdade é que poucas vezes vimos – pelo menos no cinema recente – uma trágica história baseada em fatos reais que funcione tão bem por, justamente, não ter medo de fisgar o espectador pela emoções. Tentativas extremamente falhas como o monótono As Torres Gêmeas, de Oliver Stone, por exemplo, murcham frente ao novo filme de Bayona, que, manipulador ou não, consegue emocionar até o mais resistente dos corações.

Por falar em manipular, não é necessário um olhar muito clínico para perceber todos os elementos que O Impossível orquestra para alcançar o sentimento de todos na plateia. O mais evidente deles é a trilha sonora de Fernando Velázquez, sempre presente com seus violinos e pianos e ainda mais elevada nos ápices dramáticos do filme. Só que o compositor entrega composições muito boas e aí fica difícil resistir… Bayona também não economiza emoções na hora de mostrar a cidade devastada, os cádaveres perdidos entre os destroços e a degradação física dos personagens (resultado de um ótimo trabalho de maquiagem). Ele não esconde o melodrama e cabe ao espectador decidir até que ponto essa decisão interfere no espetáculo. Para mim, não foi problema algum: assisti a O Impossível com o coração na mão, seja por presenciar a desgraça super realista vivida pela população ou por torcer incansavelmente para que os protagonistas encontrassem uma saída para aquela impensável situação.

Financiado e filmado em território espanhol (o que explica o título original, Lo Imposible), o novo trabalho de Bayona traz uma abordagem crua da tragédia climática. O diretor, que só havia realizado um longa anteriormente – o terror independente O Orfanato -, realiza um excelente trabalho, dessa vez de maior orçamento e muito mais ambicioso, que não economiza nos efeitos visuais e na direção de arte para aproximar o espectador daquela situação. E se a devastadora cena do tsunami deixa fortes impressões (é praticamente impossível saber o que é efeito visual ali), o resto do filme também é igualmente eficiente porque o espanhol mostra tudo com um olhar documental, desde os planos que exploram a dimensão da Tailândia devastada até os pequenos detalhes da reconstrução impecável de cada cenário. A própria técnica, portanto, já transmite a angústia do filme, o que é um feito louvável. Outra boa notícia é que, em termos narrativos, O Impossível não decepciona: tem uma boa introdução (não perde tempo enrolando nem é muito rápido na hora de trazer a esperada cena do Tsunami), consegue ser econômico no velho esquema de sobrevivência e ainda encerra todos os ciclos no momento certo.

Ainda é gratificante ver o belo trabalho de elenco de O Impossível. Quem tem levado as maiores honrarias é Naomi Watts (e ela realmente sempre dispensa comentários), mas não é justo falar do filme sem elogiar todos, sem exceções: Ewan McGregor tem o seu momento aqui e o elenco juvenil é simplesmente impecável. Porém, a surpresa fica mesmo com o jovem Tom Holland, como o destemido filho que, após o tsunami, tenta sobreviver com a mãe. É o primeiro filme de Holland e vale a pena ficar de olho nesse nome. Estreia de tirar o chapéu! A entrega desse conjunto de atores é essencial para que O Impossível seja uma experiência humana e repleta de momentos emocionantes e outros de bastante impacto. Não é um trabalho revolucionário e brilhante no gênero, mas é um drama tão bem feito e eficiente nas emoções “manipuladoras” que fica impossível resistir. Principalmente porque é a esperança que move o roteiro de Sergio G. Sánchez. A beleza da superação diante de um momento tão inimaginável é o que nos faz ter compaixão e torcer pelos personagens de O Impossível. Afinal, vale lembrar, a esperança é universal.

FILME: 8.5

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NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO: