Cinema e Argumento

O Voo

I drank the night before the flight.

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Direção: Robert Zemeckis

Roteiro: John Gatins

Elenco: Denzel Washington, Don Cheadle, Kelly Reilly, John Goodman, Melissa Leo, Tamara Tunie, Conor O’Reilly, Brian Geraghty, Nadine Velazquez, Charlie E. Schmidt, Adam Tomei, Boni Yanagisawa, Dane Davenport

Flight, EUA, 2012, Drama, 138 minutos

Sinopse: Whip (Denzel Washington) é um piloto de aviação comercial que, com a queda iminente de um avião, assume o comando e consegue salvá-lo com danos mínimos. Logo ele se torna um herói nacional, mas uma investigação interna revela que ele estava voando sob o efeito de drogas e álcool. Tendo consciência disto, Whip não se sente bem com todas as homenagens que recebe, por não se considerar merecedor delas. (Adoro Cinema)

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No recente Guerreiro, lançado diretamente em home video no Brasil, Nick Nolte interpreta um solitário homem que, após anos de alcoolismo, retomou as rédeas da sua vida e, agora, apesar de sóbrio, já não tem mais ninguém ao seu lado. Ele tenta, a todo custo, recuperar a confiança dos filhos adultos. Nolte é um coadjuvante na história e a escolha é acertada, visto que Guerreiro tem mais de duas horas de duração e, certamente, poderia perder boa parte de seu impacto se a storyline do pai ex-alcoolista fosse mais esmiuçada. Por ter pouco espaço em cena, Nolte escapa das armadilhas e, em uma única cena (aquela com Tom Hardy no quarto do hotel) conseguiu impressionar muito mais que o próprio Denzel Washington nos quase 140 minutos desse O Voo, novo filme do diretor Robert Zemeckis que comete, justamente, os erros que Guerreiro não comete: dar atenção demais a uma proposta que já foi trabalhada à exaustão.

Não vamos, no entanto, desmerecer Denzel, que, apesar de apenas correto (e não muito merecedor da indicação ao Oscar 2013 de melhor ator), praticamente segura o filme inteiro sozinho. Ele é Whip, um piloto viciado em álcool e drogas que consegue fazer uma façanha incrível e salvar um avião com defeito de uma catástrofe ainda maior. Mas, antes de pilotar, Whip tinha tomado umas e outras e os investigadores querem responsabilizar alguém. Basta um teste de sangue para que ele seja considerado o principal culpado do acidente. A partir daí, o piloto jura que não vai mais beber e, enquanto enfrenta todas as investigações, resolve se isolar de todos para abandonar o álcool. E aí O Voo se torna um filme convencional sobre um sujeito que luta contro algo maior do que si: no caso, o alcoolismo. Além disso, não poderia faltar o clichê do protagonista problemático que se envolve com uma mulher também em recuperação. O longa de Zemeckis não chega a ser exagerado e muito menos força a barra com a história dos vícios. Porém, fica no lugar comum, o que é um problema para Denzel, que fica sem ter muito o que desenvolver ali.

Não fosse a circunstância extraordinária (o acidente de avião e a tal investigação), O Voo seria ainda mais convencional do que já é. Isso porque, tratando-se do conflito em si, mastigado durante mais de duas horas, o roteiro de John Gatins (também misteriosamente indicado ao Oscar 2013), não faz questão alguma de se esquivar das formalidades da temática: das constantes recaídas à relutância a frequentar uma reunião de AA, o texto ainda faz questão de colocar em cena personagens que só aparecem para maximizar a desgraça do personagem, como a ex-esposa e o filho, que não têm função alguma a não ser mostrar como o Whip de Denzel sofre por ter uma família que desistiu dele. Além desse roteiro linear, existem também outros furos, como a personagem da ruiva Kelly Reilly, que recebe bastante atenção durante certo tempo, indicando que será uma peça fundamental na conclusão da história e que, do nada, é esquecida sem uma explicação realmente consistente para o arco que estávamos acompanhando até então. Enfim, são dramalhões e problemas comuns que todos nós já conhecemos em histórias do tipo e que, aqui, mesmo que tratados de forma menos melodramática, não chegam a entusiasmar.

Com a tradicional trajetória de redenção que vai agradar várias plateias afeitas a esse tipo de história, O Voo não pode ser considerado um filme ruim, já que o problema da sua narrativa é querer repetir acertos de filmes bem sucedidos com a temática, mantendo-se bastante acomodada, sem vontade de ousar. Para o nível de filmes que Denzel Washington costuma fazer, esse é mais diferenciado, calcado na emoção e não na ação. Mas para o nível geral fica no mediano. Não dá, no entanto, par falar de O Voo sem mencionar a cena do acidente de avião. É realmente um grande momento, eletrizante na medida certa, além de durar o tempo necessário para colocar o espectador no lugar dos passageiros. Executada com grande segurança por Zemeckis, a cena engana bastante: por vir logo no início, esperamos que o resto também apresente outras surpresas do estilo. Porém, qualquer indício delas (a entrada de ótimos atores em pequenas participações, como John Goodman e Melissa Leo) logo se une às normalidades de um filme inofensivo e, por isso mesmo, repleto de desperdícios.

FILME: 6.5

3*

Melhores de 2012 – Atriz Coadjuvante

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O papel em Dúvida, apesar de menor, foi mais muito mais marcante que o de Histórias Cruzadas, mas estamos falando de Viola Davis, uma atriz que, quando recebe qualquer personagem que lhe dê chances, faz misérias ao transbordar humanidade como poucas. No filme de Tate Taylor não é diferente: Viola emociona e rouba a cena toda vez que está sob os holofotes. Nada mais justo para uma interpretação na medida e cheia de momentos especiais, que também se favorece por ser a única contida e pé no chão do mundo caricato criado pelo roteiro – também da autoria de Taylor. Em 2012, na temporada de premiações, a atriz perdeu grandes chances de ser premiada por todos os cantos ao ser considerada protagonista. Caso concorresse como coadjuvante, teria recebido o reconhecimento que merecia ao ser consagrada no lugar de Octavia Spencer, que, inexplicavelmente, arrebatou todos os prêmios da temporada por uma interpretação fora de tom – o que, ironicamente, é tudo o que a de Viola Davis não é.

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OUTRAS INDICADAS:

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JANET MCTEER (Albert Nobbs)

Albert Nobbs funciona quase que exclusivamente em função de Glenn Close e também da coadjuvante Janet McTeer. Ambas interpretam o mesmo tipo de papel (mulheres disfarçadas de homem em uma época machista), mas com abordagens bem diferentes. E é bem provável que McTeer seja mais beneficiada pela roteiro do que Glenn, o que ajuda ainda mais a sua ótima interpretação – que, ao contrário da sua companheira de cena, não é sabotada pelo roteiro. Na temporada de premiações do ano passado, com Viola Davis concorrendo equivocadamente como protagonista por Histórias Cruzadas, era a melhor coadjuvante em competição.

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JUDI DENCH (007 – Operação Skyfall)

De coadjuvante de luxo na franquia 007, Judi Dench passou a ser figura fundamental em Operação Skyfall. Sam Mendes, bom diretor de atores que é, soube extrair o melhor da atriz no mais novo longa de James Bond. Sua M agora tem passado, está literalmente no meio da ação e é figura-chave de várias discussões e momentos importantes. E a veterana não poderia estar mais afiada no papel, fazendo um digníssimo trabalho de coadjuvante ao lado dos também ótimos Daniel Craig e – especialmente – Javier Bardem. Só uma atriz do calibre dela poderia dar esse ar sofisticado para M.

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SANDRA BULLOCK (Tão Forte e Tão Perto)

A interpretação de Sandra Bullock em Tão Forte e Tão Perto só comprova o quanto seu Oscar por Um Sonho Possível foi precipitado. Funcionando muito bem como coadjuvante, Bullock sabe dar as devidas sutilezas para uma mãe que tenta lidar com o filho genioso e com o luto pela recente morte morte de seu marido. Ela consegue dar humanidade à personagem, aproveitando todos os momentos mais lacrimosos e também aqueles que lhe exigem uma certa dosagem de emoções. Injustamente, não recebeu o reconhecimento que merecia.

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SHAILENE WOODLEY (Os Descendentes)

A jovem Shailene Woodley foi uma das grandes revelações de 2012. Se Alexander Payne decepcionou atrás das câmeras em Os Descendentes, a atriz não perdeu tempo: por mais que George Clooney esteja no melhor momento de sua carreira como ator, Woodley nunca se intimidou ao lado do ator e sua ótima interpretação. Com uma naturalidade admirável ao interpretar um papel que tinha tudo para ser representado de forma over e clichê, ela conquistou seu espaço e provou que merece outras chances igualmente boas.

EM ANOS ANTERIORES: 2011 – Amy Adams (O Vencedor) | 2010 – Marion Cotillard (Nine) | 2009 – Kate Winslet (O Leitor) | 2008 – Marcia Gay Harden (O Nevoeiro) | 2007 – Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)

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ESCOLHA DO PÚBLICO:

1. Viola Davis, por Histórias Cruzadas (49.06%, 26 votos)

2. Shailene Woodley, por Os Descendentes (18.87%, 10 votos)

3. Judi Dench, por 007 – Operação Skyfall (16.98%, 9 votos)

4. Janet McTeer, por Albert Nobbs (8%, 4 votos)

5. Sandra Bullock, por Tão Forte e Tão Perto (7.55%, 4 votos)

Django Livre

Django. The D is silent.

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Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino

Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Jonah Hill, Walton Goggins, Dennis Christopher, James Renar, David Steen, Dana Michelle Gourrier, Nichole Galicia

Django Unchained, EUA, 2012, Aventura, 165 minutos

Sinopse: Django (Jamie Foxx) é um escravo liberto cujo passado brutal com seus antigos proprietários leva-o ao encontro do caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Schultz está em busca dos irmãos assassinos Brittle, e somente Django pode levá-lo a eles. O pouco ortodoxo Schultz compra Django com a promessa de libertá-lo quando tiver capturado os irmãos Brittle, vivos ou mortos. Ao realizar seu plano, Schultz libera Django, embora os dois homens decidam continuar juntos. Desta vez, Schultz busca os criminosos mais perigosos do sul dos Estados Unidos com a ajuda de Django. Dotado de um notável talento de caçador, Django tem como objetivo principal encontrar e resgatar Broomhilda (Kerry Washington), sua esposa, que ele não vê desde que ela foi adquirida por outros proprietários, há muitos anos. (Adoro Cinema)

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Os montadores e roteiristas da temporada 2013 de premiações parecem ter selado um pacto: não finalizar um filme sem que ele tenha, no mínimo, 150 minutos de duração. Só isso para explicar a quantidade de trabalhos desnecessariamente longos que podemos encontrar neste início de ano. A exemplo de Lincoln, Os Miseráveis e A Hora Mais Escura, Django Livre, o novo trabalho de Quentin Tarantino, também perde a chance de ser mais memorável em função dos excessos e da falta do poder de síntese. Mas sejamos justos: a vontade, após a sessão, é de sair correndo do cinema para rever Kill Bill. E isso é, no mínimo, um baita elogio, já que a saga de vingança de A Noiva (Uma Thurman) é, disparado, o grande momento de Tarantino como realizador. Django Livre não chega a alcançar o mesmo nível de empolgação, mas traz o que existe de melhor naquela história – e também o pior de Bastardos Inglórios, por exemplo, o filme que mais trouxe Tarantino flertando perigosamente com a monotonia devido a sua obsessão com diálogos e cenas que desejam ser cults a todo custo.

É por ser tão comprido (quase três horas) que Django Livre não se torna mais um clássico da carreira de Quentin Tarantino. Mas, acreditem, chega perto. Muito mais do que apenas uma homenagem ao chamado western spaghetti, seu mais novo filme traz todo o senso de diversão de Kill Bill, onde os banhos de sangue impactam com a mesma proporção que divertem. A violência, antes de tudo, é um alento nos filmes de Tarantino, especialmente quando ele fala sobre vingança e mais especificamente sobre a crueldade da escravidão – que é retratada de forma nunca vista. Esse, aliás, é um poder que só o diretor parece ter: o de conseguir fazer humor em qualquer situação. Dê qualquer lugar e época para Tarantino e não pense duas vezes: ele vai conseguir fazer algo completamente novo. Só que, como um cinéfilo inveterado, Tarantino também sabe a hora de parar, nunca deixando que seus filmes se tornem meramente paródias vazias. Django Livre não escapa da fórmula, apresentando-se como, sim, uma experiência divertidíssima, mas também como um interessante retrato da escravidão e dos extremos racistas dessa época.

Como um cineasta sempre repleto de referências e estilos facilmente reconhecíveis, Tarantino poderia se acomodar e fazer reciclagens. Django Livre dá pequenos indícios disso, mas tal ideia nunca se confirma: vários momentos lembram sim outros filmes do diretor (uma cena no final nos remete ao duelo de Kill Bill com os Crazy 88), entretanto, o resultado tem personalidade. Os próprios atores entraram no clima. Eles, inclusive, são um show à parte. Impossível falar de Django Livre sem mencionar cada um deles. Começando pelo protagonista, Jamie Foxx, que parecia destinado a um looping eterno de canastrice e que entrega aqui o seu melhor desempenho desde… Ray? Ele faz uma bela parceria com o ótimo Christoph Waltz, ator que contraria qualquer expectativa que seu dr. King Schultz poderia ser repetição do Hans Landa, de Bastardos Inglórios: ele volta a surgir carismático e irônico, com um personagem que, assim como o de Foxx, conquista a nossa torcida. Logo também surge Samuel L. Jackson, surpreendente como o perigoso empregado puxa-saco que é, ao meu ver, o verdadeiro vilão da história (até o “acerto de contas” final é com ele!). Por falar em vilão, quem supostamente ocupa esse cargo é Leonardo DiCaprio, que já provou ser um ator muito seguro há anos, mas que aqui é, possivelmente, o menos interessante do filme – muito prejudicado pelo próprio roteiro, que constantemente lhe sabota com a figura de Jackson, cujo personagem é muito mais esperto que o seu (o que praticamente castra a figura de DiCaprio, já que ele sim deveria ser o mais temido).

Os personagens marcantes de Django Livre e os afiadíssimos atores são bem comandados por Tarantino, integrando uma história bastante simples que ganha contornos pra lá de especiais nas mãos de seu comandante. O problema, todavia, como já ressaltado, é o frequente prolongamento do filme. Em um primeiro momento, o espectador pode estranhar que a premissa apresentada nos primeiros minutos termine com basicamente meia hora de filme. Nem sempre é uma jogada esperta apresentar um conflito, terminá-lo logo em seguida para, depois, mostrar que ele era apenas um pretexto para que a grande problemática começasse de fato. Não foi um grande incômodo (apenas um estranhamento), até porque o problema real vem depois: a introdução do personagem de Leonardo DiCpario. É nesse momento que Django Livre perde o passo, dando destaque demais para uma apresentação que não impacta e para um personagem não se diferencia em nada das crueldades de nenhum outro que simboliza racismos na trama. Esse tempo perdido é precioso, o que podemos atestar nos últimos momentos, quando o roteiro se dá conta que ainda tem muito a contar e faz tudo às pressas para chegar a uma conclusão. Aí Django Livre deixa aquela estranha sensação de que tem vários finais…

É por casos como os de Django Livre que sempre sou a favor de filmes enxutos. Quanto mais se corta, mais a essência fica evidente. E a nova história contada por Tarantino merecia ser mais objetiva. No entanto, estamos falando dele, que vez em quando tem seus excessos no roteiro, mas que nunca erra na direção. Não é diferente nesse longa. É um universo tão particular de Tarantino, um humor executado de forma tão interessante com caricaturas  e insanidades bastantes eficientes que, no final das contas, os méritos falam mais alto, principalmente porque eles subvertem com inteligência todo um tema e uma época. Sem falar que, em Django Livre, o negro tem personalidade e não é totalmente vitimizado. Mesmo ajudado por um branco (no caso, o personagem de Waltz, que odeia a escravidão e trata os negros com normalidade mas que tampouco é vendido como o herói do dia), o negro faz sua própria justiça, sua própria história. E isso é o verdadeiro Tarantino: ousadia, originalidade, homenagem, subversão e… diversão. Alguém consegue lembrar de outro diretor que faça parecido?

FILME: 8.5

4

Melhores de 2012 – Animação

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A carreira de Tim Burton parecia fadada ao fracasso com Sombras da Noite. Porém, bastou Frankenweenie entrar em cartaz para percebermos que o diretor ainda pode trabalhar seus elementos favoritos sendo original, divertido e envolvente. Em sua mais nova animação, Burton faz várias referências a outros filmes sem nunca perder o controle da história, que, apesar do preto-e-branco, é acessível para todos os públicos. Com um excelente ritmo e um impecável trabalho técnico (também temos a trilha mais inspirada de Danny Elfman em anos!), Frankenweenie traz, com muito frescor, todas as qualidades que fizeram de Burton um diretor reconhecido mundialmente. É uma animação dark mas também afetiva, com alguns personagens bizarros porém adoráveis, e trabalhada a partir de uma trama que foge dos padrões engessados de animações que são apenas cópias umas das outras. Uma grata surpresa.

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OUTROS INDICADOS:

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Na mesma época em que lançou o monótono Cavalo de Guerra, Steven Spielberg mostrou um senso diferente de diversão com As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne / Com roteiro de Keiko Niwa em parceria com o mestre Hayao Miyazaki, O Mundo dos Pequeninos é mais uma animação japonesa especial por ser feita com o coração.

EM ANOS ANTERIORES: 2011 – O Ursinho Pooh | 2010 – Mary & Max: Uma Amizade Diferente | 2009 – Up: Altas Aventuras

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ESCOLHA DO PÚBLICO:

1. Frankenweenie (52.94%, 18 votos)

2. As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne (38.24%, 13 votos)

3. O Mundo dos Pequeninos (8.82%, 3 votos)

Os Miseráveis

There are storms we cannot weather…

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Direção: Tom Hooper

Roteiro: William Nicholson, baseado no espetáculo “Les Misérables”, de Alain Boublil e Claude-Michel Scönberg, e na obra homônima de Victor Hugo, com canções adaptadas para o inglês por Herbert Kretzmer

Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Eddie Redmayne, Amanda Seyfried, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen, Samantha Barks, Aaron Tveit, Colm Wilkinson, Georgie Clen, Andy Beckwith

Les Misérables, Inglaterra, 2012, Musical, 158 minutos

Sinopse: Adaptação do musical da Broadway, que por sua vez foi inspirado em clássica obra do escritor Victor Hugo. A história se passa em plena Revolução Francesa do século XIX. Jean Valjean (Hugh Jackman) rouba um pão para alimentar a irmã mais nova e acaba sendo preso por isso. Solto tempos depois, ele tentará recomeçar sua vida e se redimir. Ao mesmo tempo em que tenta fugir da perseguição do inspetor Javert (Russell Crowe). (Adoro Cinema)

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Os musicais contemporâneos desaprenderam a desenvolver aquela que é a principal lógica do gênero: a de que a música é o principal elemento narrativo, servindo para expressar pensamentos e sentimentos dos personagens. Da TV ao cinema, de Glee a Mamma Mia!, os musicais foram reduzidos a meras homenagens de grandes sucessos, onde a trama se adaptava completamente a qualquer situação só para que canções como Hey Jude e Dancing Queen pudessem aparecer. Por isso, nos últimos anos, fomos acostumamos a ver musicais completamente superficiais, quando não exclusivamente comerciais. É por isso que Os Miseráveis, novo longa do diretor Tom Hooper, consegue ser um verdadeiro espetáculo: nele, a música guia todos os momentos e personagens do filme, sendo utilizada, enfim, com o seu verdadeiro propósito.

É bom, porém, estar avisado: Os Miseráveis vai além do simples musical onde, frequentemente, os atores abandonam os diálogos para fazer parte de um número colorido e encenado com precisão. Mais do que nunca, a música é a narração. São 158 minutos de pura cantoria, onde os próprios diálogos são musicalizados e os atores devem falar normalmente durante, no máximo, 5% do filme. Por isso, há de se admirar a coragem do diretor em fazer essa ópera filmada, que deve despertar o ódio e a admiração dos espectadores na mesma proporção. E ainda em tempo: as canções (com letras adaptadas para o inglês por Herbert Kretzmer) foram interpretadas ao vivo pelos atores, sem as tradicionais gravações em estúdio posteriormente. Ou seja, todas essas escolhas fazem de Os Miseráveis um longa bastante polêmico: não existe meio termo, é ame ou odeie.

De qualquer forma, o filme é repleto de elementos dignos do reconhecimento de todos. A começar por aquele que, claro, vem sendo unanimidade: o elenco. O fato do filme ter músicas ao vivo causa estranhamento no início e, certamente, evidencia quais atores cantam melhor (e isso é bom, fugindo da eterna fábula dos musicais onde todos soltam a voz em impecáveis execuções das músicas), mas logo dá para se adaptar a esse formato e passar a admirar o notável trabalho dos atores. Hugh Jackman, como o sempre ansioso Jean Valjean, tem o momento de sua carreira, Anne Hathaway arrepia e emociona em I Dreamed a Dream (e talvez seja apenas isso), Eddie Redmayne surpreende como um coadjuvante de consistência (com direto a um belo momento solo em Empty Chairs at Empty Tables), Samantha Barks é a revelação da vez e outros fazem o que podem com papeis menores. O único porém é Russell Crowe. Não necessariamente por sua voz, mas por não dar a força necessária ao unidimensional inspetor Javert: seus momentos sozinhos são os mais monótonos do longa e fica escancarado o fato de que outro ator teria feito um trabalho muito melhor.

Então, ok, ponto para Tom Hooper que acertou no elenco. Mas também ponto para o próprio trabalho dele atrás das câmeras. Alvo de duras críticas por seus enquadramentos estranhos, suas câmeras angulares e seus primeiríssimos planos, ele se sai admiravelmente bem ao conduzir com plena segurança o lado musical – o que me leva a crer que, sim, todos os prêmios que levou por O Discurso do Rei (não apenas o Oscar, lembrando) foram injustos, mas que ter essa implicância cega com ele em função de prêmios é  resultado de uma percepção muito limitada. Seus maneirismos ainda são incompreensíveis, porém, em Os Miseráveis, ele consegue se sair muito melhor que um Rob Marshall da vida, dando consistência à narração musical e imergindo completamente os atores na proposta diferenciada do filme. Ele também não confunde as linguagens, fazendo um musical de personalidade própria, distanciando-se de outros exemplares que se perderam por cometer exatamente esse pecado: ainda em Marshall, lembram de Nine, que era quase um sonífero por ter quase todos os seus números em um mesmo cenário (no caso, um teatro)?

Hooper vai pagar caro por todas essas escolhas musicais e por continuar sendo o mesmo de outros filmes, mas também vai proporcionar um deleite para os fãs do gênero – como é o meu caso: saí completamente em êxtase após a sessão, onde o público chegou a aplaudir o resultado no final. Independente das opiniões divergentes, há de se reconhecer pelo menos a ousadia do diretor, que saiu de um singelo filme de época para a adaptação de um musical mundialmente conhecido e cultuado. Os caminhos fáceis estão ali (existe escolha mais simplória do que tomadas aéreas com letreiros pra mostrar a passagem do tempo?), as questões políticas são apenas pano de fundo e os diálogos cantados cansam em certo momento (dá para diferenciar quais são os números mais “importantes” e as meras conversas cantaroladas que não precisavam ser necessariamente assim)… Só que Os Miseráveis não se perde no meio de tantos personagens (até o alívio cômico de Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen não chega a incomodar) e alcança tons frequentemente épicos, seja em termos de produção ou de momentos dramáticos. É preciso embarcar nesse melodrama, nesse exagero, até porque não faz muito sentido esperar outra coisa de um musical com tal título.

Obrigando o espectador preguiçoso com o gênero a prestar atenção nas letras para compreender tudo o que se sucede na tela, Os Miseráveis, vale sempre repetir, é uma experiência única, mas para poucos. Pouquíssimos, melhor dizendo. Entretanto, a história não seria mesma sem a música porque nada ali chega a ser mais instigante. Se fosse contado de forma convencional, seria quadrado, monótono e muito mais suscetível a exageros e clichês. A música torna Os Miseráveis grandioso, dá um outro tom, faz o espectador entrar com mais emoção naquele mundo. Aliado, claro, a um design de produção impecável, que tem o poder de transportar qualquer um para dentro da Revolução Francesa, que está bem tematizada nas figuras dos jovens revolucionários. Os detratores de Tom Hooper que me desculpem, mas não é qualquer um que consegue segurar um filme como esse. E, bem como o último grande musical que vimos (Moulin Rouge! – Amor em Vermelho), Os Miseráveis é assim: para se abraçar completamente ou para se renegar com todo o fervor.

FILME: 9.0

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