Do your past failures bother you?

Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Laura Dern, Mike Howard, Jillian Bell, Kevin J. O’Connor, Patty McCormack, Barbara Brownell, Brady Rubin, Christopher Evan Welch, Barlow Jacobs
The Master, EUA, 2012, Drama, 144 minutos
Sinopse: Ao término da Segunda Guerra Mundial, o marinheiro Freddie Quell (Joaquin Phoenix) tenta reconstruir sua vida. Traumatizado pelas experiências em combate, ele sofre com ataques de ansiedade e violência, e não consegue controlar seus impulsos sexuais. Um dia, ao acaso, ele conhece Lancaster Dodd (Phillip Seymour Hoffman), uma figura carismática e líder de uma organização religiosa conhecida como A Causa. Reticente no início, ele se envolve cada vez mais com este homem e com suas ideias, centradas na ideia de vidas passadas, cura espiritual e controle de si mesmo. Freddie torna-se cada vez mais dependente deste estilo de vida e das ideias de seu Mestre, a ponto de não conseguir mais se dissociar do grupo. (Adoro Cinema)

Com apenas 42 anos, Paul Thomas Anderson já tem uma das mais respeitáveis e consistentes carreiras entre os cineastas da atualidade. Responsável por dois grandes clássicos dos anos 1990 (Boogie – Nights – Prazer Sem Limites e Magnólia), ele volta e meia apresenta filmes que podem até não ser unânimes (Sangue Negro não tem o meu entusiasmo), mas que serão lembrados como alguns dos mais importantes de suas respectivas época. E Anderson volta a alcançar esse feito com O Mestre, um longa-metragem mais independente que não fez grande carreira nos Estados Unidos e que, mesmo não recebendo o merecido reconhecimento, é um verdadeiro arraso.
É complicado rivalizar com o desafio temático de Boogie Nights ou com a magnitude narrativa de Magnólia, mas é bem possível que O Mestre seja o filme mais difícil da carreira de seu diretor, especialmente por causa do roteiro – escrito pelo próprio Anderson – que é repleto de metáforas acerca dos temas que estão ali camuflados. Seria fácil defini-lo como um relato sobre o surgimento da Cientologia (que ganhou maior visibilidade devido aos devaneios de Tom Cruise em programas de TV), apelidada de “A Causa”, em O Mestre. O retrato feito por Anderson é muito maior, podendo se encaixar em qualquer definição: é sobre o poder da palavra? Inquietações? Fragilidades? Manipulação? Sim, tudo isso e muito mais, em um resultado que pede revisões.
O melhor de tudo é que o diretor constrói uma trama complexa sem se utilizar de grandes artifícios (pelo contrário: percebam como ele usa recursos até mesmo batidos como o flashback de forma arrebatadora), nunca abandonando a aritmética básica dos melhores dramas, onde roteiro, direção e atuação caminham juntos e se complementam. O Mestre, portanto, é simples, sobre pessoas e processos, apoiado muito mais nos três aspectos citados do que em qualquer outro artifício. Isso se reflete na própria figura do mestre do título, o Lancaster Dodd vivido por Philip Seymour Hoffman: afinal, qual é a dele? Estamos diante de um oportunista ou de um visionário? Tanto Hoffman quanto Anderson no roteiro e na direção nos levam para essa inquietação orquestrando os elementos mais básicos de um drama com uma segurança assombrosa.
Assim como o protagonista Freddie Quell (Joaquin Phoenix) entra no mundo d’A Causa muito mais pelo acaso e pela curiosidade, nós também vamos juntos com ele, até que, aos poucos, mergulhamos cada vez mais fundo naquele mundo. Especialmente porque o mestre de Hoffman não é unidimensional: conforme o filme se desenvolve, mais sabemos sobre ele – e também sobre as suas inquietações, contrariedades e intolerâncias. A Cientologia/A Causa é, claramente, uma alusão a qualquer religião: todos nós precisamos de um mestre, seja ele quem for, para termos certo conforto nesse mundo? Mas até que cheguemos a esse ponto do filme, onde o filme alcança o auge do envolvimento, O Mestre é bastante subjetivo, deixando o espectador decidir por si só o que significa tudo aquilo – e talvez seja justamente essa falta de respostas fáceis que tenha feito o filme naufragar lá fora.
Inegavelmente, é um roteiro muito bem pensado e intrigante, que só poderia ser conduzido com igual maturidade por um sujeito como Paul Thomas Anderson que, aqui, repete outro de seus mais incríveis talentos: a direção de atores. E quanto aos desempenhos… Que show! Que talento! Joaquin Phoenix, todo corcunda e estranho para mostrar a vida autodestrutiva do protagonista, consegue driblar com maestria o papel do sujeito difícil, inconsequente e que parece sem salvação, em uma interpretação superlativa. E o mesmo pode se dizer de Philip Seymour Hoffman, que aqui volta a reafirmar seu posto de melhor ator em atividade. Com a missão mais difícil de O Mestre, ele nunca transforma o seu Lancaster em um sujeito caricato ou inexpressivo demais para trabalhar as suas sutis dubiedades. Com esse furacão todo da dupla, Amy Adams é um ponto de equilíbrio, fazendo um tipo diferente do angelical que já virou uma de suas marcas ao conjugar discrição, força e complexidade nas mesmas proporções.
Todavia, é a dinâmica entre Phoenix e Hoffman que se torna o ponto-chave de O Mestre. “Quem gosta de você a não ser eu?”, grita Dodd em um determinado momento para o inconsequente Freddie, explicitando um outro questionamento extremamente interessante do filme: afinal, por que alguém inteligente como ele decidiu acolher um sujeito que parece ter só a tragédia como destino? Uma vontade genuína de ajudar? Ou uma forma de salvar a vida de alguém e usar esse exemplo para prosperar com A Causa? Juntos, eles trazem os melhores momentos de O Mestre, com várias cenas dramaticamente intensas (a primeira “sessão” entre os dois é um primor), mas não conseguem livrar o filme de um difícil fardo: o de ser uma experiência para poucos. Nunca prejudicado pela sua duração, o novo trabalho de Anderson, em contramão, faz um estudo temático fascinante e ainda tem a seu serviço um elenco simplesmente extraordinário. O tempo deve fazer justiça a O Mestre.
FILME: 9.0
