As Sessões

I believe in a God with a sense of humor. I would find it absolutely intolerable not to be able to blame someone for all this.

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Direção: Ben Lewin

Roteiro: Ben Lewin, baseado no artigo “On Seeing a Sex Surrogate”, de Mark O’Brien

Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Annika Marks, Adam Arkin, Moond Bloodgood, W. Earl Brown, Robin Weigert, Ming Lo, Tobias Forrest, Jarrod Bailey, Blake Lindsley, Rhea Perlman

Sinopse: Mark O’Brien (John Hawkes) é um escritor e poeta que, ainda criança, contraiu poliomielite. Devido à doença ele perdeu os movimentos do corpo, com exceção da cabeça, e precisa passar boa parte do dia dentro de um aparelho apelidado de “pulmão de aço”. Mark passa os dias entre o trabalho e as visitas à igreja, onde conversa com o padre Brendan (William H. Macy), seu amigo pessoal. Sentindo-se incompleto por desconhecer o sexo, Mark passa a frequentar uma terapeuta sexual. Ela lhe indica os serviços de Cheryl Cohen Greene (Helen Hunt), uma especialista em exercícios de consciência corporal, que o inicia no sexo. (Adoro Cinema)

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Jornalista e poeta, Mark O’Brien teve poliomelite quando criança e ficou com o corpo paralisado do pescoço para baixo. Sua vida já havia sido retratada em um documentário de curta-metragem, Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien, de Jessica Yu, que chegou a vencer o Oscar em sua respectiva categoria em 1997. Agora, a vida de O’Brien recebe um enfoque diferente, dessa vez dramatizado, em um filme muito bem sucedido chamado As Sessões. Dirigido pelo polonês Ben Lewis, o longa estrelado por John Hawkes e Helen Hunt começou sua trajetória de sucesso no Festival de Sundance, onde ganhou merecidamente o prêmio especial do júri e do público. As Sessões é um filme que lida muito bem com a circunstância física do protagonista e com a trajetória emocional não só dele mas também de Cohen (Hunt), uma mulher especialista em “exercícios de consciência corporal”. Um pequeno grande acerto repleto de características que diferenciam sua abordagem de tantos outros relatos sobre um personagem como O’Brien.

As Sessões é, basicamente, sobre a descoberta sexual – mas também afetiva – do jornalista e poeta que, com mais de 30 anos, ainda era virgem. Lembro particularmente dessa temática em uma história secundária de Livre Para Voar, onde a personagem de Helena Bonham Carter queria saciar o seu desejo nunca realizado (devido a sua deficiência) de ter uma experiência sexual. É sempre muito humano ver histórias como essa (o recente Ferrugem e Osso também fala bastante do assunto), já que, normalmente, o cinema se preocupa muito mais em reproduzir as deficiências físicas para dar grandes chances a um ator do que de fato fugir do lugar-comum e fazer algo mais humano e menos apelativo. Por isso, é gratificante ver um longa como As Sessões, que pouco se preocupa em mostrar as lamúrias de um personagem que não consegue mover o corpo: o que interessa aqui é a sua humanidade e suas necessidades tão básicas como a de qualquer outro ser humano. Para isso, o diretor Ben Lewis traz uma visão espirituosa e leve da vida de O’Brien. Mas um espirituoso diferente de Intocáveis, por exemplo, que ficava constantemente fazendo humor com a condição de um de seus protagonistas.

Talvez o carisma do filme também se deva muito ao do próprio O’Brien, sujeito que, mesmo com tantas inseguranças e algumas ingenuidades, tinha uma visão positiva da vida. Comunicativo e bem humorado, era uma figura cativante, o que é bem explorado pelo roteiro de As Sessões, baseado no artigo “On Seeing a Sex Surrogate” (publicado na revista Sun em 1990). Mas voltemos ao assunto que é o mote do filme: a relação dele com a especialista Cohen. Em seis sessões (número máximo definido por ela), ele aprenderá tudo sobre o ato sexual e sobre como fazê-lo em sua condição física. Ao longo das sessões, ele passa não apenas a desenvolver esses objetivos como também a conhecer melhor a própria Cohen. Surge, então, uma dinâmica genuína de cumplicidade, retratada por um diretor que retrata a questão sexual com naturalidade e que nunca se aproveita de toda a circunstância para se aproveitar do emocional. Na realidade, a emoção de As Sessões é resultado das próprias personalidades dos personagens e da relação um tanto inusitada à primeira vista estabelecida por eles.

John Hawkes dá um show de discrição como Mark O’Brien, em uma interpretação cheia de desenvoltura. Antes fosse apenas um trabalho corporal: o ator, que começou a ser reconhecido por Inverno da Alma está sempre em plena sintonia com a  igualmente eficiente Helen Hunt – uma atriz que nunca conseguiu emplacar depois de Melhor é Impossível e que aqui tem o seu melhor momento em anos. Ambos demonstram plena entrega aos papeis, principalmente ela, que é frequentemente vista totalmente nua, sem qualquer preocupação com vaidades. Se As Sessões tem seus melhores momentos quando os dois estão juntos, a história também se sustenta muito bem narrando a vida separada dos dois. Só que o mais importante é como o resultado nunca chega à linha do previsível em qualquer aspecto: a história não é quadrada como uma biografia, não confunde seu clima espirituoso com comédia e não tem grandes pretensões de fazer algo genial. É um filme que tem um resultado certeiro dentro de sua estrutura linear e que conquista justamente por essa cativante simplicidade.

É uma excelente surpresa que, uma vez ou outra, parece flertar além da conta com o emotivo e com o melodrama mas que, ao invés de soar irritante, até consegue emocionar (principalmente nos minutos finais). Isso porque As Sessões está longe de querer ser uma lição de vida e de se preocupar em esmiuçar desnecessariamente alguns fatos, como o fato de Cohen ajudar pessoas com deficiência a desenvolver conhecimento prático sobre o ato sexual mesmo sendo casada e prestes a se converter ao judaísmo. A religião, por sinal, não é um dos pontos fortes do longa: o que se reflete na figura do padre vivido por William H. Macy, quase um “anexo” do que está sendo narrado. Entretanto, o importante do filme de Ben Lewis é a preocupação em falar sobre o ser humano, sobre os pequenos detalhes da vida… Um pequeno filme que coloca todos no mesmo patamar, onde a condição do protagonista é apenas pretexto para que se fale sobre sentimentos, frustrações e esperanças. Especial em sua humildade, As Sessões merece reconhecimento pela forma humana com que lida com questões tão delicadas.

FILME: 8.5

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3 comentários em “As Sessões

  1. Pingback: Ponto Crítico – Fev/13 | Cine Resenhas

  2. Assisti a este filme no final de semana e gostei muito. Achei que o diretor/roteirista conduziu a trama de uma forma muito bonita, respeitosa e sensível. Especialmente tendo em vista o tema principal de seu filme, que poderia render certa polêmica. Concordo com seu comentário que liga o carisma do filme à figura do Mark O’Brien e a forma como ele encarava a vida. Adorei também as atuações de Helen Hunt e John Hawkes.

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