Cinema e Argumento

Abertas as inscrições para o 41° Festival de Cinema de Gramado

41festAtenção, realizadores! Já estão abertas as inscrições para o 41° Festival de Cinema de Gramado. Até o próximo dia 27, o evento, que acontece de 9 a 17 de agosto na cidade gaúcha, recebe filmes para todas as mostras competitivas. No ano passado, o Festival superou inúmeros problemas financeiros e administrativos, realizando uma edição bastante celebrada. A excelente mostra nacional foi o ponto forte da seleção de 2012: além do divertido Colegas (vencedor do júri oficial) e do excelente O Som ao Redor (premiado pelo júri popular e da crítica), a mostra trouxe outros ótimos exemplares, como o difícil e intenso O Que Se Move. Entre os estrangeiros, Artigas, La Redota foi o grande vencedor. Nos curtas nacionais, Menino do Cinco faturou todos os prêmios principais. Já entre os gaúchos, Elefante na SalaGarry dividiram as atenções. Essa retomada artística e administrativa do Festival agora segue na 41ª edição, que volta a contar com José Wilker, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho na curadoria dos longas. O regulamento completo pode ser conferidos no site oficial: http://www.festivaldegramado.net

Amor Profundo

Beware of passion, Hester. It always leads to something ugly.

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Direção: Terence Davies

Roteiro: Terence Davies, baseado na peça homônima de Terence Rattigan

Elenco: Rachel Weisz, Tom Hiddleston, Ann Mitchell, Simon Russell Beale, Karl Johnson, Jolyon Coy, Harry-Hadden Paton, Sarah Kants, Oliver Ford Davies, Barbara Jefford, Mark Tandy, Nicolas Amer

The Deep Blue Sea, EUA/Inglaterra, Drama, 98 minutos

Sinopse: Na década de 1950, Hester Collyer (Rachel Weisz) é a jovem esposa de um importante juiz do Estado, Sir William Collyer (Simon Russell Beale). Envolvida em um casamento afetuoso, mas sem contato sexual, Hester inicia uma relação fulgurosa com um piloto aéreo (Tom Hiddleston) perturbado por suas experiências durante a guerra. Quando a relação entre os dois é descoberta, Hester decide cometer suicídio. Mas quando os planos falham, ela começa a questionar as escolhas que fez em sua vida. (Adoro Cinema)

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Há quem questione o fato de Rachel Weisz ter vencido praticamente todos os prêmios possíveis por interpretar Tessa Quayle em O Jardineiro Fiel. Ela tinha uma concorrente de peso e tão boa quanto (Michelle Williams, por O Segredo de Brokeback Mountain), mas é meio injusto dizer que Weisz não merecia celebrações pelo filme de Fernando Meirelles. Isso porque poucas vezes ela foi devidamente aproveitada como naquele filme. Depois de O Jardineiro Fiel, no entanto, a carreira dela não mudou muito e foram raríssimas as suas chances de destaque (lembro com carinho apenas de sua pequena participação em Um Beijo Roubado), mas agora ela tem mais uma grande oportunidade de colocar seu talento à mostra em Amor Proundo, um longa que dá várias circunstâncias para Weisz brilhar frente às câmeras. O resultado é não apenas um dos momentos mais interessantes da carreira da atriz. Ela própria consegue ser muito maior que o próprio filme.

Baseado na peça homônima de Terence Rattigan, Amor Profundo quer ser um mini-clássico dos filmes de romance com protagonistas complicadas que não conseguem ter sucesso em qualquer investida amorosa. Tudo colabora para isso: Londres, década de 1950, cenários tomados por fumaça de cigarro, vocabulário elegante, frases prontas, figurinos bem desenhados, fotografia nebulosa, e por aí vai. É um trabalho que emula bastante a técnica britânica de fazer histórias nesse formato. Ponto positivo, portanto, para o filme, que consegue ser eficiente quando leva o espectador para o universo da personagem, tornando aquele determinado pedaço de tempo e espaço completamente críveis. Na técnica, o trabalho de Terence Rattigan é certeiro ao fazer a devida ambientação e tem o mérito de transpor o espetáculo original para as telas de cinema sem qualquer confusão entre as linguagens.

A situação já é outra quando o assunto é dramaticidade, pois o maior problema de Amor Profundo é o fato do roteiro não conseguir dar conta da protagonista. A Hester Collyer de Rachel Weisz parece não caber no filme. Mesmo com um ritmo arrastado, o texto tem dificuldade em processar e transmitir tudo o que se passa com a protagonista. Saindo de um casamento infeliz e arriscando seu destino com uma paixão que pode não lhe dar o mais seguro dos futuros, ela vai da paixão à tentativa de suicídio sem que o filme acompanhe essa turbulência de emoções. Se muito parece acontecer dentro dela, o mesmo já não se pode dizer de Amor Profundo, que está sempre carente de maiores intensidades. Por isso mesmo, é completamente normal sentir que que algo está sempre faltando ou que as motivações de Hester nunca ficam muito claras ou até mesmo convincentes.

É por não estar em sintonia com o intenso emocional de sua protagonista que Amor Profundo termina como apenas uma experiência mediana. Em suma, cobertura demais para pouco recheio. O ponto alto, claro, é Rachel Weisz, que chegou a ser eleita a atriz do ano pela associação de críticos de Nova York e figurar entre as cinco finalistas de melhor atriz dramática no Globo de Ouro. Ela é a principal responsável por Amor Profundo ter certa força dramática. Uma vez ou outra, o filme lhe dá oportunidades para desfrutar de bons momentos com Simon Russell Beale, um coadjuvante que consegue elevar o filme a um outro patamar: toda vez que a Hester de Weisz contracena com o marido traído e ainda apaixonado de Beale, o filme de Terrence Davies ganha uma força extra. Perto do todo, no entanto, é pouco para tornar a experiência empolgante ou emocionante.

FILME: 6.5

3*

Três atores, três filmes… com Luíza Cerioli

luizatresQuando convidei a Luíza para participar do Três atores, três filmes, tinha certeza que receberia uma lista de respeito. E eu não estava errado! Mais do que isso, além da lista ser realmente ótima, me identifico bastante não só com as escolhas da Luíza para esse post, mas também com as preferências cinematográficas dela como um todo – o que só me deixa ainda mais contente de tê-la participando dessa seção. Dos semestres que fomos colegas em um curso de inglês aos papos que tivemos posteriormente, concordamos bastante quando o assunto é cinema. Portanto, fiquem abaixo com a lista e os comentários igualmente excelentes da Luíza, que traz duas divas de épocas bastante distintas em momentos muito emblemáticos de suas respectivas carreiras e um ator cuja performance escolhida representa a verdadeira era de ouro de sua carreira.

Nicole Kidman  (Moulin Rouge! – Amor em Vermelho)

Moulin Rouge! está no topo da lista dos meus filmes favoritos. Não só porque amo musicais e considero esse filme um marco definidor do que é o estilo musical moderno, mas porque é a obra mais genial de Baz Luhrmann. É genial nos detalhes: na oposição do satânico (Satine), vermelho e sensual, ao cristão (Christian), azul e inocente; na composição das músicas; no figurino; no cenário; nas coreografias… O grande destaque é a Satine de Nicole (como minha singela homenagem, esse é o nome da minha gata): um personagem que podia ter sido facilmente transformado em caricatural e que, a meu ver, pôde, nas mãos de Nicole, ser habilmente dosado. A personagem é extravagante quando precisa ser, sensual, cômica ou romântica e, ao chegar ao último ato do filme, a mutação da personagem nos parece extremamente natural e condizente. Além disso, como não derreter com a voz de choro de Nicole cantando “Come What May” ? Nicole está totalmente confortável nesse papel, dominando todas as cenas em que aparece. Depois de Moulin Rouge!, mesmo com filmes péssimos em seu currículo, Nicole é minha eterna musa. Até hoje não aceito o Oscar da Halle Berry aquele ano…

Bette Davis (O Que Terá Acontecido a Baby Jane?)

Sim, tenho uma queda por musas. Dificil foi decidir entre A Malvada ou Baby Jane. Fico com Baby Jane exatamente porque esse papel exige um abandono do conceito de musa. Baby Jane é, no final das contas, uma personagem extremamente frágil e desequilibrada, que não consegue lidar com a culpa e muito menos com o fracasso. Não é fácil fazer uma batalha de egos com Joan Crawford, mas, na minha singela opinião, Davis ganha fácil: suas risadas maquiavélicas, seu desespero ao se encarar no espelho, seu desligamento da realidade ao cantar “i’ve writen a letter to daddy”, toda cheia daquela maquiagem detestável… Davis está fantástica! E como não se arrepiar no fim? O filme é extremamente psicológico, com um final genial (é difícil lembrar um thriller que tenha um final tão inesperado como esse) e digno de milhões de análises sobre as duas personagens: que fim levaram? Quem realmente era a bandida da história? E, sim, também me pergunto o que terá acontecido com o Oscar de Baby Jane…

Tom Hanks (Forrest Gump – O Contador de Histórias)

Podem falar o que quiser: Tom Hanks é clichê, Forrest Gump é chichê, etc e tal… Mas, como não pensar que é vida é uma caixinha de chocolates ou que podemos fazer qualquer coisa com camarões? Como não sorrir ao se lembrar de Bubba e da Mamma? E de uma das trilhas sonoras mais perfeitas da face da terra? Tudo isso não seria o mesmo se não tivesse o então magrinho Tom Hanks nos guiando por toda uma historia incrível desse personagem meio abobado, mas que soube realmente o que é amar. Além, que realmente viveu a época mais intensa dos EUA: guerra da Coreia, segregação racial, a contracultura, as drogas, a AIDS… E a palavra que define a atuação de Hanks nesse filme é singeleza. Se pararmos para pensar, é incrível como um filme consegue lidar com tantos tópicos tão intensos como esse e terminar com um Forest emocionado, sorridente, doce, colocando seu pequeno no ônibus para a escola? 

A Morte do Demônio

You… have… to get me… out of here.

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Direção: Fede Alvarez

Roteiro: Fede Alvarez e Rodo Sayagues, baseado no roteiro de Sam Raimi para o filme homônimo de 1981

Elenco: Jane Levy, Shiloh Fernandez, Lou Taylor Pucci, Jessica Lucas, Elizabeth Blackmore, Sian Davis, Jim McLarty, Phoenix Connolly, Randal Wilson, Stephen Butterworth, Karl Willetts

Evil Dead, EUA, 2013, Terror, 91 minutos

Sinopse: Mia (Jane Levy) é uma garota viciada em drogas. Ela é levada pelos amigos Olivia (Jessica Lucas) e Eric (Lou Taylor Pucci) para uma cabana isolada na floresta, no intuito de realizarem uma longa cura de desintoxicação. Para a surpresa de todos, o irmão de Mia, David (Shiloh Fernandez), rapaz afastado dos amigos e familiares há tempos, também aparece, junto de sua namorada, Natalie (Elizabeth Blackmore). Entretanto, eles são surpreendidos ao descobrirem que a cabana havia sido invadida, e que o porão parece uma espécie de altar grotesco, repleto de animais mortos. Lá eles encontram um livro antigo, trancado. Atraído, Eric resolve abri-lo e lê-lo em voz alta, sem imaginar as consequências de seus atos. Mia começa a manifestar um comportamento estranho, interpretado no início como sintoma da abstinência. No entanto, aos poucos, todos percebem que uma força demoníaca se apoderou de seu corpo. (Adoro Cinema)

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O cenário já é conhecido: a casa caindo aos pedaços no meio de uma floresta isolada de tudo e de todos. Mais conhecido ainda é quem protagoniza a história dentro dela: um grupo de jovens com diferentes personalidades. E é claro que, mesmo com situações que já assustariam qualquer pessoa sã, eles vão inventar uma desculpa para permanecer lá. E quando os jovens finalmente se dão conta que a situação ficou feia, surpresa! Uma enchente deixa a estrada submersa, impedindo-os de sair daquele lugar. Bom, em tempos que Mama nos lembra que o terror estadunidense nada mais faz do que reciclar elementos do gênero da forma mais desleixada possível, era no mínimo compreensível esperar que todas essas situações afundassem A Morte do Demônio, refilmagem do filme homônimo de 1981 dirigido por Sam Raimi. Mas como é bom ser surpreendido, não é mesmo? Mais do que isso: como é gratificante sentir um filme de terror! Isso mesmo: A Morte do Demônio fisga o espectador pela angústia, supera as expectativas e ainda consegue ser o melhor exemplar do gênero em anos.

Os fãs do filme original podem ficar tranquilos. Mesmo com o envolvimento de Sam Raimi na produção (o diretor agora é o uruguaio Fede Alvarez), A Morte do Demônio não dialoga diretamente com o filme original dos anos 1980. E é até meio injusto tecer comparações entre os dois, simplesmente porque a obra dirigida por Raimi – incluindo a continuação – hoje já não mete medo em ninguém e é mais lembrada em função de seu humor involuntário e de sua vertente “terrir”. Não é o que acontece com o filme de Fede Alvarez, que pode até ter um senso de diversão bastante apurado – ainda que nunca escancarado ou propositalmente elaborado para causar risadas – mas que tem as suas qualidades centradas justamente na habilidade de colocar o espectador em plena angústia. Por isso, é bom preparar os nervos: Alvarez faz jus à classificação etária máxima e não poupa ninguém ao mutilar personagens e banhar todos em sangue. O melhor de tudo é que todas essas situações nunca parecem exageradas para os padrões do gênero e muito menos descambam para o gore (ok, aqui ou ali sim, mas nada que prejudique) ou para o ridículo. Em termos de violência, A Morte do Demônio sabe até onde deve ir – o que, nos dias de hoje, é algo a ser bastante valorizado.

Sobrevivendo com louvor aos tais detalhes que poderiam minar a paciência de plateias mais exigentes, o longa também tem propostas muito simples em termos de história de terror (possessão, bruxaria, livro de profecias, uma morte a cada 15 minutos), mas o diretor uruguaio apresenta uma desenvoltura impressionante ao manipular todos os bons elementos que colocam enredos desse estilo em outro patamar. Nos primeiros momentos, A Morte de Demônio parece ser uma falsa promessa com suas introduções rasas de dramas e personagens. Porém, basta o tal espírito do mal possuir a personagem principal vivida por Jane Levy para que tudo se ajeite. E não demora muito para que o espectador se encontre em uma nervosa jornada, muito em função da facilidade com que Fede Alvarez torna a violência e o perigo bastante críveis. Dá para sentir que a morte é realmente algo a se temer – o que deveria ser a lógica de todo bom filme de terror. Ponto mais uma vez para o filme que, ainda aliado a um bom trabalho de produção, não deixa que o sangue, por exemplo, vire motivo de risadas como em Kill Bill. Aqui parece de verdade mesmo. Isso conta, e muito!

Com tantos pontos positivos, procurar aspectos para não curtir o filme só tira todo o entretenimento da experiência. Quem se entregar aos pregos, injeções, vômitos e serras elétricas certamente vai encontrar em A Morte do Demônio um dos mais interessantes filmes de terror do cinema recente. O diretor uruguaio sabe exatamente o que o espectador quer – e está precisando depois de uma enxurrada de exemplares falhos -, entregando um longa-metragem direto ao ponto. Ele compreende, acima de tudo, que damos uma chance ao terror porque todos nós temos um lado masoquista. Nós queremos sofrer no cinema, ter nossos limites testados. E, depois de um bom tempo sem ver um exemplar assim, o cinema encontra esse A Morte do Demônio apresentando subsídios para que o espectador saia mais do que satisfeito da sessão nesse sentido. Que bom que não são apenas os filmes de língua latina que ainda conseguem nos deixar tensos (para não citar apenas [REC], também sugiro A Casa). Assim, fica registrada aqui a nossa torcida para que façam outros filmes bem ambientados e executados certeiramente como esse A Morte do Demônio.

FILME: 8.5

4

Rapidamente

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CINDERELA BAIANA (idem, 1998, de Conrado Sanchez): Hoje é visto como um clássico trash do cinema brasileiro, mas na época do lançamento não deve ter sido lá muito engraçado. E, mesmo hoje, tudo é muito sofrido: dá até para se divertir aqui ou ali com uma bobagem, mas, no geral, só testa a paciência do espectador. Renegado pela própria Carla Perez, o filme foi um verdadeiro fiasco de bilheteria, e dá para entender o porquê. Cinderela Baiana simplesmente não é cinema – e não se encaixa nesse universo porque nada faz sentido na história dirigida por Conrado Sanchez. Todos os personagens tem uma notável escalada social e profissional (o que anula a existência de qualquer conflito, já que todos vencem na vida) e é muito questionável a forma um como certas cenas são desenvolvidas: afinal, é drama ou comédia? Vamos também considerar o fato de que Cinderela Baiana dedica 80% de sua duração a acompanhar cenas de dança infinitas que nada acrescentam sequer ao mundo musical tão almejado pela protagonista. O elenco é também um destaque dos horrores: de Carla Perez a Alexandre Pires, todos são incrivelmente ruins. Mas o mistério mesmo é saber de onde Perry Sales tirou tanto fôlego para gritar o tempo inteiro como o vilão maquiavélico que, por ganância, marca dois shows para a protagonista em dois países diferentes no mesmo horário.

HOJE (idem, 2012, de Tata Amaral): Infelizmente, Denise Fraga é mais conhecida pelo quadro cômico Retrato Falado, do Fantástico, do que por seus atributos como atriz dramática. E Hoje é uma bela maneira de conhecer toda essa vertente da carioca que é pouco conhecida pelo grande público. O filme de Tata Amaral é quase que inteiramente encenado em um apartamento, apoiado na dinâmica entre Fraga e o uruguaio César Troncoso. Mesmo com uma breve duração (não são nem 90 minutos), Hoje é quase arrastado, muito em função de ser um filme bastante silencioso e construído apenas em cima de diálogos. Por falar em diálogos, o texto se sai bem ao lidar com várias questões, desde a forma como a ditadura afetou o casal principal aos acertos de contas dos dois com o passado e a vida. Mas a verdade é que Tata Amaral se sai muito melhor quando fala sobre sentimentos. A temática da ditadura aqui foge de discussões banais, mas é quando o filme resolve mostrar como essa terrível fase da história brasileira transformou emocionalmente os personagens durante os anos posteriores é que o filme ganha um fôlego diferenciado. E Denise Fraga, claro, aproveita cada minuto em uma interpretação que já deve figurar entre as mais importantes de sua carreira.

OBLIVION (idem, 2013, de Joseph Kosinski): Em Tron: O Legado, o diretor Joseph Kosinski já havia provado ter uma aptidão muito grande para filmes de ficção. E, com Oblivion, ele continua demonstrando esse talento. No entanto, Kosinski precisa urgentemente de roteiros melhores. Nessa nova produção estrelada por Tom Cruise, o diretor não tem muito o que fazer com um roteiro que não consegue casar uma abordagem mais contemplativa e “cabeça” com os momentos de ação. O resultado é um filme estranho, cansativo, quase tedioso, que, ao longo de 130 minutos, raramente empolga. A trilha de M83, o visual e as escolhas de Kosinski estão ali fazendo uma ótima ambientação, mas a história beira o desinteressante e a má execução de vários elementos da história impede que Oblivion seja sequer um esquecível filme-pipoca. Sem falar que os mais atentos vão perceber várias propostas escancaradamente copiadas, especialmente aquelas envolvendo o mundo de Lunar, exemplar filme de ficção dirigido por Duncan Jones. O trabalho de Kosinski é cheio de boas intenções, mas, infelizmente, o resultado é dos mais decepcionantes.

O SOM AO REDOR (idem, 2012, de Kleber Mendonça Filho): Começou sua trajetória no 40º Festival de Cinema de Gramado (onde levou melhor filme pelo júri popular e da crítica, entre outros) e, aos poucos, ganhou o Brasil e também o mundo – chegando a ficar no TOP 10 de melhores filmes do ano do New York Times. E as honrarias para O Som ao Redor são mesmo merecidas, especialmente porque poucas vezes vimos no cinema brasileiro uma radiografia tão bem realizada sobre uma comunidade específica. Dirigido por Kleber Mendonça Filho – que fez carreira como crítico de cinema e hoje está atrás das câmeras – o filme é todo de personagens que dividem uma zona em comum, sem necessariamente destinar tramas isoladas a cada um deles. A simetria de O Som ao Redor é, possivelmente, o ponto alto do filme: aqui, ninguém sobra ou falta e impressiona a segurança com que Kleber conduz esse elemento tão importante, indo e voltando na vida dos personagens sem deixar pontas soltas. Ou seja, tudo que é mostrado tem alguma razão de estar ali. Não é o tipo de filme que desperta grandes sentimentos – aí cabe a você decidir até que ponto isso é bom ou ruim – mas, certamente, deve ser reconhecido por sua notável harmonia entre roteiro e direção.