Cinema e Argumento

Marieta Severo e a força teatral de “Incêndios”

Marieta Severo é a protagonista da montagem brasileira de Incêndios. Crédito: Leo Aversa

Marieta Severo é a protagonista da montagem brasileira de Incêndios, em cartaz em Porto Alegre de 20 a 22 de março. Foto: Leo Aversa

Wajdi Mouawad, autor libanês de Incêndios, não especifica qual a localização exata da história vivida pela árabe Nawal. Devido à origem do autor, deduz-se que tudo acontece em algum lugar do Oriente Médio. Mas, para Marieta Severo, protagonista da versão brasileira da trama (a primeira de Mouawad a ser encenada no Brasil), a saga de Nawal está longe de ser restrita a personagens de um lugar específico: “Essa é uma história que toca especialmente as mães. Qualquer mãe. Um trabalho que dedico a Zuzu Angel e a todas as mães da ditadura”.

No espetáculo, que fica em cartaz em Porto Alegre de 20 a 22 de março no Theatro São Pedro, Marieta dá vida à Nawal em todas as diferentes fases da personagem. Enfrentando décadas de uma guerra civil que parece nunca ter fim, a protagonista passa seus últimos anos em voluntário exílio no Ocidente, onde morre e deixa em testamento uma difícil missão para seu casal de filhos gêmeos (interpretados por Felipe de Carolis e Keli Freitas): encontrar o pai e também um irmão perdido em seu remoto passado no Oriente. “O que vemos em Incêndios é uma verdadeira tragédia, uma viagem dolorosa do ser humano”, comenta a atriz.

Dirigida por Aderbal Freire Filho, o espetáculo vem de uma trajetória de sucesso no Rio de Janeiro, onde ficou três meses em cartaz. A não-linearidade do texto e o elenco formado por oito atores são os diferenciais da peça em tempos de vícios comerciais do teatro. “O público está acostumado com dois tipos de espetáculos: os musicais e os monólogos. Incêndios vai na contramão, com um outro tipo de proposta. Por isso, muitos se surpreendem com o resultado. E a história é uma espécie de thriller, um quebra-cabeça, mas nada ‘cabeça’ ou intelectualizado. O público tem reconhecido esse mérito e a grande força teatral do texto”, comemora a atriz.

"Uma peça tem que ter ressonância no público. Quero falar sobre assuntos que despertem a curiosidade de quem está assistindo", conta Marieta. Foto: Leo Aversa

“Uma peça tem que ter ressonância no público. Quero falar sobre assuntos que despertem a curiosidade de quem está assistindo”, conta Marieta. Foto: Leo Aversa

Afastada dos palcos desde 2007, quando protagonizou As Centenárias (também de Freire Filho) e atualmente preparando a última temporada do seriado A Grande Família, Marieta revela que sempre procura um aspecto específico quando se envolve com um espetáculo: a identificação do público com a história. Para a atriz, quem está na plateia precisa se interessar intimamente pelo que está no palco. “Uma peça tem que ter ressonância no público. Quero falar sobre assuntos que despertem a curiosidade de quem está assistindo. Incêndios tem muito disso, já que vem em um momento do Brasil onde vivemos uma espécie de guerra civil velada, com vários desaparecimentos nunca resolvidos e mortes por violência”.

Incêndios é um texto originalmente teatral, mas, recentemente, sua saga ganhou uma nova e bem sucedida repercussão mundial com um longa-metragem de mesmo nome dirigido pelo canadense Denis Villeneuve indicado ao Oscar 2011 de melhor filme estrangeiro. Marieta garante que as duas versões se comunicam com o público de diferentes maneiras e que a universalidade da história é um fator que ajuda no processo. “É sobre resgatar a própria história, sobre dois filhos que precisam reconstruir a identidade da mãe antes de procurar as deles. E o público capta tudo isso. Em cena, sentimos um silêncio avassalador da plateia”, conclui a atriz. O resultado foi consagrado nesta terça-feira (11) com o Prêmio Shell de Teatro de melhor direção para Aderbal Freire-Filho.

* Matéria originalmente produzida como parte do trabalho de assessoria de imprensa para o espetáculo “Incêndios”, em Porto Alegre, com a Pauta – Conexão e Conteúdo

A alquimia musical de Marcelo Zarvos

Compositor de trilhas de filmes como "Flores Raras", "O Bom Pastor" e "Lembranças", além dos seriados "The Big C" e "Ray Donovan", Marcelo Zarvos fala ao Cinema e Argumento sobre sua carreira e sobre o trabalho com trilhas para cinema e TV

Compositor de filmes como Flores Raras, O Bom Pastor e Lembranças, além dos seriados The Big C e Ray Donovan, Marcelo Zarvos fala ao Cinema e Argumento sobre sua carreira e o trabalho com trilhas para cinema e TV. Foto: arquivo pessoal

“A alquimia da música e da imagem é algo muito misterioso. Mesmo depois de ter feito quase 50 trilhas, ainda fico frequentemente surpreso e maravilhado com o poder do cinema”, diz o compositor brasileiro Marcelo Zarvos. Ele, que está em cartaz nos cinemas brasileiros com Flores Raras (filme que tem trilha sonora com a sua assinatura), já tem trajetória de 15 anos nos Estados Unidos, mas tudo começou aqui no Brasil mesmo, quando ainda tinha dez anos de idade. Vindo de uma família sem qualquer raiz musical, o compositor revela que sua relação com a música começou de forma muito intuitiva, em uma busca de puro empenho: “Tive que buscar tudo sozinho, mas sempre com muita confiança no caminho que eu queria percorrer. Aos 14 anos, não só sabia que queria fazer música como também que meu desejo era especificamente trabalhar com trilhas para o cinema”.

A adolescência de Marcelo Zarvos foi, portanto, marcada pela prática da música, mesmo que ainda não em termos cinematográficos. Depois de ter passado o início de sua juventude rock na banda Tokyo, ao lado do até então desconhecido Supla, ele deixou o Brasil em 1998, levando na bagagem a certeza de que o estilo de música que tocara durante três anos com aquele grupo musical não era para ele. O último ano em São Paulo foi marcado por uma atenção especial ao universo acadêmico, com aulas de Koelreutter a Antonio Beazan, já se preparando para finalmente se mudar para Boston, onde estudaria composição de cinema no Berklee College of Music. “Quando cheguei lá, percebi que estava muito cedo para me especializar. Assim, passei dez anos tocando e compondo muitos tipos de música, passando por clássico, jazz e MPB. Foi a minha verdadeira base musical na qual me apoio até hoje”, conta.

Mas não demorou muito para que Zarvos começasse a colocar sua verdadeira paixão em prática. Agora, em 2013, o compositor já contabiliza trilhas para os mais variados filmes, como Lembranças, Você Não Conhece Jack e Um Novo Despertar. Dos trabalhos que já realizou, os que mais marcaram o compositor foram Provocação (“Minha primeira trilha orquestral! Não era um filme de grande orçamento, mas, do meu ponto de vista, era enorme. A partir desse projeto, muitas portas se abriram para mim”) e O Bom Pastor (“Foi incrível. Era realmente um filme muito grande, épico. Eu sempre fui fã do Robert DeNiro e a oportunidade de trabalhar com ele foi muito especial”). Tendo como referência nomes como Ennio Morricone, Bernard Hermann, Philip Glass e Hans Zimmer, o compositor diz que o interesse pelo filme em si é sempre o fator principal na hora de assinar um projeto: “Tento trabalhar em filmes que eu também gostaria de assistir. Procuro desafios tanto no estilo do filme como na trilha em si, analisando o que eu posso fazer e o que ainda não fiz. E, obviamente, o roteiro e diretor sempre pesam muito, além do que eles esperam da música e se vão ser bons colaboradores”.

Estendendo seu trabalho musical também ao mundo televisivo, ele já assinou a trilha de seriados premiados e de repercussão. É o caso do recente The Big C, da Showtime, que rendeu um Globo de Ouro e um Emmy de melhor atriz à protagonista Laura Linney. Para esse formato, ele aponta que o processo de criação é bastante similar, mas que os prazos fazem toda a diferença na hora de se pensar a música. “Em um filme, costumamos ter cerca de seis semanas pra completar uma trilha, mas, na TV, temos, no máximo, uma semana por episódio. Outra grande diferença é a possibilidade de criar um mundo musical muito mais amplo, pois temporadas de seriados como The Big C ou Ray Donovan se estendem por doze horas ou mais”.

Sobre as trilhas realizadas atualmente no Brasil, Zarvos diz não ser tão familiarizado com o material. A distância, porém, não o impede de ter suas raízes profissionais por aqui. Uma prova disso é a recente trilha do brasileiro para Flores Raras, de Bruno Barreto, um dos trabalhos mais sensíveis e minimalistas tanto do diretor quanto de Zarvos. Ambos já haviam trabalhado juntos no longa Última Parada 174, e a repetição da parceria foi, para o compositor, um verdadeiro prazer. “Ele me chamou para fazer o filme quando mal tinha um roteiro. E o Bruno tem idéias musicais muito boas, mas também uma grande qualidade que poucos diretores têm: a de escutar o compositor. Embora, obviamente, a decisão final seja sempre dele, o diálogo entre nós sempre é muito legal”.

Com mais dois longas-metragens que levam sua trilha estreando nos Estados Unidos pelos próximos meses, o compositor se mostra entusiasmado com o envolvimento em tais projetos, refletindo a sua vontade de fazer trilhas para filmes que possuem sua admiração. O primeiro é Enough Said, “uma comédia maravilhosa” dirigida por Nicole Holofcener, o outro é The Face of Love, “um drama psicológico muito bacana” estrelado por Annete Benning e Ed Harris. Daqui para frente, ainda sonha em trabalhar com Terrence Malick, Martin Scorsese, Fernando Meirelles e Gaspar Noé, mas, quando questionado sobre qual conselho o Marcelo Zarvos de hoje daria para aquele que começou a trabalhar com música anos atrás, ele indica que a dica seria a mesma para qualquer fase de sua vida: “Acho que seria ter muita paciência e foco, duas coisas difíceis de conquistar em qualquer idade”. Que ele continue com essas duas virtudes por muito tempo!

* Fica registrado por aqui também o nosso agradecimento mais do que especial ao Marcelo, que gentilmente topou dar essa entrevista para o Cinema e Argumento!

Maneiras de fazer um filme

“É um filme que fala sobre aqueles momentos que todos nós passamos, em que uma notícia pequena ou totalmente indiferente reflete diretamente na tua vida e parece que te obriga a mudar alguma coisa nela”. É assim que o diretor Filipe Matzembacher define Cinco Maneiras de Fechar os Olhos, longa que dirigiu com Abel Roland, Amanda Copstein T. S., Emiliano Cunha e Gabriel Motta Ferreira. Só que o filme tem um ineditismo: ele foi concebido, produzido e finalizado em uma cadeira de conclusão de curso. No caso, o curso de cinema da Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Outros trabalhos já tinham sido realizados em ambientes acadêmicos com outras intenções (é o caso de Apenas o Fim, de Matheus Souza), mas Cinco Maneiras de Fechar os Olhos é o primeiro a ser inteiramente elaborado como componente da grade curricular de uma universidade brasileira. Quem quiser conferir o trabalho dos jovens cineastas já pode se programar: o longa entra em cartaz nessa sexta-feira (30), em Porto Alegre, no Santander Cultural (Rua Sete de Setembro, 1028), onde fica até o dia 6, com sessões diárias às 15h, 17h e 19h.

Formandos do período 2011/1, o quinteto de diretores diz que a experiência foi única. Emiliano Cunha, um dos integrantes da equipe de direção, destaca que a experiência foi repleta de desafios, mas também de grandes recompensas: “O maior desafio foi fazer com que toda a turma chegasse a um consenso e a um acordo temático. O processo de construção do argumento foi feito entre quase quinze pessoas, e isso foi divertido, desgastante e trabalhoso… Mas a maior satisfação foi ver a turma se aproximando cada vez mais e tendo prazer em trabalhar para um final em comum. Todos doaram um pouco mais para que conseguíssemos de fato realizá-lo”.

Narrando as mudanças nas vidas de quatro pessoas no momento em que recebem a notícia da morte de uma jovem, Cinco Maneiras de Fechar os Olhos, de acordo com Filipe, não é prejudicado pela direção compartilhada: “tomamos muito cuidado. Lembro ainda da primeira reunião que tivemos e conversamos muito sobre a demanda que cinco diretores traria. Acredito que, no fim do processo, reuniões diárias de horas sobre cada plano da decupagem, sobre cada intenção do elenco, sobre cada corte da montagem, proporcionou para todos nós uma troca ímpar, além de aproximar ainda mais esse grupo”. O diretor também conta que muitas pessoas contam a ele que conseguem enxergar o carinho e o esforço colocado sobre o projeto, em cada minuto do filme. “E essa é uma baita recompensa!”, comemora.

A equipe do filme estará presente na sessão das 19h do dia 01/12 para um bate-papo com o público presente e Emiliano diz estar com altas expectativas para as exibições de Cinco Maneiras de Fechar os Olhos: “Estamos bastante ansiosos para finalmente assistir ao filme em uma tela grande. Das poucas experiências privadas de exibição do filme que tivemos até agora, a resposta foi muito boa. Sou totalmente suspeito para falar isso, mas os depoimentos sempre foram muito elogiosos ao filme. Tenho certeza que contaremos com um público bom”.

Emiliano, além das expectativas, ainda destaca o forte fator de identificação presente na obra: “O filme possui bastante identificação com um público amplo. É um drama com temas delicados, mas aborda a profundidade dos mesmos de uma maneira mais livre, sem apelar para o melodrama”. E Filipe complementa: “Trata-se de um filme pequeno, e acho que a beleza dele está aí. Em pequenos momentos conseguimos enxergar mais sobre a vida e sobre nós mesmos”. Confira o trailer de Cinco Maneiras de Fechar os Olhos:

CINCO MANEIRAS DE FECHAR OS OLHOS
De 30 de novembro a 6 de dezembro
Diariamente às 15h, 17h e 19h
(Debate com a equipe no dia 1º/12 às 19h)
Ingresso: R$ 6,00 (R$ 3,00 para estudantes e pessoas acima de 60 anos)
Santander Cultural
Rua Sete de Setembro, 1028 | Centro Histórico, Porto Alegre – RS

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