Cinema e Argumento

4ª edição do CLOSE começa nesta terça-feira (03)

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Pelo segundo ano consecutivo, o Cinema e Argumento tem o prazer de acompanhar mais uma edição do CLOSE – Festival Nacional de Cinema da Diversidade Sexual. Antes de mais nada, porto-alegrenses, agendem-se: o Festival acontece de 3 a 8 dezembro, celebrando sua quarta edição. Co-realização da Avante Filmes, SOMOS – Comunicação, Saúde e Sexualidade e Museu dos Direitos Humanos do Mercosul, o CLOSE tem exibições no Cinebancários (rua General Câmara, 424) e no Museu dos Direitos Humanos do Mercosul (Praça da Alfândega – Centro).

Ampliando e se renovando ano a ano, o CLOSE tem merecidamente se firmado como um dos principais eventos cinematográficos do circuito alternativo de Porto Alegre. Na última edição, o Festival alcançou uma média de 52 por pessoas por sessão – o que é notável, considerando o tamanho do CineBancários. Neste ano, o público poderá conferir na programação dez filmes brasileiros de curta-metragem incluindo a mostra competitiva, além de várias outras produções que integram a mostra Panorama e a mostra Cinema Social.

A programação do CLOSE 2013 destaca o cinema nacional, que, no último ano, abordou temáticas LGBT com um número surpreendente de produções. Vale lembrar que, aqui no sul, o próprio Festival de Cinema de Gramado elegeu, em 2013, um filme da temática como seu grande vencedor: Tatuagem, de Hilton Lacerda. No CLOSE, as produções ligadas à memória também ganham atenção especial com a valorização de figuras, espaços e lugares representativos para a cultura LGBT em produções ficcionais como Joshua Tree, 1951: A Portrait of James Dean, de Matthew Mishory, sobre a vida de James Dean, e documentais, a exemplo de A Volta da Pauliceia Desvairada, de Lufe Steffen, sobre a cena LGBT paulista nas décadas de 60 a 80 e na atualidade.

A sessão de abertura da quarta edição do CLOSE acontece no dia 3 de dezembro, terça-feira, às 19h, no CineBancários, com a exibição do longa gaúcho Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, de Bruno Polidoro e Cacá Nazário, sobre a vida e obra do escritor Caio Fernando Abreu, também selecionado para a mostra gaúcha da edição deste ano do Festival de Cinema de Gramado. Todas as atividades são gratuitas, com distribuição de senhas a partir de uma hora antes de cada sessão. A programação completa pode ser conferida no site do evento http://www.somos.org.br/close.

Durante os próximos dias, confira aqui, no Cinema e Argumento, a nossa cobertura do CLOSE!

Tatuagem

O Moulin Rouge do subúrbio! A Broadway dos pobres! O Studio 54 da favela!

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Direção: Hilton Lacerda

Roteiro: Hilton Lacerda

Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo García, Sílvio Restiffe, Sylvia Prado, Ariclenes Barroso, Nash Laila, Arthur Canavarro, Clébia Souza, Erivaldo Oliveira, Mariah Texeira, Diego Salvador

Brasil, 2013, Drama, 118 minutos

Sinopse: Brasil, 1978. A ditadura militar, ainda atuante, mostra sinais de esgotamento. Em um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com seus espetáculos e interferências públicas. Liderado por Clécio Wanderley, a trupe conhecida como Chão de Estrelas, juntamente com intelectuais e artistas, além de seu tradicional público de homossexuais, ensaiam resistência política a partir do deboche e da anarquia. A vida de Clécio muda ao conhecer Fininha, apelido do soldado Arlindo Araújo, 18 anos: um garoto do interior que presta serviço militar na capital. É esse encontro que estabelece a transformação de nosso filme para os dois universos. A aproximação cria uma marca que nos lança no futuro, como tatuagem: signo que carregamos junto com nossa história.

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“Por que não podemos ser mais despudorados? Não entendo como aquela escala evolutiva do século XX deu origem a tempos tão conservadores. Pensei que tudo isso fosse passado. É assustador ainda ter que discutir quem merece respeito ou não”. Hilton Lacerda, quando exibiu Tatuagem pela primeira vez, no 41º Festival de Cinema de Gramado, chegou apresentando seu filme exatamente assim: como uma ode à liberdade – seja ela sexual ou de qualquer forma de expressão – em uma época onde as produções televisivas e cinematográficas brasileiras estão cada vez mais caretas. Nunca tivemos tanta liberdade, mas a contracorrente também se mostra cada vez mais vigorosa. Por isso, é gratificante ver que Tatuagem, debut do diretor pernambucano em longas de ficção, dá esse grito contra o preconceito de forma bastante natural – e o melhor de tudo: sem sequer insinuar ser uma planejada panfletagem quadrada da causa LGBT. Sem preconceitos (claro!) e concessões, o filme é aberto ao sexo, a toda forma de amor, ao exagero, às descobertas, ao espírito libertário. E, para construir esse retrato, tem como foco o fictício Chão de Estrelas, um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, onde um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com seus espetáculos e interferências públicas.

Tatuagem se estabelece não como um relato do amor proibido entre Clécio (Irandhir Santos), líder do Chão de Estrelas, e Fininha (Jesuíta Barbosa), um jovem soldado em plena ditadura militar, mas como um mosaico de várias figuras que viviam suas vidas como bem entendiam naqueles tempos. Hilton Lacerda fala sobre um grupo e não sobre uma época ou sobre personagens específicos. Com essa escolha, ele acerta em importantes aspectos, distribuindo muito bem temas e circunstâncias que, caso trabalhadas com foco demasiado, poderiam minar a o interesse pelo longa, como o contexto político (a ditadura é sempre discretamente pontuada com os questionamentos certos) e o romance entre Clécio e Fininha. Em termos narrativos, não existem excessos em Tatuagem, e isso pode ser considerado fruto da experiência de uma carreira conceituada de Lacerda como roteirista (ele tem no currículo filmes como Amarelo MangaFebre do Rato Baixio das Bestas). O mundo gay, as encenações teatrais e a dinâmica do elenco são extremamente críveis, ao passo que o diretor e roteirista também se sai admiravelmente bem ao desenvolver toda a questão sexual de seu filme. Poucas vezes no cinema recente vimos uma produção tão bem resolvida quanto ao seu gênero.

O mundo de Lacerda não está isento de previsibilidades (óbvio que não poderia faltar a figura do bullier no exército que, na realidade, é um curioso enrustido), mas a forma como ele aplica diferentes e interessantes personalidades a cada um dos personagens é consistente, principalmente quando a contextualização – seja da origem do comportamento deles ou da própria ditadura – não sufocam o espaço que cada figura tem para conquistar o espectador. E falar sobre os personagens nos leva, obviamente, ao excelente elenco de Tatuagem. O trio principal, especialmente, é um verdadeiro achado, com desempenhos minuciosos de Irandhir Santos (que, um dia, se o destino for justo, terá o mesmo reconhecimento de Wagner Moura por sua grande versatilidade), Jesuíta Barbosa (um iniciante para se acompanhar de perto, sempre à altura de seu parceiro de cena Irandhir) e Rodrigo García (impagável e com pleno domínio dos exageros de Paulete, personagem que mais explora caricaturas mas que também tem um momento super contido e especial). Excelência reconhecida: no 41º Festival de Cinema de Gramado, Irandhir chegou a levar o kikito de melhor ator, enquanto o filme foi eleito o grande vencedor da mostra competitiva, além de ganhar em outras categorias. Já no Festival do Rio, quem levou a melhor como ator foi Jesuíta.

Tatuagem, no entanto, não é um filme de ritmo dinâmico, justamente por ser mais um retrato do dia a dia de uma trupe do que um filme de reviravoltas ou acontecimentos, apostando em um tom mais pausado como forma de imersão naquele mundo. Infelizmente, a mesma lógica não é aplicada no desfecho, que, certamente, é o momento mais decepcionante de todos. Causa estranhamento a forma apressada com que Tatuagem se encerra. Além de não mostrar (literalmente) um fato que muda por completo a vida do Chão de Estrelas, o roteiro ainda se “livra” de um personagem sem o mínimo de carinho ou lógica por tudo aquilo que ele havia representado ao longo do filme. Tudo acontece às pressas, sem a calma que o filme adotava até então. Por isso, o discurso libertário ao final pode até ser bonito, mas os minutos derradeiros não fazem jus ao resultado como um todo. Desta forma, é fácil sair da sessão de Tatuagem com um forte sentimento de desapontamento, ainda que tais problemas não coloquem em xeque o que o filme havia conquistado até ali. O que faltou foi esse cuidado para dar a Tatuagem um final à altura de seu  discurso e de sua própria relevância, reforçando a sensação de que ele não merece ficar apenas no imaginário do público gay, mas também no de de todos que dizem abaixo ao preconceito.

FILME: 8.5

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Na TV… o que falta em The Newsroom?

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Confesso que, pelas mais diversas razões, demorei para conferir The Newsroom, série da HBO que recentemente deu um (injusto) Emmy de melhor ator em série dramática para Jeff Daniels. E isso é no mínimo estranho, principalmente porque o programa retrata os bastidores da profissão que escolhi: o Jornalismo. Ora, a matemática, para o meu gosto pessoal, era infalível: selo da HBO, duas atrizes que gosto muito no elenco (Emily Mortimer e Alison Pill), contemporaneidade e, claro, um estudo sobre a minha profissão. Porém, The Newsroom está longe de ser uma série cativante e ainda demanda certa paciência para acompanhar pontos específicos do roteiro um tanto irritante escrito por ninguém menos que Aaron Sorkin, vencedor do Oscar por A Rede Social.

A exemplo do que vimos no longa que deu milhares de prêmios para Sorkin, The Newsroom é uma série de diálogos verborrágicos: o silêncio praticamente inexiste na trama, onde todos os personagens falam constantemente. Coloque ainda na mistura discussões políticas e conflitos envolvendo os ideais do Jornalismo e você terá um legítimo Aaron Sorkin. Há quem goste e o texto tem seus atrativos, mas o problema é que, em The Newsroom, o roteirista precisa fazer o que justamente se esquivava de fazer nos filmes que lhe deram visibilidade: desenvolver o lado humano dos personagens. Se A Rede Social e O Homem Que Mudou o Jogo careciam de respostas emocionais aos fatos mais “lógicos” trabalhados, a série da HBO necessita disso para se manter no ar – caso contrário, seria mais fácil acompanhar, por exemplo, o Jornal Nacional e depois ler o livro em que William Bonner narra os bastidores do telejornal.

É quando The Newsroom precisa dar personalidade e sentimentos aos seus personagens que a série dilui várias de suas (boas) discussões jornalísticas e não consegue dar um alento aos diálogos essencialmente informativos e racionais. Aaron Sorkin não sabe humanizar personagens. Suas tentativas são pífias, seja na hora de criar humor (todas as figuras beiram o infantil em suas atitudes) ou quando tenta dimensioná-los com algum romance (a paixão de escritório nunca verbalizada é um clichê já explorado até pelas comédias, como The Office). Se precisa falar de sentimentos ou construir uma relação entre os personagens, Sorkin – que roteirizou toda a primeira temporada – deixa a sensação de que só assistiu a comédias românticas da Sessão da Tarde durante toda sua trajetória cinéfila. Isso também porque todos os casais da série não possuem química alguma. Não vemos faíscas entre eles.

Falando em casais, eles nos levam ao elenco do programa. Fora Jeff Daniels – que, mesmo com o Emmy duvidoso, tem aqui a grande chance de sua carreira não tão inspirada -, todos os outros personagens parecem vindos de uma comédia calcada em tiques. Com isso, a adorável Emily Mortimer frequentemente dá pitis irritantes (que, na realidade, tinham como objetivo torná-la engraçada) e Alison Pill não sabe o que fazer com uma personagem cuja falta de personalidade sentimental mais incomoda do que comove. Também é errada a forma como The Newsroom quer posicionar Leona Lansing (Jane Fonda, convidada, também indicada ao Emmy por sua participação) como vilã simplesmente porque ela vê o Jornalismo como negócio, não deixando que a equipe fale e mostre o que bem entende na TV. O Jornalismo da vida real não é assim. Existem anunciantes e visões políticas a serem seguidas. Tudo o que se noticia está coberto por interesses e investimentos financeiros. The Newsroom não é sincera quanto a essa dura verdade, colocando Leona como arquiinimiga por agir de acordo com a realidade e não com as utopias da profissão.

Estruturada em dez episódios de quase uma hora (duração excessiva para uma série essencialmente falada, diga-se de passagem), The Newsroom tem seu ponto alto logo no início, especialmente no episódio-piloto, We Just Decided To. Abrindo sua história com uma cena excepcional, onde Will McAvoy (Daniels) discursa sobre as razões que tiraram o posto dos Estados Unidos de “melhor” país do mundo, a série, em seus primeiros capítulos, ganha pontos por desenvolver com mais afinco a questão do Jornalismo e seus bastidores, convencendo o espectador de todas as responsabilidades que cercam essa profissão hoje tão desvalorizada no Brasil. A checagem de fontes, a escolha certa de imagens e a correria para conseguir todas as informações a tempo do âncora entrar no ar dão o tom certo ao programa, que, nesses momentos, chega a alcançar momentos empolgantes para os seus padrões.

Com a equipe envolvida e com a proposta repleta de possibilidades, é desestimulante ver que The Newsroom não é uma das séries mais interessantes da atualidade. E poderia ser. Deveria ser. Falta uma força maior no programa, que tem, em seu roteirista, uma bênção e uma maldição. Aaron Sorkin continua demonstrando domínio de todo aquele estilo  que lhe deu visibilidade, mas simplesmente não tem o talento necessário para sustentar uma história dramática de bastidores. Talvez, não seja o conjunto o grande empecilho para a série decolar. E sim o seu próprio idealizador, que deveria entregar os romances e as intrigas emocionais a outro roteirista. Quem sabe assim a série proporcione todo o interesse que merece. Atualmente, The Newsroom está em sua segunda temporada – com um terceiro ano já confirmado – e eu paro nessa primeira leva de episódios. Não por ser necessariamente ruim, mas porque existem outras opções melhor alinhadas em suas investidas para acompanhar.

PRIMEIRA TEMPORADA: [8.5] 1X01 – We Just Decidet To [7.5] 1X02 News Night 2.0 [8.0] 1X03 The 112th Congress [7.5] 1X04 I’ll Try to Fix You [7.5] 1X05 Amen [8.0] 1X06 Bullies [7.5] 1X07 5/1 [7.5] 1X08 The Blackout – Part 1: Tragedy Porn [7.5] 1X09 The Blackout – Part 2: Mock Debate [7.5] 1X10 The Greater Fool 

Três atores, três filmes… com Kamila Azevedo

kamilatresAssim como o Alex Gonçalves, do Cine Resenhas, a Kamila, do Cinéfila Por Natureza, tem um respeito especial de minha parte quando o assunto é cinema na blogosfera. Isso porque minha relação com ela não é coisa de pouco tempo. Conheci essa colega jornalista há muito tempo, e nunca deixei de acompanhar seus comentários sobre cinema ao longo de mais de seis anos (se meus cálculos não estiverem errados). Muito mais do que apreciar o estilo de texto dessa blogueira, admiro também a forma como a Kamila pondera a opinião do outro e propõe discussões sempre muito saudáveis, embasadas e respeitosas. Por isso, quando a convidei para participar do Três atores, três filmes, foi no mínimo uma honra ver esse convite aceito. Mas a honra maior veio mesmo quando ouvi dela que o Cinema e Argumento é uma de suas referências em qualidade de análises críticas. Fiquem, abaixo, então, com a lista da Kamila, que tem tudo a ver com ela!

Edward Norton (As Duas Faces de um Crime)
Acho que não é segredo para ninguém (pelo menos para osleitores habituais do Cinéfila por Natureza), que o meu ator favorito é o Edward Norton. Esse foi o primeiro filme dele que eu assisti e que marca a estreia dele como ator. Em As Duas Faces de um Crime, um drama jurídico dirigido por Gregory Hoblit, Norton interpreta um coroinha acusado de um assassinato. A forma como ele compôs a personagem é sensacional, criando Aaron como alguém livre de qualquer suspeita e que manipula diretamente os personagens em torno daquilo que ele quer. Foi uma pequena amostra do grande talento de um ator que capturou a atenção da indústria cinematográfica nessa época, e que merecia, sim, ter conquistado o Oscar 1997 de Melhor Ator Coadjuvante que acabou terminando nas mãos de Cuba Gooding Jr. (por Jerry Maguire – A Grande Virada)

Audrey Hepburn (A Princesa e o Plebeu)
Mais uma vez, vou ser redundante: acho que não é segredo para ninguém (pelo menos para os leitores habituais do Cinéfila por Natureza) a minha profunda admiração pelo ser humano e pela atriz Audrey Hepburn. Escolhi A Princesa e o Plebeu, filme dirigido por Billy Wilder, que marcou a estreia de Hepburn como atriz, porque acho que ele representa as duas características principais da carreira dela: a sorte que ela teve de trabalhar com grandes diretores e talentosos atores e a sua naturalidade diante das câmeras. A atuação de Hepburn aqui, acredito, foi fruto da naturalidade, de algo genuíno e que representava diretamente o encanto que ela causava nas pessoas. O que eu quero dizer com isso é que acho que Billy Wilder capturou aqui a própria Audrey Hepburn, e não a Princesa Ann. Minha comédia romântica favorita, passada numa cidade de paisagens cinematográficas.

Wagner Moura (Tropa de Elite)
Adoro e sou uma entusiasta do cinema nacional. Por isso mesmo quis destacar nesta seleção algum representante do nosso país, por achar que o nosso cinema vive um momento muito interessante de crescimento e de intercâmbio com outras indústrias, na medida em que temos, cada vez mais, um aumento no número de profissionais da área sendo empregados em outros países e trazendo aprendizado para o trabalho que desenvolvem aqui. Acho que Wagner Moura é o melhor ator de sua geração e, para fazer uma analogia, acredito que ele é o nosso Ricardo Darín. Capitão Nascimento é o personagem mais emblemático de sua carreira, que lhe trouxe a consagração como o maravilhoso ator que ele é. Além disso, Tropa de Elite, depois de Cidade de Deus, é o filme mais importante do cinema brasileiro nas duas últimas duas décadas, especialmente no que representou para a nossa sociedade em termos de reflexão sobre os comportamentos e os valores que são arraigados dentro da nossa rotina.

Capitão Phillips

The problem is not me talking. The problem is you not listening.

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Direção: Paul Greengrass

Roteiro: Billy Ray, baseado no livro “A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea”, de Richard Phillips (com Stephan Talty)

Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Michael Chernus, David Warshofsky, Catherine Keener, Corey Johnson, Chris Mulkey, Yul Vazquez

Captain Phillips, EUA, 2013, Ação, 134 minutos

Sinopse: Richard Phillips (Tom Hanks) é um comandante naval experiente, que aceita trabalhar com uma nova equipe na missão de entregar mercadorias e alimentos para o povo somaliano. Logo no início do trajeto, ele recebe a mensagem de que piratas têm atuado com frequência nos mares por onde devem passar. A situação não demora a se concretizar, quando dois barcos chegam perto do cargueiro, com oito somalianos armados, exigindo todo o dinheiro a bordo. Uma estratégia inicial faz com que os agressores recuem, apenas para retornar no dia seguinte. Embora Phillips utilize todos os procedimentos possíveis para dispersar os inimigos, eles conseguem subir à bordo, ameaçando a vida de todos. Quando pensa ter conseguido negociar com os piratas, o comandante é levado como refém em um pequeno bote. Começa uma longa e tensa negociação entre os sequestradores e os serviços especiais americanos, para tentar salvar o capitão antes que seja tarde.

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A projeção internacional do diretor Paul Greengrass veio quando ele assumiu a série Bourne, mas são poucos os que costumam se referir ao britânico pelo trabalho que realmente lhe firmou como um nome confiável: Voo United 93, que chegou a render a Greengrass uma indicação ao Oscar de melhor direção.  Neste filme de 2007, ele mostrava o sequestro do avião-título, que, tomado por terroristas, caiu em Shanksville, Pennsylvania, no fatídico 11 de setembro. Essa história verídica narrada por Greengrass é bastante parecida, agora, com a de Capitão Phillips, uma espécie de Voo United 93 em pleno oceano. Além de ser uma história de sequestro (no caso o de um navio estadunidense refém de piratas somalianos), as semelhanças estão no próprio estilo do diretor, que continua intacto: tensão do início ao fim, câmera na mão e uma agilidade que poucos realizadores conseguem emular.

Não há dúvidas: Capitão Phillips é um legítimo Paul Greengrass. E é até estranho que todo o buzz em relação ao filme tenha sido – pelo menos até agora – apenas em função de Tom Hanks, já cotado para concorrer na próxima temporada de premiações por seu desempenho aqui. Isso porque Capitão Phillips está longe de ser um filme entregue exclusivamente ao desempenho do protagonista e porque o resultado tem outros aspectos tão interessantes quanto a presença de Hanks. É bem provável que este longa não cause tanto impacto em futuras revisões, uma vez que, descobertas as resoluções, o conjunto não reserva grandes surpresas para serem revisitadas. Mas embarcar nessa primeira jornada é gratificante: são mais de duas horas de pura agonia, seja em função da trama em si ou da forma como ela é conduzida por Greengrass.

O diálogo com a realidade, marca já registrada do diretor (e que influenciou toda uma geração dos filmes de ação depois de Bourne), é o que impulsiona Capitão Phillips, cujo resultado é completamente crível e sem aquelas soluções fantasiosas que volta e meia encontramos no cinema. A hábil montagem de Christopher Rouse e a câmera de Greengrass ampliam o notável realismo do longa, que ganha ainda um lado muito humano com a interpretação de Tom Hanks. Sem realmente atuar desde sabe-se lá quando, o ator surge realmente empenhado como há muito não se via, conquistando a torcida do espectador e aproveitando cada segundo de todas as passagens, incluindo aquelas que foram claramente realizadas apenas para que ele pudesse brilhar – como a sequência final, por exemplo. Mesmo não sendo pontualmente um filme de atuação, Capitão Phillips traz uma valiosa oportunidade para Hanks.

Nem tudo, porém, surpreende, já que Capitão Phillips tem algumas reservas pontuais. Não é interessante, particularmente, a forma como o roteiro de Billy Ray, baseado no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea, do próprio Richard Phillips, precisa verbalizar uma humanização do vilão que já tínhamos como deduzir. É no mínimo dispensável o discurso motivacional do protagonista que tenta, de certa forma, esmiuçar o outro lado de toda a criminalidade do pirata somaliano e apresentar razões que já tinham sido discretamente pontuadas anteriormente. Ainda é bom não dar muita atenção ao previsível cumprimento de todas as etapas típicas de filmes de resgate. Entretanto, por mais que Capitão Phillips não figure entre os trabalhos mais originais de Paul Greengrass, consegue ser outro exemplar do diretor que prende a atenção do início ao fim com um notável nervosismo – o que, convenhamos, está cada vez mais difícil de encontrar nos dias de hoje.

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