Cinema e Argumento

O Mordomo da Casa Branca

Darkness cannot drive out darkness. Only light can do that.

butlerposter

Direção: Lee Daniels

Roteiro: Danny Strong, baseado no artigo “A Butler Well Served by This Election”, de Wil Haygood

Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, John Cusack, Jane Fonda, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard, Lenny Kravitz, James Marsden, Vanessa Redgrave, Alan Rickman, Liev Schreiber, Robin Williams, David Oyelowo

Lee Daniels’ The Butler, EUA, 2013, Drama, 132 minutos

Sinopse: 1926, Macon, Estados Unidos. O jovem Cecil Gaines vê seu pai ser morto sem piedade por Thomas Westfall (Alex Pettyfer), após estuprar a mãe do garoto. Percebendo o desespero do jovem e a gravidade do ato do filho, Annabeth Westfall (Vanessa Redgrave) decide transformá-lo em um criado de casa, ensinando-lhe boas maneiras e como servir os convidados. Cecil (Forest Whitaker) cresce e passa a trabalhar em um hotel ao deixar a fazenda onde cresceu. Sua vida dá uma grande guinada quando tem a oportunidade de trabalhar na Casa Branca, servindo o presidente do país, políticos e convidados que vão ao local. Entretanto, as exigências do trabalho causam problemas com Gloria (Oprah Winfrey), a esposa de Cecil, e também com seu filho Louis (David Oyelowo), que não aceita a passividade do pai diante dos maus tratos recebidos pelos negros nos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

O diretor Lee Daniels conseguiu enganar meio mundo quando estourou com Preciosa – Uma História de Esperança. E me incluo no grupo dos enganados, já que, ainda hoje, tenho boas lembranças do filme estrelado por Gabourey Sidibe. Depois de Preciosa, no entanto, Daniels se mostrou irremediavelmente ruim. Aqui no Brasil, por exemplo, ele chegou aos cinemas com dois longas bastante insatisfatórios em 2013. O primeiro foi Obsessão, que se perdia em diversos fetiches de seu realizador e narrava mil histórias ao mesmo tempo sem se aprofundar em nada. O segundo foi esse O Mordomo da Casa Branca, que, mesmo tendo razões de sobra para justificar plenamente seu sucesso de 116 milhões de dólares nas bilheterias estadunidenses, é mais um trabalho falho do diretor, com um roteiro muito mal estruturado, enorme desperdício de elenco e uma história apoiada nos mais ultrapassados esquemas utilizados em biografias.

O Mordomo da Casa Branca era para ser, em teoria, o relato da vida de Cecil Gaines (Forest Whitaker), personagem inspirado na história real de Eugene Allen, mordomo negro que serviu diversos presidentes na Casa Branca entre 1952 e 1986. Porém, o roteiro escrito por Danny Strong, baseado no artigo A Butler Well Served by This Election, de Wil Haygood, inexplicavelmente abandona os dramas do protagonista quase em tempo integral para colocar a luta dos negros contra o racismo no século XX como norte da trama. O resultado é um filme extremamente irregular em sua narrativa, já que o texto ora oscila entre os rasos questionamentos de Gaines e o excessivo foco documental nos fatos politico-sociais do espaço e tempo recortados pelo roteiro. E ver um texto tão mal desenvolvido com a assinatura de Danny Strong é especialmente decepcionante, pois ele já foi responsável por exemplares roteiros políticos e biográficos para a TV, sendo Virada no Jogo, da HBO, seu exemplar mais recente nesse sentido.

Se a parte envolvendo a luta dos negros até tem seu valor histórico – o que reforça a ideia de que O Mordomo da Casa Branca seria mais relevante como documentário -, os momentos envolvendo a vida pessoal do protagonista desapontam profundamente. Começamos pela essência de Cecil Gaines, que por si só já praticamente anula as chances do filme de ter algum conflito: ele é um homem íntegro, batalhador e vencedor, que não faz mal a ninguém e que sempre foi vítima das circunstâncias injustas da vida. Nesse sentido, a escalada desse homem quase sem defeitos de garoto escravo em fazendas de algodão a homem de confiança da Casa Branca não é sentida, pois em menos de meia hora Cecil percorreu toda sua trajetória e já chegou no ponto em que conquista todas as pessoas e a atenção de presidentes. A presença de sua esposa, vivida por Oprah Winfrey (desde 1998, com Bem-Amada, ela não atuava em um filme), também não diz muita coisa, já que Gloria é, assim como seu marido, basicamente unidimensional – e a investida do roteiro em citar uma possível traição dela com o amigo vivido por Terrence Howard é jogada na trama com muito descaso.   

Com tudo isso, O Mordomo da Casa Branca perde seu ritmo por completo. São mais de duas horas aborrecidas onde a maior diversão é procurar os milhares de rostos conhecidos que integram o elenco. E a missão é longa, já que poucas vezes nos últimos vimos um elenco tão extenso e eclético em um mesmo filme. Só que a péssima notícia é que a brincadeira termina mesmo nesse “Onde está Wally?”, pois nenhum dos atores faz sequer algo especial. Não é culpa deles: o roteiro simplesmente não dá espaço para que veteranos como Alan Rickman, Jane Fonda e Vanessa Redgrave explorem qualquer dimensão em seus papeis. São apenas nomes em um cartaz para atrair público. Já Whitaker e Winfrey, protagonistas da história, não passam do velho samba de uma nota só. Ele, no piloto-automático, prova que seu Oscar por O Último Rei da Escócia foi justo sim, pois lá ele fazia muito bem um papel completamente atípico para sua carreira: forte, misterioso e perigoso – e não indefeso e inocente, quase abobado, como costuma representar. Oprah também não se impõe na tela, seja por sua interpretação ou pelo material que lhe é dado. E percebam que até mesmo nos momentos dramáticos a câmera foca abruptamente em seu rosto já encharcado de lágrimas, sem sequer acompanhar a origem e a evolução dos choros.

Se existe um consolo em O Mordomo da Casa Branca é que ele termina como o filme menos afetado de toda a carreira de Lee Daniels. Aliás, talvez o diretor nunca tenha sido tão quadrado e domesticado. Essa deve ter sido a principal razão para o filme ter sido um verdadeiro sucesso de bilheteria lá fora. Os estadunidenses adoram uma história esquemática, biográfica e, acima de tudo, patriótica. Até porque O Mordomo da Casa Branca faz de tudo para mostrar como o país “venceu” o racismo, chegando a mostrar inclusive a era Barack Obama. E Lee Daniels não poupa esforços para melodramatizar esse momento, com direito até ao protagonista já envelhecido e cheio de maquiagem se emocionando com essa eleição que significa tanto para seus semelhantes após anos de injustiça. Dessa forma, é mais um longa que, assim como Histórias Cruzadas, mostra as barbaridades sociais sofridas pelos negros, mas que também faz questão de forçar todo o drama possível para indicar que, apesar dos erros, os Estados Unidos e seu povo “consertam” os erros. E como questionar esse sucesso financeiro se a história ainda é encabeçada por uma espécia de Forrest Gump negro que acompanha diversos fatos históricos do país? Mas falta Tom Hanks. E Roberts Zemeckis. Aliás, faltam muitas coisas. Quem sabe na próxima vez, Lee Daniels…

FILME: 5.0

2*

Os indicados ao BAFTA 2014

bafta

Foram divulgados, nesta madrugada, os indicados ao BAFTA 2014. Distinção máxima do cinema britânico, a premiação é a última parada da temporada de premiações antes das cerimônias começarem a revelar seus vencedores. Bairrista mas frequentemente justo (foi nela que Philip Glass ganhou por As Horas e Colin Firth por Direito de Amar, por exemplo), o BAFTA deste ano, no entanto, não teve grandes surpresas. Quem lidera a lista é Gravidade, de Alfonso Cuarón, com 11 indicações, e os vencedores serão conhecidos no dia 16 de fevereiro.

O que mais chamou a atenção foi a ausência de Meryl Streep em melhor atriz por Álbum de Família (Julia Roberts conseguiu ficar entre as finalistas de coadjuvante), a inclusão de Behind the Candelabra em várias categorias (o filme foi exibido na TV em terras estadunidenses, mas ganhou espaço nas telas de cinema do Reino Unido), o reajuste em algumas categorias com a ausência de Dallas Buyers Club (o filme só será exibido no Reino Unido a partir de fevereiro) e, em menor escala, um carinho além do esperado para Walt nos Bastidores de Mary Poppins. Abaixo, a lista de indicados.

MELHOR FILME

12 Anos de Escravidão
Trapaça
Capitão Phillips
Gravidade
Philomena

MELHOR DIREÇÃO

Alfonso Cuarón (Gravidade)
David O. Russell (Trapaça)
Martin Scorsese (O Lobo de Wall Street)
Paul Greengrass (Capitão Phillips)
Steve McQueen (12 Anos de Escravidão)

MELHOR ATOR

Bruce Dern (Nebraska)
Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão)
Christian Bale (Trapaça)
Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street)
Tom Hanks (Capitão Phillips)

MELHOR ATRIZ

Amy Adams (Trapaça)
Cate Blanchett (Blue Jasmine)
Emma Thompson (Walt nos Bastidores de Mary Poppins)
Judi Dench (Philomena)
Sandra Bullock (Gravidade)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Barkhad Abdi (Capitão Phillips)
Bradley Cooper (Trapaça)
Daniel Brühl (Rush – No Limite da Emoção)
Matt Damon (Behind the Candelabra)
Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Jennifer Lawrence (Trapaça)
Julia Roberts (Álbum de Família)
Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão)
Oprah Winfrey (O Mordomo da Casa Branca)
Sally Hawkins (Blue Jasmine)

MELHOR FILME BRITÂNICO

Gravidade
Mandela – Long Walk to Freedom
Philomena
Rush – No Limite da Emoção
Walt nos Bastidores de Mary Poppins
The Selfish Giant

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

O Ato de Matar (Dinamarca)
Azul é a Cor Mais Quente (França)
A Grande Beleza (Itália)
Metro Manila (Filipinas)
O Sonho de Wadjda (Arábia Saudita)

MELHOR ANIMAÇÃO

Meu Malvado Favorito 2
Frozen – Uma Aventura Congelante
Universidade Monstros

MELHOR DOCUMENTÁRIO

O Ato de Matar
The Armstrong Lie
Blackfish
Tim’s Vermeer
We Steal Secrets: The Story of Wikileaks

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Blue Jasmine
Gravidade
Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum
Nebraska
Trapaça

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

12 Anos de Escravidão
Behind the Candelabra
Capitão Phillips
Philomena
O Lobo de Wall Street

MELHOR TRILHA SONORA

12 Anos de Escravidão
A Menina que Roubava Livros
Capitão Phillips
Gravidade
Walt nos Bastidores de Mary Poppins

MELHOR FOTOGRAFIA

12 Anos de Escravidão
Capitão Phillips
Gravidade
Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum
Nebraska

MELHOR MONTAGEM

12 Anos de Escravidão
Capitão Phillips
Gravidade
Rush – No Limite da Emoção
O Lobo de Wall Street

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

12 Anos de Escravidão
Behind the Candelabra
Trapaça
Gravidade
O Grande Gatsby

MELHOR FIGURINO

Trapaça
Behind the Candelabra
O Grande Gatsby
The Invisible Woman
Walt nos Bastidores de Mary Poppins

MELHOR SOM

All is Lost
Capitão Phillips
Gravidade
Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum
Rush – No Limite da Emoção

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Além da Escuridão – Star Trek
Círculo de Fogo
Gravidade

O Hobbit – A Desolação de Smaug
Homem de Ferro 3

MELHOR MAQUIAGEM

Behind the Candelabra
O Grande Gatsby
O Hobbit – A Desolação de Smaug
O Mordomo da Casa Branca
Trapaça

BAFTA RISING STAR (voto do público)

Dane DeHaan
George Mackay
Léa Seydoux
Lupita Nyong’o
Will Poulter

O som das trilhas (e as melhores composições de 2013)

No último post de 2013 aqui do blog, comentei que estava um tanto afastado do tempo que considero essencial para ver um filme e escrever sobre ele. Pois no ano que passou também me distanciei – por razões mencionadas naquele post – de outra grande paixão minha: as trilhas sonoras. Não deixei de ouvi-las, mas nunca mais tinha dado o devido destaque a elas aqui no blog (a última postagem sobre trilhas foi em abril!). Pois, então, chegou a hora de começar a reparar esse erro. Mãos à obra!

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scoreprisoners

Composta pelo islandês Jóhann Jóhannsson, esta trilha sonora é mais um dos tantos fatores exemplares de Os Suspeitos. Impressionante como Jóhansson cria um álbum extremamente discreto mas eficiente para envolver o espectador no suspense do filme de Denis Villeneuve. A transição entre melodias dramáticas e nervosas dá o tom certo para o longa, que, sem dúvida, se torna muito mais intrigante com o trabalho de Jóhannsson. É realmente um álbum imersivo e diferente do que estamos acostumados a ouvir em produções do gênero – o que também vai ao encontro da própria discografia do compositor, reconhecida por essa mistura de melancolia e assombramento. Desde já, um nome para se atentar sempre.

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scorerushRush – No Limite da Emoção não teria a mesma adrenalina e a mesma dinâmica sem a excelente trilha sonora do mestre Hans Zimmer. Bastante contemporânea mas nunca abandonando sonoridades marcantes do compositor, é o caso onde o álbum consegue dar conta de todos os momentos da trama roteirizada por Peter Morgan e ainda deixar um tema ecoando na mente do espectador. A composição Lost but Won é o ponto alto do álbum, sintetizando muito bem o tom do filme de Ron Howard. Seu trabalho mais recente para o oscarizável 12 Anos de Escravidão deve receber mais confetes, mas Hans Zimmer também merece créditos por Rush.
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scoregravityMais uma trilha do ano passado que preza pela sutileza para imergir o espectador em um determinado universo. Sim, Gravidade é um filme grandioso, mas o trabalho de Steven Price (em sua primeira grande trilha depois de anos como editor musical de filmes a trilogia O Senhor dos Anéis) não tem nada de explosivo ou megalomaníaco. Ótimas composições como Shenzou precisam subir (maravilhosamente bem) o tom para acompanhar as consequências da história, mas, no geral, a trilha de Gravidade ganha pela simplicidade. Merecidamente, tem tudo para figurar em todas as listas de melhores trilhas da temporada de premiações.
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scorebeastsÉ do diretor Benh Zeitlin, em parceria com Dan Romer, a trilha de Indomável Sonhadora. Não sou entusiasta do filme, mas certamente o trabalho realizado pela dupla é um dos melhores destaques do projeto (junto, claro, com a presença da pequena Quvenzhané Wallis). O álbum chama a atenção pela inventividade e pela diversidade de sonoridades. Impossível não se entusiasmar ao ouvir e reconhecer a força do resultado, que tem tudo a ver com o universo realista mas também fantasioso do filme de Zeitlin. Infelizmente, poucos prestaram atenção nesta rilha, que, ao longo de 14 composições originais, nunca perde o fôlego e a capacidade de surpreender.
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scoremidnightFoi acertada a decisão do diretor Richard Linklater de tornar a trilha sonora um aspecto mais presente na história de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy). Em Antes da Meia-Noite, o piano de Graham Reynolds traz uma melancolia totalmente necessária para o último (?) capítulo deste drama romântico. Chama a atenção a forma como até mesmo composições mais “alegres” possuem algo de agridoce, o que só comprova a total compreensão do compositor em relação ao que Jesse e Celine se tornaram depois de tantos anos. Mesmo que breve e, por algumas vezes, repetitiva, a trilha funciona justamente por ser mais um ingrediente emocional deste que é um dos romances mais marcantes dos últimos anos.
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scoremasterÉ novamente bem sucedida a parceria do diretor Paul Thomas Anderson com Jonny Greeenwood, o guitarrista da banda Radiohead. Se, em Sangue Negro, Greenwood já havia se firmado como um compositor inovador, em O Mestre ele reafirma esse seu talento para realizar trilhas que não são nada convencionais. Mas é muito claro: esse álbum, assim como o próprio filme de Anderson, é estupendo, mas difícil. O adjetivo “assombroso” também cabe a essa trilha, que, sim, chega a ser incômoda (não em um mau sentido), mas também quase hipnotizante. Destaque para Overtones, faixa de abertura e que é o tema desse subestimado longa-metragem.
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scorerarasEspero que todos fiquem de olho na trilha de Flores Raras, que, sem dúvida, é uma das mais marcantes do ano – e, possivelmente, a melhor já realizada pelo brasileiro Marcelo Zarvos. Sensível e sutil, casa perfeitamente com a narrativa do filme de Bruno Barreto, pontuando perfeitamente todas as transições e evoluções do relacionamento de Lota (Glória) e Elizabeth Bishop (Miranda Otto). Composições como The Art of Losing mostram que Flores Raras ganha um charme extra com essa trilha surpreendente, que ainda é uma prova de como a música, em qualquer obra audiovisual, pode – e deve – ser decisiva na cadência de uma história.

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Ainda em tempo, as melhores composições de 2013:

Alexandre Desplat – “Le Lac” (Ferrugem e Osso)

Behn Zeitlin & Dan Romer – “Once There Was a Hushpuppy” (Indomável Sonhadora)

Clint Mansell – “Happy Birthday (A Death in the Family)” (Segredos de Sangue)

Clint Mansell – “Becoming…” (Segredos de Sangue)

Dario Marianelli – “Dance With Me” (Anna Karenina)

Graham Reynolds – “The Best Summer of My Life” (Antes da Meia-Noite)

Hans Zimmer – “Lost but Won” (Rush – No Limite da Emoção)

Hans Zimmer – “What Are You Going to Do When You’re Not Saving the World?” (O Homem de Aço)

Jonny Greenwood – “Overtones” (O Mestre)

Marcelo Zarvos – “The Art of Losing” (Flores Raras)

Mike Patton – “The Snow Angel” (O Lugar Onde Tudo Termina)

Philip Glass – “Duet” (Segredos de Sangue)

Steven Price – “Shenzou” (Gravidade)

Os piores filmes de 2013

A ordem para 2013 foi a mesma de 2012: tentar evitar qualquer filme que, para o meu gosto pessoal, parecesse uma bomba. Sofri menos no cinema durante o ano que passou, mas isso não quer dizer que me isentei de péssimas experiências. A lista que segue abaixo (dez filmes, em ordem alfabética) não tem, por exemplo, Até Que a Sorte nos Separe 2 ou Crô – O Filme (só um verdadeiro milagre para eu conferir e aprovar esses títulos, por exemplo) e sim produções que me decepcionaram profundamente e que poderiam ter sido muito, muito melhores – seja pela equipe envolvida ou pela proposta. No final do post, queremos a opinião de vocês na nossa enquete! Vamos, então, ao lado ruim de 2013…

pasajeros

Não é em função de A Pele Que Habito ter sido sensacional que OS AMANTES PASSAGEIROS decepciona. Independente de comparações, essa é uma comédia muito sem graça. Não sei o que Pedro Almodóvar quis com um longa excessivamente afetado e com pouco a dizer. É um desperdício de elenco e, principalmente, de uma ótima ideia. Não bastasse o constante histrionismo, Os Amantes Passageiros ainda descamba, em certo ponto, para um apelo sexual super desnecessário. Difícil acreditar que esse é um filme de um cineasta tão cuidadoso. Certamente, um dos piores longas do espanhol.

bigwedding

Tenho muita vontade de abraçar Susan Sarandon, Robert De Niro e Diane Keaton. Não só porque eles são ótimos atores mas porque, nos últimos anos, quase não tiveram papeis a sua altura. Só que isso não é desculpa para eles aceitarem vergonhas como O CASAMENTO DO ANO. De início, parece uma comédia bobinha e descompromissada, mas logo o filme de Justin Zackham aposta em vômitos, sexo, nudez e agressões físicas para fazer graça. Humor pobre, ausência de coerência narrativa e um elenco simplesmente perdido no meio da bagunça. Que lástima!

donjon

No cinema, Joseph Gordon-Levitt deixou de ser o jovem queridinho e simpático de filmes como (500) Dias Com Ela para virar um pegador com tanquinho que só se envolve com mulheres do tipo Scarlett Johansson. Não colou. Muito menos seu esse seu debut como diretor e roteirista de longas chamado COMO NÃO PERDER ESSA MULHER. O pior é que o filme não chega nem a ofender (e olha que seria muito fácil, já que é sobre um jovem viciado em pornografia), mas simplesmente o resultado não tem graça. A história vazia e sem qualquer inventividade tenta ser contemporânea e dialogar com certo público, mas o longa é frequentemente batido e muito limitado em seus conceitos (o protagonista é categórico: todos os homens se masturbam diariamente vendo pornografia).

improtta

Dirigido por José Wilker, GIOVANNI IMPROTTA foi o pontapé inicial para essa série de filmes protagonizados por personagens de novela da Globo que tem tudo para tomar conta dos cinemas nos próximos anos. Não vi Crô – O Filme – e nem pretendo -, já que Giovanni Improtta foi o suficiente para acabar com qualquer (mínima) esperança que eu tinha. Ora, o personagem vivido por Wilker em Senhora do Destino era divertido e um dos mais icônicos da carreira recente do ator, mas a versão cinematográfica não tem um fiapo de história. Uma experiência monótona, vazia e desnecessária.

mansteel

Um dos blockbusters mais promissores do ano, O HOMEM DE AÇO também foi um dos mais decepcionantes. O trailer era impecável, vários fatores contribuíram para dar certo (Amy Adams! Hans Zimmer!) e tudo acusava que o herói finalmente teria um filme à altura. Nada disso. O diretor Zack Snyder trouxe o que existe de pior nos blockbusters contemporâneos: ou seja, efeitos visuais em demasia, interpretações caricatas (alô, Michael Shannon!) e muito, muito barulho… Desde Transformers não saía de uma sessão com tanta dor de cabeça.

mama

Meu maior susto em relação a esse MAMA foi ver tantas pessoas elogiando e dizendo que saíram amedrontadas do cinema. Para ser bem sincero, eu ri bastante durante o filme. Não sei o que viram nesse terror super previsível que ainda comete o terrível erro de dar um rosto ao mistério: no caso, o tal bicho Mama do título, que parece um personagem saído de um jogo de videogame. Além de não saber que é sempre melhor insinuar o medo do que de fato explicitá-lo, o longa tem personagens caricatos e uma Jessica Chastain que não sabe o que fazer de tão deslocada que está.

Teria sido bem mais proveitoso se o diretor Lee Daniels tivesse feito um documentário sobre a trajetória dos negros no século XX do que esse O MORDOMO DA CASA BRANCA. Isso porque o novo longa do diretor começa contando a história de Cecil (Forest Whitaker) para depois se focar quase que exclusivamente na luta dos negros por um lugar digno na sociedade estadunidense. Mas a dramaturgia transborda obviedades e o desperdício de elenco chega a ser absurdo. Nem mesmo Whitaker e Oprah Winfey (que sabe-se lá porque já foi dada como favorita ao Oscar) apresentam algo de especial nesse longa bastante sonolento.

paperboy

Se em O Mordomo da Casa Branca Lee Daniels pecou pelo excesso de didatismo e pela falta de inventividades, em OBSESSÃO ele se perdeu justamente ao soltar na tela todas as suas loucuras. Mais preocupado em contemplar o corpo descamisado de Zac Efron e em explorar seus fetiches, o diretor conta milhares de histórias e não consegue se aprofundar em nenhuma. Impossível explicar sobre o que é Obsessão de forma objetiva. De válido mesmo só o deslumbre de Nicole Kidman, que é o ponto alto de um longa disléxico, perdido e prejudicado pelos cacoetes de seu realizador.

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Não quero acreditar que o humor de Kate Winslet, Naomi Watts e Hugh Jackman seja tão pavoroso assim para eles terem aprovado o roteiro de PARA MAIORES. Alguém chantageou cada um deles, só pode. Coletânea de curtas de extremo mau gosto, o filme traz um elenco repleto de estrelas em situações sexuais constrangedoras. Só o primeiro curta em que o personagem de Jackman tem testículos no pescoço já dá vontade de se contorcer na poltrona de tanta vergonha. Aguentar a sucessão de bobagens e piadas descabidas é para os fortes.

taojovens

Em um ano tão forte para o cinema nacional, é uma pena que a biografia de um dos maiores ícones da musica de nosso país tenha sido tão superficial. Pois é, SOMOS TÃO JOVENS desaponta por ser incrivelmente raso e amador. A ideia de contar a vida de Renato Russo antes da fama foge do convencional, mas o filme é cheio de maneirismos e clichês, com personagens que beiram o irritante. Todos os conflitos de Somos Tão Jovens desaparecem rapidamente (o descaso com a homossexualidade de Renato é gritante) e as referências musicais e culturais surgem gratuitamente como mera panfletagem. O músico merecia mais.

Adeus, 2013! (e as melhores cenas do ano)

Preciso fazer uma confissão: em 2013, estive mais distante do cinema em termos de leitura e escrita. Talvez isso não se reflita tanto aqui no blog, que continuou na ativa, mas, nos bastidores, a história foi bem diferente. Em 2013, não tive o tempo que tanto aprecio para pensar, escrever e revisar um texto.

Na maioria das vezes, escrevia em um dia e publicava no outro. Dessa forma, cambaleei e, sinceramente, pensei em desistir do Cinema e Argumento por tempo indeterminado. Não consegui. Amo demais isso aqui para simplesmente abandonar tudo depois de seis anos de história.

Só que essa situação toda se instalou porque 2013 foi, possivelmente, o ano mais movimentado de toda a minha vida. Por isso, me perdi no meio de tantas séries e não assisti a tantos filmes quanto gostaria. Mas a vida chamava, e eu tinha que atender. Profissionalmente e pessoalmente, foi um ano de mudanças. Radicais mesmo, sem exageros, em todas as instâncias. Algumas demandando tempo, outras, o meu coração e a minha força de espírito.

Foi cansativo, mas estou orgulhoso de tudo que alcancei no ano que passou. Por isso, que venha 2014! Um feliz ano novo a todos, repleto de felicidades e sonhos realizados! Fiquem, por enquanto, com as minhas cenas favoritas do ano. Um abraço a todos e obrigado pela companhia!

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Stéphanie (Marion Cotillard) relembra seus tempos de treinadora ao som de “Firework”, em Ferrugem e Osso

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Elizabeth Bishop (Miranda Otto) lê “Uma Arte” na última cena de Flores Raras

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A abertura de Indomável Sonhadora

lesmisscene

Fantine (Anne Hathaway) canta “I Dreamed a Dream” em Os Miseráveis

midnightscene

O pôr-do-sol em Antes da Meia-Noite

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A primeira sessão de Freddie (Joaquin Phoenix) e Lancaster (Philip Seymour Hoffman) em O Mestre

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Ryan (Sandra Bullock) tenta chegar à Terra no final de Gravidade

phillipsscene

Phillips (Tom Hanks) é examinado por médicos em Capitão Phillips

As franquezas de Violet (Meryl Streep) no primeiro jantar de Álbum de Família

tatuagemscene

Clécio (Irandhir Santos) canta “Esse Cara” em Tatuagem